
Ricardo Afonso Teixeira*
Calcula-se que a chance de desenvolvermos um quadro demencial seja de 25%, se ultrapassarmos os 80 anos de vida, e de 50% se passarmos dos 90. Esse cenário era bem diferente no caso de nossos ancestrais, pois eles não envelheciam e toda a programação genética estava concentrada em oferecer condições para que o indivíduo conseguisse se reproduzir e perpetuar a espécie. Nossa grande longevidade é um fenômeno bem recente, e não houve tempo de nos adaptarmos geneticamente a esse novo cenário. Vale lembrar que a expectativa de vida do Australopitecus, há 4 milhões de anos, era de apenas 15 anos, 25 anos no caso dos europeus na Idade Média, cerca de 40 anos no século XIX e 55 anos no início do século XX.
E a partir dos 90 anos? Como é que fica? Quem chega aos 90 anos sem demência terá atravessado uma suposta fase de risco? Não é o que indica estudos com idosos nessa faixa etária. Uma grande pesquisa (LifeAfter90 study) acaba de ser publicada pelo The Lancet Healthy Longevity que acompanhou idosos sem demência com mais de 90 anos. A incidência de demência aumentou exponencialmente após essa idade, duplicando a cada 5 anos e chegando a 41% entre os centenários. Os resultados mostraram as mesmas disparidades encontradas em pacientes de faixas etárias mais jovens, como um risco de demência duas vezes maior em mulheres.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília





















