
Ricardo Afonso Teixeira*
A Scientific American, periódico do grupo editorial da Nature, publicou este mês uma análise preciosa do conjunto de evidências que mostra que crianças e adolescentes estão melhores hoje do que em décadas passadas. Estamos falando de uma mente mais aberta e inclusiva, menos narcísica e com mais empatia. Eles estão mais pacientes, apresentam maior QI e menores índices de consumo de drogas e incidentes por bullying, além de menos gravidezes indesejadas.
Alguns já devem estar descrentes ao lerem que as crianças estão mais pacientes. O teste do marshmallow, estudado entre crianças desde a década de 1970, mostra resultados com menos impulsividade hoje do que foi há 50 anos. O teste faz a pergunta para a criança: você prefere um marshmallow agora ou dois em um segundo momento?
Como explicar essa realidade de que os jovens de hoje são menos complicados do que os de antigamente, apesar da crença comum dizer o contrário? Isso pode ser atribuído à ocorrência de um diálogo entre pais e filhos mais reflexivo e voltado às emoções; ao fato de muitas escolas terem na grade curricular espaço reservado para o estímulo de inclusão, empatia e controle emocional; ao maior vocabulário emocional entre os jovens de hoje que pode favorecer o diagnóstico de transtornos mentais, o que no passado ficava “debaixo do tapete”; e, finalmente, ao fenômeno das redes sociais, que, apesar dos riscos que oferecem, promovem empatia e mais encontros pessoais entre os jovens, ajudando a formar cidadãos conscientes.
“Meu caro amigo, as coisas estão melhorando.” Esta é uma frase de Chico Buarque em entrevista que discorria a respeito da situação geral do país. Cinco anos depois, em 2015, afirma que a música que faz sucesso no Brasil não é mais a imposta pela minoria rica, como foi a Bossa Nova. Isso explicaria um sentimento saudosista comum de que já não se faz música hoje como a que era feita nas décadas de 1960 e 1970. Você já ouviu muitas vezes, hoje não se tem mais Chicos, Caetanos, etc. Pode ser que o saudosismo de que crianças crianças de outrora eram melhores seja um viés do pensamento daqueles que são excepcionais e projetam para toda uma geração anterior as mesmas habilidades.
Ricardo Afonso Teixeira é dourado em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília





















