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Red and White Dart on Darts Board

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Quando pensamos em sucesso vêm às nossas mentes conceitos como boas ideias, trabalho duro, disciplina, criatividade, imaginação, perseverança e até sorte. O que uma pesquisa recente publicada pela Nature nos aponta é que os fracassos devem fazer parte dessa lista também. Mas não é qualquer fracasso. São aqueles que fazem a gente nos aprimorar para as próximas tentativas e que estas não demorem a acontecer.

Os autores do estudo mostram que o que separa os “winners” dos “losers” não é a persistência. Ambos tentam o mesmo número de vezes para alcançar o objetivo, só que os “winners” chegam lá. Eles trabalham duro da mesma forma, mas de forma mais esperta. Os fracassos servem de guias para o aperfeiçoamento para a próxima tacada. Não agem com impulsividade diante de uma batalha perdida. Estão pensando em vencer a guerra. Os “losers” não necessariamente trabalham menos, mas fazem mudanças de táticas além do necessário.

Outro ponto que diferenciava os projetos de sucesso foi a rapidez com que as novas tentativas aconteciam. Quanto mais rapidamente você perceber o fracasso e se organizar para uma próxima investida, melhor. O orientador da minha tese de doutorado, Fernando Cendes, me introduziu esse conceito de forma muito convincente. “Ricardo, se você não encontrar os resultados que procura nessa amostra de 20 indivíduos, não adianta procurar em outros cem. Mude sua tática”.

As conclusões do estudo não querem dizer que disciplina e sorte, por exemplo, não tenham seu valor. Mas se todos têm esses atributos de forma equânime, usar o fracasso de forma inteligente e rápida faz toda a diferença. Os pesquisadores estudaram milhares de pedidos de financiamento de pesquisa e desempenho de startups. Curiosamente avaliaram também o “sucesso” de terroristas e atentados sem mortos foram considerados fracassos. Os resultados foram aplicáveis para esses três diferentes universos e provavelmente para muitos outros que não foram estudados aqui.

White and Blue Crew-neck T-shirt

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A história que veremos abaixo já foi demonstrada também no tratamento de dor crônica, rinite alérgica, enxaqueca e síndrome do intestino irritável. Dessa vez o caso foi com a ansiedade antes de fazer uma prova. O uso do placebo, mesmo que o voluntário saiba que é placebo o que está usando, pode trazer benefícios em todas essas condições.

 

Um estudo recém-publicado pelo periódico Scientific Reports apontou que voluntários que usam pílulas de placebo por duas semanas antes de uma prova apresentam menos ansiedade na véspera da prova e ainda se sentiam mais confiantes. O curioso é que eles sabiam mesmo que era placebo. Eram instruídos que placebo pode ter efeitos significativos e que, se fossem sorteados a usá-los, deveriam ter um pensamento positivo para potencializar seu efeito.

 

Mas por que o placebo funciona? Uma possível explicação é a de uma resposta condicionada. Em alguns momentos da vida os voluntários tiveram boa experiência com o uso de pílulas “verdadeiras” e que, ao usar o placebo, esses mesmos resultados repetiram-se. Outra explicação é a de que o uso diário do placebo fez com que os participantes passassem a pensar mais na ansiedade durante a prova promovendo a sensação de que estavam fazendo algo para evitá-la. É claro que tudo isso se dá na nossa mente, no nosso cérebro.

 

Um estudo publicado no ano de 2001 pela revista Science deu uma balançada naquilo que a comunidade científica até então entendia como efeito placebo. Pacientes portadores da Doença de Parkinson receberam medicação específica para a doença (levodopa) ou pílulas placebo e o surpreendente foi que tanto os pacientes que receberam a medicação como aqueles que receberam placebo, e que tiveram boa resposta clínica, demonstraram aumento das concentrações de dopamina no cérebro.

 

Em outro estudo mais recente, publicado pela revista Neurology, pesquisadores de Luxemburgo mostraram que pacientes com a Doença de Parkinson que tinham boa resposta ao placebo apresentavam aumento de dopamina no cérebro em regiões que são comuns ao efeito cerebral de recompensa. Isso sugere que o fator “expectativa positiva” pode ter um importante papel no efeito placebo.

 

Em quadros de dor, também há evidências de que o placebo muda quimicamente o cérebro, dessa vez através da liberação de opióides endógenos, efeito que pode ser desfeito através de medicações que bloqueiam o efeito de medicações opióides. As mudanças químicas também ocorrem em quadros depressivos, sendo que o placebo apresenta efeito muito semelhante às drogas que aumentam a concentração de serotonina (ex: fluoxetina). Nessas duas condições, a “expectativa positiva” também parece ser a forma como o cérebro faz com que o efeito placebo funcione.   E essa parece ser a explicação do porquê de algumas pessoas responderem positivamente ao placebo e outras não. Há evidências de que bons respondedores apresentam expectativa de receber maiores recompensas, e têm maior ativação do sistema de recompensa cerebral, não só na situação de tratamento, mas também em situações de jogos que envolvem recompensa em dinheiro.

 

Em 2016, o British Medical Journal publicou uma pesquisa revelando que a maioria dos americanos não vê problema em receber uma medicação placebo. O estudo envolveu 853 voluntários com idades entre 18 e 75 anos que eram acompanhados por alguma condição clínica crônica. Apenas 22% achavam inaceitável o uso de placebo. O restante considerava o placebo uma alternativa possível nos casos em que o médico tem clareza que os benefícios são maiores que os riscos e, melhor ainda, quando existir transparência no que está sendo proposto quando o médico é interrogado.

 

 

 

100 and 50 Brazilian Reais Banknotes

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Por Dr. Ricardo Teixeira

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Uma pesquisa que acaba de ser publicada pelo jornal Neurology da Academia Americana de Neurologia mostra que os jovens que passam por redução de ganhos financeiros anuais maior que 25% têm um cérebro menos afiado ainda na meia idade.

 

O estudo envolveu mais de três mil jovens americanos com idades entre 23 e 35 anos que foram acompanhados por 20 anos. O grupo de jovens que apresentou dois ou mais períodos de queda dos proventos (>25%) apresentavam menor desempenho nos testes cognitivos mesmo quando se ajustava fatores como escolaridade, atividade física, tabagismo e hipertensão arterial. Cerca de 700 voluntários também foram submetidos a exames de neuroimagem no início do estudo e 20 anos depois. Aqueles com maior instabilidade financeira tiveram maior redução do volume cerebral e uma piora do padrão de conectividade entre as diversas regiões cerebrais.

 

São várias explicações possíveis para esses achados. As reduções de proventos podem dificultar o acesso à assistência médica e consequente déficit de tratamento de problemas de saúde. Estudos anteriores mostram que condições financeiras desfavoráveis aumentam o risco de doenças como depressão, ansiedade, obesidade, hipertensão arterial, que por si só já estão associados a um menor desempenho cognitivo. A instabilidade financeira pode reduzir as oportunidades de estímulos cerebrais saudáveis como incrementos na educação formal, um trabalho desafiador, atividade física, lazer, etc.

 

Os autores nos lembram de que políticas que minimizam esses altos e baixos de rendimentos, como seguro desemprego, podem favorecer a saúde cerebral da população. Mais de um terço dos lares americanos apresentou redução dos proventos maior que 25% entre os anos de 2014 e 2015.

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Woman Wearing Brown Overalls Near Brown Tree

 

Sabemos que pessoas otimistas são mais felizes e uma pesquisa recém-publicada por pesquisadores de Boston nos EUA aponta que elas também têm vida mais longa. Eles acompanharam mais de 70 mil indivíduos por até três décadas e mostraram que, independente dos hábitos de vida ou doenças, os otimistas vivem de 11 a 15% mais que os pessimistas e têm 50-70% mais chance de alcançar a idade de 85 anos.


Um otimista é aquele que tem expectativa de que coisas boas vão acontecer no futuro e que muita coisa pode ser feita para que essas coisas aconteçam. O interessante é que o grau de otimismo pode ser modificado através de técnicas e terapias relativamente simples.   

 

É fato que os otimistas têm melhores marcadores de saúde. Apresentam menores índices de doença cardiovascular, doenças infecciosas, ansiedade e depressão, e vivem mais quando acometidos por doenças como câncer e AIDS. Além disso, já foi demonstrado que pessoas mais otimistas têm maior tendência a assumir hábitos de vida saudáveis. Vale repetir que os resultados do presente estudo mostram que o efeito positivo do otimismo foi independente desses fatores.

 

Pesquisas apontam que cerca de 80% das pessoas superestimam as chances de eventos positivos quando têm que predizer o futuro. Esse é um fenômeno inerente da natureza humana e é observado independente do gênero, da raça, idade e nacionalidade. Pesquisas também mostram que as pessoas com quadros depressivos são as únicas que não apresentam essa expectativa otimista superestimada do futuro. Aqueles com um quadro de depressão leve não apresentam expectativas desviadas nem para o lado positivo, nem para o negativo. Já aqueles com depressão grave enxergam o futuro de uma forma negativa exagerada.

 

E por que o ser humano é tão otimista? Uma explicação bem interessante é a de que, ao adquirirmos a consciência sobre o futuro, passamos a conviver de forma mais intensa com a ideia de nossa finitude e nossas fragilidades. Ilusões otimistas criam um equilíbrio para que toda nossa consciência não atrapalhe a dinâmica da vida.

Man in Blue and Brown Plaid Dress Shirt Touching His Hair

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É bem reconhecido que as pessoas que sofrem de transtornos mentais têm um risco maior de inúmeras doenças que diminuem significativamente a expectativa de vida. Estamos falando de diabetes, obesidade, doenças cardiovasculares, transtornos do sono, além de hábitos deletérios à saúde como tabagismo, excesso de álcool, sedentarismo e uma dieta pouco saudável. Pesquisadores da Universidade de Queensland da Austrália publicaram recentemente na revista The Lancet Psychiatry uma análise dos estudos relevantes sobre o tema com propostas para a melhora desse quadro.

Uma em cada cinco pessoas no mundo sofre de algum transtorno mental e, de acordo com os pesquisadores, a expectativas de vida é 18 anos menor entre eles. Contrário ao pensamento popular, essa diferença na expectativa de vida não se dá meramente por aumento nos índices de suicídio. Ela acontece majoritariamente por maus hábitos de vida e doenças orgânicas que são mais prevalentes nessa população. Os autores da pesquisa ainda encontraram uma escassez de estudos robustos que tenham analisado fatores de risco para doenças infecciosas e efeitos orgânicos no longo praza das drogas psiquiátricas.

O documento chama a atenção de todos os envolvidos no tratamento da doença mental, sugerindo uma equipe multidisciplinar que vá além do psiquiatra, psicólogo e enfermeira, mas que inclua profissionais da nutrição, educação física e clínica médica. Faz uma provocação para que os psiquiatras ajudem mais nos problemas ditos “orgânicos” dos seus pacientes e que os governantes se sensibilizem com essa situação que podemos dizer sem pensar que é dramática.

 

 

People Wearing Backpacks

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Tenho atendido no consultório, quase que semanalmente, estudantes do ensino médio de uma escola aqui de Brasília que prega o desempenho acima de tudo. Os pais dizem que no terceiro ano é esperado que se o aluno não tiver notas adequadas para contribuir ao final do ano para os índices de sucesso da escola na aprovação no ensino superior, este aluno é convidado a deixar a escola no meio do ano letivo. A escola ainda difunde bordões como “aqui você não tem colegas, você tem concorrentes”.

Muitos desses adolescentes não aguentam a barra e têm um desequilíbrio de uma das coisas que temos de mais precioso: a saúde mental. E sem esse equilíbrio o desempenho acadêmico fica bem afetado. Para refletir um pouco sobre esse assunto, veja o resultado de uma pesquisa recém-publicada pelo prestigiado periódico Proceedings of te National Academy of Sciences que mostrou o sucesso de uma intervenção de apoio psicológico de uma escola sobre o desempenho de seus estudantes.

Na transição do quinto para o sexto ano, estudantes americanos foram submetidos a uma dinâmica para facilitar a adaptação na passagem do quinto para sexto ano. Já no início do ano letivo, eles participavam de exercícios na sala de aula que trabalhavam a ideia de que qualquer tipo de angústia que eles poderiam estar passando era algo que acontecia com quase todos eles. Deixava claro que eles teriam todo suporte da escola do ponto de vista psicológico e social, e que era um momento em que eles fariam novos amigos e se adaptariam em pouco tempo com as demandas acadêmicas.

O resultado dessas intervenções, que foram apenas dois encontros na sala de aula, rendeu, comparado a um grupo que não as recebeu, 34% de redução de problemas disciplinares, aumento de 12% na frequência escolar e redução de reprovação de 18%. Os alunos passaram a confiar mais nos professores, solicitando mais ajuda para suas inquietações, e a ter menos preocupação com as provas. Passaram também a sentir que faziam mais parte da escola.

Essa intervenção teve um ótimo custo-benefício e pode ser replicada em qualquer escola, especialmente nos momentos de transição que são os mais críticos do ponto de vista psicológico.

Woman Sleeping on Mattress Covered With Blanket

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Você chega do trabalho inconformado com aquela puxada de tapete ou está preocupado se vai conseguir fechar as contas do mês, ou ambos. Essas situações desagradáveis e apreensivas disparam o alarme do cérebro que é o sistema límbico, especialmente as amígdalas. Para o cérebro continuar a funcionar bem, esse alarme deve ser desativado e dormir pode ser um santo remédio. Pesquisadores holandeses demonstraram recentemente que o sono REM, aquele em que acontecem nossos sonhos, precisa estar bem preservado.

Durante o sono REM nosso cérebro é de certa forma desconectado do corpo para que a gente não encene nossos sonhos. Muitas doenças psiquiátricas estão associadas a um sono REM desajustado e agitado e estudos mostram que isso influencia negativamente a neuroplasticidade. Há pessoas que têm esse mecanismo de desconexão ainda mais ineficiente e podem chegar a agredir quem dorme ao lado, se o sonho for de uma luta, por exemplo. Nesse recente estudo, os pesquisadores apontaram que as pessoas portadoras de transtornos do sono REM têm ainda uma incapacidade de desligar o alarme do sistema límbico e isso implica na dificuldade do cérebro em se adaptar e se recuperar de eventos estressantes com o simples ato de dormir. Já aqueles que tinham o sono REM eficiente tinham os benefícios da desconexão límbica noite após noite, mesmo que o estímulo desagradável fosse mantido.

Os achados foram publicados na prestigiada revista Current Biology e podem ser de grande utilidade para a maioria das pessoas que sofrem de algum transtorno mental e que também apresentam transtorno do sono REM. Melhorar o sono REM pode ajudar a desligar o alarme límbico e a processar melhor as memórias com conteúdo emocional.

Woman Using Ipad

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Um dia desses conheci uma senhora que perdeu o emprego para um robô. Isso já está acontecendo. Ela fazia serviços de limpeza em um shopping e descreveu as habilidades da máquina para fazer o mesmo serviço. O robô jogava o produto de limpeza no chão, esfregava e depois secava.

 

Com o crescente desenvolvimento nas próximas décadas da inteligência artificial e da robótica, já é esperado que o trabalho fique cada vez mais escasso e já se discute como será essa adaptação. O velho modelo de 40 horas de trabalho semanal não será mais viável. O trabalho precisará ser redistribuído.

 

O impacto positivo do trabalho na vida das pessoas vai além do fator econômico. Estamos falando de incremento na autoestima e socialização. A ciência busca medir a dose recomendável de muitas coisas do nosso dia a dia, como sono e atividade física, mas agora, pesquisadores ingleses das Universidades de Cambridge e Salford identificaram uma dose ideal de trabalho que promova o bem-estar psíquico. A pesquisa foi publicada recentemente no periódico Social Science and Medicine e mostrou que oito horas de trabalho por semana é um número que já produz os efeitos psicológicos positivos apontados acima. Oito horas é melhor do que quatro, melhor do que estar desempregado e mais do que oito horas não trazem ganhos psicológicos e maior satisfação com a vida.

 

 

A pesquisa incluiu 70 mil ingleses com idades entre 16 e 64 anos e que foram acompanhados por uma década. Os autores do estudo acreditam que em uma década a semana de trabalho dos ingleses deverá ser reduzida para quatro dias e dão sugestões para esse futuro que já não está distante:

 

– finais de semana de cinco dias;

– poucas horas de trabalho por dia;

– férias de meses de duração ou dois meses de férias a cada mês trabalhado.

 

Que tal?

Photo of a Man Sitting Under the Tree

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Temos inúmeras evidências do quanto a natureza é benéfica para nosso cérebro e nosso equilíbrio psíquico. Quando se pensa no cortisol, hormônio produzido pelas glândulas supra-renais e associado ao fenômeno do estresse, sabemos também que o contato com o verde inibe a produção desse hormônio. Indivíduos que passeiam por áreas arborizadas têm menor produção de cortisol do que aqueles que faxem o mesmo numa rua comercial agitada.  Mas qual o tempo mínimo de contato com o verde para se ter esse efeito anti-estresse?

 

Recentemente o periódico Frontiers in Psychology  publicou uma pesquisa demonstrando que esse benefício já acontece com 20 minutos de uma vivência em ambiente arborizado no perímetro urbano, independente de atividade física.

 

Na última semana, um estudo ainda mais robusto foi publicado na revista Scientific Reports envolvendo quase vinte mil voluntários mostrando que o contato com a natureza, a partir de 120 minutos por semana, faz com que as pessoas tenham uma maior auto percepção de saúde e bem estar. O máximo benefício ocorre entre 200 e 300 minutos por semana e o efeito foi semelhante quando a pessoa tem essa vivência de 200 minutos em um só dia ou em parcelas de 30 minutos todos os dias da semana, por exemplo.

 

Alguns países como a Finlândia, Japão e Coréia do Sul já entenderam bem o recado e têm programas de “banhos de floresta” como forma de promoção da saúde. São muitos os benefícios já demonstrados com essas “pílulas de natureza”. Além da promoção do equilíbrio psíquico, temos ganhos na atenção, memória, linguagem e até na capacidade criativa. Também temos menores índices de doença cardiovascular, obesidade, diabetes, hospitalização por crises de asma e, finalmente, menor mortalidade.

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Por Dr. Ricardo Teixeira

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Situações competitivas podem gerar sentimentos positivos de identificação com outros membros do grupo capazes de gerar alianças, mas podem também estimular sentimentos como a inveja e até mesmo satisfação com o infortúnio dos outros. O filósofo alemão Arthur Schopenhauer dizia que sentir inveja é humano, gozar do infortúnio dos outros é diabólico.

Atualmente reconhece-se que há dois tipos de inveja: uma benigna e outra maliciosa. No caso da inveja benigna, o que é invejado é uma coisa, como o carrão novo do vizinho. Essa inveja também é conhecida como inveja branca. No caso da inveja maliciosa, a inveja é de uma pessoa e não da coisa em si. Essa é a inveja marrom.

Temos evidências de que quando a inveja é mais focada na pessoa do que na coisa, ela vem frequentemente acompanhada do sentimento que a língua alemã chama de “schadenfreude” – prazer pelo infortúnio dos outros. Nesse caso, a depender da situação, há uma forte presença de desumanização, rivalidade ou senso de justiça social.

Já foi demonstrado que algumas regiões cerebrais são fortemente envolvidas no processamento desses sentimentos. Pesquisadores israelenses da Universidade de Haifa mostraram que indivíduos que apresentam lesões cerebrais nas regiões frontal e parietal têm reduzida capacidade de sentir inveja ou prazer com o infortúnio alheio em testes psicológicos que simulam esses sentimentos.

Pesquisadores japoneses apontaram que as mesmas áreas cerebrais ativadas no processo de dor física são ativadas também em testes psicológicos que envolvem a “dor” de assistir o sucesso do outro. Mostraram ainda que testes psicológicos que envolvem a percepção do infortúnio alheio ativam o mesmo circuito de recompensa cerebral que é ativado quando experimentamos situações prazerosas como comer uma barra de chocolate. Ambientes de trabalho competitivos são palcos propícios para a expressão desses sentimentos que podem ser vistos como o “dark side” da experiência humana. Uma dica valiosa para um líder de equipe é priorizar incentivos para o grupo e não para os indivíduos isoladamente.

O comportamento animal é recheado de atributos competitivos como a disputa por território, parceiros sexuais e alimentos. A neurociência tem-nos mostrado que não somos tão diferentes assim e cada um de nós carrega diferentes graus desses instintos arcaicos. Desde que bem dosados, ciúme, interesse pela vida alheia, inveja e prazer com o infortúnio dos outros, não devem ser vistos como sentimentos que devem ser reprimidos a todo custo. Todos eles fazem parte de um grande repertório que colaborou sobremaneira para o sucesso da espécie, e ainda deve colaborar em certo grau.

Shallow Focus Photography Of Four Leaf Clover

Por Dr. Ricardo Teixeira*

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Não é raro as pessoas fazerem simpatias para atrair a sorte em situações de ansiedade e incerteza. É como se fosse um aquecimento mental, um jogo-treino que pode ajudar a reduzir a insegurança da situação. Esses ensaios têm roteiros às vezes muito estranhos, mas a ciência tem demonstrado que eles não devem ser vistos como meras tolices. Podem influenciar como as pessoas sentem, pensam e se comportam.

Um experimento recente mostrou que brincar de golfe com bolas supostamente mágicas, especiais, leva a mais acertos do que quando o voluntário joga com bolas “normais”.  O desempenho em testes motores refinados também é melhor quando o voluntário é informado de que o examinador está “fazendo figa” por ele.  Esses rituais supersticiosos promovem uma maior autoconfiança e ganhos na capacidade executiva e de atenção.

Essas simpatias são muito presentes na vida dos atletas. Alguns chegam a comer o mesmo alimento e acordam rigorosamente no mesmo horário no dia de cada competição. O tenista brasileiro Gustavo Kuerten é um bom exemplo. Quando ganhava uma partida, ele não mudava de restaurante até o fim do campeonato. Rafael Nadal e Serena Williams têm simpatias que chegam a irritar os adversários. Quem nunca viu Nadal enfileirar suas garrafinhas de água?

Rituais também são comuns quando se perde um ente querido. Um estudo demonstrou que as pessoas que vivenciaram o luto com rituais, como ouvir uma música que remete a lembrança do falecido, mostravam menos sofrimento com a perda. Uma pesquisa realizada no Brasil apontou que as simpatias são mais eficazes quando têm vários passos a cumprir, quando têm procedimentos repetitivos e quando existe um limite de tempo para cumprir o trabalho. Mais difíceis, maior o empenho, mais resultados.

Não existem evidências de uma relação causa e efeito entre a simpatia e os resultados esperados, mas o fato é que alguns desses rituais podem fazer alguma diferença sim. O extremo dessa história é o transtorno obsessivo compulsivo que costuma ter exageros de simpatias e superstições que acabam funcionando como um freio de mão na vida.

 

 

Close-up Photo of a Woman Listening to Music
Por Dr. Ricardo Teixeira*
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Nossa escolhas musicais são influenciadas por diversos fatores, como onde vivemos, períodos do dia e do ano, idade e gênero. Essa é conclusão de um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Cornell nos EUA e publicado recentemente no periódico Nature Human Behaviour.
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Uma das principais questões que a pesquisa ajuda a responder é se nosso estado emocional ajuda a definir a música que escutamos ou se a música também é capaz de modificar nossas emoções. Os pesquisadores de Cornell apontam que ambas as situações são verdadeiras. Indivíduos que têm tendência a dormir tarde ouvem músicas menos vigorosas, mas no decorrer do dia, as músicas vão ficando mais intensas, mesmo no meio da tarde, quando as pessoas estão mais “devagar”. Isso indica que a música pode ser uma ferramenta para que essas pessoas se mantenham alertas durante o dia. A música reflete como a pessoa está se sentindo, mas também como ela gostaria de estar se sentido.
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A pesquisa foi feita através dos registros de streaming de 765 milhões de músicas da plataforma Spotfy entre 1 milhão de pessoas em 51 diferentes países. Nas diversas culturas estudadas, as pessoas ouvem músicas mais relaxantes à noite e mais intensas no horário comercial. Além disso, pessoas mais velhas dão preferência a músicas mais relaxantes.
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Pessoas que vivem no ocidente ouvem músicas mais intensas quando comparadas às do oriente.  Mulheres ouvem música menos intensas, especialmente à noite, mas aquelas do hemisfério sul ouvem músicas mais vigorosas que os homens. A estação do ano fez diferença também. As músicas eram mais relaxantes em temperaturas mais frias. Em culturas próximas ao equador, onde a duração dos dias e noites é mais equilibrado, a música era mais intensa, e esse foi o melhor fator preditivo para a intensidade das músicas.
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Os resultados do estudo são concordantes com outras pesquisas que apontaram que a música que se ouve varia de acordo com o estado emocional e mostram o retrato dos ritmos emocionais do comportamento humano.
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* Dr. Ricardo Teixeira é neurologista e Diretor Clínico do Instituto do Cérebro de Brasília

Man and Woman Holding Wine Glasses

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Por Dr. Ricardo Teixeira

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É isso mesmo. Um casal ao longo do tempo substitui as briguinhas, mais presentes nos primeiros anos de convívio, por bom humor e compreensão.  Essa foi a conclusão de um estudo recém-publicado pela Universidade da Califórnia nos EUA. Os pesquisadores estudaram, através de vídeos, as interações de 87 casais heterossexuais juntos há pelo menos 15 anos. Essa análise era feita por avaliação da expressão facial, conteúdo verbal e tom de voz. As emoções observadas eram então categorizadas em raiva, desprezo, comportamentos defensivos ou de dominação, medo, tensão, tristeza, manha, interesse, afeto, humor, entusiasmo e validação.

 

Os pesquisadores avaliaram por 13 anos o conteúdo emocional das interações desses casais e mostraram que aqueles que tinham mais tempo de estrada apresentavam menos comportamentos críticos e ficavam menos na defensiva. Foram também os que se comunicavam com mais ternura e humor. Os resultados são contrários à ideia de que com o tempo a relação de uma casal se desgasta e fica menos afetuosa. Pesquisas anteriores já haviam demonstrado que a relação estável de longo prazo reduz o risco de ansiedade e depressão.

 

No atual estudo, comportamentos negativos foram menos expressivos em casamentos mais duradouros de uma forma geral, independente do grau de satisfação com o casamento, mas as mulheres tinham uma maior tendência em assumir posturas dominadoras.

 

Outras pesquisas revelam que um projeto de vida a dois bem sucedido tem repercussões positivas em diversas dimensões do equilíbrio psíquico, mas também da saúde física. Por outro lado, um casamento estressante pode ter o efeito oposto, especialmente entre as mulheres.

 

This picture shows an american astronaut in his space and extravehicular activity suite working outside of a spacecraft. In the background parts of a space shuttle are visible. In the far background of the picture planet earth with it's blue color and white clouds is shown as well as a patch of black space.

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Por Ricardo Teixeira*

 

Você tinha um mundo paralelo quando era criança? Um amigo fictício? Pesquisadores americanos reconheceram recentemente que isso é mais comum dos que se imaginava. Esse outro mundo, também chamado de paracosmo, está presente em quase 20% das crianças com idades entre 8 e 12 anos. Essas crianças se mostraram mais criativas nos testes cognitivos e, curiosamente, não eram mais solitárias. Esse mundo paralelo frequentemente era vivenciado em grupo junto a outras crianças do círculo social.

 

Os brilhantes músicos americanos Herbie Hancock e Wayne Shorter escreveram recentemente uma carta às próximas gerações de artistas para acender as mentes criativas. Acho que isso deveria servir de inspiração a todos nós, independente de sermos ou não artistas. A vida pode ser uma obra de arte. Aliás, deve ser.  

 

Seleciono aqui um trecho da carta que acho um primor: “Finalmente, esperamos que você viva em um estado de constante deslumbramento. Com o acúmulo dos anos, partes da nossa imaginação podem se apagar. Ou por tristeza, dificuldades prolongadas, ou condicionamento social, em algum momento de suas vidas as pessoas se esquecem de como acessar esta mágica inerente que existe dentro de nossas mentes. Não deixe essa parte da sua imaginação desaparecer. Olhe para as estrelas e imagine como seria ser um astronauta ou um piloto. Imagine explorar as pirâmides ou o Machu Picchu. Imagine poder voar como um pássaro ou passar por uma parede como o Super-Homem. Imagine correr com os dinossauros ou nadar com criaturas do mar. Tudo o que existe é produto da imaginação de alguém; cuide bem e nutra sua imaginação e você sempre se encontrará à beira da descoberta.  Como cada um desses fatores levam à criação de uma sociedade pacífica? – você deve estar se perguntando. Tudo começa com uma causa. Suas causas criam os efeitos que moldam o seu futuro e o futuro de todos ao seu redor. Sejam os protagonistas no filme de suas vidas. Vocês são os diretores, os produtores e os atores. Sejam ousados e incansavelmente benevolentes enquanto dançam pela viagem que é esta vida”.

Colorful Toothed Wheels

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As pessoas que têm transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) carregam consigo o estigma de ineficiência que muitas vezes limita a expressão de suas potencialidades. Podemos pensar que eles podem ter mais dificuldades em alguns tipos de tarefa, mas podem até ser mais eficazes em outros tipos de trabalho. E essa foi a conclusão de um estudo recém-publicado por pesquisadores da Universidade de Michigan nos EUA.

Adolescentes com e sem diagnóstico de déficit de atenção passaram por testes que avaliavam a criatividade e aqueles que tinham déficit de atenção se saíram melhor. Eles se mostraram mais propensos a resistir à conformidade, a ignorar a informação já conhecida, o que permitia que a criatividade pudesse voar. Em um dos testes os voluntários tinham que desenhar uma fruta alienígena. O grupo com déficit de atenção desenhou frutas que guardavam menos semelhanças com as frutas do nosso planeta. Em outro teste eles tinham que criar rótulos sem copiar os exemplos apresentados.  Novamente os portadores de déficit de atenção foram mais criativos.

É claro que esses resultados nos mostram o enorme potencial que indivíduos com déficit de atenção têm em carreiras em que a demanda criativa é alta como o marketing, publicidade, artes, engenharia de computação entre outras. Pensando bem, em qualquer carreira!

O TDAH é uma condição geneticamente herdada que se caracteriza por sintomas de desatenção, inquietude e impulsividade. O problema acomete entre 6 e 8% das crianças em todo o mundo e permanecem até a vida adulta em 30% dos casos. Entretanto, pesquisas recentes têm demonstrado que essas cifras andam bem maiores.

No Brasil, uma pesquisa revelou que quase 75% das crianças e adolescentes brasileiros que tomam remédios para déficit de atenção não cumprem os critérios diagnósticos para essa condição clínica.

Acredito que o TDAH esteja lado a lado com a depressão como exemplos típicos de um fenômeno de nossa sociedade contemporânea chamado de medicalização da experiência humana. Qualquer experiência de tristeza ou de perda de foco nos estudos ou no trabalho são frequentemente interpretadas de forma errônea por aqueles que têm os sintomas, e mesmo pelos médicos, como se fosse um diagnóstico de depressão ou TDAH. Não estou dizendo que esses diagnósticos não existam. Pelo contrário. São dois dos diagnósticos mais prevalentes na área de saúde mental, que precisam de tratamento, e quando se pensa em saúde pública, certamente existem mais indivíduos não diagnosticados do que superdiagnosticados.

Five Bulb Lights

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As pessoas criativas não são necessariamente experts em uma determinada atividade. Ao invés de praticar exaustivamente um caminho já conhecido, elas criam sua própria rota. Picasso tinha habilidades de desenhista de dez mil horas antes de fazer suas obras desencontradas e geniais.  A prática ajuda muito, mas não é tudo.

 

Existem atividades mais dependentes da prática do que outras. São atividades em que as regras para ser um “virtuose” já são bem estabelecidas. Podemos citar o xadrez, o esporte e a performance musical. De qualquer forma, sempre existirá o espaço mágico da criatividade. De um lado temos o criador que rompe com o já conhecido e do outro o incrível intérprete. De um lado temos um Garrincha e do outro Carlos Alberto Torres.

 

Obras e produtos criativos não são meros resultados de expertise. Eles precisam ser originais, surpreendentes e fazerem diferença por serem úteis. Originais porque os criadores transcendem o virtuosismo e vão além do repertório padrão. Fazer diferença é fundamental, pois o criador deve satisfazer necessidades. O iPhone não seria um sucesso se não resolvesse problemas. Ser surpreendente não só para uma ou outra pessoa, mas para quase todo mundo. As descobertas de Galileu são um bom exemplo.

 

Elenco abaixo dez evidências que mostram que a prática e experiência não garantem a criatividade.

  • a criatividade é frequentemente cega. O criador não tem certeza se sua ideia será aceita;

 

  • o processo criativo é errático. Shakespeare escreveu Hamlet aos 38 anos de idade e logo depois escreveu obras que não foram tão agraciadas. Entretanto, uma pesquisa recém-publicada pela revista Nature mostra que entre cientistas e artistas existe uma onda de produtividade acima da média que dura uns cinco anos. Estamos falando de qualidade e não de quantidade, e essa onda pode acontecer em diferentes fases da vida;

 

  • a regra dos dez anos de prática nem sempre é verdadeira. Um estudo destrinchou o percurso de 120 compositores clássicos e mostrou que uma década de prática é uma condição frequentemente necessária para as primeiras grandes criações. Entretanto, alguns compositores demoraram menos, enquanto outros muito mais;

 

  • talento ajuda muito. Se definirmos talento como a velocidade com que uma pessoa adquire expertise, podemos dizer que as pessoas criativas são mais talentosas. Precisam de menos tempo para alcançar esse nível de expertise e logo em seguida já viram o disco e passam a sobrevoar o desconhecido;

 

  • o tipo de personalidade também ajuda. Pessoas criativas não se conformam com o arroz e feijão, não costumam ser convencionais, gostam de correr riscos e não raramente têm alguma psicopatologia;

 

  • os genes também influenciam. Calcula-se que um terço a um quarto do desempenho depende da carga genética do indivíduo e isso repercutirá no poder criativo. É claro que os fatores ambientais influenciam e muito;

 

  • os criativos costumam ter interesses amplos. Cientistas bem-sucedidos e criativos têm vários hobbies e interesses. Galileu era fascinado pelas artes, especialmente a música e literatura;

 

  • excesso de expertise pode inibir a criatividade. Mais nem sempre é melhor;

 

  • o olhar de fora tem suas vantagens criativas. Um querido professor me dizia que, quando suas ideias no laboratório estavam pouco criativas, ele ia para a biblioteca folhear periódicos de áreas radicalmente distantes e muitas vezes saía dizendo eureca;

 

  • os criativos são bons não só para resolver problemas. São bons também para encontrar problemas. Nem sempre são os mais eficazes, mas seus olhos conseguem enxergar o que ninguém ainda se deu conta.

 Colourful Capsules
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Já conhecemos uma série de atitudes no dia a dia que reconhecidamente podem deixar nosso cérebro mais esperto. Estamos falando de atividade física, sono e alimentação regulares, estar sempre aprendendo, equilíbrio psíquico, etc. Além disso, as famosas pílulas usadas para turbinar o cérebro têm sido cada vez mais consumidas por pessoas sem qualquer tipo de problema neurológico ou psiquiátrico. A última pesquisa que avaliou o consumo dessas drogas entre dezenas de milhares de pessoas ao redor do mundo mostra um crescimento nada discreto. Em 2017, 14% das pessoas utilizaram essas medicações pelo uma vez no último ano, comparado a 5% no último estudo de 2015. Nos EUA, esse consumo é de 30% da população geral.
 
O fato é que dispomos de pouquíssimas evidências científicas de que essas pílulas trazem reais benefícios cognitivos a indivíduos sem transtornos neurológicos ou psiquiátricos, e há até resultados mostrando que algumas pessoas podem piorar o desempenho. É como se nosso cérebro fosse uma orquestra bem afinada e introduzíssemos um violino a mais. Pode melhorar, pode não fazer diferença no resultado, ou pode até desafinar. E apesar desse conhecimento ainda estar engatinhando, essas medicações têm-se tornado cada vez mais populares entre adultos e adolescentes, na maior parte das vezes sem qualquer orientação médica. 
Elenco a seguir algumas questões sobre esse fenômeno que têm sido discutidas nos últimos anos por pesquisadores da área.   
 
– Existe atualmente um forte mercado negro dessas medicações voltado para indivíduos saudáveis, com transações de compra e venda que podem ser punidas até mesmo com prisão em países como os Estados Unidos.
 
– O uso de medicações dessa natureza para melhorar o desempenho cerebral poderia ser visto como “trapaça” ao pensarmos que outras pessoas podem não estar usufruindo dos mesmos benefícios. Não dispomos ainda de regras que regulem se as pessoas podem ou não fazer uso dessas medicações (ou boas doses de café) para a realização de um concurso público, por exemplo. Outra situação: uma pessoa tem o hábito de investir no seu equilíbrio psíquico, como por exemplo através da meditação e atividade física regular, e outra pessoa não o faz. Esse equilíbrio psíquico tem grandes chances de aumentar o desempenho cognitivo, mas culturamente isso não costuma ser visto como trapaça, já que a pessoa “investiu seus esforços” para alcançar sua vantagem. Por que a vantagem alcançada por pílulas deveria ser vista de outra forma? E será que essas drogas realmente oferecem vantagens no aprendizado ou só melhoram o desempenho a curto prazo em dias de maiores desafios? Será justo para aqueles que não usam as drogas concorrer com outros cérebros “turbinados”? Seria a mesma coisa se parte dos concorrentes num teste de matemática estivessem usando calculadora e outra parte não?
– Medicações dessa natureza poderiam provocar dependência e efeitos colaterais. Não se dispõe desse conhecimento quando se fala em consumo por indivíduos saudáveis. Por outro lado, até a cafeína é passível de desenvolver dependência e efeitos colaterais, apesar do seu risco de fazer mal à saúde ser infinitamente menor do que de outras drogas. Com base na atual experiência, talvez os riscos de dependência / efeitos colaterais das medicações estimulantes não sejam muito diferentes do que os da cafeína e por isso não há razões para tanto receio. É preciso avançar nas pesquisas sobre o assunto.
 
– Em crianças, as questões éticas são muito mais complexas. A primeira questão é em relação à segurança dessas medicações em indivíduos que ainda têm o cérebro em franco desenvolvimento. Além disso, a criança não tem o poder de fazer suas próprias escolhas. Entre os adultos, há de se considerar no futuro questões éticas ligadas à obrigatoriedade em se usar tais medicações em algumas situações ocupacionais. Nos EUA, o modafinil é hoie uma droga aprovada pelo FDA para trabalhadores em turno invertido. Será que o empregador poderá um dia obrigar o trabalhador a usar a medicação para evitar acidentes ou para melhorar o desempenho?
– Como qualquer tecnologia, drogas para turbinar o cérebro poderão um dia ser bem ou mal-usadas. Há muito trabalho pela frente para se avaliar seus custos e benefícios, para se educar a população sobre o assunto e para ajustar a legislação vigente caso se consiga demonstrar que elas são realmente seguras e eficazes para as pessoas que querem turbinar seus cérebros.   
Em entrevista concedida à Scientific American e publicada há alguns anos na revista Mente & Cérebro, o Prêmio Nobel Eric Kandel, um dos neurocientistas mais renomados do planeta e certamente um dos pesquisadores que mais contribuíram para o nosso atual entendimento da memória, declara: “Ainda não temos evidências de segurança e nem mesmo de eficácia do uso de medicações para melhorar o cérebro de pessoas saudáveis. Eu não aconselharia meus netos, pelo menos por enquanto, a usar essas medicações”.

background, blur, chat

 

Será que a obsessão pelos eletrônicos está fazendo bem ao seu cérebro? Como será isso no longo prazo? Será que o receio de conseqüências negativas é algo parecido com o medo dos antigos na época do surgimento da imprensa, do rádio ou da TV?

Uma recente pesquisa conduzida nos EUA (Common Sense Media) mostrou que adultos de diversos estratos socioeconômicos ficam uma média de nove horas e 22 minutos na frente das telas, incluindo smartphone, tablet, TV e computador. Ah, mas a maioria desse tempo deve ser trabalhando! Negativo. Oito horas eram dedicadas a questões pessoais. Fala-se muito dos limites de tempo que as crianças devem respeitar, mas elas precisam de exemplo.

Outro resultado impressionante dessa pesquisa foi o fato de 78% dos voluntários acreditarem que eles são bons modelos de como seus filhos deveriam usar a tecnologia digital. Com os pais tão plugados as crianças podem se sentir ignoradas e, além disso, vão querer imitar o hábito dos pais. E essa história não acaba bem. Sabemos que o excesso de telinhas na vida das crianças e adolescentes está associada a um menor desempenho em funções cognitivas como a atenção, menor rendimento escolar, menos atividade física, mais obesidade… No caso dos nenéns de pais superconectados, já é descrito um atraso no aprendizado de reconhecimento de sinais não verbais na comunicação. Sofrem do fenômeno de ˜faces congeladas” – pais inanimados na frente das telas.

Neste mês de julho tivemos uma publicação no JAMA, um dos periódicos médicos mais respeitados do mundo, mostrando que o excesso de exposição às plataformas digitais faz o cérebro do adolescente manifestar mais sintomas de déficit de atenção e hiperatividade. Pesquisadores da Universidade da Califórnia e Califórnia do Sul acompanharam 2600 adolescentes assintomáticos de 15 e 16 anos de idade e apontaram que aqueles que usavam de forma muito freqüente uma lista de 14 plataformas digitais populares como WhatsApp, Facebook e Youtube, estes tinham o dobro de chances de passarem a apresentar sintomas de déficit de atenção após um seguimento de dois anos. O ineditismo dos resultados foi por conta da avaliação do impacto das plataformas mais modernas, um estudo que não foi só baseado em TV e videogames.

 

 

 

Trees in Park

 

Já havíamos discutido o quanto a natureza pode trazer benefícios ao nosso estado mental, com incrementos no nosso equilíbrio psíquico, melhora da atenção, memória, linguagem e até na capacidade criativa.

 

Um novo estudo publicado pelo periódico Environmental Research e conduzido por pesquisadores ingleses aponta que o contato com a natureza pode ainda reduzir o risco diabetes, hipertensão arterial, doença cardiovascular e morte prematura.

 

A pesquisa avaliou os resultados de cerca de 140 estudos envolvendo mais de 290 milhões de pessoas em diferentes continentes e concluiu que as pessoas que têm mais acesso ao espaço verde, além desses benefícios à saúde do corpo, apresentam também menos estresse e uma melhor qualidade do sono. Alguns países como a Finlândia, Japão e Coréia do Sul já entenderam bem o recado e tem programas de “banhos de floresta” como forma de promoção da saúde.

 

Vários fatores podem fazer a ligação entre o verde e nossa saúde. Cidades mais verdes são mais convidativas à atividade física e socialização, mas discute-se até mesmo a exposição a microrganismos “do bem” que podem reduzir o estado inflamatório do corpo e melhorar o equilíbrio imunológico.

 

Natureza selvagem é tudo de bom, mas esses benefícios já são reais em cidades com urbanismo bem pensado.

Cell phone in hands

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Quando pensamos em excesso de tecnologia no dia a dia, podemos instintivamente achar que isso tem gerado um estado de ansiedade. Mas realmente é verdade. Uma pesquisa recém-publicada pelo periódico Emotion avaliou mais de um milhão de adolescentes americanos e apontou que era menor o bem estar psíquico entre aqueles que passavam mais tempo na frente das telas digitais. Compartilho abaixo quatro mecanismos que podem explicar esse fenômeno.

 

1-A tecnologia pode nos reduzir nossas pequenas incertezas, mas aumentar nossas grandes incertezas. E incerteza é um prato cheio para a ansiedade. Podemos nos sentir mais seguros com o Google Maps, com notícias fresquinhas do outro lado do mundo, etc. Mas essa mesma tecnologia tem trazido mais insegurança quando se pensa no futuro mercado de trabalho e até mesmo o encontro do parceiro ou parceira nos inúmeros sites de relacionamento.

2-O mundo digital tem-nos deixado menos sociáveis. A interação carne e osso entre as pessoas é uma poderosa ferramenta para nosso equilíbrio psíquico.

 

3-As redes sociais são uma arena de constantes julgamentos. É muita gente olhando e julgando. Poucos likes e compartilhamentos podem levar a um estado de insegurança, especialmente entre os jovens.

 

4-As redes sociais também são um grande palco para comparações. Somos bombardeados o tempo todo com viagens incríveis, famílias perfeitas, etc. Isso pode ser pura fonte de ansiedade para muitas pessoas.

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