Black Ring Bell Alarm Clock

O número ideal de horas de sono é aquele que faz com que a pessoa no outro dia sinta que dormiu o suficiente. Um percentual pequeno de pessoas sente-se bem com menos de 7 horas, e estes são chamados de dormidores curtos. Há também os dormidores longos, aqueles que precisam de mais de 8 horas de sono e que também representam uma minoria. Porém, a maior parte da população mundial, incluindo os brasileiros, dorme entre 7 e 8 horas por noite.

Temos evidências de que as pessoas que dormem as 7 horas, mas acordam mais tarde, têm maior risco de desenvolver um quadro de depressão. Um estudo publicado recentemente pelo periódico JAMA Psychiatry mostrou que basta dormir 1 hora mais cedo que esse risco é reduzido em 23%. Se dormir 2 horas mais cedo essa tendência pode ser reduzida em quase 40%.

A pesquisa envolveu 840.000 voluntários e foi a evidência mais robusta até o momento de que a tendência em dormir tarde e acordar mais tarde influencia o risco de depressão. Uma das grandes virtudes do estudo, além do número elevado de pessoas estudadas, foi a análise do perfil genético dos voluntários para a tendência em dormir cedo ou tarde. É estimado que esse perfil explique de 12 a 42% a preferência em ir dormir cedo ou tarde. Na população estudada, 9% consideravam que tinham a tendência em ir dormir tarde, um terço em dormir cedo e o restante em um patamar intermediário. Na média, eles iam para a cama às 23h e acordavam às 6h.  

Aqueles que dormiam tarde ou o grupo intermediário eram contemplados com menor rico de depressão ao ir dormir mais cedo. O estudo não pode dizer se os que já dormiam e acordavam cedo teriam o mesmo benefício. Mas é fato que na população estudada, aqueles com perfil genético de ir cedo para a cama tinham menor chance de apresentar depressão.     

E como explicar esse efeito? Alguns estudos apontam que uma maior exposição à luz durante o dia (tem que acordar cedo!) está associada a padrões hormonais que influenciam o humor. Outra explicação é o impacto psicológico de estar desalinhado da maioria das pessoas que dorme cedo e acorda cedo.  

Person Holding String Lights Photo

Os neurônios-espelho foram descobertos meio sem querer por pesquisadores italianos ainda na década de 1990. Pela primeira vez constatou-se que a simples observação de ações dos outros era capaz de ativar as mesmas regiões do cérebro responsáveis pelo movimento do próprio observador. A percepção visual inicia uma espécie de simulação ou duplicação interna dos atos de outros. As mesmas regiões também são ativadas quando o próprio indivíduo executa a ação.

Sabe aquela situação em que o carro está parado num cruzamento, faz que vai, mas não vai, e o carro de trás já arrancou cheio de vontade e CRASH? Por outro lado, é mais fácil dirigir na estrada atrás de outro carro. Assistir a um jogo de tênis pode ser visto como um treinamento para quem pratica o esporte. São os comandos automáticos dos neurônios-espelho. Também são esses neurônios que explicam o que faz o bocejo ser tão contagiante.

Fazemos mentalmente tudo o que assistimos o outro fazer e o que a neurociência tem-nos mostrado é que isso vai muito além de movimentos. Neurônios-espelho foram encontrados nas áreas do córtex pré-motor e parietal inferior, associadas a movimento e percepção, bem como no lobo parietal posterior, no sulco temporal superior e na ínsula, regiões associadas à nossa capacidade de compreender o sentimento de outra pessoa, entender a intenção e usar a linguagem.

O cérebro entende através dos neurônios-espelho até mesmo a intenção de uma ação. Uma série de neurônios é disparada ao olharmos para uma imagem de uma mesa bem arrumada e uma mão pegando uma xícara – com a provável intenção de beber o café. Um diferente grupo de neurônios é disparado quando olhamos para a mesma cena da mão pegando a xícara, mas numa mesa desarrumada – com a provável intenção de lavar a xícara.  Sentir nojo ou ver uma pessoa com olhar repulsivo de nojo faz com que neurônios-espelho das mesmas regiões do cérebro sejam estimulados.

Dessa forma, neurônios-espelho têm papel essencial na percepção de intenções e na experiência da empatia. É o outro entrando em nosso cérebro – empatia origina-se da palavra grega empátheia, que significa “entrar no sentimento”. Não há muita dúvida de que os neurônios-espelho foram cruciais no desenvolvimento de nossas habilidades sociais através de avanços na comunicação e aprendizado. Com eles a informação é espalhada e amplificada colaborando para a promoção da cultura. Alguns cientistas chegam a chamar esses neurônios de DNA da neurociência.

Você deve estar se perguntando se na leitura de um romance os neurônios-espelho também estão a pelo vapor? A resposta é sim e já temos boas evidências de que eles fazem a gente viver na carne, melhor dizendo, no cérebro, a vida dos personagens. Nós compreendemos o personagem porque temos dentro de nós a mesma experiência. O conteúdo de um livro pode ativar circuitos neuronais da mesma forma que estímulos sensoriais, como a visão de uma ação do outro. A literatura coloca em ação partes do cérebro que vão fazer o leitor experimentar, no próprio cérebro, as sensações físicas e emocionais como num filme mais do que 3D; um superfilme que ativa infinitas dimensões. E é claro que quando falamos de cinema, nem é preciso apontar o quanto vivemos a vida de quem está na tela.

Side view of Hispanic female sitting at table with textbooks while preparing for exams with phone while looking jealously at man texting on cellphone in daytime in park

Os smartphones tornaram a multitarefa mais fácil e muitas vezes compulsiva. Você senta para tomar um café com um amigo e sem perceber, no meio da conversa, você dá uma olhada no seu smartphone após um sinal que há alguma nova te esperando.

Phubbing é um termo que une as palavras phone e snubbing do inglês, e essa última significa “esnobando”. Dividir a atenção com o celular enquanto seu amigo lhe conta uma história em um encontro presencial, para muitos, é uma falta de gentileza. Um estudo recém-publicado na revista Behaviour & Information Technology por pesquisadores da Universidade da Georgia, nos EUA, mostram que certas características de personalidade e transtornos psíquicos fazem com que esse hábito seja mais comum. 

As pessoas com transtornos de ansiedade e depressão têm maior tendência a apresentar tal comportamento assim como aquelas com personalidades com forte componente de neuroticismo. É claro que essas mesmas pessoas são mais viciadas no uso de smartphones. Por outro lado, o phubbing é menor entre pessoas com traços de personalidade cooperativa e agradável, que mostram interesse pelo que o outro fala. Essas pessoas julgam o phubbing uma atitude rude, pouco educada e, ironicamente, mesmo assim o fazem. Independente da personalidade, o phubbing é mais frequente quando a conversa se dá com mais de duas pessoas.

Guardar o smartphone numa conversa face a face pode indicar uma manifestação de respeito pelo outro. Mas será que o phubbing veio para ficar? Breves interrupções já foram incorporadas como comportamento normal numa conversa? O tempo dirá.           

White and Yellow Roller Coaster

Portadores de enxaqueca sofrem duas vezes mais de tontura numa montanha-russa virtual, e de forma mais intensa e prolongada.  Uma série de regiões do cérebro são ativadas de forma mais robusta entre aqueles que sofrem de enxaqueca, incluindo córtex occipital, cerebelo e núcleos da ponte no tronco cerebral. Um aumento de atividade nessa última área pode estar relacionado a uma transmissão anormal de estímulos sensoriais visuais e auditivos. O estudo foi publicado recentemente pela revista Neurology da Academia Americana de Neurologia.

A relação entre tontura e enxaqueca vai muito além de provocações ao sistema do labirinto provocadas por uns minutos na montanha-russa. Estima-se que 50% das pessoas têm crises de vertigem durante as crises de dor ou mesmo fora delas. A enxaqueca é considerada a principal causa de vertigem episódica em adultos e crianças e a essa condição clínica dá-se o nome de migrânea vestibular. O quadro de vertigem geralmente dura por horas a menos de três dias, e a raiz do problema, a princípio, se encontra em núcleos que modulam diversos estímulos sensoriais. Esses mesmos núcleos também estão envolvidos na resposta de ansiedade, e por isso, não é raro uma mesma pessoa apresentar enxaqueca, ansiedade e crises de vertigem. 

Man in White Dress Shirt Reading Book

Praticar, praticar, praticar. Esse é o mantra de muitos estudantes e discuto frequentemente no consultório essa questão com pessoas que querem incrementar o desempenho cerebral. Sempre argumento que pausas são importantes para a solidificação da memória e bons exemplos são um boa noite de sono e uma pausa para atividade física, especialmente entre um turno e outro.  Além de “esfriar o motor do cérebro”, o exercício físico libera uma série de substâncias no cérebro que facilita o aprendizado.

Outro exemplo interessante de pausas é a famosa técnica “Pomodoro”. Pomodoro era um timer em formato de tomate que o italiano Francisco Cirillo usava para avisá-lo, a cada 25 minutos, que estava na hora de um descanso de cinco minutos. A história rendeu a publicação do livro The Pomodore Technique prometendo melhorar o desempenho no trabalho e nos estudos.

O periódico Current Biology publicou em 2019 uma pesquisa mostrando que pausas ainda mais frequentes podem fazer com que o aprendizado seja mais eficiente. Os voluntários aprendiam mais quando praticavam por 10 segundos e então descansavam por outros 10 segundos. Isto era feito por 35 vezes e na 11ª repetição eles alcançavam uma eficiência máxima que era mantida nas repetições posteriores. O mais interessante é que a atividade cerebral, demonstrada pelo método de magnetoencefalografia, era maior nos períodos de pausa do que durante a prática, refletindo atividade cerebral de consolidação e solidificação da memória.

A pesquisa tinha a intenção de encontrar uma tática que permitisse a reabilitação cognitiva em pessoas que tenham sofrido lesões cerebrais, mas os resultados provavelmente também são válidos para o aprendizado entre indivíduos com cérebro intactos.

Nessa última semana, pesquisadores do Instituto Max Planck, na Alemanha, publicaram na mesma revista os resultados de um estudo que nos faz entender melhor como as pausas podem potencializar o aprendizado. Os resultados mostraram que a retenção do conteúdo é maior quando o processo de aprendizado se dá entremeado por pausas. A isso se dá o nome de “efeito espaçamento”.

Camundongos tinham que encontrar um pedaço de chocolate escondido em um labirinto em três diferentes oportunidades e o desenho do estudo definia diferentes pausas entre as três chances. No senso comum, pode-se imaginar que quanto mais próximas as tentativas, mais facilmente os animais se lembrariam daquilo que aprenderam. Os pesquisadores demonstraram isso no curtíssimo prazo, mas passadas algumas horas, o resgate da memória era maior entre os animais que tiveram pausas mais longas entre as oportunidades de achar o chocolate. Pausas maiores fizeram com que as mesmas conexões neuronais utilizadas em tentativas anteriores fossem ativadas, reforçando o aprendizado a cada “round”. O conteúdo aprendido é armazenado e pode ser recuperado reativando o mesmo grupo de neurônios e suas conexões.     

O “efeito espaçamento” foi descrito há mais de um século em diversos mamíferos e o estudo nos mostra de forma bastante elegante como ele é capaz de aumentar o potencial do aprendizado. Com pausas mais longas, a tarefa fica mais demorada, mas o conteúdo aprendido fica consolidado por mais tempo.   

Person Pouring Tea on Cup

Uma pesquisa encomendada pela Associação Brasileira das Indústrias do Café (ABIC) revelou que 94% dos indivíduos maiores de 15 anos bebem café e 95% desses o consomem diariamente. Entre aqueles que não tomam café, a principal razão apontada é a de que ele pode fazer mal à saúde. O estudo também revelou que 13% daqueles que bebem café pretendem reduzir seu consumo, e a razão principal é a preocupação de que o café possa fazer mal à saúde. Por isso, vale a pena colocar algumas cartas na mesa.

Uma revisão publicada pelo British Medical Journal reforça aquilo que já tínhamos boas evidências: 3 a 4 doses de café por dia fazem bem à nossa saúde. Pesquisadores do Reino Unido reuniram os resultados de mais de 200 estudos sobre os efeitos do café sobre nossa saúde e concluíram que podemos tomar café, com moderação, sem medo. Os resultados mostraram que o café promove maior longevidade e menor incidência de inúmeras doenças que elenco a seguir:

– doenças cardiovasculares;

– alguns tipos de câncer, como o de próstata, endométrio, fígado e pele;

– diabetes, cálculos biliares e gota;

– depressão, Doenças de Alzheimer e Parkinson.

Mas como o café pode ajudar a prevenir doenças neuropsiquiátricas? A grande responsável por esse efeito é a cafeína mesmo. A cafeína se liga a receptores do cérebro chamados de adenosina que promovem uma inibição da atividade cerebral. A cafeína tem uma ação inibitória nesses receptores fazendo uma inibição de um sistema que é inibitório. Por isso o efeito final é estimulante.  Quando reduzimos o efeito do freio de mão, o carro anda mais. Esta é a cafeína.

Modelos animais da Doença de Parkinson apontam que a inibição do receptor adenosina pela cafeína reduz a perda de células dos sistemas comumente envolvidos na doença.  No caso do da Doença de Alzheimer, estudos demonstram que o consumo de café ao longo da vida pode reduzir o risco da doença. Pesquisas em animais revelam que a cafeína tem o poder de reduzir as alterações patológicas encontradas no cérebro de quem sofre dessa doença. Entretanto, o consumo exagerado da bebida pode trazer efeitos danosos ao cérebro. Uma pesquisa publicada este mês pelo periódico Nutritional Neuroscience, envolvendo quase 18 mil voluntários, nos mostra que o consumo de mais de seis doses por dia está associado a uma redução do volume cerebral e ao aumento do risco de demência.Sem culpa, mas com moderação.

E vale lembrar que a cafeína deve ser evitada entre pessoas em situações de risco de fratura óssea e na gravidez.

Unrecognizable tired female in casual clothes covering face with hands while sitting on soft surface near brick wall in light apartment

O cérebro de uma pessoa com enxaqueca excita-se com mais intensidade do que o normal a diferentes estímulos externos (ex: luminosidade) ou internos (ex: privação de sono). São inúmeros os estímulos capazes de desencadear crises de enxaqueca. Porém, a resposta a cada um deles é muito individual e por isso listas de proibições rígidas podem ser mais penosas do que benéficas ao paciente.

Habitualmente, um estímulo deve ser reconhecido como fator desencadeante de crises num determinado indivíduo quando provoca crises em mais de 50% das vezes dentro de 24h após a exposição ao estímulo. É recomendável que cada indivíduo identique seus fatores desencadeantes e tente evitá-los. Entretanto, algumas atitudes podem ser recomendadas a qualquer pessoa que tenha crises de enxaqueca:

› Reduza o estresse no dia a dia;

Tente dormir sempre o mesmo número de horas por dia: evite tanto a privação como o exagero de sono;

› Faça suas refeições em horários regulares: evite o jejum prolongado;

› Evite alimentos identificados como desencadeantes de crises;
› Evite o consumo de álcool, especialmente vodka e vinho tinto;

› Evite o excesso de cafeína. Porém, não suspenda seu consumo de cafeína de um dia para o outro;

› Evite a exposição a luzes, ruídos e cheiros fortes;

› Faça exercícios físicos moderados pelo menos 5 vezes por semana. Evite atividade física exagerada e em horários muito quentes;

› Não deixe de beber sempre muita água: a desidratação é um fator desencadeante de crises.

Quanto à dieta, é bom conhecer as substâncias que são frequentemente associadas a crises de enxaqueca, e em quais alimentos você as encontra. Alguns estudos demonstram que entre 7 a 30% dos pacientes reconhecem algum alimento como fator desencadeante de crises, sendo os mais comuns: chocolate, queijos, frutas cítricas e bebidas alcoólicas.

Uma boa parte das substâncias envolvidas pertence à família das aminas biogênicas, produtos naturais do metabolismo de plantas, animais e microorganismos, como é o caso do processo de fermentação de alguns alimentos (ex: vinho, queijo). Os mecanismos de ação dessas substâncias incluem a provocação dos vasos cerebrais (vasoconstrição ou vasodilatação), estímulo de liberação de neurotransmissores assim como estímulo direto aos centros e vias nervosas envolvidas no processo da enxaqueca. Há também evidências de que fatores alérgicos possam estar associados, tema que ainda é bastante controverso.

Uma revisão de 180 artigos da literatura sobre dieta e enxaqueca publicada pelo periódico Headache nos traz uma boa discussão sobre o assunto. Além de recomendar o reconhecimento de alimentos que provocam crises em uma determinada pessoa, a revisão chama a atenção para três tipos de dieta que são potencialmente benéficas para o controle da enxaqueca: 1) com baixo teor de carboidratos; 2) com baixo teor de gorduras; 3) rica em ômega-3 (e.g., peixes, castanhas) e pobre em ômega-6 (e.g., óleos vegetais, como o óleo de soja). Esses dois últimos tipos de dieta acabam de ser confirmados como benéficos para redução da frequência e intensidade das crises em artigo publicado pelo respeitado periódico British Medical Journal. Estudos em roedores já haviam demonstrado que gorduras do tipo ômega-3 têm efeito protetor contra dor nas terminações do nervo trigêmeo enquanto as gorduras do tipo ômega-6 têm efeito contrário.    

Não custa lembrar também que alimentos industrializados costumam ser um mau negócio para quem sofre de enxaqueca.

Man in Blue Crew Neck Shirt

Por Dr. Ricardo Teixeira*

Um dos principais marcadores da Doença de Alzheimer é o acúmulo no cérebro de uma substância proteica chamada de beta-amiloide, substância também encontrada no cérebro de idosos saudáveis, porém em pequenas quantidades. Esse acúmulo excessivo de proteínas no cérebro, que é geneticamente determinado, faz com que aos poucos ele vá ficando ineficiente. Os medicamentos atualmente aprovados para o tratamento da doença não mudam a história natural da doença, apenas melhoram os sintomas. O grande sonho é encontrar uma estratégia eficiente que reduza o acúmulo dessas proteínas no cérebro. Entretanto uma série enorme de estudos nos mostram que a simples redução desses depósitos proteicos não garante um impacto clínico positivo.

Os anticorpos monoclonais, medicações amplamente usadas em inúmeras condições clínicas, têm sido testados há muitos anos para o tratamento da Doença de Alzheimer, mas sem resultados muito animadores. Um desses anticorpos, o Aducanumab, foi aprovado pelo órgão regulador americano de medicamentos (FDA) este mês, mas com muitas críticas.

O Aducanumab se mostrou eficiente na redução do acúmulo das placas de beta-amiloide no cérebro, mas as evidências clínicas não foram muito convincentes, nem mesmo para o comitê consultor independente do FDA. Três membros desse comitê pediram afastamento após a aprovação como protesto. A desconfiança é a mesma com inúmeros especialistas ao redor do mundo. A aprovação foi feita, mas com a condição de que um estudo com resultados mais robustos seja realizado o mais breve possível e, se os resultados não forem clinicamente positivos, a liberação pode ser cancelada. A agência é criticada por não ter retirado de circulação algumas drogas para o tratamento do câncer que os respectivos fabricantes ficaram de conduzir um estudo complementar e não o fizeram. E com as medicações no mercado, quem se habilitaria a receber placebo em testes clínicos?

Os resultados clínicos foram muito discretos e apenas com as doses altas. Muito ainda será discutido sobre o custo-benefício da medicação, já que em altas doses ela teve associação com inchaço e hemorragia cerebral em 40% dos pacientes testados. Dos dois estudos realizados, um deles não mostrou eficácia clínica nem mesmo em doses altas.

A aprovação foi feita dentro de um programa do FDA chamado de aprovação acelerada que libera precocemente terapias potencialmente valiosas a pacientes com doenças graves mesmo sem a demonstração inequívoca do real benefício. 

É claro que o lobby da indústria farmacêutica move montanhas. As ações da fabricante subiram 38% no dia da aprovação e o custo do tratamento com Aducanumab é de 56 mil dólares por ano. Efeitos clínicos discretos já foram demonstrados com suplemento de curcumina por 18 meses, inclusive acompanhados de redução nos depósitos de amiloide. Que tal então, por enquanto, usar mais curry na sua cozinha?

5 Amazing Facts You Might Not Know About the Tsimane People - Blog

Eles são menos sedentários, têm uma dieta rica em fibras e gorduras saudáveis e têm o menor grau de aterosclerose nas artérias coronárias já descrito na literatura médica. Estamos falando dos índios da tribo Tsimane, habitantes da Amazônia Boliviana. E agora tivemos mais uma demonstração de que seus órgãos envelhecem de forma mais saudável. O cérebro deles, entre a meia-idade e a velhice, têm uma redução de volume 70% menor do que o de europeus e americanos.

Vale lembrar que um cérebro que encolhe menos ao longo das décadas tem menos chance de ser portador de uma patologia que pode levar a um quadro demencial, como a Doença de Alzheimer. Os resultados desse estudo foram publicados no periódico The Journal of Gerontology após análise do volume cerebral de 746 índios Tsimane com idades de 40 a 94 anos e comparados a moradores do mundo industrializado. A metodologia do estudo não permite criarmos uma relação causa e efeito entre o estilo de vida dos Tsimanes e a menor perda de volume cerebral, mas essa é uma conclusão para lá de tentadora. 

Brown Liquid Pouring on Black and White Ceramic Mug Selective Color Photography

Por Dr. Ricardo Teixeira*

O uso da cafeína após a privação de sono nos deixa mais alerta, mas não resolve tudo. Pesquisadores da Universidade de Michigan, nos EUA, acabam de publicar um estudo demonstrando que uma noite maldormida deixa o cérebro menos eficiente em tarefas que demandam atenção e outras funções executivas. Mostraram também que uma dose de cafeína tem o poder de melhorar o desempenho cognitivo apenas em tarefas que exigem vigília e atenção, mas não naquelas que exigem processamento executivo mais complexo. Os resultados são relevantes para profissionais que confiam na cafeína após a privação de sono. A chance de erro é maior.

Por outro lado, a cafeína pode amenizar a tendência a comportamentos de risco associados à privação de sono, independente do estado de alerta do indivíduo. A privação de sono deprime a função dos sistemas envolvidos no julgamento e percepção de risco e a cafeína minimiza esses efeitos negativos.

Uma pesquisa demonstrou, através de Ressonância Magnética Funcional e testes psicológicos, que uma noite sem dormir muda a forma como o cérebro processa a chance de ganhar ou perder. Uma noite com privação do sono provoca aumento de atividade cerebral em regiões que processam expectativas otimistas e reduz a atividade de outras que processam expectativas pessimistas. Além disso, os testes psicológicos evidenciaram que os voluntários se mostraram mais sensíveis a recompensas e com menor sensibilidade a consequências negativas.

As repercussões desse tipo de mudança de comportamento do cérebro não devem ser tão inocentes. Já sabemos que problemas de sono só perdem para o álcool como causa de desastres no trânsito, especialmente pela redução da atenção e dos reflexos. Imaginem se ainda adicionamos uma pitada de comportamento valente e de risco.

Crop tired sportswoman drinking water during training

Um estudo recém-publicado pelo periódico Frontiers in Nutrition aponta que uma bebida cor de rosa permite maior resistência e velocidade durante uma corrida. E esse efeito aconteceu apenas com o contato do liquido na cavidade bucal, sem ingestão.  

É a primeira vez que se demonstra o efeito da cor de uma bebida no desempenho esportivo. O aumento da velocidade e da distância percorrida foi de 4.4% e houve uma sensação de maior bem-estar no treino que fez com que o exercício parecesse mais fácil. A bebida cor-de-rosa foi comparada a outra transparente, ambas sem qualquer teor calórico, com o mesmo sabor adocicado (sucralose). A cor rosa foi escolhida por criar a expectativa de que a bebida é mais doce, mais calórica, o que já foi demonstrado em diversas culturas. Os próprios voluntários do estudo acharam que a bebida rosa era mais doce.

Pesquisas anteriores já tinham revelado que o bochecho de bebidas com baixo teor calórico durante uma atividade física melhora o desempenho por reduzir a percepção da intensidade do exercício, o que também foi demonstrado no presente estudo. Só que desta vez sem calorias e com o visual rosa, ambos atributos funcionando como placebo. O contato de bebidas com algum teor calórico com a mucosa oral é capaz de estimular o sistema de recompensa cerebral, além de criar a expectativa da ingestão calórica que inibe os circuitos centrais associados à fadiga. E o efeito é ainda maior se o líquido é cor-de-rosa, mesmo se não tiver calorias!   

Nesta última premiação do Oscar, estava torcendo para que o filme “O homem que vendeu sua pele” levasse a estatueta de melhor filme estrangeiro, mas o premiado foi outro. Eu consegui assistir apenas dez minutos do filme vitorioso, pois achei realmente muito chato.

O homem que vendeu sua pele conta a história de um refugiado sírio que faz um contrato com um dos artistas contemporâneos mais cultuados do mundo, aceitando ter suas costas tatuadas e tendo que cumprir uma agenda de exposição em diversos museus mundo afora. Apesar de tratar de uma temática sensível, o seríssimo problema dos refugiados e direitos humanos, o filme foi leve e até com final feliz. Nem por isso deixei de passar uns três dias refletindo e refletindo. Depois de assistir ao filme, chegou até mim um artigo de um crítico de cinema falando que “o filme não está à altura das complexas questões que levanta”.

A leveza dos filmes é frequentemente avaliada por críticos de cinema de forma negativa como filmes sem mérito cultural. Não sou crítico de cinema e não tenho por que me aventurar a apontar que eles estão certos ou errados. Mas o fato é que muita gente aprecia os filmes que nos deixam “para cima” que traz uma “good vibe”. Pesquisadores do respeitado Instituto Max Planck na Alemanha recentemente demonstraram o que os filmes que te deixam pra cima têm em comum.

Cerca de 450 voluntários opinaram e os resultados mostraram que além de pitadas de humor e final feliz, o que faz um filme ser “para cima” inclui também personagens fora dos padrões em busca de um grande amor, que precisam lutar contra circunstâncias adversas e que encontram seu papel na comunidade. Além disso, o filme pode ter momentos de drama que provocam respostas emocionais intensas. E muito importante: todos esses atributos são frequentemente banhados por uma aura de fantasia. Muitos dos que participaram do estudo concordam que os filmes que te deixam para cima podem ser sentimentais, não necessariamente artificiais e são tecnicamente bem feitos.   

O ator que faz o sírio que vendeu sua pele ganhou o prêmio de melhor ator no Festival de Veneza de 2020, mas o filme tem romance, final feliz… Mas prêmio de melhor filme aí já é demais com uma mistura dessas.

Mona Lisa With Face Mask

Antes de ler este artigo, enfatizo que as máscaras vieram para ficar e continuarão fazendo parte do nosso dia a dia por um bom tempo ainda. A pandemia está muito longe de alcançar um controle no nosso meio.

Porém, não há como negar que o uso da máscara tem nos proporcionado, às vezes,  situações constrangedoras ao não reconhecermos pessoas do nosso círculo social.  Além disso, a máscara pode dificultar a percepção das emoções das pessoas, apesar do olhar e o tom de voz das pessoas já nos dizerem quase tudo.

Para entender melhor o impacto do uso das máscaras sobre o reconhecimento facial das pessoas, pesquisadores canadenses e israelenses conduziram um estudo que analisou como isso acontece. A pesquisa foi publicada recentemente pela prestigiada revista Scientific Reports.

Como esperado, as máscaras dificultaram o reconhecimento facial pelos cerca de 500 indivíduos testados em um experimento online. Do ponto de vista qualitativo, a presença das máscaras dificultou sobremaneira a identificação facial como um todo, também chamada de percepção holística. Essa percepção holística é proporcional à capacidade que temos de reconhecer as imagens de cabeça para baixo, o que foi confirmado nessa pesquisa: o efeito da inversão foi duas vezes menor nas faces com máscara. Isso significa que o reconhecimento holístico com a máscara já estava dificultado, e a inversão teve menor impacto. Já foi demonstrado em estudos anteriores que a parte inferior da face, a parte que fica sob a máscara, é a que mais tem influência nesse reconhecimento holístico. Tanto é que que quando a imagem é invertida, a identificação da face inferior é mais prejudicada que a dos olhos.

 

As mulheres tiveram mais facilidade nesses testes de reconhecimento facial, com ou sem máscaras, confirmando uma série de pesquisas prévias.

Continue usando sua máscara. Os benefícios são infinitamente maiores que os irrisórios desconfortos.

Teen on straight road between grass in summer

O psicanalista Contardo Calligaris na sua preciosa obra A Adolescência começa com uma provocação bastante inspiradora: imagine que você sobreviva a uma queda de avião no meio da floresta amazônica e é acolhido por uma tribo de índios que nunca tiveram contato com os ditos homens da civilização. Você é avisado que precisará de doze anos para incorporar a cultura local. Passaram esses doze anos, você já fala perfeitamente a língua deles, conhece suas regras, você já se sente um deles e sabe que nessa sociedade é importante se sobressair, e isso inclui a habilidade da pesca. Você já está bem treinado, mas os anciões da tribo lhe comunicam que ainda serão necessários dez anos para que você passe a ser realmente um integrante da tribo e que isso é inteiramente para o seu bem. Mais dez anos de treino sem grandes responsabilidades. Mais dez anos no limbo: esta é a adolescência. 

   
Calligaris fala em limbo, com muita propriedade, pois o cérebro de um adolescente gira em torno da palavra reconhecimento. Desejamos que um adolescente tenha uma dieta saudável e oferecemos a ele um conjunto de informações dizendo do que é feita essa boa dieta e por que alimentar-se de junk food faz mal à saúde. Isso já foi comprovado que dá resultados com crianças, mas com adolescentes o discurso tem que melhorar. Aos 13 anos, eles não querem mensagens paternalistas dos adultos.

 
Um estudo publicado em 2019 pela revista Nature Human Behaviour mostrou que em vez de informações nutricionais, apresente a eles uma série de reportagens de como os executivos da indústria de junk food usam a publicidade para manipular os adolescentes e seus relatos de que não permitem que seus próprios filhos consumam os alimentos que eles produzem. Nos três meses após essa intervenção, os adolescentes passaram a ter uma dieta mais saudável, como se fosse uma forma de protesto contra a manipulação a que foram submetidos. A resposta foi mais expressiva entre adolescentes do sexo masculino e com maiores níveis de testosterona no sangue.  


Há uma linha de pesquisa já robusta evidenciando novos métodos para melhorar os problemas de comportamento na adolescência que enfatiza o respeito e reconhecimento, o senso de pertencimento a algo maior e a necessidade que o adolescente tem de reconhecer um propósito de vida. 


Apesar de ser uma época em que o corpo é saudável como em nenhuma outra fase da vida, a adolescência carrega consigo índices alarmantes de acidentes, suicídio, homicídio, depressão, uso de álcool e substâncias ilícitas, violência, transtornos alimentares e obesidade. Tudo isso tem relação direta com as mudanças hormonais e seus efeitos sobre o cérebro, mas o cérebro por si mesmo passa por transformações só comparáveis às ocorridas nos três primeiros anos de vida. Outro detalhe que faz toda a diferença: regiões do cérebro que são ligadas às emoções, ao novo, recompensas, ameaças e às expectativas dos pares, essas regiões tem um surto de crescimento que não é acompanhado na mesma velocidade pelas áreas associadas à razão, julgamento e funções executivas. E esse descompasso de crescimento explica em parte o comportamento de risco e a “fome” por recompensas sociais dos adolescentes. O olhar evolutivo é de que que essas são ações que os afastam da segurança da família para explorar um mundo social maior.  


Finalizando, teremos mais sucesso na comunicação com um adolescente se incorporarmos um tom de respeito à sua autenticidade e independência. E mais do que isso, se acharmos um canal pelo qual possamos reforçar uma das principais razões de ser desse cérebro em franco desenvolvimento: contribuir para o mundo social. 

5 motivos para assistir a “O Gambito da Rainha” | Super

Ameaça de estereótipo é um fenômeno em que uma pessoa experimenta insegurança e ansiedade pelo receio de ter um pior desempenho por fazer parte de um grupo com estereótipo de inferioridade. Estamos falando da raça negra e gênero feminino, por exemplo.

As pessoas que fazem parte desses grupos têm pior desempenho quando “lembradas” desses estereótipos. Esse é o caso de meninas em testes de matemática quando lembradas que os meninos são melhores em matemática. O mesmo ocorre se as meninas recebem alguma mensagem subliminar durante uma partida de que meninos são superiores no xadrez. Além disso, o estereótipo de um campeão de xadrez é o de um homem esquisito e não o de uma mulher graciosa.

Negros também têm pior desempenho em um teste cognitivo quando são avisados que a resolução do problema depende de habilidade intelectual. Negros carregam o estereotipo que são menos inteligentes que os brancos. Pobres também carregam um estigma gigante.

A ameaça de estereótipos pode fazer com que mulheres não sigam uma série de carreiras que os homens são supostamente superiores. Pode fazer com que negros não desenvolvam plenamente suas habilidades cognitivas. Meninos também carregam seus estereótipos. Será que eles têm mesmo menores dons artísticos?

É fundamental a conscientização desse fenômeno por parte de pais e professores. Dar pistas para que se lembre da igualdade entre os gêneros e entre as raças pode fazer com que essas diferenças deixem de existir. E isso tem que acontecer desde cedo. Assim como no experimento do jogo de xadrez descrito acima, meninas já com oito anos de idade passam a se comportar de forma mais acanhada frente a uma figura masculina quando o assunto é negociação de uma premiação, semelhante ao que acontece entre adultos.

Isso foi recentemente demonstrado num estudo em que meninas e meninos tinham que negociar um prêmio após uma tarefa realizada. As meninas nas idades de 4 e 7 anos negociavam com um avaliador homem da mesma forma que o faziam com uma mulher, mas aos 8 anos já tinham uma demanda mais tímida frente a um homem. Com os meninos essa diferença não existiu. Com o passar dos anos, as meninas passavam a pedir um número menor de adesivos como prêmio, mas quando a negociação era com um adulto homem. Isso pode ser explicado por sinais subliminares, ou não, passados ano após ano às crianças. Ao negociar com uma mulher adulta, com a idade as meninas passavam a requisitar mais adesivos e com maior persistência! E lembramos mais uma vez: entre os meninos não houve qualquer diferença se o avaliador era homem ou mulher.

Close Up Photography of Yellow Green Red and Brown Plastic Cones on White Lined Surface

Vivemos em rede desde os mais remotos tempos e o sucesso da espécie humana depende de sua capacidade em fazer relações sociais, capacidade que é vista como uma vantagem evolutiva. Indivíduos no centro de uma rede social têm mais acesso à informação, e no caso dos nossos ancestrais, essa informação poderia ser, por exemplo, o local de uma nova fonte de alimento. Entender melhor como funciona as redes sociais permite-nos entender também como elas podem influenciar importantes problemas de saúde pública, área recente do conhecimento chamada de epidemiologia social. Nos últimos anos, riquíssimos estudos nessa área vêm sendo publicados pelos pesquisadores americanos Fowler e Christakis, junto a outros colaboradores, nos mais renomados periódicos científicos do mundo. Vejam só como os amigos têm influência em nossas vidas:

1- Os pesquisadores publicaram um estudo revelando que, numa epidemia infectocontagiosa, no caso, o vírus da gripe, indivíduos mais ao centro da rede social são acometidos mais precocemente. Esse achado pode facilitar o controle de epidemias ao se focar os esforços precocemente em indivíduos mais vulneráveis.

2- A rede social de um indivíduo tem impacto no seu risco de tornar-se obeso em até três graus da rede (ex: amigo do amigo do amigo). Essa associação é muito mais forte pela proximidade social do que pela geográfica, como é o caso de vizinhos.  A chance de uma pessoa se tornar obesa é 57% maior se um amigo se tornou obeso num dado período. Entre irmãos, a chance é 40% maior e no caso do cônjuge, a chance aumenta em 37%.

3- Esse mesmo efeito de contágio social existe na chance que uma pessoa tem de parar de fumar. Quando um dos membros de um casal para de fumar, o outro tem uma chance 67% maior de parar também. O indivíduo tem 25% mais chances de parar quando um irmão/ irmã também para, 36% mais chance quando um amigo para e 34% mais chance quando um colega de trabalho para.

4- O contágio social também exista na capacidade de uma pessoa se considerar feliz. Há uma tendência de pessoas felizes estarem no centro de suas redes sociais e próximas de outras com alto grau de felicidade, criando aglomerados de pessoas felizes. Além disso, ao longo do tempo, as pessoas ficam mais felizes quando passam a ser cercadas por outras felizes. Um amigo feliz que mora por perto (menos de 2 km) aumenta a chance de uma pessoa ser feliz em 25%, irmãos felizes por perto em 14%, e vizinhos em 34%. Esse efeito contagioso da felicidade diminui com o tempo e também com a distância entre as pessoas, e não é percebido entre colegas de trabalho. Também existe uma tendência do contágio social de sintomas depressivos entre amigos e vizinhos. O efeito parece ser mais marcante com amigas do sexo feminino.

5- O mesmo fenômeno foi demonstrado quando o assunto é consumo de bebidas alcoólicas. A quantidade de álcool que uma pessoa consome é proporcional ao tanto que seus amigos e parentes próximos bebem. O padrão de consumo de álcool de vizinhos e colegas de trabalho não tem a mesma influência. Aqueles que não bebem têm menos amigos e parentes que não bebem.

6- E é claro que com outras drogas não ia ser diferente. O efeito do contágio social no perfil de uso de drogas entre adolescentes chega a envolver quatro níveis da rede social. Também foi demonstrado esse contágio no número de horas diárias de sono e que há uma relação estreita entre a quantidade de sono o e o consumo de drogas. Quando uma pessoa dorme menos de sete horas por noite, a chance de um amigo dormir menos de sete horas é 11% maior. Quando um adolescente usa maconha, a chance de um amigo usar é 110% maior. Quando uma pessoa dorme menos de 7 horas, a chance de um amigo usar drogas aumenta em 19%.

Este é um novo modo de pensar a saúde. Qualquer intervenção positiva nos hábitos de vida de um indivíduo pode se alastrar para a sua rede social. Há também o outro lado da moeda: comportamentos negativos também se difundem pela rede. É de se esperar que a internet amplifique cada vez mais esse poder, tanto para o lado positivo quanto negativo, mas o balanço geral certamente será um reflexo da eficiência das políticas públicas para a promoção de saúde da população. Christakis, que é considerado um dos cem pensadores mais influentes do mundo, não esconde sua indignação com a condução da pandemia durante o governo Trump.

Tiro Microscópico De Um Vírus

No início da pandemia, os holofotes eram todos voltados ao sistema respiratório e circulatório e aos poucos os transtornos provocados pelo vírus sobre o sistema nervoso começaram a ser identificados. Os problemas incluem desde a redução do olfato, dificuldades de memória e dores de cabeça até derrames cerebrais, encefalite e estados de confusão mental e psicose. Isso sem falar dos efeitos das mudanças psicossociais do fenômeno pandemia, como depressão, ansiedade e estresse pós-traumático.

Um estudo da Unicamp mostrou que 25% das pessoas que morreram por COVID-19 apresentam algum grau de dano cerebral por avaliação neuropatológica, porém outras pesquisas nos mostram que sintomas neurológicos estão presentes em mais de 80% dos pacientes na fase aguda ou nos meses subsequentes. Hoje já temos uma boa ideia da frequência com que cada sintoma neurológico ocorre e abordaremos aqui três dos sintomas mais comuns.

Dificuldades de memória e atenção acometem mais de 60% das pessoas que apresentaram a infecção e, curiosamente, costumam ocorrer semanas depois do quadro agudo. Pode durar meses e os achados mais recentes apontam que um processo inflamatório seja responsável pelas queixas. Isso abre uma perspectiva de que medicamentos anti-inflamatórios podem ajudar, mas ainda não temos esta constatação.

Dor de cabeça ocorre em cerca de metade dos pacientes, geralmente forte e muitas vezes com características de enxaqueca. Alguns têm dor de cabeça inédita e não tinham história de episódios anteriores, enquanto outros têm piora da frequência da enxaqueca que já apresentavam antes da infecção.  

Vinte por cento dos pacientes têm redução ou perdem o olfato na fase aguda da doença, sintoma que também pode perdurar por meses, mas a maioria tem reversão completa da disfunção dentro de um mês. Nesse caso, já foi demonstrado que os neurônios podem sofrer diretamente com a infecção, mas também indiretamente, por acometimento dos astrócitos, células que provêm energia para os neurônios. As células da mucosa nasal, ricas em receptores ACE-2 e que suportam o nervo olfatório, também são acometidas reduzindo assim a nutrição desse nervo.

As séries neuropatológicas publicadas até o momento apontam que a identificação do vírus no cérebro não é tão significativa quanto em outros órgãos. Uma explicação é que o cérebro não é rico em receptores ACE-2, a porta de entrada do vírus nas células e isso aponta a favor da resposta imunológica ser a maior causadora das lesões cerebrais. Por outro lado, o estudo da Unicamp revela que os receptores Neuropilina podem ser a principal porta de entrada do vírus nas células do sistema nervoso. Os pesquisadores demonstraram acometimento dos astrócitos que não têm receptores ACE-2.  

Futuros estudos devem apostar em marcadores biológicos que melhor esclareçam o que é infecção direta pelo vírus, o que é inflamação e o que é autoimunidade. Saberemos também qual o impacto desse ataque cerebral no médio e longo prazo.

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As pessoas não têm a menor expectativa que podem se comunicar com alguém que esteja sonhando. Entretanto, pesquisadores de diversos centros de pesquisa no mundo conduziram um estudo mostrando que isso é possível sim. Os resultados foram recém-publicados pela prestigiada revista Current Biology.

Foram estudados 36 voluntários em quatro diferentes centros de pesquisa na Europa e nos Estados Unidos que tinham sonhos lúcidos, sonhos em que as pessoas têm consciência de que estão sonhando. Os pesquisadores demonstraram que é possível que uma pessoa sonhando possa seguir instruções elementares, fazer cálculos matemáticos simples, responder a questões sim / não e até diferenciar diferentes estímulos sensoriais. As respostas eram identificadas através de sinais eletrofisiológicos no eletrencefalograma além de movimentação palpebral e contração de músculos faciais. A esse fenômeno os cientistas chamaram de “sonho interativo”.

O mesmo método empregado pode ter utilidade fora dos laboratórios ao permitir que as pessoas aprendam enquanto dormem, solucionem problemas e pode até ajudar as pessoas que sofrem com pesadelos.   

Black and White Mouse

Calcula-se hoje que mais de 4 bilhões de pessoas passam horas em plataformas de mídias sociais como Instagram, Facebook, Twitter, entre outras. E onde está o segredo desse fenômeno? Sabe aquele experimento clássico de ratinhos em que eles ganham o alimento toda vez que acionam uma alavanca? Pois é.

Pesquisadores de diversos centros na Europa e Estados Unidos demonstraram que o padrão de uso das redes sociais se assemelha muito a esse experimento do ratinho. Quanto mais suporte é dado pelos outros, mais frequentes as publicações. Após repetidas vezes que o ratinho aciona a alavanca e é premiado com o alimento, mais frequentemente ele repetirá a ação. O estudo foi recém-publicado pela prestigiada revista Nature Communications

Os pesquisadores analisaram mais de um milhão de posts entre 4000 usuários de redes sociais e identificaram que os posts passam a ser mais frequentes à medida que recebem feedbacks positivos. Eles usaram então modelos computacionais para demonstrar que esse comportamento é similar ao de maximização de recompensa, como no caso do experimento do ratinho. E eles foram além. Conduziram um experimento online em que os voluntários tinham que publicar memes engraçados e o mesmo padrão de recompensa foi encontrado. Quanto mais likes, maior foi frequência das publicações.

O estudo colabora para o melhor entendimento das razões que fazem com que o uso das redes sociais seja tão presente no cotidiano das pessoas, e não poucas vezes, de forma compulsiva concorrendo diretamente até com experiências básicas como comer e dormir.
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Free stock photo of adolescent, adult, american bar

Uma análise dos principais estudos sobre o efeito da maconha sobre o cérebro dos adolescentes confirma que seu uso pode realmente reduzir a capacidade cognitiva nessa população. O estudo envolveu 808 adolescentes que usavam a droga pelo menos uma vez por semana por pelo menos seis meses. Após acompanhamento até os 18 anos de idade, sendo que em um dos estudos até os 38 anos, os resultados mostraram que o consumo da maconha reduziu em dois pontos o Quociente de Inteligência, especialmente por redução da memória verbal.

E não é só isso. Atendo no consultório recorrentemente adolescentes com transtornos psiquiátricos associados ao consumo da maconha. Usuários de maconha têm chance 40% maior de apresentar sintomas psicóticos no decorrer da vida, e um risco mais de duas vezes maior de desenvolver esquizofrenia entre aqueles que usaram a droga antes dos 18 anos de idade. E aquilo que já foi um tema controverso, há algum tempo não é mais motivo de discussão: o uso regular de maconha aumenta sim o risco do uso de outras drogas ilícitas como a cocaína. Adolescentes com uso esporádico ou frequente têm um risco 26 vezes maior de usarem outras drogas ilícitas, 37 vezes maior de se tornarem tabagistas e três vezes maior de consumirem álcool em quantidades exageradas. Quanto mais precoce for o uso crônico da maconha, maiores os danos.

As evidências científicas dessa história não são nem um pouco tímidas. Uma prova incontestável de que o cérebro adolescente é realmente mais sensível aos efeitos tóxicos da maconha é o estudo publicado pela revista Brain em 2012 em que foram demonstradas alterações microestruturais que reduzem a eficiência das conexões cerebrais entre usuários crônicos de maconha. Mais uma vez, as perdas foram maiores naqueles que começaram a fumar já no início da adolescência.

Existe uma crescente ideia entre os jovens de que o cigarro é “careta”, pois faz mal à saúde, e de que a maconha é bem diferente. O conjunto de evidências que dispomos atualmente demonstra que tanto o cigarro como o álcool trazem muito mais danos à sociedade do que a maconha, mas também revelam que os efeitos negativos da maconha sobre a saúde humana não são nada desprezíveis. Para entender ainda mais os efeitos da maconha sobre o cérebro dos adolescentes, um grande estudo está em andamento nos EUA e acompanhará dez mil crianças a partir dos dez anos de idade (Adolescent Brain Cognitive Development Study). Esse estudo nos trará resultados sobre o efeito da maconha em um cérebro em desenvolvimento, reunindo análises genéticas, neuropsicológicas, de neuroimagem e rendimento acadêmico.

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