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Pesquisas têm demonstrado nos últimos anos que, mesmo dentro da cidade, o contato com o verde pode trazer benefícios ao cérebro. Voluntários ao caminharem pela cidade com um aparelho de eletrencefalograma portátil, e passarem por ruas comerciais agitadas, apresenta o cérebro excitado. O contrário acontece em um parque da cidade, quando as ondas cerebrais ficam mais “meditativas”. Sabemos também que pessoas que moram próximas a árvores e parques têm níveis menores do hormônio do estresse cortisol quando comparadas às que vivem cercadas de concreto por todos os lados.

Já é bem reconhecido que as pessoas que vivem nas grandes cidades têm maior risco de apresentar transtornos mentais. Através de ressonância magnética funcional, foi demonstrado que o cérebro de quem mora no campo reage de forma diferente a estímulos de estresse quando comparados aos moradores da cidade. Isso rendeu até a capa da prestigiada revista Nature. Os pesquisadores mostraram uma maior ativação das amígdalas entre os moradores de grandes cidades e foi curioso o fato de que isso estava presente mesmo nos adultos que viveram nas “selvas de concreto” somente na infância.

Outro estudo, conduzido pelo Instituto Max Planck na Alemanha, apoiou esses achados ao demonstrar que as pessoas que moram ao redor de muita natureza têm maior integridade de uma das regiões do cérebro mais associadas ao processamento do estresse e reações frente ao perigo. E essas estruturas são as amígdalas. Mas para desvendar a velha pergunta, o que vem primeiro, o ovo ou a galinha, o Instituto Max Planck acaba de publicar novos resultados apontando que o contato com a natureza é que é responsável por essa maior integridade, e não o contrário. Digamos que pessoas com essa anatomia avantajada das amígdalas tivessem a tendência em morar mais próximos à natureza. Provavelmente não é isso o que acontece. Dessa vez foi comparada a ativação das amídalas, por ressonância magnética funcional, após uma hora de caminhada na floresta ou numa rua movimentada. Após a caminhada na floresta, as amígdalas ficaram menos ativadas, o que não aconteceu com os voluntários que ficaram nas ruas da cidade.  

O local onde moramos pode mesmo influenciar nossa saúde, não só a saúde mental. Sabemos que morar à beira de rodovias aumenta o risco de doenças cardiovasculares devido à poluição do ar, e quanto maior o número de restaurantes “fast food” na vizinhança, maior o risco de infarto agudo do coração e derrame cerebral. O risco de diabetes é menor em comunidades que têm na vizinhança boas opções para realização de atividade física, além de comércio com oferta de produtos alimentícios saudáveis. Isso sem falar no trânsito.

No ano de 2017, Roger Federer, aos 35 anos, ganhou seu oitavo título de Wimbledon e foi o atleta mais velho a faturá-lo. Nesse mesmo ano, uma pesquisa publicada pelo periódico PLOS ONE, envolvendo mais de três mil voluntários com idades entre 16 e 44 anos, nos mostrou que aos 24 anos alcançamos nosso pico de desempenho cognitivo-motor. Apontou ainda que a maturidade traz algumas compensações. O desempenho dos voluntários, após milhares de horas num jogo de computador com a mesma lógica do xadrez, foi medido pela rapidez com que reagiram aos seus oponentes e pelas estratégias que usaram no desafio. Jogadores mais velhos, apesar de mais lentos, compensaram a desvantagem de velocidade com estratégias mais eficientes no jogo.

Quando se pensa em criatividade, a maturidade traz também suas compensações. Uma análise feita das carreiras de 31 ganhadores do Nobel de economia nos mostra que existem épocas na vida em que somos mais criativos. Nessa avaliação, foram encontradas duas ondas diferentes de criatividade, uma por volta dos vinte e poucos anos e outra entre os cinquenta e sessenta anos.

A primeira onda foi chamada de inovação de conceitos. É o pensar “fora da caixinha”, onde novas ideias põem em xeque o saber convencional. A segunda onda, chamada de inovação experimental, é a produção de conhecimento a partir do saber acumulado e nos traz formas inéditas de análise, interpretação e síntese. Os resultados são concordantes com estudos prévios que analisaram ondas de criatividade nas artes e em outras áreas da ciência. Pablo Picasso e Albert Einstein tiveram suas maiores criações na primeira onda, enquanto Paul Cézanne, Virginia Woolf e Charles Darwin brilharam mais na segunda onda. A Teoria da Relatividade foi publicada por Einstein aos 26 anos de idade e Darwin publicou a Teoria da Evolução aos 51 anos.

Um estudo mais recente, publicado pela Nature Human Behavior, nos mostra que com o envelhecimento temos realmente um declínio no desempenho da atenção e funções executivas, fato esse já bem demonstrado por inúmeros estudos. Entretanto, os pesquisadores apontaram também que algumas funções executivas e de atenção não apresentaram piora. Voluntários, até mesmo entre os 70 e 80 anos de idade, revelaram melhor desempenho que os mais jovens.

Nesse último estudo, o estado de alerta realmente foi menor entre os mais velhos. É a capacidade de estar pronto para frear o carro numa intersecção. Já nos testes de orientação espacial, definida como a capacidade de mudar o foco de atenção para um outro ponto do espaço, os velhos se saíram melhor. É a capacidade de perceber, por exemplo, um pedestre aguardando para atravessar na faixa. Já na capacidade executiva de inibir estímulos que levam à distração do foco naquilo que realmente interessa, os velhos também foram melhores. É a capacidade de não ficar prestando atenção nos passarinhos e reduzir o foco na direção.         

Mas como explicar o melhor desempenho em um cérebro mais velho que já passou por inúmeras alterações estruturais e fisiológicas? A experiência ao longo dos anos é capaz de explicar esse fenômeno? Há um robusto corpo de evidências de mecanismos adaptativos para reduzir o impacto das perdas que acumulamos ao longo dos anos. Isso vai desde compensações no metabolismo cerebral, como ter o mesmo resultado com menos energia. Maior a experiência, menor ativação neuronal, menor gasto energético e maior eficiência. Um estudo com uma droga usada para controle da epilepsia mostrou esse ajuste de gasto energético com bons resultados clínicos na cognição de idosos com declínio cognitivo.

Essa adaptação envolve também a reorganização de redes neurais ao longo das décadas. A reorganização conta até com o recrutamento de áreas do cérebro não tão envolvidas entre os jovens para uma dada tarefa, incluindo a participação maior de ambos os hemisférios, como é o caso da memória episódica. E não há dúvida que a atividade física e estímulos cognitivos amplificam o impacto desses mecanismos adaptativos.   

“Serviço aos outros é o aluguel que pagamos pelo nosso quarto aqui na Terra.” – Muhammad Ali

Um estudo recém-publicado pelo periódico PLOS Biology e conduzido por pesquisadores da Universidade de Berkeley no EUA demonstra que a falta de sono afeta nossas interações sociais fazendo com que tenhamos menor tendência em ajudar os outros. No dia seguinte a uma noite mal dormida, os voluntários se mostraram com menor tendência a ações altruístas simples, como abrir a porta para o outro. O estudo mostrou também que a privação de sono leva a uma menor ativação no cérebro de áreas envolvidas na empatia e, por último, de que doações para fundos de caridade são 10% menores na primeira semana do horário de verão, nos estados americanos que adotam essa medida.

A pesquisa aponta a importância do sono não mais focada no indivíduo, mas sua relevância nas interações sociais. Individualmente, já sabíamos que a privação de sono está associada a um maior risco de doenças cardiovasculares, diabetes, hipertensão arterial, obesidade, depressão e disfunção sexual. O presente estudo revela que um sono insuficiente degrada as interações sociais entre os indivíduos, degrada nossa consciência social básica de ajudar o outro. Não dormir bem afeta não só o seu bem estar físico e emocional, mas os efeitos deletérios do seu círculo social e até de estranhos. O sono adequado poderia até ser considerado um “lubrificante social”.

Estudos anteriores mostraram que a privação de sono leva a um julgamento mais negativo das expressões faciais dos outros e pode estar associado a uma menor motivação para a interação social no mundo real. Isso também foi sugerido pelos resultados de uma pesquisa publicada pela Nature Communications em 2018. Muito interessante é o fato de que a privação de sono dispara um sinal de repulsa social naqueles que estão sem dormir, mas também entre aqueles que estão interagindo com o insone. Como dizemos anteriormente, os efeitos se dão em rede!

E a relação entre privação de sono e sociabilidade é de via dupla. Camundongos submetidos a isolamento social passam a ter o sono menos eficiente. Em humanos acontece o mesmo. Em humanos, a promoção de socialização melhora o padrão do sono e a falta de sono aumenta a tendência ao isolamento social. Sabemos também que a privação de sono está associada uma maior ativação das amígdalas cerebrais quando em frente a estímulos de contextos negativos ou prazerosos. Vale lembrar que amígdalas ativadas aumentam o hormônio do estresse cortisol e nos deixam prontos para a luta ou para a fuga.

Além de saúde, o que os pais mais desejam aos filhos é que eles sejam bons, felizes e com boas relações de amizade. A relação entre bondade, amizade e felicidade tem sido descrita como de reciprocidade. Pessoas mais felizes têm maior tendência a apresentar comportamentos prossociais e também de ter um bom círculo de amizades. Crianças com boa aceitação pelos amigos, por outro lado, também são mais cooperativas e equilibradas emocionalmente. Além disso, pessoas mais felizes têm mais ferramentas para fazer o bem aos outros, atitude que também promove o bem estar.  

Sonja Lyubomirsky, uma das maiores autoridades em pesquisas sobre felicidade, participou de um estudo experimental que aponta que crianças que exercitam a gentileza passam a se sentir mais felizes e também a serem mais populares com seus coleguinhas.

Quatrocentas crianças canadenses com idades entre 9 e 11 anos foram estudadas em dois diferentes grupos. Metade delas foi orientada a fazer três ações de gentileza por semana, por exemplo, dividir o lanche com um amigo ou dar um abraço na mãe ao sentir que ela está estressada. A outra metade tinha a tarefa de visitar três lugares diferentes por semana, por exemplo, o parquinho e a casa dos avós.

Após quatro semanas, as crianças sentiram-se mais felizes e passaram a ser mais populares, mas esses efeitos foram maiores entre aquelas que cumpriram as tarefas de gentileza. Escalas de felicidade e bem estar foram aplicadas e a popularidade foi medida pelo número de coleguinhas que escolhiam a criança como potencial parceiro para um trabalhinho escolar.

Se ações de gentileza são tão boas para quem as faz, por que elas não são mais comuns no nosso dia a dia? Uma explicação para esse fenômeno foi explorada por um estudo publicado recentemente por pesquisadores da Universidade de Austin nos EUA. Eles demonstraram através de vários experimentos que há uma expectativa descalibrada do impacto que uma ação prossocial pode gerar no bem-estar psíquico de quem recebe. Quem faz a ação julga que o resultado na vida do outro será menor do que acontece na realidade. Se as pessoas ao fazerem pequenas ações gentis aos outros tivessem consciência da grande diferença que elas podem fazer, certamente fariam mais dessas ações. Isso aumentaria o bem-estar psíquico de quem dá e de quem recebe. Os experimentos também confirmaram o aspecto contagiante de ações de gentileza – gentileza gera gentileza.    

Algumas doenças podem ter um efeito devastador na vida de um paciente e suas famílias, especialmente no caso do câncer e de doenças degenerativas e progressivas como a Doença de Alzheimer. Perguntas comuns nessas situações como Por que comigo?, Por que logo com meu filho?, Por que isso tudo?  nos dão uma pista de que além dos cuidados físicos e emocionais, uma janela preciosa na relação  entre a equipe de saúde  e o paciente e seus familiares pode estar se abrindo: a dimensão espiritual.

De acordo com a Conferência de Consenso Internacional em Espiritualidade na Assistência Médica, espiritualidade é a maneira com que as pessoas buscam significado, propósito, conexão, valor ou transcendência. Isso pode incluir religiões, mas também outras formas de busca de sentido através de conexão, por exemplo, com a família, comunidade ou natureza. Para pessoas sem doença, a experiência espiritual em comunidade, como é o caso da participação regular em cultos religiosos, está associada a uma vida mais saudável, maior longevidade, menos depressão e suicídio e menor uso de substâncias psicoativas. O respeitadíssimo periódico da Associação Médica Americana (JAMA) publicou bem recentemente a mais rigorosa análise desse binômio espiritualidade e saúde. O estudo foi conduzido pela Universidade Harvard.

Estudos revelam que mais de 90% dos médicos acreditam que as crenças espirituais dos pacientes devem ser consideradas. Entretanto, apenas 30% dos médicos acreditam que essas crenças devam efetivamente ser abordadas, e só 10% adotam essa prática, mesmo entre pacientes terminais. Por outro lado, sabemos também serem bastante ruins os indicadores que medem a satisfação de pacientes quanto ao cuidado dispensado pela equipe de saúde aos seus aspectos emocionais e espirituais, evidenciando uma fraqueza dos serviços de saúde que precisa ser trabalhada. 

Já temos um razoável corpo de evidências que indivíduos com uma maior vivência espiritual têm uma melhor relação com a doença: maior cooperação no tratamento, maior capacidade de lidar com o estresse emocional, melhora mais rápida de sintomas depressivos. Além disso, o envolvimento com uma comunidade religiosa está associado a uma maior rede social, e há tempos sabemos que pessoas socialmente integradas têm menos chance de adoecer, e quando doentes, a rede social é uma das principais fontes de apoio. Entretanto, as crenças religiosas nem sempre estão a favor da saúde do paciente, já que podem em alguns casos dificultar a aderência ao tratamento com ideias do tipo: esse é o desejo de Deus, Deus me abandonou, este é o meu destino, este é o meu castigo, etc. Em situações como essas, é importante que a equipe de saúde esteja minimamente preparada para abordar as dimensões religiosas / espirituais do paciente com a intenção de aumentar a aderência e sucesso do tratamento, além de poder contribuir para um maior senso de controle e significado do problema. Tal abordagem pode ainda identificar crenças que podem ser relevantes em determinadas decisões médicas.

Alguns podem pensar que uma conversa dessa natureza pode ser percebida pelo doente como uma intromissão na sua intimidade. Claro que se no início dessa conversa o paciente já demonstra que religiosidade / espiritualidade são dimensões que não são questões importantes na sua vida, então a conversa já deve parar por aí. Ninguém deve também “prescrever” religião aos pacientes, convencê-los que um tipo de crença ou prática seja interessante ou entrar em polêmicos embates sobre religião. A ideia de um melhor entendimento da espiritualidade dos pacientes também não tem como objetivo o médico ou outro profissional de saúde ficar dando conselhos espirituais ao paciente.

Enquanto percebemos uma medicina cada vez mais comercial, em que os pacientes passam mais tempo nas máquinas de exames do que com o médico, há espaço sobrando para a discussão e aprofundamento de questões associadas às questões espirituais dos doentes, e isso já está tomando forma. Cresce o investimento em pesquisas que analisam o impacto da inserção de aspectos espirituais na relação médico-paciente, inclusão do assunto no currículo de graduação médica e, recentemente, a Comissão de Acreditação de Organizações de Saúde nos Estados Unidos incluiu em seu manual de acreditação para hospitais a recomendação de que os profissionais de saúde abordem sim os valores espirituais dos pacientes. Talvez a busca por “medalhas de qualidade” impulsione a tão esperada reumanização da saúde – tratar não só a doença, mas o indivíduo na sua integralidade.

O consumo de café antes de fazer compras aumenta em 30% a quantidade de itens comprados e em 50% nos gastos. Esses são os resultados de uma pesquisa conduzida liderada pela Universidade da Florida nos EUA e publicada recentemente pelo periódico Journal of Marketing.

Os pesquisadores conduziram três experimentos para chegar a esses resultados envolvendo até 300 voluntários comparando o consumo de café expresso (100mg cafeína) com café descafeinado e água. Além de comprar e gastar mais, aqueles que tomaram o expresso compraram mais itens não essenciais, como velas aromáticas e fragrâncias. Isso foi demonstrado tanto em lojas físicas como em laboratório em compras pela internet. O efeito da cafeína sobre o comportamento de consumo foi bem menor estre aqueles que já consumiam café em grandes quantidades. Impulsividade associada à cafeína já foi demonstrada entre jogadores patológicos e até mesmo entre indivíduos com comportamento sexual de risco.

Por outro lado, a cafeína nos deixa mais alertas e pode inibir o comportamento impulsivo associado à privação de sono. A privação de sono deprime a função dos sistemas envolvidos no julgamento e percepção de risco e a cafeína minimiza esses efeitos negativos. A substância, nessa situação, ajuda, mas não em todas as dimensões cognitivas. Uma noite mal dormida deixa o cérebro menos eficiente em tarefas que demandam atenção e outras funções executivas. Uma dose de cafeína tem o poder de melhorar o desempenho cognitivo apenas em tarefas que exigem vigília e atenção, mas não naquelas que exigem processamento executivo mais complexo. Na privação de sono, mesmo com cafeína, a chance de erro é maior.

Uma pesquisa demonstrou, através de Ressonância Magnética Funcional e testes psicológicos, que uma noite sem dormir muda a forma como o cérebro processa a chance de ganhar ou perder. Uma noite com privação do sono provoca aumento de atividade cerebral em regiões que processam expectativas otimistas e reduz a atividade de outras que processam expectativas pessimistas. Além disso, os testes psicológicos evidenciaram que os voluntários se mostraram mais sensíveis a recompensas e com menor sensibilidade a consequências negativas.

Maior bem estar, concentração, autoestima e rendimento acadêmico. Menores índices de sintomas ansiosos e depressivos e menos problemas sociais. Esses são exemplos dos efeitos positivos da atividade física sobre as crianças e adolescentes. Nesta última semana, um estudo envolvendo mais de 11 mil crianças e adolescentes nos EUA mostrou que esses benefícios apontados acima realmente existem, mas apenas nos esportes coletivos. Quando as crianças praticavam apenas esportes individuais, a chance de problemas sociais, de atenção, ansiedade e depressão foi até maior que entre os sedentários. As atividades coletivas são um campo fértil de oportunidades na construção de relações sociais promovendo assim um melhor equilíbrio mental. E essa interação social é um combustível mais do que necessário nessa faixa etária.

Alguns estudos já tinham demonstrado a superioridade de atividades esportivas sobre o equilíbrio mental entre crianças e adolescentes, mesmo que o esporte seja individual. Entretanto, algumas pesquisas já apontavam que os esportes solitários podem favorecer o burnout entre atletas jovens dentro de uma cultura de altos volumes de treino e competitividade. Às vezes, podem até incitar comportamentos amorais. Crianças e adolescentes que competem em esportes individuais podem sofrer por uma maior cobrança pelos outros e por si próprios, já que os resultados são extremamente dependentes dos seus desempenhos. A olimpíada de Tóquio em 2021 descortinou essa problemática como nunca antes. E quando se fala em atletas de elite, é claro que o problema também existe nos esportes coletivos. 

Um estudo recém-publicado por pesquisadores da Universidade de Exeter e Leeds, na Inglaterra, mostra que as pessoas que frequentemente experimentam o sentimento de solidão têm maior chance de ficarem desempregadas no curto e médio prazo, efeito que vai aumentando ao longo do tempo e é maior entre os homens. Aqui temos um círculo vicioso, já que pessoas desempregadas se sentem mais sozinhas.

A solidão está associada não só a transtornos psiquiátricos, como é o caso da depressão, mas a inúmeras doenças, especialmente a doença cardiovascular. É reconhecida como fator de risco comparável ao tabagismo e até pior que a obesidade e sedentarismo quando se pensa no sistema cardiovascular. Está associada também a pior desempenho cognitivo e menor satisfação com a vida. Quanto à influência sobre a empregabilidade, a solidão pode inibir a motivação pela busca de um trabalho ou promover um pior desempenho levando à demissão.

A pesquisa acompanhou mais de quinze mil pessoas no período pré-pandêmico de 2017 a 2020 com idades entre 16 e 65 anos. Chamou-me a atenção essa relação ser mais robusta entre os homens o que me fez lembrar dos efeitos positivos do casamento sobre a saúde física e financeira dos homens:

  • melhores salários e mais estabilidade no emprego
  • vida sexual mais satisfatória. Um estudo americano mostrou que 51% dos homens casados dizem estar extremamente satisfeitos com suas vidas sexuais, comparados a 36% no caso dos solteiros
  • melhor saúde física e mental. Nos EUA, homens casados vivem em média 10 anos a mais que os solteiros e, quando se fala em felicidade, 43% reportam que estão muito felizes, enquanto apenas 24% dos que moram juntos dizem o mesmo
  • os casados têm menos exposição a fatores de risco à saúde

Entre as mulheres, o casamento está associado a bons indicadores de saúde, mas só quando a satisfação com a união é alta. O dramático é que a maternidade está ligada à queda de empregabilidade e salário.

Quando pensamos numa vida cheia de significado vem-nos à mente biografias que contribuíram sobremaneira com a sociedade como Nelson Mandela, Mahatma Gandhi, Martin Luther King, estre outros imortais.

Muitos acadêmicos reconhecem que você pode atingir uma existência com significado por três diferentes caminhos: 1) ter uma vida coerente e em harmonia com seus valores; 2) ter objetivos claros e satisfatórios no longo prazo; 3) acreditar que sua vida faz diferença num contexto maior. Essas formas também são conhecidas como coerência, propósito e importância existencial. Entretanto, os resultados de pesquisas publicadas recentemente pelo periódico Nature Human Behavior aponta um quarto caminho para incrementar a percepção de que a vida faz sentido.

Pense naquela paineira carregada de flores rosas que você encontra na esquina de casa logo pela manhã. Se você está aberto e sensível a esses pequenos momentos de beleza, poderíamos incluir a arte aqui, isso permitirá uma conexão com algo maior, a beleza inerente da natureza, fazendo com que você enxergue sua própria existência de outra forma. A isso se dá o nome de apreciação experencial. No modo cerebral de deixar o presente adormecido e virar a esquina sem se dar conta de que algo de espetacular está bem ao seu lado, pensando no boleto que está vencendo hoje, você perderá uma bela oportunidade.         

Pesquisadores de três diferentes continentes estudaram mais de 3000 indivíduos para entender como a apreciação experencial está associada com a percepção de uma vida com significado. Em um primeiro estudo, conduzido no início da pandemia por COVID, os participantes eram interrogados sobre a forma como eles aliviavam o estresse nesse período. Aqueles que tinham o hábito de modular o estresse através da apreciação da beleza natural também tiveram altos índices de percepção da vida com significado.       No segundo estudo, eles tinham que responder se concordavam ou não com afirmações como “Eu aprecio muito a beleza da vida”. Houve uma forte associação entre uma resposta afirmativa e sentido na vida, independente dos outros canais de fortalecimento dessa vivência (coerência, propósito e importância existencial). Finalmente, uma série de experimentos foram realizados em que os voluntários tinham que passar por tarefas. Uma delas, por exemplo, era a de assistir um documentário inspirador da BBC Planet Earth ou outros vídeos mais neutros como um tutorial de marcenaria. Aqueles que assistiram o Planet Earth reportaram que suas existências eram mais valiosas.

Os resultados confirmaram a hipótese dos pesquisadores ao mostrarem que apreciação de pequenas coisas pode fazer com que consideremos nossas vidas com mais sentido. Passar por uma lua cheia pensando na listinha de compras que precisa fazer no outro dia é viver no futuro e isso não faz o mínimo sentido. Assim a vida vai passando sem sentido. A vida acontece no presente momento.     

Por Dr. Ricardo Teixeira*

É só uma cabeça equilibrada em cima do corpo (Chico Science & Nação Zumbi)

Costumo provocar alguns dos meus pacientes que buscam minha orientação sobre como melhorar o funcionamento do cérebro de que existe uma hierarquia nas tarefas. A maioria está pensando em melhorar a memória, concentração e capacidades executivas. A hierarquia de tarefas se dá numa certa direção. Para otimizar essas capacidades precisamos estar vivos. Precisamos estar acordados.  Precisamos prestar atenção nas coisas. Só então atingiremos bom desempenho na memória e outras funções cognitivas complexas. Só que no meio desse caminho há uma pedra: nosso equilíbrio psíquico. Você pode estar vivo, mas se o equilíbrio emocional não estiver bem modulado, o resto da cadeia fica bem prejudicada.

Isso já se reflete no segundo passo que é estar acordado. O sono é influenciado sobremaneira pelas nossas emoções. Fica extremamente perturbado quando estamos preocupados, ansiosos ou deprimidos, sem falar de tantas outras condições que perturbam a qualidade do sono, muitas delas muito comuns, como o excesso de trabalho e o consumo exagerado de álcool. Como exigir desempenho do cérebro sem um sono reparador? O fato é que muitos desses fatores ameaçam também o primeiro estágio de nossa hierarquia que é o de nos mantermos vivos. Maiores índices de doenças que reduzem nossa expectativa de vida não nos ajudarão a passar para os próximos estágios.  

Temos um “zilhão” de evidências de que muitas ações que promovem o melhor funcionamento cerebral carregam também o potencial de modular nossas emoções. A atividade física regular libera substâncias no cérebro que o faz funcionar melhor. A mesma atividade física também ajuda no controle das emoções no dia a dia por outras vias neuroquímicas. E aqui nossa hierarquia de ações ganha autonomia de voo, com menos obstáculos para melhores resultados nas funções cognitivas complexas. O mesmo raciocínio vale para a sociabilidade, o trabalho altruísta, a experiência da arte, o contato com a natureza. E coisa boa atrai outras coisas boas.  Onde encontramos lazer, encontramos também mais limites no tempo dedicado ao trabalho. É claro que estamos falando daqueles que têm poder de escolha. Chico Science nos lembra disso em Samba Makossa: A responsabilidade de tocar o seu pandeiro é a responsabilidade de você manter-se inteiro. Se temos poder de escolha, somos um pouco mais responsáveis em manter-nos inteiros do que aqueles que não tem teto, comida na mesa ou que vivem num sistema Casa Grande e Senzala.

E coisa ruim atrai outras coisas ruins. O uso de substâncias neurotóxicas, por exemplo, atrai comportamentos que afetam toda nossa cadeia hierárquica, comprometendoa chance de nos mantermos vivos, nosso sono, nossa cognição. É o tão conhecido círculo vicioso.

Mas se essa discussão está ficando mais embolada do que você esperava, caro leitor, vamos a uma lista simples de atitudes para turbinar seu cérebro.

Durma bem

Pratique atividade física regularmente

A dieta mediterrânea pode preservar o funcionamento do seu cérebro ao longo dos anos (peixes, cereais integrais, frutas, legumes, azeite, pouca carne e laticínios)

Evite substâncias neurotóxicas e aqui se inclui o uso exagerado de álcool 

Sua socialização faz muita diferença

Seu cérebro precisa de atividades estimulantes  

E nesses tempos de pandemia e guerra, mantenha sua cabeça equilibrada em cima do corpo, procurando antenar boas vibrações, preocupando antenar boa diversão. Termino com Lenine, mais um ilustre pernambucano: Enquanto todo mundo espera a cura do mal… A gente espera do mundo e o mundo espera de nós, um pouco mais de paciência.

*Dr. Ricardo Teixeira é neurologista e diretor clínico do Instituto do Cérebro de Brasília

O encontro anual da Academia Americana de Neurologia apresentará, no início de abril, os resultados de uma pesquisa conduzida nos EUA apontando que ter um animal de estimação reduz o declínio cognitivo quando ultrapassamos os 60 anos. Após seis anos de seguimento de 1369 adultos, com média de idade de 65 anos, aqueles que tinham um pet em casa, especialmente quando por um tempo maior que cinco anos, apresentavam desempenho em testes cognitivos com declínio mais lento. No Japão foi demonstrado recentemente que ter um cachorro, e não um gato, reduz pela metade a chance de incapacidade após os 65 anos, efeito ainda mais robusto entre aqueles que praticam atividade física. Uma maior interação social também explica, em parte, esse efeito protetor dos cães.  

Sabemos que adultos que têm um animal de estimação em casa costumam ser mais integrados à comunidade.  Quanto mais um adulto participa do cuidado com o bicho de estimação, mais atitudes altruísticas ele tem na comunidade e entre amigos e familiares. Quanto maior a conexão com os bichos, maior a empatia com as outras pessoas e autoconfiança.

Em 2017 a prestigiada revista Scientific Reports do grupo Nature publicou os resultados de uma pesquisa que envolveu três milhões e meio de indivíduos na Suécia acompanhados desde o ano de 2001. Aqueles que tinham um cachorro como animal de estimação viveram mais! Tiveram menor incidência de doenças cardiovasculares, mas também de outras doenças. O interessante é que os que moravam sozinhos com o cachorro foram os que mais se beneficiaram. Além disso, esse efeito protetor foi maior entre os que tinham cães de caça.

Já tínhamos evidências que essa ligação entre os humanos e os animais é capaz de promover uma redução nos níveis da pressão arterial e do estresse.  Pesquisadores de Nova Iorque demonstraram que pacientes que têm cães sobrevivem mais após passado um ano de um infarto do coração. Nos últimos anos, diferentes grupos de pesquisadores evidenciaram que os indivíduos que têm cães apresentam um menor nível de alterações cardíacas provocadas pelo estresse.

E os efeitos positivos dos animais de estimação não param por aí. Há evidências de que a presença do animal está associada a uma menor procura por consultas médicas pelos indivíduos idosos e menor incidência de depressão.

As crianças também se beneficiam da presença do animal. Os cachorros são ótimos para o equilíbrio psíquico delas em situações estressantes. Durante uma prova de estresse em laboratório, a presença do cão de estimação conferiu uma resposta de estresse menor até mesmo quando comparada à presença dos pais.

Não estou advogando pela substituição dos amigos pelos animais. Entretanto, é razoável hoje em dia recomendar a uma pessoa com poucos contatos sociais, e que goste de animais, que não deixe de experimentar viver com um animal de estimação, pois ele pode fazer muito bem à nossa saúde do corpo e da mente. Também não estou querendo minimizar os efeitos positivos de um gato em casa, mas os estudos até o momento sugerem que os cães realmente parecem trazer impactos mais robustos que os gatos à saúde humana.

Quando alguém nos fala: tenho duas notícias pra contar, uma boa e outra ruim. Qual você quer ouvir primeiro? A grande maioria responde que quer ouvir a ruim antes. Reconhece-se que o ser humano tem uma tendência a dar mais atenção a informações negativas do que às positivas. Ter consciência de informações negativas, e presumivelmente ameaçadoras, pode ser visto como um traço de adaptação da espécie.

E o que dizer do incerto? Numa situação em que alguém nos diz: Tenho uma coisa para lhe contar. Você quer ouvir? Poucos devem discordar que a maioria nessa situação diria: conta logo!

A incerteza é vista pela psicologia como a antecipação de uma ameaça pouco definida. Se a exposição a um estímulo negativo representa uma ameaça, a exposição ao desconhecido pode ser ainda mais ameaçadora, já que não se sabe o tamanho do suposto inimigo. Alguns estudos nos mostram que o suspense da incerteza gera mais alterações fisiológicas associadas à ansiedade do que o confronto a estímulos negativos bem definidos. As pessoas preferem um capeta conhecido a um capeta que ainda não conhecem.

Uma pesquisa publicada pelo periódico Nature Communications confirma essa ideia. Voluntários mostravam mais sinais físicos de estresse quando estavam numa situação de expectativa do que quando já sabiam que o desfecho tinha grande chance de ser ruim. O estudo foi feito com um game em que os participantes tinham que atravessar um terreno pedregoso e ficar atentos a cobras. Caso encontrassem uma cobra eles levariam um pequeno choque. Quando a chance de se deparar com uma cobra era de 50%, níveis máximos de estresse eram encontrados. Quando a chance era de zero ou 100%, os níveis de estresse caíam a níveis mínimos. Por outro lado, o estresse trouxe também seus efeitos benéficos. Quanto maiores os níveis de estresse maior foi a capacidade de fugir das cobras. O estudo foi conduzido por pesquisadores da Universidade de Londres.

Outra pesquisa publicada pela revista Nature Neuroscience revelou que os macacos também querem saber das coisas o mais rápido possível, e que do ponto de vista neuroquímico, esse acesso adiantado à informação é semelhante ao de outros tipos de recompensa cerebral. Neste caso, o experimento envolvia a recompensa de uma quantidade de água maior ou menor. Outras pesquisas têm mostrado que, quando o assunto em questão envolve uma experiência negativa, a preferência por acesso rápido à informação é ainda maior.

Sabe-se desde a década de 1990 que há um contingente de pessoas com transtornos de ansiedade que tem muita dificuldade com a incerteza, e essa dificuldade é vista hoje como um traço de personalidade. As pessoas com quadro de anorexia costumam ter traços de personalidade de perfeccionismo, os obsessivos-compulsivos têm níveis de responsabilidade inflados, e a psicoterapia nessas condições foca os esforços para fazer com que essas características sejam moduladas permitindo um melhor equilíbrio mental. Da mesma forma, as pessoas com alta vulnerabilidade ao incerto devem ter o tratamento psicoterápico focado nessa fraqueza.

As pessoas com maior grau de intolerância à incerteza frequentemente vivem em uma rotina com a menor chance de surpresas. Muitas vezes acabam tomando decisões precipitadas para sair do suspense do desconhecido. E aí vem o megadesafio: a pandemia.  

Tudo passou a ficar em um estado de incerteza absoluto. Trabalho, escola, viagens, boletos a pagar, a vida, tudo incerto. Dezenas de estudos foram feitos desde então mostrando que as pessoas mais frágeis à experiência do desconhecido são as que mais têm sofrido por problemas emocionais nesse período.

Um estudo publicado em janeiro deste ano por pesquisadores da Universidade de Illinois nos EUA reavaliou os voluntários que tinham feito parte de uma pesquisa sobre intolerância ao desconhecido dois anos antes da pandemia. A reavaliação foi feita durante a pandemia e aqueles que tinham maiores escores na escala de intolerância e maior atividade numa região do cérebro chamada de ínsula no estudo inicial foram os que apresentaram maiores níveis de estresse, ansiedade e depressão na pandemia. Mas é claro que a perda de um ente querido provoca mais sofrimento que qualquer incerteza.

Person In The Middle Of A Forest

Pesquisa acaba de ser publicada pelo prestigiado periódico PLOS Biology apontando que a tendência em estar próximo à natureza tem um forte componente genético. O tempo junto à natureza de gêmeos idênticos, que tem quase 100% do material genético igual, é bem mais similar do que o de gêmeos não idênticos (50% do material genético igual). O estudo foi baseado no banco de dados inglês Twins UK com entrevistas relacionadas à relação dos indivíduos com a natureza. Foram abordados itens como familiaridade e desejo de estar em um ambiente natural e frequência de visitas a esses espaços. Mesmo assim, foi calculado que 50% da tendência em ter a natureza no dia a dia tem origem em fatores ambientais, como a facilidade de acessar esses espaços e estímulos de outras pessoas, especialmente quando ainda jovens.

 

Temos inúmeras evidências do quanto a natureza é benéfica para nosso cérebro e nosso equilíbrio psíquico. Quando se pensa no cortisol, hormônio produzido pelas glândulas suprarrenais e associado ao fenômeno do estresse, sabemos que o contato com o verde inibe a produção desse hormônio. Indivíduos que passeiam por áreas arborizadas têm menor produção de cortisol do que aqueles que fazem o mesmo numa rua comercial agitada.  

Mas qual o tempo mínimo de contato com o verde para se ter esse efeito anti-estresse? Pesquisadores da Universidade de Michigan, nos EUA, mostraram recentemente que esse benefício já acontece com 20 minutos de uma vivência em ambiente arborizado no perímetro urbano, independente de atividade física. Outro estudo, ainda mais robusto, foi publicado na revista Scientific Reports envolvendo quase vinte mil voluntários mostrando que o contato com a natureza, a partir de 120 minutos por semana, faz com que as pessoas tenham uma maior auto percepção de saúde e bem estar. O máximo benefício ocorre entre 200 e 300 minutos por semana e o efeito foi o mesmo se a pessoa tem essa vivência de 200 minutos em um só dia ou em parcelas de 30 minutos todos os dias da semana, por exemplo.

Alguns países como a Finlândia, Japão e Coréia do Sul já entenderam bem o recado e têm programas de “banhos de floresta” como forma de promoção da saúde. São muitos os benefícios já demonstrados com essas “pílulas de natureza”. Além da promoção do equilíbrio psíquico, temos ganhos na atenção, memória, linguagem e até na capacidade criativa. Também temos menores índices de doença cardiovascular, obesidade, diabetes, hospitalização por crises de asma e, finalmente, menor mortalidade.

Close-Up Shot of a Typewriter

Um estudo recentemente publicado no JAMA Network Open, conduzido nos EUA, aponta que falsas informações sobre a vacinação contra o coronavírus têm duas vezes mais chances de serem consideradas verdades entre pessoas com sintomas depressivos. De uma forma geral, sabe-se que um estado mental com viés negativista exacerba a propagação de fake news. E pessoas com quadros depressivos estão com suas mentes nesse modo negativista, enxergando o mundo com lentes nem um pouco cor-de-rosa.

O estudo, envolvendo mais de 15 mil voluntários, foi conduzido por pesquisadores da Universidade de Harvard envolvendo todos os 50 estados americanos e Washington D.C. Os pesquisadores mostraram que a prevalência de depressão foi três vezes maior do que a de estudos realizados antes da pandemia. Aqueles que apresentavam sintomas depressivos moderados ou severos acreditavam mais em notícias falsas sobre a vacinação e também eram os que menos se vacinavam. Numa segunda avaliação, realizada dois meses depois, aqueles que tinham sintomas depressivos na primeira avaliação passavam a acreditar ainda mais em informações falsas. Esses achados não foram influenciados pelo posicionamento político de cada um.

Os pesquisadores deixam claro que os resultados não devem ser interpretados como fake news causando depressão, mas que as pessoas deprimidas têm maior tendência em acreditar nesse conteúdo falso e são mais vulneráveis a contrair a infecção por uma menor disposição em se vacinar. 

Woman Placing Her Finger Between Her Lips

Faço nosso o meu segredo mais sincero (Daniel na Cova dos Leões- Renato Russo)

Guardar segredos é trabalhoso para nossa mente e está associado a um menor bem-estar psíquico, ansiedade depressão e piores relações com os outros. A constante vigília para não deixar escapar pistas dos nossos segredos pode ser uma tarefa exaustiva.

Entretanto, novas pesquisa nos apontam que o lado mais complicado dos segredos não é o esforço mental de guardá-los, mas o simples fato de ter que conviver com eles e pensar repetidamente sobre eles. O ato de ruminar segredos é bem cansativo e faz-nos sentir pessoas pouco autênticas.  

Pesquisadores da Universidade de Columbia nos EUA avaliaram mais de 5000 voluntários mostrando que 97% tinham pelo menos um segredo em algum momento da vida e uma média de 13 segredos. Desses 13, cinco jamais foram compartilhados com outra pessoa. Os mais comuns eram os relacionados a desejos, assuntos relacionados à sexualidade, traição e desonestidade. Quanto mais as pessoas pensavam nos seus segredos fora dos momentos de interação social, menores eram os índices de bem estar psíquico. O mesmo não aconteceu com a atitude de prestar atenção para que eles não fossem revelados a outras pessoas. Os pesquisadores ainda demonstraram que quando as pessoas confidenciam um segredo a outra pessoa, e pode ser o psicoterapeuta, elas passam a ruminar menos. E o melhor vem depois da confidência: o suporte emocional e conselhos. Isso faz com que as pessoas convivam de forma mais saudável com os segredos.   

Man Wearing White Dress Shirt With Black Necktie

Sentimentos como nervosismo e entusiasmo são frequentemente associados mais a um gênero do que ao outro. Pesquisadores da Universidade de Michigan, nos EUA, avaliaram se as mulheres realmente são mais emotivas que os homens, já que a ideia de elas serem mais emotivas que eles pode ser só um estereótipo. É comum a flutuação emocional de um homem durante um jogo de futebol ser considerada “paixão”, enquanto as flutuações das mulheres, em qualquer situação e mesmo que provocadas, são interpretadas, por muitos, como irracionalidade.

O estudo acompanhou 142 voluntários (18 a 38 anos) por 75 dias para mapear as emoções positivas e negativas no dia a dia. Os resultados mostraram que os altos e baixos emocionais não foram diferentes entre os gêneros, apesar de terem sido desencadeados por razões diferentes. Entre as mulheres, a flutuação emocional não estava associada ao uso de pílula anticoncepcional.

Os achados têm uma grande implicação na redução do estigma de “mulheres à beira de um ataque de nervos”, já que os homens estão na mesma montanha russa emocional. A pesquisa trará impacto também na inclusão das mulheres em estudos que historicamente as excluem com o argumento de que a flutuação emocional é muito alta e hormônio-dependente. Inúmeros estudos com roedores apontam que essas flutuações na fêmea são até menores do que no macho.

Refrescando a memória sobre esse estereótipo na CPI da covid-19:

Simone Tebet foi chamada de “descontrolada”.

A senadora Leila Barros foi interrompida várias vezes pelo senador governista Marcos Rogério enquanto tentava cumprir seu papel na CPI. Rogério afirmou, na ocasião, que ela estaria “nervosa”.

Ninguém chamou um homem de nervoso ou descontrolado na CPI. Estavam todos em estado de relaxamento profundo.

Black Ring Bell Alarm Clock

O número ideal de horas de sono é aquele que faz com que a pessoa no outro dia sinta que dormiu o suficiente. Um percentual pequeno de pessoas sente-se bem com menos de 7 horas, e estes são chamados de dormidores curtos. Há também os dormidores longos, aqueles que precisam de mais de 8 horas de sono e que também representam uma minoria. Porém, a maior parte da população mundial, incluindo os brasileiros, dorme entre 7 e 8 horas por noite.

Temos evidências de que as pessoas que dormem as 7 horas, mas acordam mais tarde, têm maior risco de desenvolver um quadro de depressão. Um estudo publicado recentemente pelo periódico JAMA Psychiatry mostrou que basta dormir 1 hora mais cedo que esse risco é reduzido em 23%. Se dormir 2 horas mais cedo essa tendência pode ser reduzida em quase 40%.

A pesquisa envolveu 840.000 voluntários e foi a evidência mais robusta até o momento de que a tendência em dormir tarde e acordar mais tarde influencia o risco de depressão. Uma das grandes virtudes do estudo, além do número elevado de pessoas estudadas, foi a análise do perfil genético dos voluntários para a tendência em dormir cedo ou tarde. É estimado que esse perfil explique de 12 a 42% a preferência em ir dormir cedo ou tarde. Na população estudada, 9% consideravam que tinham a tendência em ir dormir tarde, um terço em dormir cedo e o restante em um patamar intermediário. Na média, eles iam para a cama às 23h e acordavam às 6h.  

Aqueles que dormiam tarde ou o grupo intermediário eram contemplados com menor rico de depressão ao ir dormir mais cedo. O estudo não pode dizer se os que já dormiam e acordavam cedo teriam o mesmo benefício. Mas é fato que na população estudada, aqueles com perfil genético de ir cedo para a cama tinham menor chance de apresentar depressão.     

E como explicar esse efeito? Alguns estudos apontam que uma maior exposição à luz durante o dia (tem que acordar cedo!) está associada a padrões hormonais que influenciam o humor. Outra explicação é o impacto psicológico de estar desalinhado da maioria das pessoas que dorme cedo e acorda cedo.  

Nesta última premiação do Oscar, estava torcendo para que o filme “O homem que vendeu sua pele” levasse a estatueta de melhor filme estrangeiro, mas o premiado foi outro. Eu consegui assistir apenas dez minutos do filme vitorioso, pois achei realmente muito chato.

O homem que vendeu sua pele conta a história de um refugiado sírio que faz um contrato com um dos artistas contemporâneos mais cultuados do mundo, aceitando ter suas costas tatuadas e tendo que cumprir uma agenda de exposição em diversos museus mundo afora. Apesar de tratar de uma temática sensível, o seríssimo problema dos refugiados e direitos humanos, o filme foi leve e até com final feliz. Nem por isso deixei de passar uns três dias refletindo e refletindo. Depois de assistir ao filme, chegou até mim um artigo de um crítico de cinema falando que “o filme não está à altura das complexas questões que levanta”.

A leveza dos filmes é frequentemente avaliada por críticos de cinema de forma negativa como filmes sem mérito cultural. Não sou crítico de cinema e não tenho por que me aventurar a apontar que eles estão certos ou errados. Mas o fato é que muita gente aprecia os filmes que nos deixam “para cima” que traz uma “good vibe”. Pesquisadores do respeitado Instituto Max Planck na Alemanha recentemente demonstraram o que os filmes que te deixam pra cima têm em comum.

Cerca de 450 voluntários opinaram e os resultados mostraram que além de pitadas de humor e final feliz, o que faz um filme ser “para cima” inclui também personagens fora dos padrões em busca de um grande amor, que precisam lutar contra circunstâncias adversas e que encontram seu papel na comunidade. Além disso, o filme pode ter momentos de drama que provocam respostas emocionais intensas. E muito importante: todos esses atributos são frequentemente banhados por uma aura de fantasia. Muitos dos que participaram do estudo concordam que os filmes que te deixam para cima podem ser sentimentais, não necessariamente artificiais e são tecnicamente bem feitos.   

O ator que faz o sírio que vendeu sua pele ganhou o prêmio de melhor ator no Festival de Veneza de 2020, mas o filme tem romance, final feliz… Mas prêmio de melhor filme aí já é demais com uma mistura dessas.

“Aí, maloqueiro / levanta essa cabeça / enxuga essas lágrimas, sério / respira fundo e volta pro ringue / você vai sair dessa prisão / você vai atrás desse diploma / com a fúria da beleza do sol, entendeu / faz isso por nós / faz essa por nós / te vejo no pódio”. (Trecho de encerramento de AmarElo – Emicida)

Artistas de Rap são celebridades fortemente reconhecidas pelo público jovem não só nos EUA, mas em inúmeros países em todo o mundo. Uma análise qualitativa das letras das 125 músicas americanas mais populares desse estilo entre os anos de 1998 e 2018 mostrou que houve um significativo aumento da abordagem de temas relacionados à saúde mental: suicídio de 0% para 12%, depressão de 16% para 32% e metáforas relacionadas à saúde mental de 8% para 44%. Nesse mesmo período houve um drástico aumento na prevalência de transtornos mentais entre os jovens americanos.

O estudo acaba de ser publicado pelo periódico JAMA Pediatrics. Novas pesquisas são necessárias para examinar os efeitos negativos e positivos desse aumento substancial nas mensagens que abordam a saúde mental. Pode ser positivo, pois tem o potencial de reduzir o estigma dos transtornos mentais e aumentar a busca por tratamento. Ansiedade, por exemplo, afeta 30% dos adolescentes, mas 80% deles nunca procuraram assistência médica ou psicológica. Apenas 50% dos adolescentes com depressão são diagnosticados antes de atingirem a idade adulta.

Enquanto isso na pandemia… Nos EUA, sintomas de ansiedade triplicaram quando comparado ao ano de 2019 e sintomas depressivos quadruplicaram. A mudança é bem maior à encontrada após o atentado terrorista de 11 de setembro ou o furacão Katrina. E os jovens são especialmente vulneráveis. Cerca de 63% dos americanos com idades entre 18 e 24 anos demostram nesse período de pandemia transtornos de ansiedade ou depressão, 25% relatam que bebem e fumam mais devido ao estresse associado à pandemia e que já consideraram “seriamente” a possibilidade de cometer suicídio.

Unrecognizable female meditating on grass in highlands on sunny day

Por Dr. Ricardo Teixeira*

Pesquisadores da Universidade Wisconsin-Madison nos EUA nos brindaram com um super presente neste fim de ano, uma revisão cuidadosa das dimensões da nossa mente que podem ser treinadas para alcançarmos um melhor equilíbrio psíquico no nosso dia a dia. Depois de nove meses nas incertezas geradas pela pandemia, isso se torna uma ferramenta extremamente útil para nosso bem-estar. Uma pesquisa recente nos EUA demonstrou que enquanto no início da pandemia 33% dos americanos se sentiam afetados psicologicamente, em julho os números já eram de 53%   


O primeiro aspecto a ser treinado é a consciência, atenção ao meio em que se vive, aos sentimentos, pensamentos e sensações. Exercícios de meditação e psicoterapia são ferramentas preciosas para melhorar esse nível de consciência. Um estudo conduzido em 83 países apontou que os adultos passam em média 47% do tempo em que estão acordados sem essa consciência, essa atenção, como se estivessem no piloto automático. E acreditem, ao exercitar a consciência, temos mudanças críticas em circuitos neuronais que facilitam nossa vida.

O segundo exercício é o de conexão, que pode ser chamada também de valorização do outro, bondade e compaixão. É um senso de cuidado aos outros do nosso círculo social e também fora desse círculo com ações humanísticas, altruístas.

O terceiro exercício é para fortalecer nosso insight, ou seja, nosso discernimento, entender a maneira como nossas emoções, pensamentos e crenças afetam nossa experiência subjetiva. Ao nos encontrarmos ansiosos numa dada situação, o insight nos permite reconhecer como as memórias de experiências anteriores colaboram para uma expectativa exagerada de resultados negativos. Psicoterapia e algumas formas de meditação podem fazer nosso insight florescer.  

E enfim o quarto exercício é o de encontrar nosso propósito de vida. É deixar claro quais são nossos valores e objetivos na vida. Estudos mostram que valores e objetivos orientados ao poder e dinheiro têm menores resultados no bem-estar psíquico quando comparados a uma missão de vida voltada às conexões sociais e a contribuições à comunidade. Existem alguns tipos de psicoterapia voltadas ao treinamento de nossa mente para se manter fiel à nossa missão. O psiquiatra austríaco e sobrevivente do Holocausto Viktor Frankl disse: “A vida não deixa de ser suportável por conta das circunstâncias, mas quando ela deixa de fazer sentido”.

Esse treino pode e deve ser diário e promete fazer com que passemos a ser os reais pilotos da nossa mente.

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*Dr. Ricardo Teixeira é neurologista e Diretor Clínico do Instituto do Cérebro de Brasília

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