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Silhouette Photo of Woman

Por Dr. Ricardo Teixeira

Imagine só que pesquisadores do MIT (Massachusetts Institute of Technology) iniciaram um estudo sobre os efeitos cerebrais do isolamento social há três anos, sem a mínima ideia do que nos esperava no ano de 2020. Os achados inéditos mostram que regiões profundas do cérebro que modulam impulsos básicos de recompensa e motivação estão envolvidas tanto na experiência da fome como da solidão. A conclusão é que tanto comer e se conectar com os outros são experiências fundamentais para nossas vidas.

Os voluntários da pesquisa foram submetidos ao exame de Ressonância Magnética Funcional e durante o exame eram apresentados a imagens de interações sociais próprias ou alimentos preferidos, a depender se estavam sendo testados para isolamento ou fome. A ativação do cérebro foi semelhante em ambos os casos e também similar ao efeito da exposição de imagens da droga mais usada por pacientes em tratamento para drogadição.

O próximo passo é avaliar o quanto o cérebro realmente se satisfaz com as diferentes formas de mídias sociais. Com a pandemia, verbas para essa pesquisa certamente não faltarão.

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* Dr. Ricardo Teixeira é neurologista e Diretor Clínico do Instituto do Cérebro de Brasília

Low Light Photography of Books

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Isolamento social. Mas que experiência desafiadora, hein? A quarentena tem sido muito mais difícil para alguns do que para outros e são inúmeras as razões para essas diferenças. Extrovertidos sofrem mais que os introvertidos, quem mora numa quitinete sofre mais do que aquele que mora numa mansão, e por aí vai. Mas existe uma experiência nessa época que pode facilitar a vida de qualquer um de nós e estamos aqui falando na diversificação de experiências no dia a dia.

 

Uma pesquisa recém-publicada pela revista Nature Neuroscience aponta que pessoas que têm maior diversidade de deslocamento espacial com o passar dos dias, lugares diferentes e mais novidades, sentem-se mais positivas e com maior atividade no circuito que liga duas regiões cerebrais fortemente associadas ao bem estar.  Isso não é diferente entre animais de laboratório. Aqueles que têm um ambiente amplo e cheio de novidades tem um comportamento de maior sociabilidade e resiliência ao estresse. Além disso, esses animais têm maior ativação desse mesmo circuito demonstrado agora em humanos.

 

O estudo foi feito antes da pandemia quando as pessoas podiam se deslocar à vontade. E agora na quarentena? Uma dica preciosa é se deslocar à vontade por vídeo chamadas com as pessoas queridas, bons romances e filmes, apreciação de todas as formas de arte. Criatividade e novidades diárias. Isso certamente provocará efeitos no cérebro que facilitarão sobremaneira a travessia dessa tempestade que estamos vivendo.

Close-up of Hands

 

Alguns enxergam a religiosidade simplesmente como uma forma de controle social, algo maior vigiando o comportamento humano. Outra forma de entendê-la é pensar que a evolução da espécie humana favoreceu a experiência religiosa como um mecanismo que ajuda a manter comunidades unidas e também a promover um melhor autocontrole mental. A princípio, quando uma meta é encarada como sagrada, o indivíduo teria maior tendência em se esforçar para alcançá-la. Mais do que isso, o sagrado abastece a mente humana no desafio de pensar sobre a vida e a morte, e em tempos mais remotos, isso era fundamental para o entendimento dos sonhos e fenômenos da natureza.

Marx, Freud, Weber, entre tantos outros, defenderam a ideia de que a modernidade reduziria a influência das crenças religiosas na sociedade. No Brasil, nos últimos 20 anos, houve um discreto aumento na porcentagem de brasileiros que dizem não ter uma religião: em 1991 essa cifra era de 4.75%, em 2009 passou para 6.7% e pesquisa Datafolha publicada em janeiro de 2020 pelo jornal Folha de S.Paulo aponta que 50% dos brasileiros são católicos, 31%, evangélicos, e 10% não têm religião.

A religiosidade tem seu lugar no cérebro? A neurociência tem demonstrado que a experiência religiosa estimula circuitos cerebrais do neurotransmissor dopamina, os mesmos circuitos que são considerados disfuncionais em transtornos neuropsiquiátricos em que a hiperreligiosidade faz parte do quadro clínico, como é o caso da epilepsia do lobo temporal, esquizofrenia, mania e transtorno obsessivo-compulsivo. Sistemas cerebrais da serotonina também parecem estar implicados, já que drogas que têm influência sobre eles são facilitadoras da experiência religiosa. Entre essas drogas podemos citar o LSD, mescalina, ecstasy, e o chá de Ayahuasca utilizado pelo Santo Daime e União do Vegetal.

Cientistas das universidades americanas de Columbia e Yale demostraram recentemente que o estado de conexão com algo maior, seja pela experiência religiosa ou não, está associada a uma menor atividade da região parietal do cérebro. Ao alcançar esse estado de consciência, a pessoa apresenta um adormecimento de uma região fortemente vinculada à percepção de si mesmo e dos outros.

Quando pensamos na influência da fé na evolução de problemas de saúde, vale a pena refletir sobre o poder do efeito placebo. A origem do termo é o verbo placere do latim que significa AGRADAREI.  A simples expectativa positiva de que um tratamento pode nos fazer bem já é capaz de provocar mudanças fisiológicas em nosso corpo, e esse é o chamado efeito placebo. Pessoas que apresentam boa resposta ao placebo apresentam circuitos cerebrais de dopamina com maiores concentrações desse neurotransmissor. Também há evidências de que as concentrações dos opioides endógenos e de serotonina são influenciadas pela expectativa positiva. Isso tudo pode ter repercussões sobre o sistema imunológico e favorecer a evolução de uma condição de saúde. Se uma pílula de farinha já é capaz de provocar esses efeitos, podemos tentar imaginar o que a prece ou um ritual religioso pode promover. Esse é um modelo que a ciência tem para explicar os efeitos da fé sobre a mente e o corpo. Isso não quer dizer que outros mecanismos ainda intangíveis não possam ser descritos no futuro.

A religiosidade faz bem mesmo à saúde? Já temos um razoável corpo de evidências que indivíduos com uma maior vivência religiosa / espiritual têm maior capacidade de lidar com o estresse emocional, uma melhor saúde mental de forma geral e, em situações de doença, cooperam mais com o tratamento. Além disso, o envolvimento com uma comunidade religiosa está associado a uma maior rede social, e há tempos sabemos que pessoas socialmente integradas têm menos chance de adoecer, e quando doentes, a rede social é uma das principais fontes de apoio. Esse pode ser um dos principais fatores que explicam resultados de maior longevidade entre as pessoas com maior religiosidade. Assume-se também que essas pessoas têm a tendência a apresentar hábitos de vida mais saudáveis.

Entretanto, as crenças religiosas nem sempre estão a favor da saúde do paciente, já que podem em alguns casos dificultar a aderência ao tratamento com ideias do tipo: esse é o desejo de Deus, Deus me abandonou, este é o meu destino, este é o meu castigo, etc. Em situações como essas, é bem razoável que a equipe de saúde esteja minimamente preparada para abordar dimensões religiosas / espirituais do paciente e assim aumentar a aderência e sucesso do tratamento.

O ano é 1971.  O psicólogo Philip G. Zimbardo da Universidade Stanford dividiu aleatoriamente um grupo de estudantes mentalmente sãos entre “guardas” e “prisioneiros”, que deveriam conviver por duas semanas em uma prisão simulada no campus. Zimbardo teve de interromper o estudo prematuramente depois de apenas seis dias, porque os guardas haviam se tornado sádicos, abusando física e psicologicamente dos prisioneiros.

Mas como jovens pacatos puderam se transformar de forma assustadora em tão pouco tempo? Naquela época, Zimbardo ofereceu uma resposta simplista: protegidas pelo anonimato da multidão, as pessoas perdem todos os limites e desprezam normas éticas. Tornam-se animais de um rebanho desenfreado, sem controle ou compaixão.

Pesquisas recentes indicam que, muito embora grupos levem seus integrantes a se comportar de uma forma que eles não fariam no dia a dia, essas ações podem ser tanto positivas quanto negativas. No final de 2001, quando os psicólogos britânicos Stephen D. Reicher e S. Alexander Haslam reproduziram a experiência do prisioneiro para o que viria a ser um reality show exibido pela rede BBC, os guardas agiram de forma um tanto cautelosa.

Em razão dos resultados contraditórios, Haslam e Reicher concluíram que o comportamento do grupo depende das expectativas de seus membros sobre os papéis sociais que eles deveriam desempenhar. Se acreditam que se espera deles uma conduta autoritária, é bem provável que ocorram abusos. Zimbardo, por exemplo, encorajava os guardas a portarem-se de modo ameaçador. A chave para entender como os indivíduos de um grupo irão proceder são suas crenças pré-condicionadas sobre o que devem fazer.
Um indivíduo em um grupo de voluntários arrisca a vida para salvar uma criança, evitando que ela caia nas águas de uma enchente, enquanto outro, em nome de uma causa coletiva “maior”, de bom grado se sacrifica como homem-bomba.

Em geral, o temor das pessoas em relação à mentalidade das massas cria nelas a expectativa de que grupos apresentem aspectos sinistros, apesar de a história mostrar, por exemplo, que mudanças sociais positivas são impossíveis sem movimentos de massa. O surgimento dos direitos humanos, a queda do Muro de Berlim, o ambientalismo – muitos avanços recentes resultaram do engajamento massivo de pessoas que lutaram por um bem comum, colocando seus interesses pessoais em segundo plano para atingi-lo.

Quanto mais a pessoa se envolve com o coletivo, maior a sua identificação com ele  e mais completa a sua aceitação de valores e normas do grupo (personalidade coletiva). Comportamentos agressivos têm mais probabilidade de irromper se a personalidade coletiva assume o controle sobre a percepção e as ações do indivíduo. Desse modo, a pessoa não mais distingue entre o “eu” e o “ele”, mas apenas entre o “nós” e “os outros”.

Essa dinâmica pode surgir de forma esporádica também entre pessoas que levam vidas normais, como o vizinho gentil que todos os sábados se transforma no barulhento torcedor de futebol, xingando em alto e bom som os torcedores do outro time. Para ele, essa atitude é o resultado lógico de sua profunda lealdade ao “nós” de seu amado clube. Se o primeiro a arremessar uma pedra é reconhecível, de forma inequívoca, como um membro do coletivo – por exemplo, por suas roupas ou palavras-de-ordem – sua ação acaba com qualquer dúvida que os demais tivessem sobre o papel que devem desempenhar. Eles rapidamente imitam o comportamento do “personagem exemplar”. Esse fenômeno é conhecido como “efeito manada”, conceito que faz referência ao comportamento de animais que se juntam para se proteger ou fugir de um predador. Aplicado aos seres humanos, refere-se à tendência das pessoas de seguirem um grande influenciador ou mesmo um determinado grupo, sem que a decisão passe, necessariamente, por uma reflexão individual.

Adaptado de texto original de Bernd Simon 2005

Woman Walking On Sidewalk Holding Smartphone

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O smartphone faz com que as pessoas que têm dor de cabeça usem mais medicações e com menor efeito. Essa é a conclusão de um estudo recém-publicado pelo periódico Neurology Clinical Practice da Academia Americana de Neurologia.

A pesquisa envolveu 400 voluntários na Índia com o diagnóstico de cefaleia primária como enxaqueca e cefaleia tensional. Metade dos voluntários faziam uso de smartphones e a outra metade tinha telefones móveis mais simples ou nenhum telefone móvel. Esse último grupo era composto por pessoas mais velhas e de menor nível socioeconômico. Aqueles que tinham smartphones usavam medicações para dor numa média de oito vezes por mês enquanto aqueles sem telefone celular ou que só possuíam aparelhos simples  usavam medicações cinco vezes por mês. Cerca de 90% dos pacientes apresentavam enxaqueca e um achado bem interessante desse estudo foi o fato de que usuários de smartphones apresentavam aura numa frequência duas vezes maior. Aura é um fenômeno elétrico que ocorre em uma parte das pessoas que sofre de enxaqueca e que gera sintomas como alterações visuais e sensitivas acompanhadas da dor de cabeça.

Este é um estudo preliminar e lança muitas perguntas que aguardam respostas que possam explicar esses resultados. Isso teria ligação com a postura do pescoço? Ou o estresse mental e/ou ocular de estar sempre conectado? Privação de sono? Luminosidade da tela? Campo eletromagnético? Respostas deverão vir ao longo dos próximos anos.

Person Holding String Lights Photo

 

 

A maioria das pessoas tem um instinto para sincronizar os movimentos e expressões com o ritmo da música. As conexões diretas entre o sistema auditivo e motor são os pilares desse instinto.

O ritmo de dois batimentos por segundo parece ser a preferência inata da maioria das pessoas. Um estudo avaliou mais de 70 mil músicas pop e mostrou que o pulso mais comum era o de dois por segundo – 120 por minuto. Quando as pessoas são solicitadas a batucar os dedos ou caminhar, esse é o ritmo mais comumente observado.

A sincronia com o ritmo da musica promove o uso de energia de forma mais eficiente, com menos ajustes para a coordenação. A relação entre a música e o movimento no cérebro é íntima. Ao ouvirmos uma música agradável, há um aumento da atividade elétrica de várias regiões do cérebro responsáveis pelos movimentos. Uma pesquisa demonstrou que o consumo de oxigênio é 7% menor quando se pedala sincronizado com a música. Já existem até aplicativos que selecionam as músicas de acordo com a frequência cardíaca. O poder da música na atividade física não é só uma questão de disfarçar o sofrimento do corpo.

Quase ninguém deve discordar do quanto a música é capaz de nos atrair, nos cativar. Falo “quase ninguém” porque existe uma parcela pequena da população, inferior a 5%, que não sente prazer com a música e/ou não consegue identificar suas nuances. Isso pode ser congênito ou mesmo decorrente de uma lesão cerebral adquirida.

Essa atração pela música pode ser ainda maior quando a ouvimos coletivamente. Não é difícil pensar nesse efeito durante um show em que a multidão canta a música famosa do artista ou no estádio futebol ouvindo e cantando o hino do seu time. Claro que existe o fator emocional envolvido nessa liga e frequentemente usamos o termo “energia contagiante” para descrever a experiência.

Mas a música não para de nos surpreender. Recentemente, pesquisadores americanos publicaram os resultados de um estudo na prestigiada revista Scientific Reports mostrando que a música sincroniza nossas ondas cerebrais com as de quem a ouve ao nosso lado, especialmente quando a música é familiar e entre aqueles que têm treinamento musical formal. Que contágio, hein? Eles mostraram ainda que essa sincronização diminuía à medida que a música era repetida, mas o efeito só acontecia no caso de músicas que já eram familiares aos voluntários.

Talvez não demore muito para termos aparelhos simples para medir o quanto uma música gera sincronização de ritmos cerebrais na plateia e que meça também a energia gerada por esse fenômeno. Talvez isso corresponda ao que chamamos hoje de “good vibes”.

E mesmo sem música, temos a tendência inconsciente em sincronizar nossos movimentos com aqueles que estão ao nosso redor. Uma recente pesquisa apontou que essa sincronização é ainda mais robusta quando temos uma boa impressão de uma pessoa, mesmo desconhecida. É uma forma de comunicação não verbal bidirecional: a sincronização com nossos movimentos nos passa uma boa impressão do outro e essa boa impressão leva a uma maior sincronização.

E os neurônios espelho?

Os neurônios-espelho foram descobertos meio sem querer por pesquisadores italianos ainda na década de 1990. Pela primeira vez constatou-se que a simples observação de ações dos outros era capaz de ativar as mesmas regiões do cérebro do próprio observador. A percepção visual inicia uma espécie de simulação ou duplicação interna dos atos de outros. As mesmas regiões também são ativadas quando o próprio indivíduo executa a ação.

Sabe aquela situação em que o carro está parado num cruzamento, faz que vai, mas não vai, e o carro de trás já arrancou cheio de vontade e CRASH? Por outro lado, é mais fácil dirigir na estrada atrás de outro carro. Assistir a um jogo de tênis pode ser visto como um treinamento para quem pratica o esporte. São os comandos automáticos dos neurônios-espelhos. Também são esses neurônios que explicam o que faz o bocejo ser tão contagiante. Videogames violentos podem reforçar, em nível neuronal básico, o prazer em fazer danos.

Fazemos mentalmente tudo o que assistimos o outro fazer e o que a neurociência tem nos mostrado é que isso vai muito além de movimentos. Neurônios-espelho foram encontrados nas áreas do córtex pré-motor e parietal inferior, associadas a movimento e percepção, bem como no lobo parietal posterior, no sulco temporal superior e na ínsula, regiões associadas à nossa capacidade de compreender o sentimento de outra pessoa, entender a intenção e usar a linguagem.

O cérebro entende através dos neurônios-espelho até mesmo a intenção de uma ação. Uma série de neurônios é disparada ao olharmos para uma imagem de uma mesa bem arrumada e uma mão pegando uma xícara – com a provável intenção de beber o café. Um diferente grupo de neurônios é disparado quando olhamos para a mesma cena da mão pegando a xícara, mas numa mesa desarrumada – com a provável intenção de lavar a xícara.  Sentir nojo ou ver uma pessoa com olhar repulsivo de nojo faz com que neurônios-espelho das mesmas regiões do cérebro sejam estimulados.

Dessa forma, neurônios-espelho têm papel essencial na percepção de intenções e na experiência da empatia. É o outro entrando em nosso cérebro – empatia origina-se da palavra grega empátheia, que significa “entrar no sentimento”. Não há muita dúvida que os neurônios-espelho foram cruciais no desenvolvimento de nossas habilidades sociais através de avanços na comunicação e aprendizado. Com eles a informação é espalhada e amplificada colaborando para a promoção da cultura. Alguns cientistas chegam a chamar esses neurônios de DNA da neurociência.

O laboratório do pesquisador brasileiro radicado nos EUA Miguel Nicolelis demonstrou o quanto a sincronização de disparos neuronais entre dois macacos sofre influência da proximidade no espaço entre eles e da hierarquia social. Quanto mais próximo estiver o animal que está desempenhando a ação e quanto mais dominante ele for, maior será essa sincronização. Eles discutem que essa pode ser uma ferramenta preciosa para estimar a eficiência de conexão de grupo de atletas, músicos, dançarinos que desempenham trabalhos que exigem alta coesão social.

Miguel Nicolelis foi o cientista que liderou o feito de um paciente com paralisia comandar uma perna robótica só com o pensamento durante a Copa do Mundo de 2014 no Brasil. Isso se deu graças à sua extraordinária linha de pesquisa iniciada ainda na década de 1990 conhecida por interação cérebro-máquina. Os frutos hoje já têm alcançado a sincronização do cérebro de diferentes indivíduos, animais ou humanos, para desempenhar uma atividade em cooperação. As tarefas ainda são elementares e ninguém duvida que eles irão muito, mas muito mais longe.

 

Person Touching Black Two-bell Alarm Clock

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Contrário à crença comum, pesquisadores australianos da Universidade RIMT demonstraram que os alarmes Beep, Beep são menos eficazes que músicas para que a gente acorde menos grogues. Isso pode ter sérias implicações para aqueles que precisam estar super alertas logo em seguida ao momento em que acordam, como é o caso de plantonistas de emergências.

Esse estado grogue logo após acordar, conhecido como inércia do sono, pode durar segundos, minutos, até quatro horas, dependendo da pessoa, e está associado a acidentes muitas vezes fatais. A inércia do sono é mais comum quando a gente dorme para compensar um período de privação de sono prévio e também em alguns transtornos do sono e condições psiquiátricas, como a depressão. Quase metade dos adolescentes relatam essa inércia do sono e até astronautas da NASA reportam que essa experiência atrapalha seus desempenhos. O assunto foi muito discutido após o acidente com o acidente do avião da Air India Express em 2010 que matou 158 pessoas. O acidente foi logo após o piloto acordar de um cochilo programado.

 

 

Close-Up Photography of Woman Wearing Red and Black Scarf

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Mais da metade das mulheres apresentam queixas de memória na fase de transição para a menopausa e temos algumas evidências de que, nessa fase da vida, elas realmente apresentam uma menor velocidade de processamento cognitivo e menor desempenho da memória verbal.

 

Uma forma de explicar essa lenhificação do pensamento na transição da menopausa é que a redução ou flutuação dos níveis do hormônio estrogênio pode dificultar o pleno funcionamento cerebral. Já foi bem demonstrado que algumas áreas cerebrais são ricas em receptores de estrogênio, regiões que são fortemente vinculadas à memória, como é o caso do hipocampo e o córtex pré-frontal. Além disso, estudos experimentais revelam que o estrogênio é capaz de elevar os níveis de neurotransmissores e também promovem o crescimento neuronal e formação de conexão entre os neurônios.

 

Nada de pessimismo! A boa notícia é que esses efeitos parecem ser limitados, já que as mulheres voltam a apresentar o mesmo desempenho cognitivo que tinham antes da menopausa após ultrapassarem a transição. Além disso, as mulheres que recebem reposição hormonal antes do término da menstruação são beneficiadas do ponto de vista cognitivo, o que não acontece com aquelas que começam esse tipo de tratamento após o término da menstruação. Essa é mais uma evidência de que a reposição hormonal deve ser utilizada pelo menor tempo necessário. Temos até evidências que o uso prolongado desse tipo de tratamento pode levar à perda do volume de substância cinzenta do cérebro e declínio cognitivo.

 

Uma recente pesquisa aponta também que, quanto mais tarde se dá o início da menopausa, melhores são os indicadores de desempenho cognitivo e o uso de reposição hormonal não teve qualquer influência. Esses resultados não foram válidos para os casos de menopausa cirúrgica, condição em que as mulheres têm os ovários removidos cirurgicamente. E este ano, a revista Menopause, da Sociedade Americana de Menopausa, mostrou que durante as ondas de calor, as mulheres na menopausa têm o desempenho cognitivo ainda mais prejudicado. Foram identificadas alterações em regiões responsáveis pela memória, especialmente o hipocampo e o córtex pré-frontal, pelo método de ressonância magnética funcional.

E suplementos de soja podem ajudar? A soja é a principal fonte de isoflavonas da dieta, micronutrientes que se ligam aos receptores de estrogênio do cérebro. Uma série de pesquisas tem procurado demonstrar seus efeitos sobre o desempenho cognitivo na menopausa e os resultados são bem discretos. Vale ressaltar que essas pesquisas envolveram mulheres já na menopausa e por isso a discussão está longe de ser encerrada. O efeito da soja na transição da menopausa pode ser diferente.

brainexercise

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Já é bem reconhecido que a prática de exercícios físicos está associada a um menor risco de doenças cardiovasculares (infarto do coração e derrame cerebral), de alguns tipos de câncer (ex: mama, coloretal), transtornos mentais (ex: depressão, ansiedade), e está associada também a uma maior longevidade. Se tivermos que escolher uma única atitude saudável na vida para alcançarmos a longevidade com qualidade de vida, a prática regular de exercícios aeróbicos talvez seja a mais significativa.

Para se ter ideia do tamanho do efeito da atividade física aeróbica sobre a longevidade vale a pena conhecer os resultados de um dos mais robustos e recentes estudos sobre o tema publicado em 2008. A pesquisa foi iniciada em 1984 quando mais de 500 membros de uma associação de corredores de rua com mais de 50 anos de idade passaram a ser acompanhados anualmente. O grupo de corredores foi comparado a um grupo controle de semelhante faixa etária. Ao final de 21 anos de acompanhamento os resultados foram os seguintes: 1) a atividade física entre os corredores foi cerca de três vezes mais intensa ao longo de todo o estudo; 2) houve declínio da capacidade funcional ao longo dos anos em ambos os grupos, mas de forma menos relevante entre os corredores; 3) após 19 anos de acompanhamento, 34% dos indivíduos do grupo controle havia morrido, comparado a apenas 15% dos corredores; 4) os corredores apresentaram menor mortalidade não só por doenças cardiovasculares, mas também por câncer.

Como se isso tudo já não fosse o bastante, a cada dia temos mais evidências de que o cérebro também lucra com o hábito da atividade física regular. E o benefício ao cérebro já começa em idades precoces. Pesquisas demonstram que é maior o desempenho intelectual de crianças e adolescentes que praticam atividade física regular. Ao contrário do que já se chegou a cogitar, o tempo gasto com atividade física na escola promove mais sucesso acadêmico do que se o jovem direcionasse esse tempo de atividade física para mais atividades na sala de aula.

Os efeitos da atividade física também têm sido muito bem estudados no processo de envelhecimento cerebral sugerindo um efeito neuroprotetor. Uma série de pesquisas tem revelado que a atividade física em idosos melhora o desempenho cognitivo e os efeitos positivos podem ser observados em diversas dimensões da cognição e de forma mais marcante sobre as funções executivas que incluem, por exemplo, a memória operacional (de curto prazo), a capacidade de planejamento, de tomada de decisão e de dar atenção a mais de uma coisa ao mesmo tempo. Já dispomos também de um bom corpo de evidências de que a atividade física em idosos reduz o risco de desenvolver a Doença de Alzheimer e a Demência Vascular, ou pelo menos adia seu aparecimento.

Os efeitos positivos da atividade física sobre o cérebro também já foram demonstrados através de variáveis fisiológicas que vão desde o aumento da perfusão sanguínea, metabolismo e tamanho do cérebro em determinadas regiões, até a modulação de sua própria atividade elétrica. Em animais as pesquisas chegam ao nível celular e molecular. Ratinhos que se exercitam criam novos neurônios e conexões em uma das regiões mais importantes do cérebro no que se refere à memória: o hipocampo. Novos vasos sanguíneos também são criados no hipocampo assim como em outras regiões cerebrais. O exercício estimula também a produção do Fator Neurotrófico Derivado do Cérebro, e isso já foi demonstrado também em humanos, que é responsável pela saúde dos neurônios e está associado à capacidade de aprendizado e memória. Até mesmo ratinhos recém-nascidos de mães que se exercitaram durante a gravidez têm mais neurônios no hipocampo do que aqueles de mães sedentárias. Para quem não sabe, uma das primeiras regiões cerebrais afetadas pela Doença de Alzheimer é o hipocampo, doença que promove redução do número de neurônios dessa região. Teoricamente, um indivíduo que se exercita, mesmo que desenvolva a Doença de Alzheimer, deve demorar mais para começar a apresentar sintomas já que tem uma reserva cerebral maior.

O exercício físico ainda é capaz de promover ativação de secreção de diversas substâncias no cérebro como endorfina e endocanabinóides, que podem provocar, além do efeito imediato de euforia e redução da percepção de dor, também uma modulação do funcionamento químico do cérebro de forma mais sustentada. Essa é uma das formas de explicar resultados de pesquisas que mostram que a atividade física tem o poder de reduzir a chance de uma pessoa vir a desenvolver depressão. O interessante desses estudos é que esse poder é bem mais robusto no caso da atividade física associada ao lazer do que associada ao trabalho. Sabemos que o lazer, independente de estarmos nos mexendo, por si só já é capaz de recompensar quimicamente o cérebro levando ao bem-estar psíquico, e um dos componentes que ajudam a ativar esse bem-estar é a interação social que boa parte das atividades de esporte e lazer promove.

Desde a Grécia antiga defende-se a ideia de interdependência entre a mente e o corpo. Disse o romano Marcus Tullius Cícero por volta de 65 AC: “É o exercício físico que sustenta o espírito e mantém o vigor da mente”. Hoje não se faz mais o mesmo tanto de atividade física como antigamente e a redução foi mais drástica a partir da revolução industrial quando trabalho deixou de significar esforço físico. O fato é que nem nosso corpo nem nossa mente estão geneticamente adaptados para viver sem atividade física e essa é uma das principais explicações para o aumento da incidência de doenças crônicas como a obesidade e o diabetes que passam a acometer as pessoas em idades cada vez mais precoces.

 

Entre tantas questões que a ciência moderna ainda deve responder temos a seguinte: para o cérebro, qual o melhor tipo, intensidade, frequência e duração de exercício?  Ao pensar em nossa saúde como um todo, podemos nos guiar pela atual recomendação de pelo menos 30 minutos de atividade moderada cinco vezes por semana. O que é atividade moderada? Atividade que dá até para fazer conversando, mas que aumenta a frequência cardíaca e faz suar a camisa! Entretanto, há uma forte linha de pesquisa na última década apontando que mesmo uma caminhada no parque não tem nada de automático. A atividade física demanda do cérebro múltiplas funções de ajuste, como a modulação do equilíbrio e atividade muscular, planejamento e tomada de decisões, navegação espacial e atenção, que em última instância fazem o cérebro trabalhar para valer.  O fato de sermos bípedes exige mais do cérebro que nossos ancestrais quadrúpedes e exercícios que demandam mais do cérebro são ainda melhores que a esteira da academia. Isso já foi demonstrado em roedores e até em humanos.

 

 

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Nossa história começa no ano de 2001 quando dois pesquisadores de Toronto no Canadá realizaram um estudo bastante provocativo. Redelmeier e Singh analisaram a longevidade de mais de 700 atores / atrizes que haviam atuado em filmes e que tenham recebido indicação ao Oscar.  Para cada ator / atriz indicado ao Oscar, eles identificaram um outro ator / atriz do mesmo sexo, com semelhante faixa etária e que havia participado do mesmo filme, mas que não havia sido indicado ao Oscar.

Todas as indicações de Oscar foram analisadas desde a criação da Academia até o ano 2000. Três grupos foram criados: 1) Vencedores: os que levaram a estatueta para casa; 2) Indicados: os que foram indicados, mas não ganharam; 3) Controles: nunca indicados e que nunca ganharam. Exemplos: Jack Nicholson foi classificado como Vencedor, pois já havia sido premiado três vezes na época; Richard Burton foi classificado como Indicado, pois já havia recebido sete indicações, mas nunca ganhou; Lorne Green era do grupo Controle, nunca indicado, e, claro, nunca ganhou.

Vejam só o que eles encontraram. De um total de 1649 artistas incluídos no estudo, 772 já haviam morrido. As principais causas de morte foram doença isquêmica do coração, derrame cerebral e câncer, e não foi diferente entre os três grupos. O nível educacional também não era diferente entre os grupos. Os Vencedores viveram cerca de 4 anos a mais que o grupo Indicados e o grupo Controles  (Vencedores: 79.7 anos; Indicados: 76,1 anos; Controles: 75.8 anos). Do ponto de vista estatístico, os Indicados apresentaram a mesma longevidade dos Controles. Entre os Vencedores, quanto mais jovens ao receber o Oscar, ou o primeiro Oscar, maior a longevidade. Os resultados não foram diferentes entre Vencedores de papel principal ou coadjuvante. Entretanto, os Vencedores de mais de um Oscar viveram 6 anos a mais que os controles: sorte do Jack Nicholson.

E como explicar esses resultados? A longevidade dos seres humanos tem sido consistentemente associada ao status socioeconômico. Os ricos vivem mais que os pobres. Aqueles que receberam maior contingente de educação formal também vivem mais. E por que será que o sucesso por si só também poderia nos trazer mais anos de vida? Vamos às hipóteses.

Pessoas de sucesso como os “Vencedores” são personalidades de grande visibilidade e buscariam andar na linha para não arranhar suas imagens. Muitas vezes, os próprios contratos com a indústria do cinema os obrigam a ter bons padrões de comportamento. Além disso, são cercados de assessoria para manter a forma física, boa alimentação, entre outros hábitos salutares. Conhecemos inúmeras histórias de celebridades que contrariam totalmente esse argumento, mas talvez não seja a regra. Nesse estudo, mesmo o grupo Controles apresentou maior longevidade que a média da população americana no mesmo período.

 

No ano de 2006 a mesma revista científica publicou uma crítica muito bem estruturada sobre o método de análise estatística do artigo publicado em 2001, sugerindo que o grupo Vencedor foi privilegiado, colocando em xeque os resultados de forma bastante contundente. Foi um balde de água fria, mas o assunto ainda não está encerrado. Ainda se discute que “Vencedores” podem até viver mais, mas não como consequência do sucesso. Ao invés disso, o sucesso seria o resultado do perfil de indivíduos com maior capital de saúde, e que também viveriam mais. Esse efeito foi sugerido em 2003 após análise da longevidade dos membros da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, comparando vencedores do Prêmio Nobel com não vencedores. Os vencedores do Prêmio Nobel viveram mais! Talvez essas celebridades tenham uma genética privilegiada não só do ponto de vista cerebral.

Redelmeier e Singh, os autores do estudo dos “vencedores”, analisaram também a longevidade de roteiristas de cinema e publicaram os resultados num dos mais respeitados periódicos científicos do mundo. A hipótese era de que o fato dos roteiristas gozarem de menos glória e sucesso que os atores, o efeito Oscar seria menos pronunciado. Resultado: aqueles que venceram o Oscar viveram três anos e meio a menos que aqueles que foram só indicados (Indicados: 77.7; Vencedores 74.1). Os roteiristas vencedores de Oscar que trabalhavam mais intensamente (maior média de filmes por ano) viviam menos ainda. Mesmo entre os roteiristas não agraciados com o Oscar, aqueles que escreviam mais filmes por ano também viviam menos. Discute-se que hábitos saudáveis talvez não sejam tão cobrados de roteiristas, pois muitos mantém-se em relativo anonimato quando comparados a atores / atrizes. Estudos anteriores já haviam evidenciado menor longevidade entre escritores, e uma das explicações é o estilo de vida menos saudável (ex: inatividade física, sono irregular). Questões até mesmo existenciais são contempladas, especialmente no caso dos poetas.

Ao fazermos um balanço geral dessas informações à luz do conhecimento atual, é bem razoável pensar que indivíduos com perfil genético vantajoso viverão mais e terão também mais chances de atingirem o sucesso (vantagens cerebrais). A vida de celebridade realmente pode ser um fator modulador positivo dos hábitos de vida, e isso precisa ser melhor investigado. No caso dos roteiristas, precisamos ser cautelosos e não sairmos dizendo por aí que trabalho faz mal à saúde, pois sabemos que faz bem quando é realizador e bem dosado. Melhor ainda quando associado a outros hábitos saudáveis. Certamente muitos cinéfilos argumentarão que vincular talento e sucesso no universo do cinema à estatueta é no mínimo discutível. Na pesquisa dos roteiristas de cinema, o Oscar mais uma vez foi a medida do sucesso.  No grupo daqueles que foram só indicados, mas nunca venceram, podemos encontrar nada mais, nada menos que Stanley Kubrick, Ingmar Bergman e Frederico Fellini. Não deve ter sido a falta de sucesso e talento que fez Bergman viver 91 anos.

 

 

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Estudos frequentemente citados demonstram que quase metade das pessoas contam uma a duas mentiras por dia, mas uma pesquisa recém-publicada pelo periódico PLOS ONE mostra que 40% das mentiras têm origem numa pequena parcela da população. A maioria das pessoas não mente com tanta frequência. A pesquisa ainda aponta que os homens acham que mentem melhor  que as mulheres duas vezes mais. 

 

Os mentirosos costumam ser falastrões e preferem mentir pessoalmente ao invés de usar telefone, mensagens digitais e mídias sociais. E isso acontece de forma difusa: com familiares, amigos e colegas de trabalho. o par romântico, e a mentira é menos comum com os chefes.

 

Uma das maiores estratégias dos mentirosos é contar histórias plausíveis, próximas da realidade, de forma clara e sem fornecer muitos detalhes. Quanto melhor uma pessoa achar que mente , mais mentiras ela propagará. Os tipos de mentira mais frequentemente encontrados nessa amostra de 200 pessoas, em ordem decrescente, foram: mentiras “brancas” (inocentes: falar que a comida estava ótima quando na verdade…), exageros, informação velada e fantasias.

 

 

 

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Brown Wooden Arrow Signed

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A comunicação de um alerta, seja para seu filho, ou mesmo em uma campanha de promoção de saúde, deve evitar a ideia de que muitas pessoas têm o hábito de fazer aquilo que você não quer que seja feito. Quando passa a impressão de que um mau comportamento é popular, seu interlocutor tem menos chance de seguir seu conselho de ir na direção oposta. Ele vai pensar, mesmo que de forma inconsciente, que o comportamento indesejado por você é a norma social.

A revista Scientific American trouxe recentemente uma série de exemplos reais que devem servir de alerta a pais, educadores, jornalistas, a quem trabalha com políticas públicas e a qualquer um que espera que seu conselho seja seguido. Veja alguns exemplos:

-Campanha antidrogas promoveu o aumento do consumo de drogas entre estudantes ao passar a ideia de que as drogas estão em todos os cantos da cidade

-Campanha para prevenção de suicídio entre adolescentes que enfatizava a alta  incidência do problema aumentou o número daqueles que passaram a pensar em terminar com a própria vida

-Sonegação fiscal aumentou após a campanha de que as multas seriam aumentadas em seus valores já que muitas pessoas tinham sonegado no último período

-A mensagem de um Parque Nacional “Muitos visitantes anteriores levaram pedras para casa. Não faça as coisas piorarem levando mais pedras” levou a mais roubos do que a frase dizendo “Por favor, não leve para casa pedras do parque.

-Numa eleição, chamar a atenção para a porcentagem dos que não compareceram às urnas pode aumentar o número de abstenções

-Ao dar orientações sobre a necessidade de fugir do sedentarismo, tabagismo ou sexting, por exemplo, o tiro pode sair pela culatra se a mensagem for carregada da realidade epidêmica desses problemas

Alguns exemplos de mensagens bem-sucedidas:

-Fotos de doenças nos maços de cigarro e campanhas que trazem o número de mortes por tabagismo ao invés de chamar a atenção para a grande frequência do hábito

-Enviar correspondência a médicos dizendo que eles estão prescrevendo mais antibióticos por paciente do que a maioria dos seus colegas de profissão

-Correspondência aos motoristas de uma cidade dizendo que a maioria paga suas multas dentro de 13 dias

-O hotel deixa uma mensagem dizendo que a maioria dos hóspedes reutilizam as toalhas

-Você terá mais chance de ir votar se receber uma mensagem lembrando que a maioria dos seus vizinhos estão votando

O uso do conhecimento das ciências sociais para influenciar o comportamento dos outros não é simples, mas se feito de forma correta, pode ser altamente eficaz em inúmeras dimensões do nosso dia a dia. Isso vai desde o conselho para o seu filho até campanhas publicitárias de promoção de saúde, engajamento cívico e ecológico, etc.

Man And Woman Wearing Brown Leather Jackets

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Memória de trabalho é a capacidade que nosso cérebro tem de guardar simultaneamente várias informações ao resolver um problema. Mais ou menos assim: quanto é cinco mais a soma de sete com seis mais a soma de oito com nove? Sua memória de trabalho lhe permite chegar ao resultado de 35. Esse foi um exemplo matemático, mas precisamos da memória de trabalho numa simples conversa, mantendo na memória os pontos que o outro está lhe falando. Um estudo recém-publicado pelo Journal of Experimental Psychology General demonstrou que esta habilidade facilita a relação entre os casais.

Pesquisadores da Universidade da Carolina do Norte nos EUA conduziram um estudo longitudinal mostrando que quanto maior a capacidade de memória de trabalho num casal maior também a redução da severidade nos problemas de relacionamento que enfrentam. Todo relacionamento atravessa problemas de tempos em tempos, mas a forma como esses problemas são resolvidos determina o quanto a relação é satisfatória e duradoura.

Eles acompanharam uma centena de casais que tinha uma união estável há menos de três meses. Os voluntários eram submetidos inicialmente a uma bateria de testes para medir a capacidade da memória de trabalho e em seguida passavam por duas discussões que envolviam resoluções de problemas da relação. Cada um escolhia um tópico que achava que podia ser melhorado se o outro mudasse seu comportamento. Quatro e oito meses após as discussões eles eram interrogados sobre o quanto aqueles problemas melhoraram ou pioraram. Os casais que apresentaram melhor desempenho na memória de trabalho tinham uma tendência em ter seus problemas minimizados com o tempo. Eles também se lembravam mais das posições do outro durante as discussões.

São várias as razões que explicam uma menor memória de trabalho entre os voluntários. Essas causas vão desde à característica inerente do indivíduo, aquela que que o seu desenvolvimento cerebral ao longo dos anos lhe permitiu, até fatores situacionais como estresse, cansaço mental e falta de interesse. Independente da razão, se na discussão da relação, a memória de trabalho do outro é ineficiente, menores as chances de sucesso na compreensão e atitude frente aos problemas.

Dica valiosa desse estudo: se for discutir a relação escolha um momento que ambos estão descansados e com a atenção plena. Que tal combinar um café no começo do dia?

Red and White Dart on Darts Board

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Quando pensamos em sucesso vêm às nossas mentes conceitos como boas ideias, trabalho duro, disciplina, criatividade, imaginação, perseverança e até sorte. O que uma pesquisa recente publicada pela Nature nos aponta é que os fracassos devem fazer parte dessa lista também. Mas não é qualquer fracasso. São aqueles que fazem a gente nos aprimorar para as próximas tentativas e que estas não demorem a acontecer.

Os autores do estudo mostram que o que separa os “winners” dos “losers” não é a persistência. Ambos tentam o mesmo número de vezes para alcançar o objetivo, só que os “winners” chegam lá. Eles trabalham duro da mesma forma, mas de forma mais esperta. Os fracassos servem de guias para o aperfeiçoamento para a próxima tacada. Não agem com impulsividade diante de uma batalha perdida. Estão pensando em vencer a guerra. Os “losers” não necessariamente trabalham menos, mas fazem mudanças de táticas além do necessário.

Outro ponto que diferenciava os projetos de sucesso foi a rapidez com que as novas tentativas aconteciam. Quanto mais rapidamente você perceber o fracasso e se organizar para uma próxima investida, melhor. O orientador da minha tese de doutorado, Fernando Cendes, me introduziu esse conceito de forma muito convincente. “Ricardo, se você não encontrar os resultados que procura nessa amostra de 20 indivíduos, não adianta procurar em outros cem. Mude sua tática”.

As conclusões do estudo não querem dizer que disciplina e sorte, por exemplo, não tenham seu valor. Mas se todos têm esses atributos de forma equânime, usar o fracasso de forma inteligente e rápida faz toda a diferença. Os pesquisadores estudaram milhares de pedidos de financiamento de pesquisa e desempenho de startups. Curiosamente avaliaram também o “sucesso” de terroristas e atentados sem mortos foram considerados fracassos. Os resultados foram aplicáveis para esses três diferentes universos e provavelmente para muitos outros que não foram estudados aqui.

White and Blue Crew-neck T-shirt

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A história que veremos abaixo já foi demonstrada também no tratamento de dor crônica, rinite alérgica, enxaqueca e síndrome do intestino irritável. Dessa vez o caso foi com a ansiedade antes de fazer uma prova. O uso do placebo, mesmo que o voluntário saiba que é placebo o que está usando, pode trazer benefícios em todas essas condições.

 

Um estudo recém-publicado pelo periódico Scientific Reports apontou que voluntários que usam pílulas de placebo por duas semanas antes de uma prova apresentam menos ansiedade na véspera da prova e ainda se sentiam mais confiantes. O curioso é que eles sabiam mesmo que era placebo. Eram instruídos que placebo pode ter efeitos significativos e que, se fossem sorteados a usá-los, deveriam ter um pensamento positivo para potencializar seu efeito.

 

Mas por que o placebo funciona? Uma possível explicação é a de uma resposta condicionada. Em alguns momentos da vida os voluntários tiveram boa experiência com o uso de pílulas “verdadeiras” e que, ao usar o placebo, esses mesmos resultados repetiram-se. Outra explicação é a de que o uso diário do placebo fez com que os participantes passassem a pensar mais na ansiedade durante a prova promovendo a sensação de que estavam fazendo algo para evitá-la. É claro que tudo isso se dá na nossa mente, no nosso cérebro.

 

Um estudo publicado no ano de 2001 pela revista Science deu uma balançada naquilo que a comunidade científica até então entendia como efeito placebo. Pacientes portadores da Doença de Parkinson receberam medicação específica para a doença (levodopa) ou pílulas placebo e o surpreendente foi que tanto os pacientes que receberam a medicação como aqueles que receberam placebo, e que tiveram boa resposta clínica, demonstraram aumento das concentrações de dopamina no cérebro.

 

Em outro estudo mais recente, publicado pela revista Neurology, pesquisadores de Luxemburgo mostraram que pacientes com a Doença de Parkinson que tinham boa resposta ao placebo apresentavam aumento de dopamina no cérebro em regiões que são comuns ao efeito cerebral de recompensa. Isso sugere que o fator “expectativa positiva” pode ter um importante papel no efeito placebo.

 

Em quadros de dor, também há evidências de que o placebo muda quimicamente o cérebro, dessa vez através da liberação de opióides endógenos, efeito que pode ser desfeito através de medicações que bloqueiam o efeito de medicações opióides. As mudanças químicas também ocorrem em quadros depressivos, sendo que o placebo apresenta efeito muito semelhante às drogas que aumentam a concentração de serotonina (ex: fluoxetina). Nessas duas condições, a “expectativa positiva” também parece ser a forma como o cérebro faz com que o efeito placebo funcione.   E essa parece ser a explicação do porquê de algumas pessoas responderem positivamente ao placebo e outras não. Há evidências de que bons respondedores apresentam expectativa de receber maiores recompensas, e têm maior ativação do sistema de recompensa cerebral, não só na situação de tratamento, mas também em situações de jogos que envolvem recompensa em dinheiro.

 

Em 2016, o British Medical Journal publicou uma pesquisa revelando que a maioria dos americanos não vê problema em receber uma medicação placebo. O estudo envolveu 853 voluntários com idades entre 18 e 75 anos que eram acompanhados por alguma condição clínica crônica. Apenas 22% achavam inaceitável o uso de placebo. O restante considerava o placebo uma alternativa possível nos casos em que o médico tem clareza que os benefícios são maiores que os riscos e, melhor ainda, quando existir transparência no que está sendo proposto quando o médico é interrogado.

 

 

 

Woman Listening on Headphones

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O cérebro humano é capaz de reconhecer uma música familiar em menos de um segundo. Pesquisadores da University College of London demonstraram recentemente que, quando se trata de uma música familiar, o cérebro é capaz de reconhecê-la em 100 a 300 milissegundos, apontando o grau que essas músicas estão presentes em nossa memória. O estudo foi publicado no final de outubro na conceituada revista Scientific Reports.

Os voluntários da pesquisa listaram cinco músicas que tinham bastante familiaridade e os pesquisadores escolheram uma delas. Os pesquisadores ainda escolhiam uma música desconhecida pelos voluntários, mas que tinham a mesma estrutura de melodia, ritmo, instrumentação, de vocais e harmonia. Ao apresentarem por menos de um segundo as músicas conhecidas e desconhecidas de forma aleatória, evidenciou-se que as músicas familiares provocavam respostas do sistema nervoso central entre 100 e 300 milissegundos, algo que não aconteceu com as músicas desconhecidas. Essa resposta cerebral foi medida através de eletrencefalografia e dilatação pupilar, refletindo respostas de excitação a estímulos emocionalmente relevantes. Um grupo controle foi composto por estudantes asiáticos que só experimentaram músicas desconhecidas e essas respostas rápidas não ocorreram em nenhum dos voluntários.

Os achados, além de expandirem o conhecimento da neurociência, podem ter aplicações em uma série de intervenções terapêuticas baseadas na música. Doença de Alzheimer é um exemplo de futuras aplicações, condição em que a memória musical é desproporcionalmente bem preservada.

E por falar em música, o periódico Current Biology publicou um estudo muito interessante este mês, conduzido pelo Instituto Max Planck na Alemanha e colaboradores, mostrando que as músicas que julgamos prazerosas são aquelas em que existe um balanço entre surpresa e previsibilidade. Sentimos prazer quando estamos certos quanto ao próximo acorde e somos surpreendidos com algo bem diferente. Ao mesmo tempo, é prazeroso quando estamos incertos quanto aos próximos acordes e ouvimos algo previsível. Os pesquisadores mapearam as regiões do cérebro envolvidas nessa interação sinergística (amígdala, hipocampo e córtex auditivo), sendo que o nucleus accumbens mostrou-se ativado apenas com o fenômeno da incerteza.

People Sitting Beside Table

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Um estudo recém-publicado na revista The American Journal of Clinical Nutrition por pesquisadores da Universidade de Birmingham na Inglaterra avaliou o conjunto de 42 pesquisas que investigaram o efeito social da ingesta durante uma refeição. Os resultados nos mostram um fenômeno de “facilitação social” quando fazemos uma refeição com parentes ou amigos. Em outras palavras, comemos mais quando estamos acompanhados por pessoas conhecidas.

Esse efeito é visto como um comportamento ancestral de caçadores / coletores em que a refeição compartilhada é um momento de se proteger para um futuro próximo de insegurança alimentar. Além disso, a refeição compartilhada é mais prazerosa e, ao oferecer alimento para o seu grupo, ligações sociais são reforçadas. Uma má divisão do alimento pode levar ao ostracismo aquele que come mais. Dessa forma, com o instinto de modular as alianças entre as pessoas do grupo, os que comem menos acabam tendo uma maior ingesta quando em companhia dos seus pares.

A facilitação social não ocorre quando comemos com pessoas que temos pouca intimidade, pois queremos passar uma boa impressão para os estranhos. Isso é particularmente pronunciado entre mulheres que querem passar uma boa imagem para o homem e entre mulheres obesas que não querem ser taxadas de comilonas por desconhecidos ou quase desconhecidos.

100 and 50 Brazilian Reais Banknotes

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Por Dr. Ricardo Teixeira

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Uma pesquisa que acaba de ser publicada pelo jornal Neurology da Academia Americana de Neurologia mostra que os jovens que passam por redução de ganhos financeiros anuais maior que 25% têm um cérebro menos afiado ainda na meia idade.

 

O estudo envolveu mais de três mil jovens americanos com idades entre 23 e 35 anos que foram acompanhados por 20 anos. O grupo de jovens que apresentou dois ou mais períodos de queda dos proventos (>25%) apresentavam menor desempenho nos testes cognitivos mesmo quando se ajustava fatores como escolaridade, atividade física, tabagismo e hipertensão arterial. Cerca de 700 voluntários também foram submetidos a exames de neuroimagem no início do estudo e 20 anos depois. Aqueles com maior instabilidade financeira tiveram maior redução do volume cerebral e uma piora do padrão de conectividade entre as diversas regiões cerebrais.

 

São várias explicações possíveis para esses achados. As reduções de proventos podem dificultar o acesso à assistência médica e consequente déficit de tratamento de problemas de saúde. Estudos anteriores mostram que condições financeiras desfavoráveis aumentam o risco de doenças como depressão, ansiedade, obesidade, hipertensão arterial, que por si só já estão associados a um menor desempenho cognitivo. A instabilidade financeira pode reduzir as oportunidades de estímulos cerebrais saudáveis como incrementos na educação formal, um trabalho desafiador, atividade física, lazer, etc.

 

Os autores nos lembram de que políticas que minimizam esses altos e baixos de rendimentos, como seguro desemprego, podem favorecer a saúde cerebral da população. Mais de um terço dos lares americanos apresentou redução dos proventos maior que 25% entre os anos de 2014 e 2015.

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Sabemos que o excesso de trabalho intelectual deixa nosso cérebro cansado, fazendo com que tenhamos comportamentos mais impulsivos e uma menor atividade de uma região frontal do cérebro que modula nossas funções executivas e de tomada de decisões. Um estudo recém-publicado pelo periódico Current Biology nos mostra que o exagero na atividade física provoca o mesmo efeito.

O estudo nos sugere uma conexão entre o esforço físico e mental: ambos requerem controle cognitivo. No caso de atletas de resistência, as várias horas que mantêm fazendo a atividade necessitam do cérebro para manter o esforço físico e alcançar a meta distante. O cérebro precisa trabalhar para não deixar o corpo parar quando os músculos e as articulações começam a doer. A pesquisa foi conduzida pelo instituto que treina os atletas olímpicos na França e os voluntários eram triatletas que passaram três semanas fazendo um treino 40% mais intenso que o habitual.

 

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Uma boa parte das pessoas que tem o hábito da siesta diz que, na verdade, é a reposição de um sono atrasado. Aqueles que trabalham em turno invertido podem tirar os cochilos como forma de se preparar para uma noite de trabalho. Outros vão responder que fazem a siesta por puro prazer. Mas o fato é que a siesta traz muitos benefícios à saúde.

 

Os ganhos à saúde vascular são incontestáveis. O jornal Heart acaba de publicar uma pesquisa mostrando que a soneca uma a duas vezes por semana reduz para quase metade o risco de ataque cardíaco ou acidente vascular cerebral. E os benefícios se estendem também às funções cerebrais não vasculares.  O hábito de tirar um cochilo de uns 20 minutos depois do almoço melhora o humor das pessoas e dá uma turbinada nas funções cognitivas como memória, atenção, raciocínio lógico e tempo de reação. Outro fato interessante é que os “siesteiros” têm um sono noturno mais reparador.

 

Dez minutos já é uma soneca boa, mas parece que as de 20 minutos são melhores ainda. Siestas mais prolongadas não são recomendadas, pois deixam as pessoas com “ressaca” ao acordar de um sono que atingiu estágios profundos.  Além disso, siestas longas podem atrapalhar o sono durante a noite.  Para melhor sincronia com o relógio biológico, o horário ideal gira em torno de duas às quatro da tarde.

 

É bastante tentador imaginar que no mundo contemporâneo, com todo o estresse que vivemos, temos menos chances de ter o hábito da siesta quando comparados aos nossos ancestrais. Mas a história parece que não é bem assim. O registro da rotina de sono de comunidades de caçadores-coletores na Namíbia, Tanzania e Bolívia que vivem sem luz elétrica apontou que eles, como a maioria de nós, não têm o hábito de tirar cochilos durante o dia.

 

Por fim, para aqueles que sofrem de insônia, deixem a siesta para os outros.

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Acompanhe o quadro CUCA LEGAL com o Dr. Ricardo Teixeira na Rádio CBN Brasília às quartas-feiras no horário de 11:35h

Também às segundas no Correio Braziliense

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