Mona Lisa With Face Mask

Antes de ler este artigo, enfatizo que as máscaras vieram para ficar e continuarão fazendo parte do nosso dia a dia por um bom tempo ainda. A pandemia está muito longe de alcançar um controle no nosso meio.

Porém, não há como negar que o uso da máscara tem nos proporcionado, às vezes,  situações constrangedoras ao não reconhecermos pessoas do nosso círculo social.  Além disso, a máscara pode dificultar a percepção das emoções das pessoas, apesar do olhar e o tom de voz das pessoas já nos dizerem quase tudo.

Para entender melhor o impacto do uso das máscaras sobre o reconhecimento facial das pessoas, pesquisadores canadenses e israelenses conduziram um estudo que analisou como isso acontece. A pesquisa foi publicada recentemente pela prestigiada revista Scientific Reports.

Como esperado, as máscaras dificultaram o reconhecimento facial pelos cerca de 500 indivíduos testados em um experimento online. Do ponto de vista qualitativo, a presença das máscaras dificultou sobremaneira a identificação facial como um todo, também chamada de percepção holística. Essa percepção holística é proporcional à capacidade que temos de reconhecer as imagens de cabeça para baixo, o que foi confirmado nessa pesquisa: o efeito da inversão foi duas vezes menor nas faces com máscara. Isso significa que o reconhecimento holístico com a máscara já estava dificultado, e a inversão teve menor impacto. Já foi demonstrado em estudos anteriores que a parte inferior da face, a parte que fica sob a máscara, é a que mais tem influência nesse reconhecimento holístico. Tanto é que que quando a imagem é invertida, a identificação da face inferior é mais prejudicada que a dos olhos.

 

As mulheres tiveram mais facilidade nesses testes de reconhecimento facial, com ou sem máscaras, confirmando uma série de pesquisas prévias.

Continue usando sua máscara. Os benefícios são infinitamente maiores que os irrisórios desconfortos.

Teen on straight road between grass in summer

O psicanalista Contardo Calligaris na sua preciosa obra A Adolescência começa com uma provocação bastante inspiradora: imagine que você sobreviva a uma queda de avião no meio da floresta amazônica e é acolhido por uma tribo de índios que nunca tiveram contato com os ditos homens da civilização. Você é avisado que precisará de doze anos para incorporar a cultura local. Passaram esses doze anos, você já fala perfeitamente a língua deles, conhece suas regras, você já se sente um deles e sabe que nessa sociedade é importante se sobressair, e isso inclui a habilidade da pesca. Você já está bem treinado, mas os anciões da tribo lhe comunicam que ainda serão necessários dez anos para que você passe a ser realmente um integrante da tribo e que isso é inteiramente para o seu bem. Mais dez anos de treino sem grandes responsabilidades. Mais dez anos no limbo: esta é a adolescência. 

   
Calligaris fala em limbo, com muita propriedade, pois o cérebro de um adolescente gira em torno da palavra reconhecimento. Desejamos que um adolescente tenha uma dieta saudável e oferecemos a ele um conjunto de informações dizendo do que é feita essa boa dieta e por que alimentar-se de junk food faz mal à saúde. Isso já foi comprovado que dá resultados com crianças, mas com adolescentes o discurso tem que melhorar. Aos 13 anos, eles não querem mensagens paternalistas dos adultos.

 
Um estudo publicado em 2019 pela revista Nature Human Behaviour mostrou que em vez de informações nutricionais, apresente a eles uma série de reportagens de como os executivos da indústria de junk food usam a publicidade para manipular os adolescentes e seus relatos de que não permitem que seus próprios filhos consumam os alimentos que eles produzem. Nos três meses após essa intervenção, os adolescentes passaram a ter uma dieta mais saudável, como se fosse uma forma de protesto contra a manipulação a que foram submetidos. A resposta foi mais expressiva entre adolescentes do sexo masculino e com maiores níveis de testosterona no sangue.  


Há uma linha de pesquisa já robusta evidenciando novos métodos para melhorar os problemas de comportamento na adolescência que enfatiza o respeito e reconhecimento, o senso de pertencimento a algo maior e a necessidade que o adolescente tem de reconhecer um propósito de vida. 


Apesar de ser uma época em que o corpo é saudável como em nenhuma outra fase da vida, a adolescência carrega consigo índices alarmantes de acidentes, suicídio, homicídio, depressão, uso de álcool e substâncias ilícitas, violência, transtornos alimentares e obesidade. Tudo isso tem relação direta com as mudanças hormonais e seus efeitos sobre o cérebro, mas o cérebro por si mesmo passa por transformações só comparáveis às ocorridas nos três primeiros anos de vida. Outro detalhe que faz toda a diferença: regiões do cérebro que são ligadas às emoções, ao novo, recompensas, ameaças e às expectativas dos pares, essas regiões tem um surto de crescimento que não é acompanhado na mesma velocidade pelas áreas associadas à razão, julgamento e funções executivas. E esse descompasso de crescimento explica em parte o comportamento de risco e a “fome” por recompensas sociais dos adolescentes. O olhar evolutivo é de que que essas são ações que os afastam da segurança da família para explorar um mundo social maior.  


Finalizando, teremos mais sucesso na comunicação com um adolescente se incorporarmos um tom de respeito à sua autenticidade e independência. E mais do que isso, se acharmos um canal pelo qual possamos reforçar uma das principais razões de ser desse cérebro em franco desenvolvimento: contribuir para o mundo social. 

5 motivos para assistir a “O Gambito da Rainha” | Super

Ameaça de estereótipo é um fenômeno em que uma pessoa experimenta insegurança e ansiedade pelo receio de ter um pior desempenho por fazer parte de um grupo com estereótipo de inferioridade. Estamos falando da raça negra e gênero feminino, por exemplo.

As pessoas que fazem parte desses grupos têm pior desempenho quando “lembradas” desses estereótipos. Esse é o caso de meninas em testes de matemática quando lembradas que os meninos são melhores em matemática. O mesmo ocorre se as meninas recebem alguma mensagem subliminar durante uma partida de que meninos são superiores no xadrez. Além disso, o estereótipo de um campeão de xadrez é o de um homem esquisito e não o de uma mulher graciosa.

Negros também têm pior desempenho em um teste cognitivo quando são avisados que a resolução do problema depende de habilidade intelectual. Negros carregam o estereotipo que são menos inteligentes que os brancos. Pobres também carregam um estigma gigante.

A ameaça de estereótipos pode fazer com que mulheres não sigam uma série de carreiras que os homens são supostamente superiores. Pode fazer com que negros não desenvolvam plenamente suas habilidades cognitivas. Meninos também carregam seus estereótipos. Será que eles têm mesmo menores dons artísticos?

É fundamental a conscientização desse fenômeno por parte de pais e professores. Dar pistas para que se lembre da igualdade entre os gêneros e entre as raças pode fazer com que essas diferenças deixem de existir. E isso tem que acontecer desde cedo. Assim como no experimento do jogo de xadrez descrito acima, meninas já com oito anos de idade passam a se comportar de forma mais acanhada frente a uma figura masculina quando o assunto é negociação de uma premiação, semelhante ao que acontece entre adultos.

Isso foi recentemente demonstrado num estudo em que meninas e meninos tinham que negociar um prêmio após uma tarefa realizada. As meninas nas idades de 4 e 7 anos negociavam com um avaliador homem da mesma forma que o faziam com uma mulher, mas aos 8 anos já tinham uma demanda mais tímida frente a um homem. Com os meninos essa diferença não existiu. Com o passar dos anos, as meninas passavam a pedir um número menor de adesivos como prêmio, mas quando a negociação era com um adulto homem. Isso pode ser explicado por sinais subliminares, ou não, passados ano após ano às crianças. Ao negociar com uma mulher adulta, com a idade as meninas passavam a requisitar mais adesivos e com maior persistência! E lembramos mais uma vez: entre os meninos não houve qualquer diferença se o avaliador era homem ou mulher.

Close Up Photography of Yellow Green Red and Brown Plastic Cones on White Lined Surface

Vivemos em rede desde os mais remotos tempos e o sucesso da espécie humana depende de sua capacidade em fazer relações sociais, capacidade que é vista como uma vantagem evolutiva. Indivíduos no centro de uma rede social têm mais acesso à informação, e no caso dos nossos ancestrais, essa informação poderia ser, por exemplo, o local de uma nova fonte de alimento. Entender melhor como funciona as redes sociais permite-nos entender também como elas podem influenciar importantes problemas de saúde pública, área recente do conhecimento chamada de epidemiologia social. Nos últimos anos, riquíssimos estudos nessa área vêm sendo publicados pelos pesquisadores americanos Fowler e Christakis, junto a outros colaboradores, nos mais renomados periódicos científicos do mundo. Vejam só como os amigos têm influência em nossas vidas:

1- Os pesquisadores publicaram um estudo revelando que, numa epidemia infectocontagiosa, no caso, o vírus da gripe, indivíduos mais ao centro da rede social são acometidos mais precocemente. Esse achado pode facilitar o controle de epidemias ao se focar os esforços precocemente em indivíduos mais vulneráveis.

2- A rede social de um indivíduo tem impacto no seu risco de tornar-se obeso em até três graus da rede (ex: amigo do amigo do amigo). Essa associação é muito mais forte pela proximidade social do que pela geográfica, como é o caso de vizinhos.  A chance de uma pessoa se tornar obesa é 57% maior se um amigo se tornou obeso num dado período. Entre irmãos, a chance é 40% maior e no caso do cônjuge, a chance aumenta em 37%.

3- Esse mesmo efeito de contágio social existe na chance que uma pessoa tem de parar de fumar. Quando um dos membros de um casal para de fumar, o outro tem uma chance 67% maior de parar também. O indivíduo tem 25% mais chances de parar quando um irmão/ irmã também para, 36% mais chance quando um amigo para e 34% mais chance quando um colega de trabalho para.

4- O contágio social também exista na capacidade de uma pessoa se considerar feliz. Há uma tendência de pessoas felizes estarem no centro de suas redes sociais e próximas de outras com alto grau de felicidade, criando aglomerados de pessoas felizes. Além disso, ao longo do tempo, as pessoas ficam mais felizes quando passam a ser cercadas por outras felizes. Um amigo feliz que mora por perto (menos de 2 km) aumenta a chance de uma pessoa ser feliz em 25%, irmãos felizes por perto em 14%, e vizinhos em 34%. Esse efeito contagioso da felicidade diminui com o tempo e também com a distância entre as pessoas, e não é percebido entre colegas de trabalho. Também existe uma tendência do contágio social de sintomas depressivos entre amigos e vizinhos. O efeito parece ser mais marcante com amigas do sexo feminino.

5- O mesmo fenômeno foi demonstrado quando o assunto é consumo de bebidas alcoólicas. A quantidade de álcool que uma pessoa consome é proporcional ao tanto que seus amigos e parentes próximos bebem. O padrão de consumo de álcool de vizinhos e colegas de trabalho não tem a mesma influência. Aqueles que não bebem têm menos amigos e parentes que não bebem.

6- E é claro que com outras drogas não ia ser diferente. O efeito do contágio social no perfil de uso de drogas entre adolescentes chega a envolver quatro níveis da rede social. Também foi demonstrado esse contágio no número de horas diárias de sono e que há uma relação estreita entre a quantidade de sono o e o consumo de drogas. Quando uma pessoa dorme menos de sete horas por noite, a chance de um amigo dormir menos de sete horas é 11% maior. Quando um adolescente usa maconha, a chance de um amigo usar é 110% maior. Quando uma pessoa dorme menos de 7 horas, a chance de um amigo usar drogas aumenta em 19%.

Este é um novo modo de pensar a saúde. Qualquer intervenção positiva nos hábitos de vida de um indivíduo pode se alastrar para a sua rede social. Há também o outro lado da moeda: comportamentos negativos também se difundem pela rede. É de se esperar que a internet amplifique cada vez mais esse poder, tanto para o lado positivo quanto negativo, mas o balanço geral certamente será um reflexo da eficiência das políticas públicas para a promoção de saúde da população. Christakis, que é considerado um dos cem pensadores mais influentes do mundo, não esconde sua indignação com a condução da pandemia durante o governo Trump.

Tiro Microscópico De Um Vírus

No início da pandemia, os holofotes eram todos voltados ao sistema respiratório e circulatório e aos poucos os transtornos provocados pelo vírus sobre o sistema nervoso começaram a ser identificados. Os problemas incluem desde a redução do olfato, dificuldades de memória e dores de cabeça até derrames cerebrais, encefalite e estados de confusão mental e psicose. Isso sem falar dos efeitos das mudanças psicossociais do fenômeno pandemia, como depressão, ansiedade e estresse pós-traumático.

Um estudo da Unicamp mostrou que 25% das pessoas que morreram por COVID-19 apresentam algum grau de dano cerebral por avaliação neuropatológica, porém outras pesquisas nos mostram que sintomas neurológicos estão presentes em mais de 80% dos pacientes na fase aguda ou nos meses subsequentes. Hoje já temos uma boa ideia da frequência com que cada sintoma neurológico ocorre e abordaremos aqui três dos sintomas mais comuns.

Dificuldades de memória e atenção acometem mais de 60% das pessoas que apresentaram a infecção e, curiosamente, costumam ocorrer semanas depois do quadro agudo. Pode durar meses e os achados mais recentes apontam que um processo inflamatório seja responsável pelas queixas. Isso abre uma perspectiva de que medicamentos anti-inflamatórios podem ajudar, mas ainda não temos esta constatação.

Dor de cabeça ocorre em cerca de metade dos pacientes, geralmente forte e muitas vezes com características de enxaqueca. Alguns têm dor de cabeça inédita e não tinham história de episódios anteriores, enquanto outros têm piora da frequência da enxaqueca que já apresentavam antes da infecção.  

Vinte por cento dos pacientes têm redução ou perdem o olfato na fase aguda da doença, sintoma que também pode perdurar por meses, mas a maioria tem reversão completa da disfunção dentro de um mês. Nesse caso, já foi demonstrado que os neurônios podem sofrer diretamente com a infecção, mas também indiretamente, por acometimento dos astrócitos, células que provêm energia para os neurônios. As células da mucosa nasal, ricas em receptores ACE-2 e que suportam o nervo olfatório, também são acometidas reduzindo assim a nutrição desse nervo.

As séries neuropatológicas publicadas até o momento apontam que a identificação do vírus no cérebro não é tão significativa quanto em outros órgãos. Uma explicação é que o cérebro não é rico em receptores ACE-2, a porta de entrada do vírus nas células e isso aponta a favor da resposta imunológica ser a maior causadora das lesões cerebrais. Por outro lado, o estudo da Unicamp revela que os receptores Neuropilina podem ser a principal porta de entrada do vírus nas células do sistema nervoso. Os pesquisadores demonstraram acometimento dos astrócitos que não têm receptores ACE-2.  

Futuros estudos devem apostar em marcadores biológicos que melhor esclareçam o que é infecção direta pelo vírus, o que é inflamação e o que é autoimunidade. Saberemos também qual o impacto desse ataque cerebral no médio e longo prazo.

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As pessoas não têm a menor expectativa que podem se comunicar com alguém que esteja sonhando. Entretanto, pesquisadores de diversos centros de pesquisa no mundo conduziram um estudo mostrando que isso é possível sim. Os resultados foram recém-publicados pela prestigiada revista Current Biology.

Foram estudados 36 voluntários em quatro diferentes centros de pesquisa na Europa e nos Estados Unidos que tinham sonhos lúcidos, sonhos em que as pessoas têm consciência de que estão sonhando. Os pesquisadores demonstraram que é possível que uma pessoa sonhando possa seguir instruções elementares, fazer cálculos matemáticos simples, responder a questões sim / não e até diferenciar diferentes estímulos sensoriais. As respostas eram identificadas através de sinais eletrofisiológicos no eletrencefalograma além de movimentação palpebral e contração de músculos faciais. A esse fenômeno os cientistas chamaram de “sonho interativo”.

O mesmo método empregado pode ter utilidade fora dos laboratórios ao permitir que as pessoas aprendam enquanto dormem, solucionem problemas e pode até ajudar as pessoas que sofrem com pesadelos.   

Black and White Mouse

Calcula-se hoje que mais de 4 bilhões de pessoas passam horas em plataformas de mídias sociais como Instagram, Facebook, Twitter, entre outras. E onde está o segredo desse fenômeno? Sabe aquele experimento clássico de ratinhos em que eles ganham o alimento toda vez que acionam uma alavanca? Pois é.

Pesquisadores de diversos centros na Europa e Estados Unidos demonstraram que o padrão de uso das redes sociais se assemelha muito a esse experimento do ratinho. Quanto mais suporte é dado pelos outros, mais frequentes as publicações. Após repetidas vezes que o ratinho aciona a alavanca e é premiado com o alimento, mais frequentemente ele repetirá a ação. O estudo foi recém-publicado pela prestigiada revista Nature Communications

Os pesquisadores analisaram mais de um milhão de posts entre 4000 usuários de redes sociais e identificaram que os posts passam a ser mais frequentes à medida que recebem feedbacks positivos. Eles usaram então modelos computacionais para demonstrar que esse comportamento é similar ao de maximização de recompensa, como no caso do experimento do ratinho. E eles foram além. Conduziram um experimento online em que os voluntários tinham que publicar memes engraçados e o mesmo padrão de recompensa foi encontrado. Quanto mais likes, maior foi frequência das publicações.

O estudo colabora para o melhor entendimento das razões que fazem com que o uso das redes sociais seja tão presente no cotidiano das pessoas, e não poucas vezes, de forma compulsiva concorrendo diretamente até com experiências básicas como comer e dormir.
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Free stock photo of adolescent, adult, american bar

Uma análise dos principais estudos sobre o efeito da maconha sobre o cérebro dos adolescentes confirma que seu uso pode realmente reduzir a capacidade cognitiva nessa população. O estudo envolveu 808 adolescentes que usavam a droga pelo menos uma vez por semana por pelo menos seis meses. Após acompanhamento até os 18 anos de idade, sendo que em um dos estudos até os 38 anos, os resultados mostraram que o consumo da maconha reduziu em dois pontos o Quociente de Inteligência, especialmente por redução da memória verbal.

E não é só isso. Atendo no consultório recorrentemente adolescentes com transtornos psiquiátricos associados ao consumo da maconha. Usuários de maconha têm chance 40% maior de apresentar sintomas psicóticos no decorrer da vida, e um risco mais de duas vezes maior de desenvolver esquizofrenia entre aqueles que usaram a droga antes dos 18 anos de idade. E aquilo que já foi um tema controverso, há algum tempo não é mais motivo de discussão: o uso regular de maconha aumenta sim o risco do uso de outras drogas ilícitas como a cocaína. Adolescentes com uso esporádico ou frequente têm um risco 26 vezes maior de usarem outras drogas ilícitas, 37 vezes maior de se tornarem tabagistas e três vezes maior de consumirem álcool em quantidades exageradas. Quanto mais precoce for o uso crônico da maconha, maiores os danos.

As evidências científicas dessa história não são nem um pouco tímidas. Uma prova incontestável de que o cérebro adolescente é realmente mais sensível aos efeitos tóxicos da maconha é o estudo publicado pela revista Brain em 2012 em que foram demonstradas alterações microestruturais que reduzem a eficiência das conexões cerebrais entre usuários crônicos de maconha. Mais uma vez, as perdas foram maiores naqueles que começaram a fumar já no início da adolescência.

Existe uma crescente ideia entre os jovens de que o cigarro é “careta”, pois faz mal à saúde, e de que a maconha é bem diferente. O conjunto de evidências que dispomos atualmente demonstra que tanto o cigarro como o álcool trazem muito mais danos à sociedade do que a maconha, mas também revelam que os efeitos negativos da maconha sobre a saúde humana não são nada desprezíveis. Para entender ainda mais os efeitos da maconha sobre o cérebro dos adolescentes, um grande estudo está em andamento nos EUA e acompanhará dez mil crianças a partir dos dez anos de idade (Adolescent Brain Cognitive Development Study). Esse estudo nos trará resultados sobre o efeito da maconha em um cérebro em desenvolvimento, reunindo análises genéticas, neuropsicológicas, de neuroimagem e rendimento acadêmico.

Blue and White Logo Guessing Game

Mesmo diante das restrições sociais que passamos durante a pandemia, não é incomum encontrarmos perfis nas redes sociais que beiram à perfeição. Mas se olharmos mais de perto, boa parte não corresponde ao mundo real de quem vende essa impressão.

Um estudo recém publicado pelo periódico Nature Communications aponta que mostrar-se nas redes sociais de uma forma que se aproxima da realidade, traz mais satisfação com a vida do que quando se apresenta uma versão idealizada, não verdadeira.  

Mais de 10 mil voluntários que faziam parte do aplicativo Facebook responderam a um questionário a respeito de suas características de personalidade que foi analisado em conjunto com suas publicações. Compara-se assim a forma como as pessoas se enxergam com a maneira como elas se mostram na rede social. Se Maria, por exemplo, se julga uma introvertida, e suas postagens têm um conteúdo direcionado a literatura e computadores, seu escore de autenticidade é alto. Mas se a mesma Maria tem posts voltados a festas, viagens com amigos, seu escore é baixo. O protótipo de postagens mais admiradas nas redes sociais é a de uma personalidade extrovertida, social, mas os resultados da pesquisa mostraram que escores de autenticidade altos estiveram mais associados à satisfação com a vida, independente da personalidade ser introvertida ou extrovertida.  

Mas o que veio primeiro, o ovo ou a galinha? Autenticidade leva a uma maior satisfação com a vida ou pessoas mais satisfeitas têm uma tendência em serem mais autênticas? Os pesquisadores conduziram um experimento com uma parte dessa população em que os voluntários eram instruídos a publicarem posts por uma semana que eram condizentes com suas personalidades, enquanto outro grupo deveria publicar aquilo que acreditava ser popular e bem visto aos olhos dos outros. Após essa semana, aqueles que publicaram conteúdos autênticos estavam com melhores indicadores psíquicos do que aqueles que tentaram ser populares.   

Então, se você usa regularmente as redes sociais, seja você mesmo.

Pétalas De Flores Brancas Vermelhas E Azuis

Um estudo que acaba de ser publicado no periódico oficial da Academia Americana de Neurologia aponta que 13.5% dos pacientes que foram hospitalizados em quatro grandes hospitais de Nova Iorque nos EUA desenvolveram doenças neurológicas previamente inexistentes. Foram incluídos na pesquisa quase 4500 pacientes adultos internados entre março e maio de 2020 por síndrome respiratória aguda severa por COVID-19.

Todos os diagnósticos neurológicos foram feitos por um neurologista e foram excluídos os pacientes que já apresentavam algum transtorno neurológico e também aqueles que tiveram apenas sintomas neurológicos isolados, como dor de cabeça. Entre os pacientes que apresentaram um novo diagnóstico neurológico durante a internação, 51% apresentaram um estado confusional (também chamado de encefalopatia tóxico-metabólica), 14% tiveram um derrame cerebral, 12% evoluíram com crises convulsivas e 11% demonstraram lesão cerebral pela baixa oxigenação do sangue. Tais diagnósticos foram mais frequentes nos mais idosos, nos homens e nos diabéticos. Quadros infecciosos como meningoencefalites ou mielites não foram diagnosticados.      

Em 54% dos pacientes os sintomas neurológicos já apareceram nos primeiros dois dias dos sintomas respiratórios (febre e tosse) ou gastrintestinais (vômito e diarreia) e em 43% os sintomas neurológicos já eram aparentes desde o início desses outros sintomas. Para 2% dos pacientes, sintomas neurológicos tiveram início antes dos demais sintomas.

Os 13.5% dos pacientes que tiveram quadros neurológicos inéditos tiveram um pior prognóstico, com chances 28% menores de terem alta hospitalar e 38% maior de irem a óbito. É importante salientar que dos 18 pacientes que tiveram análise do líquor[RT1]  (líquido da espinha), todos tiveram testes PCR para COVID-19 negativos nesse líquido, sugerindo que as complicações neurológicas não foram resultado do ataque direto do sistema nervoso central pelo vírus, mas possivelmente secundários à gravidade clínica por si mesma, já que inúmeras doenças que necessitam de cuidados críticos podem também evoluir com as complicações neurológicas encontradas. Podemos citar a própria síndrome respiratória aguda severa, mas por outras causas que não a COVID-19, insuficiência renal aguda e septicemia.


 [RT1]

Low Angle Shot of Man Reading Newspaper

Um pouco de humor pode facilitar a comunicação com o público jovem quando o tema é política. Pesquisadores das Escolas de Comunicação das Universidades da Pensilvânia e Ohio nos EUA obtiveram esses resultados após apresentações de vídeos de notícias com ou sem um componente de humor ao final. Os voluntários tinham entre 18 e 34 anos e lembraram-se mais do conteúdo dos vídeos que terminavam com teor de humor além de expressarem maior intenção de compartilhar esses vídeos com outras pessoas.

Enquanto assistiam aos vídeos os participantes do estudo eram submetidos ao exame de Ressonância Magnética Funcional que mostrou que o humor levou a uma maior ativação de regiões do cérebro envolvidas na percepção da emoção de outras pessoas, reforçando a tese do papel de coesão social do humor. Emoções positivas podem ser vistas do ponto de vista evolutivo como um mecanismo que facilita as relações sociais ao promover sentimentos prazerosos nas pessoas, recompensar os esforços dos outros e encorajar a continuidade da relação social. E o sucesso da espécie humana depende de sua capacidade de fazer relações sociais.

Scenic View of the Forest During Sunrise

Vocês irão concluir que o oxigênio do título acima refere-se ao espaço verde, mas tem outras conotações também. Pesquisas têm revelado que durante a pandemia as pessoas têm procurado mais contato com a natureza. O mais recente estudo foi conduzido no estado de Vermont nos EUA durante os primeiros meses da pandemia, numa época de fechamento de escolas e comércio não essencial e restrição de viagens. Dois terços dos moradores passaram a visitar os parques naturais com maior frequencia e 80% declararam que as visitas aos parques passaram a ter uma importância ainda maior na pandemia para o equilíbrio físico e mental. Entre aqueles que em 2019 não tinham o hábito de frequentá-los, 26% passaram a aproveitar os parques nesse período.    

Em tempos de crise como a que vivemos agora, a garantia de acesso ao espaço verde deve ser vista como uma questão de saúde pública para mitigar os impactos mentais negativos em situações dramáticas. Em 2011, a cidade de Futaba no Japão sofreu simultaneamente um terremoto, um tsunami e um acidente nuclear. O governo imediatamente recriou uma série de ecossistemas na cidade para promover o bem estar psíquico da população.

E falando um pouco mais de catástrofe e governos, o presidente da Coalisão de Saúde Mental Mundial recentemente rejeitou a orientação da Associação Americana de Psiquiatria ao dar um diagnóstico psiquiátrico a uma pessoa pública, no caso, Donald Trump, sem examiná-lo pessoalmente. A Coalizão se valeu da Declaração de Genebra que defende que médicos podem se expressar quando frente a governos destrutivos, Declaração criada após a experiência do Nazismo.

De acordo com a Coalisão, o fenômeno Trump e seus seguidores estão embasados em um narcisismo simbiótico e uma psicose compartilhada. Por narcisismo simbiótico devemos entender que um líder, faminto por adulação para compensar sua baixa autoestima, projeta uma onipotência grandiosa, enquanto seus seguidores, carentes pelo estresse social e econômico, buscam ansiosamente por uma figura parental. Quando esses indivíduos assumem posições de poder, eles elicitam a mesma patologia numa parte da população com encaixe perfeito, como uma chave feita para aquela fechadura. Quanto à psicose compartilhada, eles a chamam também de folie à million. Folie à deux (loucura a dois) é um fenômeno descrito na psiquiatria desde o século XVII e refere-se a sintomas delirantes compartilhados por duas pessoas geralmente da mesma família ou próximas. A folie à deux também é chamada de transtorno psicótico induzido, e folie à million, socorro! Quando um indivíduo muito sintomático é colocado em posição de poder e influência, seus sintomas podem se propagar à população por meio de ligações emocionais, amplificando patologias pré-existentes e afetando até indivíduos previamente saudáveis. E o fator delirante provavelmente é mais forte do que um cálculo estratégico, pois ele se dissemina mais facilmente.          

É importante salientar que os indivíduos com transtornos mentais como um grupo não são mais perigosos que a população geral, mas quando o transtorno mental vem acompanhado de componentes destrutivos, esses indivíduos são mais perigosos sim. E de onde vem esse elemento destrutivo? Simplificando, se uma pessoa não recebe amor, ela busca respeito. Se ela não tem o respeito, ela realiza ameaças. Trump vive hoje a rejeição e a violência é uma compensação à perda de poder.

Esta não é uma história de ficção e qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real aqui nos trópicos não é mera coincidência. 

“Aí, maloqueiro / levanta essa cabeça / enxuga essas lágrimas, sério / respira fundo e volta pro ringue / você vai sair dessa prisão / você vai atrás desse diploma / com a fúria da beleza do sol, entendeu / faz isso por nós / faz essa por nós / te vejo no pódio”. (Trecho de encerramento de AmarElo – Emicida)

Artistas de Rap são celebridades fortemente reconhecidas pelo público jovem não só nos EUA, mas em inúmeros países em todo o mundo. Uma análise qualitativa das letras das 125 músicas americanas mais populares desse estilo entre os anos de 1998 e 2018 mostrou que houve um significativo aumento da abordagem de temas relacionados à saúde mental: suicídio de 0% para 12%, depressão de 16% para 32% e metáforas relacionadas à saúde mental de 8% para 44%. Nesse mesmo período houve um drástico aumento na prevalência de transtornos mentais entre os jovens americanos.

O estudo acaba de ser publicado pelo periódico JAMA Pediatrics. Novas pesquisas são necessárias para examinar os efeitos negativos e positivos desse aumento substancial nas mensagens que abordam a saúde mental. Pode ser positivo, pois tem o potencial de reduzir o estigma dos transtornos mentais e aumentar a busca por tratamento. Ansiedade, por exemplo, afeta 30% dos adolescentes, mas 80% deles nunca procuraram assistência médica ou psicológica. Apenas 50% dos adolescentes com depressão são diagnosticados antes de atingirem a idade adulta.

Enquanto isso na pandemia… Nos EUA, sintomas de ansiedade triplicaram quando comparado ao ano de 2019 e sintomas depressivos quadruplicaram. A mudança é bem maior à encontrada após o atentado terrorista de 11 de setembro ou o furacão Katrina. E os jovens são especialmente vulneráveis. Cerca de 63% dos americanos com idades entre 18 e 24 anos demostram nesse período de pandemia transtornos de ansiedade ou depressão, 25% relatam que bebem e fumam mais devido ao estresse associado à pandemia e que já consideraram “seriamente” a possibilidade de cometer suicídio.

Unrecognizable female meditating on grass in highlands on sunny day

Por Dr. Ricardo Teixeira*

Pesquisadores da Universidade Wisconsin-Madison nos EUA nos brindaram com um super presente neste fim de ano, uma revisão cuidadosa das dimensões da nossa mente que podem ser treinadas para alcançarmos um melhor equilíbrio psíquico no nosso dia a dia. Depois de nove meses nas incertezas geradas pela pandemia, isso se torna uma ferramenta extremamente útil para nosso bem-estar. Uma pesquisa recente nos EUA demonstrou que enquanto no início da pandemia 33% dos americanos se sentiam afetados psicologicamente, em julho os números já eram de 53%   


O primeiro aspecto a ser treinado é a consciência, atenção ao meio em que se vive, aos sentimentos, pensamentos e sensações. Exercícios de meditação e psicoterapia são ferramentas preciosas para melhorar esse nível de consciência. Um estudo conduzido em 83 países apontou que os adultos passam em média 47% do tempo em que estão acordados sem essa consciência, essa atenção, como se estivessem no piloto automático. E acreditem, ao exercitar a consciência, temos mudanças críticas em circuitos neuronais que facilitam nossa vida.

O segundo exercício é o de conexão, que pode ser chamada também de valorização do outro, bondade e compaixão. É um senso de cuidado aos outros do nosso círculo social e também fora desse círculo com ações humanísticas, altruístas.

O terceiro exercício é para fortalecer nosso insight, ou seja, nosso discernimento, entender a maneira como nossas emoções, pensamentos e crenças afetam nossa experiência subjetiva. Ao nos encontrarmos ansiosos numa dada situação, o insight nos permite reconhecer como as memórias de experiências anteriores colaboram para uma expectativa exagerada de resultados negativos. Psicoterapia e algumas formas de meditação podem fazer nosso insight florescer.  

E enfim o quarto exercício é o de encontrar nosso propósito de vida. É deixar claro quais são nossos valores e objetivos na vida. Estudos mostram que valores e objetivos orientados ao poder e dinheiro têm menores resultados no bem-estar psíquico quando comparados a uma missão de vida voltada às conexões sociais e a contribuições à comunidade. Existem alguns tipos de psicoterapia voltadas ao treinamento de nossa mente para se manter fiel à nossa missão. O psiquiatra austríaco e sobrevivente do Holocausto Viktor Frankl disse: “A vida não deixa de ser suportável por conta das circunstâncias, mas quando ela deixa de fazer sentido”.

Esse treino pode e deve ser diário e promete fazer com que passemos a ser os reais pilotos da nossa mente.

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*Dr. Ricardo Teixeira é neurologista e Diretor Clínico do Instituto do Cérebro de Brasília

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Nos últimos meses ouvimos quase que diariamente a recomendação de evitar aglomerações e muitos estão separados da família e dos amigos, com uma vida social bem diferente do que era antes da pandemia. E o que acontece com nosso cérebro quando subitamente reduzimos nossas interações sociais? 

Pesquisadores alemães trouxeram algumas respostas após um período de isolamento na Antártida por mais de um ano. Quando voltaram à civilização, percebiam quase tudo de forma distinta. As cores, as plantas e as pessoas, por exemplo. O cérebro parecia não ser mais o mesmo. A maior parte da equipe voltou com menores volumes dos hipocampos, estruturas cerebrais fortemente ligadas à memória, navegação espacial e emoções. Essa mudança estrutural já havia sido apontada entre presos na solitária. 

Neste último mês, um estudo conduzido pelo MIT nos EUA mostrou as mudanças funcionais no cérebro após um isolamento social em laboratório por 10h, sem acesso a dispositivos eletrônicos, livros ou qualquer passatempo. Assim como ficamos fissurados por comida após um período de jejum prolongado, o isolamento social leva à fissura por pessoas, envolvendo circuitos idênticos no mesencéfalo, estrutura no tronco cerebral. O mesmo já havia sido demonstrado entre camundongos. 

Isso nos mostra, em outras palavras, o tanto que as interações humanas são uma necessidade básica do ser humano, não muito diferente da comida! E enquanto não formos todos vacinados, vamos manter fortes nossas interações virtuais.    

Grey Metal on Soil

O cérebro de adultos jovens se recupera mais rápido de um desafio vascular e ainda tem um desempenho cognitivo melhor após o consumo de cacau rico em flavanols, substâncias encontradas em vários vegetais, especialmente nas frutas vermelhas, e que tem reconhecido papel protetor vascular. Essa é conclusão de um estudo recém-publicado pelo periódico Scientific Reports.

Dezoito adultos jovens inalaram ar com altas concentrações de gás carbônico que leva ao aumento do fluxo sanguíneo cerebral e oxigenação. Quando ingeriam cacau com altos teores de flavanols duas horas antes do teste o aumento do fluxo sanguíneo era maior do que após a ingesta de cacau processado com baixos teores dessas substâncias. Além disso, o desempenho em testes cognitivos complexos foi superior com os flavanols, o que não fez diferença em testes cognitivos simples. Os níveis de máxima oxigenação cerebral durante o teste chegou a ser mais de três vezes maior após a ingesta do cacau rico em flavanols quando comparado ao cacau com poucos flavanols. Quatro dos 18 voluntários não tiveram aumento de oxigenação e desempenho cognitivo, mas foram aqueles que já tinham um alto nível de oxigenação antes da testagem, sugerindo que tinham pouco a ganhar, pois já tinham uma condição fisiológica privilegiada. 

Um chocolate escuro não é necessariamente rico em flavanols. O próprio processo industrial de alcalinização do chocolate usado para melhorar sua consistência, aparência e para reduzir o sabor amargo, além de escurecer o chocolate, também joga pelo ralo os flavanols. E como os fabricantes não especificam nos rótulos a concentração dessas preciosas substâncias, é difícil saber ao certo o que um chocolate amargo realmente pode nos oferecer. Talvez nos próximos anos os fabricantes de chocolate comecem a registrar em seus rótulos a concentração de flavanols, ao invés de simplesmente dizer se o chocolate tem 70, 80 ou 90% de cacau.

Woman in Green and White Stripe Shirt Covering Her Face With White Mask

Nos últimos meses ouvimos quase que diariamente a recomendação de evitar aglomerações e muitos estão separados da família e dos amigos, com uma vida social bem diferente do que era antes da pandemia. E o que acontece com nosso cérebro quando subitamente reduzimos nossas interações sociais?

Pesquisadores alemães trouxeram algumas respostas após um período de isolamento na Antártida por mais de um ano. Quando voltaram à civilização, percebiam quase tudo de forma distinta. As cores, as plantas e as pessoas, por exemplo. O cérebro parecia não ser mais o mesmo. A maior parte da equipe voltou com menores volumes dos hipocampos, estruturas cerebrais fortemente ligadas à memória, navegação espacial e emoções. Essa mudança estrutural já havia sido apontada entre presos na solitária.

Neste último mês, um estudo conduzido pelo MIT nos EUA mostrou as mudanças funcionais no cérebro após um isolamento social em laboratório por 10h, sem acesso a dispositivos eletrônicos, livros ou qualquer passatempo. Assim como ficamos fissurados por comida após um período de jejum prolongado, o isolamento social leva à fissura por pessoas, envolvendo circuitos idênticos no mesencéfalo, estrutura no tronco cerebral. O mesmo já havia sido demonstrado entre camundongos. Isso nos mostra, em outras palavras, o tanto que as interações humanas são uma necessidade básica do ser humano, não muito diferente da comida! E enquanto não formos todos vacinados, vamos manter fortes nossas interações virtuais.    

Close-Up Photo of Woman Using Phone

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Você prefere ganhar 100 reais hoje ou esperar uma semana para ganhar 120? Um recente estudo conduzido por pesquisadores de Berlin na Alemanha aponta que quanto mais usamos os smartphones, especialmente com jogos e aplicativos de redes sociais, maior a tendência em escolhermos a primeira alternativa: 100 reais agora.  


Estudos anteriores já haviam demonstrado similaridades comportamentais entre o uso excessivo de smartphones e comportamentos como abuso de álcool e outras drogas, assim como jogo compulsivo. Esses estudos foram baseados na descrição por parte dos usuários da quantidade de horas diárias da utilização do dispositivo, mas nessa nova pesquisa os voluntários tiveram seus smartphones monitorados para quantificação dos diferentes usos por 7 a 10 dias. Além disso, eles eram submetidos a testes que acessavam o autocontrole e o comportamento diante de recompensas.    

Os resultados apontaram que as atividades no smartphone mais associadas a um comportamento impulsivo foram aqueles que estimulam recompensas de forma mais explícita como os jogos e redes sociais.  O tempo de uso em aplicativos de compras, música e podcasts, e-mails não mostrou associação com o comportamento de impulsividade pela recompensa. 

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Há estimativas que cerca de 10% dos adultos sofrem de zumbido em algum momento da vida e um quarto deles tem a forma crônica dessa condição por mais de 15 anos. Também conhecido por tinnitus, trata-se de ruídos fantasmas que percebemos sem que eles existam de fato e que podem levar a dificuldades de concentração, cansaço mental, ansiedade e redução da qualidade de vida.   

Boas notícias. Um novo dispositivo capaz de modular os circuitos cerebrais mostrou-se eficaz na redução do problema. Pesquisadores da Universidade de Minnesota nos EUA já haviam demonstrado que a estimulação elétrica da língua é capaz de ativar neurônios do sistema auditivo. Agora eles conduziram um estudo com 326 voluntários que foram submetidos à aplicação de um dispositivo que promove pulsos sonoros por um fone de ouvido associado a discretos estímulos elétricos na língua, uma hora diária por um período de 12 semanas.

Os resultados foram publicados recentemente no periódico Science Translational Medicine e mostrou que diferentes formas de pulsos sonoros e estimulação elétrica da língua foram capazes de reduzir o desconforto com o zumbido em 80% por até um ano. O estudo agora precisa ser replicado por outros grupos de pesquisadores não vinculados à comercialização do dispositivo. Também deverão ser publicados em breve a neuroimagem das modificações nos circuitos cerebrais promovidas pelo método.   

Photo of a Man Sitting Under the Tree

Temos inúmeras evidências do quanto a natureza é benéfica para o cérebro e nosso equilíbrio psíquico. Indivíduos que passeiam por áreas arborizadas têm menor produção de cortisol, o hormônio do estresse, do que aqueles que fazem o mesmo numa rua comercial agitada.  Uma pesquisa recente aponta que esse benefício já acontece com 20 minutos de uma vivência em ambiente arborizado, independente de atividade física.

Alguns países como a Finlândia, Inglaterra, Japão e Coréia do Sul já entenderam bem o recado e têm programas de “banhos de floresta” como forma de promoção da saúde. São muitos os benefícios já demonstrados com essas “pílulas de natureza”. Além da promoção do equilíbrio psíquico, temos ganhos na atenção, memória, linguagem e até na capacidade criativa. Também temos menores índices de doença cardiovascular, obesidade, diabetes, hospitalização por crises de asma e, finalmente, menor mortalidade.

A conclusão lógica é que isso deve fazer parte da prescrição médica, mas um estudo que acaba de ser publicado pela prestigiada revista Scientific Reports mostra que pacientes com ansiedade e depressão colhem os frutos dessa imersão na natureza somente se o fazem de forma voluntária. A prescrição médica de contato com o verde até provocava piora dos sintomas de ansiedade.

Esse último estudo envolveu mais de 18 mil voluntários de 18 diferentes países. Os pesquisadores ficaram surpresos ao identificar que os pacientes com depressão tinham tanto contato com a natureza que aqueles sem um diagnóstico psiquiátrico, e que os pacientes com transtornos de ansiedade tinham até mais contato.

O estudo joga luz na sensibilidade que profissionais de saúde e pessoas próximas de pacientes com ansiedade ou depressão devem ter ao convencê-los em adotar um hábito saudável. Conseguir ser encorajador estimulando a motivação intrínseca de cada um é uma arte.      

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