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Pessoas que têm marcadores genéticos que predispõem ao desenvolvimento da Doença de Alzheimer podem atrasar o aparecimento de sintomas através de sete atitudes. Essa é a conclusão de um estudo publicado na última semana pelo periódico Neurology da Academia Americana de Neurologia. As sete atitudes são: cérebro e corpo ativos, alimentação saudável, peso corporal em dia, não fumar, controle ótimo da pressão arterial, colesterol e glicemia.

Já sabíamos que os sete hábitos reduzem o risco da Doença de Alzheimer, mas o atual estudo nos mostra que isso é verdadeiro mesmo para aqueles que têm o perfil genético de maior risco. O estudo foi conduzido nos EUA envolvendo quase nove mil pessoas com idade maior que 54 anos e que foram seguidas por até 30 anos. O grupo de voluntários com maior risco genético foram aqueles que apresentavam pelo menos uma cópia da variante gênica APOE e4 que está associada a um maior risco da Doença de Alzheimer (pode aumentar o risco em até 12 vezes). Os que tinham ancestralidade europeia apresentavam em 27.9% dos casos a variante e4, e isso ocorreu em 40.4% de descendentes africanos. O grupo considerado de baixo risco era o que apresentava a variante e2 que está associada a um menor risco da doença (pelo menos 40% de redução de risco).

Para os descendentes europeus o risco de demência foi até 43% menor entre aqueles que melhor pontuaram numa escala dos sete hábitos descrito acima, independente do perfil genético. Já para os descendentes africanos com boa pontuação de hábitos, a redução de risco da doença foi de no máximo 17%.  

Como ainda não temos tratamentos que modificam o curso natural da Doença de Alzheimer, mudanças nos hábitos de vida são ferramentas preciosas para a prevenção da doença. E foi isso que o presente nos mostrou.

Um novo estudo mostra que a inspiração nos hábitos de indígenas da Amazônia Boliviana (grupos Tsimane e Moseten) tem muito a colaborar no controle da avalanche de diagnósticos de demência mundo afora. Apenas 1% dos indígenas com idades acima de 60 anos apresentavam diagnóstico de demência comparados aos 11% encontrados no mundo industrializado. E não é qualquer grupo de indígena que tem esses resultados. Há pesquisas que indicam até 20% de prevalência de demência. O presente estudo foi publicado recentemente no periódico Alzheimer’s & Dementia: The Journal of the Alzheimer’s Association.                                                                                                       

O estilo de vida de subsistência pré-industrial é o maior candidato para explicar a proteção que esses grupos têm contra o desenvolvimento de demência. Os resultados também apontaram que, no grupo etário estudado, 10% apresentavam declínio cognitivo leve, número semelhante ao encontrado nas sociedades industriais. Essa condição é reconhecida como uma dificuldade cognitiva que não interfere substancialmente nas atividades de vida diárias, mas que a cada ano, em 10% dos casos, podem evoluir para um quadro de demência.

O estilo de vida dos Tsimanis e menor prevalência de fatores de risco vascular já foram apontados por uma publicação do The Lancet mostrando que eles têm um coração extremamente saudável com os menores índices de aterosclerose de qualquer população conhecida no mundo. Já foi demostrado também que o cérebro deles, entre a meia-idade e a velhice, têm uma redução de volume 70% menor do que o de europeus e americanos.

Esse estilo de vida pós-industrial é algo pra lá de recente na história da humanidade. Em 99% do tempo de sua existência, o Homo sapiens foi fisicamente ativo, tiveram uma dieta rica em fibras e gorduras saudáveis e uma atmosfera limpa.

Por Dr. Ricardo Teixeira*

É só uma cabeça equilibrada em cima do corpo (Chico Science & Nação Zumbi)

Costumo provocar alguns dos meus pacientes que buscam minha orientação sobre como melhorar o funcionamento do cérebro de que existe uma hierarquia nas tarefas. A maioria está pensando em melhorar a memória, concentração e capacidades executivas. A hierarquia de tarefas se dá numa certa direção. Para otimizar essas capacidades precisamos estar vivos. Precisamos estar acordados.  Precisamos prestar atenção nas coisas. Só então atingiremos bom desempenho na memória e outras funções cognitivas complexas. Só que no meio desse caminho há uma pedra: nosso equilíbrio psíquico. Você pode estar vivo, mas se o equilíbrio emocional não estiver bem modulado, o resto da cadeia fica bem prejudicada.

Isso já se reflete no segundo passo que é estar acordado. O sono é influenciado sobremaneira pelas nossas emoções. Fica extremamente perturbado quando estamos preocupados, ansiosos ou deprimidos, sem falar de tantas outras condições que perturbam a qualidade do sono, muitas delas muito comuns, como o excesso de trabalho e o consumo exagerado de álcool. Como exigir desempenho do cérebro sem um sono reparador? O fato é que muitos desses fatores ameaçam também o primeiro estágio de nossa hierarquia que é o de nos mantermos vivos. Maiores índices de doenças que reduzem nossa expectativa de vida não nos ajudarão a passar para os próximos estágios.  

Temos um “zilhão” de evidências de que muitas ações que promovem o melhor funcionamento cerebral carregam também o potencial de modular nossas emoções. A atividade física regular libera substâncias no cérebro que o faz funcionar melhor. A mesma atividade física também ajuda no controle das emoções no dia a dia por outras vias neuroquímicas. E aqui nossa hierarquia de ações ganha autonomia de voo, com menos obstáculos para melhores resultados nas funções cognitivas complexas. O mesmo raciocínio vale para a sociabilidade, o trabalho altruísta, a experiência da arte, o contato com a natureza. E coisa boa atrai outras coisas boas.  Onde encontramos lazer, encontramos também mais limites no tempo dedicado ao trabalho. É claro que estamos falando daqueles que têm poder de escolha. Chico Science nos lembra disso em Samba Makossa: A responsabilidade de tocar o seu pandeiro é a responsabilidade de você manter-se inteiro. Se temos poder de escolha, somos um pouco mais responsáveis em manter-nos inteiros do que aqueles que não tem teto, comida na mesa ou que vivem num sistema Casa Grande e Senzala.

E coisa ruim atrai outras coisas ruins. O uso de substâncias neurotóxicas, por exemplo, atrai comportamentos que afetam toda nossa cadeia hierárquica, comprometendoa chance de nos mantermos vivos, nosso sono, nossa cognição. É o tão conhecido círculo vicioso.

Mas se essa discussão está ficando mais embolada do que você esperava, caro leitor, vamos a uma lista simples de atitudes para turbinar seu cérebro.

Durma bem

Pratique atividade física regularmente

A dieta mediterrânea pode preservar o funcionamento do seu cérebro ao longo dos anos (peixes, cereais integrais, frutas, legumes, azeite, pouca carne e laticínios)

Evite substâncias neurotóxicas e aqui se inclui o uso exagerado de álcool 

Sua socialização faz muita diferença

Seu cérebro precisa de atividades estimulantes  

E nesses tempos de pandemia e guerra, mantenha sua cabeça equilibrada em cima do corpo, procurando antenar boas vibrações, preocupando antenar boa diversão. Termino com Lenine, mais um ilustre pernambucano: Enquanto todo mundo espera a cura do mal… A gente espera do mundo e o mundo espera de nós, um pouco mais de paciência.

*Dr. Ricardo Teixeira é neurologista e diretor clínico do Instituto do Cérebro de Brasília

O encontro anual da Academia Americana de Neurologia apresentará, no início de abril, os resultados de uma pesquisa conduzida nos EUA apontando que ter um animal de estimação reduz o declínio cognitivo quando ultrapassamos os 60 anos. Após seis anos de seguimento de 1369 adultos, com média de idade de 65 anos, aqueles que tinham um pet em casa, especialmente quando por um tempo maior que cinco anos, apresentavam desempenho em testes cognitivos com declínio mais lento. No Japão foi demonstrado recentemente que ter um cachorro, e não um gato, reduz pela metade a chance de incapacidade após os 65 anos, efeito ainda mais robusto entre aqueles que praticam atividade física. Uma maior interação social também explica, em parte, esse efeito protetor dos cães.  

Sabemos que adultos que têm um animal de estimação em casa costumam ser mais integrados à comunidade.  Quanto mais um adulto participa do cuidado com o bicho de estimação, mais atitudes altruísticas ele tem na comunidade e entre amigos e familiares. Quanto maior a conexão com os bichos, maior a empatia com as outras pessoas e autoconfiança.

Em 2017 a prestigiada revista Scientific Reports do grupo Nature publicou os resultados de uma pesquisa que envolveu três milhões e meio de indivíduos na Suécia acompanhados desde o ano de 2001. Aqueles que tinham um cachorro como animal de estimação viveram mais! Tiveram menor incidência de doenças cardiovasculares, mas também de outras doenças. O interessante é que os que moravam sozinhos com o cachorro foram os que mais se beneficiaram. Além disso, esse efeito protetor foi maior entre os que tinham cães de caça.

Já tínhamos evidências que essa ligação entre os humanos e os animais é capaz de promover uma redução nos níveis da pressão arterial e do estresse.  Pesquisadores de Nova Iorque demonstraram que pacientes que têm cães sobrevivem mais após passado um ano de um infarto do coração. Nos últimos anos, diferentes grupos de pesquisadores evidenciaram que os indivíduos que têm cães apresentam um menor nível de alterações cardíacas provocadas pelo estresse.

E os efeitos positivos dos animais de estimação não param por aí. Há evidências de que a presença do animal está associada a uma menor procura por consultas médicas pelos indivíduos idosos e menor incidência de depressão.

As crianças também se beneficiam da presença do animal. Os cachorros são ótimos para o equilíbrio psíquico delas em situações estressantes. Durante uma prova de estresse em laboratório, a presença do cão de estimação conferiu uma resposta de estresse menor até mesmo quando comparada à presença dos pais.

Não estou advogando pela substituição dos amigos pelos animais. Entretanto, é razoável hoje em dia recomendar a uma pessoa com poucos contatos sociais, e que goste de animais, que não deixe de experimentar viver com um animal de estimação, pois ele pode fazer muito bem à nossa saúde do corpo e da mente. Também não estou querendo minimizar os efeitos positivos de um gato em casa, mas os estudos até o momento sugerem que os cães realmente parecem trazer impactos mais robustos que os gatos à saúde humana.

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Enquanto as doenças do coração mantêm a liderança como as principais causas de morte no mundo, observa-se um aumento substancial na prevalência das doenças do cérebro, especialmente as demências como a Doença de Alzheimer. É interessante notar que os quadros demenciais e as doenças do coração dividem os mesmos fatores de risco como a hipertensão arterial, diabetes, obesidade e tabagismo. Está se tornando claro que a redução dos fatores de risco vascular pode fazer a diferença na redução de doenças do cérebro, e não estamos mais falando só de derrame cerebral.

A mortalidade global associada à Doença de Alzheimer e outras demências têm crescido num ritmo maior que o das doenças do coração. Entre 2010 e 2020 houve um aumento de 44% na mortalidade associada a quadros demenciais e de 21% por doenças do coração. Quando se pensa em 30 anos (1990-2020), o incremento de mortes por quadros demenciais foi de 144%. Nos EUA, a mortalidade por Doença de Alzheimer tem sido até maior que por derrame cerebral.

Voltando aos fatores de risco vascular, o periódico Circulation da Associação Americana do Coração nos trouxe nesta última semana dados inequívocos de que o que não faz bem ao coração também não faz bem ao cérebro. Hipertensão arterial aumenta em cinco vezes as chances de uma pessoa apresentar declínio cognitivo e quadros demenciais. No caso da obesidade, esse aumento é de três vezes. Tabagismo aumenta o risco de demência em 30-40%.

Há também uma forte relação entre a função do coração e o desempenho cognitivo. Menor desempenho cognitivo é encontrado com 40% mais chances em portadores de doença coronariana. Essa relação também existe em quem tem fibrilação atrial, uma arritmia cardíaca comum. Insuficiência cardíaca eleva duas vezes o risco de um quadro demencial.

Fatores socioeconômicos, de gênero e raça também influenciam o risco de demência. Mulheres têm mais Doença de Alzheimer que os homens. Uma amostra global de 2020 mostra que 65% dos casos são de mulheres. Em uma análise da população americana, negros e hispânicos têm 3 a 4 vezes mais chances de desenvolver declínio cognitivo que interfere nas atividades de vida diárias quando comparados aos brancos, e aqui fatores socioeconômicos têm forte influência.

Voltando mais uma vez aos fatores de risco vascular, vale lembrar que o exercício físico e a dieta mediterrânea são um show na prevenção de doenças do coração e também de demência.     

Photo credit: Kevin Mazur - Getty Images

Recentemente pudemos acompanhar cenas do show da lenda do jazz Tony Bennet junto a Lady Gaga no Radio City Music Hall em Nova Iorque. Nos ensaios, ele não era capaz de reconhecer Lady Gaga, amiga e companheira em inúmeros projetos. Mas no dia do show, ele falou o nome dela com muita emoção quando ela subiu ao palco. Tony sofre de doença de Alzheimer desde 2016, está com 95 anos e a turnê era sua despedida dos palcos. O vídeo é emocionante. Clique aqui para assistir.

Depois do show Lady Gaga disse: “Eu quero que as pessoas saibam que, se tem alguém que você ama com Alzheimer, há uma maneira de se comunicar e tocar uma magia no coração que ainda está lá. E eu acho que cabe a nós questionarmos por quais maneiras podemos despertar esses sentimentos e assim nos comunicarmos melhor com eles.” O recado de Lady Gaga é precioso às famílias que têm um ente querido com a doença.

Calcula-se que a chance de desenvolvermos um quadro demencial seja de 25%, se ultrapassarmos os 80 anos de vida, e de 50% se passarmos dos 90. Esse cenário era bem diferente no caso de nossos ancestrais, pois eles não envelheciam e toda a programação genética estava concentrada em oferecer condições para que o indivíduo conseguisse se reproduzir e perpetuar a espécie. Nossa grande longevidade é um fenômeno bem recente, e não houve tempo de nos adaptarmos geneticamente a esse novo cenário. Vale lembrar que a expectativa de vida do Australopitecus, há 4 milhões de anos, era de apenas 15 anos, 25 anos no caso dos europeus na Idade Média, cerca de 40 anos no século XIX e 55 anos no início do século XX.

Já que não somos geneticamente tão “atualizados” assim, e esse tipo de atualização é coisa para milhão de anos, o que podemos fazer para chegar aos 80 anos com a cabeça tinindo é investir em atitudes de vida saudáveis. As estrelas de primeira grandeza são a atividade física regular e uma rotina em que o cérebro tenha muitas demandas, e aí o lazer certamente está incluído.

Além disso, a ciência demonstra, de forma inequívoca, que o padrão da dieta mediterrânea ajuda a prevenir a demência. Essa é uma dieta rica em peixes, verduras, legumes, frutas, cereais (melhor se forem integrais), azeite e outras fontes de ácidos graxos insaturados, e baixo consumo de carnes e laticínios e outras fontes de gorduras saturadas, além do uso moderado, porém regular, de álcool.

Tão importante quanto o incremento dessas atitudes saudáveis é evitar condições que diminuam as reservas do cérebro, como é o caso do tabagismo, álcool em excesso e o uso de outras drogas neurotóxicas. Para quem tem problemas de saúde como hipertensão arterial e diabetes, o tratamento rigoroso dessas condições é de extrema importância para proteger o cérebro das principais causas de “esclerose”, que são a doença de Alzheimer e demência vascular. Esta última é resultante de lesões causadas por vasos cerebrais doentes.

Grayscale Photo of Man Wearing Coat Holding Cane

Um estudo clínico fase 2 envolvendo 34 pacientes mostrou que a medicação levetiracetam, em doses mais baixas que as usadas para epilepsia, pode promover ganhos cognitivos em portadores da Doença de Alzheimer.  Os efeitos positivos, especialmente na memória espacial e funções executivas, foram significativos entre aqueles que apresentavam atividade epiléptica demonstrada pelas avalições neurofisiológicas. O estudo foi recém-publicado pelo periódico JAMA Neurology.

Atividade epiléptica pode ser acompanhada de sintomas, como ausências e convulsões, ou ser completamente assintomática. Entre os pacientes com Doença de Alzheimer, é estimado que 10-22% apresentam crises epilépticas sintomáticas e 22-54% apresentam atividade epilética assintomática.

Os mesmos autores do estudo já haviam demonstrado que os pacientes com Alzheimer que apresentam essa atividade epiléptica silenciosa apresentam um declínio cognitivo mais rápido. Em um modelo animal da doença, o uso do antiepilético provoca melhora do estado cognitivo. Dos pacientes estudados nesta última pesquisa, nenhum deles tinha história de crises epiléticas sintomáticas, mas 40% apresentavam atividade epilética subclínica. Esses últimos foram os que tiveram melhor resposta à droga antiepiléptica.

Os pesquisadores consideram que essa apresentação da Doença de Alzheimer com atividade epiléptica é bastante comum, chegando a 60% dos casos. A busca por atividade epiléptica pelos médicos entre esses pacientes não é prática comum e a pesquisa aponta a importância dessa investigação. A fase 3 da pesquisa deve agora seguir em frente com o recrutamento de um número maior de pacientes.

Man in Blue Crew Neck Shirt

Por Dr. Ricardo Teixeira*

Um dos principais marcadores da Doença de Alzheimer é o acúmulo no cérebro de uma substância proteica chamada de beta-amiloide, substância também encontrada no cérebro de idosos saudáveis, porém em pequenas quantidades. Esse acúmulo excessivo de proteínas no cérebro, que é geneticamente determinado, faz com que aos poucos ele vá ficando ineficiente. Os medicamentos atualmente aprovados para o tratamento da doença não mudam a história natural da doença, apenas melhoram os sintomas. O grande sonho é encontrar uma estratégia eficiente que reduza o acúmulo dessas proteínas no cérebro. Entretanto uma série enorme de estudos nos mostram que a simples redução desses depósitos proteicos não garante um impacto clínico positivo.

Os anticorpos monoclonais, medicações amplamente usadas em inúmeras condições clínicas, têm sido testados há muitos anos para o tratamento da Doença de Alzheimer, mas sem resultados muito animadores. Um desses anticorpos, o Aducanumab, foi aprovado pelo órgão regulador americano de medicamentos (FDA) este mês, mas com muitas críticas.

O Aducanumab se mostrou eficiente na redução do acúmulo das placas de beta-amiloide no cérebro, mas as evidências clínicas não foram muito convincentes, nem mesmo para o comitê consultor independente do FDA. Três membros desse comitê pediram afastamento após a aprovação como protesto. A desconfiança é a mesma com inúmeros especialistas ao redor do mundo. A aprovação foi feita, mas com a condição de que um estudo com resultados mais robustos seja realizado o mais breve possível e, se os resultados não forem clinicamente positivos, a liberação pode ser cancelada. A agência é criticada por não ter retirado de circulação algumas drogas para o tratamento do câncer que os respectivos fabricantes ficaram de conduzir um estudo complementar e não o fizeram. E com as medicações no mercado, quem se habilitaria a receber placebo em testes clínicos?

Os resultados clínicos foram muito discretos e apenas com as doses altas. Muito ainda será discutido sobre o custo-benefício da medicação, já que em altas doses ela teve associação com inchaço e hemorragia cerebral em 40% dos pacientes testados. Dos dois estudos realizados, um deles não mostrou eficácia clínica nem mesmo em doses altas.

A aprovação foi feita dentro de um programa do FDA chamado de aprovação acelerada que libera precocemente terapias potencialmente valiosas a pacientes com doenças graves mesmo sem a demonstração inequívoca do real benefício. 

É claro que o lobby da indústria farmacêutica move montanhas. As ações da fabricante subiram 38% no dia da aprovação e o custo do tratamento com Aducanumab é de 56 mil dólares por ano. Efeitos clínicos discretos já foram demonstrados com suplemento de curcumina por 18 meses, inclusive acompanhados de redução nos depósitos de amiloide. Que tal então, por enquanto, usar mais curry na sua cozinha?

5 Amazing Facts You Might Not Know About the Tsimane People - Blog

Eles são menos sedentários, têm uma dieta rica em fibras e gorduras saudáveis e têm o menor grau de aterosclerose nas artérias coronárias já descrito na literatura médica. Estamos falando dos índios da tribo Tsimane, habitantes da Amazônia Boliviana. E agora tivemos mais uma demonstração de que seus órgãos envelhecem de forma mais saudável. O cérebro deles, entre a meia-idade e a velhice, têm uma redução de volume 70% menor do que o de europeus e americanos.

Vale lembrar que um cérebro que encolhe menos ao longo das décadas tem menos chance de ser portador de uma patologia que pode levar a um quadro demencial, como a Doença de Alzheimer. Os resultados desse estudo foram publicados no periódico The Journal of Gerontology após análise do volume cerebral de 746 índios Tsimane com idades de 40 a 94 anos e comparados a moradores do mundo industrializado. A metodologia do estudo não permite criarmos uma relação causa e efeito entre o estilo de vida dos Tsimanes e a menor perda de volume cerebral, mas essa é uma conclusão para lá de tentadora. 

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Os humanos passam a apresentar amizades mais seletivas à medida que atravessam as décadas de vida. Damos prioridade a relações bem estabelecidas e passamos a evitar aquelas que trazem tensão e conflito. É como se não tivéssemos mais tempo para desperdiçar com relações sem muito sentido. Uma pesquisa recém-publicada pela revista Science mostra que os chimpanzés têm o mesmo comportamento, apesar de não terem consciência da finitude da vida.

Pesquisadores da Universidade de Harvard estudaram a socialização de chimpanzés selvagens durante 78.000 horas por um período de 21 anos em Uganda. Os chimpanzés à medida que envelheciam davam prioridade a relações com reciprocidade. Por exemplo, àqueles que retribuíam o ato de limpar o outro, conhecido por “grooming” na língua inglesa.

Isso me fez lembrar do nosso atual momento de pandemia. Li um artigo há pouco tempo, não me lembro a fonte, que discutia o futuro do nosso círculo social a curto e médio prazo e uma aposta que será mais seguro termos convívio pessoal em um círculo mais restrito de amigos. Talvez demore um pouco para podermos encontrar a “galera” e vamos ter que ficar velhos na marra…

É fato que nós humanos, após os 30 anos de idade, temos cada vez menos amizades novas. Isso é mais frequente ainda entre os homens. Um estudo mostra que o pico de amigos em nosso círculo social se dá aos 25 anos de idade com uma queda drástica após essa idade. Acredita-se que não perdemos nossas habilidades sociais, mas há uma mudança dos horizontes de responsabilidades que explica esse fenômeno. Entenda a mudança nos horizontes de responsabilidade pelo maior interesse que temos por pessoas que dividem interesses comuns, mais afinidades. Pais que se dão melhor com casais que compartilham entre si a experiência de cuidar dos filhos é bem diferente da situação dos mil amigos que um adolescente tem no ensino médio simplesmente por estudar na mesma escola.

Close-Up Photography of Woman Wearing Red and Black Scarf

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Mais da metade das mulheres apresentam queixas de memória na fase de transição para a menopausa e temos algumas evidências de que, nessa fase da vida, elas realmente apresentam uma menor velocidade de processamento cognitivo e menor desempenho da memória verbal.

 

Uma forma de explicar essa lenhificação do pensamento na transição da menopausa é que a redução ou flutuação dos níveis do hormônio estrogênio pode dificultar o pleno funcionamento cerebral. Já foi bem demonstrado que algumas áreas cerebrais são ricas em receptores de estrogênio, regiões que são fortemente vinculadas à memória, como é o caso do hipocampo e o córtex pré-frontal. Além disso, estudos experimentais revelam que o estrogênio é capaz de elevar os níveis de neurotransmissores e também promovem o crescimento neuronal e formação de conexão entre os neurônios.

 

Nada de pessimismo! A boa notícia é que esses efeitos parecem ser limitados, já que as mulheres voltam a apresentar o mesmo desempenho cognitivo que tinham antes da menopausa após ultrapassarem a transição. Além disso, as mulheres que recebem reposição hormonal antes do término da menstruação são beneficiadas do ponto de vista cognitivo, o que não acontece com aquelas que começam esse tipo de tratamento após o término da menstruação. Essa é mais uma evidência de que a reposição hormonal deve ser utilizada pelo menor tempo necessário. Temos até evidências que o uso prolongado desse tipo de tratamento pode levar à perda do volume de substância cinzenta do cérebro e declínio cognitivo.

 

Uma recente pesquisa aponta também que, quanto mais tarde se dá o início da menopausa, melhores são os indicadores de desempenho cognitivo e o uso de reposição hormonal não teve qualquer influência. Esses resultados não foram válidos para os casos de menopausa cirúrgica, condição em que as mulheres têm os ovários removidos cirurgicamente. E este ano, a revista Menopause, da Sociedade Americana de Menopausa, mostrou que durante as ondas de calor, as mulheres na menopausa têm o desempenho cognitivo ainda mais prejudicado. Foram identificadas alterações em regiões responsáveis pela memória, especialmente o hipocampo e o córtex pré-frontal, pelo método de ressonância magnética funcional.

E suplementos de soja podem ajudar? A soja é a principal fonte de isoflavonas da dieta, micronutrientes que se ligam aos receptores de estrogênio do cérebro. Uma série de pesquisas tem procurado demonstrar seus efeitos sobre o desempenho cognitivo na menopausa e os resultados são bem discretos. Vale ressaltar que essas pesquisas envolveram mulheres já na menopausa e por isso a discussão está longe de ser encerrada. O efeito da soja na transição da menopausa pode ser diferente.

100 and 50 Brazilian Reais Banknotes

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Por Dr. Ricardo Teixeira

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Uma pesquisa que acaba de ser publicada pelo jornal Neurology da Academia Americana de Neurologia mostra que os jovens que passam por redução de ganhos financeiros anuais maior que 25% têm um cérebro menos afiado ainda na meia idade.

 

O estudo envolveu mais de três mil jovens americanos com idades entre 23 e 35 anos que foram acompanhados por 20 anos. O grupo de jovens que apresentou dois ou mais períodos de queda dos proventos (>25%) apresentavam menor desempenho nos testes cognitivos mesmo quando se ajustava fatores como escolaridade, atividade física, tabagismo e hipertensão arterial. Cerca de 700 voluntários também foram submetidos a exames de neuroimagem no início do estudo e 20 anos depois. Aqueles com maior instabilidade financeira tiveram maior redução do volume cerebral e uma piora do padrão de conectividade entre as diversas regiões cerebrais.

 

São várias explicações possíveis para esses achados. As reduções de proventos podem dificultar o acesso à assistência médica e consequente déficit de tratamento de problemas de saúde. Estudos anteriores mostram que condições financeiras desfavoráveis aumentam o risco de doenças como depressão, ansiedade, obesidade, hipertensão arterial, que por si só já estão associados a um menor desempenho cognitivo. A instabilidade financeira pode reduzir as oportunidades de estímulos cerebrais saudáveis como incrementos na educação formal, um trabalho desafiador, atividade física, lazer, etc.

 

Os autores nos lembram de que políticas que minimizam esses altos e baixos de rendimentos, como seguro desemprego, podem favorecer a saúde cerebral da população. Mais de um terço dos lares americanos apresentou redução dos proventos maior que 25% entre os anos de 2014 e 2015.

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Por Dr. Ricardo Teixeira*

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Por muito tempo, o termo esclerosado era usado para se referir ao estado de uma pessoa portadora de demência. Hoje consideramos que boa parte das pessoas “esclerosadas” eram, na sua maioria, portadoras da Doença de Alzheimer (DA), mas existem outras causas de demência, como a fronto-temporal e a causada por doença cerebrovascular.

Nos estudos que foram feitos para testagem de novas medicações para a DA, sempre havia um contingente significativo de voluntários que não apresentava qualquer melhora após o início das drogas. Além disso, as pesquisas também mostravam que muitos desses voluntários não apresentavam os marcadores patológicos da doença quando eram submetidos a necropsias. Estudos recentes têm demonstrado que muitas dessas pessoas podem, na verdade, ser portadoras de uma outra forma de demência que recebeu o nome de LATE. LATE é a sigla recém-proposta por múltiplos centros de pesquisa para Limbic-predominant age-related TDP-43 encephalopathy. Limbic é o envolvimento preferencial da doença nos circuitos límbicos, semelhante à DA; Age related nos diz que é uma doença que ocorre em idosos, de forma mais gradual e numa idade até mais avançada que na DA; TDP-43 diz respeito ao acúmulo de proteínas com esse mesmo nome; Encephalopathy significa disfunção cerebral difusa.

Peter Nelson, primeiro autor da publicação, compara o trabalho desse consórcio de pesquisadores com a descoberta da eletricidade por Benjamin Franklin. O grupo publicou no  periódico Brain critérios patológicos para identificação de LATE à necropsia. Os estudos realizados até o momento mostram uma prevalência da patologia de LATE em necropsias que gira em torno de 20% dos indivíduos acima de 80 anos e, em muitos casos, a DA ocorre concomitantemente.

O trabalho abre uma nova janela para o desenvolvimento de modelos animais para pesquisa, biomarcadores e medicamentos específicos que, sem dúvida, serão bem diferentes dos que são atualmente disponíveis para a DA.

Five Bulb Lights

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Por Dr. Ricardo Teixeira*

 

Uma análise feita das carreiras de 31 ganhadores do Nobel de economia nos mostra que existem realmente épocas na vida em que somos mais criativos. Nessa avaliação, foram encontradas duas ondas diferentes de criatividade, uma por volta dos vinte e poucos anos e outra entre os cinquenta e sessenta anos.

 

A primeira onda foi chamada de inovação de conceitos. É o pensar “fora da caixinha”, onde novas ideias põe em xeque o saber convencional. A segunda onda, chamada de inovação experimental, é a produção de conhecimento a partir do saber acumulado e nos traz formas inéditas de análise, interpretação e síntese. Os resultados são concordantes com estudos prévios que analisaram ondas de criatividade nas artes e em outras áreas da ciência. Pablo Picasso e Albert Einstein tiveram suas maiores criações na primeira onda, enquanto Paul Cézanne, Virginia Woolf e Charles Darwin brilharam mais na segunda onda. A Teoria da Relatividade foi publicada por Einstein aos 26 anos de idade e Darwin publicou a Teoria da Evolução aos 51 anos.

 

Essas tendências apontadas acima não são uma regra absoluta. Shakespeare escreveu Hamlet aos 38 anos de idade e logo depois escreveu obras que não foram tão agraciadas. Uma pesquisa publicada pela revista Nature mostra que entre cientistas e artistas existe uma produtividade acima da média que dura uns cinco anos. Estamos falando de qualidade e não de quantidade e esses picos podem acontecer em diferentes fases da vida.

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*Dr. Ricardo Teixeira é neurologista e Diretor Clínico do Instituto do Cérebro de Brasília

 

 

 

Man and Woman Holding Wine Glasses

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Por Dr. Ricardo Teixeira

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É isso mesmo. Um casal ao longo do tempo substitui as briguinhas, mais presentes nos primeiros anos de convívio, por bom humor e compreensão.  Essa foi a conclusão de um estudo recém-publicado pela Universidade da Califórnia nos EUA. Os pesquisadores estudaram, através de vídeos, as interações de 87 casais heterossexuais juntos há pelo menos 15 anos. Essa análise era feita por avaliação da expressão facial, conteúdo verbal e tom de voz. As emoções observadas eram então categorizadas em raiva, desprezo, comportamentos defensivos ou de dominação, medo, tensão, tristeza, manha, interesse, afeto, humor, entusiasmo e validação.

 

Os pesquisadores avaliaram por 13 anos o conteúdo emocional das interações desses casais e mostraram que aqueles que tinham mais tempo de estrada apresentavam menos comportamentos críticos e ficavam menos na defensiva. Foram também os que se comunicavam com mais ternura e humor. Os resultados são contrários à ideia de que com o tempo a relação de uma casal se desgasta e fica menos afetuosa. Pesquisas anteriores já haviam demonstrado que a relação estável de longo prazo reduz o risco de ansiedade e depressão.

 

No atual estudo, comportamentos negativos foram menos expressivos em casamentos mais duradouros de uma forma geral, independente do grau de satisfação com o casamento, mas as mulheres tinham uma maior tendência em assumir posturas dominadoras.

 

Outras pesquisas revelam que um projeto de vida a dois bem sucedido tem repercussões positivas em diversas dimensões do equilíbrio psíquico, mas também da saúde física. Por outro lado, um casamento estressante pode ter o efeito oposto, especialmente entre as mulheres.

 

Free Girl's White and Gray Crew-neck Top Holding Gray Wire Fence Stock Photo

A pobreza é reconhecida como um dos principais fatores que contribuem para o número de pessoas com retardo mental ao redor o mundo. Em países desenvolvidos, a prevalência de retardo mental situa-se em torno de 3-5 / 1000 indivíduos, enquanto em países pobres encontramos uma prevalência que chega a ser cinco vezes maior. A pobreza está por trás de dois dos principais fatores de risco para o retardo mental: deficiência nutricional e de estímulo cerebral. O problema deve ser visto como uma epidemia neurológica escondida. Do ponto de vista de saúde pública, a pobreza tem um impacto sobre o estado neurológico muito maior que a grande maioria das doenças neurológicas com suas organizadas sociedades médicas e associações de pacientes, e com seus medicamentos que movem o business da saúde.

Uma pesquisa recém-publicada pela revista Neurology mostra que mesmo as crianças que não desenvolvem retardo mental chegam em idades avançadas com menor desempenho cognitivo quando crescem em situação de pobreza. Assim como qualquer outro sistema do nosso corpo, o cérebro envelhece e os resultados da presente pesquisa evidenciam um envelhecimento mais rápido entre os pobres.

O estudo incluiu cerca de vinte mil adultos de 16 diferentes países europeus. Para avaliar o perfil socioeconômico na infância, eles usaram um método que incluía questões como o número de quartos e pessoas que viviam na casa e o número aproximado de livros. A análise apontou que 4% dos participantes viveram adversidade socioeconômica na infância. Estes tinham menor grau de educação formal, eram menos empregados, apresentavam mais sintomas de depressão e menos hábitos saudáveis. Mesmo após correção para esses fatores negativos, esses 4% tiveram uma perda mais acelerada da capacidade cognitiva com o envelhecimento. Outras pesquisas já haviam demonstrado que pobreza na infância está associada a uma redução do volume da substancia branca e cinzenta do cérebro.

Atacar de frente a pobreza vai além da questão de humanismo e de direitos humanos. O Banco Mundial reconhece que dentre todas as intervenções em saúde, o controle da desnutrição pode ser considerado a que apresenta melhor custo-benefício. E os primeiros anos de vida de uma criança são os mais vulneráveis para o cérebro, começando a contar desde o primeiro dia da concepção, na barriga da mãe. A mãe precisa comer bem. Todo mundo tem que comer bem. E uma coisa puxa a outra. Crianças desnutridas têm menor chance de chegar à escola, e quando chegam, têm maior chance de evasão.

Pense nisso na hora de votar. Um país com cérebros que não atingem o pleno potencial não vai para frente.

Five Bulb Lights

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As pessoas criativas não são necessariamente experts em uma determinada atividade. Ao invés de praticar exaustivamente um caminho já conhecido, elas criam sua própria rota. Picasso tinha habilidades de desenhista de dez mil horas antes de fazer suas obras desencontradas e geniais.  A prática ajuda muito, mas não é tudo.

 

Existem atividades mais dependentes da prática do que outras. São atividades em que as regras para ser um “virtuose” já são bem estabelecidas. Podemos citar o xadrez, o esporte e a performance musical. De qualquer forma, sempre existirá o espaço mágico da criatividade. De um lado temos o criador que rompe com o já conhecido e do outro o incrível intérprete. De um lado temos um Garrincha e do outro Carlos Alberto Torres.

 

Obras e produtos criativos não são meros resultados de expertise. Eles precisam ser originais, surpreendentes e fazerem diferença por serem úteis. Originais porque os criadores transcendem o virtuosismo e vão além do repertório padrão. Fazer diferença é fundamental, pois o criador deve satisfazer necessidades. O iPhone não seria um sucesso se não resolvesse problemas. Ser surpreendente não só para uma ou outra pessoa, mas para quase todo mundo. As descobertas de Galileu são um bom exemplo.

 

Elenco abaixo dez evidências que mostram que a prática e experiência não garantem a criatividade.

  • a criatividade é frequentemente cega. O criador não tem certeza se sua ideia será aceita;

 

  • o processo criativo é errático. Shakespeare escreveu Hamlet aos 38 anos de idade e logo depois escreveu obras que não foram tão agraciadas. Entretanto, uma pesquisa recém-publicada pela revista Nature mostra que entre cientistas e artistas existe uma onda de produtividade acima da média que dura uns cinco anos. Estamos falando de qualidade e não de quantidade, e essa onda pode acontecer em diferentes fases da vida;

 

  • a regra dos dez anos de prática nem sempre é verdadeira. Um estudo destrinchou o percurso de 120 compositores clássicos e mostrou que uma década de prática é uma condição frequentemente necessária para as primeiras grandes criações. Entretanto, alguns compositores demoraram menos, enquanto outros muito mais;

 

  • talento ajuda muito. Se definirmos talento como a velocidade com que uma pessoa adquire expertise, podemos dizer que as pessoas criativas são mais talentosas. Precisam de menos tempo para alcançar esse nível de expertise e logo em seguida já viram o disco e passam a sobrevoar o desconhecido;

 

  • o tipo de personalidade também ajuda. Pessoas criativas não se conformam com o arroz e feijão, não costumam ser convencionais, gostam de correr riscos e não raramente têm alguma psicopatologia;

 

  • os genes também influenciam. Calcula-se que um terço a um quarto do desempenho depende da carga genética do indivíduo e isso repercutirá no poder criativo. É claro que os fatores ambientais influenciam e muito;

 

  • os criativos costumam ter interesses amplos. Cientistas bem-sucedidos e criativos têm vários hobbies e interesses. Galileu era fascinado pelas artes, especialmente a música e literatura;

 

  • excesso de expertise pode inibir a criatividade. Mais nem sempre é melhor;

 

  • o olhar de fora tem suas vantagens criativas. Um querido professor me dizia que, quando suas ideias no laboratório estavam pouco criativas, ele ia para a biblioteca folhear periódicos de áreas radicalmente distantes e muitas vezes saía dizendo eureca;

 

  • os criativos são bons não só para resolver problemas. São bons também para encontrar problemas. Nem sempre são os mais eficazes, mas seus olhos conseguem enxergar o que ninguém ainda se deu conta.

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Um conceito fundamental para entendermos melhor como investir bem em nosso cérebro é o de Reserva Cerebral. Se o cérebro tem uma tendência natural a perder um pouco de sua performance em idades mais avançadas, quanto mais conexões formarmos no decorrer da vida, quanto mais aumentarmos nosso repertório, menor a chance de que pequenas perdas estruturais tenham repercussão funcional. E o que dirá quando o indivíduo apresenta doença cerebral como a Doença de Alzheimer? Maiores reservas fazem com que mais tempo de doença seja necessário para que ela se manifeste clinicamente. Ou seja, quanto maior a reserva, mais tempo o cérebro mantém seu funcionamento normal, mesmo que ele esteja doente.
 
O status sócio-econômico e educacional é sem sombra de dúvidas um dos pilares mais fortes de nossa Reserva Cerebral, sendo que quanto maior esse status, maior reserva temos. Até mesmo a época em que nascemos faz diferença, sendo que indivíduos que nasceram e cresceram em épocas mais recentes apresentam melhor desempenho cognitivo do que suas gerações anteriores. Um dos estudos que bem ilustra esse efeito é o Nun Study que analisou o repertório lingüístico do diário de freiras quando jovens. Os diários que receberam maior pontuação foram de freiras que apresentaram melhor performance em testes cognitivos quando idosas e eram também  mais longevas e com menor risco de demência.
 
Estudos recentes demonstram que o cérebro do idoso ao ser treinado responde com melhora de desempenho nas habilidades treinadas. Tais treinamentos foram realizados com exercícios para estimulação da memória, resolução de problemas, velocidade de processamento, alguns deles por meio de sofisticados softwares. Entretanto, parece que atitudes mais instintivas e artesanais podem ter efeito também bastante significativo: a atividade de lazer é um exemplo.
 
Repetidos estudos vêm demonstrando que lazer é coisa séria, e que sua presença está associada a um menor risco do indivíduo em desenvolver demência. A explicação reside no fato de que o lazer também é capaz de treinar nossos cérebros, aumentando nossa Reserva Cerebral. O interessante é que algumas atividades de lazer parecem ser mais positivas do que outras. Estudos realizados na cidade de Nova York revelaram que as atividades mais “protetoras” foram leitura, palavras cruzadas, jogos de tabuleiro, passeios turísticos, visitas a amigos e parentes, idas ao cinema, restaurante ou a evento esportivo, tocar instrumento musical. Talvez isso tudo tenha mais efeito do que treinamentos no computador através de jogos que são comercializados com a promessa de promover a atividade cognitiva. Uma pesquisa publicada este mês pela Universidade de Western Ontário mostrou que o treinamento nesse tipo de jogo melhora o desempenho no jogo em que a pessoa foi treinada, mas os resultados não são estendidos para outros jogos que usam estratégias cerebrais semelhantes.  
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Bastante provocador foi o resultado de um estudo realizado na China confirmando que leitura e jogos de tabuleiro estavam associados a menor declínio cerebral após os 55 anos de idade. Entretanto, indivíduos com mais horas dedicadas à televisão apresentaram mais chance de declínio cognitivo e menor dedicação a outras atividades de lazer. Discute-se o fato de que muito daquilo que o indivíduo vê na TV demanda pouco da atividade cognitiva. Isso não quer dizer que um maior tempo de TV causa declínio cognitivo, mas pode ser a conseqüência de um estado pré-clínico de déficit cognitivo com redução do interesse por outras atividades. 
 
De qualquer forma, precisamos estar atentos em estimular os nossos jovens a desenvolver um repertório amplo de atividades de lazer “inteligentes”, pois os hábitos são mais fáceis de serem adquiridos quando iniciados em fases mais precoces da vida. Quanto aos nossos idosos, atenção redobrada. Podemos começar por melhor conhecer e demandar aquilo que está escrito no Estatuto do Idoso, em vigor em nosso país desde 2003:
 
Art. 3º. É obrigação da família, da comunidade, da sociedade e do
Poder Público assegurar ao idoso, com absoluta prioridade, a efetivação do
direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, à cultura, ao esporte, ao lazer, ao trabalho, à cidadania, à liberdade, à dignidade, ao respeito e à convivência familiar e comunitária.
 
Art. 21º . O Poder Público criará oportunidades de acesso do idoso à
educação, adequando currículos, metodologias e material didático aos programas educacionais a ele destinados.
 
Art. 24º . Os meios de comunicação manterão espaços ou horários
especiais voltados aos idosos, com finalidade informativa, educativa, artística e
cultural, e ao público sobre o processo de envelhecimento.
 
Os Titãs não estavam falando em luxo com: “a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”.

People Wearing White Clothes

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Pessoas que pensam ter menos anos do que consta na certidão de nascimento têm um cérebro que envelhece mais lentamente. Essa é a conclusão de uma pesquisaconduzida por pesquisadores da Universidade de Seoul na Coréia do Sul e recém-publicada no Frontiers of Neuroscience.

 

O sentimento do quanto nos sentimos jovens ou velhos é também chamado de idade subjetiva e está associado a vários marcadores de saúde, como desempenho cognitivo. Idosos com queixas de memória simples, por exemplo, têm mais chances de no futuro apresentar um quadro demencial. É como se fosse uma percepção subjetiva daquilo que os médicos e exames não conseguem ainda mostrar naquele momento.  

 

O presente estudo mostrou que idosos que se sentem mais jovens têm melhores pontuações em testes de memória, menos sintomas depressivos e consideravam ter um melhor estado de saúde. Além disso, estudos de neuroimagem mostraram que o cérebro desses idosos que se acham mais jovens tem um maior volume da substância cinzenta. Essa relação foi independente de outros fatores como a presença de sintomas depressivos.

 

Os pesquisadores levantam a questão de que a experiência subjetiva de se sentir mais velho do que realmente é pode acelerar o processo de envelhecimento cerebral com redução do volume da substância cinzenta. Por outro lado, aqueles que se sentem mais jovens têm uma rotina mais ativa, mais atividade física e mental, supervitaminas para o cérebro.

   

Close-Up Photography of Woman Wearing Red and Black Scarf

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Mais da metade das mulheres apresentam queixas de memória na fase de transição para a menopausa e temos algumas evidências de que, nessa fase da vida, elas realmente apresentam uma menor velocidade de processamento cognitivo e menor desempenho da memória verbal.

Uma forma de explicar essa lenhificação do pensamento na transição da menopausa é que a redução ou flutuação dos níveis do hormônio estrogênio pode dificultar o pleno funcionamento cerebral. Já foi bem demonstrado que algumas áreas cerebrais são ricas em receptores de estrogênio, regiões que são fortemente vinculadas à memória, como é o caso do hipocampo e o córtex pré-frontal. Além disso, estudos experimentais revelam que o estrogênio é capaz de elevar os níveis de neurotransmissores e também promovem o crescimento neuronal e formação de conexão entre os neurônios.

Nada de pessimismo! A boa notícia é que esses efeitos parecem ser limitados, já que as mulheres voltam a apresentar o mesmo desempenho cognitivo que tinham antes da menopausa após ultrapassarem a transição. Além disso, as mulheres que recebem reposição hormonal antes do término da menstruação são beneficiadas do ponto de vista cognitivo, o que não acontece com aquelas que começam esse tipo de tratamento após o término da menstruação. Essa é mais uma evidência de que a reposição hormonal deve ser utilizada pelo menor tempo necessário. Temos até evidências que o uso prolongado desse tipo de tratamento pode levar à perda do volume de substância cinzenta do cérebro e declínio cognitivo.

Uma pesquisa publicada na última edição do periódico da Academia Americana de Neurologia aponta também que, quanto mais tarde se dá o início da menopausa, melhores são os indicadores de desempenho cognitivo e o uso de reposição hormonal não teve qualquer influência. Esses resultados não foram válidos para os casos de menopausa cirúrgica, condição em que as mulheres têm os ovários removidos cirurgicamente.

E suplementos de soja podem ajudar? A soja é a principal fonte de isoflavonas da dieta, micronutrientes que se ligam aos receptores de estrogênio do cérebro. Uma série de pesquisas tem procurado demonstrar seus efeitos na menopausa e os resultados, apesar de conflitantes, não têm sido muito animadores. Os estudos mais robustos até chegaram a evidenciar uma melhora na capacidade de memória visual (ex: reconhecimento de rostos), mas sem impacto relevante em outras funções cognitivas. Vale ressaltar que essas pesquisas envolveram mulheres já na menopausa e por isso a discussão está longe de ser encerrada. O efeito da soja na transição da menopausa pode ser diferente.

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