You are currently browsing the category archive for the ‘!! ConsCiência no Dia-a-Dia !!’ category.

Person Holding Black and White Wall Decor

Por Dr. Ricardo Teixeira*

O cerebelo é uma região do sistema nervoso central que fica na sua parte posterior e por muitos anos foi considerado o maestro de nossa coordenação motora. Há algum tempo temos evidências de que ele também participa da nossa atividade cognitiva, processamento das emoções e comportamento. Nesse caso, ele usa sua batuta para fazer com que as regiões ligadas ao pensamento e às emoções trabalhem em conjunto de forma mais eficaz. E esse conhecimento só teve início há duas décadas após a descrição da Síndrome Afetiva Cognitiva Cerebelar pelo americano Jeremy Schmahmann. Ele mostrou que indivíduos com lesões no cerebelo apresentavam, além de alterações de coordenação motora, disfunções cognitivas e de controle emocional.

Mais recentemente, temos evidências de ligação entre alterações da função do cerebelo a condições como adição a drogas, autismo e esquizofrenia. Esses achados sugerem que o cerebelo deva participar do sistema de recompensa cerebral e de nosso comportamento social, mas uma clara conexão entre esses sistemas ainda era desconhecida. A revista Science publicou em 2019 uma pesquisa que deixou mais clara essa questão.

Pesquisadores americanos mostraram, pela primeira vez, um circuito que liga o cerebelo diretamente ao centro tegmentar ventral, área do cérebro considerada um dos mais importantes centros do nosso sistema de recompensa. A pesquisa foi realizada em roedores e mostrou também que a estimulação desse circuito era capaz de provocar comportamento semelhante ao de adição. Um futuro experimento testará se roedores expostos a drogas, como cocaína, podem ter o componente de adição reduzido após a inibição desse circuito.

Neste mês de novembro, tivemos mais uma descoberta importantíssima da influência que um núcleo de neurônios no cerebelo tem sobre o comportamento humano. Desta vez foi demonstrada que a ativação desses neurônios é capaz de aumentar a saciedade em até 75%. O início da investigação partiu da evidência de um padrão de ativação atípico no cerebelo em pacientes com a síndrome de Prader Willi quando expostos ao alimento. Essa é uma condição genética rara em que os portadores comem compulsivamente, levando-os ao desenvolvimento de obesidade. Os pesquisadores conseguiram demonstrar também um circuito ligando esse grupo de neurônios no cerebelo com o sistema de recompensa cerebral.

Novos estudos em humanos já estão na mira desses laboratórios. A manipulação da atividade dessas conexões (cerebelo-sistema de recompensa) com técnicas de impulsos magnéticos e microeletricidade pode ser promissora para o tratamento de adição a drogas e obesidade, por exemplo.

*Dr. Ricardo Teixeira é neurologista e diretor clínico do Instituto do Cérebro de Brasília

Em 2013, pela primeira vez na história, um pequeno dispositivo implantado no cérebro se mostrou eficiente para prever o início de uma crise epiléptica. Os resultados na época foram divulgados pelo prestigiado periódico The Lancet Neurology.

Para quem tem crises epilépticas que não são controladas com medicações, e elas representam 30% das pessoas que sofrem dessa condição neurológica, saber com antecipação o momento de uma nova crise pode fazer toda a diferença, promovendo um estado de maior segurança e autonomia. Saber que uma crise acontecerá em alguns minutos permite que a pessoa que está dirigindo, por exemplo, encoste o carro e evite um acidente. Essa informação também pode fazer com que o indivíduo use uma medicação extra nos períodos imediatamente antes da crise.  

O dispositivo foi desenvolvido por pesquisadores americanos de Seattle (NeuroVista) para detectar atividade elétrica anormal no cérebro que precede uma crise epiléptica. Ele é implantado entre o cérebro e a caixa craniana e transmite informações para outro dispositivo colocado abaixo da pele na região do tórax. Um aparelhinho do tamanho de um iPod que pode ser adaptado ao cinto emite três diferentes sinais sonoros e luzes que informam a chance de uma nova crise: luz vermelha (risco alto), luz branca (risco moderado) e luz azul (baixo risco).

Essa tecnologia abre uma grande porta para o desenvolvimento de novos métodos para controle de crises epilépticas de ação ultrarrápida como estímulos elétricos ou até mesmo medicações. Entretanto, nem todo mundo que tem crises não controladas com medicações pode arcar com os custos ou se sujeitaria à implantação de um eletrodo cerebral. Pesquisadores da Mayo Clinic nos EUA acabam de publicar os resultados de uma experiência de sucesso com uma pulseira que avisa quando uma crise está por vir com 30 minutos de antecedência, sem a necessidade de implantação de eletrodos intracranianos. Essa pulseira usa a tecnologia de um algoritmo que prevê uma crise com dados das oscilações do ciclo circadiano de cada paciente e associado a informações de sua temperatura, frequência cardíaca, fluxo sanguíneo e atividade eletrodérmica do pulso e também de movimentos. Tudo isso através da pulseira e sem precisar implantar eletrodos no cérebro. Para quem achava que o Apple Watch era superpoderoso, hein?    

Tudo isso pode trazer mais independência àqueles que sofrem com quadros de epilepsia de difícil controle, reduzindo acidentes e o impacto psicossocial dessa condição neurológica que afeta uma em cada cem pessoas. Epilepsia não escolhe idade, raça, gênero, muito menos status socioeconômico.  

Silhouette of Bird Above Clouds

O número ideal de horas de sono é aquele que faz com que a pessoa no outro dia sinta que dormiu o suficiente. Um percentual pequeno de pessoas sente-se bem com menos de 7 horas, e estes são chamados de dormidores curtos. Há também os dormidores longos, aqueles que precisam de mais de 8 horas de sono e que também representam uma minoria. Porém, a maior parte da população mundial, incluindo os brasileiros, dorme entre 7 e 8 horas por noite.

Temos evidências de que as pessoas que dormem as 7 horas, mas acordam mais tarde, têm maior risco de desenvolver um quadro de depressão. Discutimos recentemente um estudo que mostrou que basta dormir 1 hora mais cedo que esse risco é reduzido em 23%. Se dormir 2 horas mais cedo essa tendência pode ser reduzida em quase 40%.

Como explicar esse efeito? Temos evidências de que uma maior exposição à luz durante o dia (tem que acordar cedo!) está associada a padrões hormonais que influenciam o humor. Outra explicação é o impacto psicológico de estar desalinhado da maioria das pessoas que dorme cedo e acorda cedo.  E o hábito de ir dormir cedo e acordar cedo traz benefícios ao coração também.

Uma pesquisa divulgada esta semana pela Sociedade Europeia de Cardiologia apontou, após acompanhar 88 mil voluntários por 6 anos, que aqueles que iam para a cama entre 22 e 23h tinham menor chance de apresentar um evento cardiovascular como infarto do coração ou derrame cerebral. Isso comparado aos que iam dormir mais cedo ou mais tarde e a explicação seria o rompimento do ciclo circadiano que é o nosso relógio biológico.  Os que iam dormir depois da meia noite foram os que apresentaram maior risco. Já temos um corpo robusto de evidências mostrando que dormir e acordar tarde têm impacto negativo no controle de nossa glicemia e aumenta a incidência de hipertensão arterial e obesidade. O estudo também confirmou o que já sabíamos através de várias outras pesquisas: dormir pouco aumenta o risco de eventos vasculares.

Man Wearing White Dress Shirt With Black Necktie

Sentimentos como nervosismo e entusiasmo são frequentemente associados mais a um gênero do que ao outro. Pesquisadores da Universidade de Michigan, nos EUA, avaliaram se as mulheres realmente são mais emotivas que os homens, já que a ideia de elas serem mais emotivas que eles pode ser só um estereótipo. É comum a flutuação emocional de um homem durante um jogo de futebol ser considerada “paixão”, enquanto as flutuações das mulheres, em qualquer situação e mesmo que provocadas, são interpretadas, por muitos, como irracionalidade.

O estudo acompanhou 142 voluntários (18 a 38 anos) por 75 dias para mapear as emoções positivas e negativas no dia a dia. Os resultados mostraram que os altos e baixos emocionais não foram diferentes entre os gêneros, apesar de terem sido desencadeados por razões diferentes. Entre as mulheres, a flutuação emocional não estava associada ao uso de pílula anticoncepcional.

Os achados têm uma grande implicação na redução do estigma de “mulheres à beira de um ataque de nervos”, já que os homens estão na mesma montanha russa emocional. A pesquisa trará impacto também na inclusão das mulheres em estudos que historicamente as excluem com o argumento de que a flutuação emocional é muito alta e hormônio-dependente. Inúmeros estudos com roedores apontam que essas flutuações na fêmea são até menores do que no macho.

Refrescando a memória sobre esse estereótipo na CPI da covid-19:

Simone Tebet foi chamada de “descontrolada”.

A senadora Leila Barros foi interrompida várias vezes pelo senador governista Marcos Rogério enquanto tentava cumprir seu papel na CPI. Rogério afirmou, na ocasião, que ela estaria “nervosa”.

Ninguém chamou um homem de nervoso ou descontrolado na CPI. Estavam todos em estado de relaxamento profundo.

Photo credit: Kevin Mazur - Getty Images

Recentemente pudemos acompanhar cenas do show da lenda do jazz Tony Bennet junto a Lady Gaga no Radio City Music Hall em Nova Iorque. Nos ensaios, ele não era capaz de reconhecer Lady Gaga, amiga e companheira em inúmeros projetos. Mas no dia do show, ele falou o nome dela com muita emoção quando ela subiu ao palco. Tony sofre de doença de Alzheimer desde 2016, está com 95 anos e a turnê era sua despedida dos palcos. O vídeo é emocionante. Clique aqui para assistir.

Depois do show Lady Gaga disse: “Eu quero que as pessoas saibam que, se tem alguém que você ama com Alzheimer, há uma maneira de se comunicar e tocar uma magia no coração que ainda está lá. E eu acho que cabe a nós questionarmos por quais maneiras podemos despertar esses sentimentos e assim nos comunicarmos melhor com eles.” O recado de Lady Gaga é precioso às famílias que têm um ente querido com a doença.

Calcula-se que a chance de desenvolvermos um quadro demencial seja de 25%, se ultrapassarmos os 80 anos de vida, e de 50% se passarmos dos 90. Esse cenário era bem diferente no caso de nossos ancestrais, pois eles não envelheciam e toda a programação genética estava concentrada em oferecer condições para que o indivíduo conseguisse se reproduzir e perpetuar a espécie. Nossa grande longevidade é um fenômeno bem recente, e não houve tempo de nos adaptarmos geneticamente a esse novo cenário. Vale lembrar que a expectativa de vida do Australopitecus, há 4 milhões de anos, era de apenas 15 anos, 25 anos no caso dos europeus na Idade Média, cerca de 40 anos no século XIX e 55 anos no início do século XX.

Já que não somos geneticamente tão “atualizados” assim, e esse tipo de atualização é coisa para milhão de anos, o que podemos fazer para chegar aos 80 anos com a cabeça tinindo é investir em atitudes de vida saudáveis. As estrelas de primeira grandeza são a atividade física regular e uma rotina em que o cérebro tenha muitas demandas, e aí o lazer certamente está incluído.

Além disso, a ciência demonstra, de forma inequívoca, que o padrão da dieta mediterrânea ajuda a prevenir a demência. Essa é uma dieta rica em peixes, verduras, legumes, frutas, cereais (melhor se forem integrais), azeite e outras fontes de ácidos graxos insaturados, e baixo consumo de carnes e laticínios e outras fontes de gorduras saturadas, além do uso moderado, porém regular, de álcool.

Tão importante quanto o incremento dessas atitudes saudáveis é evitar condições que diminuam as reservas do cérebro, como é o caso do tabagismo, álcool em excesso e o uso de outras drogas neurotóxicas. Para quem tem problemas de saúde como hipertensão arterial e diabetes, o tratamento rigoroso dessas condições é de extrema importância para proteger o cérebro das principais causas de “esclerose”, que são a doença de Alzheimer e demência vascular. Esta última é resultante de lesões causadas por vasos cerebrais doentes.

Person Walking Between Green Forest Trees

Temos inúmeras evidências do quanto a natureza é benéfica para o cérebro e nosso equilíbrio psíquico. Indivíduos que passeiam por áreas arborizadas têm menor produção de cortisol, o hormônio do estresse, do que aqueles que fazem o mesmo numa rua comercial agitada.  Uma pesquisa recente aponta que esse benefício já acontece com 20 minutos de uma vivência em ambiente arborizado, independente de atividade física.

Alguns países como a Finlândia, Inglaterra, Japão e Coréia do Sul já entenderam bem o recado e têm programas de “banhos de floresta” como forma de promoção da saúde. São muitos os benefícios já demonstrados com essas “pílulas de natureza”. Além da promoção do equilíbrio psíquico, temos ganhos na atenção, memória, linguagem e até na capacidade criativa. Também temos menores índices de doença cardiovascular, obesidade, diabetes, hospitalização por crises de asma e, finalmente, menor mortalidade.

A conclusão lógica é que isso deve fazer parte da prescrição médica, mas um estudo publicado pela prestigiada revista Scientific Reports mostra que pacientes com ansiedade e depressão colhem os frutos dessa imersão na natureza somente se o fazem de forma voluntária. A prescrição médica de contato com o verde até provocava piora dos sintomas de ansiedade.

Esse estudo envolveu mais de 18 mil voluntários de 18 diferentes países. Os pesquisadores ficaram surpresos ao identificar que os pacientes com depressão tinham tanto contato com a natureza que aqueles sem um diagnóstico psiquiátrico, e que os pacientes com transtornos de ansiedade tinham até mais contato.

O estudo joga luz na sensibilidade que profissionais de saúde e pessoas próximas de pacientes com ansiedade ou depressão devem ter ao convencê-los em adotar um hábito saudável. Conseguir ser encorajador estimulando a motivação intrínseca de cada um é uma arte.    

E para não ficar nenhuma dúvida de que o médico deve estimular essa motivação intrínseca, uma metanálise, envolvendo 50 pesquisas, acaba de ser publicada mostrando que aqueles que sofrem de transtornos de ansiedade e humor podem se beneficiar muito de atividades ao ar livre, especialmente atividade física e jardinagem.  

Grayscale Photo of Man Wearing Coat Holding Cane

Um estudo clínico fase 2 envolvendo 34 pacientes mostrou que a medicação levetiracetam, em doses mais baixas que as usadas para epilepsia, pode promover ganhos cognitivos em portadores da Doença de Alzheimer.  Os efeitos positivos, especialmente na memória espacial e funções executivas, foram significativos entre aqueles que apresentavam atividade epiléptica demonstrada pelas avalições neurofisiológicas. O estudo foi recém-publicado pelo periódico JAMA Neurology.

Atividade epiléptica pode ser acompanhada de sintomas, como ausências e convulsões, ou ser completamente assintomática. Entre os pacientes com Doença de Alzheimer, é estimado que 10-22% apresentam crises epilépticas sintomáticas e 22-54% apresentam atividade epilética assintomática.

Os mesmos autores do estudo já haviam demonstrado que os pacientes com Alzheimer que apresentam essa atividade epiléptica silenciosa apresentam um declínio cognitivo mais rápido. Em um modelo animal da doença, o uso do antiepilético provoca melhora do estado cognitivo. Dos pacientes estudados nesta última pesquisa, nenhum deles tinha história de crises epiléticas sintomáticas, mas 40% apresentavam atividade epilética subclínica. Esses últimos foram os que tiveram melhor resposta à droga antiepiléptica.

Os pesquisadores consideram que essa apresentação da Doença de Alzheimer com atividade epiléptica é bastante comum, chegando a 60% dos casos. A busca por atividade epiléptica pelos médicos entre esses pacientes não é prática comum e a pesquisa aponta a importância dessa investigação. A fase 3 da pesquisa deve agora seguir em frente com o recrutamento de um número maior de pacientes.

Wavelength

Já é bem conhecido que entre indivíduos saudáveis os batimentos cardíacos flutuam de acordo com mudanças de atividade do sistema nervoso autônomo, simpático e parassimpático. O pensamento tem grande influência sobre esse sistema. Fazer atividade física, por exemplo, provoca aumento na frequência cardíaca, mas o simples pensamento no exercício físico também é capaz de aumentar o ritmo do coração. Essa conexão mente e corpo faz com que os batimentos cardíacos sejam mais lentos durante a meditação e mais rápidos em situações de suspense e surpresa.

As flutuações da atividade autonômica são sincronizadas entre pessoas que experimentam a mesma atividade cognitiva. Isso já foi demonstrado em pessoas que estão assistindo ao mesmo filme ou ouvindo a mesma música. Pesquisadores franceses agora testaram esse fenômeno de sincronização ao ouvir um audiobook de Julio Verne – Vinte Mil Léguas Submarinas. E de novo eles mostraram que os batimentos cardíacos dos voluntários jovens e saudáveis eram síncronos, só que desta vez enquanto ouviam a narrativa de Julio Verne. Os resultados são valiosos, pois a maioria dos estudos sobre o tema foram conduzidos com os participantes num contexto de plateia. No presente estudo não houve interação entre os voluntários.

Demostraram também, através de dois outros experimentos, que isso só acontece se os voluntários estão realmente prestando atenção ao conteúdo e que isso é independente da emoção, já que a mesma sincronia acontecia com vídeos instrutivos que não evocava qualquer emoção. E foram mais além. Testaram indivíduos em coma e estado vegetativo persistente que mostraram baixíssima sincronização dos batimentos cardíacos ao serem expostos a um audiobook. Quando avaliados após seis meses, alguns deles que mostraram algum grau de sincronização apresentaram também recuperação discreta do estado de consciência. Futuros estudos com um maior número de pacientes e associados à monitorização de aspectos neurofisiológicos devem ser realizados para definir se a sincronização dos batimentos cardíacos com outros indivíduos é uma medida válida como fator preditivo na recuperação da consciência.

Black Ring Bell Alarm Clock

O número ideal de horas de sono é aquele que faz com que a pessoa no outro dia sinta que dormiu o suficiente. Um percentual pequeno de pessoas sente-se bem com menos de 7 horas, e estes são chamados de dormidores curtos. Há também os dormidores longos, aqueles que precisam de mais de 8 horas de sono e que também representam uma minoria. Porém, a maior parte da população mundial, incluindo os brasileiros, dorme entre 7 e 8 horas por noite.

Temos evidências de que as pessoas que dormem as 7 horas, mas acordam mais tarde, têm maior risco de desenvolver um quadro de depressão. Um estudo publicado recentemente pelo periódico JAMA Psychiatry mostrou que basta dormir 1 hora mais cedo que esse risco é reduzido em 23%. Se dormir 2 horas mais cedo essa tendência pode ser reduzida em quase 40%.

A pesquisa envolveu 840.000 voluntários e foi a evidência mais robusta até o momento de que a tendência em dormir tarde e acordar mais tarde influencia o risco de depressão. Uma das grandes virtudes do estudo, além do número elevado de pessoas estudadas, foi a análise do perfil genético dos voluntários para a tendência em dormir cedo ou tarde. É estimado que esse perfil explique de 12 a 42% a preferência em ir dormir cedo ou tarde. Na população estudada, 9% consideravam que tinham a tendência em ir dormir tarde, um terço em dormir cedo e o restante em um patamar intermediário. Na média, eles iam para a cama às 23h e acordavam às 6h.  

Aqueles que dormiam tarde ou o grupo intermediário eram contemplados com menor rico de depressão ao ir dormir mais cedo. O estudo não pode dizer se os que já dormiam e acordavam cedo teriam o mesmo benefício. Mas é fato que na população estudada, aqueles com perfil genético de ir cedo para a cama tinham menor chance de apresentar depressão.     

E como explicar esse efeito? Alguns estudos apontam que uma maior exposição à luz durante o dia (tem que acordar cedo!) está associada a padrões hormonais que influenciam o humor. Outra explicação é o impacto psicológico de estar desalinhado da maioria das pessoas que dorme cedo e acorda cedo.  

Person Holding String Lights Photo

Os neurônios-espelho foram descobertos meio sem querer por pesquisadores italianos ainda na década de 1990. Pela primeira vez constatou-se que a simples observação de ações dos outros era capaz de ativar as mesmas regiões do cérebro responsáveis pelo movimento do próprio observador. A percepção visual inicia uma espécie de simulação ou duplicação interna dos atos de outros. As mesmas regiões também são ativadas quando o próprio indivíduo executa a ação.

Sabe aquela situação em que o carro está parado num cruzamento, faz que vai, mas não vai, e o carro de trás já arrancou cheio de vontade e CRASH? Por outro lado, é mais fácil dirigir na estrada atrás de outro carro. Assistir a um jogo de tênis pode ser visto como um treinamento para quem pratica o esporte. São os comandos automáticos dos neurônios-espelho. Também são esses neurônios que explicam o que faz o bocejo ser tão contagiante.

Fazemos mentalmente tudo o que assistimos o outro fazer e o que a neurociência tem-nos mostrado é que isso vai muito além de movimentos. Neurônios-espelho foram encontrados nas áreas do córtex pré-motor e parietal inferior, associadas a movimento e percepção, bem como no lobo parietal posterior, no sulco temporal superior e na ínsula, regiões associadas à nossa capacidade de compreender o sentimento de outra pessoa, entender a intenção e usar a linguagem.

O cérebro entende através dos neurônios-espelho até mesmo a intenção de uma ação. Uma série de neurônios é disparada ao olharmos para uma imagem de uma mesa bem arrumada e uma mão pegando uma xícara – com a provável intenção de beber o café. Um diferente grupo de neurônios é disparado quando olhamos para a mesma cena da mão pegando a xícara, mas numa mesa desarrumada – com a provável intenção de lavar a xícara.  Sentir nojo ou ver uma pessoa com olhar repulsivo de nojo faz com que neurônios-espelho das mesmas regiões do cérebro sejam estimulados.

Dessa forma, neurônios-espelho têm papel essencial na percepção de intenções e na experiência da empatia. É o outro entrando em nosso cérebro – empatia origina-se da palavra grega empátheia, que significa “entrar no sentimento”. Não há muita dúvida de que os neurônios-espelho foram cruciais no desenvolvimento de nossas habilidades sociais através de avanços na comunicação e aprendizado. Com eles a informação é espalhada e amplificada colaborando para a promoção da cultura. Alguns cientistas chegam a chamar esses neurônios de DNA da neurociência.

Você deve estar se perguntando se na leitura de um romance os neurônios-espelho também estão a pelo vapor? A resposta é sim e já temos boas evidências de que eles fazem a gente viver na carne, melhor dizendo, no cérebro, a vida dos personagens. Nós compreendemos o personagem porque temos dentro de nós a mesma experiência. O conteúdo de um livro pode ativar circuitos neuronais da mesma forma que estímulos sensoriais, como a visão de uma ação do outro. A literatura coloca em ação partes do cérebro que vão fazer o leitor experimentar, no próprio cérebro, as sensações físicas e emocionais como num filme mais do que 3D; um superfilme que ativa infinitas dimensões. E é claro que quando falamos de cinema, nem é preciso apontar o quanto vivemos a vida de quem está na tela.

Side view of Hispanic female sitting at table with textbooks while preparing for exams with phone while looking jealously at man texting on cellphone in daytime in park

Os smartphones tornaram a multitarefa mais fácil e muitas vezes compulsiva. Você senta para tomar um café com um amigo e sem perceber, no meio da conversa, você dá uma olhada no seu smartphone após um sinal que há alguma nova te esperando.

Phubbing é um termo que une as palavras phone e snubbing do inglês, e essa última significa “esnobando”. Dividir a atenção com o celular enquanto seu amigo lhe conta uma história em um encontro presencial, para muitos, é uma falta de gentileza. Um estudo recém-publicado na revista Behaviour & Information Technology por pesquisadores da Universidade da Georgia, nos EUA, mostram que certas características de personalidade e transtornos psíquicos fazem com que esse hábito seja mais comum. 

As pessoas com transtornos de ansiedade e depressão têm maior tendência a apresentar tal comportamento assim como aquelas com personalidades com forte componente de neuroticismo. É claro que essas mesmas pessoas são mais viciadas no uso de smartphones. Por outro lado, o phubbing é menor entre pessoas com traços de personalidade cooperativa e agradável, que mostram interesse pelo que o outro fala. Essas pessoas julgam o phubbing uma atitude rude, pouco educada e, ironicamente, mesmo assim o fazem. Independente da personalidade, o phubbing é mais frequente quando a conversa se dá com mais de duas pessoas.

Guardar o smartphone numa conversa face a face pode indicar uma manifestação de respeito pelo outro. Mas será que o phubbing veio para ficar? Breves interrupções já foram incorporadas como comportamento normal numa conversa? O tempo dirá.           

White and Yellow Roller Coaster

Portadores de enxaqueca sofrem duas vezes mais de tontura numa montanha-russa virtual, e de forma mais intensa e prolongada.  Uma série de regiões do cérebro são ativadas de forma mais robusta entre aqueles que sofrem de enxaqueca, incluindo córtex occipital, cerebelo e núcleos da ponte no tronco cerebral. Um aumento de atividade nessa última área pode estar relacionado a uma transmissão anormal de estímulos sensoriais visuais e auditivos. O estudo foi publicado recentemente pela revista Neurology da Academia Americana de Neurologia.

A relação entre tontura e enxaqueca vai muito além de provocações ao sistema do labirinto provocadas por uns minutos na montanha-russa. Estima-se que 50% das pessoas têm crises de vertigem durante as crises de dor ou mesmo fora delas. A enxaqueca é considerada a principal causa de vertigem episódica em adultos e crianças e a essa condição clínica dá-se o nome de migrânea vestibular. O quadro de vertigem geralmente dura por horas a menos de três dias, e a raiz do problema, a princípio, se encontra em núcleos que modulam diversos estímulos sensoriais. Esses mesmos núcleos também estão envolvidos na resposta de ansiedade, e por isso, não é raro uma mesma pessoa apresentar enxaqueca, ansiedade e crises de vertigem. 

Man in White Dress Shirt Reading Book

Praticar, praticar, praticar. Esse é o mantra de muitos estudantes e discuto frequentemente no consultório essa questão com pessoas que querem incrementar o desempenho cerebral. Sempre argumento que pausas são importantes para a solidificação da memória e bons exemplos são um boa noite de sono e uma pausa para atividade física, especialmente entre um turno e outro.  Além de “esfriar o motor do cérebro”, o exercício físico libera uma série de substâncias no cérebro que facilita o aprendizado.

Outro exemplo interessante de pausas é a famosa técnica “Pomodoro”. Pomodoro era um timer em formato de tomate que o italiano Francisco Cirillo usava para avisá-lo, a cada 25 minutos, que estava na hora de um descanso de cinco minutos. A história rendeu a publicação do livro The Pomodore Technique prometendo melhorar o desempenho no trabalho e nos estudos.

O periódico Current Biology publicou em 2019 uma pesquisa mostrando que pausas ainda mais frequentes podem fazer com que o aprendizado seja mais eficiente. Os voluntários aprendiam mais quando praticavam por 10 segundos e então descansavam por outros 10 segundos. Isto era feito por 35 vezes e na 11ª repetição eles alcançavam uma eficiência máxima que era mantida nas repetições posteriores. O mais interessante é que a atividade cerebral, demonstrada pelo método de magnetoencefalografia, era maior nos períodos de pausa do que durante a prática, refletindo atividade cerebral de consolidação e solidificação da memória.

A pesquisa tinha a intenção de encontrar uma tática que permitisse a reabilitação cognitiva em pessoas que tenham sofrido lesões cerebrais, mas os resultados provavelmente também são válidos para o aprendizado entre indivíduos com cérebro intactos.

Nessa última semana, pesquisadores do Instituto Max Planck, na Alemanha, publicaram na mesma revista os resultados de um estudo que nos faz entender melhor como as pausas podem potencializar o aprendizado. Os resultados mostraram que a retenção do conteúdo é maior quando o processo de aprendizado se dá entremeado por pausas. A isso se dá o nome de “efeito espaçamento”.

Camundongos tinham que encontrar um pedaço de chocolate escondido em um labirinto em três diferentes oportunidades e o desenho do estudo definia diferentes pausas entre as três chances. No senso comum, pode-se imaginar que quanto mais próximas as tentativas, mais facilmente os animais se lembrariam daquilo que aprenderam. Os pesquisadores demonstraram isso no curtíssimo prazo, mas passadas algumas horas, o resgate da memória era maior entre os animais que tiveram pausas mais longas entre as oportunidades de achar o chocolate. Pausas maiores fizeram com que as mesmas conexões neuronais utilizadas em tentativas anteriores fossem ativadas, reforçando o aprendizado a cada “round”. O conteúdo aprendido é armazenado e pode ser recuperado reativando o mesmo grupo de neurônios e suas conexões.     

O “efeito espaçamento” foi descrito há mais de um século em diversos mamíferos e o estudo nos mostra de forma bastante elegante como ele é capaz de aumentar o potencial do aprendizado. Com pausas mais longas, a tarefa fica mais demorada, mas o conteúdo aprendido fica consolidado por mais tempo.   

Person Pouring Tea on Cup

Uma pesquisa encomendada pela Associação Brasileira das Indústrias do Café (ABIC) revelou que 94% dos indivíduos maiores de 15 anos bebem café e 95% desses o consomem diariamente. Entre aqueles que não tomam café, a principal razão apontada é a de que ele pode fazer mal à saúde. O estudo também revelou que 13% daqueles que bebem café pretendem reduzir seu consumo, e a razão principal é a preocupação de que o café possa fazer mal à saúde. Por isso, vale a pena colocar algumas cartas na mesa.

Uma revisão publicada pelo British Medical Journal reforça aquilo que já tínhamos boas evidências: 3 a 4 doses de café por dia fazem bem à nossa saúde. Pesquisadores do Reino Unido reuniram os resultados de mais de 200 estudos sobre os efeitos do café sobre nossa saúde e concluíram que podemos tomar café, com moderação, sem medo. Os resultados mostraram que o café promove maior longevidade e menor incidência de inúmeras doenças que elenco a seguir:

– doenças cardiovasculares;

– alguns tipos de câncer, como o de próstata, endométrio, fígado e pele;

– diabetes, cálculos biliares e gota;

– depressão, Doenças de Alzheimer e Parkinson.

Mas como o café pode ajudar a prevenir doenças neuropsiquiátricas? A grande responsável por esse efeito é a cafeína mesmo. A cafeína se liga a receptores do cérebro chamados de adenosina que promovem uma inibição da atividade cerebral. A cafeína tem uma ação inibitória nesses receptores fazendo uma inibição de um sistema que é inibitório. Por isso o efeito final é estimulante.  Quando reduzimos o efeito do freio de mão, o carro anda mais. Esta é a cafeína.

Modelos animais da Doença de Parkinson apontam que a inibição do receptor adenosina pela cafeína reduz a perda de células dos sistemas comumente envolvidos na doença.  No caso do da Doença de Alzheimer, estudos demonstram que o consumo de café ao longo da vida pode reduzir o risco da doença. Pesquisas em animais revelam que a cafeína tem o poder de reduzir as alterações patológicas encontradas no cérebro de quem sofre dessa doença. Entretanto, o consumo exagerado da bebida pode trazer efeitos danosos ao cérebro. Uma pesquisa publicada este mês pelo periódico Nutritional Neuroscience, envolvendo quase 18 mil voluntários, nos mostra que o consumo de mais de seis doses por dia está associado a uma redução do volume cerebral e ao aumento do risco de demência.Sem culpa, mas com moderação.

E vale lembrar que a cafeína deve ser evitada entre pessoas em situações de risco de fratura óssea e na gravidez.

Unrecognizable tired female in casual clothes covering face with hands while sitting on soft surface near brick wall in light apartment

O cérebro de uma pessoa com enxaqueca excita-se com mais intensidade do que o normal a diferentes estímulos externos (ex: luminosidade) ou internos (ex: privação de sono). São inúmeros os estímulos capazes de desencadear crises de enxaqueca. Porém, a resposta a cada um deles é muito individual e por isso listas de proibições rígidas podem ser mais penosas do que benéficas ao paciente.

Habitualmente, um estímulo deve ser reconhecido como fator desencadeante de crises num determinado indivíduo quando provoca crises em mais de 50% das vezes dentro de 24h após a exposição ao estímulo. É recomendável que cada indivíduo identique seus fatores desencadeantes e tente evitá-los. Entretanto, algumas atitudes podem ser recomendadas a qualquer pessoa que tenha crises de enxaqueca:

› Reduza o estresse no dia a dia;

Tente dormir sempre o mesmo número de horas por dia: evite tanto a privação como o exagero de sono;

› Faça suas refeições em horários regulares: evite o jejum prolongado;

› Evite alimentos identificados como desencadeantes de crises;
› Evite o consumo de álcool, especialmente vodka e vinho tinto;

› Evite o excesso de cafeína. Porém, não suspenda seu consumo de cafeína de um dia para o outro;

› Evite a exposição a luzes, ruídos e cheiros fortes;

› Faça exercícios físicos moderados pelo menos 5 vezes por semana. Evite atividade física exagerada e em horários muito quentes;

› Não deixe de beber sempre muita água: a desidratação é um fator desencadeante de crises.

Quanto à dieta, é bom conhecer as substâncias que são frequentemente associadas a crises de enxaqueca, e em quais alimentos você as encontra. Alguns estudos demonstram que entre 7 a 30% dos pacientes reconhecem algum alimento como fator desencadeante de crises, sendo os mais comuns: chocolate, queijos, frutas cítricas e bebidas alcoólicas.

Uma boa parte das substâncias envolvidas pertence à família das aminas biogênicas, produtos naturais do metabolismo de plantas, animais e microorganismos, como é o caso do processo de fermentação de alguns alimentos (ex: vinho, queijo). Os mecanismos de ação dessas substâncias incluem a provocação dos vasos cerebrais (vasoconstrição ou vasodilatação), estímulo de liberação de neurotransmissores assim como estímulo direto aos centros e vias nervosas envolvidas no processo da enxaqueca. Há também evidências de que fatores alérgicos possam estar associados, tema que ainda é bastante controverso.

Uma revisão de 180 artigos da literatura sobre dieta e enxaqueca publicada pelo periódico Headache nos traz uma boa discussão sobre o assunto. Além de recomendar o reconhecimento de alimentos que provocam crises em uma determinada pessoa, a revisão chama a atenção para três tipos de dieta que são potencialmente benéficas para o controle da enxaqueca: 1) com baixo teor de carboidratos; 2) com baixo teor de gorduras; 3) rica em ômega-3 (e.g., peixes, castanhas) e pobre em ômega-6 (e.g., óleos vegetais, como o óleo de soja). Esses dois últimos tipos de dieta acabam de ser confirmados como benéficos para redução da frequência e intensidade das crises em artigo publicado pelo respeitado periódico British Medical Journal. Estudos em roedores já haviam demonstrado que gorduras do tipo ômega-3 têm efeito protetor contra dor nas terminações do nervo trigêmeo enquanto as gorduras do tipo ômega-6 têm efeito contrário.    

Não custa lembrar também que alimentos industrializados costumam ser um mau negócio para quem sofre de enxaqueca.

Man in Blue Crew Neck Shirt

Por Dr. Ricardo Teixeira*

Um dos principais marcadores da Doença de Alzheimer é o acúmulo no cérebro de uma substância proteica chamada de beta-amiloide, substância também encontrada no cérebro de idosos saudáveis, porém em pequenas quantidades. Esse acúmulo excessivo de proteínas no cérebro, que é geneticamente determinado, faz com que aos poucos ele vá ficando ineficiente. Os medicamentos atualmente aprovados para o tratamento da doença não mudam a história natural da doença, apenas melhoram os sintomas. O grande sonho é encontrar uma estratégia eficiente que reduza o acúmulo dessas proteínas no cérebro. Entretanto uma série enorme de estudos nos mostram que a simples redução desses depósitos proteicos não garante um impacto clínico positivo.

Os anticorpos monoclonais, medicações amplamente usadas em inúmeras condições clínicas, têm sido testados há muitos anos para o tratamento da Doença de Alzheimer, mas sem resultados muito animadores. Um desses anticorpos, o Aducanumab, foi aprovado pelo órgão regulador americano de medicamentos (FDA) este mês, mas com muitas críticas.

O Aducanumab se mostrou eficiente na redução do acúmulo das placas de beta-amiloide no cérebro, mas as evidências clínicas não foram muito convincentes, nem mesmo para o comitê consultor independente do FDA. Três membros desse comitê pediram afastamento após a aprovação como protesto. A desconfiança é a mesma com inúmeros especialistas ao redor do mundo. A aprovação foi feita, mas com a condição de que um estudo com resultados mais robustos seja realizado o mais breve possível e, se os resultados não forem clinicamente positivos, a liberação pode ser cancelada. A agência é criticada por não ter retirado de circulação algumas drogas para o tratamento do câncer que os respectivos fabricantes ficaram de conduzir um estudo complementar e não o fizeram. E com as medicações no mercado, quem se habilitaria a receber placebo em testes clínicos?

Os resultados clínicos foram muito discretos e apenas com as doses altas. Muito ainda será discutido sobre o custo-benefício da medicação, já que em altas doses ela teve associação com inchaço e hemorragia cerebral em 40% dos pacientes testados. Dos dois estudos realizados, um deles não mostrou eficácia clínica nem mesmo em doses altas.

A aprovação foi feita dentro de um programa do FDA chamado de aprovação acelerada que libera precocemente terapias potencialmente valiosas a pacientes com doenças graves mesmo sem a demonstração inequívoca do real benefício. 

É claro que o lobby da indústria farmacêutica move montanhas. As ações da fabricante subiram 38% no dia da aprovação e o custo do tratamento com Aducanumab é de 56 mil dólares por ano. Efeitos clínicos discretos já foram demonstrados com suplemento de curcumina por 18 meses, inclusive acompanhados de redução nos depósitos de amiloide. Que tal então, por enquanto, usar mais curry na sua cozinha?

5 Amazing Facts You Might Not Know About the Tsimane People - Blog

Eles são menos sedentários, têm uma dieta rica em fibras e gorduras saudáveis e têm o menor grau de aterosclerose nas artérias coronárias já descrito na literatura médica. Estamos falando dos índios da tribo Tsimane, habitantes da Amazônia Boliviana. E agora tivemos mais uma demonstração de que seus órgãos envelhecem de forma mais saudável. O cérebro deles, entre a meia-idade e a velhice, têm uma redução de volume 70% menor do que o de europeus e americanos.

Vale lembrar que um cérebro que encolhe menos ao longo das décadas tem menos chance de ser portador de uma patologia que pode levar a um quadro demencial, como a Doença de Alzheimer. Os resultados desse estudo foram publicados no periódico The Journal of Gerontology após análise do volume cerebral de 746 índios Tsimane com idades de 40 a 94 anos e comparados a moradores do mundo industrializado. A metodologia do estudo não permite criarmos uma relação causa e efeito entre o estilo de vida dos Tsimanes e a menor perda de volume cerebral, mas essa é uma conclusão para lá de tentadora. 

Brown Liquid Pouring on Black and White Ceramic Mug Selective Color Photography

Por Dr. Ricardo Teixeira*

O uso da cafeína após a privação de sono nos deixa mais alerta, mas não resolve tudo. Pesquisadores da Universidade de Michigan, nos EUA, acabam de publicar um estudo demonstrando que uma noite maldormida deixa o cérebro menos eficiente em tarefas que demandam atenção e outras funções executivas. Mostraram também que uma dose de cafeína tem o poder de melhorar o desempenho cognitivo apenas em tarefas que exigem vigília e atenção, mas não naquelas que exigem processamento executivo mais complexo. Os resultados são relevantes para profissionais que confiam na cafeína após a privação de sono. A chance de erro é maior.

Por outro lado, a cafeína pode amenizar a tendência a comportamentos de risco associados à privação de sono, independente do estado de alerta do indivíduo. A privação de sono deprime a função dos sistemas envolvidos no julgamento e percepção de risco e a cafeína minimiza esses efeitos negativos.

Uma pesquisa demonstrou, através de Ressonância Magnética Funcional e testes psicológicos, que uma noite sem dormir muda a forma como o cérebro processa a chance de ganhar ou perder. Uma noite com privação do sono provoca aumento de atividade cerebral em regiões que processam expectativas otimistas e reduz a atividade de outras que processam expectativas pessimistas. Além disso, os testes psicológicos evidenciaram que os voluntários se mostraram mais sensíveis a recompensas e com menor sensibilidade a consequências negativas.

As repercussões desse tipo de mudança de comportamento do cérebro não devem ser tão inocentes. Já sabemos que problemas de sono só perdem para o álcool como causa de desastres no trânsito, especialmente pela redução da atenção e dos reflexos. Imaginem se ainda adicionamos uma pitada de comportamento valente e de risco.

Crop tired sportswoman drinking water during training

Um estudo recém-publicado pelo periódico Frontiers in Nutrition aponta que uma bebida cor de rosa permite maior resistência e velocidade durante uma corrida. E esse efeito aconteceu apenas com o contato do liquido na cavidade bucal, sem ingestão.  

É a primeira vez que se demonstra o efeito da cor de uma bebida no desempenho esportivo. O aumento da velocidade e da distância percorrida foi de 4.4% e houve uma sensação de maior bem-estar no treino que fez com que o exercício parecesse mais fácil. A bebida cor-de-rosa foi comparada a outra transparente, ambas sem qualquer teor calórico, com o mesmo sabor adocicado (sucralose). A cor rosa foi escolhida por criar a expectativa de que a bebida é mais doce, mais calórica, o que já foi demonstrado em diversas culturas. Os próprios voluntários do estudo acharam que a bebida rosa era mais doce.

Pesquisas anteriores já tinham revelado que o bochecho de bebidas com baixo teor calórico durante uma atividade física melhora o desempenho por reduzir a percepção da intensidade do exercício, o que também foi demonstrado no presente estudo. Só que desta vez sem calorias e com o visual rosa, ambos atributos funcionando como placebo. O contato de bebidas com algum teor calórico com a mucosa oral é capaz de estimular o sistema de recompensa cerebral, além de criar a expectativa da ingestão calórica que inibe os circuitos centrais associados à fadiga. E o efeito é ainda maior se o líquido é cor-de-rosa, mesmo se não tiver calorias!   

Nesta última premiação do Oscar, estava torcendo para que o filme “O homem que vendeu sua pele” levasse a estatueta de melhor filme estrangeiro, mas o premiado foi outro. Eu consegui assistir apenas dez minutos do filme vitorioso, pois achei realmente muito chato.

O homem que vendeu sua pele conta a história de um refugiado sírio que faz um contrato com um dos artistas contemporâneos mais cultuados do mundo, aceitando ter suas costas tatuadas e tendo que cumprir uma agenda de exposição em diversos museus mundo afora. Apesar de tratar de uma temática sensível, o seríssimo problema dos refugiados e direitos humanos, o filme foi leve e até com final feliz. Nem por isso deixei de passar uns três dias refletindo e refletindo. Depois de assistir ao filme, chegou até mim um artigo de um crítico de cinema falando que “o filme não está à altura das complexas questões que levanta”.

A leveza dos filmes é frequentemente avaliada por críticos de cinema de forma negativa como filmes sem mérito cultural. Não sou crítico de cinema e não tenho por que me aventurar a apontar que eles estão certos ou errados. Mas o fato é que muita gente aprecia os filmes que nos deixam “para cima” que traz uma “good vibe”. Pesquisadores do respeitado Instituto Max Planck na Alemanha recentemente demonstraram o que os filmes que te deixam pra cima têm em comum.

Cerca de 450 voluntários opinaram e os resultados mostraram que além de pitadas de humor e final feliz, o que faz um filme ser “para cima” inclui também personagens fora dos padrões em busca de um grande amor, que precisam lutar contra circunstâncias adversas e que encontram seu papel na comunidade. Além disso, o filme pode ter momentos de drama que provocam respostas emocionais intensas. E muito importante: todos esses atributos são frequentemente banhados por uma aura de fantasia. Muitos dos que participaram do estudo concordam que os filmes que te deixam para cima podem ser sentimentais, não necessariamente artificiais e são tecnicamente bem feitos.   

O ator que faz o sírio que vendeu sua pele ganhou o prêmio de melhor ator no Festival de Veneza de 2020, mas o filme tem romance, final feliz… Mas prêmio de melhor filme aí já é demais com uma mistura dessas.

Apoio

Acompanhe o quadro CUCA LEGAL com o Dr. Ricardo Teixeira na Rádio CBN Brasília às quartas-feiras no horário de 11:35h

Também às segundas no Correio Braziliense

ConsCiência no Dia a Dia – Vencedor Prêmio TopBlog 2009

VISITE O LABJOR

Siga no TWITTER

Twitter

TWITTER

    follow me on Twitter

    Blog Stats

    • 2.900.390 hits