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Low Angle Shot of Man Reading Newspaper

Um pouco de humor pode facilitar a comunicação com o público jovem quando o tema é política. Pesquisadores das Escolas de Comunicação das Universidades da Pensilvânia e Ohio nos EUA obtiveram esses resultados após apresentações de vídeos de notícias com ou sem um componente de humor ao final. Os voluntários tinham entre 18 e 34 anos e lembraram-se mais do conteúdo dos vídeos que terminavam com teor de humor além de expressarem maior intenção de compartilhar esses vídeos com outras pessoas.

Enquanto assistiam aos vídeos os participantes do estudo eram submetidos ao exame de Ressonância Magnética Funcional que mostrou que o humor levou a uma maior ativação de regiões do cérebro envolvidas na percepção da emoção de outras pessoas, reforçando a tese do papel de coesão social do humor. Emoções positivas podem ser vistas do ponto de vista evolutivo como um mecanismo que facilita as relações sociais ao promover sentimentos prazerosos nas pessoas, recompensar os esforços dos outros e encorajar a continuidade da relação social. E o sucesso da espécie humana depende de sua capacidade de fazer relações sociais.

Scenic View of the Forest During Sunrise

Vocês irão concluir que o oxigênio do título acima refere-se ao espaço verde, mas tem outras conotações também. Pesquisas têm revelado que durante a pandemia as pessoas têm procurado mais contato com a natureza. O mais recente estudo foi conduzido no estado de Vermont nos EUA durante os primeiros meses da pandemia, numa época de fechamento de escolas e comércio não essencial e restrição de viagens. Dois terços dos moradores passaram a visitar os parques naturais com maior frequencia e 80% declararam que as visitas aos parques passaram a ter uma importância ainda maior na pandemia para o equilíbrio físico e mental. Entre aqueles que em 2019 não tinham o hábito de frequentá-los, 26% passaram a aproveitar os parques nesse período.    

Em tempos de crise como a que vivemos agora, a garantia de acesso ao espaço verde deve ser vista como uma questão de saúde pública para mitigar os impactos mentais negativos em situações dramáticas. Em 2011, a cidade de Futaba no Japão sofreu simultaneamente um terremoto, um tsunami e um acidente nuclear. O governo imediatamente recriou uma série de ecossistemas na cidade para promover o bem estar psíquico da população.

E falando um pouco mais de catástrofe e governos, o presidente da Coalisão de Saúde Mental Mundial recentemente rejeitou a orientação da Associação Americana de Psiquiatria ao dar um diagnóstico psiquiátrico a uma pessoa pública, no caso, Donald Trump, sem examiná-lo pessoalmente. A Coalizão se valeu da Declaração de Genebra que defende que médicos podem se expressar quando frente a governos destrutivos, Declaração criada após a experiência do Nazismo.

De acordo com a Coalisão, o fenômeno Trump e seus seguidores estão embasados em um narcisismo simbiótico e uma psicose compartilhada. Por narcisismo simbiótico devemos entender que um líder, faminto por adulação para compensar sua baixa autoestima, projeta uma onipotência grandiosa, enquanto seus seguidores, carentes pelo estresse social e econômico, buscam ansiosamente por uma figura parental. Quando esses indivíduos assumem posições de poder, eles elicitam a mesma patologia numa parte da população com encaixe perfeito, como uma chave feita para aquela fechadura. Quanto à psicose compartilhada, eles a chamam também de folie à million. Folie à deux (loucura a dois) é um fenômeno descrito na psiquiatria desde o século XVII e refere-se a sintomas delirantes compartilhados por duas pessoas geralmente da mesma família ou próximas. A folie à deux também é chamada de transtorno psicótico induzido, e folie à million, socorro! Quando um indivíduo muito sintomático é colocado em posição de poder e influência, seus sintomas podem se propagar à população por meio de ligações emocionais, amplificando patologias pré-existentes e afetando até indivíduos previamente saudáveis. E o fator delirante provavelmente é mais forte do que um cálculo estratégico, pois ele se dissemina mais facilmente.          

É importante salientar que os indivíduos com transtornos mentais como um grupo não são mais perigosos que a população geral, mas quando o transtorno mental vem acompanhado de componentes destrutivos, esses indivíduos são mais perigosos sim. E de onde vem esse elemento destrutivo? Simplificando, se uma pessoa não recebe amor, ela busca respeito. Se ela não tem o respeito, ela realiza ameaças. Trump vive hoje a rejeição e a violência é uma compensação à perda de poder.

Esta não é uma história de ficção e qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real aqui nos trópicos não é mera coincidência. 

“Aí, maloqueiro / levanta essa cabeça / enxuga essas lágrimas, sério / respira fundo e volta pro ringue / você vai sair dessa prisão / você vai atrás desse diploma / com a fúria da beleza do sol, entendeu / faz isso por nós / faz essa por nós / te vejo no pódio”. (Trecho de encerramento de AmarElo – Emicida)

Artistas de Rap são celebridades fortemente reconhecidas pelo público jovem não só nos EUA, mas em inúmeros países em todo o mundo. Uma análise qualitativa das letras das 125 músicas americanas mais populares desse estilo entre os anos de 1998 e 2018 mostrou que houve um significativo aumento da abordagem de temas relacionados à saúde mental: suicídio de 0% para 12%, depressão de 16% para 32% e metáforas relacionadas à saúde mental de 8% para 44%. Nesse mesmo período houve um drástico aumento na prevalência de transtornos mentais entre os jovens americanos.

O estudo acaba de ser publicado pelo periódico JAMA Pediatrics. Novas pesquisas são necessárias para examinar os efeitos negativos e positivos desse aumento substancial nas mensagens que abordam a saúde mental. Pode ser positivo, pois tem o potencial de reduzir o estigma dos transtornos mentais e aumentar a busca por tratamento. Ansiedade, por exemplo, afeta 30% dos adolescentes, mas 80% deles nunca procuraram assistência médica ou psicológica. Apenas 50% dos adolescentes com depressão são diagnosticados antes de atingirem a idade adulta.

Enquanto isso na pandemia… Nos EUA, sintomas de ansiedade triplicaram quando comparado ao ano de 2019 e sintomas depressivos quadruplicaram. A mudança é bem maior à encontrada após o atentado terrorista de 11 de setembro ou o furacão Katrina. E os jovens são especialmente vulneráveis. Cerca de 63% dos americanos com idades entre 18 e 24 anos demostram nesse período de pandemia transtornos de ansiedade ou depressão, 25% relatam que bebem e fumam mais devido ao estresse associado à pandemia e que já consideraram “seriamente” a possibilidade de cometer suicídio.

Unrecognizable female meditating on grass in highlands on sunny day

Por Dr. Ricardo Teixeira*

Pesquisadores da Universidade Wisconsin-Madison nos EUA nos brindaram com um super presente neste fim de ano, uma revisão cuidadosa das dimensões da nossa mente que podem ser treinadas para alcançarmos um melhor equilíbrio psíquico no nosso dia a dia. Depois de nove meses nas incertezas geradas pela pandemia, isso se torna uma ferramenta extremamente útil para nosso bem-estar. Uma pesquisa recente nos EUA demonstrou que enquanto no início da pandemia 33% dos americanos se sentiam afetados psicologicamente, em julho os números já eram de 53%   


O primeiro aspecto a ser treinado é a consciência, atenção ao meio em que se vive, aos sentimentos, pensamentos e sensações. Exercícios de meditação e psicoterapia são ferramentas preciosas para melhorar esse nível de consciência. Um estudo conduzido em 83 países apontou que os adultos passam em média 47% do tempo em que estão acordados sem essa consciência, essa atenção, como se estivessem no piloto automático. E acreditem, ao exercitar a consciência, temos mudanças críticas em circuitos neuronais que facilitam nossa vida.

O segundo exercício é o de conexão, que pode ser chamada também de valorização do outro, bondade e compaixão. É um senso de cuidado aos outros do nosso círculo social e também fora desse círculo com ações humanísticas, altruístas.

O terceiro exercício é para fortalecer nosso insight, ou seja, nosso discernimento, entender a maneira como nossas emoções, pensamentos e crenças afetam nossa experiência subjetiva. Ao nos encontrarmos ansiosos numa dada situação, o insight nos permite reconhecer como as memórias de experiências anteriores colaboram para uma expectativa exagerada de resultados negativos. Psicoterapia e algumas formas de meditação podem fazer nosso insight florescer.  

E enfim o quarto exercício é o de encontrar nosso propósito de vida. É deixar claro quais são nossos valores e objetivos na vida. Estudos mostram que valores e objetivos orientados ao poder e dinheiro têm menores resultados no bem-estar psíquico quando comparados a uma missão de vida voltada às conexões sociais e a contribuições à comunidade. Existem alguns tipos de psicoterapia voltadas ao treinamento de nossa mente para se manter fiel à nossa missão. O psiquiatra austríaco e sobrevivente do Holocausto Viktor Frankl disse: “A vida não deixa de ser suportável por conta das circunstâncias, mas quando ela deixa de fazer sentido”.

Esse treino pode e deve ser diário e promete fazer com que passemos a ser os reais pilotos da nossa mente.

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*Dr. Ricardo Teixeira é neurologista e Diretor Clínico do Instituto do Cérebro de Brasília

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Nos últimos meses ouvimos quase que diariamente a recomendação de evitar aglomerações e muitos estão separados da família e dos amigos, com uma vida social bem diferente do que era antes da pandemia. E o que acontece com nosso cérebro quando subitamente reduzimos nossas interações sociais? 

Pesquisadores alemães trouxeram algumas respostas após um período de isolamento na Antártida por mais de um ano. Quando voltaram à civilização, percebiam quase tudo de forma distinta. As cores, as plantas e as pessoas, por exemplo. O cérebro parecia não ser mais o mesmo. A maior parte da equipe voltou com menores volumes dos hipocampos, estruturas cerebrais fortemente ligadas à memória, navegação espacial e emoções. Essa mudança estrutural já havia sido apontada entre presos na solitária. 

Neste último mês, um estudo conduzido pelo MIT nos EUA mostrou as mudanças funcionais no cérebro após um isolamento social em laboratório por 10h, sem acesso a dispositivos eletrônicos, livros ou qualquer passatempo. Assim como ficamos fissurados por comida após um período de jejum prolongado, o isolamento social leva à fissura por pessoas, envolvendo circuitos idênticos no mesencéfalo, estrutura no tronco cerebral. O mesmo já havia sido demonstrado entre camundongos. 

Isso nos mostra, em outras palavras, o tanto que as interações humanas são uma necessidade básica do ser humano, não muito diferente da comida! E enquanto não formos todos vacinados, vamos manter fortes nossas interações virtuais.    

Grey Metal on Soil

O cérebro de adultos jovens se recupera mais rápido de um desafio vascular e ainda tem um desempenho cognitivo melhor após o consumo de cacau rico em flavanols, substâncias encontradas em vários vegetais, especialmente nas frutas vermelhas, e que tem reconhecido papel protetor vascular. Essa é conclusão de um estudo recém-publicado pelo periódico Scientific Reports.

Dezoito adultos jovens inalaram ar com altas concentrações de gás carbônico que leva ao aumento do fluxo sanguíneo cerebral e oxigenação. Quando ingeriam cacau com altos teores de flavanols duas horas antes do teste o aumento do fluxo sanguíneo era maior do que após a ingesta de cacau processado com baixos teores dessas substâncias. Além disso, o desempenho em testes cognitivos complexos foi superior com os flavanols, o que não fez diferença em testes cognitivos simples. Os níveis de máxima oxigenação cerebral durante o teste chegou a ser mais de três vezes maior após a ingesta do cacau rico em flavanols quando comparado ao cacau com poucos flavanols. Quatro dos 18 voluntários não tiveram aumento de oxigenação e desempenho cognitivo, mas foram aqueles que já tinham um alto nível de oxigenação antes da testagem, sugerindo que tinham pouco a ganhar, pois já tinham uma condição fisiológica privilegiada. 

Um chocolate escuro não é necessariamente rico em flavanols. O próprio processo industrial de alcalinização do chocolate usado para melhorar sua consistência, aparência e para reduzir o sabor amargo, além de escurecer o chocolate, também joga pelo ralo os flavanols. E como os fabricantes não especificam nos rótulos a concentração dessas preciosas substâncias, é difícil saber ao certo o que um chocolate amargo realmente pode nos oferecer. Talvez nos próximos anos os fabricantes de chocolate comecem a registrar em seus rótulos a concentração de flavanols, ao invés de simplesmente dizer se o chocolate tem 70, 80 ou 90% de cacau.

Woman in Green and White Stripe Shirt Covering Her Face With White Mask

Nos últimos meses ouvimos quase que diariamente a recomendação de evitar aglomerações e muitos estão separados da família e dos amigos, com uma vida social bem diferente do que era antes da pandemia. E o que acontece com nosso cérebro quando subitamente reduzimos nossas interações sociais?

Pesquisadores alemães trouxeram algumas respostas após um período de isolamento na Antártida por mais de um ano. Quando voltaram à civilização, percebiam quase tudo de forma distinta. As cores, as plantas e as pessoas, por exemplo. O cérebro parecia não ser mais o mesmo. A maior parte da equipe voltou com menores volumes dos hipocampos, estruturas cerebrais fortemente ligadas à memória, navegação espacial e emoções. Essa mudança estrutural já havia sido apontada entre presos na solitária.

Neste último mês, um estudo conduzido pelo MIT nos EUA mostrou as mudanças funcionais no cérebro após um isolamento social em laboratório por 10h, sem acesso a dispositivos eletrônicos, livros ou qualquer passatempo. Assim como ficamos fissurados por comida após um período de jejum prolongado, o isolamento social leva à fissura por pessoas, envolvendo circuitos idênticos no mesencéfalo, estrutura no tronco cerebral. O mesmo já havia sido demonstrado entre camundongos. Isso nos mostra, em outras palavras, o tanto que as interações humanas são uma necessidade básica do ser humano, não muito diferente da comida! E enquanto não formos todos vacinados, vamos manter fortes nossas interações virtuais.    

Close-Up Photo of Woman Using Phone

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Você prefere ganhar 100 reais hoje ou esperar uma semana para ganhar 120? Um recente estudo conduzido por pesquisadores de Berlin na Alemanha aponta que quanto mais usamos os smartphones, especialmente com jogos e aplicativos de redes sociais, maior a tendência em escolhermos a primeira alternativa: 100 reais agora.  


Estudos anteriores já haviam demonstrado similaridades comportamentais entre o uso excessivo de smartphones e comportamentos como abuso de álcool e outras drogas, assim como jogo compulsivo. Esses estudos foram baseados na descrição por parte dos usuários da quantidade de horas diárias da utilização do dispositivo, mas nessa nova pesquisa os voluntários tiveram seus smartphones monitorados para quantificação dos diferentes usos por 7 a 10 dias. Além disso, eles eram submetidos a testes que acessavam o autocontrole e o comportamento diante de recompensas.    

Os resultados apontaram que as atividades no smartphone mais associadas a um comportamento impulsivo foram aqueles que estimulam recompensas de forma mais explícita como os jogos e redes sociais.  O tempo de uso em aplicativos de compras, música e podcasts, e-mails não mostrou associação com o comportamento de impulsividade pela recompensa. 

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Há estimativas que cerca de 10% dos adultos sofrem de zumbido em algum momento da vida e um quarto deles tem a forma crônica dessa condição por mais de 15 anos. Também conhecido por tinnitus, trata-se de ruídos fantasmas que percebemos sem que eles existam de fato e que podem levar a dificuldades de concentração, cansaço mental, ansiedade e redução da qualidade de vida.   

Boas notícias. Um novo dispositivo capaz de modular os circuitos cerebrais mostrou-se eficaz na redução do problema. Pesquisadores da Universidade de Minnesota nos EUA já haviam demonstrado que a estimulação elétrica da língua é capaz de ativar neurônios do sistema auditivo. Agora eles conduziram um estudo com 326 voluntários que foram submetidos à aplicação de um dispositivo que promove pulsos sonoros por um fone de ouvido associado a discretos estímulos elétricos na língua, uma hora diária por um período de 12 semanas.

Os resultados foram publicados recentemente no periódico Science Translational Medicine e mostrou que diferentes formas de pulsos sonoros e estimulação elétrica da língua foram capazes de reduzir o desconforto com o zumbido em 80% por até um ano. O estudo agora precisa ser replicado por outros grupos de pesquisadores não vinculados à comercialização do dispositivo. Também deverão ser publicados em breve a neuroimagem das modificações nos circuitos cerebrais promovidas pelo método.   

Photo of a Man Sitting Under the Tree

Temos inúmeras evidências do quanto a natureza é benéfica para o cérebro e nosso equilíbrio psíquico. Indivíduos que passeiam por áreas arborizadas têm menor produção de cortisol, o hormônio do estresse, do que aqueles que fazem o mesmo numa rua comercial agitada.  Uma pesquisa recente aponta que esse benefício já acontece com 20 minutos de uma vivência em ambiente arborizado, independente de atividade física.

Alguns países como a Finlândia, Inglaterra, Japão e Coréia do Sul já entenderam bem o recado e têm programas de “banhos de floresta” como forma de promoção da saúde. São muitos os benefícios já demonstrados com essas “pílulas de natureza”. Além da promoção do equilíbrio psíquico, temos ganhos na atenção, memória, linguagem e até na capacidade criativa. Também temos menores índices de doença cardiovascular, obesidade, diabetes, hospitalização por crises de asma e, finalmente, menor mortalidade.

A conclusão lógica é que isso deve fazer parte da prescrição médica, mas um estudo que acaba de ser publicado pela prestigiada revista Scientific Reports mostra que pacientes com ansiedade e depressão colhem os frutos dessa imersão na natureza somente se o fazem de forma voluntária. A prescrição médica de contato com o verde até provocava piora dos sintomas de ansiedade.

Esse último estudo envolveu mais de 18 mil voluntários de 18 diferentes países. Os pesquisadores ficaram surpresos ao identificar que os pacientes com depressão tinham tanto contato com a natureza que aqueles sem um diagnóstico psiquiátrico, e que os pacientes com transtornos de ansiedade tinham até mais contato.

O estudo joga luz na sensibilidade que profissionais de saúde e pessoas próximas de pacientes com ansiedade ou depressão devem ter ao convencê-los em adotar um hábito saudável. Conseguir ser encorajador estimulando a motivação intrínseca de cada um é uma arte.      

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Os humanos passam a apresentar amizades mais seletivas à medida que atravessam as décadas de vida. Damos prioridade a relações bem estabelecidas e passamos a evitar aquelas que trazem tensão e conflito. É como se não tivéssemos mais tempo para desperdiçar com relações sem muito sentido. Uma pesquisa recém-publicada pela revista Science mostra que os chimpanzés têm o mesmo comportamento, apesar de não terem consciência da finitude da vida.

Pesquisadores da Universidade de Harvard estudaram a socialização de chimpanzés selvagens durante 78.000 horas por um período de 21 anos em Uganda. Os chimpanzés à medida que envelheciam davam prioridade a relações com reciprocidade. Por exemplo, àqueles que retribuíam o ato de limpar o outro, conhecido por “grooming” na língua inglesa.

Isso me fez lembrar do nosso atual momento de pandemia. Li um artigo há pouco tempo, não me lembro a fonte, que discutia o futuro do nosso círculo social a curto e médio prazo e uma aposta que será mais seguro termos convívio pessoal em um círculo mais restrito de amigos. Talvez demore um pouco para podermos encontrar a “galera” e vamos ter que ficar velhos na marra…

É fato que nós humanos, após os 30 anos de idade, temos cada vez menos amizades novas. Isso é mais frequente ainda entre os homens. Um estudo mostra que o pico de amigos em nosso círculo social se dá aos 25 anos de idade com uma queda drástica após essa idade. Acredita-se que não perdemos nossas habilidades sociais, mas há uma mudança dos horizontes de responsabilidades que explica esse fenômeno. Entenda a mudança nos horizontes de responsabilidade pelo maior interesse que temos por pessoas que dividem interesses comuns, mais afinidades. Pais que se dão melhor com casais que compartilham entre si a experiência de cuidar dos filhos é bem diferente da situação dos mil amigos que um adolescente tem no ensino médio simplesmente por estudar na mesma escola.

Foto profissional grátis de alimento, amarelo, ao ar livre, aquecido

É isso mesmo. Localizamos alimentos com alto valor calórico com maior eficiência do que aqueles com menor conteúdo de energia, e isso é independente do prazer que o alimento promove. Essa é a conclusão de um recente estudo publicado pela prestigiada revista Scientific Reports.

Mais de 500 voluntários caminharam por uma sala experimentando amostras de alimentos de baixo e alto valor energético. Após a fase de degustação, as pessoas tinham que se recordar onde estava cada alimento e isso foi 30% mais fácil no caso dos alimentos mais calóricos. O mesmo aconteceu com a localização de amostras de odores, mas a diferença foi menos robusta.

A interpretação é a de que nosso cérebro é programado desde os tempos ancestrais a reconhecer com maior eficiência a localização de alimentos com alto valor energético. Esta vantagem evolutiva pode não ter tanta relevância no mundo contemporâneo de supermercados e geladeiras. Pelo contrário, com as facilidades de hoje, nossas memórias que fixam mais os alimentos de alto valor energético pode contribuir sobremaneira para a epidemia de obesidade.

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A relação entre os sonhos e a experiência do medo tem sido mostrada ao longo do tempo em diversas culturas. O que os nossos ancestrais interpretavam como conselhos de divindades, hoje a neurociência e a psicologia enxergam nos sonhos um mecanismo cerebral de processamento de emoções negativas com chance de aprendizado para preparar o indivíduo para os desafios do dia a dia.

Pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, em parceria com a Universidade Federal de Pernambuco, têm desenvolvido técnicas para interpretação do sofrimento humano através de aplicativos que analisam as entrelinhas dos relatos de sonhos. Eles analisaram, com a ajuda de softwares, áudios que voluntários gravaram em seus smartphones sobre o conteúdo dos seus sonhos no ano de 2019 e nas primeiras semanas do anúncio da pandemia em 2020.   

Os resultados mostraram que os sonhos durante a pandemia eram mais relacionados a sentimentos negativos como tristeza e agressividade quando comparados aos sonhos antes da pandemia. No período da pandemia, a narrativa dos sonhos trazia mais ideias de contaminação e limpeza e as pessoas que expressavam esses conteúdos de forma mais robusta eram os que tinham maior dificuldade em se se adaptar à quarentena e que apresentavam maior sofrimento psíquico.

Outros estudos têm mostrado que as pessoas têm sonhado mais e dois conteúdos bastante recorrentes nos sonhos têm sido ameaças de outras pessoas e tarefas mal executadas, como perder o controle da direção de um automóvel. Uma pesquisa realizada com 100 enfermeiros em Wuhan na China apontou que 45% estavam apresentando pesadelos, cifra duas vezes maior que a de pacientes psiquiátricos e muitas vezes maior que os 5% da população geral.

Estamos longe de um normal, não é?

Person in Green Shirt Standing

Uma pesquisa recém-publicada no Cephalalgia, periódico da Sociedade Internacional de Cefaleia, aponta que a exposição à luz verde é capaz de reduzir a intensidade e frequência de crises de pessoas que sofrem de enxaqueca.

Pesquisadores da Universidade do Arizona nos EUA mostraram nesse estudo o impacto clínico positivo da exposição à luz verde sobre as crises de enxaqueca. Os voluntários foram expostos à luz branca por um período de uma a duas horas por dia durante dez semanas e depois passavam pelo mesmo período de exposição à luz verde. Os pacientes expostos à luz verde apresentaram uma redução de 60% na frequência de crises, melhora na intensidade das crises, de intensidade 8 para 3.2 (escala de 1 a 10), e nos questionários de qualidade de vida, incluindo maior facilidade para dormir, se exercitar e também trabalhar. Como esperado, não houve efeitos colaterais.

Os resultados prometem uma ferramenta barata e acessível para o controle da terceira condição clínica mais prevalente no mundo afetando um bilhão de pessoas.

Um estudo anterior publicado no Brain em 2016 havia mostrado que pacientes com enxaqueca tiveram uma redução de fotofobia e intensidade das crises ao serem expostos à luz verde. A fotofobia ocorre em 80% das crises de enxaqueca e traz limitações no dia a dia dos pacientes.

Assim como o estudo anterior, os voluntários foram expostos a uma estreita banda de luz verde a uma determinada intensidade. Não é qualquer luz verde, não é uma lâmpada pintada de verde, e os modelos originais tinham preços inacessíveis ao consumidor. Hoje você encontra “lâmpadas da enxaqueca” na Amazon e alguns sites que custam de 20 a 289 dólares e prometem ser realmente de banda estreita semelhante aos estudos. Encontra também uma enorme variedade de óculos com lente verde que precisam ser testados antes de serem indicados pelos médicos.  

O estudo de 2016 foi conduzido por pesquisadores de Harvard e explica bem a ciência por trás do efeito protetor da luz verde sobre um cérebro que sofre de enxaqueca. Eles mediram a magnitude dos sinais elétricos gerados pela retina, tálamo e córtex cerebral, evidenciando que a luz verde foi a que gerava menores sinais. Vale lembrar que o cérebro de um enxaquecoso é hiperexcitável. Vive-se melhor com menores estimulações elétricas. Menos luz, menos barulho, menos cheiros fortes…    

Coronavirus

No início da pandemia os holofotes eram todos voltados ao sistema respiratório e circulatório e aos poucos os transtornos provocados pelo vírus sobre o sistema nervoso começaram a ser identificados. Os problemas incluem desde a redução do olfato, dificuldades de memória e dores de cabeça até derrames cerebrais, encefalite e estados de confusão mental e psicose. Isso sem falar dos efeitos das mudanças psicossociais do fenômeno pandemia, como depressão, ansiedade e estresse pós-traumático.

É difícil mensurar atualmente a frequência com que o sistema nervoso é afetado durante e após a infecção pelo SARS-CoV-2, já que a maior parte dos estudos publicados até o momento incluem apenas pacientes que foram internados. Sabemos que há uma série de pacientes com manifestações neurológicas que não apresentam qualquer outra queixa. Aqui temos o cérebro como alvo principal da doença.

Em abril tivemos a primeira evidência de inchaço e inflamação do cérebro de um paciente afetado pela doença. Tivemos também a demonstração de lesões na bainha de mielina, bem semelhantes às que são encontradas em doenças neurodegenerativas como esclerose múltipla. Sabemos que o SARS-CoV-2 pode sim invadir o cérebro, mas será que todas essas manifestações neurológicas são resultado da infeção direta ou o resultado de uma resposta imunológica de um corpo atacando o próprio cérebro? Essa resposta é crucial para direcionar o tratamento. Antivirais se for o caso de infecção direta e, se o maior problema for a resposta imunológica exagerada, então a indicação de terapias que modulam essa resposta seriam as mais indicadas.

As séries neuropatológicas publicadas até o momento apontam que a identificação do vírus no cérebro não é tão significativa quanto em outros órgãos. Uma explicação é que o cérebro não é rico em receptores ACE-2, a porta de entrada do vírus nas células e isso aponta a favor da resposta imunológica ser a maior causadora das lesões cerebrais. Futuros estudos devem encontrar marcadores biológicos que diferenciem o que é infecção direta e o que é autoimunidade. Saberemos também qual o impacto desse ataque cerebral no médio e longo prazo.  

Woman Wearing Red Dress Holding Turned-on String Lights

Um estudo recém-publicado no periódico Nonprofit and Voluntary Sector Quarterly aponta que as pessoas consideradas mais atraentes são mais generosas e o inverso também é verdadeiro:  pessoas mais generosas são vistas como mais atraentes. A pesquisa compilou os dados de três estudos que avaliaram a influência entre esses dois fatores com voluntários seguidos por várias décadas. Os resultados são válidos tanto para adolescentes como para idosos. E o ser humano já nasce altruísta?  

Dividir com os outros, pelo menos com os membros do próprio grupo social, é uma característica única do ser humano. Um outro estudo publicado pela revista Nature mostrou que nosso lado altruísta não nasce pronto, mas vai se desenvolvendo durante a primeira década de vida. Pesquisadores suíços demonstraram que crianças entre 7 e 8 anos de idade já são capazes de dividir seu alimento de forma igualitária com parceiros do mesmo grupo social (coleguinhas de escola), mesmo quando têm a chance de ficar com a maior parte.

Esse estudo da Nature demonstra que o altruísmo humano já existe entre as crianças e mais uma vez nos revela que a cooperação é mais forte entre indivíduos do mesmo grupo social, também conhecida pela ciência como cooperação paroquial. O altruísmo “extra-paroquial” é uma das mais marcantes habilidades do ser humano e que não é encontrada em outras espécies: a capacidade de criar e manter laços de cooperação com indivíduos que não são de seu mesmo núcleo familiar.

Já sabemos há tempos que o altruísmo tem inúmeros efeitos positivos em nossas vidas como aumento de autoconfiança, felicidade, saúde de uma forma geral e sobrevida. E agora sabemos que nos deixa mais atraentes.

Woman in Gray Tank Top

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Uma pesquisa recém-publicada pelo periódico Sleep da Academia Americana do Sono aponta que a privação de sono faz com que as pessoas percebam que passaram o dia com mais raiva.

 

Primeiro os pesquisadores analisaram por um mês os diários de estudantes universitários que continham seus padrões de sono, fatores estressantes e sentimento de raiva. A análise desses diários mostrou que os estudantes sentiam mais raiva nos dias em que tinham dormido menos na noite anterior.

 

O estudo incluiu também uma experiência com voluntários da população geral que eram submetidos à exposição de um ruído irritante. Uma parte dos voluntários era instruída a dormir nas duas noites anteriores à exposição apenas cinco horas e foram esses os que menos se adaptaram ao ruído e reportaram mais o sentimento de raiva. Resultados semelhantes foram demonstrados em uma pesquisa que investigou esse mesmo efeito da privação do sono em um jogo competitivo.

 

Privação de sono tem mesmo a capacidade de mexer com muitas dimensões da nossa mente e do nosso corpo. Ficamos mais raivosos, comemos mais, compramos mais, mais pressão alta, aterosclerose e doença cardiovascular, mais comportamentos de risco, mais enxaqueca, e , claro, piora do desempenho cognitivo.

Woman Working At Home With Her Laptop

 

Antes da pandemia já vivíamos uma pandemia de solidão, especialmente na Europa e América do Norte. Em alguns países desses continentes, cerca de metade dos adultos vivem sozinhos.  Latino-americanos, africanos e asiáticos têm uma tendência maior em viver em família.

Antes da pandemia, havia a estimativa que dois terços dos americanos se sentiam solitários. A mesma metodologia utilizada nos estudos pré-pandemia continuou sendo aplicada nesses últimos meses de quarentena e a expectativa era que essa percepção de solidão fosse crescendo. Mas as pesquisas recentes não têm mostrado isso.

Quando se coloca a afirmação “Eu recebo o suporte emocional e social que eu preciso”, não houve piora nas respostas do inicio do ano sem quarentena e após a deflagração da pandemia. Houve até um leve incremento da percepção de suporte emocional e social após o início da quarentena entre americanos adultos estudados e isso foi confirmado por um estudo que incluiu adultos de 28 países. Outra pesquisa realizada na Alemanha apontou que houve no primeiro mês da quarentena uma maior percepção de solidão seguida por um declínio desse sentimento. Isso sugere que o súbito isolamento social promoveu uma adaptação rápida às circunstâncias, provavelmente através do incremento de outras formas de conexão com o outro. Sozinhos, porém não solitários.

O distanciamento social tem provocado o reconhecimento da importância de nossas relações sociais, interações que a ciência mostra um inequívoco efeito positivo sobre nossa saúde e longevidade. Além disso, muitos estão se dando a oportunidade de ações voluntárias no apoio aos mais vulneráveis de suas comunidades, gerando um senso importante de pertencimento de um todo. Estudos mostram que após o fatídico ataque terrorista de 11 de setembro, os americanos mostraram-se mais solidários e gentis. A pandemia pode estar trazendo a experiência coletiva de que estamos todos no mesmo barco.

É fato que essa é uma tendência quando se analisa um grupo, mas individualmente há aqueles que sofrem mais como os que vivem sozinhos ou que apresentam uma doença crônica incapacitante. Sofrem mais também as gerações mais novas, homens e residentes em países como uma cultura individualista.

Até o momento não temos evidências que mostrem que o afastamento social tem nos tornado mais solitários. Certamente, as plataformas digitais que permitem interações com as pessoas importantes de nossas vidas têm sido grandes trunfos para enfrentar o COVID 19.

Silhouette Photo of Woman

Por Dr. Ricardo Teixeira

Imagine só que pesquisadores do MIT (Massachusetts Institute of Technology) iniciaram um estudo sobre os efeitos cerebrais do isolamento social há três anos, sem a mínima ideia do que nos esperava no ano de 2020. Os achados inéditos mostram que regiões profundas do cérebro que modulam impulsos básicos de recompensa e motivação estão envolvidas tanto na experiência da fome como da solidão. A conclusão é que tanto comer e se conectar com os outros são experiências fundamentais para nossas vidas.

Os voluntários da pesquisa foram submetidos ao exame de Ressonância Magnética Funcional e durante o exame eram apresentados a imagens de interações sociais próprias ou alimentos preferidos, a depender se estavam sendo testados para isolamento ou fome. A ativação do cérebro foi semelhante em ambos os casos e também similar ao efeito da exposição de imagens da droga mais usada por pacientes em tratamento para drogadição.

O próximo passo é avaliar o quanto o cérebro realmente se satisfaz com as diferentes formas de mídias sociais. Com a pandemia, verbas para essa pesquisa certamente não faltarão.

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* Dr. Ricardo Teixeira é neurologista e Diretor Clínico do Instituto do Cérebro de Brasília

Low Light Photography of Books

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Isolamento social. Mas que experiência desafiadora, hein? A quarentena tem sido muito mais difícil para alguns do que para outros e são inúmeras as razões para essas diferenças. Extrovertidos sofrem mais que os introvertidos, quem mora numa quitinete sofre mais do que aquele que mora numa mansão, e por aí vai. Mas existe uma experiência nessa época que pode facilitar a vida de qualquer um de nós e estamos aqui falando na diversificação de experiências no dia a dia.

 

Uma pesquisa recém-publicada pela revista Nature Neuroscience aponta que pessoas que têm maior diversidade de deslocamento espacial com o passar dos dias, lugares diferentes e mais novidades, sentem-se mais positivas e com maior atividade no circuito que liga duas regiões cerebrais fortemente associadas ao bem estar.  Isso não é diferente entre animais de laboratório. Aqueles que têm um ambiente amplo e cheio de novidades tem um comportamento de maior sociabilidade e resiliência ao estresse. Além disso, esses animais têm maior ativação desse mesmo circuito demonstrado agora em humanos.

 

O estudo foi feito antes da pandemia quando as pessoas podiam se deslocar à vontade. E agora na quarentena? Uma dica preciosa é se deslocar à vontade por vídeo chamadas com as pessoas queridas, bons romances e filmes, apreciação de todas as formas de arte. Criatividade e novidades diárias. Isso certamente provocará efeitos no cérebro que facilitarão sobremaneira a travessia dessa tempestade que estamos vivendo.

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