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Person in Green Shirt Standing

Uma pesquisa recém-publicada no Cephalalgia, periódico da Sociedade Internacional de Cefaleia, aponta que a exposição à luz verde é capaz de reduzir a intensidade e frequência de crises de pessoas que sofrem de enxaqueca.

Pesquisadores da Universidade do Arizona nos EUA mostraram nesse estudo o impacto clínico positivo da exposição à luz verde sobre as crises de enxaqueca. Os voluntários foram expostos à luz branca por um período de uma a duas horas por dia durante dez semanas e depois passavam pelo mesmo período de exposição à luz verde. Os pacientes expostos à luz verde apresentaram uma redução de 60% na frequência de crises, melhora na intensidade das crises, de intensidade 8 para 3.2 (escala de 1 a 10), e nos questionários de qualidade de vida, incluindo maior facilidade para dormir, se exercitar e também trabalhar. Como esperado, não houve efeitos colaterais.

Os resultados prometem uma ferramenta barata e acessível para o controle da terceira condição clínica mais prevalente no mundo afetando um bilhão de pessoas.

Um estudo anterior publicado no Brain em 2016 havia mostrado que pacientes com enxaqueca tiveram uma redução de fotofobia e intensidade das crises ao serem expostos à luz verde. A fotofobia ocorre em 80% das crises de enxaqueca e traz limitações no dia a dia dos pacientes.

Assim como o estudo anterior, os voluntários foram expostos a uma estreita banda de luz verde a uma determinada intensidade. Não é qualquer luz verde, não é uma lâmpada pintada de verde, e os modelos originais tinham preços inacessíveis ao consumidor. Hoje você encontra “lâmpadas da enxaqueca” na Amazon e alguns sites que custam de 20 a 289 dólares e prometem ser realmente de banda estreita semelhante aos estudos. Encontra também uma enorme variedade de óculos com lente verde que precisam ser testados antes de serem indicados pelos médicos.  

O estudo de 2016 foi conduzido por pesquisadores de Harvard e explica bem a ciência por trás do efeito protetor da luz verde sobre um cérebro que sofre de enxaqueca. Eles mediram a magnitude dos sinais elétricos gerados pela retina, tálamo e córtex cerebral, evidenciando que a luz verde foi a que gerava menores sinais. Vale lembrar que o cérebro de um enxaquecoso é hiperexcitável. Vive-se melhor com menores estimulações elétricas. Menos luz, menos barulho, menos cheiros fortes…    

Coronavirus

No início da pandemia os holofotes eram todos voltados ao sistema respiratório e circulatório e aos poucos os transtornos provocados pelo vírus sobre o sistema nervoso começaram a ser identificados. Os problemas incluem desde a redução do olfato, dificuldades de memória e dores de cabeça até derrames cerebrais, encefalite e estados de confusão mental e psicose. Isso sem falar dos efeitos das mudanças psicossociais do fenômeno pandemia, como depressão, ansiedade e estresse pós-traumático.

É difícil mensurar atualmente a frequência com que o sistema nervoso é afetado durante e após a infecção pelo SARS-CoV-2, já que a maior parte dos estudos publicados até o momento incluem apenas pacientes que foram internados. Sabemos que há uma série de pacientes com manifestações neurológicas que não apresentam qualquer outra queixa. Aqui temos o cérebro como alvo principal da doença.

Em abril tivemos a primeira evidência de inchaço e inflamação do cérebro de um paciente afetado pela doença. Tivemos também a demonstração de lesões na bainha de mielina, bem semelhantes às que são encontradas em doenças neurodegenerativas como esclerose múltipla. Sabemos que o SARS-CoV-2 pode sim invadir o cérebro, mas será que todas essas manifestações neurológicas são resultado da infeção direta ou o resultado de uma resposta imunológica de um corpo atacando o próprio cérebro? Essa resposta é crucial para direcionar o tratamento. Antivirais se for o caso de infecção direta e, se o maior problema for a resposta imunológica exagerada, então a indicação de terapias que modulam essa resposta seriam as mais indicadas.

As séries neuropatológicas publicadas até o momento apontam que a identificação do vírus no cérebro não é tão significativa quanto em outros órgãos. Uma explicação é que o cérebro não é rico em receptores ACE-2, a porta de entrada do vírus nas células e isso aponta a favor da resposta imunológica ser a maior causadora das lesões cerebrais. Futuros estudos devem encontrar marcadores biológicos que diferenciem o que é infecção direta e o que é autoimunidade. Saberemos também qual o impacto desse ataque cerebral no médio e longo prazo.  

Woman Wearing Red Dress Holding Turned-on String Lights

Um estudo recém-publicado no periódico Nonprofit and Voluntary Sector Quarterly aponta que as pessoas consideradas mais atraentes são mais generosas e o inverso também é verdadeiro:  pessoas mais generosas são vistas como mais atraentes. A pesquisa compilou os dados de três estudos que avaliaram a influência entre esses dois fatores com voluntários seguidos por várias décadas. Os resultados são válidos tanto para adolescentes como para idosos. E o ser humano já nasce altruísta?  

Dividir com os outros, pelo menos com os membros do próprio grupo social, é uma característica única do ser humano. Um outro estudo publicado pela revista Nature mostrou que nosso lado altruísta não nasce pronto, mas vai se desenvolvendo durante a primeira década de vida. Pesquisadores suíços demonstraram que crianças entre 7 e 8 anos de idade já são capazes de dividir seu alimento de forma igualitária com parceiros do mesmo grupo social (coleguinhas de escola), mesmo quando têm a chance de ficar com a maior parte.

Esse estudo da Nature demonstra que o altruísmo humano já existe entre as crianças e mais uma vez nos revela que a cooperação é mais forte entre indivíduos do mesmo grupo social, também conhecida pela ciência como cooperação paroquial. O altruísmo “extra-paroquial” é uma das mais marcantes habilidades do ser humano e que não é encontrada em outras espécies: a capacidade de criar e manter laços de cooperação com indivíduos que não são de seu mesmo núcleo familiar.

Já sabemos há tempos que o altruísmo tem inúmeros efeitos positivos em nossas vidas como aumento de autoconfiança, felicidade, saúde de uma forma geral e sobrevida. E agora sabemos que nos deixa mais atraentes.

Woman in Gray Tank Top

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Uma pesquisa recém-publicada pelo periódico Sleep da Academia Americana do Sono aponta que a privação de sono faz com que as pessoas percebam que passaram o dia com mais raiva.

 

Primeiro os pesquisadores analisaram por um mês os diários de estudantes universitários que continham seus padrões de sono, fatores estressantes e sentimento de raiva. A análise desses diários mostrou que os estudantes sentiam mais raiva nos dias em que tinham dormido menos na noite anterior.

 

O estudo incluiu também uma experiência com voluntários da população geral que eram submetidos à exposição de um ruído irritante. Uma parte dos voluntários era instruída a dormir nas duas noites anteriores à exposição apenas cinco horas e foram esses os que menos se adaptaram ao ruído e reportaram mais o sentimento de raiva. Resultados semelhantes foram demonstrados em uma pesquisa que investigou esse mesmo efeito da privação do sono em um jogo competitivo.

 

Privação de sono tem mesmo a capacidade de mexer com muitas dimensões da nossa mente e do nosso corpo. Ficamos mais raivosos, comemos mais, compramos mais, mais pressão alta, aterosclerose e doença cardiovascular, mais comportamentos de risco, mais enxaqueca, e , claro, piora do desempenho cognitivo.

Woman Working At Home With Her Laptop

 

Antes da pandemia já vivíamos uma pandemia de solidão, especialmente na Europa e América do Norte. Em alguns países desses continentes, cerca de metade dos adultos vivem sozinhos.  Latino-americanos, africanos e asiáticos têm uma tendência maior em viver em família.

Antes da pandemia, havia a estimativa que dois terços dos americanos se sentiam solitários. A mesma metodologia utilizada nos estudos pré-pandemia continuou sendo aplicada nesses últimos meses de quarentena e a expectativa era que essa percepção de solidão fosse crescendo. Mas as pesquisas recentes não têm mostrado isso.

Quando se coloca a afirmação “Eu recebo o suporte emocional e social que eu preciso”, não houve piora nas respostas do inicio do ano sem quarentena e após a deflagração da pandemia. Houve até um leve incremento da percepção de suporte emocional e social após o início da quarentena entre americanos adultos estudados e isso foi confirmado por um estudo que incluiu adultos de 28 países. Outra pesquisa realizada na Alemanha apontou que houve no primeiro mês da quarentena uma maior percepção de solidão seguida por um declínio desse sentimento. Isso sugere que o súbito isolamento social promoveu uma adaptação rápida às circunstâncias, provavelmente através do incremento de outras formas de conexão com o outro. Sozinhos, porém não solitários.

O distanciamento social tem provocado o reconhecimento da importância de nossas relações sociais, interações que a ciência mostra um inequívoco efeito positivo sobre nossa saúde e longevidade. Além disso, muitos estão se dando a oportunidade de ações voluntárias no apoio aos mais vulneráveis de suas comunidades, gerando um senso importante de pertencimento de um todo. Estudos mostram que após o fatídico ataque terrorista de 11 de setembro, os americanos mostraram-se mais solidários e gentis. A pandemia pode estar trazendo a experiência coletiva de que estamos todos no mesmo barco.

É fato que essa é uma tendência quando se analisa um grupo, mas individualmente há aqueles que sofrem mais como os que vivem sozinhos ou que apresentam uma doença crônica incapacitante. Sofrem mais também as gerações mais novas, homens e residentes em países como uma cultura individualista.

Até o momento não temos evidências que mostrem que o afastamento social tem nos tornado mais solitários. Certamente, as plataformas digitais que permitem interações com as pessoas importantes de nossas vidas têm sido grandes trunfos para enfrentar o COVID 19.

Silhouette Photo of Woman

Por Dr. Ricardo Teixeira

Imagine só que pesquisadores do MIT (Massachusetts Institute of Technology) iniciaram um estudo sobre os efeitos cerebrais do isolamento social há três anos, sem a mínima ideia do que nos esperava no ano de 2020. Os achados inéditos mostram que regiões profundas do cérebro que modulam impulsos básicos de recompensa e motivação estão envolvidas tanto na experiência da fome como da solidão. A conclusão é que tanto comer e se conectar com os outros são experiências fundamentais para nossas vidas.

Os voluntários da pesquisa foram submetidos ao exame de Ressonância Magnética Funcional e durante o exame eram apresentados a imagens de interações sociais próprias ou alimentos preferidos, a depender se estavam sendo testados para isolamento ou fome. A ativação do cérebro foi semelhante em ambos os casos e também similar ao efeito da exposição de imagens da droga mais usada por pacientes em tratamento para drogadição.

O próximo passo é avaliar o quanto o cérebro realmente se satisfaz com as diferentes formas de mídias sociais. Com a pandemia, verbas para essa pesquisa certamente não faltarão.

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* Dr. Ricardo Teixeira é neurologista e Diretor Clínico do Instituto do Cérebro de Brasília

Low Light Photography of Books

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Isolamento social. Mas que experiência desafiadora, hein? A quarentena tem sido muito mais difícil para alguns do que para outros e são inúmeras as razões para essas diferenças. Extrovertidos sofrem mais que os introvertidos, quem mora numa quitinete sofre mais do que aquele que mora numa mansão, e por aí vai. Mas existe uma experiência nessa época que pode facilitar a vida de qualquer um de nós e estamos aqui falando na diversificação de experiências no dia a dia.

 

Uma pesquisa recém-publicada pela revista Nature Neuroscience aponta que pessoas que têm maior diversidade de deslocamento espacial com o passar dos dias, lugares diferentes e mais novidades, sentem-se mais positivas e com maior atividade no circuito que liga duas regiões cerebrais fortemente associadas ao bem estar.  Isso não é diferente entre animais de laboratório. Aqueles que têm um ambiente amplo e cheio de novidades tem um comportamento de maior sociabilidade e resiliência ao estresse. Além disso, esses animais têm maior ativação desse mesmo circuito demonstrado agora em humanos.

 

O estudo foi feito antes da pandemia quando as pessoas podiam se deslocar à vontade. E agora na quarentena? Uma dica preciosa é se deslocar à vontade por vídeo chamadas com as pessoas queridas, bons romances e filmes, apreciação de todas as formas de arte. Criatividade e novidades diárias. Isso certamente provocará efeitos no cérebro que facilitarão sobremaneira a travessia dessa tempestade que estamos vivendo.

Close-up of Hands

 

Alguns enxergam a religiosidade simplesmente como uma forma de controle social, algo maior vigiando o comportamento humano. Outra forma de entendê-la é pensar que a evolução da espécie humana favoreceu a experiência religiosa como um mecanismo que ajuda a manter comunidades unidas e também a promover um melhor autocontrole mental. A princípio, quando uma meta é encarada como sagrada, o indivíduo teria maior tendência em se esforçar para alcançá-la. Mais do que isso, o sagrado abastece a mente humana no desafio de pensar sobre a vida e a morte, e em tempos mais remotos, isso era fundamental para o entendimento dos sonhos e fenômenos da natureza.

Marx, Freud, Weber, entre tantos outros, defenderam a ideia de que a modernidade reduziria a influência das crenças religiosas na sociedade. No Brasil, nos últimos 20 anos, houve um discreto aumento na porcentagem de brasileiros que dizem não ter uma religião: em 1991 essa cifra era de 4.75%, em 2009 passou para 6.7% e pesquisa Datafolha publicada em janeiro de 2020 pelo jornal Folha de S.Paulo aponta que 50% dos brasileiros são católicos, 31%, evangélicos, e 10% não têm religião.

A religiosidade tem seu lugar no cérebro? A neurociência tem demonstrado que a experiência religiosa estimula circuitos cerebrais do neurotransmissor dopamina, os mesmos circuitos que são considerados disfuncionais em transtornos neuropsiquiátricos em que a hiperreligiosidade faz parte do quadro clínico, como é o caso da epilepsia do lobo temporal, esquizofrenia, mania e transtorno obsessivo-compulsivo. Sistemas cerebrais da serotonina também parecem estar implicados, já que drogas que têm influência sobre eles são facilitadoras da experiência religiosa. Entre essas drogas podemos citar o LSD, mescalina, ecstasy, e o chá de Ayahuasca utilizado pelo Santo Daime e União do Vegetal.

Cientistas das universidades americanas de Columbia e Yale demostraram recentemente que o estado de conexão com algo maior, seja pela experiência religiosa ou não, está associada a uma menor atividade da região parietal do cérebro. Ao alcançar esse estado de consciência, a pessoa apresenta um adormecimento de uma região fortemente vinculada à percepção de si mesmo e dos outros.

Quando pensamos na influência da fé na evolução de problemas de saúde, vale a pena refletir sobre o poder do efeito placebo. A origem do termo é o verbo placere do latim que significa AGRADAREI.  A simples expectativa positiva de que um tratamento pode nos fazer bem já é capaz de provocar mudanças fisiológicas em nosso corpo, e esse é o chamado efeito placebo. Pessoas que apresentam boa resposta ao placebo apresentam circuitos cerebrais de dopamina com maiores concentrações desse neurotransmissor. Também há evidências de que as concentrações dos opioides endógenos e de serotonina são influenciadas pela expectativa positiva. Isso tudo pode ter repercussões sobre o sistema imunológico e favorecer a evolução de uma condição de saúde. Se uma pílula de farinha já é capaz de provocar esses efeitos, podemos tentar imaginar o que a prece ou um ritual religioso pode promover. Esse é um modelo que a ciência tem para explicar os efeitos da fé sobre a mente e o corpo. Isso não quer dizer que outros mecanismos ainda intangíveis não possam ser descritos no futuro.

A religiosidade faz bem mesmo à saúde? Já temos um razoável corpo de evidências que indivíduos com uma maior vivência religiosa / espiritual têm maior capacidade de lidar com o estresse emocional, uma melhor saúde mental de forma geral e, em situações de doença, cooperam mais com o tratamento. Além disso, o envolvimento com uma comunidade religiosa está associado a uma maior rede social, e há tempos sabemos que pessoas socialmente integradas têm menos chance de adoecer, e quando doentes, a rede social é uma das principais fontes de apoio. Esse pode ser um dos principais fatores que explicam resultados de maior longevidade entre as pessoas com maior religiosidade. Assume-se também que essas pessoas têm a tendência a apresentar hábitos de vida mais saudáveis.

Entretanto, as crenças religiosas nem sempre estão a favor da saúde do paciente, já que podem em alguns casos dificultar a aderência ao tratamento com ideias do tipo: esse é o desejo de Deus, Deus me abandonou, este é o meu destino, este é o meu castigo, etc. Em situações como essas, é bem razoável que a equipe de saúde esteja minimamente preparada para abordar dimensões religiosas / espirituais do paciente e assim aumentar a aderência e sucesso do tratamento.

O ano é 1971.  O psicólogo Philip G. Zimbardo da Universidade Stanford dividiu aleatoriamente um grupo de estudantes mentalmente sãos entre “guardas” e “prisioneiros”, que deveriam conviver por duas semanas em uma prisão simulada no campus. Zimbardo teve de interromper o estudo prematuramente depois de apenas seis dias, porque os guardas haviam se tornado sádicos, abusando física e psicologicamente dos prisioneiros.

Mas como jovens pacatos puderam se transformar de forma assustadora em tão pouco tempo? Naquela época, Zimbardo ofereceu uma resposta simplista: protegidas pelo anonimato da multidão, as pessoas perdem todos os limites e desprezam normas éticas. Tornam-se animais de um rebanho desenfreado, sem controle ou compaixão.

Pesquisas recentes indicam que, muito embora grupos levem seus integrantes a se comportar de uma forma que eles não fariam no dia a dia, essas ações podem ser tanto positivas quanto negativas. No final de 2001, quando os psicólogos britânicos Stephen D. Reicher e S. Alexander Haslam reproduziram a experiência do prisioneiro para o que viria a ser um reality show exibido pela rede BBC, os guardas agiram de forma um tanto cautelosa.

Em razão dos resultados contraditórios, Haslam e Reicher concluíram que o comportamento do grupo depende das expectativas de seus membros sobre os papéis sociais que eles deveriam desempenhar. Se acreditam que se espera deles uma conduta autoritária, é bem provável que ocorram abusos. Zimbardo, por exemplo, encorajava os guardas a portarem-se de modo ameaçador. A chave para entender como os indivíduos de um grupo irão proceder são suas crenças pré-condicionadas sobre o que devem fazer.
Um indivíduo em um grupo de voluntários arrisca a vida para salvar uma criança, evitando que ela caia nas águas de uma enchente, enquanto outro, em nome de uma causa coletiva “maior”, de bom grado se sacrifica como homem-bomba.

Em geral, o temor das pessoas em relação à mentalidade das massas cria nelas a expectativa de que grupos apresentem aspectos sinistros, apesar de a história mostrar, por exemplo, que mudanças sociais positivas são impossíveis sem movimentos de massa. O surgimento dos direitos humanos, a queda do Muro de Berlim, o ambientalismo – muitos avanços recentes resultaram do engajamento massivo de pessoas que lutaram por um bem comum, colocando seus interesses pessoais em segundo plano para atingi-lo.

Quanto mais a pessoa se envolve com o coletivo, maior a sua identificação com ele  e mais completa a sua aceitação de valores e normas do grupo (personalidade coletiva). Comportamentos agressivos têm mais probabilidade de irromper se a personalidade coletiva assume o controle sobre a percepção e as ações do indivíduo. Desse modo, a pessoa não mais distingue entre o “eu” e o “ele”, mas apenas entre o “nós” e “os outros”.

Essa dinâmica pode surgir de forma esporádica também entre pessoas que levam vidas normais, como o vizinho gentil que todos os sábados se transforma no barulhento torcedor de futebol, xingando em alto e bom som os torcedores do outro time. Para ele, essa atitude é o resultado lógico de sua profunda lealdade ao “nós” de seu amado clube. Se o primeiro a arremessar uma pedra é reconhecível, de forma inequívoca, como um membro do coletivo – por exemplo, por suas roupas ou palavras-de-ordem – sua ação acaba com qualquer dúvida que os demais tivessem sobre o papel que devem desempenhar. Eles rapidamente imitam o comportamento do “personagem exemplar”. Esse fenômeno é conhecido como “efeito manada”, conceito que faz referência ao comportamento de animais que se juntam para se proteger ou fugir de um predador. Aplicado aos seres humanos, refere-se à tendência das pessoas de seguirem um grande influenciador ou mesmo um determinado grupo, sem que a decisão passe, necessariamente, por uma reflexão individual.

Adaptado de texto original de Bernd Simon 2005

Woman Walking On Sidewalk Holding Smartphone

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O smartphone faz com que as pessoas que têm dor de cabeça usem mais medicações e com menor efeito. Essa é a conclusão de um estudo recém-publicado pelo periódico Neurology Clinical Practice da Academia Americana de Neurologia.

A pesquisa envolveu 400 voluntários na Índia com o diagnóstico de cefaleia primária como enxaqueca e cefaleia tensional. Metade dos voluntários faziam uso de smartphones e a outra metade tinha telefones móveis mais simples ou nenhum telefone móvel. Esse último grupo era composto por pessoas mais velhas e de menor nível socioeconômico. Aqueles que tinham smartphones usavam medicações para dor numa média de oito vezes por mês enquanto aqueles sem telefone celular ou que só possuíam aparelhos simples  usavam medicações cinco vezes por mês. Cerca de 90% dos pacientes apresentavam enxaqueca e um achado bem interessante desse estudo foi o fato de que usuários de smartphones apresentavam aura numa frequência duas vezes maior. Aura é um fenômeno elétrico que ocorre em uma parte das pessoas que sofre de enxaqueca e que gera sintomas como alterações visuais e sensitivas acompanhadas da dor de cabeça.

Este é um estudo preliminar e lança muitas perguntas que aguardam respostas que possam explicar esses resultados. Isso teria ligação com a postura do pescoço? Ou o estresse mental e/ou ocular de estar sempre conectado? Privação de sono? Luminosidade da tela? Campo eletromagnético? Respostas deverão vir ao longo dos próximos anos.

Person Holding String Lights Photo

 

 

A maioria das pessoas tem um instinto para sincronizar os movimentos e expressões com o ritmo da música. As conexões diretas entre o sistema auditivo e motor são os pilares desse instinto.

O ritmo de dois batimentos por segundo parece ser a preferência inata da maioria das pessoas. Um estudo avaliou mais de 70 mil músicas pop e mostrou que o pulso mais comum era o de dois por segundo – 120 por minuto. Quando as pessoas são solicitadas a batucar os dedos ou caminhar, esse é o ritmo mais comumente observado.

A sincronia com o ritmo da musica promove o uso de energia de forma mais eficiente, com menos ajustes para a coordenação. A relação entre a música e o movimento no cérebro é íntima. Ao ouvirmos uma música agradável, há um aumento da atividade elétrica de várias regiões do cérebro responsáveis pelos movimentos. Uma pesquisa demonstrou que o consumo de oxigênio é 7% menor quando se pedala sincronizado com a música. Já existem até aplicativos que selecionam as músicas de acordo com a frequência cardíaca. O poder da música na atividade física não é só uma questão de disfarçar o sofrimento do corpo.

Quase ninguém deve discordar do quanto a música é capaz de nos atrair, nos cativar. Falo “quase ninguém” porque existe uma parcela pequena da população, inferior a 5%, que não sente prazer com a música e/ou não consegue identificar suas nuances. Isso pode ser congênito ou mesmo decorrente de uma lesão cerebral adquirida.

Essa atração pela música pode ser ainda maior quando a ouvimos coletivamente. Não é difícil pensar nesse efeito durante um show em que a multidão canta a música famosa do artista ou no estádio futebol ouvindo e cantando o hino do seu time. Claro que existe o fator emocional envolvido nessa liga e frequentemente usamos o termo “energia contagiante” para descrever a experiência.

Mas a música não para de nos surpreender. Recentemente, pesquisadores americanos publicaram os resultados de um estudo na prestigiada revista Scientific Reports mostrando que a música sincroniza nossas ondas cerebrais com as de quem a ouve ao nosso lado, especialmente quando a música é familiar e entre aqueles que têm treinamento musical formal. Que contágio, hein? Eles mostraram ainda que essa sincronização diminuía à medida que a música era repetida, mas o efeito só acontecia no caso de músicas que já eram familiares aos voluntários.

Talvez não demore muito para termos aparelhos simples para medir o quanto uma música gera sincronização de ritmos cerebrais na plateia e que meça também a energia gerada por esse fenômeno. Talvez isso corresponda ao que chamamos hoje de “good vibes”.

E mesmo sem música, temos a tendência inconsciente em sincronizar nossos movimentos com aqueles que estão ao nosso redor. Uma recente pesquisa apontou que essa sincronização é ainda mais robusta quando temos uma boa impressão de uma pessoa, mesmo desconhecida. É uma forma de comunicação não verbal bidirecional: a sincronização com nossos movimentos nos passa uma boa impressão do outro e essa boa impressão leva a uma maior sincronização.

E os neurônios espelho?

Os neurônios-espelho foram descobertos meio sem querer por pesquisadores italianos ainda na década de 1990. Pela primeira vez constatou-se que a simples observação de ações dos outros era capaz de ativar as mesmas regiões do cérebro do próprio observador. A percepção visual inicia uma espécie de simulação ou duplicação interna dos atos de outros. As mesmas regiões também são ativadas quando o próprio indivíduo executa a ação.

Sabe aquela situação em que o carro está parado num cruzamento, faz que vai, mas não vai, e o carro de trás já arrancou cheio de vontade e CRASH? Por outro lado, é mais fácil dirigir na estrada atrás de outro carro. Assistir a um jogo de tênis pode ser visto como um treinamento para quem pratica o esporte. São os comandos automáticos dos neurônios-espelhos. Também são esses neurônios que explicam o que faz o bocejo ser tão contagiante. Videogames violentos podem reforçar, em nível neuronal básico, o prazer em fazer danos.

Fazemos mentalmente tudo o que assistimos o outro fazer e o que a neurociência tem nos mostrado é que isso vai muito além de movimentos. Neurônios-espelho foram encontrados nas áreas do córtex pré-motor e parietal inferior, associadas a movimento e percepção, bem como no lobo parietal posterior, no sulco temporal superior e na ínsula, regiões associadas à nossa capacidade de compreender o sentimento de outra pessoa, entender a intenção e usar a linguagem.

O cérebro entende através dos neurônios-espelho até mesmo a intenção de uma ação. Uma série de neurônios é disparada ao olharmos para uma imagem de uma mesa bem arrumada e uma mão pegando uma xícara – com a provável intenção de beber o café. Um diferente grupo de neurônios é disparado quando olhamos para a mesma cena da mão pegando a xícara, mas numa mesa desarrumada – com a provável intenção de lavar a xícara.  Sentir nojo ou ver uma pessoa com olhar repulsivo de nojo faz com que neurônios-espelho das mesmas regiões do cérebro sejam estimulados.

Dessa forma, neurônios-espelho têm papel essencial na percepção de intenções e na experiência da empatia. É o outro entrando em nosso cérebro – empatia origina-se da palavra grega empátheia, que significa “entrar no sentimento”. Não há muita dúvida que os neurônios-espelho foram cruciais no desenvolvimento de nossas habilidades sociais através de avanços na comunicação e aprendizado. Com eles a informação é espalhada e amplificada colaborando para a promoção da cultura. Alguns cientistas chegam a chamar esses neurônios de DNA da neurociência.

O laboratório do pesquisador brasileiro radicado nos EUA Miguel Nicolelis demonstrou o quanto a sincronização de disparos neuronais entre dois macacos sofre influência da proximidade no espaço entre eles e da hierarquia social. Quanto mais próximo estiver o animal que está desempenhando a ação e quanto mais dominante ele for, maior será essa sincronização. Eles discutem que essa pode ser uma ferramenta preciosa para estimar a eficiência de conexão de grupo de atletas, músicos, dançarinos que desempenham trabalhos que exigem alta coesão social.

Miguel Nicolelis foi o cientista que liderou o feito de um paciente com paralisia comandar uma perna robótica só com o pensamento durante a Copa do Mundo de 2014 no Brasil. Isso se deu graças à sua extraordinária linha de pesquisa iniciada ainda na década de 1990 conhecida por interação cérebro-máquina. Os frutos hoje já têm alcançado a sincronização do cérebro de diferentes indivíduos, animais ou humanos, para desempenhar uma atividade em cooperação. As tarefas ainda são elementares e ninguém duvida que eles irão muito, mas muito mais longe.

 

Person Touching Black Two-bell Alarm Clock

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Contrário à crença comum, pesquisadores australianos da Universidade RIMT demonstraram que os alarmes Beep, Beep são menos eficazes que músicas para que a gente acorde menos grogues. Isso pode ter sérias implicações para aqueles que precisam estar super alertas logo em seguida ao momento em que acordam, como é o caso de plantonistas de emergências.

Esse estado grogue logo após acordar, conhecido como inércia do sono, pode durar segundos, minutos, até quatro horas, dependendo da pessoa, e está associado a acidentes muitas vezes fatais. A inércia do sono é mais comum quando a gente dorme para compensar um período de privação de sono prévio e também em alguns transtornos do sono e condições psiquiátricas, como a depressão. Quase metade dos adolescentes relatam essa inércia do sono e até astronautas da NASA reportam que essa experiência atrapalha seus desempenhos. O assunto foi muito discutido após o acidente com o acidente do avião da Air India Express em 2010 que matou 158 pessoas. O acidente foi logo após o piloto acordar de um cochilo programado.

 

 

Close-Up Photography of Woman Wearing Red and Black Scarf

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Mais da metade das mulheres apresentam queixas de memória na fase de transição para a menopausa e temos algumas evidências de que, nessa fase da vida, elas realmente apresentam uma menor velocidade de processamento cognitivo e menor desempenho da memória verbal.

 

Uma forma de explicar essa lenhificação do pensamento na transição da menopausa é que a redução ou flutuação dos níveis do hormônio estrogênio pode dificultar o pleno funcionamento cerebral. Já foi bem demonstrado que algumas áreas cerebrais são ricas em receptores de estrogênio, regiões que são fortemente vinculadas à memória, como é o caso do hipocampo e o córtex pré-frontal. Além disso, estudos experimentais revelam que o estrogênio é capaz de elevar os níveis de neurotransmissores e também promovem o crescimento neuronal e formação de conexão entre os neurônios.

 

Nada de pessimismo! A boa notícia é que esses efeitos parecem ser limitados, já que as mulheres voltam a apresentar o mesmo desempenho cognitivo que tinham antes da menopausa após ultrapassarem a transição. Além disso, as mulheres que recebem reposição hormonal antes do término da menstruação são beneficiadas do ponto de vista cognitivo, o que não acontece com aquelas que começam esse tipo de tratamento após o término da menstruação. Essa é mais uma evidência de que a reposição hormonal deve ser utilizada pelo menor tempo necessário. Temos até evidências que o uso prolongado desse tipo de tratamento pode levar à perda do volume de substância cinzenta do cérebro e declínio cognitivo.

 

Uma recente pesquisa aponta também que, quanto mais tarde se dá o início da menopausa, melhores são os indicadores de desempenho cognitivo e o uso de reposição hormonal não teve qualquer influência. Esses resultados não foram válidos para os casos de menopausa cirúrgica, condição em que as mulheres têm os ovários removidos cirurgicamente. E este ano, a revista Menopause, da Sociedade Americana de Menopausa, mostrou que durante as ondas de calor, as mulheres na menopausa têm o desempenho cognitivo ainda mais prejudicado. Foram identificadas alterações em regiões responsáveis pela memória, especialmente o hipocampo e o córtex pré-frontal, pelo método de ressonância magnética funcional.

E suplementos de soja podem ajudar? A soja é a principal fonte de isoflavonas da dieta, micronutrientes que se ligam aos receptores de estrogênio do cérebro. Uma série de pesquisas tem procurado demonstrar seus efeitos sobre o desempenho cognitivo na menopausa e os resultados são bem discretos. Vale ressaltar que essas pesquisas envolveram mulheres já na menopausa e por isso a discussão está longe de ser encerrada. O efeito da soja na transição da menopausa pode ser diferente.

brainexercise

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Já é bem reconhecido que a prática de exercícios físicos está associada a um menor risco de doenças cardiovasculares (infarto do coração e derrame cerebral), de alguns tipos de câncer (ex: mama, coloretal), transtornos mentais (ex: depressão, ansiedade), e está associada também a uma maior longevidade. Se tivermos que escolher uma única atitude saudável na vida para alcançarmos a longevidade com qualidade de vida, a prática regular de exercícios aeróbicos talvez seja a mais significativa.

Para se ter ideia do tamanho do efeito da atividade física aeróbica sobre a longevidade vale a pena conhecer os resultados de um dos mais robustos e recentes estudos sobre o tema publicado em 2008. A pesquisa foi iniciada em 1984 quando mais de 500 membros de uma associação de corredores de rua com mais de 50 anos de idade passaram a ser acompanhados anualmente. O grupo de corredores foi comparado a um grupo controle de semelhante faixa etária. Ao final de 21 anos de acompanhamento os resultados foram os seguintes: 1) a atividade física entre os corredores foi cerca de três vezes mais intensa ao longo de todo o estudo; 2) houve declínio da capacidade funcional ao longo dos anos em ambos os grupos, mas de forma menos relevante entre os corredores; 3) após 19 anos de acompanhamento, 34% dos indivíduos do grupo controle havia morrido, comparado a apenas 15% dos corredores; 4) os corredores apresentaram menor mortalidade não só por doenças cardiovasculares, mas também por câncer.

Como se isso tudo já não fosse o bastante, a cada dia temos mais evidências de que o cérebro também lucra com o hábito da atividade física regular. E o benefício ao cérebro já começa em idades precoces. Pesquisas demonstram que é maior o desempenho intelectual de crianças e adolescentes que praticam atividade física regular. Ao contrário do que já se chegou a cogitar, o tempo gasto com atividade física na escola promove mais sucesso acadêmico do que se o jovem direcionasse esse tempo de atividade física para mais atividades na sala de aula.

Os efeitos da atividade física também têm sido muito bem estudados no processo de envelhecimento cerebral sugerindo um efeito neuroprotetor. Uma série de pesquisas tem revelado que a atividade física em idosos melhora o desempenho cognitivo e os efeitos positivos podem ser observados em diversas dimensões da cognição e de forma mais marcante sobre as funções executivas que incluem, por exemplo, a memória operacional (de curto prazo), a capacidade de planejamento, de tomada de decisão e de dar atenção a mais de uma coisa ao mesmo tempo. Já dispomos também de um bom corpo de evidências de que a atividade física em idosos reduz o risco de desenvolver a Doença de Alzheimer e a Demência Vascular, ou pelo menos adia seu aparecimento.

Os efeitos positivos da atividade física sobre o cérebro também já foram demonstrados através de variáveis fisiológicas que vão desde o aumento da perfusão sanguínea, metabolismo e tamanho do cérebro em determinadas regiões, até a modulação de sua própria atividade elétrica. Em animais as pesquisas chegam ao nível celular e molecular. Ratinhos que se exercitam criam novos neurônios e conexões em uma das regiões mais importantes do cérebro no que se refere à memória: o hipocampo. Novos vasos sanguíneos também são criados no hipocampo assim como em outras regiões cerebrais. O exercício estimula também a produção do Fator Neurotrófico Derivado do Cérebro, e isso já foi demonstrado também em humanos, que é responsável pela saúde dos neurônios e está associado à capacidade de aprendizado e memória. Até mesmo ratinhos recém-nascidos de mães que se exercitaram durante a gravidez têm mais neurônios no hipocampo do que aqueles de mães sedentárias. Para quem não sabe, uma das primeiras regiões cerebrais afetadas pela Doença de Alzheimer é o hipocampo, doença que promove redução do número de neurônios dessa região. Teoricamente, um indivíduo que se exercita, mesmo que desenvolva a Doença de Alzheimer, deve demorar mais para começar a apresentar sintomas já que tem uma reserva cerebral maior.

O exercício físico ainda é capaz de promover ativação de secreção de diversas substâncias no cérebro como endorfina e endocanabinóides, que podem provocar, além do efeito imediato de euforia e redução da percepção de dor, também uma modulação do funcionamento químico do cérebro de forma mais sustentada. Essa é uma das formas de explicar resultados de pesquisas que mostram que a atividade física tem o poder de reduzir a chance de uma pessoa vir a desenvolver depressão. O interessante desses estudos é que esse poder é bem mais robusto no caso da atividade física associada ao lazer do que associada ao trabalho. Sabemos que o lazer, independente de estarmos nos mexendo, por si só já é capaz de recompensar quimicamente o cérebro levando ao bem-estar psíquico, e um dos componentes que ajudam a ativar esse bem-estar é a interação social que boa parte das atividades de esporte e lazer promove.

Desde a Grécia antiga defende-se a ideia de interdependência entre a mente e o corpo. Disse o romano Marcus Tullius Cícero por volta de 65 AC: “É o exercício físico que sustenta o espírito e mantém o vigor da mente”. Hoje não se faz mais o mesmo tanto de atividade física como antigamente e a redução foi mais drástica a partir da revolução industrial quando trabalho deixou de significar esforço físico. O fato é que nem nosso corpo nem nossa mente estão geneticamente adaptados para viver sem atividade física e essa é uma das principais explicações para o aumento da incidência de doenças crônicas como a obesidade e o diabetes que passam a acometer as pessoas em idades cada vez mais precoces.

 

Entre tantas questões que a ciência moderna ainda deve responder temos a seguinte: para o cérebro, qual o melhor tipo, intensidade, frequência e duração de exercício?  Ao pensar em nossa saúde como um todo, podemos nos guiar pela atual recomendação de pelo menos 30 minutos de atividade moderada cinco vezes por semana. O que é atividade moderada? Atividade que dá até para fazer conversando, mas que aumenta a frequência cardíaca e faz suar a camisa! Entretanto, há uma forte linha de pesquisa na última década apontando que mesmo uma caminhada no parque não tem nada de automático. A atividade física demanda do cérebro múltiplas funções de ajuste, como a modulação do equilíbrio e atividade muscular, planejamento e tomada de decisões, navegação espacial e atenção, que em última instância fazem o cérebro trabalhar para valer.  O fato de sermos bípedes exige mais do cérebro que nossos ancestrais quadrúpedes e exercícios que demandam mais do cérebro são ainda melhores que a esteira da academia. Isso já foi demonstrado em roedores e até em humanos.

 

 

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Nossa história começa no ano de 2001 quando dois pesquisadores de Toronto no Canadá realizaram um estudo bastante provocativo. Redelmeier e Singh analisaram a longevidade de mais de 700 atores / atrizes que haviam atuado em filmes e que tenham recebido indicação ao Oscar.  Para cada ator / atriz indicado ao Oscar, eles identificaram um outro ator / atriz do mesmo sexo, com semelhante faixa etária e que havia participado do mesmo filme, mas que não havia sido indicado ao Oscar.

Todas as indicações de Oscar foram analisadas desde a criação da Academia até o ano 2000. Três grupos foram criados: 1) Vencedores: os que levaram a estatueta para casa; 2) Indicados: os que foram indicados, mas não ganharam; 3) Controles: nunca indicados e que nunca ganharam. Exemplos: Jack Nicholson foi classificado como Vencedor, pois já havia sido premiado três vezes na época; Richard Burton foi classificado como Indicado, pois já havia recebido sete indicações, mas nunca ganhou; Lorne Green era do grupo Controle, nunca indicado, e, claro, nunca ganhou.

Vejam só o que eles encontraram. De um total de 1649 artistas incluídos no estudo, 772 já haviam morrido. As principais causas de morte foram doença isquêmica do coração, derrame cerebral e câncer, e não foi diferente entre os três grupos. O nível educacional também não era diferente entre os grupos. Os Vencedores viveram cerca de 4 anos a mais que o grupo Indicados e o grupo Controles  (Vencedores: 79.7 anos; Indicados: 76,1 anos; Controles: 75.8 anos). Do ponto de vista estatístico, os Indicados apresentaram a mesma longevidade dos Controles. Entre os Vencedores, quanto mais jovens ao receber o Oscar, ou o primeiro Oscar, maior a longevidade. Os resultados não foram diferentes entre Vencedores de papel principal ou coadjuvante. Entretanto, os Vencedores de mais de um Oscar viveram 6 anos a mais que os controles: sorte do Jack Nicholson.

E como explicar esses resultados? A longevidade dos seres humanos tem sido consistentemente associada ao status socioeconômico. Os ricos vivem mais que os pobres. Aqueles que receberam maior contingente de educação formal também vivem mais. E por que será que o sucesso por si só também poderia nos trazer mais anos de vida? Vamos às hipóteses.

Pessoas de sucesso como os “Vencedores” são personalidades de grande visibilidade e buscariam andar na linha para não arranhar suas imagens. Muitas vezes, os próprios contratos com a indústria do cinema os obrigam a ter bons padrões de comportamento. Além disso, são cercados de assessoria para manter a forma física, boa alimentação, entre outros hábitos salutares. Conhecemos inúmeras histórias de celebridades que contrariam totalmente esse argumento, mas talvez não seja a regra. Nesse estudo, mesmo o grupo Controles apresentou maior longevidade que a média da população americana no mesmo período.

 

No ano de 2006 a mesma revista científica publicou uma crítica muito bem estruturada sobre o método de análise estatística do artigo publicado em 2001, sugerindo que o grupo Vencedor foi privilegiado, colocando em xeque os resultados de forma bastante contundente. Foi um balde de água fria, mas o assunto ainda não está encerrado. Ainda se discute que “Vencedores” podem até viver mais, mas não como consequência do sucesso. Ao invés disso, o sucesso seria o resultado do perfil de indivíduos com maior capital de saúde, e que também viveriam mais. Esse efeito foi sugerido em 2003 após análise da longevidade dos membros da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, comparando vencedores do Prêmio Nobel com não vencedores. Os vencedores do Prêmio Nobel viveram mais! Talvez essas celebridades tenham uma genética privilegiada não só do ponto de vista cerebral.

Redelmeier e Singh, os autores do estudo dos “vencedores”, analisaram também a longevidade de roteiristas de cinema e publicaram os resultados num dos mais respeitados periódicos científicos do mundo. A hipótese era de que o fato dos roteiristas gozarem de menos glória e sucesso que os atores, o efeito Oscar seria menos pronunciado. Resultado: aqueles que venceram o Oscar viveram três anos e meio a menos que aqueles que foram só indicados (Indicados: 77.7; Vencedores 74.1). Os roteiristas vencedores de Oscar que trabalhavam mais intensamente (maior média de filmes por ano) viviam menos ainda. Mesmo entre os roteiristas não agraciados com o Oscar, aqueles que escreviam mais filmes por ano também viviam menos. Discute-se que hábitos saudáveis talvez não sejam tão cobrados de roteiristas, pois muitos mantém-se em relativo anonimato quando comparados a atores / atrizes. Estudos anteriores já haviam evidenciado menor longevidade entre escritores, e uma das explicações é o estilo de vida menos saudável (ex: inatividade física, sono irregular). Questões até mesmo existenciais são contempladas, especialmente no caso dos poetas.

Ao fazermos um balanço geral dessas informações à luz do conhecimento atual, é bem razoável pensar que indivíduos com perfil genético vantajoso viverão mais e terão também mais chances de atingirem o sucesso (vantagens cerebrais). A vida de celebridade realmente pode ser um fator modulador positivo dos hábitos de vida, e isso precisa ser melhor investigado. No caso dos roteiristas, precisamos ser cautelosos e não sairmos dizendo por aí que trabalho faz mal à saúde, pois sabemos que faz bem quando é realizador e bem dosado. Melhor ainda quando associado a outros hábitos saudáveis. Certamente muitos cinéfilos argumentarão que vincular talento e sucesso no universo do cinema à estatueta é no mínimo discutível. Na pesquisa dos roteiristas de cinema, o Oscar mais uma vez foi a medida do sucesso.  No grupo daqueles que foram só indicados, mas nunca venceram, podemos encontrar nada mais, nada menos que Stanley Kubrick, Ingmar Bergman e Frederico Fellini. Não deve ter sido a falta de sucesso e talento que fez Bergman viver 91 anos.

 

 

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Estudos frequentemente citados demonstram que quase metade das pessoas contam uma a duas mentiras por dia, mas uma pesquisa recém-publicada pelo periódico PLOS ONE mostra que 40% das mentiras têm origem numa pequena parcela da população. A maioria das pessoas não mente com tanta frequência. A pesquisa ainda aponta que os homens acham que mentem melhor  que as mulheres duas vezes mais. 

 

Os mentirosos costumam ser falastrões e preferem mentir pessoalmente ao invés de usar telefone, mensagens digitais e mídias sociais. E isso acontece de forma difusa: com familiares, amigos e colegas de trabalho. o par romântico, e a mentira é menos comum com os chefes.

 

Uma das maiores estratégias dos mentirosos é contar histórias plausíveis, próximas da realidade, de forma clara e sem fornecer muitos detalhes. Quanto melhor uma pessoa achar que mente , mais mentiras ela propagará. Os tipos de mentira mais frequentemente encontrados nessa amostra de 200 pessoas, em ordem decrescente, foram: mentiras “brancas” (inocentes: falar que a comida estava ótima quando na verdade…), exageros, informação velada e fantasias.

 

 

 

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Brown Wooden Arrow Signed

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A comunicação de um alerta, seja para seu filho, ou mesmo em uma campanha de promoção de saúde, deve evitar a ideia de que muitas pessoas têm o hábito de fazer aquilo que você não quer que seja feito. Quando passa a impressão de que um mau comportamento é popular, seu interlocutor tem menos chance de seguir seu conselho de ir na direção oposta. Ele vai pensar, mesmo que de forma inconsciente, que o comportamento indesejado por você é a norma social.

A revista Scientific American trouxe recentemente uma série de exemplos reais que devem servir de alerta a pais, educadores, jornalistas, a quem trabalha com políticas públicas e a qualquer um que espera que seu conselho seja seguido. Veja alguns exemplos:

-Campanha antidrogas promoveu o aumento do consumo de drogas entre estudantes ao passar a ideia de que as drogas estão em todos os cantos da cidade

-Campanha para prevenção de suicídio entre adolescentes que enfatizava a alta  incidência do problema aumentou o número daqueles que passaram a pensar em terminar com a própria vida

-Sonegação fiscal aumentou após a campanha de que as multas seriam aumentadas em seus valores já que muitas pessoas tinham sonegado no último período

-A mensagem de um Parque Nacional “Muitos visitantes anteriores levaram pedras para casa. Não faça as coisas piorarem levando mais pedras” levou a mais roubos do que a frase dizendo “Por favor, não leve para casa pedras do parque.

-Numa eleição, chamar a atenção para a porcentagem dos que não compareceram às urnas pode aumentar o número de abstenções

-Ao dar orientações sobre a necessidade de fugir do sedentarismo, tabagismo ou sexting, por exemplo, o tiro pode sair pela culatra se a mensagem for carregada da realidade epidêmica desses problemas

Alguns exemplos de mensagens bem-sucedidas:

-Fotos de doenças nos maços de cigarro e campanhas que trazem o número de mortes por tabagismo ao invés de chamar a atenção para a grande frequência do hábito

-Enviar correspondência a médicos dizendo que eles estão prescrevendo mais antibióticos por paciente do que a maioria dos seus colegas de profissão

-Correspondência aos motoristas de uma cidade dizendo que a maioria paga suas multas dentro de 13 dias

-O hotel deixa uma mensagem dizendo que a maioria dos hóspedes reutilizam as toalhas

-Você terá mais chance de ir votar se receber uma mensagem lembrando que a maioria dos seus vizinhos estão votando

O uso do conhecimento das ciências sociais para influenciar o comportamento dos outros não é simples, mas se feito de forma correta, pode ser altamente eficaz em inúmeras dimensões do nosso dia a dia. Isso vai desde o conselho para o seu filho até campanhas publicitárias de promoção de saúde, engajamento cívico e ecológico, etc.

Man And Woman Wearing Brown Leather Jackets

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Memória de trabalho é a capacidade que nosso cérebro tem de guardar simultaneamente várias informações ao resolver um problema. Mais ou menos assim: quanto é cinco mais a soma de sete com seis mais a soma de oito com nove? Sua memória de trabalho lhe permite chegar ao resultado de 35. Esse foi um exemplo matemático, mas precisamos da memória de trabalho numa simples conversa, mantendo na memória os pontos que o outro está lhe falando. Um estudo recém-publicado pelo Journal of Experimental Psychology General demonstrou que esta habilidade facilita a relação entre os casais.

Pesquisadores da Universidade da Carolina do Norte nos EUA conduziram um estudo longitudinal mostrando que quanto maior a capacidade de memória de trabalho num casal maior também a redução da severidade nos problemas de relacionamento que enfrentam. Todo relacionamento atravessa problemas de tempos em tempos, mas a forma como esses problemas são resolvidos determina o quanto a relação é satisfatória e duradoura.

Eles acompanharam uma centena de casais que tinha uma união estável há menos de três meses. Os voluntários eram submetidos inicialmente a uma bateria de testes para medir a capacidade da memória de trabalho e em seguida passavam por duas discussões que envolviam resoluções de problemas da relação. Cada um escolhia um tópico que achava que podia ser melhorado se o outro mudasse seu comportamento. Quatro e oito meses após as discussões eles eram interrogados sobre o quanto aqueles problemas melhoraram ou pioraram. Os casais que apresentaram melhor desempenho na memória de trabalho tinham uma tendência em ter seus problemas minimizados com o tempo. Eles também se lembravam mais das posições do outro durante as discussões.

São várias as razões que explicam uma menor memória de trabalho entre os voluntários. Essas causas vão desde à característica inerente do indivíduo, aquela que que o seu desenvolvimento cerebral ao longo dos anos lhe permitiu, até fatores situacionais como estresse, cansaço mental e falta de interesse. Independente da razão, se na discussão da relação, a memória de trabalho do outro é ineficiente, menores as chances de sucesso na compreensão e atitude frente aos problemas.

Dica valiosa desse estudo: se for discutir a relação escolha um momento que ambos estão descansados e com a atenção plena. Que tal combinar um café no começo do dia?

Red and White Dart on Darts Board

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Quando pensamos em sucesso vêm às nossas mentes conceitos como boas ideias, trabalho duro, disciplina, criatividade, imaginação, perseverança e até sorte. O que uma pesquisa recente publicada pela Nature nos aponta é que os fracassos devem fazer parte dessa lista também. Mas não é qualquer fracasso. São aqueles que fazem a gente nos aprimorar para as próximas tentativas e que estas não demorem a acontecer.

Os autores do estudo mostram que o que separa os “winners” dos “losers” não é a persistência. Ambos tentam o mesmo número de vezes para alcançar o objetivo, só que os “winners” chegam lá. Eles trabalham duro da mesma forma, mas de forma mais esperta. Os fracassos servem de guias para o aperfeiçoamento para a próxima tacada. Não agem com impulsividade diante de uma batalha perdida. Estão pensando em vencer a guerra. Os “losers” não necessariamente trabalham menos, mas fazem mudanças de táticas além do necessário.

Outro ponto que diferenciava os projetos de sucesso foi a rapidez com que as novas tentativas aconteciam. Quanto mais rapidamente você perceber o fracasso e se organizar para uma próxima investida, melhor. O orientador da minha tese de doutorado, Fernando Cendes, me introduziu esse conceito de forma muito convincente. “Ricardo, se você não encontrar os resultados que procura nessa amostra de 20 indivíduos, não adianta procurar em outros cem. Mude sua tática”.

As conclusões do estudo não querem dizer que disciplina e sorte, por exemplo, não tenham seu valor. Mas se todos têm esses atributos de forma equânime, usar o fracasso de forma inteligente e rápida faz toda a diferença. Os pesquisadores estudaram milhares de pedidos de financiamento de pesquisa e desempenho de startups. Curiosamente avaliaram também o “sucesso” de terroristas e atentados sem mortos foram considerados fracassos. Os resultados foram aplicáveis para esses três diferentes universos e provavelmente para muitos outros que não foram estudados aqui.

White and Blue Crew-neck T-shirt

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A história que veremos abaixo já foi demonstrada também no tratamento de dor crônica, rinite alérgica, enxaqueca e síndrome do intestino irritável. Dessa vez o caso foi com a ansiedade antes de fazer uma prova. O uso do placebo, mesmo que o voluntário saiba que é placebo o que está usando, pode trazer benefícios em todas essas condições.

 

Um estudo recém-publicado pelo periódico Scientific Reports apontou que voluntários que usam pílulas de placebo por duas semanas antes de uma prova apresentam menos ansiedade na véspera da prova e ainda se sentiam mais confiantes. O curioso é que eles sabiam mesmo que era placebo. Eram instruídos que placebo pode ter efeitos significativos e que, se fossem sorteados a usá-los, deveriam ter um pensamento positivo para potencializar seu efeito.

 

Mas por que o placebo funciona? Uma possível explicação é a de uma resposta condicionada. Em alguns momentos da vida os voluntários tiveram boa experiência com o uso de pílulas “verdadeiras” e que, ao usar o placebo, esses mesmos resultados repetiram-se. Outra explicação é a de que o uso diário do placebo fez com que os participantes passassem a pensar mais na ansiedade durante a prova promovendo a sensação de que estavam fazendo algo para evitá-la. É claro que tudo isso se dá na nossa mente, no nosso cérebro.

 

Um estudo publicado no ano de 2001 pela revista Science deu uma balançada naquilo que a comunidade científica até então entendia como efeito placebo. Pacientes portadores da Doença de Parkinson receberam medicação específica para a doença (levodopa) ou pílulas placebo e o surpreendente foi que tanto os pacientes que receberam a medicação como aqueles que receberam placebo, e que tiveram boa resposta clínica, demonstraram aumento das concentrações de dopamina no cérebro.

 

Em outro estudo mais recente, publicado pela revista Neurology, pesquisadores de Luxemburgo mostraram que pacientes com a Doença de Parkinson que tinham boa resposta ao placebo apresentavam aumento de dopamina no cérebro em regiões que são comuns ao efeito cerebral de recompensa. Isso sugere que o fator “expectativa positiva” pode ter um importante papel no efeito placebo.

 

Em quadros de dor, também há evidências de que o placebo muda quimicamente o cérebro, dessa vez através da liberação de opióides endógenos, efeito que pode ser desfeito através de medicações que bloqueiam o efeito de medicações opióides. As mudanças químicas também ocorrem em quadros depressivos, sendo que o placebo apresenta efeito muito semelhante às drogas que aumentam a concentração de serotonina (ex: fluoxetina). Nessas duas condições, a “expectativa positiva” também parece ser a forma como o cérebro faz com que o efeito placebo funcione.   E essa parece ser a explicação do porquê de algumas pessoas responderem positivamente ao placebo e outras não. Há evidências de que bons respondedores apresentam expectativa de receber maiores recompensas, e têm maior ativação do sistema de recompensa cerebral, não só na situação de tratamento, mas também em situações de jogos que envolvem recompensa em dinheiro.

 

Em 2016, o British Medical Journal publicou uma pesquisa revelando que a maioria dos americanos não vê problema em receber uma medicação placebo. O estudo envolveu 853 voluntários com idades entre 18 e 75 anos que eram acompanhados por alguma condição clínica crônica. Apenas 22% achavam inaceitável o uso de placebo. O restante considerava o placebo uma alternativa possível nos casos em que o médico tem clareza que os benefícios são maiores que os riscos e, melhor ainda, quando existir transparência no que está sendo proposto quando o médico é interrogado.

 

 

 

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