No contexto da evolução das espécies, o ser humano pode ser considerado um recém-nascido. Os mamíferos apareceram há 225 milhões de anos, os primatas há 65 milhões, e os ancestrais hominídeos apareceram há cinco milhões de anos. Alguns podem achar cinco milhões de anos muito tempo, mas pode ser interessante lembrar que nosso código genético, que é como se fosse um texto composto por três bilhões de letras, é idêntico ao de um chimpanzé em 98,5% do seu conteúdo.

A população mundial está envelhecendo, e isso é explicado em parte pelos grandes avanços da ciência nas últimas décadas. A expectativa de vida do Australopitecus há quatro milhões de anos era de apenas 15 anos, 25 anos para europeus na Idade Média, cerca de 40 anos no século XIX, 55 anos no início do século XX, e atualmente, em muitos países, a expectativa de vida já é maior que 75 anos de idade. Como podemos perceber, nossos ancestrais não envelheciam e toda a programação genética estava concentrada em oferecer condições para que o indivíduo conseguisse se reproduzir e perpetuar a espécie.

Nossa grande longevidade é um fenômeno bem recente, e não houve tempo de nos adaptarmos geneticamente a esse novo cenário. Essa é uma forma importante de entender o porquê das doenças degenerativas. Mas vamos deixar de lado as doenças, e focar no nosso envelhecimento normal.

Temos inúmeras evidências do declínio funcional de nosso organismo em idades mais avançadas. O impacto no sistema nervoso é significativo, pois é este sistema que permeia toda nossa interação com o mundo à nossa volta (e.g.; órgãos dos sentidos, respostas motoras, emoção), também chamada Vida de Relação. Talvez seja também o sistema cuja perda de funções seja mais temida por nós. O próprio conceito de envelhecimento da Organização Mundial de Saúde reflete sobremaneira a dimensão de perdas do sistema nervoso: redução da adaptabilidade a estímulos sensoriais.

Já se conhece bastante sobre as alterações cerebrais morfológicas e fisiológicas associadas ao processo de envelhecimento normal. Por volta dos 15 anos de idade nosso encéfalo alcança seu maior peso (~ 1350g), com uma perda de cerca de 1,5% desse peso a cada década.  Essa redução se dá muito mais por redução do tamanho dos neurônios do que por destruição dos mesmos. Paralelamente, há uma redução no número de conexões entre os neurônios e significativo acúmulo de substâncias associadas ao envelhecimento que dificultam o pleno funcionamento cerebral.

Do ponto de vista funcional, essas alterações estruturais só começam a ter impacto após a sexta década de vida. Em média, só a partir dos 60 anos é possível confirmar declínio de capacidades psicométricas, com exceção da fluência verbal que declina levemente já na quinta década de vida. O declínio dessas capacidades é muito modesto até os 80 anos, quando se torna mais acentuado em pelo menos 50% dos indivíduos.

Um conceito fundamental para entendermos melhor como investir bem em nosso cérebro é o conceito de Reserva Cerebral. Se o nosso cérebro tem uma tendência natural a perder um pouco de seu desempenho em idades mais avançadas, quanto mais conexões formarmos no decorrer da vida, quanto mais aumentarmos nosso repertório, menor a chance de que pequenas perdas estruturais tenham repercussão funcional. E o que dirá quando o indivíduo apresenta doença cerebral como a Doença de Alzheimer? Maiores reservas fazem com que mais tempo de doença seja necessário para que ela se manifeste clinicamente. Ou seja, quanto maior a reserva, mais tempo o cérebro mantém seu funcionamento normal, mesmo que ele esteja doente. E isso já foi demonstrado em inúmeros estudos.

O status sócio-econômico e educacional é sem sombra de dúvidas um dos pilares mais fortes de nossa Reserva Cerebral, sendo que quanto maior esse status, maior a reserva. Até mesmo a época em que nascemos faz diferença, sendo que indivíduos que nasceram e cresceram em épocas mais recentes apresentam melhor desempenho cognitivo do que suas gerações anteriores.

Pesquisas recentes demonstram que o cérebro do idoso ao ser treinado responde com melhora de desempenho nas habilidades ensinadas. Tais treinamentos foram realizados com exercícios para estimulação da memória, resolução de problemas, velocidade de processamento, alguns deles por meio de sofisticados softwares. Entretanto, parece que atitudes mais instintivas e artesanais podem ter efeito também bastante significativo: a atividade de lazer é um exemplo.

Há cerca de uma década, repetidos estudos vêm demonstrando que lazer é coisa séria, e é um hábito que está associado a um menor risco de desenvolver demência. A explicação reside no fato de que o lazer também é capaz de treinar nossos cérebros, aumentando nossa Reserva Cerebral. O interessante é que algumas atividades de lazer parecem ser mais positivas do que outras. Estudos realizados na cidade de Nova York revelaram que as atividades mais “protetoras” foram leitura, palavras cruzadas, jogos de tabuleiro, passeios turísticos, visitas a amigos e parentes, idas ao cinema, restaurante ou a evento esportivo, tocar instrumento musical.

Uma pesquisa recém-publicada pela Neurology da Academia Americana de Neurologia mostrou que o efeito protetor dessas atividades é menor entre os portadores de genótipo associado à Doença de Alzheimer – APOE4. Mostrou também o quanto a atividade física pode incrementar nossa Reserva Cerebral especialmente na velocidade do pensamento. Vale lembrar que o lazer para muitos está intimamente ligado a atividades esportivas.

De qualquer forma, precisamos estar atentos em estimular os nossos jovens a desenvolver um repertório amplo de atividades de lazer “inteligentes”, pois os hábitos são mais fáceis de serem adquiridos quando iniciados em fases mais precoces da vida. Quanto aos nossos idosos, atenção redobrada. Podemos começar por melhor conhecer e demandar aquilo que está escrito no Estatuto do Idoso, em vigor em nosso país desde 2003:

Art. 3º – É obrigação da família, da comunidade, da sociedade e do Poder Público assegurar ao idoso, com absoluta prioridade, a efetivação do direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, à cultura, ao esporte, ao lazer, ao trabalho, à cidadania, à liberdade, à dignidade, ao respeito e à convivência familiar e comunitária.

Art. 21º – O Poder Público criará oportunidades de acesso do idoso à educação, adequando currículos, metodologias e material didático aos programas educacionais a ele destinados.

Art. 24º – Os meios de comunicação manterão espaços ou horários especiais voltados aos idosos, com finalidade informativa, educativa, artística e cultural e ao público sobre o processo de envelhecimento.

Os Titãs não estavam falando em luxo com: “A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”.

Um estudo acaba de ser publicado pela Neurology, periódico da Academia Americana de Neurologia, mostrando que mulheres na menopausa apresentam um contingente maior de lesões de pequenos vasos cerebrais quando comparadas a mulheres da mesma idade que não estão na menopausa. O volume dessas lesões também é maior nas mulheres na menopausa do que nos homens da mesma idade, mas isso não ocorre nas mulheres na pré-menopausa.

Mostraram ainda que o efeito deletério da hipertensão não controlada, quando se analisa a quantidade de lesões de pequenos vasos, foi maior entre as mulheres, independente de estarem ou não na menopausa.   Além disso, os pesquisadores demonstraram que a terapia de reposição hormonal não foi um fator que modificou essas correlações. Isso sugere que enxergar esses resultados como decorrentes da redução do hormônio estradiol pode ser uma visão reducionista. Uma série de outros mecanismos têm sido explorados para explicar essa maior vulnerabilidade da saúde vascular entre mulheres na menopausa.

Quando se fala em lesões dos pequenos vasos que chegam a provocar um buraquinho no cérebro, também chamadas de lacunas, estudos com ressonância magnética revelam que cerca de 20% dos idosos apresentam tais lesões sem nunca ter apresentado sintomas. Quando se fala em lesões que só fazem pequenas cicatrizes no cérebro, elas estão presentes em até 90% dos idosos e foram essas que foram analisadas no presente estudo. Muito frequentes, muito pequenas, mas nem tão inocentes assim.

O raciocínio habitual quando se pensa em doença dos pequenos vasos cerebrais é o de que uma ou duas lesões realmente não costumam provocar sintomas, a não ser quando se localizam em algumas regiões muito específicas, também chamadas de áreas eloquentes. Já o cérebro que apresenta inúmeras dessas cicatrizes, esse sim começa a funcionar de forma mais ineficiente. Algumas pessoas chegam a apresentar dificuldades graves do pensamento e da marcha, e hoje em dia reconhece-se que essa seja uma das principais causas de déficit cognitivo entre os idosos.

Existem fatores genéticos que determinam o quanto de lesões terá um cérebro que envelhece. Entretanto, é bem sabido que os conhecidos fatores de risco para aterosclerose (ex: hipertensão arterial, diabetes, tabagismo, etc.) aumentam significativamente a chance de uma pessoa colecionar mais dessas lesões ao longo dos anos.

Pesquisas apontam que passamos metade de nossas vidas conversando com nós mesmos. O que estamos chamando aqui de voz interna é a produção mental silenciosa de palavras e frases e isso pode ser encarado como um aspecto positivo para nosso equilíbrio psíquico. É claro que muitos fazem esse monólogo em alto e bom tom: conversam sozinhos em voz alta.

Essa voz interna está ligada a uma série de funções psicológicas como leitura, escrita, planejamento, memória, motivação e resolução de problemas e conflitos. Algumas pessoas, por outro lado, não têm esse monólogo interno. Existe ainda as que não tem capacidade de experimentar mentalmente experiências sensoriais, seja visual ou de qualquer outro tipo. A isso se dá o nome de afantasia. Não conseguem, por exemplo, contar carneirinhos. Essas capacidades dependem de uma rede de regiões em todo o cérebro que trabalham em conjunto para gerar a experiência sensorial com base em memórias. O melhor palpite até agora é que naqueles que têm afantasia as ligações entre estas áreas do cérebro são interrompidas. Interrompidas por uma lesão cerebral grave ou mesmo sem qualquer lesão, como por exemplo por uma herança geneticamente definida.

Voltando à nossa voz interna, ela também é dependente da integridade de uma extensa rede neural, especialmente a que liga as regiões frontais ao córtex auditivo. Essa voz é muito frequente em situações de automotivação e autocrítica. Um exemplo é o atleta que se prepara mentalmente no instante de uma situação decisiva, como bater um pênalti ou partir para um salto. A voz continua a se manifestar após a competição para autoavaliação do seu desempenho. Esse monólogo pode ter a forma de um diálogo de uma pessoa só, podendo até ter conteúdo daquilo que outras pessoas estariam falando naquela situação.

Nossos monólogos nos ajudam em inúmeras situações, mas também podem gerar a ruminação de pensamentos negativos, promovendo ansiedade, sintomas depressivos, transtornos alimentares e outras formas de desequilíbrio psíquico. Então vale ter sempre cuidado com o que você fala, mesmo que seja só para você.

Em tempo: os amigos imaginários, fenômeno comum entre as crianças, não devem ser vistos como algo negativo para a saúde mental desde que se tenha convicção de que o amigo é realmente imaginário. Se isso passa a ser percebido como realidade e se conteúdos negativos são dominantes, pode ser o caso de se tratar de vozes internas da psicopatologia, delírios e alucinações.

O consumo de café antes de fazer compras aumenta em 30% a quantidade de itens comprados e em 50% nos gastos. Esses são os resultados de uma pesquisa conduzida liderada pela Universidade da Florida nos EUA e publicada recentemente pelo periódico Journal of Marketing.

Os pesquisadores conduziram três experimentos para chegar a esses resultados envolvendo até 300 voluntários comparando o consumo de café expresso (100mg cafeína) com café descafeinado e água. Além de comprar e gastar mais, aqueles que tomaram o expresso compraram mais itens não essenciais, como velas aromáticas e fragrâncias. Isso foi demonstrado tanto em lojas físicas como em laboratório em compras pela internet. O efeito da cafeína sobre o comportamento de consumo foi bem menor estre aqueles que já consumiam café em grandes quantidades. Impulsividade associada à cafeína já foi demonstrada entre jogadores patológicos e até mesmo entre indivíduos com comportamento sexual de risco.

Por outro lado, a cafeína nos deixa mais alertas e pode inibir o comportamento impulsivo associado à privação de sono. A privação de sono deprime a função dos sistemas envolvidos no julgamento e percepção de risco e a cafeína minimiza esses efeitos negativos. A substância, nessa situação, ajuda, mas não em todas as dimensões cognitivas. Uma noite mal dormida deixa o cérebro menos eficiente em tarefas que demandam atenção e outras funções executivas. Uma dose de cafeína tem o poder de melhorar o desempenho cognitivo apenas em tarefas que exigem vigília e atenção, mas não naquelas que exigem processamento executivo mais complexo. Na privação de sono, mesmo com cafeína, a chance de erro é maior.

Uma pesquisa demonstrou, através de Ressonância Magnética Funcional e testes psicológicos, que uma noite sem dormir muda a forma como o cérebro processa a chance de ganhar ou perder. Uma noite com privação do sono provoca aumento de atividade cerebral em regiões que processam expectativas otimistas e reduz a atividade de outras que processam expectativas pessimistas. Além disso, os testes psicológicos evidenciaram que os voluntários se mostraram mais sensíveis a recompensas e com menor sensibilidade a consequências negativas.

Um estudo da Universidade de Uppsala, na Suécia, mostra que após uma noite de privação de sono, as pessoas têm menor contato visual com os outros e uma avaliação diferente às suas expressões faciais. A pesquisa foi publicada recentemente pelo periódico Nature and Science of Sleep. Expressões faciais de raiva elicitavam uma impressão de se tratar de um indivíduo menos saudável e de menor confiabilidade, enquanto expressões neutras ou de medo davam a impressão de serem pessoas menos atrativas.

O estudo usou a tecnologia de rastreamento ocular em 45 jovens que eram apresentados a imagens de indivíduos com diferentes expressões faciais. Eles eram testados após uma noite de oito horas de sono e depois após uma noite de privação total do sono. O menor tempo de fixação visual encontrado após a privação de sono, especialmente da metade superior da face, aumentou a chance de interpretação imprecisa do estado emocional dos outros.

No presente estudo, a privação de sono levou a um julgamento mais negativo e pode estar associado a uma menor motivação para a interação social no mudo real. Isso já foi sugerido pelos resultados de uma pesquisa publicada pela Nature Communications em 2018. Muito interessante é o fato de que a privação de sono dispara um sinal de repulsa social naqueles que estão sem dormir, mas também entre aqueles que estão interagindo com o insone.

  

E a relação entre privação de sono e sociabilidade é de via dupla. Camundongos submetidos a isolamento social passam a ter o sono menos eficiente. Em humanos acontece o mesmo, enquanto a promoção de socialização melhora o padrão do sono. Sabemos também que a privação de sono está associada uma maior ativação das amígdalas cerebrais quando em frente a estímulos de contextos negativos ou prazerosos.

Por Dr. Ricardo Teixeira*

Vamos primeiro aos números alarmantes. Os dados da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional apontam que 33 milhões de pessoas passam fome no Brasil no ano de 2022, contingente maior do que o registrado há 30 anos, quando a população era bem menor. Seis em cada 10 brasileiros convivem com algum grau de insegurança alimentar. Em 2018 – 5,8% dos brasileiros passavam fome. Em 2020 – 9% e em 2022 – 15,5%. Há fome em 13,5% dos domicílios em que residem apenas adultos, enquanto entre domicílios com 3 ou mais crianças ou jovens é de 25,7%.

A pobreza é reconhecida como um dos principais fatores que contribuem para o número de pessoas com retardo mental ao redor o mundo. Em países desenvolvidos, a prevalência de retardo mental situa-se em torno de 3-5 / 1000 indivíduos, enquanto em países pobres a prevalência chega a ser cinco vezes maior. A pobreza está por trás de dois dos principais fatores de risco para o retardo mental: deficiência nutricional e de estímulo cerebral. O problema deve ser visto como uma epidemia neurológica escondida. Do ponto de vista de saúde pública, a pobreza tem um impacto sobre o estado neurológico muito maior que a grande maioria das doenças neurológicas com suas organizadas sociedades médicas e associações de pacientes, e com seus medicamentos que movem o business da saúde.

Mesmo as crianças que não desenvolvem retardo mental chegam em idades avançadas com menor desempenho cognitivo quando crescem em situação de pobreza. Há evidências também de um envelhecimento cerebral mais rápido entre os pobres e que a pobreza na infância está associada a uma redução do volume da substancia branca e cinzenta do cérebro.

Atacar de frente a pobreza vai além da questão de humanismo e de direitos humanos. O Banco Mundial reconhece que dentre todas as intervenções em saúde, o controle da desnutrição pode ser considerado a que apresenta melhor custo-benefício. E os primeiros anos de vida de uma criança são os mais vulneráveis para o cérebro, começando a contar desde o primeiro dia da concepção, na barriga da mãe. A mãe precisa comer bem. Todo mundo tem que comer bem. E uma coisa puxa a outra. Crianças desnutridas têm menor chance de chegar à escola, e quando chegam, têm maior chance de evasão.

Pense nisso. A fome sangra o indivíduo, sangra uma família, sangra um país.

*Dr. Ricardo Teixeira é neurologista e diretor clínico do Instituto do Cérebro de Brasília

Maior bem estar, concentração, autoestima e rendimento acadêmico. Menores índices de sintomas ansiosos e depressivos e menos problemas sociais. Esses são exemplos dos efeitos positivos da atividade física sobre as crianças e adolescentes. Nesta última semana, um estudo envolvendo mais de 11 mil crianças e adolescentes nos EUA mostrou que esses benefícios apontados acima realmente existem, mas apenas nos esportes coletivos. Quando as crianças praticavam apenas esportes individuais, a chance de problemas sociais, de atenção, ansiedade e depressão foi até maior que entre os sedentários. As atividades coletivas são um campo fértil de oportunidades na construção de relações sociais promovendo assim um melhor equilíbrio mental. E essa interação social é um combustível mais do que necessário nessa faixa etária.

Alguns estudos já tinham demonstrado a superioridade de atividades esportivas sobre o equilíbrio mental entre crianças e adolescentes, mesmo que o esporte seja individual. Entretanto, algumas pesquisas já apontavam que os esportes solitários podem favorecer o burnout entre atletas jovens dentro de uma cultura de altos volumes de treino e competitividade. Às vezes, podem até incitar comportamentos amorais. Crianças e adolescentes que competem em esportes individuais podem sofrer por uma maior cobrança pelos outros e por si próprios, já que os resultados são extremamente dependentes dos seus desempenhos. A olimpíada de Tóquio em 2021 descortinou essa problemática como nunca antes. E quando se fala em atletas de elite, é claro que o problema também existe nos esportes coletivos. 

Pessoas que têm marcadores genéticos que predispõem ao desenvolvimento da Doença de Alzheimer podem atrasar o aparecimento de sintomas através de sete atitudes. Essa é a conclusão de um estudo publicado na última semana pelo periódico Neurology da Academia Americana de Neurologia. As sete atitudes são: cérebro e corpo ativos, alimentação saudável, peso corporal em dia, não fumar, controle ótimo da pressão arterial, colesterol e glicemia.

Já sabíamos que os sete hábitos reduzem o risco da Doença de Alzheimer, mas o atual estudo nos mostra que isso é verdadeiro mesmo para aqueles que têm o perfil genético de maior risco. O estudo foi conduzido nos EUA envolvendo quase nove mil pessoas com idade maior que 54 anos e que foram seguidas por até 30 anos. O grupo de voluntários com maior risco genético foram aqueles que apresentavam pelo menos uma cópia da variante gênica APOE e4 que está associada a um maior risco da Doença de Alzheimer (pode aumentar o risco em até 12 vezes). Os que tinham ancestralidade europeia apresentavam em 27.9% dos casos a variante e4, e isso ocorreu em 40.4% de descendentes africanos. O grupo considerado de baixo risco era o que apresentava a variante e2 que está associada a um menor risco da doença (pelo menos 40% de redução de risco).

Para os descendentes europeus o risco de demência foi até 43% menor entre aqueles que melhor pontuaram numa escala dos sete hábitos descrito acima, independente do perfil genético. Já para os descendentes africanos com boa pontuação de hábitos, a redução de risco da doença foi de no máximo 17%.  

Como ainda não temos tratamentos que modificam o curso natural da Doença de Alzheimer, mudanças nos hábitos de vida são ferramentas preciosas para a prevenção da doença. E foi isso que o presente nos mostrou.

Um estudo recém-publicado por pesquisadores da Universidade de Exeter e Leeds, na Inglaterra, mostra que as pessoas que frequentemente experimentam o sentimento de solidão têm maior chance de ficarem desempregadas no curto e médio prazo, efeito que vai aumentando ao longo do tempo e é maior entre os homens. Aqui temos um círculo vicioso, já que pessoas desempregadas se sentem mais sozinhas.

A solidão está associada não só a transtornos psiquiátricos, como é o caso da depressão, mas a inúmeras doenças, especialmente a doença cardiovascular. É reconhecida como fator de risco comparável ao tabagismo e até pior que a obesidade e sedentarismo quando se pensa no sistema cardiovascular. Está associada também a pior desempenho cognitivo e menor satisfação com a vida. Quanto à influência sobre a empregabilidade, a solidão pode inibir a motivação pela busca de um trabalho ou promover um pior desempenho levando à demissão.

A pesquisa acompanhou mais de quinze mil pessoas no período pré-pandêmico de 2017 a 2020 com idades entre 16 e 65 anos. Chamou-me a atenção essa relação ser mais robusta entre os homens o que me fez lembrar dos efeitos positivos do casamento sobre a saúde física e financeira dos homens:

  • melhores salários e mais estabilidade no emprego
  • vida sexual mais satisfatória. Um estudo americano mostrou que 51% dos homens casados dizem estar extremamente satisfeitos com suas vidas sexuais, comparados a 36% no caso dos solteiros
  • melhor saúde física e mental. Nos EUA, homens casados vivem em média 10 anos a mais que os solteiros e, quando se fala em felicidade, 43% reportam que estão muito felizes, enquanto apenas 24% dos que moram juntos dizem o mesmo
  • os casados têm menos exposição a fatores de risco à saúde

Entre as mulheres, o casamento está associado a bons indicadores de saúde, mas só quando a satisfação com a união é alta. O dramático é que a maternidade está ligada à queda de empregabilidade e salário.

Temos várias evidências de que o uso exagerado das redes sociais, especialmente entre os adolescentes, está associado a sintomas depressivos e de ansiedade. Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Bath na Inglaterra, e publicada esta semana no periódico Cyberpsychology, Behaviour and Social Networking, mostrou que dar umas férias de uma semana às redes sociais (Tik Tok, Twitter, Facebook e Instagram) é capaz de promover efeitos positivos no bem estar psíquico e menores índices de ansiedade e sintomas depressivos. Os participantes e o grupo controle tinham idades entre 18 e 72 anos e usavam as redes sociais oito horas semanais em média. Outros estudos já haviam demonstrado efeitos positivos de pausas no uso das redes sociais, mas a presente pesquisa foi mais abrangente incluindo quatro diferentes plataformas.    

Nosso comportamento nas redes sociais é semelhante ao de ratinhos

Já foi demonstrado que o padrão de uso das redes sociais se assemelha muito a experimentos com ratinhos. Quanto mais suporte é dado pelos outros, mais frequentes são as publicações. Após repetidas vezes que o ratinho aciona a alavanca e é premiado com o alimento, mais frequentemente ele repetirá a ação. Quanto mais likes, mais acionamos a alavanca. O estudo foi publicado pela prestigiada revista Nature Communications.

O uso de smartphone exercita o mindset de recompensas rápidas

Você prefere ganhar 100 reais hoje ou esperar uma semana para ganhar 120?  Uma pesquisa indica que quanto mais usamos os smartphones, especialmente com jogos e aplicativos de redes sociais, maior a tendência em escolhermos a primeira alternativa: 100 reais agora.  


Já temos conhecimento da associação entre o uso excessivo de smartphones e comportamentos como abuso de álcool e outras drogas, assim como jogo compulsivo. O tempo de uso em aplicativos de compras, música e podcasts, e-mails não mostrou associação com o comportamento de impulsividade pela recompensa. 

Quando pensamos numa vida cheia de significado vem-nos à mente biografias que contribuíram sobremaneira com a sociedade como Nelson Mandela, Mahatma Gandhi, Martin Luther King, estre outros imortais.

Muitos acadêmicos reconhecem que você pode atingir uma existência com significado por três diferentes caminhos: 1) ter uma vida coerente e em harmonia com seus valores; 2) ter objetivos claros e satisfatórios no longo prazo; 3) acreditar que sua vida faz diferença num contexto maior. Essas formas também são conhecidas como coerência, propósito e importância existencial. Entretanto, os resultados de pesquisas publicadas recentemente pelo periódico Nature Human Behavior aponta um quarto caminho para incrementar a percepção de que a vida faz sentido.

Pense naquela paineira carregada de flores rosas que você encontra na esquina de casa logo pela manhã. Se você está aberto e sensível a esses pequenos momentos de beleza, poderíamos incluir a arte aqui, isso permitirá uma conexão com algo maior, a beleza inerente da natureza, fazendo com que você enxergue sua própria existência de outra forma. A isso se dá o nome de apreciação experencial. No modo cerebral de deixar o presente adormecido e virar a esquina sem se dar conta de que algo de espetacular está bem ao seu lado, pensando no boleto que está vencendo hoje, você perderá uma bela oportunidade.         

Pesquisadores de três diferentes continentes estudaram mais de 3000 indivíduos para entender como a apreciação experencial está associada com a percepção de uma vida com significado. Em um primeiro estudo, conduzido no início da pandemia por COVID, os participantes eram interrogados sobre a forma como eles aliviavam o estresse nesse período. Aqueles que tinham o hábito de modular o estresse através da apreciação da beleza natural também tiveram altos índices de percepção da vida com significado.       No segundo estudo, eles tinham que responder se concordavam ou não com afirmações como “Eu aprecio muito a beleza da vida”. Houve uma forte associação entre uma resposta afirmativa e sentido na vida, independente dos outros canais de fortalecimento dessa vivência (coerência, propósito e importância existencial). Finalmente, uma série de experimentos foram realizados em que os voluntários tinham que passar por tarefas. Uma delas, por exemplo, era a de assistir um documentário inspirador da BBC Planet Earth ou outros vídeos mais neutros como um tutorial de marcenaria. Aqueles que assistiram o Planet Earth reportaram que suas existências eram mais valiosas.

Os resultados confirmaram a hipótese dos pesquisadores ao mostrarem que apreciação de pequenas coisas pode fazer com que consideremos nossas vidas com mais sentido. Passar por uma lua cheia pensando na listinha de compras que precisa fazer no outro dia é viver no futuro e isso não faz o mínimo sentido. Assim a vida vai passando sem sentido. A vida acontece no presente momento.     

Por Dr. Ricardo Teixeira*

Estima-se que uma em cada duas pessoas apresentará pelo menos um episódio de perda de consciência ao longo da vida. Um colapso da circulação sanguínea do cérebro é o que explica a perda de consciência em grande parte dos casos e essa condição clínica é chamada de síncope. Quatro ou cinco segundos de fluxo sanguíneo cerebral de menor pressão são suficientes para levar à perda de consciência. 

São várias as causas de síncope, mas a mais comum é chamada de síncope vasovagal e, mais recentemente, de síncope neurocardiogênica.Ela acontece por um controle ineficiente do ritmo cardíaco e/ou do calibre dos vasos sanguíneos por parte do sistema nervoso em situações específicas como a posição em pé por tempo prolongado. Um quarto da população apresentará pelo menos um episódio deste tipo de síncope durante a vida e o componente genético dessa condição já é bem demonstrado.

Desmaiar ao ver sangue não é frescura.  

O fato de desmaiar ao ver sangue revela, na verdade, uma estratégia de sobrevivência, um mecanismo de adaptação da espécie ao longo da evolução. Essa estratégia é orquestrada pelo nosso sistema nervoso automático, também conhecido por autônomo, que é formado pelos componentes simpático e parassimpático.

Na síncope neurocardiogênica, o sistema parassimpático é ativado de forma intensa estimulando sua principal “ferramenta de trabalho”: o nervo vago. Isso provoca dilatação dos vasos e redução do batimento cardíaco, o que diminui o fluxo de sangue para os órgãos, incluindo o cérebro.

Estudos experimentais indicam que uma região do tronco cerebral é a responsável pela estimulação do nervo vago durante um episódio de síncope neurocardiogênica.  Quando um animal perde de 30% a 40% do volume de sangue e a pressão do sangue na região do tórax cai rapidamente, sensores de pressão localizados nas artérias informam essa queda ao tronco cerebral que estimula o nervo vago que provocará o colapso circulatório. Esse colapso é útil numa situação de hemorragia, pois em condições de baixas pressões, o processo de coagulação torna-se mais eficaz para estancar o sangramento. Esse sistema não é tão bem afinado, já que algumas pessoas têm esse mecanismo deflagrado mesmo numa situação de olhar para o sangue dos outros, mesmo que seja ao assistir um filme.

Desmaiar frente a uma emoção forte também não é frescura

Darwin já apontava um comportamento de defesa entre os animais que era o de  “se fazer de morto” quando eram ameaçados por um predador. Isso acontece especialmente se o comportamento clássico de sobrevivência de luta ou fuga não tem a mínima chance de sucesso. Há descrições dessa resposta em diversas formas de vertebrados que vão desde peixes, aves e até mamíferos. Os animais adotam uma imobilidade tônica, têm redução da frequência e amplitude das incursões respiratórias e o mais importante na nossa discussão: reduzem drasticamente a frequência cardíaca em até 85%. Em gatos, já foi demonstrado que, além da redução na frequência cardíaca, há redução súbita da pressão arterial.

Os predadores ao verem suas presas com aspecto de morto perdem o interesse, pois são atraídos por animais em movimento e já existem até experimentos mostrando que a imobilidade tônica confere vantagem de sobrevivência aos patos quando em meio a raposas.

*Dr. Ricardo Teixeira é neurologista e diretor clínico do Instituto do Cérebro de Brasília

Um novo estudo mostra que a inspiração nos hábitos de indígenas da Amazônia Boliviana (grupos Tsimane e Moseten) tem muito a colaborar no controle da avalanche de diagnósticos de demência mundo afora. Apenas 1% dos indígenas com idades acima de 60 anos apresentavam diagnóstico de demência comparados aos 11% encontrados no mundo industrializado. E não é qualquer grupo de indígena que tem esses resultados. Há pesquisas que indicam até 20% de prevalência de demência. O presente estudo foi publicado recentemente no periódico Alzheimer’s & Dementia: The Journal of the Alzheimer’s Association.                                                                                                       

O estilo de vida de subsistência pré-industrial é o maior candidato para explicar a proteção que esses grupos têm contra o desenvolvimento de demência. Os resultados também apontaram que, no grupo etário estudado, 10% apresentavam declínio cognitivo leve, número semelhante ao encontrado nas sociedades industriais. Essa condição é reconhecida como uma dificuldade cognitiva que não interfere substancialmente nas atividades de vida diárias, mas que a cada ano, em 10% dos casos, podem evoluir para um quadro de demência.

O estilo de vida dos Tsimanis e menor prevalência de fatores de risco vascular já foram apontados por uma publicação do The Lancet mostrando que eles têm um coração extremamente saudável com os menores índices de aterosclerose de qualquer população conhecida no mundo. Já foi demostrado também que o cérebro deles, entre a meia-idade e a velhice, têm uma redução de volume 70% menor do que o de europeus e americanos.

Esse estilo de vida pós-industrial é algo pra lá de recente na história da humanidade. Em 99% do tempo de sua existência, o Homo sapiens foi fisicamente ativo, tiveram uma dieta rica em fibras e gorduras saudáveis e uma atmosfera limpa.

Isso mesmo. Estudo publicado por Joanna Syrda da Universidade de Bath na Inglaterra mostra que casais com filhos, em que a mulher ganha mais do que o homem, acabam fazendo a divisão do trabalho doméstico ainda mais desequilibrada. E esse desequilíbrio é no sentido de mais trabalho para a mulher. E estamos falando só de limpeza, cozinha e outros trabalhos domésticos, sem incluir qualquer trabalho com os filhos. Foram estudadas mais de seis mil famílias americanas num período de oito anos, todos os casais com relação heterossexual.

A racionalidade econômica sugere que o casal, especialmente aqueles que têm filhos, encontrará um equilíbrio ideal nas tarefas de casa quando se coloca no tabuleiro o tempo livre e ganhos de cada um. O homem ou a mulher quando precisam trabalhar mais horas e têm a chance de um ganho maior que seu cônjuge, tem uma justificativa até razoável de contribuir menos com as tarefas de casa. Mas o que Syrda apontou é que esse raciocínio parece ser válido só para os homens. Muitos casais partem de uma condição fora da norma, da mulher ganhando mais que o homem, promovendo simultaneamente um incremento da assimetria das atividades domésticas, o que permite parecerem, para si mesmos e para os outros, mais próximos da norma. E esse incremento de assimetria é a mulher cuidando ainda mais da casa que o homem, mesmo trabalhando mais e ganhando mais. Reafirmam assim identidades ameaçadas e aumentam a tradição que se espera de um casal.

Syrda lembra da importância do ajuste nessa divisão de participação no trabalho de casa, especialmente quando nascem os filhos. Um padrão de divisão disfuncional deve ser discutido já na sua gênese, pois depois de uma rotina estabelecida, tudo fica mais difícil de renegociar. Isso sem falar na experiência que os filhos terão assistindo essa divisão de trabalho sem sentido que poderá ser replicada quando chegarem à idade adulta. Ela conclui o artigo lembrando da revolução comportamental da década de 1960 que deveria, no longo prazo, vir a ter uma crescente participação dos homens nas atividades domésticas à medida que as mulheres estivessem na rua trabalhando, muitas das vezes, com salários superiores aos deles. Como reativar essa revolução?

Diante disso, finalizamos com o jargão que o homem não tem que ajudar sua mulher em casa. Tem sim é que fazer sua parte.  O homem tem que estar atento no que ela precisa, mesmo no meio de uma disputa. Gottmann, professor emérito da Universidade de Washington, estudou a fundo os fatores que promovem a estabilidade de um casal. Ele filmou o cotidiano de milhares de casais para analisar suas interações e apresentou os resultados de forma quantitativa. Ele lembra que podemos aplicar a Teoria dos Jogos nas relações conjugais também.  A princípio, se um ganha dois pontos, o outro perde dois.  O equilíbrio em que ambos ganham, em que cada um sai com um ponto, aproxima-se mais do equilíbrio de Nash – John Nash Prêmio Nobel de Economia. Rubem Alves trouxe a ideia das relações como um jogo de frescobol. Se o outro erra, o prejuízo é dos dois. Por isso vale a pena jogar a bola com capricho para o outro. Tudo isso precisa de esforço de ambas partes.

Por Dr. Ricardo Teixeira*

É só uma cabeça equilibrada em cima do corpo (Chico Science & Nação Zumbi)

Costumo provocar alguns dos meus pacientes que buscam minha orientação sobre como melhorar o funcionamento do cérebro de que existe uma hierarquia nas tarefas. A maioria está pensando em melhorar a memória, concentração e capacidades executivas. A hierarquia de tarefas se dá numa certa direção. Para otimizar essas capacidades precisamos estar vivos. Precisamos estar acordados.  Precisamos prestar atenção nas coisas. Só então atingiremos bom desempenho na memória e outras funções cognitivas complexas. Só que no meio desse caminho há uma pedra: nosso equilíbrio psíquico. Você pode estar vivo, mas se o equilíbrio emocional não estiver bem modulado, o resto da cadeia fica bem prejudicada.

Isso já se reflete no segundo passo que é estar acordado. O sono é influenciado sobremaneira pelas nossas emoções. Fica extremamente perturbado quando estamos preocupados, ansiosos ou deprimidos, sem falar de tantas outras condições que perturbam a qualidade do sono, muitas delas muito comuns, como o excesso de trabalho e o consumo exagerado de álcool. Como exigir desempenho do cérebro sem um sono reparador? O fato é que muitos desses fatores ameaçam também o primeiro estágio de nossa hierarquia que é o de nos mantermos vivos. Maiores índices de doenças que reduzem nossa expectativa de vida não nos ajudarão a passar para os próximos estágios.  

Temos um “zilhão” de evidências de que muitas ações que promovem o melhor funcionamento cerebral carregam também o potencial de modular nossas emoções. A atividade física regular libera substâncias no cérebro que o faz funcionar melhor. A mesma atividade física também ajuda no controle das emoções no dia a dia por outras vias neuroquímicas. E aqui nossa hierarquia de ações ganha autonomia de voo, com menos obstáculos para melhores resultados nas funções cognitivas complexas. O mesmo raciocínio vale para a sociabilidade, o trabalho altruísta, a experiência da arte, o contato com a natureza. E coisa boa atrai outras coisas boas.  Onde encontramos lazer, encontramos também mais limites no tempo dedicado ao trabalho. É claro que estamos falando daqueles que têm poder de escolha. Chico Science nos lembra disso em Samba Makossa: A responsabilidade de tocar o seu pandeiro é a responsabilidade de você manter-se inteiro. Se temos poder de escolha, somos um pouco mais responsáveis em manter-nos inteiros do que aqueles que não tem teto, comida na mesa ou que vivem num sistema Casa Grande e Senzala.

E coisa ruim atrai outras coisas ruins. O uso de substâncias neurotóxicas, por exemplo, atrai comportamentos que afetam toda nossa cadeia hierárquica, comprometendoa chance de nos mantermos vivos, nosso sono, nossa cognição. É o tão conhecido círculo vicioso.

Mas se essa discussão está ficando mais embolada do que você esperava, caro leitor, vamos a uma lista simples de atitudes para turbinar seu cérebro.

Durma bem

Pratique atividade física regularmente

A dieta mediterrânea pode preservar o funcionamento do seu cérebro ao longo dos anos (peixes, cereais integrais, frutas, legumes, azeite, pouca carne e laticínios)

Evite substâncias neurotóxicas e aqui se inclui o uso exagerado de álcool 

Sua socialização faz muita diferença

Seu cérebro precisa de atividades estimulantes  

E nesses tempos de pandemia e guerra, mantenha sua cabeça equilibrada em cima do corpo, procurando antenar boas vibrações, preocupando antenar boa diversão. Termino com Lenine, mais um ilustre pernambucano: Enquanto todo mundo espera a cura do mal… A gente espera do mundo e o mundo espera de nós, um pouco mais de paciência.

*Dr. Ricardo Teixeira é neurologista e diretor clínico do Instituto do Cérebro de Brasília

No início da pandemia os holofotes eram todos voltados ao sistema respiratório e circulatório e aos poucos os transtornos provocados pelo vírus sobre o sistema nervoso começaram a ser identificados. Os problemas incluem desde a redução do olfato, dificuldades de memória e dores de cabeça até derrames cerebrais, encefalite, estados de confusão mental e psicose. Isso sem falar dos efeitos das mudanças psicossociais do fenômeno pandemia, como depressão, ansiedade e estresse pós-traumático. Vale lembrar que parte dos sintomas psiquiátricos encontrados podem ser secundários a alterações cerebrais promovidas pela infecção mesmo.

Como isso tudo acontece no cérebro? Já temos evidências de inchaço e inflamação do cérebro em alguns pacientes e tivemos também a demonstração de lesões na bainha de mielina bem semelhantes às que são encontradas em doenças neurodegenerativas como esclerose múltipla. Sabemos que o SARS-CoV-2 pode sim invadir o cérebro, mas as séries neuropatológicas apontam que a identificação do vírus no cérebro não é tão significativa quanto em outros órgãos. O componente de insultos microvasculares parece estar envolvido também, fenômeno descrito por um elegante estudo de Ressonância Magnética e autopsias publicado em 2020 pelo New England Journal of Medicine.  

Um achado muito relevante foi revelado este ano entre pacientes ambulatoriais com declínio cognitivo após a infecção, condição conhecida por brain fog. Dez meses após os primeiros sintomas da COVID-19, a análise do líquor mostrou alterações muito sugestivas de um processo inflamatório autoimune onde o sistema de defesa do indivíduo ataca o próprio sistema nervoso central. O estudo foi conduzido por pesquisadores da Universidade da California nos EUA e publicado pelo periódico Annals of Clinical and Translational Neurology. A Cell, periódico do grupo Nature, publicou este ano evidências de que o vírus, mesmo sem conseguir penetrar em células nervosas do nosso olfato, promove um processo inflamatório que promove alterações da arquitetura do núcleo e DNA dessas células, tornando-as disfuncionais. Isso pode explicar inúmeros sintomas da chamada COVID longa.

E quando se fala em COVID longa no cérebro, acho que nenhum estudo foi tão divulgado como o da Universidade de Oxford que revelou redução do volume de estruturas cerebrais após a infecção pela COVID em sua forma leve. O artigo foi publicado pela Nature e apontou que, após 4.5 meses em média, estruturas do cérebro fortemente ligadas ao olfato tinham uma redução da espessura da substância cinzenta, mais especificamente o giro parahipocampal e córtex orbitofrontal. Houve também uma redução do volume total do volume cerebral e outras estruturas do encéfalo como o cerebelo. Os pacientes apresentaram uma redução do desempenho cognitivo que foi associada à redução do volume cerebelar. O incrível feito desse estudo foi o fato de ter avaliado 785 pessoas por neuroimagem e testes cognitivos de forma seriada ao longo dos anos e, entre as duas últimas testagens, 401 voluntários testaram positivo para o SARS-CoV-2. Os cérebros daqueles que foram contaminados foram comparados aos dos não contaminados.

Estudos apontam que o consumo moderado de álcool aumenta nossa longevidade. Entretanto, um corpo de pesquisas nos mostra que esse mesmo consumo moderado pode aumentar o risco de alguns tipos de câncer e redução do volume cerebral ao longo dos anos. Como resolver essa equação? 

*Por Dr. Ricardo Teixeira

No consultório médico, uma senhora que precisa de medicações para controlar sua pressão arterial encerra sua consulta perguntando se ela pode manter o seu hábito de tomar uma taça de vinho por dia. O doutor lhe responde que não só pode como deve – “Minha cara, temos acompanhado nos últimos anos uma série de estudos que demonstram que o consumo moderado de álcool reduz o risco de doenças cardiovasculares, incluindo o infarto do coração e o derrame cerebral. Isso significa que quem bebe pouco tem menos eventos cardiovasculares do que aqueles que não bebem. Já o consumo exagerado de álcool provoca um maior risco de doenças cardiovasculares. Veja bem, devemos entender consumo moderado como até duas doses de bebida por dia para homens e uma dose para mulheres. As pesquisas ainda apontam que esse efeito protetor do consumo diário e moderado deixa de existir quando a pessoa exagera na dose, mesmo que seja por apenas um dia no mês”.

Essa mesma senhora ouvirá dos médicos que sua taça de vinho é capaz de reduzir seu risco de doença de Alzheimer e outros tipos de demência. Ouvirá também que já existem estudos que demonstram que o seu hábito também está associado a um envelhecimento com maior nível de independência física e maior longevidade. As bebidas alcoólicas de uma forma geral podem promover esses efeitos positivos, mas o vinho tinto parece ser levemente superior, pois além do álcool, ele possui outras substâncias protetoras como os flavonoides, incluindo o resveratrol. 

Esse discurso ainda é controverso, especialmente quando se pensa no cérebro. Algumas pesquisas realmente mostram que o uso moderado de álcool reduz o risco das doenças citadas acima, enquanto outras apontam na direção contrária. Um grande estudo publicado pelo British Medical Journal, evidenciou que o consumo moderado afeta negativamente a estrutura cerebral assim como as funções cognitivas. O estudo envolveu mais de 500 adultos ingleses por um período superior a 30 anos. E o que foi considerado moderado? Para os padrões ingleses, isso significa 4 cervejas de 600ml por semana ou 5 taças de 175ml de vinho. Para os americanos, o consumo moderado é mais generoso: 7 cervejas ou 9 taças de vinho por semana. Nenhum desses dois limites foi seguro para o cérebro. Além disso, o uso leve de álcool não atrapalhou o cérebro, mas também não trouxe benefícios. O que é consumo leve? Duas cervejas ou 2-3 taças de vinho por semana.  

Nesta última semana, uma pesquisa ainda mais robusta, e publicada pela Nature Communications, aponta que o consumo moderado de álcool está associado à redução do volume cerebral ao longo dos anos, fato que pode ter repercussão no desempenho cognitivo. O consumo leve foi definido de acordo com os padrões ingleses como meia taça de vinho ou meia long neck de cerveja por dia e não mostrou nenhum efeito protetor para o volume cerebral. Entretanto, o consumo moderado, uma taça de vinho diária ou uma long neck, já estava associado à redução do tamanho do cérebro.     

À luz do conhecimento atual, recomenda-se que os médicos não indiquem o uso de álcool como se fosse um suplemento alimentar para prevenir doenças. Devem recomendar às pessoas que não bebem que continuem sem beber, e às pessoas que já têm o hábito de beber, que não ultrapassem os limites. Além desse impacto negativo no volume cerebral descrito acima, estudos recentes têm demonstrado que o consumo regular de álcool, mesmo em doses leves, está associado a um maior risco de diferentes tipos de câncer, como o de mama, orofaringe e esôfago. Por essa razão, em 2009 o Instituto Nacional do Câncer da França deu início a uma campanha chamada Álcool Zero, defendendo a ideia de que mesmo uma dose diária não é segura.

Devemos evitar em pensar no álcool como um elemento promotor de saúde da população, não só por essas questões apontadas, mas também porque muitas pessoas atravessam a barreira entre o consumo moderado e o consumo exagerado. O exagero é responsável por uma em cada 25 mortes no mundo, e como se não bastasse as mais de duzentas doenças secundárias ao álcool, ainda temos os enormes problemas sociais que estão associados ao seu consumo.

O encontro anual da Academia Americana de Neurologia apresentará, no início de abril, os resultados de uma pesquisa conduzida nos EUA apontando que ter um animal de estimação reduz o declínio cognitivo quando ultrapassamos os 60 anos. Após seis anos de seguimento de 1369 adultos, com média de idade de 65 anos, aqueles que tinham um pet em casa, especialmente quando por um tempo maior que cinco anos, apresentavam desempenho em testes cognitivos com declínio mais lento. No Japão foi demonstrado recentemente que ter um cachorro, e não um gato, reduz pela metade a chance de incapacidade após os 65 anos, efeito ainda mais robusto entre aqueles que praticam atividade física. Uma maior interação social também explica, em parte, esse efeito protetor dos cães.  

Sabemos que adultos que têm um animal de estimação em casa costumam ser mais integrados à comunidade.  Quanto mais um adulto participa do cuidado com o bicho de estimação, mais atitudes altruísticas ele tem na comunidade e entre amigos e familiares. Quanto maior a conexão com os bichos, maior a empatia com as outras pessoas e autoconfiança.

Em 2017 a prestigiada revista Scientific Reports do grupo Nature publicou os resultados de uma pesquisa que envolveu três milhões e meio de indivíduos na Suécia acompanhados desde o ano de 2001. Aqueles que tinham um cachorro como animal de estimação viveram mais! Tiveram menor incidência de doenças cardiovasculares, mas também de outras doenças. O interessante é que os que moravam sozinhos com o cachorro foram os que mais se beneficiaram. Além disso, esse efeito protetor foi maior entre os que tinham cães de caça.

Já tínhamos evidências que essa ligação entre os humanos e os animais é capaz de promover uma redução nos níveis da pressão arterial e do estresse.  Pesquisadores de Nova Iorque demonstraram que pacientes que têm cães sobrevivem mais após passado um ano de um infarto do coração. Nos últimos anos, diferentes grupos de pesquisadores evidenciaram que os indivíduos que têm cães apresentam um menor nível de alterações cardíacas provocadas pelo estresse.

E os efeitos positivos dos animais de estimação não param por aí. Há evidências de que a presença do animal está associada a uma menor procura por consultas médicas pelos indivíduos idosos e menor incidência de depressão.

As crianças também se beneficiam da presença do animal. Os cachorros são ótimos para o equilíbrio psíquico delas em situações estressantes. Durante uma prova de estresse em laboratório, a presença do cão de estimação conferiu uma resposta de estresse menor até mesmo quando comparada à presença dos pais.

Não estou advogando pela substituição dos amigos pelos animais. Entretanto, é razoável hoje em dia recomendar a uma pessoa com poucos contatos sociais, e que goste de animais, que não deixe de experimentar viver com um animal de estimação, pois ele pode fazer muito bem à nossa saúde do corpo e da mente. Também não estou querendo minimizar os efeitos positivos de um gato em casa, mas os estudos até o momento sugerem que os cães realmente parecem trazer impactos mais robustos que os gatos à saúde humana.

Quando alguém nos fala: tenho duas notícias pra contar, uma boa e outra ruim. Qual você quer ouvir primeiro? A grande maioria responde que quer ouvir a ruim antes. Reconhece-se que o ser humano tem uma tendência a dar mais atenção a informações negativas do que às positivas. Ter consciência de informações negativas, e presumivelmente ameaçadoras, pode ser visto como um traço de adaptação da espécie.

E o que dizer do incerto? Numa situação em que alguém nos diz: Tenho uma coisa para lhe contar. Você quer ouvir? Poucos devem discordar que a maioria nessa situação diria: conta logo!

A incerteza é vista pela psicologia como a antecipação de uma ameaça pouco definida. Se a exposição a um estímulo negativo representa uma ameaça, a exposição ao desconhecido pode ser ainda mais ameaçadora, já que não se sabe o tamanho do suposto inimigo. Alguns estudos nos mostram que o suspense da incerteza gera mais alterações fisiológicas associadas à ansiedade do que o confronto a estímulos negativos bem definidos. As pessoas preferem um capeta conhecido a um capeta que ainda não conhecem.

Uma pesquisa publicada pelo periódico Nature Communications confirma essa ideia. Voluntários mostravam mais sinais físicos de estresse quando estavam numa situação de expectativa do que quando já sabiam que o desfecho tinha grande chance de ser ruim. O estudo foi feito com um game em que os participantes tinham que atravessar um terreno pedregoso e ficar atentos a cobras. Caso encontrassem uma cobra eles levariam um pequeno choque. Quando a chance de se deparar com uma cobra era de 50%, níveis máximos de estresse eram encontrados. Quando a chance era de zero ou 100%, os níveis de estresse caíam a níveis mínimos. Por outro lado, o estresse trouxe também seus efeitos benéficos. Quanto maiores os níveis de estresse maior foi a capacidade de fugir das cobras. O estudo foi conduzido por pesquisadores da Universidade de Londres.

Outra pesquisa publicada pela revista Nature Neuroscience revelou que os macacos também querem saber das coisas o mais rápido possível, e que do ponto de vista neuroquímico, esse acesso adiantado à informação é semelhante ao de outros tipos de recompensa cerebral. Neste caso, o experimento envolvia a recompensa de uma quantidade de água maior ou menor. Outras pesquisas têm mostrado que, quando o assunto em questão envolve uma experiência negativa, a preferência por acesso rápido à informação é ainda maior.

Sabe-se desde a década de 1990 que há um contingente de pessoas com transtornos de ansiedade que tem muita dificuldade com a incerteza, e essa dificuldade é vista hoje como um traço de personalidade. As pessoas com quadro de anorexia costumam ter traços de personalidade de perfeccionismo, os obsessivos-compulsivos têm níveis de responsabilidade inflados, e a psicoterapia nessas condições foca os esforços para fazer com que essas características sejam moduladas permitindo um melhor equilíbrio mental. Da mesma forma, as pessoas com alta vulnerabilidade ao incerto devem ter o tratamento psicoterápico focado nessa fraqueza.

As pessoas com maior grau de intolerância à incerteza frequentemente vivem em uma rotina com a menor chance de surpresas. Muitas vezes acabam tomando decisões precipitadas para sair do suspense do desconhecido. E aí vem o megadesafio: a pandemia.  

Tudo passou a ficar em um estado de incerteza absoluto. Trabalho, escola, viagens, boletos a pagar, a vida, tudo incerto. Dezenas de estudos foram feitos desde então mostrando que as pessoas mais frágeis à experiência do desconhecido são as que mais têm sofrido por problemas emocionais nesse período.

Um estudo publicado em janeiro deste ano por pesquisadores da Universidade de Illinois nos EUA reavaliou os voluntários que tinham feito parte de uma pesquisa sobre intolerância ao desconhecido dois anos antes da pandemia. A reavaliação foi feita durante a pandemia e aqueles que tinham maiores escores na escala de intolerância e maior atividade numa região do cérebro chamada de ínsula no estudo inicial foram os que apresentaram maiores níveis de estresse, ansiedade e depressão na pandemia. Mas é claro que a perda de um ente querido provoca mais sofrimento que qualquer incerteza.

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Sentir tontura ao assumir a posição ereta é uma queixa que é difícil encontrar alguém que nunca a tenha experimentado. Temos nesse momento redução da pressão arterial e aumento da frequência cardíaca.  A isso se chama hipotensão postural inicial e algumas pessoas apresentam o fenômeno de forma exacerbada, chegando a desmaiar e, por vezes, inúmeras vezes por dia. A recomendação mais comum dada pelos médicos é de que a pessoa passe a se levantar lentamente. Se está deitado, sentar primeiro por alguns instantes para só depois ficar em pé.

Um novo estudo mostra que duas atitudes simples e sem custo podem auxiliar na prevenção desses eventos. Os achados foram publicados por pesquisadores canadenses no periódico Heart Rhythm apontando que o movimento e contração da musculatura das coxas e glúteos, antes ou após se levantar, aumenta o volume de sangue bombeado pelo coração e pode ajudar muito na redução dos sintomas. Para facilitar o entendimento, a ativação dessa musculatura transfere mais sangue para o coração e consequentemente mais sangue chega ao cérebro.

Os pacientes estudados tinham pelo menos quatro episódios por mês de pré-síncope (podemos chamar de “pré-desmaio”) ou síncope ao se levantar e todos tinham uma redução da pressão arterial sistólica de pelo menos 40mmHg. O protocolo de movimento e contração era o de elevar os joelhos repetidas vezes ainda sentado (30 segundos) e quando em pé fazer contração da musculatura dos glúteos e cruzamento das pernas (30 segundos). Os voluntários foram controles deles mesmos: levantaram-se também sem esse protocolo. Ambos os procedimentos amenizaram a queda da pressão arterial e sintomas associados.

A pesquisa incluiu apenas mulheres entre 25 e 38 anos e futuros estudos deverão mostrar se os mesmos resultados podem ser alcançados entre homens e indivíduos idosos.     

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Acompanhe o quadro CUCA LEGAL com o Dr. Ricardo Teixeira na Rádio CBN Brasília às quartas-feiras no horário de 11:35h

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