A culpa de ter feito algo de que nos arrependemos é um sentimento bem desconfortável, especialmente quando ficamos ruminando essa culpa por longos períodos. Um estudo liderado por pesquisadores da Universidade de Basel na Suíça, e recém-publicado pela prestigiada Scientific Reports, mostra que o placebo pode reduzir esse sentimento, mesmo que você saiba que está tomando uma pílula de farinha.

Os voluntários da pesquisa eram instruídos a escrever uma situação em que se sentiam arrependidos como uma conduta fora das regras sociais ou um tratamento injusto com outra pessoa. Tomavam então uma pílula placebo, sendo avisados ou não que era placebo. Um grupo controle não tomava nada e ficava folheando uma revista de paisagens. Logo depois eles eram orientados a pensar de olhos fechados por um minuto na situação que tinham escrito e então o sentimento de culpa era quantificado. Aqueles que tomaram placebo, sabendo ou não, apresentaram menor sentimento de culpa.

Os participantes da pesquisa não apresentavam qualquer transtorno mental e novos estudos deverão ser realizados em pacientes com doenças psiquiátricas, especialmente a depressão, condição onde o sentimento de culpa é muito prevalente.

Não é a primeira vez que temos evidências de que o placebo funciona mesmo quando o indivíduo sabe que o que está sendo administrado é placebo. Esse fenômeno já foi demonstrado no controle da ansiedade e dor, por exemplo, mas também em quadros de rinite, enxaqueca e   síndrome do intestino irritável. É muito importante que o terapeuta instrua os pacientes que o placebo pode ter efeitos significativos e que devem ter um pensamento positivo para potencializar seu efeito. E mais: passar a mensagem de que o placebo funcionará mesmo sem esse pensamento positivo.

Um estudo publicado no ano de 2001 pela revista Science deu uma balançada naquilo que a comunidade científica até então entendia como efeito placebo. Pacientes portadores da Doença de Parkinson receberam medicação específica para a doença (levodopa) ou pílulas placebo e o surpreendente foi que tanto os pacientes que receberam a medicação como aqueles que receberam placebo, e que tiveram boa resposta clínica, demonstraram aumento das concentrações de dopamina no cérebro.

Em outro estudo mais recente, publicado pela revista Neurology, pesquisadores de Luxemburgo mostraram que pacientes com a Doença de Parkinson que tinham boa resposta ao placebo apresentavam aumento de dopamina no cérebro em regiões que são comuns ao efeito cerebral de recompensa. Isso sugere que o fator “expectativa positiva” pode ter um importante papel no efeito placebo.

Em quadros de dor, também há evidências de que o placebo muda quimicamente o cérebro, dessa vez através da liberação de opioides endógenos, efeito que pode ser desfeito através de medicações que bloqueiam o efeito de medicações opioides. As mudanças químicas também ocorrem em quadros depressivos, sendo que o placebo apresenta efeito muito semelhante às drogas que aumentam a concentração de serotonina (ex: fluoxetina). Nessas duas condições, a “expectativa positiva” também parece ser a forma como o cérebro faz com que o efeito placebo funcione.   E essa parece ser a explicação do porquê de algumas pessoas responderem positivamente ao placebo e outras não. Há evidências de que bons respondedores apresentam expectativa de receber maiores recompensas e têm maior ativação do sistema de recompensa cerebral, não só na situação de tratamento, mas também em situações de jogos que envolvem recompensa em dinheiro.

Em 2016, o British Medical Journal publicou uma pesquisa revelando que a maioria dos americanos não vê problema em receber uma medicação placebo. O estudo envolveu 853 voluntários com idades entre 18 e 75 anos que eram acompanhados por alguma condição clínica crônica. Apenas 22% achavam inaceitável o uso de placebo. O restante considerava o placebo uma alternativa possível nos casos em que o médico tem clareza que os benefícios são maiores que os riscos e, melhor ainda, quando existir transparência no que está sendo proposto quando o médico é interrogado.

Por Prof. Dr. Ricardo Teixeira

Todas as pessoas que nos maltrataram durante anos merecem pagar, mesmo que estejam mortas – o inferno pode esperar. (Chico Science)

No dia 10 de janeiro, o jornal Estado de São Paulo divulgou estudo que apontou que 18.4% dos brasileiros entrevistados concordam com a depredação dos prédios públicos. Mostrou ainda que 38% acreditam que os atos golpistas se justificam de alguma forma. No dia seguinte, pesquisa Datafolha mostra que 3% dos entrevistas são a favor dos ataques.

O judiciário promete responsabilização e punição dos organizadores, financiadores e manifestantes do ato golpista. Inclui também nessa lista os incentivadores. A presidente interina do Conselho Federal de Medicina pode ser incluída nessa última categoria, ao comemorar nas redes sociais o ato terrorista com comentário de “agora vai!”? Jair Messias deveria ser incluído só nessa categoria ou também na categoria de idealizadores?

James Piazza da Universidade da Pensilvânia nos EUA nos ajuda a responder essa questão. Ele publicou uma pesquisa em 2020 no periódico International Interactions mostrando que discursos de ódio efetuados por políticos alimentam a polarização política que por sua vez aumenta o terrorismo doméstico. A pesquisa analisou o teor de ódio em discursos políticos e a incidência de atos terroristas em 163 países no período entre 2000 e 2017.

Existe um consenso de que há um espectro de visões políticas extremistas e outro de ações extremistas. O radicalismo nesse espectro de opiniões não chega a se manifestar em radicalismo de ações, como atentados terroristas, em 99% dos casos.

Há um perfil psicológico comum entre indivíduos que passam do extremismo de ideias para ações terroristas? Décadas de pesquisas têm nos mostrado que não existe um perfil psicológico para um terrorista. Não existe um transtorno mental específico que é associado ao terrorismo. Entretanto, alguns terroristas apresentam alguns traços psicológicos mais comuns que a população geral e, mesmo nesse grupo, a prevalência de transtornos mentais não chega a 50%. Chamar os perpetradores do ato terrorista de doentes mentais alimenta o estigma de quem realmente sofre com as doenças mentais.

A ideia de que o terrorista seja absolutamente racional para alcançar seus objetivos é bastante aceita. Porém, pesquisas têm demonstrado que eles são influenciados sim pelas emoções, como a raiva, assumindo comportamentos míopes, frequentemente cegos. Podemos pensar neles como buchas de canhão, com personalidade coletiva que seguem um grande influencer.

*Dr. Ricardo Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e diretor clínico do Instituto do Cérebro de Brasília

Há poucos dias o periódico Nature Communications publicou a análise de uma grande amostragem de mais de 700 mil indivíduos em 68 diferentes países em cinco continentes mostrando que as pessoas têm dormido em média sete horas por noite. Países próximos ao Equador dormem um pouco menos e o Brasil ficou bem próximo à média.

Além da enorme abrangência do estudo, o ineditismo dos resultados incluiu a demonstração de três momentos diferentes na idade adulta e diferentes durações do sono, independente do país e nível educacional. Os indivíduos estudados eram maiores de 18 anos e até os 33 anos foi o período em que dormiam mais. A partir dessa idade houve um platô de estabilidade até os 53 anos, após o que os voluntários voltavam a ter incrementos no tempo de sono. 

Você acha que seus ancestrais dormiam mais que você?

É bastante tentador imaginar que o mundo contemporâneo, com toda sua eletricidade, aparelhos eletrônicos e cafeína além da conta, tem o hábito de dormir menos que nossos ancestrais. Isso sem falar nos atuais índices de depressão, ansiedade e obesidade que costumam atrapalhar o sono. Podemos encontrar relatos já no fim do século XIX de que as pessoas estavam dormindo menos que os antigos, mas parece que a história é um pouco diferente.

Uma pesquisa publicada no prestigiado periódico Current Biology mostrou que caçadores-coletores de três diferentes partes do mundo dormem até um pouco menos do que os homens de vida moderna. O registro da rotina de sono de comunidades de caçadores-coletores na Namíbia, Tanzania e Bolívia que vivem sem luz elétrica apontou que eles dormem em média 6.5 horas, menos que a média das sociedades atuais que é de aproximadamente 7 horas.

A pesquisa ainda demonstrou que essas comunidades unplugged não tiram cochilos durante o dia, deitam-se para dormir cerca de três horas após o pôr do sol e acordam antes do sol nascer. Eles também dormem uma hora a menos no verão. Apesar de terem genéticas e viverem em ambientes bem diferentes, os hábitos de sono não foram diferentes entre as comunidades. O padrão de sono descrito na Europa antiga dividido em dois tempos separados por um intervalo em vigília não foi identificado nas comunidades estudadas, sugerindo que esse sono não interrompido deva ser o padrão natural dos nossos ancestrais mais antigos, e que o sono europeu repartido já foi uma adaptação às condições ambientais do continente.

Chamou muita a atenção a quase inexistência de insônia, o que nos faz interrogar se a simulação desses ambientes arcaicos não poderia ser eficaz no tratamento da insônia dos homens de vida moderna.

E não é que o som ambiente pode mudar o sabor da sua ceia? Se a ceia tiver muitas comidinhas doces ou azedas, ela ficará mais saborosa se a música tiver tons mais agudos. A torta de limão terá mais presença ao som de violinos de Vivaldi. Se na ceia predominar gostos amargos ou unamis**, música com tons graves realçará os sabores. O café, sem dúvida, será muito bem acompanhado por uma ária com Plácido Domingo. Essa influência de uma experiência sensorial sobre outra é uma interessante linha de pesquisa da Universidade de Oxford na Inglaterra liderada pelo psicólogo Charles Spence.

O laboratório de Spence testou também diferentes músicas para diferentes vinhos.  O mesmo vinho é considerado mais encorpado ao som de Carmina Burana de Carl Orff quando comparado a Mozart. Há um certo consenso que os tintos não gostam de música alegre. Os brancos adoram Mozart.

Spence tem levado suas experiências para o mundo real. Ele criou uma playlist para a British Airways direcionada ao cardápio dos voos e dá seus pitacos em restaurantes sofisticados. Defende também a ideia de que uma pasta fica mais autêntica se tiver uma música italiana ao fundo, cítaras para comida indiana, e por aí vai.

** unami é reconhecido como um quinto tipo de sabor, lado a lado com doce, azedo, amargo e ácido.  Unami é uma palavra de origem japonesa e significa delicioso, saboroso.  Alimentos ricos em glutamato como as algas marinhas, cogumelos shitaki e crustáceos são exemplos do sabor unami. Na verdade, o sabor nem é tão divino, mas ele torna agradável a palatabilidade de um grande número de alimentos. É a delícia do queijo parmesão por cima do molho bolonhesa.

 Por Dr. Ricardo Teixeira

Renato Aragão recebeu alta hospitalar nesta terça-feira após internação por um acidente isquêmico transitório (AIT) e, já em casa, com bom humor, se manifestou nas redes sociais dizendo que Didi está on. O AIT ocorre quando uma artéria cerebral é obstruída e os sintomas duram menos de 24 horas. Em cerca de 1/3 dos pacientes os sintomas duram menos de uma hora, em outro terço até 12 horas e o restante entre 12 e 24 horas. O correto diagnóstico é imprescindível, já que em 3 meses 10% irão apresentar um acidente vascular cerebral (AVC), sendo que metade deles ocorrerão nas primeiras 48 horas.

Trataremos em seguida o AIT e o AVC pelo termo Doença Cerebrovascular (DCV).  

Na luta contra a DCV, seu papel é muito maior do que você imagina! 

A DCV é mais comum entre as entre as pessoas que têm hipertensão arterial, diabetes, colesterol alto, doenças do coração e naqueles sedentários, que fumam e usam muito álcool. Calcula-se que o indivíduo que identifica e trata um desses fatores de risco reduz seu risco de DCV pela metade. Mais importante ainda é o fato que esse mesmo indivíduo que adota hábitos de vida saudáveis é capaz de influenciar as pessoas ao seu redor a assumirem também esses bons hábitos. Saúde é mesmo contagiante!

Como identificar um AIT ou AVC?

Toda vez que ocorrer algum destes sintomas, de forma REPENTINA:                  

  • Fraqueza de um lado do corpo
  • Dormência de um lado do corpo
  • Dificuldade visual
  • Dificuldade para falar
  • Dor de cabeça muito forte nunca antes sentida
  • Incapacidade de se manter em pé

O que fazer diante de um sintoma suspeito?

Procurar imediatamente um serviço médico especializado, pois o tratamento na maioria das vezes só tem efeito se realizado nas primeiras horas após o início dos sintomas.

O tratamento precoce aumenta a chance de preservar a parte do cérebro que está para ser destruída, diminuindo assim as sequelas tão temidas como paralisia e perda da fala, assim como o risco de morte.

 O que fazer para evitar a DCV?

  • Prática de exercícios regulares;
  • Alimentação balanceada evitando o consumo excessivo de alimentos de origem animal (ex. carnes, ovos, leites e derivados);
  • Não fumar;
  • Evitar o excesso de álcool e o estresse;
  • Se tiver mais de 40 anos: realizar pelo menos uma vez por ano controle de pressão arterial, dosagem de glicose e colesterol no sangue;
  • Se tiver diagnóstico de hipertensão arterial, diabetes, colesterol alto ou qualquer doença do coração: acompanhamento médico frequente para controle rígido destas condições.

Uma análise dos principais estudos sobre o efeito da maconha sobre o cérebro dos adolescentes confirma que seu uso pode realmente reduzir a capacidade cognitiva nessa população. O estudo envolveu 808 adolescentes que usavam a droga pelo menos uma vez por semana por pelo menos seis meses. Após acompanhamento até os 18 anos de idade, sendo que em um dos estudos até os 38 anos, os resultados mostraram que o consumo da maconha reduziu em dois pontos o Quociente de Inteligência, especialmente por redução da memória verbal.

E não é só isso. Atendo no consultório recorrentemente adolescentes com transtornos psiquiátricos associados ao consumo da maconha. Usuários de maconha têm chance 40% maior de apresentar sintomas psicóticos no decorrer da vida, e um risco mais duas vezes maior de desenvolver esquizofrenia entre aqueles que usaram a droga antes dos 18 anos de idade. E aquilo que já foi um tema controverso, há algum tempo não é mais motivo de discussão: o uso regular de maconha aumenta sim o risco do uso de outras drogas ilícitas como a cocaína. Adolescentes com uso esporádico ou frequente têm um risco 26 vezes maior de usarem outras drogas ilícitas, 37 vezes maior de se tornarem tabagistas e três vezes maior de consumirem álcool em quantidades exageradas. Quanto mais precoce for o uso crônico da maconha, maiores os danos. O aumento do consumo de álcool foi demonstrado recentemente numa análise  de mais de 4 milhões de adultos americanos em 11 estados em que houve a liberação do consumo recreativo da maconha, especialmente entre aqueles com idades entre 18 e 24 anos.

As evidências científicas dessa história não são nem um pouco tímidas. Uma prova incontestável de que o cérebro adolescente é realmente mais sensível aos efeitos tóxicos da maconha é o estudo publicado pela revista Brain em 2012 em que foram demonstradas alterações microestruturais que reduzem a eficiência das conexões cerebrais entre usuários crônicos de maconha. Mais uma vez, as perdas foram maiores naqueles que começaram a fumar já no início da adolescência.

Existe uma crescente ideia entre os jovens de que o cigarro é “careta”, pois faz mal à saúde, e de que a maconha é bem diferente. O conjunto de evidências que dispomos atualmente demonstra que tanto o cigarro como o álcool trazem muito mais danos à sociedade do que a maconha, mas também revelam que os efeitos negativos da maconha sobre a saúde humana não são nada desprezíveis. Para entender ainda mais os efeitos da maconha sobre o cérebro dos adolescentes, um grande estudo está em andamento nos EUA e acompanhará dez mil crianças a partir dos dez anos de idade (Adolescent Brain Cognitive Development Study). Esse estudo nos trará resultados sobre o efeito da maconha em um cérebro em desenvolvimento, reunindo análises genéticas, neuropsicológicas, de neuroimagem e rendimento acadêmico.

O reconhecimento de odores específicos exalados por pessoas que sofrem de uma determinada doença é descrito desde a época de Hipócrates na Grécia antiga. Eu mesmo tive a sorte e a honra de ter sido aluno na graduação em medicina na UNB do incrível Sir Philip Davis Marsden e, na beira do leito, ele me pedia para cheirar os pacientes e dar minha impressão. E o Sir aqui é Sir mesmo: Cavaleiro de sua Majestade, honraria concedida pela Rainha da Inglaterra pelo conjunto de sua obra. Condições clínicas como diabetes descompensado, insuficiência renal ou hepática não eram difíceis de serem identificados pelo cheiro, mas muitos diagnósticos, especialmente os infecciosos, só mesmo o Sir Philip Marsden e, muito provavelmente, os cães. Cães?

Cães treinados para identificação de odores exalados por indivíduos nas fases precoces de doenças têm mostrado resultados positivos em alguns tipos de câncer. O exame de sangue oculto nas fezes é capaz de detectar câncer colorretal em 44% dos pacientes, mas os cães o detectam pelo cheiro da respiração do paciente em 91% dos casos. Componentes voláteis numa série de doenças têm sido isolados e, no futuro, “narizes eletrônicos” poderão fazer parte dos check-ups médicos. O interessante é que esses narizes eletrônicos não chegaram perto ainda da sensibilidade do olfato canino. Enquanto a tecnologia só funciona com uma concentração mínima de componentes voláteis da ordem de 100 a 400, os cães só precisam de 0.001.

E os cães não param de marcar golaços. Recentemente, a revista Scientific Reports publicou os resultados de uma pesquisa que mostrou que cães treinados a sentir o odor de pacientes portadores de epilepsia são capazes de identificar o cheiro de crise em outros portadores de epilepsia totalmente novos para os cães. E essa capacidade de identificação foi demostrada em nada mais, nada menos, que em 100 % dos cães envolvidos no estudo. Dentre os estudos de identificação de doenças por cães, esse foi o que teve resultados mais espetaculares.

A pesquisa não foi feita para demonstrar antecipação de crises, mas menores já demonstraram essa capacidade dos cães, não só em crises epilépticas, como também na enxaqueca. O fato é que os resultados deixam claro que existe sim um odor característico associado a crises epilépticas e novos estudos serão feitos para identificar que componente é esse e se os cães são capazes de percebê-los antes das crises se instalarem.

Há poucos meses foi demonstrado que os cães são capazes de identificar o estresse vivido por voluntários ao resolver problemas aritméticos! Aqueles que relataram desconforto durante a atividade e alterações na frequência cardíaca e respiratória foram facilmente identificados pelos cães em 94% das vezes. Eles conseguiam separar com esse nível de acerto amostras de suor e da respiração após a situação de estresse e em momentos de relaxamento no mesmo indivíduo. Isso pode ter aplicação prática no treinamento de cães para o tratamento de indivíduos com ansiedade e estresse pós-traumático, por exemplo.   

Poucas coisas no mundo têm o alcance global de uma Copa do Mundo Fifa. Mesmo com todas as críticas relacionadas aos direitos humanos dos trabalhadores na construção dos estádios e o número alarmante de mortes, ontem, no primeiro jogo da Copa do Catar, a lotação do estádio ultrapassou sua capacidade em mais de sete mil pessoas. Elenco aqui alguns candidatos que podem explicar o sucesso estrondoso desse esporte.

1-Futebol é coisa muito mais antiga que os ingleses.
Os ingleses colocaram ordem na casa em 1863, botando no papel as regras, especialmente para diferenciar o futebol de outros esportes parecidos como o Rugby. Nessa época, cerca de um quarto do mundo pertencia à Coroa Britânica e é claro que ela foi a garota propaganda perfeita para exportar o esporte para os quatro cantos do mundo.

Entretanto, temos evidências de que algo muito parecido já acontecia na China nos 3000 a.C. Com traves de 10m de altura, esse futebol arcaico também era usado como treinamento militar. A obra mais antiga da civilização Maia, o Popol Vuh, depois de falar que no início era só água e o céu, logo em seguida a terra e as montanhas, depois vieram os animais, os homens… e a “pelota” já estava lá. Chutar é algo muito instintivo e acredita-se que a coisa pode ter começado ainda na idade da pedra.

2- A simplicidade do futebol facilita muito.
Fácil para qualquer um assistir e entender as regras, fácil de disseminar, fácil de angariar novos adeptos. É um esporte de inclusão, não precisa ser rico, na grama ou na terra.

3- Improvisação e presença de espírito são ingredientes que fazem o futebol ser mais atraente que tantos outros esportes.
Balãozinho, meia lua, bicicleta, e como diz o velho ditado, a vida é como o futebol: cada lance é diferente do outro. Carrinho, canelada, trombadas, gol roubado, evocam nossos sentimentos de raiva e, quando acompanhados de milhares de companheiros torcedores do mesmo time, pode ter efeitos bem amplificados.

4- Publicidade hoje ajuda muito, mas ela é só uma das peças de um círculo virtuoso.
É mais atraente e popular e por isso recebe mais investimentos publicitários que aumentam ainda mais a popularidade.

5- A atmosfera das torcidas dá todo o tempero.
Se você já torceu por seu time do coração em um estádio lotado, não preciso nem falar nada. A experiência de sentir um pertencimento a algo maior faz com que nosso cérebro vibre em outra frequência. Viver a mesma emoção de forma sincrônica com 50 mil pessoas é algo sobrenatural!

Estudos robustos nos mostram que os homens são mais amigáveis após o término de um conflito quando comparados às mulheres. Isso parece soar meio desafinado, pois é bem reconhecido que os homens são mais agressivos e competitivos. Que história é essa de amigáveis?

Em um desses estudos, pesquisadores da Universidade de Harvard analisaram centenas de vídeos de “batalhas do dia a dia moderno” de 44 diferentes países. Estamos falando de competições esportivas. Eles demonstraram que ao final de uma partida os homens têm uma maior proximidade com o “inimigo” do que as mulheres. Isso foi identificado como abraços, apertos de mãos e tapinhas nas costas.

A explicação evolutiva para esse comportamento é que os homens, após terminado o conflito, têm a tendência em se aproximar do oponente para garantir alianças para uma futura guerra. Eles garantem a perpetuação da espécie não só vencendo disputas para conseguir gerar mais filhos, mas também por preservarem a comunidade como um todo em conflitos entre grupos.

Estudos com chimpanzés evidenciam essa mesma tendência: os machos depois de uma briga dão mais abracinhos que as fêmeas. Quanto às fêmeas, sabemos muito bem que no universo família elas são mais cooperativas. Porém, as mulheres sentem-se mais abaladas, quando um conflito ocorre com outra mulher quando comparamos com a mesma situação em que os personagens são dois homens.

Voilà Jair. Ligue para o Lula dando as congratulações, faça uma daquelas suas lives pedindo para os caminhoneiros desobstruírem as estradas e, no dia primeiro de janeiro, entregue a faixa e dê uns tapinhas nas costas do Lula.  

Pais, respirem fundo. Uma das tarefas mais difíceis que temos nos dias de hoje é a de limitar o número de horas que os filhos ficam absorvido nos games, concorrendo com o tempo para atividade física, convívio familiar, sono, tarefas escolares, etc. Quanto à socialização com amigos, o mundo dos games até que não é dos piores, pois muitos jogam em plataformas que permitem que o jogo aconteça com outros amigos online, mas na maior parte do tempo eles jogam sozinhos mesmo, especialmente as crianças. Entretanto, do ponto de vista cognitivo, os games podem até trazer benefícios. Isso é o que aponta um estudo recém-publicado pelo prestigiado periódico JAMA Network Open após uma avaliação de quase 2000 crianças americanas.

Este é o maior estudo feito até então para avaliar a relação entre a prática de videogames e desempenho cognitivo. Crianças com 9 a 10 anos de idade que jogavam três horas ou mais por dia pontuaram melhor em testes cognitivos envolvendo controle de impulsividade e de memória de trabalho quando comparadas a crianças que não jogavam. A Academia Americana de Pediatria recomendava que os eletrônicos fossem limitados a duas horas diárias em crianças maiores de seis anos. A partir de 2016, a mesma Academia publicou um novo documento mostrando-se um pouco mais flexível e não deu mais um limite fixo de horas, mas incentivou os pais a limitarem o uso dos eletrônicos visando a não concorrência com as atividades importantes de uma vida. Para as crianças entre 2 e 5 anos recomendou um limite de 1 hora por dia de eletrônicos e para as menores de dois anos, pequenos contatos de atividades inteligentes` sempre acompanhados dos pais.  

No presente estudo, além de terem apresentado um desempenho mais rápido nos testes cognitivos, os jogadores de videogame apresentavam maior ativação de áreas cerebrais envolvidas na atenção e memória medida por Ressonância Magnética Funcional. Curiosamente, tinham também uma menor ativação em áreas visuais o que sugere um processamento visual mais eficiente.

Vários estudos já tinham demonstrado uma associação entre a prática de jogar videogame e piora do comportamento e saúde mental entre crianças e adolescentes. O atual estudo sugere que existem também ganhos cognitivos. Na população estudada não houve maior prevalência, entre os jogadores, de depressão, comportamento agressivo e violento. Infelizmente, a pesquisa não separou categorias de videogames (e.g., esporte, aventura, luta) e o impacto cognitivo separado por tipo de videogame deverá ser explorado em futuros estudos.

Você samba de que lado
De que lado você samba
De que lado, de que lado
De que lado, de que lado
Você vai sambar?

O problema são problemas demais
Se não correr atrás da maneira certa de solucionar

Samba do Lado – Chico Science

O último post tratou tratou do perfil psicológico de indivíduos que querem a destruição dos modelos institucionais vigentes, um ativismo disruptivo a que foi dado o nome de Necessidade de Caos por cientistas políticos da França e Dinamarca ainda este ano. Os pesquisadores se somaram a um grande corpo de evidências que estuda a escalada de líderes populistas nas democracias ocidentais nos últimos anos. Hoje, falaremos um pouco mais sobre esses personagens.    

No ano de 2021 o presidente da Coalisão de Saúde Mental Mundial rejeitou a orientação da Associação Americana de Psiquiatria ao dar um diagnóstico psiquiátrico a uma pessoa pública, no caso, Donald Trump, sem examiná-lo pessoalmente. A Coalizão se valeu da Declaração de Genebra que defende que médicos podem se expressar quando frente a governos destrutivos, Declaração criada após a experiência do Nazismo.

De acordo com a Coalisão, o fenômeno Trump e seus seguidores estão embasados em um narcisismo simbiótico e uma psicose compartilhada. Por narcisismo simbiótico devemos entender que um líder, faminto por adulação para compensar sua baixa autoestima, projeta uma onipotência grandiosa, enquanto seus seguidores, carentes pelo estresse social e econômico, buscam ansiosamente por uma figura parental. Quando esses indivíduos assumem posições de poder, eles elicitam a mesma patologia numa parte da população com encaixe perfeito, como uma chave feita para aquela fechadura. Quanto à psicose compartilhada, eles a chamam também de folie à million. Folie à deux (loucura a dois) é um fenômeno descrito na psiquiatria desde o século XVII e refere-se a sintomas delirantes compartilhados por duas pessoas geralmente da mesma família ou próximas. A folie à deux também é chamada de transtorno psicótico induzido, e folie à million, socorro! Quando um indivíduo muito sintomático é colocado em posição de poder e influência, seus sintomas podem se propagar à população por meio de ligações emocionais, amplificando patologias pré-existentes e afetando até indivíduos previamente saudáveis. E o fator delirante provavelmente é mais forte do que um cálculo estratégico, pois ele se dissemina mais facilmente. 

        

É importante salientar que os indivíduos com transtornos mentais como um grupo não são mais perigosos que a população geral, mas quando o transtorno mental vem acompanhado de componentes destrutivos, esses indivíduos são mais perigosos sim. E de onde vem esse elemento destrutivo? Simplificando, se uma pessoa não recebe amor, ela busca respeito. Se ela não tem o respeito, ela realiza ameaças. Trump viveu a rejeição e a violência é uma compensação à perda de poder.

Esta não é uma história de ficção e qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real aqui nos trópicos não é mera coincidência. Em 2021, um grupo de renomados advogados e professores pediram ao Supremo Tribunal Federal que o presidente Jair Bolsonaro fosse submetido a exames para avaliar se ele é mentalmente apto a exercer as funções de presidente. Poucos meses antes, o psiquiatra forense Guido Arturo Palomba, autoridade com mais de 30 anos de dedicação ao assunto, apontou que o presidente apresenta traços inequívocos de transtorno mental, com sinais de desvio de personalidade e condutopatia, termo este cunhado por ele para deformidade de conduta, uma sociopatia em que a pessoa não apresenta ética e valores morais. O quadro foi descrito pela primeira vez em 1855 sob o nome de “Loucura Moral”. “Diante do comportamento do senhor Jair, eu acho que há elementos suficientes para que se possa dar uma hipótese diagnóstica. Se acham os grandes poderosos, e aí vem a tirania, porque só eles que estão certos. Essas pessoas não deveriam nunca ter esse poder de mando, mas quando têm é sempre uma lástima”, diz Palomba.

Desconheço qualquer posicionamento da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) sobre a saúde mental de Bolsonaro. Conheço, sim, o manifesto de mais de mil profissionais da psiquiatria contra as medidas conduzidas pelo governo Bolsonaro e denúncia de aliança entre o governo, Conselho Federal de Medicina (CFM) e ABP favorecendo o desmonte da reforma psiquiátrica brasileira e o fim das políticas antimanicomiais. A ABP se defende com nota de repúdio dizendo ter ficado “totalmente surpresa” com as mudanças propostas pelo Ministério da Saúde. Já o CFM recebeu o manifesto “Este CFM não me representa” de milhares de médicos após visita de Bolsonaro à entidade em julho deste ano. O mandatário defendeu medicações comprovadamente ineficazes contra a COVID-19, ridicularizou os senadores da CPI da COVID e declarou com orgulho que não se vacinou. Ao final, foi aplaudido de pé e alguns gritaram mito. O jornal The Lancet apontou, ainda em 2021, que o kit COVID foi encorajado pelo CFM, ação que anda na contramão das evidências científicas e a entidade é cobrada a proibir oficialmente essa prática. No ano de 2022, ainda permanece a autonomia do médico em prescrever cloroquina na COVID-19, mesmo após ação movida pela Defensoria Pública da União e o Ministério Público Federal para que o CFM puna médicos que insistirem com essa conduta.  

É obrigatório, para entender melhor o caso Bolsonaro, assistir ao documentário Quebrando Mitos de Fernando Grostein Andrade, o mesmo diretor de Quebrando o Tabu . O documentário explicita brilhantemente o que tentei expressar nesse post e muito mais.

LINK YOUTUBE Quebrando Mitos

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A ciência política tem apontado uma crescente polarização entre partidos políticos, a emergência de líderes e movimentos populistas, circulação de falsas informações e um aumento expressivo de violência política. Esse fenômeno está associado a uma fragilização do sistema tradicional de ativismo político das democracias ocidentais.

Uma série de estudos tem apontado que fazem parte desse cenário indivíduos que querem a destruição dos modelos institucionais vigentes e esse ativismo disruptivo, chamado de Necessidade de Caos, é mais frequente entre indivíduos socialmente marginalizados e em sociedades com maior desigualdade econômica. É mais comum entre homens e em indivíduos com renda média do que os de baixa renda. A Necessidade de Caos também é associada à psicopatia e personalidades com forte componente de narcisismo e maquiavelismo. Pesquisas têm sugerido que essas pessoas têm um intenso desejo de subir subitamente na escala de reconhecimento social e a promoção do caos é uma estratégia para alcançar essa obsessão.

Uma pesquisa recente demonstrou essa tendência em 20% dos voluntários em quatro diferentes países de língua anglo-saxônica: Estados Unidos, Canadá, Austrália e Inglaterra. Uma escala para avaliação do sentimento de Necessidade de Caos foi aplicada a mais de 12 mil adultos e incluía itens como “Quando penso em nossas instituições sociais e políticas penso que elas deveriam ser destruídas” ou “Eu fantasio um desastre que acabe com quase toda a humanidade para um pequeno grupo de sobreviventes começar tudo de novo.” O estudo apontou que a Necessidade de Caos com alta pontuação na escala descrita anteriormente foi mais frequente entre os voluntários que tinham perfil político de extrema direita e com característica mais niilista, sem uma visão de reconstrução.   

Sabemos que uma dieta rica em peixes ricos em Omega-3 é recomendada para se ter um cérebro mais afiado na velhice. Mas será que adultos na meia-idade já colhem os frutos? Um estudo, que acaba de ser publicado pela Neurology, periódico da Academia Americana de Neurologia, aponta que provavelmente sim, após avaliação dos níveis de Omega-3 nas hemácias de adultos com média de idade de 46 anos. Esses níveis refletiam o contingente dessa classe de ácido graxo oriundo da dieta, mas também de suplementos.

O estudo envolveu mais de dois mil voluntários e aqueles que apresentavam uma maior concentração de Omega-3 tinham um melhor desempenho cognitivo e também um maior volume dos hipocampos, estruturas cerebrais fortemente ligadas à memória. Esse efeito positivo se deu mesmo com níveis modestos de ácidos graxos Omega-3, cerca de metade do recomendado. Vale lembrar que os efeitos positivos se estendem aos vasos sanguíneos, contribuindo para uma menor incidência de eventos cardiovasculares como infarto do coração e acidente vascular cerebral. A Associação Americana de Cardiologia recomenda duas porções de peixe por semana para o incremento da saúde cardiovascular.

O consumo de ácidos graxos da família Omega-3 é a mais estudada interação entre alimento e a evolução das espécies. O ácido docosahexanóico (DHA) pode ser considerado o ácido graxo mais importante para o cérebro, já que é o mais abundante nas membranas das células cerebrais e são considerados essenciais por não serem produzidos pelo organismo humano, que precisa obtê-los por meio de dieta. Acredita-se que o consumo de Omega-3 teria sido fundamental para o processo de aumento na relação peso cérebro/ peso corpo, fenômeno conhecido como encefalização, ou seja, aumento progressivo do tamanho do cérebro em relação ao corpo ao longo do processo evolutivo. Estudos arqueológicos apoiam essa hipótese, já que o processo de encefalização não ocorreu enquanto os hominídeos não se adaptaram ao consumo de peixe.

Uma das publicações do The Lancet, eClinical  Medicine, acaba de publicar uma pesquisa conduzida pela Universidade Birmingham, na Inglaterra, apontando que adultos na meia idade que apresentam pesadelos frequentes têm mais chance de desenvolver um quadro de demência no futuro. Os resultados sugerem que os pesadelos frequentes podem ser indícios de uma doença degenerativa que se apresentará anos ou até décadas mais tarde.

A pesquisa foi feita com mais de 600 voluntários saudáveis com idades entre 35 e 64 anos e 2600 com idades acima de 79 anos, todos sem demência ou Parkinson no início do estudo. Após um acompanhamento clínico por cinco a nove anos, foi demonstrado que os adultos de meia idade que apresentavam pesadelos pelo menos uma vez por semana tinham uma chance quatro vezes maior de apresentar declínio cognitivo nesse período. O risco de desenvolver um quadro demencial foi duas vezes maior nos voluntários com mais de 79 anos quando comparados àqueles sem pesadelos frequentes. Entre os idosos, quando se analisou apenas os homens, o risco foi cinco vezes maior.

Pesquisas anteriores já tinham mostrado uma associação entre pesadelos frequentes e uma maior chance de uma pessoa vir a apresentar a Doença de Parkinson. Mostraram também a associação com uma pior evolução cognitiva nesses pacientes e até uma maior atrofia de regiões frontais do cérebro. Estudos não longitudinais também já tinham despertado a atenção para uma associação entre pesadelos e déficit cognitivo entre idosos na população geral.    

Pesadelos são comuns na população geral, especialmente entre os idosos, e estima-se que 5% dos adultos apresentam essa condição numa frequência mensal. Estudos apontam que os pesadelos são mais comuns entre as mulheres, mas só até a sexta década de vida, quando a proporção homem/mulher fica mais equilibrada. São ainda mais frequentes em pacientes com síndromes demenciais, assim como na Doença de Parkinson. Por fim, muito interessante é o resultado de uma pesquisa conduzida em camundongos que demonstrou redução dos marcadores patológicos da Doença de Alzheimer com a administração do anti-hipertensivo prazosin, medicação de escolha no tratamento de pesadelos.      

Pesquisas têm demonstrado nos últimos anos que, mesmo dentro da cidade, o contato com o verde pode trazer benefícios ao cérebro. Voluntários ao caminharem pela cidade com um aparelho de eletrencefalograma portátil, e passarem por ruas comerciais agitadas, apresenta o cérebro excitado. O contrário acontece em um parque da cidade, quando as ondas cerebrais ficam mais “meditativas”. Sabemos também que pessoas que moram próximas a árvores e parques têm níveis menores do hormônio do estresse cortisol quando comparadas às que vivem cercadas de concreto por todos os lados.

Já é bem reconhecido que as pessoas que vivem nas grandes cidades têm maior risco de apresentar transtornos mentais. Através de ressonância magnética funcional, foi demonstrado que o cérebro de quem mora no campo reage de forma diferente a estímulos de estresse quando comparados aos moradores da cidade. Isso rendeu até a capa da prestigiada revista Nature. Os pesquisadores mostraram uma maior ativação das amígdalas entre os moradores de grandes cidades e foi curioso o fato de que isso estava presente mesmo nos adultos que viveram nas “selvas de concreto” somente na infância.

Outro estudo, conduzido pelo Instituto Max Planck na Alemanha, apoiou esses achados ao demonstrar que as pessoas que moram ao redor de muita natureza têm maior integridade de uma das regiões do cérebro mais associadas ao processamento do estresse e reações frente ao perigo. E essas estruturas são as amígdalas. Mas para desvendar a velha pergunta, o que vem primeiro, o ovo ou a galinha, o Instituto Max Planck acaba de publicar novos resultados apontando que o contato com a natureza é que é responsável por essa maior integridade, e não o contrário. Digamos que pessoas com essa anatomia avantajada das amígdalas tivessem a tendência em morar mais próximos à natureza. Provavelmente não é isso o que acontece. Dessa vez foi comparada a ativação das amídalas, por ressonância magnética funcional, após uma hora de caminhada na floresta ou numa rua movimentada. Após a caminhada na floresta, as amígdalas ficaram menos ativadas, o que não aconteceu com os voluntários que ficaram nas ruas da cidade.  

O local onde moramos pode mesmo influenciar nossa saúde, não só a saúde mental. Sabemos que morar à beira de rodovias aumenta o risco de doenças cardiovasculares devido à poluição do ar, e quanto maior o número de restaurantes “fast food” na vizinhança, maior o risco de infarto agudo do coração e derrame cerebral. O risco de diabetes é menor em comunidades que têm na vizinhança boas opções para realização de atividade física, além de comércio com oferta de produtos alimentícios saudáveis. Isso sem falar no trânsito.

No ano de 2017, Roger Federer, aos 35 anos, ganhou seu oitavo título de Wimbledon e foi o atleta mais velho a faturá-lo. Nesse mesmo ano, uma pesquisa publicada pelo periódico PLOS ONE, envolvendo mais de três mil voluntários com idades entre 16 e 44 anos, nos mostrou que aos 24 anos alcançamos nosso pico de desempenho cognitivo-motor. Apontou ainda que a maturidade traz algumas compensações. O desempenho dos voluntários, após milhares de horas num jogo de computador com a mesma lógica do xadrez, foi medido pela rapidez com que reagiram aos seus oponentes e pelas estratégias que usaram no desafio. Jogadores mais velhos, apesar de mais lentos, compensaram a desvantagem de velocidade com estratégias mais eficientes no jogo.

Quando se pensa em criatividade, a maturidade traz também suas compensações. Uma análise feita das carreiras de 31 ganhadores do Nobel de economia nos mostra que existem épocas na vida em que somos mais criativos. Nessa avaliação, foram encontradas duas ondas diferentes de criatividade, uma por volta dos vinte e poucos anos e outra entre os cinquenta e sessenta anos.

A primeira onda foi chamada de inovação de conceitos. É o pensar “fora da caixinha”, onde novas ideias põem em xeque o saber convencional. A segunda onda, chamada de inovação experimental, é a produção de conhecimento a partir do saber acumulado e nos traz formas inéditas de análise, interpretação e síntese. Os resultados são concordantes com estudos prévios que analisaram ondas de criatividade nas artes e em outras áreas da ciência. Pablo Picasso e Albert Einstein tiveram suas maiores criações na primeira onda, enquanto Paul Cézanne, Virginia Woolf e Charles Darwin brilharam mais na segunda onda. A Teoria da Relatividade foi publicada por Einstein aos 26 anos de idade e Darwin publicou a Teoria da Evolução aos 51 anos.

Um estudo mais recente, publicado pela Nature Human Behavior, nos mostra que com o envelhecimento temos realmente um declínio no desempenho da atenção e funções executivas, fato esse já bem demonstrado por inúmeros estudos. Entretanto, os pesquisadores apontaram também que algumas funções executivas e de atenção não apresentaram piora. Voluntários, até mesmo entre os 70 e 80 anos de idade, revelaram melhor desempenho que os mais jovens.

Nesse último estudo, o estado de alerta realmente foi menor entre os mais velhos. É a capacidade de estar pronto para frear o carro numa intersecção. Já nos testes de orientação espacial, definida como a capacidade de mudar o foco de atenção para um outro ponto do espaço, os velhos se saíram melhor. É a capacidade de perceber, por exemplo, um pedestre aguardando para atravessar na faixa. Já na capacidade executiva de inibir estímulos que levam à distração do foco naquilo que realmente interessa, os velhos também foram melhores. É a capacidade de não ficar prestando atenção nos passarinhos e reduzir o foco na direção.         

Mas como explicar o melhor desempenho em um cérebro mais velho que já passou por inúmeras alterações estruturais e fisiológicas? A experiência ao longo dos anos é capaz de explicar esse fenômeno? Há um robusto corpo de evidências de mecanismos adaptativos para reduzir o impacto das perdas que acumulamos ao longo dos anos. Isso vai desde compensações no metabolismo cerebral, como ter o mesmo resultado com menos energia. Maior a experiência, menor ativação neuronal, menor gasto energético e maior eficiência. Um estudo com uma droga usada para controle da epilepsia mostrou esse ajuste de gasto energético com bons resultados clínicos na cognição de idosos com declínio cognitivo.

Essa adaptação envolve também a reorganização de redes neurais ao longo das décadas. A reorganização conta até com o recrutamento de áreas do cérebro não tão envolvidas entre os jovens para uma dada tarefa, incluindo a participação maior de ambos os hemisférios, como é o caso da memória episódica. E não há dúvida que a atividade física e estímulos cognitivos amplificam o impacto desses mecanismos adaptativos.   

“Serviço aos outros é o aluguel que pagamos pelo nosso quarto aqui na Terra.” – Muhammad Ali

Um estudo recém-publicado pelo periódico PLOS Biology e conduzido por pesquisadores da Universidade de Berkeley no EUA demonstra que a falta de sono afeta nossas interações sociais fazendo com que tenhamos menor tendência em ajudar os outros. No dia seguinte a uma noite mal dormida, os voluntários se mostraram com menor tendência a ações altruístas simples, como abrir a porta para o outro. O estudo mostrou também que a privação de sono leva a uma menor ativação no cérebro de áreas envolvidas na empatia e, por último, de que doações para fundos de caridade são 10% menores na primeira semana do horário de verão, nos estados americanos que adotam essa medida.

A pesquisa aponta a importância do sono não mais focada no indivíduo, mas sua relevância nas interações sociais. Individualmente, já sabíamos que a privação de sono está associada a um maior risco de doenças cardiovasculares, diabetes, hipertensão arterial, obesidade, depressão e disfunção sexual. O presente estudo revela que um sono insuficiente degrada as interações sociais entre os indivíduos, degrada nossa consciência social básica de ajudar o outro. Não dormir bem afeta não só o seu bem estar físico e emocional, mas os efeitos deletérios do seu círculo social e até de estranhos. O sono adequado poderia até ser considerado um “lubrificante social”.

Estudos anteriores mostraram que a privação de sono leva a um julgamento mais negativo das expressões faciais dos outros e pode estar associado a uma menor motivação para a interação social no mundo real. Isso também foi sugerido pelos resultados de uma pesquisa publicada pela Nature Communications em 2018. Muito interessante é o fato de que a privação de sono dispara um sinal de repulsa social naqueles que estão sem dormir, mas também entre aqueles que estão interagindo com o insone. Como dizemos anteriormente, os efeitos se dão em rede!

E a relação entre privação de sono e sociabilidade é de via dupla. Camundongos submetidos a isolamento social passam a ter o sono menos eficiente. Em humanos acontece o mesmo. Em humanos, a promoção de socialização melhora o padrão do sono e a falta de sono aumenta a tendência ao isolamento social. Sabemos também que a privação de sono está associada uma maior ativação das amígdalas cerebrais quando em frente a estímulos de contextos negativos ou prazerosos. Vale lembrar que amígdalas ativadas aumentam o hormônio do estresse cortisol e nos deixam prontos para a luta ou para a fuga.

Além de saúde, o que os pais mais desejam aos filhos é que eles sejam bons, felizes e com boas relações de amizade. A relação entre bondade, amizade e felicidade tem sido descrita como de reciprocidade. Pessoas mais felizes têm maior tendência a apresentar comportamentos prossociais e também de ter um bom círculo de amizades. Crianças com boa aceitação pelos amigos, por outro lado, também são mais cooperativas e equilibradas emocionalmente. Além disso, pessoas mais felizes têm mais ferramentas para fazer o bem aos outros, atitude que também promove o bem estar.  

Sonja Lyubomirsky, uma das maiores autoridades em pesquisas sobre felicidade, participou de um estudo experimental que aponta que crianças que exercitam a gentileza passam a se sentir mais felizes e também a serem mais populares com seus coleguinhas.

Quatrocentas crianças canadenses com idades entre 9 e 11 anos foram estudadas em dois diferentes grupos. Metade delas foi orientada a fazer três ações de gentileza por semana, por exemplo, dividir o lanche com um amigo ou dar um abraço na mãe ao sentir que ela está estressada. A outra metade tinha a tarefa de visitar três lugares diferentes por semana, por exemplo, o parquinho e a casa dos avós.

Após quatro semanas, as crianças sentiram-se mais felizes e passaram a ser mais populares, mas esses efeitos foram maiores entre aquelas que cumpriram as tarefas de gentileza. Escalas de felicidade e bem estar foram aplicadas e a popularidade foi medida pelo número de coleguinhas que escolhiam a criança como potencial parceiro para um trabalhinho escolar.

Se ações de gentileza são tão boas para quem as faz, por que elas não são mais comuns no nosso dia a dia? Uma explicação para esse fenômeno foi explorada por um estudo publicado recentemente por pesquisadores da Universidade de Austin nos EUA. Eles demonstraram através de vários experimentos que há uma expectativa descalibrada do impacto que uma ação prossocial pode gerar no bem-estar psíquico de quem recebe. Quem faz a ação julga que o resultado na vida do outro será menor do que acontece na realidade. Se as pessoas ao fazerem pequenas ações gentis aos outros tivessem consciência da grande diferença que elas podem fazer, certamente fariam mais dessas ações. Isso aumentaria o bem-estar psíquico de quem dá e de quem recebe. Os experimentos também confirmaram o aspecto contagiante de ações de gentileza – gentileza gera gentileza.    

Algumas doenças podem ter um efeito devastador na vida de um paciente e suas famílias, especialmente no caso do câncer e de doenças degenerativas e progressivas como a Doença de Alzheimer. Perguntas comuns nessas situações como Por que comigo?, Por que logo com meu filho?, Por que isso tudo?  nos dão uma pista de que além dos cuidados físicos e emocionais, uma janela preciosa na relação  entre a equipe de saúde  e o paciente e seus familiares pode estar se abrindo: a dimensão espiritual.

De acordo com a Conferência de Consenso Internacional em Espiritualidade na Assistência Médica, espiritualidade é a maneira com que as pessoas buscam significado, propósito, conexão, valor ou transcendência. Isso pode incluir religiões, mas também outras formas de busca de sentido através de conexão, por exemplo, com a família, comunidade ou natureza. Para pessoas sem doença, a experiência espiritual em comunidade, como é o caso da participação regular em cultos religiosos, está associada a uma vida mais saudável, maior longevidade, menos depressão e suicídio e menor uso de substâncias psicoativas. O respeitadíssimo periódico da Associação Médica Americana (JAMA) publicou bem recentemente a mais rigorosa análise desse binômio espiritualidade e saúde. O estudo foi conduzido pela Universidade Harvard.

Estudos revelam que mais de 90% dos médicos acreditam que as crenças espirituais dos pacientes devem ser consideradas. Entretanto, apenas 30% dos médicos acreditam que essas crenças devam efetivamente ser abordadas, e só 10% adotam essa prática, mesmo entre pacientes terminais. Por outro lado, sabemos também serem bastante ruins os indicadores que medem a satisfação de pacientes quanto ao cuidado dispensado pela equipe de saúde aos seus aspectos emocionais e espirituais, evidenciando uma fraqueza dos serviços de saúde que precisa ser trabalhada. 

Já temos um razoável corpo de evidências que indivíduos com uma maior vivência espiritual têm uma melhor relação com a doença: maior cooperação no tratamento, maior capacidade de lidar com o estresse emocional, melhora mais rápida de sintomas depressivos. Além disso, o envolvimento com uma comunidade religiosa está associado a uma maior rede social, e há tempos sabemos que pessoas socialmente integradas têm menos chance de adoecer, e quando doentes, a rede social é uma das principais fontes de apoio. Entretanto, as crenças religiosas nem sempre estão a favor da saúde do paciente, já que podem em alguns casos dificultar a aderência ao tratamento com ideias do tipo: esse é o desejo de Deus, Deus me abandonou, este é o meu destino, este é o meu castigo, etc. Em situações como essas, é importante que a equipe de saúde esteja minimamente preparada para abordar as dimensões religiosas / espirituais do paciente com a intenção de aumentar a aderência e sucesso do tratamento, além de poder contribuir para um maior senso de controle e significado do problema. Tal abordagem pode ainda identificar crenças que podem ser relevantes em determinadas decisões médicas.

Alguns podem pensar que uma conversa dessa natureza pode ser percebida pelo doente como uma intromissão na sua intimidade. Claro que se no início dessa conversa o paciente já demonstra que religiosidade / espiritualidade são dimensões que não são questões importantes na sua vida, então a conversa já deve parar por aí. Ninguém deve também “prescrever” religião aos pacientes, convencê-los que um tipo de crença ou prática seja interessante ou entrar em polêmicos embates sobre religião. A ideia de um melhor entendimento da espiritualidade dos pacientes também não tem como objetivo o médico ou outro profissional de saúde ficar dando conselhos espirituais ao paciente.

Enquanto percebemos uma medicina cada vez mais comercial, em que os pacientes passam mais tempo nas máquinas de exames do que com o médico, há espaço sobrando para a discussão e aprofundamento de questões associadas às questões espirituais dos doentes, e isso já está tomando forma. Cresce o investimento em pesquisas que analisam o impacto da inserção de aspectos espirituais na relação médico-paciente, inclusão do assunto no currículo de graduação médica e, recentemente, a Comissão de Acreditação de Organizações de Saúde nos Estados Unidos incluiu em seu manual de acreditação para hospitais a recomendação de que os profissionais de saúde abordem sim os valores espirituais dos pacientes. Talvez a busca por “medalhas de qualidade” impulsione a tão esperada reumanização da saúde – tratar não só a doença, mas o indivíduo na sua integralidade.

Estudos apontam que o consumo moderado de álcool aumenta nossa longevidade. Diminui o risco de infarto do coração e acidente vascular cerebral. Entretanto, um robusto corpo de pesquisas tem nos mostrado que esse mesmo consumo moderado promove uma maior redução do volume cerebral ao longo dos anos. Recentemente, um novo estudo foi publicado mostrando que esse consumo também aumenta os níveis de depósito de ferro em algumas regiões do cérebro, como os núcleos da base, estruturas não só ligadas à motricidade, mas também a inúmeras funções cognitivas.

 

O depósito de ferro no cérebro está associado a doenças degenerativas, como Alzheimer e Parkinson, mas também ao consumo exagerado de álcool. O presente estudo mostrou de forma inequívoca que, mesmo em doses moderadas, o consumo de álcool pode levar a um maior depósito de ferro. E quanto maior esse depósito, menor foi o desempenho nos testes cognitivos, especialmente na resolução de problemas, funções executivas e velocidade de reação. Foram mais de 20 mil voluntários estudados.  E o que é moderado? Sete doses de álcool por semana, 5 taças de 175ml de vinho por semana ou uma logneck por dia.

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