
Ricardo Afonso Teixeira*
Uma pesquisa recém-publicada pela Nature Communications demonstra que a modificações ocorridas no cérebro de uma mulher com uma primeira gestação é diferente das que ocorrem após uma segunda. Enquanto na primeira gravidez o cérebro passa por modificações estruturais e funcionais associadas à reflexão e habilidades sociais, em uma segunda gestação essas mesmas mudanças acontecem, de forma mais discreta, mas com incrementos em circuitos voltados à atenção e resposta a estímulos sensoriais. Essas últimas modificações podem deixar o cérebro de uma mãe mais preparado para o cuidado de múltiplos filhos.
Estudos anteriores já haviam evidenciado que o cérebro de mulheres com múltiplos filhos mostra-se mais jovem do que naquelas com apenas um filho ou sem filhos. Outras evidências apontam que a maternidade leva a incrementos estruturais e funcionais no longo prazo que podem estar associados a um menor risco de doenças como derrame cerebral Doença de Alzheimer, fatos já demonstrados em modelos animais.
Cerca de 80% das mulheres na gestação, especialmente no terceiro trimestre, queixam-se de menor desempenho cognitivo, e alguns estudos confirmam essa tendência, mas demonstram que a intensidade não chega a atrapalhar as atividades do dia a dia. Temos evidências também que, após o parto, a mães recuperam suas habilidades e ficam até mais eficientes do que antes da gravidez. O atual corpo de evidências, juntando resultados de modelos animais e humanos, nos permite pensar que a maternidade colabora para uma maior reserva cognitiva, deixando as mulheres mais resilientes ao processo de envelhecimento cerebral.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília





















