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Sabemos que o tabagismo reduz a expectativa de vida em cerca de dez anos e é a principal causa de morte prematura evitável em boa parte dos países. O fato é que grande parte dos tabagistas assume que gostaria de parar com o vício, mas anualmente apenas 2-3% consegue vencer o desafio.
Alguns estudos já haviam testado incentivo em dinheiro para que a pessoa pare de fumar e os resultados foram inconsistentes a longo prazo, talvez devido ao fato do incentivo e o número de voluntários não terem sido robustos o suficiente. Um novo estudo recém-publicado pelo periódico New England Journal of Medicine reavaliou o efeito dessa recompensa em dinheiro, desta vez com quase 900 participantes e uma recompensa de 750 dólares caso o indivíduo conseguisse ficar sem o cigarro por seis meses. Todos os participantes receberam informação sobre programas disponíveis para auxiliá-los a largar o cigarro e só metade deles receberam a proposta de recompensa em dinheiro.
Após 9-12 meses, aqueles que receberam a recompensa em dinheiro tiveram três vezes mais sucesso em ficar sem fumar (14.7%) do que aqueles que não receberam (5%) e após 15-18 meses o sucesso também foi três vezes maior. A recompensa em dinheiro aumentou também em três vezes a procura por um programa de apoio anti-tabagista.
Os resultados dessa pesquisa provocam importantes reflexões. A primeira delas é o quanto uma empresa ou um país pode economizar com políticas como essa. O presente estudo foi realizado com empregados da multinacional General Eletric. Calcula-se que uma empresa economiza 3700 dólares por ano quando um funcionário para de fumar, especialmente por redução do absenteísmo e incidência de doenças. Pelos resultados obtidos, a empresa precisaria investir em 7 indivíduos para conseguir um caso de sucesso, e desse ponto de vista, a estratégia é promissora. Outra questão é se as operadoras de saúde poderiam começar a oferecer descontos àqueles que parassem de fumar. Uma das fortes limitações desse tipo de estratégia é que pode haver incentivo para que não fumantes comecem a fumar para receberem o benefício.
O derrame cerebral já é uma das principais causas de morte em todo o mundo e a situação deve se agravar mais ainda com o crescente envelhecimento da população. A boa notícia é que a grande maioria dos casos de derrame cerebral é causada por doenças dos vasos sanguíneos (ex: aterosclerose) que podem ser prevenidas com hábitos de vida saudáveis.
Um estudo publicado na última edição do British Medical Journal acompanhou mais de 20 mil ingleses por cerca de 11 anos e demonstrou que a combinação de quatro atitudes saudáveis é capaz de reduzir pela metade o risco de derrame cerebral: 1) não fumar; 2) atividade física regular; 3) consumo diário de frutas e verduras; 4) consumo moderado de álcool (até 14 unidades por semana).
* Uma unidade de álcool corresponde a cerca de 8g de álcool = 1 pequena taça de 80 ml de vinho = 200ml de cerveja.
O bom é que essa é a mesma receita de sucesso para a prevenção do infarto do coração e de diversos tipos de câncer, especialmente os três primeiros itens.
Pesquisadores alemães foram capazes de demonstrar em humanos aquilo que já era certo em modelos animais: uma dieta com restrição calórica é capaz de melhorar o funcionamento cerebral. Uma redução de 30% na ingesta calórica de indivíduos com média de idade de 60.5 anos por um período de três meses levou a uma melhora significativa nos testes de memória verbal, uma das funções cerebrais que os idosos mais costumam se queixar. Um recente estudo epidemiológico já havia revelado que um dos importantes fatores para a grande longevidade dos habitantes de Okinawa no Japão era o costume de restrição calórica desse povo. Tivemos agora a primeira evidência experimental em humanos de que restrição calórica é capaz de melhorar a memória em idosos.
Explicações para esse benefício da restrição calórica incluem uma melhor ação da insulina e conseqüentemente do aproveitamento da glicose pelo cérebro e redução do estado inflamatório do corpo. Essas hipóteses são concordantes com o fato de que a melhoria dos testes de memória no presente estudo foi acompanhada de redução dos níveis de insulina e de proteína C-reativa de alta sensibilidade no sangue. O estudo foi publicado recentemente na revista Proceedings of the National Academy of Sciences.
Clique aquí se quiser ler o artigo na íntegra (em inglês).
Algumas pessoas vivem cercadas de amigos enquanto outras vivem mais isoladas. Algumas pessoas vivem em círculos sociais bem fechados onde todo mundo conhece todo mundo, enquanto outras transitam em diversos círculos sociais onde um grupo não tem o mínimo conhecimento do outro. Há algum tempo pesquisadores têm buscado explicar essas diferenças e um novo estudo publicado recentemente pela respeitada revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences confirma o que para muitos não tem nada de surpresa: o perfil genético de um indivíduo influencia a formação de sua rede social.
Pesquisadores americanos compararam as redes sociais de mais de mil adolescentes gêmeos, idênticos e não idênticos, e demonstraram que a semelhança de popularidade entre os gêmeos idênticos foi bem maior que no caso dos gêmeos não idênticos. O termo popularidade nesse caso refletiu o número de vezes que um indivíduo foi reconhecido como amigo pelos outros, a chance desses amigos conhecerem uns aos outros, e a chance de estar no centro de uma rede social.
O sucesso da espécie humana depende de sua capacidade em fazer relações sociais e por isso a popularidade é vista como uma vantagem evolutiva. Indivíduos no centro da rede têm mais acesso à informação, e no caso dos nossos ancestrais, essa informação poderia ser, por exemplo, o local de uma nova fonte de alimento. Entender melhor como funciona as redes sociais permite-nos entender também como elas podem influenciar importantes problemas de saúde pública, área recente do conhecimento chamada de epidemiologia social. Os mesmos pesquisadores desse estudo deram importantes passos nesses últimos dois anos demonstrando que a rede social de um indivíduo tem impacto na sua oportunidade de parar de fumar, de manter-se com o peso ideal e ainda é capaz de influenciar a sua chance de se perceber feliz.
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Para quem não sabe ou esqueceu, a Dieta Mediterrânea é uma alimentação rica em peixes, verduras, legumes, frutas, cereais (melhor se forem integrais), azeite e outras fontes de ácidos graxos insaturados, e baixo consumo de carnes e laticínios e outras fontes de gorduras saturadas, além do uso moderado, porém regular, de álcool.
Recentes estudos evidenciaram que a Dieta Mediterrânea além de reduzir o risco de doenças cardiovasculares também está associada à redução do risco de Doença de Alzheimer. Os mecanismos protetores da Dieta Mediterrânea sobre o cérebro vão desde a prevenção de doença vascular cerebral a efeitos antioxidantes e anti-inflamatórios.
Uma pessoa que desenvolve a Doença de Alzheimer não perde suas funções cerebrais de um dia pra o outro, e reconhece-se que o declínio pode começar até 12 anos antes do diagnóstico. Essa é uma doença progressiva, e entre o estado de normalidade e seu diagnóstico, as pessoas passam por um estágio intermediário chamado de Transtorno Cognitivo Leve. O fato é que nem todas as pessoas que apresentam Transtorno Cognitivo Leve evoluirão para a Doença de Alzheimer e a ciência tem investido muito para encontrar estratégias que sejam capazes de frear a progressão da doença. Uma pesquisa recém-publicada no Archives of Neurology revela que a Dieta Mediterrânea, além de ser capaz de reduzir o risco de desenvolver o Transtorno Cognitivo Leve, é capaz também de reduzir sua chance de evoluir para a Doença de Alzheimer.
Esse efeito protetor já havia sido demonstrado isoladamente entre diferentes componentes da Dieta Mediterrânea, como o consumo moderado de álcool, peixes e ácidos graxos insaturados. Se individualmente esses alimentos já são capazes de proteger nosso cérebro, imagine então a combinação de vários deles.
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Estudos têm demonstrado que o excesso de trabalho está associado a reações do sistema endocrinológico e imunológico, alteração no padrão do sono, fadiga, depressão, hábitos de vida deletérios à saúde e aumento do risco de doenças cardiovasculares. Uma nova pesquisa recém-publicada pelo American Journal of Epidemiology demonstrou que pessoas que trabalham até 40 horas por semana têm um desempenho cognitivo melhor do que aquelas que trabalham mais de 55 horas.
Mais de dois mil voluntários ingleses com média de idade de 51 anos foram acompanhados por cinco anos. Quanto mais horas de trabalho, piores os resultados em testes de habilidades verbais (vocabulário e fluência), assim como de funções executivas. Os resultados foram significativos mesmo quando corrigidos para diversos fatores demográficos (ex: idade, nível educacional) e marcadores de saúde (ex: doenças cardiovasculares, transtornos do sono, estresse psicológico). Isso significa que não foi possível incriminar nenhum desses fatores em específico como responsável pelos resultados.
O presente estudo confirma pesquisas anteriores e é inédito por ter seguido os trabalhadores ao longo dos anos. Se o excesso de trabalho está associado a redução do desempenho cognitivo em indivíduos na meia idade, a grande pergunta que ainda está por ser respondida é se isso representa um fator de risco significativo para demência na terceira idade.
Uma pesquisa recém-publicada pelo British Medical Journal revela que o fumo passivo além de aumentar o risco de morte prematura, câncer, doenças pulmonares e cardiovasculares, também pode aumentar o risco de demência. Quase 5000 ingleses não fumantes e com mais de 50 anos foram acompanhados do ponto de vista de desempenho cognitivo e através de medidas de cotinina na saliva. A cotinina é um subproduto da nicotina e pode ser detectada na saliva até 25 horas após a exposição a ambientes com fumaça de cigarro. O que os pesquisadores encontraram foi que o grupo de pessoas que apresentou as maiores concentrações de cotinina na saliva também teve o pior desempenho cognitivo ao longo dos anos.
Uma das possíveis explicações para os resultados encontrados é de que o fumo passivo pode prejudicar o fluxo sanguíneo cerebral por conta de disfunção da camada mais interna dos vasos, o endotélio, fato este já comprovado em outros estudos. Isso poderia levar a mais derrames cerebrais. Outra explicação é de que o reconhecido mal que o fumo passivo faz ao coração pode fazer com que nele sejam produzidos pequenos coágulos de sangue que poderiam escapar do coração e entupir pequenas ou grandes artérias do cérebro, causando também derrames cerebrais.
A relação entre o tabagismo e redução do desempenho cognitivo já havia sido demonstrada entre os próprios fumantes. Infelizmente, as crianças não estão livres dos problemas cerebrais causados pelo fumo passivo. Já existem evidências de que as crianças de pais que fumam têm um menor desenvolvimento cognitivo. Hoje já se reconhece que o problema não está só na fumaça dos outros, o chamado fumo de segunda mão, mas também no contato com o simples cheiro de cigarro (fumo de terceira mão). É esperado que quanto mais a sociedade estiver consciente dos diversos prejuízos à saúde causado pelo fumo passivo, maior a chance de ações políticas que proíbam de vez o fumo em locais públicos.
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Podemos entender a atividade física e a sexualidade como um círculo virtuoso, onde há influências positivas nos dois sentidos. Indivíduos sexualmente ativos preocupam-se mais em estar com o corpo em forma, podendo assim aumentar a capacidade de atrair o(a) parceiro(a). A atividade física melhora o estado de saúde como um todo e ainda tem o poder de elevar a auto-estima, ambos trazendo benefícios à sexualidade. A atividade sexual regular, por sua vez, traz inúmeros benefícios à saúde, até mesmo por ser também uma atividade física.
Os dados mais precisos sobre o consumo de energia durante uma relação sexual são de estudos que avaliam o que se chama de equivalente metabólico (MET). Calcula-se que o MET relacionado à atividade sexual seja de 2 a 3, ou seja, metabolismo 2 a 3 vezes maior que no repouso. Durante o orgasmo o MET é maior: de 3 a 4. Uma caminhada tem o MET de 2 a 3, dependendo da velocidade. Uma corrida já apresenta um MET de 6 a 7. A atividade sexual é considerada como uma atividade física muito leve, por estar associado a um MET baixo. Uma caminhada leve ou atividade sexual “habitual” queima cerca de 200 calorias em 1 hora. Não devemos pensar que a atividade sexual é o suficiente do ponto de vista de atividade física, mas é melhor do que a combinação do sedentarismo e o celibato.
Do ponto de vista neuroquímico, a atividade física promove a liberação de uma série de substâncias no cérebro como a endorfina, dopamina e os endocanabinóides, que além dos efeitos imediatos de euforia e analgesia, são capazes de promover uma modulação do funcionamento cerebral de forma mais sustentada. Isso pode resultar em maior equilíbrio mental, menos sintomas de ansiedade e depressão, tudo isso colaborando para o equilíbrio da sexualidade de um indivíduo.
Nas academias de ginástica o cérebro pode ir mais além. O “clima de paquera” de uma academia pode até mesmo servir de “aquecimento” para a atividade física. Entre os mamíferos, o cortejo com o potencial parceiro sexual provoca uma série de mudanças comportamentais, que incluem maior atenção e disposição física. Entre os humanos, sabemos que o homem é bem mais responsivo aos estímulos visuais de beleza e juventude. Já as mulheres respondem mais a estímulos que envolvam sinais de poder e riqueza. Darwin explica.
E malhar em grupos de ambos os sexos também pode ter suas vantagens. Além dos estímulos visuais, até o cheiro de suor do sexo oposto pode influenciar o estado de disposição de quem está malhando, já que pode potencializar a percepção dos feromônios, com mudanças nos níveis hormonais de quem sente o cheiro. Na maioria dos mamíferos, os níveis hormonais são influenciados por sinais químicos externos, que são os chamados feromônios. Uma das pistas de que esse sistema também atua na espécie humana é a de que a convivência entre mulheres está associada a uma sincronia de seus ciclos menstruais, fato observado também em roedores. Ainda existe muito debate se esse é um sistema relevante para a espécie humana, e recentes estudos têm confirmado que nossos níveis hormonais podem ser influenciados pelos odores das pessoas ao nosso redor. O candidato a feromônio humano mais estudado até o momento é o hormônio androstadienona presente na saliva, sêmen e suor dos homens. A androstadienona é capaz de influenciar o humor, nível de alerta, e atividade cerebral tanto nas mulheres, como entre homens com orientação homossexual. Uma recente pesquisa revelou que mulheres que cheiravam a androstadienona pura tiveram seus níveis de hormônio corticóide elevados após 15 minutos e com duração de até 60 minutos. Pode-se até hipotetizar que esse aumento nos níveis de corticóide poderia dar mais energia para o exercício físico, mas isso ainda é só especulação.
Outra vantagem da atividade física em grupo é a de que a sensação de pertencer a um “time” promove um importante fenômeno que a ciência chama de “apoio social”, que faz bem à saúde independentemente da atividade física, ao reduzir, por exemplo, o risco de doenças cardiovasculares e depressão. O isolamento social não faz bem à saúde, e os efeitos negativos começam pela química cerebral mesmo. Esse apoio social tem sido repetidamente demonstrado como uma importante estratégia de incentivo à realização de atividade física, com melhora de indicadores de saúde. É a velha história de que é mais fácil alguém ter ânimo para caminhar pela manhã se for em boa companhia.
Muitas dessas questões podem explicar em parte o grande sucesso das academias de ginástica. Talvez explique também o fôlego de maratonista dos foliões no carnaval.
Uma série de doenças do coração pode fazer com que o músculo cardíaco perca progressivamente sua força, culminando na síndrome de insuficiência cardíaca, problema grave que após 5 anos do seu diagnóstico provoca a morte de metade dos pacientes. Uma pesquisa inédita recém-publicada pelo Journal of Cardiac Failure demonstra que pacientes com insuficiência cardíaca, a maioria em suas formas leve e moderada, apresentam também uma certa insuficiência cerebral.
Pacientes com insuficiência cardíaca apresentaram pior desempenho quando comparados ao grupo controle em 14 de 19 testes aplicados, sendo que a dificuldade de memória foi o problema mais comum. Quase metade dos pacientes foi classificada como tendo desempenho cognitivo inferior à média. A principal explicação para esses achados é a de que com a falência da bomba cardíaca, o fluxo sanguíneo cerebral é reduzido e perde-se também sua capacidade de auto-regulação. Outra hipótese é a freqüente ocorrência de derrames cerebrais entre pacientes com insuficiência cardíaca. Um coração fraco aumenta a chance de formação de pequenos coágulos de sangue que podem “escapar” para as artérias cerebrais, causando um derrame cerebral. Estudos evidenciam uma prevalência de derrame cerebral de até 35% entre pacientes com insuficiência cardíaca. O estudo ainda mostrou que pacientes que tinham história de infarto do coração tiveram um desempenho cognitivo pior do que aqueles com outras causas de insuficiência cardíaca.
Talvez o mais importante recado desse estudo seja o de que uma boa parte dos pacientes com insuficiência cardíaca pode não ser mais capaz de seguir as recomendações feitas pelo médico, como é o caso de tomar corretamente diferentes medicações em seus diferentes horários. No caso de pacientes com dificuldades cognitivas, um cuidado especial na comunicação deve ser tomado, muitas vezes com a necessidade de se garantir o apoio de alguém que possa auxiliá-lo no seguimento do tratamento.
Há algum tempo, a decisão de tratar a enxaqueca era fundamentada basicamente pelo critério Qualidade de Vida. Entretanto, nos últimos anos, graças aos avanços de técnicas de imagem cerebral, conhecemos cada vez mais sobre as repercussões funcionais e estruturais das crises de enxaqueca sobre o cérebro, o que nos deixa claro que tratar a enxaqueca é, antes de tudo, uma questão de proteção cerebral.
A última edição do periódico britânico Cephalalgia publicou uma pesquisa que confirma estudos anteriores que mostraram que pessoas que sofrem de enxaqueca apresentam depósito de ferro no tronco cerebral, e dessa vez mostrou que isso também acontece em núcleos da base, sendo que todas essas regiões fazem parte de circuitos de modulação da dor. Chama muito a atenção o fato do depósito de ferro ter sido maior em pessoas que sofriam de enxaqueca há mais tempo, sugerindo que quanto mais freqüentes as crises de enxaqueca, maior o depósito de ferro.
Esse é um achado que pode ajudar a explicar a razão pela qual 10 a 20% das pessoas com enxaqueca passam a ter a forma crônica da doença, com crises praticamente diárias. Alterações estruturais do cérebro decorrentes de repetidas crises poderia justificar o comportamento progressivo da doença nesses casos.
*Além de depósitos de ferro, já sabemos que freqüentes crises de enxaqueca podem provocar:
*Ativação recorrente de centros cerebrais profundos, que podem levar a sintomas como a alteração da sensibilidade e a alterações estruturais do tronco cerebral;
*Redução da substância cinzenta de algumas regiões cerebrais;
*Lesões da substância branca cerebral;
*Aumento do risco de derrame cerebral e infarto do coração (no caso da enxaqueca com aura).
Tanto a população leiga, e mesmo os profissionais da área da saúde, ainda têm a falsa crença de que a enxaqueca é um problema menor. A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece a enxaqueca como um problema de saúde pública de alta prioridade e a classifica como uma das 20 doenças que mais provocam incapacidade, lado a lado com o derrame cerebral, a AIDS e o diabetes. No caso das mulheres, ela é a 12ª no ranking da OMS. O custo da enxaqueca à sociedade vai muito além das questões orgânicas acima discutidas, mas envolve sérios prejuízos de ordem emocional, social e econômica.
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Há algum tempo já se desconfia que a enxaqueca possa aumentar a freqüência de problemas de pressão alta durante a gravidez. Na verdade ambos os problemas tem muita coisa em comum, desde o ponto de vista bioquímico, até no aumento do risco de eventos vasculares como o derrame cerebral e o infarto do coração. Uma pesquisa publicada na última edição do periódico inglês Cephalalgia revela que aquilo que era mera desconfiança, agora tem comprovação científica satisfatória.
Pesquisadores italianos acompanharam mais de 700 mulheres grávidas a partir da 11ª semana sem história de hipertensão arterial. O risco de desenvolver pressão alta na gravidez foi três vezes maior entre mulheres com história de enxaqueca do que naquelas sem enxaqueca (9.1% e 3.1%). Os bebês das mulheres com história de enxaqueca também apresentaram maior risco de nascerem com baixo peso.
O estudo aponta que mulheres grávidas e que têm enxaqueca podem começar a ser vistas como mulheres com maior risco de desenvolver pressão alta na gravidez, e por isso devem ser acompanhadas de forma mais cuidadosa. Os resultados também sugerem que a identificação do antecedente de enxaqueca deve passar a fazer a parte de uma consulta pré-natal. Vale lembrar que a pressão alta na gravidez é uma das pricipais causas de complicações tanto à saúde da mãe como à do bebê.
Cerca de 130 mil mulheres americanas já em menopausa foram acompanhadas por quase oito anos e aquelas que apresentavam batimentos cardíacos mais acelerados tinham uma chance maior de apresentarem um infarto do coração. O estudo foi recém-publicado pelo British Medical Journal. Essa mesma relação entre freqüência cardíaca elevada ao repouso e risco de infarto já havia sido demonstrada entre os homens.
No presente estudo, não foi possível associar sintomas depressivos ao risco de infarto do coração. Já sabemos que a depressão aumenta o risco de infarto do coração e uma das explicações para isso é o fato da depressão estar associada a disfunções do sistema nervoso autônomo, o que inclui aumento da freqüência cardíaca, dos níveis de pressão arterial e alteração do metabolismo de glicose e gorduras.
O melhor remédio para manter os batimentos cardíacos no lugar certo é sem sombra de dúvidas a atividade física regular e equilíbrio mental. Nesse estudo, as mulheres que se consideravam “ansiosas” apresentavam batimentos mais acelerados.
Uma nova pesquisa publicada no Journal of Psychiatric Research confirma que a maconha pode danificar o cérebro. Pesquisadores encontraram alterações estruturais no cérebro de usuários de maconha, especialmente em áreas que fazem conexões de importantes funções, tais como memória, atenção, capacidade de decisão, linguagem e funções executivas.
Usuários de maconha com uma média de idade de 19 anos e internados numa clínica de tratamento de dependência a drogas foram submetidos a técnicas especiais de Ressonância Magnética e os resultados foram comparados a um grupo controle sem história de consumo regular de maconha, álcool ou qualquer outra droga. O grupo de usuários de maconha consumia a droga desde os 13 anos até os 18-19 anos, e numa quantidade de cerca de seis “baseados” diários no ultimo ano anterior à suspensão da droga.
As alterações estruturais encontradas indicam danos no componente de mielina do cérebro, que pode ser comparada a uma capa que envolve as ramificações dos neurônios e que potencializa a velocidade dos impulsos nervosos. O estudo não é definitivo, mas é concordante com estudos anteriores que já haviam demonstrado que o consumo de maconha está associado a redução do volume de estruturas cerebrais associadas à memória e às emoções.
Esse mesmo grupo de pesquisadores já havia demonstrado que a adolescência ainda é um período de maturação das estruturas cerebrais e que por isso deve ser vista como uma fase da vida de maior vulnerabilidade a insultos cerebrais, como é o caso de substâncias neurotóxicas. Estudos também têm demonstrado que o uso de maconha na adolescência aumenta o risco de transtornos psiquiátricos na vida adulta.
Os ácidos graxos chamados de Omega 3 e Omega 6 fazem parte do grupo de gorduras insaturadas, bem diferentes das gorduras saturadas que encontramos nas carnes e laticínios. O Omega 3 cada dia mais é visto como um dos nutrientes mais nobres para o nosso corpo, especialmente para o cérebro e para os vasos sanguíneos, e por conta dessa boa fama, os alimentos ricos em Omega 3 estão merecidamente com a bola toda – os peixes, especialmente o salmão, atum, sardinha, e as castanhas e nozes. Paralelamente ao sucesso do Omega 3, podemos observar recomendações cada vez mais freqüentes para a redução de seu irmão Omega 6, com o argumento que seu metabolismo gera uma série de moléculas pro-inflamatórias que podem aumentar o processo de aterosclerose. Na verdade, os estudos mostram justamente o contrário: o consumo de Omega 6 está muito mais associado a uma ação anti-inflamatória do que inflamatória.
O Omega 6 também é uma gordura insaturada assim como o Omega 3, e sua principal fonte na dieta é o ácido linoleico encontrado principalmente nos óleos vegetais (ex: milho, soja, girassol). A revista Circulation, uma das publicações mais importantes da American Heart Association acaba de publicar um documento recomendando que 5 a 10% do total de energia diária consumida deve ter origem em gorduras insaturadas ricas em Omega 6. O documento conclui que a restrição do Omega 6 em níveis mais baixos que os recomendados tem mais chance de aumentar do que diminuir o riscos de doenças cardiovasculares.
Cique aqui para ler o documento na íntegra em inglês
Na antiguidade, a vida em abstinência sexual foi vista como uma forma de evitar problemas de saúde. Apesar de ainda hoje podermos encontrar esse tipo de pensamento em algumas culturas, nas últimas décadas, estudos científicos rigorosos não só desmontaram de uma vez por todas o mito de que a atividade sexual pode ser deletéria à saúde, desde que devidamente protegida contra doenças sexualmente transmissíveis, mas também têm revelado que o sexo traz inúmeros benefícios à saúde:
– maior longevidade
– menor risco de doenças cardiovasculares
– maior auto-estima, menos sintomas de ansiedade e depressão e menos queixas de dor e insônia;
– etc, etc, etc.
Clique aqui e leia o artigo na íntegra.
A eficácia clínica da acupuntura para o tratamento da dor crônica tem sido demonstrada através de grandes estudos na última década. Os pesquisadores desenvolveram um tipo de acupuntura placebo, também chamada de sham acupuncture, em que o indivíduo acha que está sendo submetido ao tratamento verdadeiro, mas na verdade são agulhas que são colocadas em pontos aleatórios e em nível superficial. Já é bem reconhecido que o efeito da sham acupuncture existe e é até superior a alguns tratamentos convencionais para dor, mas é menor que a acupuntura verdadeira.
Uma pesquisa recém publicada pelo British Medical Journal joga um certo balde de água fria nos entusiastas do tratamento de acupuntura para síndromes dolorosas, demonstrando que grande parte do efeito alcançado é devido ao efeito placebo. Pesquisadores dinamarqueses realizaram uma metanálise dos grandes estudos em que houve comparação entre a acupuntura verdadeira e a acupuntura placebo (sham acupuncture). A acupuntura placebo foi moderadamente mais eficaz que o tratamento convencional para dor, superior em 10 pontos em uma escala de 100. Já a diferença de eficácia entre a acupuntura verdadeira e a acupuntura placebo foi bem menor, 4 pontos em uma escala de 100. Reconhece-se que efeitos menores que 10 pontos numa escala de 100 são considerados mínimos ou pequenos. Ou seja, os resultados da acupuntura verdadeira são quase os mesmos da acupuntura placebo, sugerindo que o maior componente de ação da acupuntura verdadeira se dá por efeito placebo.
A pesquisa é concordante com outras sete análises rigorosas do sistema Cochrane que concluíram que não existem evidências inequívocas, por questòes metodológicas, de que a acupuntura tem efeito analgésico. O presente estudo questiona as bases teóricas da acupuntura sem negar que o efeito placebo associado ao ritual do tratamento pode ser muito útil e até mesmo ético no auxílio de tantas pessoas que se sentem melhor com esse tipo de tratamento.
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Em uma pesquisa recém publicada no BMC Medicine envolvendo quase 40 mil pessoas na Ásia, pesquisadores japoneses investigaram a relação entre a percepção do próprio estado de saúde, e o grau de confiança nas relações interpessoais, no conteúdo disponibilizado pelos meios de comunicação de massa e no sistema de saúde.
Os indivíduos que mais se consideraram saudáveis foram os mais jovens, com alto nível educacional e sócio-econômico, e os mais confiantes nas relações interpessoais, nos veículos de comunicação de massa e no sistema de saúde. Cerca de 60% dos entrevistados responderam que acreditam muito ou parcialmente na mídia.
Não se pode inferir uma relação causal precisa entre acreditar na mídia e ter uma boa saúde, mas uma maior confiança no conteúdo de informações em saúde disponibilizado por ela pode ser uma poderosa ferramenta para a promoção de saúde através de uma maior incorporação de hábitos de vida saudáveis. Esse conjunto de confiança entre os indivíduos e entre indivíduo e instituições é parte fundamental do conceito de Capital Social, que é definido como a quantidade e qualidade das interações sociais. Pesquisas apontam que sociedades com alto Capital Social apresentam melhores indicadores de saúde. No Brasil, os jornalistas estão bem na foto. Pesquisa encomendada pelo Ministério da Ciência e Tecnologia e divulgada em 2006 revela que o jornalista é o profissional em que a população mais confia quando o assunto é ciência e tecnologia, seguido pelo médico e só depois vem o cientista.
É também bem conhecido que os meios de comunicação de massa representam as principais fontes de informação em saúde da sociedade e desempenham um dos pilares do processo de alfabetização em saúde. Dessa forma, ações voltadas ao fortalecimento da imagem de confiabilidade do jornalismo em saúde de uma sociedade podem refletir em seus indicadores de saúde. Claro que o jornalismo em saúde também tem que fazer sua parte.
Não é novidade para ninguém que a poluição do ar é um sério problema de saúde pública. Pesquisas no Canadá, Holanda e Finlândia já haviam demonstrado que um aumento de 10µg por m3 na concentração de partículas menores que 2.5µm está associado a uma redução na expectativa de vida de 0.8 a 1.3 anos. Esta semana, um importante e pioneiro estudo foi publicado no jornal New England Journal of Medicine confirmando essa relação entre poluição e longevidade só que de forma inversa: a redução da poluição é capaz de aumentar a longevidade da população. A redução dos mesmos 10µg por m3 na concentração de partículas menores que 2.5µm promoveu um aumento de 0.77 ano na expectativa de vida da população. Esses resultados foram extraídos do nível de poluição do ar em 51 diferentes regiões metropolitanas dos Estados Unidos ao longo de duas décadas. Nesse mesmo período, a expectativa de vida do americano cresceu em 2.74 anos, e teoricamente, 18% desse aumento pode ser decorrente das medidas de controle da poluição do ar.
A Organização Mundial da Saúde reconhece que 1.4% das mortes do planeta são decorrentes da poluição no ar que se respira. Essa pesquisa pode ser vista como boa notícia já que se reduzirmos a poluição do ar, estaremos aumentando nossa longevidade. E a responsabilidade não é só das autoridades. Está em nossas mãos também o poder de limpar o ar que respiramos.
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Já é bem conhecido o efeito protetor do consumo leve a moderado de álcool sobre o sistema cardiovascular e uma nova pesquisa publicada no periódico American Journal of Epidemiology revela que os benefícios podem se estender a um envelhecimento com maior nível de independência física.
A pesquisa acompanhou mais de 4 mil americanos acima de 50 anos de idade. Consumo de álcool leve a moderado foi definido como menos de 15 doses por semana ou menos de cinco doses em um único dia para homens e menos de quatro doses para mulheres. Um consumo de álcool acima desses limites foi classificado como alto consumo e abstinência alcoólica como até 12 doses de álcool no último ano. Independência foi determinada como a capacidade de realizar tarefas do dia-a-dia como vestir-se, alimentar-se, higiene pessoal, caminhar, etc.
Ao longo de 5 anos, os indivíduos com consumo leve a moderado de álcool tiveram menos risco de tornarem-se dependentes para atividades da vida diária quando comparado aos abstêmios e àqueles com alto consumo de bebida. Esse efeito protetor do consumo moderado de álcool só foi relevante entre indivíduos que no início do estudo se auto-avaliaram como tendo uma saúde boa ou ótima, sugerindo que os efeitos positivos do álcool já não são mais detectáveis entre aqueles que já têm um estado de saúde comprometido.
Pesquisas anteriores já haviam demonstrarado que o consumo moderado de álcool reduz o risco de doenças cerebrovasculares e demência, incluindo a Doença de Alzheimer. Essa pode ser uma das principais explicações para esse efeito benéfico do álcool no nível de independência física durante o processo de envelhecimento.
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Cerca de 13% das mulheres apresenta depressão no primeiro ano após o parto, e em países desenvolvidos como a Inglaterra, a depressão pós-parto é considerada a principal causa de mortalidade materna. Além disso, a depressão pós-parto pode ter sérias conseqüências para a família como um todo, especialmente as crianças, já que a doença pode reduzir a interação mãe-bebê, diminuindo assim as chances de um adequado desenvolvimento cognitivo e psicossocial.
O problema é pouco diagnosticado e tratado, freqüentemente por causa de dificuldade em reconhecer os sintomas, falta de informação das opções terapêuticas e ainda pelo receio das mães em passar a serem estigmatizadas. Além disso, apesar do tratamento com medicações antidepressivas ser eficaz, muitas mulheres são relutantes em usá-lo, especialmente pelo fato de estarem amamentando. A última edição do British Medical Journal traz duas importantes evidências de que a prevenção e a intervenção psicológica podem ser ferramentas fundamentais para reduzir o impacto da depressão pós-parto.
Um dos estudos demonstrou que a intervenção psicológica semanal domiciliar reduziu o risco de depressão pós-parto em 40% entre mulheres inglesas. Nesse caso, as mulheres recebiam a visita semanal de agentes de saúde treinados para identificar a depressão pós-parto através de escala objetiva e também eram treinados a oferecer dois tipos de intervenção psicológica: sessões baseadas em psicoterapia cognitivo-comportamental ou centradas na pessoa. Ambas as abordagens foram igualmente eficazes na redução do desenvolvimento de depressão pós-parto e com resultados bem superiores ao do grupo controle que recebeu as visitas habituais de profissionais de saúde.
O outro estudo, realizado no Canadá, mostrou que suporte psicológico por telefone oferecido a mulheres com alto risco de depressão pós-parto reduziu pela metade o risco em desenvolver a doença. Esse suporte telefônico era oferecido por mulheres que sofreram de depressão pós-parto e que receberam treinamento para tal abordagem. As mulheres foram muito receptivas à intervenção e se mostraram satisfeitas com a experiência e mais de 80% delas recomendariam esse tipo de suporte a uma amiga.
O apoio psicológico individualizado, mesmo que por um leigo, é capaz de oferecer a sensação de pertencer a uma rede social podendo melhorar a auto-estima e o estado mental como um todo. Esse tipo de apoio por telefone assim como comunidades virtuais de ajuda mútua pela internet são estratégias de prevenção e apoio terapêutico que rompem barreiras geográficas e de dificuldades socioeconômicas e acessibilidade, e deverão ser cada vez mais fortalecidas como genuínas ações de promoção à saúde.
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