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Ricardo Afonso Teixeira*
Já temos um bom corpo de evidências mostrando que a segunda-feira está associada a maiores níveis de ansiedade e até de suicídio do que outros dias da semana. Há também um aumento de 20% de morte súbita por doença cardiovascular, e isso tanto em homens como em mulheres. Chandola, professor de sociologia médica da Universidade de Hong Kong trouxe resultados do seu grupo de pesquisa sobre o tema na última edição da revista Scientific American, Mind & Brain.
Chama bastante atenção os achados de que as pessoas que se sentem mais ansiosas às segundas-feiras apresentam aumento em 23% dos níveis de ativação do sistema de estresse por meses. Não gera uma resposta hormonal, aumento de cortisol, só de curto prazo, mas uma resposta duradoura. E níveis crônicos de aumento de cortisol estão associados a ansiedade, depressão, doença cardiovascular, diabetes, obesidade e imunodeficiência. Aqueles que tinham ansiedade em outros dias da semana não tinham essa elevação prolongada do hormônio.
Para grande surpresa, esse efeito persiste após as pessoas se aposentarem. Longe do trabalho que supostamente é considerado o gatilho para esse maior contingente de estresse associado às segundas-feiras. É como se fosse introjetado na mente e no corpo um mal estar das segundas-feiras, um alarme que foi automatizado, mesmo que você nem trabalhe mais.
Além de ter que encarar a rotina da semana após o descanso do fim de semana, por que a segunda-feira tem todo esse poder? Uma das explicações é de que na segunda confrontamos mais com as incertezas do mundo real, que comprovadamente levam ao estresse e à ansiedade. Muitos se queixam que domingo à noite é o pior momento da semana e por isso, criar uma atividade divertida nesse momento da semana pode ser uma dica preciosa para que a transição para a semana que entra seja mais suave.
* Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Pesquisa aponta que a crise da meia-idade, considerada uma entidade da psicologia humana de alcance universal, agora não existe mais. Desde 2008, tínhamos evidências que na juventude e na velhice apresentávamos os maiores índices de satisfação com a vida e felicidade passando pela meia-idade com índices menores. O que essa nova pesquisa nos traz é que esse declínio na meia-idade foi substituído por uma redução da satisfação ainda na juventude com incrementos progressivos ao longo da vida.
A análise foi feita inicialmente nos Estados Unidos e Reino Unido e depois estendida a outros 42 países envolvendo o período entre 1993 a 2025. Mais de doze milhões de pessoas participaram do estudo com seus perfis de saúde mental.
São várias as possíveis razões para uma maior concentração de insatisfação com a vida na juventude. Entre elas os autores elencam a redução do mercado de trabalho para jovens, desafios para a saúde mental com a pandemia de COVID-19, menor disponibilidade de serviços de saúde mental, e aumento do uso das mídias sociais.
O estudo foi publicado na última semana pela revista PLOS Mental Health.
* Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Ricardo Afonso Teixeira*
Nos últimos meses ouvi alguns relatos de pessoas que procuraram o ChatGPT como se fosse um psicoterapeuta. A maioria revelou uma experiência positiva o que não é surpreendente. Advoga-se que esses chatbots generalistas, como o ChatGPT, são codificados para que o usuário fique na plataforma o maior tempo possível. E por ser este o modelo de negócio, a plataforma pode ter o viés de validar e reforçar as ações do usuário. Ela não julga e não coloca o dedo na ferida.
Na última edição da revista Scientific American, Vaile Wright, psicólogo e diretor da divisão de Inovação em Saúde da Associação Americana de Psicologia alerta para os riscos envolvidos no uso desses chatbots para psicoterapia, mas também para a necessidade de comprovação de eficácia.
Primeiro ele pontua que essas plataformas não têm nenhuma obrigação legal de proteger os dados. Psicólogos têm que seguir a diretrizes éticas do seu conselho de classe e isso inclui o sigilo. Imagine você tratar do assunto de sua dependência a drogas com o ChatGPT e essas informações vazarem e caírem nas mãos do seu chefe.
Quanto à questão de eficácia, é citado o Therabot, um software de inteligência artificial desenvolvido especificamente para apoio psicológico pela Universidade de Dartmouth, nos EUA. Foram publicados este ano, no prestigiado New England Journal of Medicine, os resultados de uma intervenção por 8 semanas com o Therabot. Os achados pioneiros foram considerados comparáveis aos resultados da psicoterapia cognitivo comportamental. Pacientes com transtorno depressivo melhoraram em 51% dos seus sintomas, aqueles com transtorno de ansiedade generalizada tiveram melhora de 31% e os com transtorno alimentar apresentaram 19% na redução de preocupação de imagem corporal e peso. Além disso, eles reportaram uma ótima aliança terapêutica com o Therabot, demonstrado pela confiança e colaboração com o software.
O Therabot começou a ser desenvolvido em 2019 com consultoria contínua de psicólogos e psiquiatras e os autores do estudo defendem a ideia que ele veio para somar e não para substituir a terapia convencional. Deixam claro que chatbots com a função de psicoterapia ainda estão numa fase muito crítica em que é preciso demonstração mais robusta de seus riscos e eficácia clínica. Porém, os resultados do Therabot abrem os horizontes para apoio psíquico para tantas pessoas que jamais conseguiriam ter acesso a um psicoterapeuta e para aqueles que precisam de um apoio imediato. Nos EUA, calcula-se que para cada psicoterapeuta existem 1600 pessoas com os diagnósticos de ansiedade e depressão.
Em todos esses casos que vi nos últimos meses fazendo “psicoterapia” com o ChatGPT, todos acessavam uma única vez com esse propósito e já abandonavam. E todos tinham todas as condições logísticas para estar com um psicoterapeuta. Pode ser a efervescência da curiosidade pela novidade. Se o Therabot que foi desenvolvido junto a profissionais da saúde mental ainda precisa passar por validação, imagine o ChatGBT. O Therabot até acende um botão na tela para acesso a versões americanas do SAMU ou CVV (Centro de Valorização da Vida) no caso de conteúdos de alto risco, como ideação suicida.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Ricardo Afonso Teixeira*
O abuso verbal pode ser menos óbvio que o físico, mas seus efeitos deletérios não são menores. Esta é conclusão de um grande estudo intergeracional publicado este mês pelo prestigiado periódico British Medical Journal Open. Aqui podemos refletir se é certo mesmo o provérbio “pé de galinha não machuca pinto”.
A prevalência de abuso físico na infância tem diminuído globalmente ao mesmo tempo que o abuso verbal tem aumentado. Uma em cada seis crianças sofre de abuso físico por familiares/cuidadores enquanto uma em cada três sofre de abuso verbal. As iniciativas para prevenção de violência contra crianças têm o foco na violência física que gera maiores índices de ansiedade e depressão na vida adulta, assim como mais comportamentos de risco, violência e até aumento de doenças cardiovasculares. O presente estudo nos mostra que a violência verbal traz repercussões mentais negativas na idade adulta da mesma magnitude que a violência física.
É bem demonstrado que os maus tratos na infância podem culminar também em alterações estruturais no cérebro adulto. Aqui quando falamos em maus tratos devemos incluir abuso físico, violência verbal, abuso sexual, negligência física, negligência emocional e presenciar atos de violência contra irmãos. Adultos ou adolescentes que apontam um maior índice de maus tratos na infância têm a redução do volume da sustância cinzenta e da integridade da substância branca em diferentes áreas do cérebro, áreas responsáveis pelas emoções e cognição.
* Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília
Pelas regras do Detran, é preciso estar pelo menos um ano sem qualquer tipo de crise epiléptica para o paciente ter o direito a tirar ou renovar a carteira de habilitação. Novos estudos apontam que três meses é um prazo seguro.

Por Ricardo Afonso Teixeira*
No Brasil, uma pessoa portadora de epilepsia precisa estar pelo menos um ano sem qualquer tipo de crise epiléptica para ter direito a tirar ou renovar a carteira nacional de habilitação. Precisa também de um formulário preenchido pelo médico assistente aprovando ou não a liberação. Essa é a norma determinada pelo Detran no ano de 2012.
Em março deste ano, a Academia Americana de Neurologia, a Sociedade Americana de Epilepsia e a Fundação Americana de Epilepsia publicaram em conjunto, na revista Neurology, um novo consenso sobre epilepsia e licença para dirigir. O documento pede um período de pelos três meses sem crises epilépticas para que a pessoa esteja habilitada a dirigir. As evidências demonstram que prazos maiores não reduzem o risco de acidentes fatais. Nos EUA, esse prazo varia entre três e 18 meses, dependendo do estado. Muitos pacientes não seguem as recomendações e acredita-se que a redução do período para três meses pode aumentar o número de indivíduos em conformidade com a lei.
A atual recomendação de três meses sem crises é independente de ser uma crise única e de haver um fator provocador bem reconhecido, como a abstinência alcoólica. Pode continuar a dirigir aqueles que tiveram uma crise por falha isolada na tomada da medicação, o que pode acontecer numa internação hospitalar, por exemplo.
A epilepsia é uma condição neurológica em que 70% dos portadores têm as crises controladas com as medicações. O direito a dirigir garante a independência de muitos desses que são controlados. Vale lembrar que o risco de acidentes fatais entre portadores de epilepsia é semelhante ao da população geral e significativamente menor comparado ao que acontece com motoristas jovens ou sob efeito do álcool. Essa nova diretriz deve influenciar as regras do Detran no Brasil, mas, por ora, a norma de 2012 é a que vale por aqui.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

“Deve existir algo para estimular sua imaginação, sua determinação e convicção. Sua realidade é muito limitada. Prefiro viver em um estado de sonho acordado. Um sonho acordado perpétuo” – Carlos Santana no documentário Carlos, 2023.
Você está lavando a louça, no piloto automático, e a mente começa a vaguear, o pensamento foi para sua próxima viagem de férias. Para tarefas pouco complexas, manter o pensamento em outro lugar pode fazer o trabalho ficar mais ágil porque nesse estado o cérebro consegue processar detalhes que ficam escondidos nas entrelinhas. É um estado semiacordado com aumento do contingente de ondas lentas características do sono profundo e que são crucias para a consolidação da memória.
Isso tudo nos faz pensar que um cérebro com boa atenção e processamento rápido é importante, mas as fugidinhas do pensamento podem também ser muito interessantes, especialmente para a criação e consolidação da memória. E o que seria do nosso equilíbrio mental sem boas doses de fantasia? Isso me fez lembrar de outro documentário, este de Kleber Mendonça, Retratos Fantasmas. Após mostrar a substituição dos cinemas de rua do Recife por farmácias e igrejas, o motorista de aplicativo nas cenas finais fala a Kleber, seu passageiro, que ele tem um superpoder de se tornar invisível e o documentário termina com o carro andando sem ninguém ao volante. Tiraram do cidadão o convívio diário com os cartazes dos filmes fantásticos no centro da cidade e seu aparelho psíquico logo se incumbiu de repor a dose de fantasia. Não tem mais King Kong, Tubarão, mas tem homem invisível.
* Extraído da coluna semanal Neurônios em Dia, parceria entre o Instituto do Cérebro de Brasília e o Correio Braziliense. Confira mais sobre esse assunto e outros conteúdos acessando nosso site (link na bio): http://www.icbneuro.com.br

Ricardo Afonso Teixeira*
Algumas pessoas relatam visões coloridas, em padrões ou com apresentação caótica, por vezes até cenas, na proximidade do orgasmo, durante o clímax e até no período imediato de recuperação após o orgasmo. A isso se dá o nome de sinestesia sexual, um tipo aparentemente incomum de sinestesia que tem chamado a atenção dos cientistas nos últimos anos, apesar de ter sido descrito ainda na década de 1970.
Sinestesia é uma condição que afeta cerca 4% da população e é reconhecida como um fenômeno de circuitos sensoriais cruzados. A leitura de uma determinada letra ou número, por exemplo, pode ativar a percepção de uma cor. Outra forma que não é rara são determinados sons que evocam experiências de cores.
Ainda temos poucos estudos explorando a sinestesia sexual, mas os relatos já nos mostram que ela é mais comum com parceiros habituais em que existe uma relação de confiança e raramente ocorre no sexo casual ou na masturbação. Quase todos têm uma relação positiva com o fenômeno e dizem que a experiência sexual fica mais rica. Alguns têm a percepção visual associada a sons e relatam receio de ser uma manifestação de um quadro psiquiátrico como a esquizofrenia. É muito frequente também a percepção distorcida de um estímulo sensorial fora da atividade sexual. Um exemplo é a síndrome de Alice no País das Maravilhas em que a pessoa percebe as coisas maiores ou menores do que realmente são. Esses pontos foram extraídos da tese de doutorado de Cathy Lebeau da Universidade de Quebec, no Canadá, em que entrevistou 16 pessoas com sinestesia sexual e que foi descrita na última semana por Kate Evans na revista Scientific American.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Por Dr. Ricardo Afonso Teixeira
No ano de 2012, um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade da Califórnia sugeriu que a cólica dos lactentes pode na verdade ser uma precursora da enxaqueca ao mostrar que o risco é mais de duas vezes maior nos bebês que têm mães que sofrem de enxaqueca. Enquanto 29% dos bebês de mães com enxaqueca apresentavam cólica, apenas 11% daqueles de mães sem enxaqueca tinham o problema.
No ano seguinte, outro estudo de muito impacto encorpou a ideia dessa associação ao mostrar que crianças e adolescentes com enxaqueca tinham muito mais chances de ter apresentado cólica quando bebês quando comparadas a controles sem enxaqueca (72.6% X 26.5%). Desde então uma série de estudos, incluindo uma metanálise, vêm confirmando esses resultados.
Existem algumas condições clínicas que acontecem de forma recorrente na infância e que são entendidas como expressões precoces de genes que mais tarde serão expressos como enxaqueca. Entre essas condições podemos citar crises de torcicolo, vertigem, vômitos cíclicos, além das misteriosas cólicas dos bebês.
O choro normal da criança começa a se intensificar nas primeiras semanas de vida, alcança o seu topo entre a sexta e oitava semana, e aos três meses já começa a dar uma trégua. A cólica dos bebês é uma forma intensificada desse choro e é definida como crises de choro por pelo menos três horas e pelo menos três vezes por semana. Também é chamada de choro inconsolável e está associada a uma maior incidência de casos da síndrome do bebê chacoalhado, condição em que um adulto sacode a criança para discipliná-la tentando interromper o choro. Isso pode levar a lesões traumáticas de diferentes gravidades.
O termo cólica traz uma conotação de que o desconforto tem origem no aparelho digestivo e são vários os estudos que tentam ligar a cólica com gases intestinais, microbiota, alergia à proteína do leite, intolerância à lactose. Alguns apresentam resultados positivos e outros negativos.
Por que seria um bebê com bagagem genética de um “cérebro de enxaqueca” mais propenso a ter crise de choro? Uma das maiores características de um cérebro enxaquecoso é a hiperexcitabilidade, uma maior sensibilidade a estímulos sensoriais como ruídos e luz. A transição do útero para o mundo cheio de estímulos pode fazer mesmo diferença a partir de algumas semanas, a partir de um nível de desenvolvimento da acuidade visual e auditiva. Isso pode explicar o porquê da cólica ser mais frequente entre a sexta e oitava semana de vida, e não no período neonatal. Uma pesquisa chegou a demonstrar que a restrição de estímulos sensoriais foi capaz de reduzir o problema.
Com esse corpo de conhecimento, já se discute a modificação do termo cólica por algo como “Agitação Paroxística do Lactente” já que a raiz do problema pode ter mais a ver com o cérebro do que com a barriga.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Por Ricardo Afonso Teixeira*
“Deve existir algo para estimular sua imaginação, sua determinação e convicção. Sua realidade é muito limitada. Prefiro viver em um estado de sonho acordado. Um sonho acordado perpétuo” – Carlos Santana no documentário Carlos, 2023.
Você está lavando a louça, no piloto automático, e a mente começa a vaguear, o pensamento foi para sua próxima viagem de férias. Para tarefas pouco complexas, manter o pensamento em outro lugar pode fazer o trabalho ficar mais ágil porque nesse estado o cérebro consegue processar detalhes que ficam escondidos nas entrelinhas. É um estado semiacordado com aumento do contingente de ondas lentas características do sono profundo e que são crucias para a consolidação da memória.
Alguns estudos já mostraram que em tarefas simples esse estado de sonhar acordado pode muitas vezes ser um aliado do nosso desempenho cognitivo, incrementando, por exemplo, nossa criatividade. Um fator que já foi demonstrado estar associado à tendência de vaguear é a capacidade de estar aberto a novas experiências e a conteúdos fantásticos. E isso pode ser um grande parceiro da criatividade.
Isso tudo nos faz pensar que um cérebro com boa atenção e processamento rápido é importante, mas as fugidinhas do pensamento podem também ser muito interessantes, especialmente para a criação e consolidação da memória. E o que seria do nosso equilíbrio mental sem boas doses de fantasia? Isso me fez lembrar de outro documentário, este de Kleber Mendonça, Retratos Fantasmas. Após mostrar a substituição dos cinemas de rua do Recife por farmácias e igrejas, o motorista de aplicativo nas cenas finais fala a Kleber, seu passageiro, que ele tem um um superpoder de se tornar invisível e o documentário termina com o carro andando sem ninguém ao volante. Isso me fez sentir que tiraram do motorista o convívio diário com os cartazes dos filmes fantásticos no centro da cidade e seu aparelho psíquico logo se incumbiu de repor a dose de fantasia. Não tem mais King Kong, Tubarão, mas tem homem invisível.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

A literatura médica descreve efeitos benéficos do consumo moderado de café em diferentes sistemas do nosso corpo. Reduz o risco de diabetes, doenças cardiovasculares, alguns tipos de câncer e doenças neuropsiquiátricas como depressão, Alzheimer e Parkinson. As restrições ao seu consumo são poucas e podemos falar das pessoas que têm intolerância gástrica ao café, gestantes que devem evitá-lo e indivíduos com osteoporose que podem ser prejudicados com seu consumo em excesso. Além disso, o café deve ser evitado após certa hora do período vespertino para não provocar insônia. Mas como o café exerce esse seu poder estimulante? A cafeína é a grande responsável por esse efeito ao se ligar a receptores de adenosina do cérebro que promovem uma inibição da atividade cerebral – adenosina é um neurotransmissor inibitório. A cafeína tem uma ação inibitória nesses receptores fazendo uma inibição de um sistema que é inibitório. Por isso o efeito final é estimulante. Quando reduzimos o efeito do freio de mão, o carro anda mais. Assim age a cafeína. Quando acordados ficamos mais despertos, mas como fica o sono sob a influência da cafeína?
O entendimento da cafeína sobre o sono teve um grande salto há cerca de um mês após uma análise dos ritmos cerebrais no eletroencefalograma com a assistência de inteligência artificial e conduzida por pesquisadores da Universidade Montreal no Canadá. A cafeína torna os sinais cerebrais otimizados para o processamento de informações e tomada de decisões mesmo durante o sono. É um estado ótimo durante o dia, mas esse padrão semiacordado e reativo pode interferir com o poder reparador do sono. A cafeína inibiu o contingente de ondas lentas do sono, ondas que estão associadas ao sono profundo e restaurador. Aumentou, por outro lado, o contingente de atividade beta no sono, atividade que é caraterística do estado de vigília. Esses efeitos são mais intensos entre indivíduos mais jovens, explicado por uma maior concentração de receptores de adenosina na juventude. O estudo foi publicado pela Nature Communications Biology.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Ricardo Afonso Teixeira*
A maioria das mulheres melhoram muito das crises de enxaqueca no período da gravidez, mas cerca de 8% pioram nessa fase e isso aumenta o risco de desfechos clínicos ruins, tanto da mãe quanto do bebê. É muito comum na prática clínica de um neurologista o atendimento de gestantes sofrendo de crises debilitantes de enxaqueca e na maioria das vezes por subtratamento. É frequente a gestante receber a orientação de que o paracetamol é a medicação mais indicada nesses casos. Entretanto, as crises nem sempre são responsivas a essa medicação.
Os triptanos são uma família de medicações com eficácia superior aos analgésicos comuns, como o paracetamol, e há vários anos já são considerados seguros no tratamento da enxaqueca na gestação. Entretanto, estima-se que três em cada quatro mulheres interrompem o uso dessas medicações ao descobrirem que estão grávidas.
O sumatriptano é o mais estudado deles e esta semana tivemos mais uma evidência robusta que seu uso antes e durante a gravidez não interferiu no neurodesenvolvimento de crianças acompanhadas por oito anos em média, alguns até os 14 anos de idade. De todas as gestações na Noruega, os filhos das mulheres que usaram sumatriptano no último ano antes da gravidez e durante a gravidez não apresentaram maiores índices de retardo mental, transtornos de comportamento ou linguagem, transtorno do espectro autista ou transtorno de déficit de atenção e hiperatividade. Ótimas notícias para as gestantes e mais uma evidência para encorajar os médicos a perderem o receio de prescrever triptanos durante a gestação. O estudo foi publicado nesta quarta-feira (21 maio) na Neurology, periódico da Academia Americana de Neurologia.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Ricardo Afonso Teixeira*
Adolescentes com depressão e ansiedade têm a tendência em usar as redes sociais por 50 minutos a mais que outros da mesma idade sem qualquer condição psiquiátrica. Além disso, sofrem mais com comentários que recebem e ao comparar o número de amigos/seguidores ou likes das suas publicações com os dos outros. Esses são resultados de um estudo com mais de três mil adolescentes publicado este mês pelo prestigiado periódico Nature Human Behaviour. É um dos primeiros estudos e o mais robusto até o momento que analisa os impactos das redes sociais em adolescentes que sofrem de transtornos psiquiátricos. Não há como descartar a possível influência do exagero das redes sociais na deflagração ou perpetuação dos quadros clínicos. Entretanto, esse potencial de deflagração parece não ser grande.
Outra pesquisa publicada pelo mesmo periódico em 2019 usou um método de análise estatística rigoroso de três estudos de larga escala voltados à saúde mental dos adolescentes e mostraram que o impacto das mídias digitais existe, mas é pequeno. Chega a ser responsável por no máximo 0.4% da variação do bem-estar psíquico de um adolescente.
Os pesquisadores compararam os efeitos do mundo digital com outros fatores que os adolescentes são confrontados, como exposição ao álcool, tabagismo, bullying, privação de sono, dieta saudável e hábito de tomar café da manhã, uso de óculos ou hábito de ir ao cinema, etc. Quase todos esses fatores tiveram efeitos mais significativos no bem-estar dos adolescentes que o tempo que passavam na frente dos dispositivos digitais. Em comparação aos 0.4% de impacto descrito acima, bullying tinha um impacto de 2.7% e uso da maconha era de 4.3%. O tamanho do efeito negativo das mídias digitais foi comparável ao hábito de comer batatas regularmente e menor do que o de usar óculos.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Ricardo Afonso Teixeira*
O JAMA Netw Open, periódico da Associação Médica Americana, publicou esta semana resultados de um estudo com voluntários com mais de 65 anos mostrando que muitos dizem que têm interesse em saber sob seus riscos de apresentar a Doença de Alzheimer, mas quase metade desses declinam. E não é por dar trabalho ou falta de recursos para realizar exames, pois eles já haviam sido feitos no decorrer de um longo projeto de pesquisa conduzido pela Universidade de Washington em Saint Louis. É não querer saber mesmo. E a principal razão apontada foi a de evitar a carga psicológica em saber sobre esse risco. Aqueles que tinham familiares com a doença tinham menos interesse em saber sobre os exames.
Pouco se estudou sobre o impacto psicológico sobre os resultados de biomarcadores da Doença de Alzheimer entre voluntários de estudos para a doença. Existem evidências ainda limitadas de que ter conhecimento dessa informação não traz repercussões psicológicas tão negativas. Um estudo pioneiro publicado ainda em 2009 pelo
The New England Journal of Medicine avaliou o estado psicológico entre saber ou não saber sobre um desses biomarcadores (genotipagem da apolipoproteína E). Não houve diferença entre os níveis de ansiedade, depressão e estresse psíquico entre os dois diferentes grupos – saber ou não saber. Entretanto, aqueles que receberam resultados de menor risco no teste apresentaram menor grau de estresse psicológico, e aqueles que receberam resultados de maior risco apresentaram maior estresse psicológico, mas por um período de tempo limitado.
Esses estudos são de extrema importância no momento em que medicações que mudam o curso natural da doença passarão a estar disponíveis e será fundamental que diagnósticos sejam feitos cada vez mais precocemente. Estaremos começando essa nova era no tratamento do Alzheimer com o Donanemab, um anticorpo monoclonal recentemente aprovado pela Anvisa e com resultados clínicos bem modestos e preços nada, nada modestos.
Por ora, esses exames não devem ser realizados na população geral, mas apenas em pacientes selecionados por médico especializado no assunto, pois um resultado sem a devida orientação e aconselhamento pode trazer prejuízos para o equilíbrio psíquico.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Ricardo Afonso Teixeira*
A Scientific American, publicação do grupo editorial da Nature, nos trouxe este mês uma reflexão que compara o comportamento das atuais gigantes da mídia com a das companhias de tabaco no século passado. O artigo é assinado pelo cientista David Robert Grimes, um dos grandes nomes mundiais na luta contra a desinformação.
Desde a década de 1940 já tínhamos evidências da associação entre o tabagismo e câncer de pulmão e, ainda na década de 1950, as companhias de cigarro contrataram uma campanha publicitária poderosa para reforçar a ideia de dúvida. Criava assim na população geral uma opinião de que a associação entre cigarro e câncer era ainda controversa. Mark Zuckerberg da Meta usa a mesma estratégia da dúvida quando diz que não existem evidências científicas que mostrem um efeito danoso das redes sociais sobre a saúde mental, apesar de centenas de estudos mostrarem o contrário.
Zuckerberg anunciou este ano a interrupção da checagem de fatos, modelo já seguido pelo X, com a justificativa de que a checagem tinha um custo alto e por não respeitar a liberdade de expressão. Elon Musk do X se autointitula um defensor da liberdade de expressão absoluta e elenco aqui dois resultados dessa liberdade absoluta: incitação pelo Facebook ao genocídio em Mianmar em 1998 e um vídeo no Tik Tok que alcançou 1.8 milhão de views recomendando lavagem intestinal anual com água sanitária para a prevenção/tratamento de parasitose intestinal. Há pouco tempo uma criança de oito anos morreu vítima de um desafio da internet que propunha inalação de desodorante.
Para que a desinformação cause danos, ela não precisa convencer. Só precisa gerar dúvidas. É o fenômeno da verdade ilusória, quando a exposição repetida de uma informação nos faz aceitá-la, mesmo que intelectualmente sabemos que se trata de uma ideia falsa. Um capítulo à parte são os riscos que informações sem qualquer tipo de regulação oferecem às democracias. Juristas, ex-ministros, artistas lançaram recentemente um manifesto que pede regras para as redes sociais. O manifesto diz “Se é crime no mundo físico, também deve ser crime no mundo virtual! Internet sem regulamentação mata!”. Aqui você tem o link para assinatura: https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLSfm6UEfbjh-Hvltw5lICgTgW5mJfZmZ0MA2kYnr69A77dBl9g/viewform?pli=1
*Ricardo Afonso Teixeira é Doutor em Neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Ricardo Afonso Teixeira*
A definição de síndrome metabólica é um quadro de pelo menos três desses fatores: obesidade, hipertensão arterial, diabetes, aumento da taxa de triglicérides e redução do colesterol bom (HDL). A Academia Americana de Neurologia publica hoje no seu periódico Neurology um estudo que mostra um risco aumentado de demência entre os portadores desta síndrome. O risco teve um padrão cumulativo, ou seja, maior quanto mais critérios da síndrome estavam presentes, com um aumento na chance de desenvolver demência em 70% quando todos os critérios estavam presentes.
A idade dos participantes do estudo merece uma atenção especial. Os indivíduos faziam parte de uma amostra de duas mil pessoas que realizaram um check-up na Coreia do Sul com idades entre 40 e 60 anos em que 25% apresentavam síndrome metabólica. O acompanhamento médio desses indivíduos foi de oito anos e a identificação dos quadros de demência ocorreu antes dos 65 anos, em idades precoces quando comparados à maioria dos diagnósticos de demência. Os resultados mostraram que quanto mais precoce o diagnóstico de síndrome metabólica maior o risco de demência.
Nesse estudo, o subgrupo de pacientes com síndrome metabólica, mas sem obesidade, tinham um risco menor de demência do que aqueles com obesidade. Entretanto, o impacto negativo da obesidade sobre o cérebro já é bem reconhecido, tanto no que diz respeito a habilidades cognitivas, como na morfologia e conectividade funcional. Uma pesquisa longitudinal publicada em março deste ano pela prestigiada revista Nature Mental Health mostrou que essa influência no cérebro é dependente da duração e severidade da obesidade.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Ricardo Afonso Teixeira*
Pesquisadores da Universidade de São Paulo publicaram nesta quarta-feira na Neurology, periódico da Academia Americana de Neurologia, um estudo apontando que o cérebro fica mais suscetível a lesões cerebrais com o consumo de mais de oito doses de álcool por semana. Foram estudados 1781 indivíduos com média de idade de 75 anos e que foram submetidos a necropsia após morte de causa não traumática. O consumo de álcool nos últimos três meses de vida foi caracterizado através de questionário com familiares e separado em quatro grupos: abstêmios, consumo moderado (até sete doses por semana), consumo alto (oito ou mais doses por semana), consumo anterior alto (com pelo menos três meses de abstenção antes da morte).
Os resultados mostraram que indivíduos com história de alto consumo, oito ou mais doses por semana, apresentam maior contingente de placas neurofibrilares, consideradas biomarcadores da Doença de Alzheimer. Por outro lado, mesmo aqueles que tinham consumo moderado (até sete doses por semana), apresentavam mais lesões vasculares quando comparados aos abstêmios. Aqui estamos nos referindo a lesões secundárias ao espessamento e enrijecimento das pequenas artérias cerebrais (arterioloesclerose hialina). Uma dose de álcool correspondia a 14 g de álcool, 350ml de cerveja, 150 ml de vinho ou 45 ml de bebida destilada.
Temos acompanhado nos últimos anos uma série de estudos que demonstra que o consumo moderado de álcool reduz o risco de doenças cardiovasculares, incluindo o infarto do coração e o derrame cerebral. Além disso, é reconhecido que a relação entre álcool e doenças cardiovasculares tem um comportamento estatístico conhecido como curva J. Quanto mais alta a posição na curva J, maior o risco. Isso significa que a ausência de consumo de álcool, que está na ponta inferior do J, está associada a um risco maior de doenças cardiovasculares do que o consumo moderado que se encontra na “barriga” do J. Por outro lado, o consumo exagerado de álcool, que se encontra na ponta superior do J, reflete um maior risco de doenças cardiovasculares.
Alguns estudos epidemiológicos têm demonstrado que o álcool também tem um comportamento semelhante à curva J quando o assunto é declínio das capacidades cognitivas com o envelhecimento, sendo que o consumo moderado está associado a um menor risco de demência, e o consumo excessivo a um maior risco (ponta superior do J). Outras pesquisas não conseguem mostrar vantagem no baixo consumo sobre a abstenção.
Os resultados da presente pesquisa estão em linha com a corrente de pensamento de que o álcool em doses moderadas não protege o cérebro do ponto de vista neuropatológico e nem mesmo clínico. Um estudo de 2022 publicado pela Nature Communications, aponta que o consumo moderado de álcool está associado à redução do volume cerebral ao longo dos anos, fato que pode ter repercussão no desempenho cognitivo. Entretanto, existem também evidências de efeitos benéficos desse uso moderado (curva J) e atualmente essa discrepância de resultados é explicada por fatores confundidores presentes entre aqueles que consomem pouco álcool, como estilo de vida mais saudável, maior socialização e poder socioeconômico.
*Ricardo Afonso Teixeira é Doutor em Neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Ricardo Afonso Teixeira*
Pesquisa liderada pela Universidade de Viena e recém-publicada na Nature Communications mostra que voluntários sentem alívio de dor aguda ao serem expostos a vídeos de imagens da natureza. Imagens de ressonância magnética funcional apontaram que regiões do cérebro associadas ao processamento de dor eram menos ativadas, quando se comparou à exposição com outros tipos de vídeo, como o interior de uma casa ou cenas urbanas. Imagens da natureza se mostrando um potencial coadjuvante no tratamento da dor.
Há 40 anos, Ulrich publicou na Science a melhor evolução no pós-operatório de pacientes que tinham uma janela com visão de árvores comparado àqueles que só tinham uma parede de tijolos. Melhor evolução neste caso significa menor uso de analgésicos e alta mais precoce. Já visitei uma UTI na Alemanha em que os pacientes internados tinham a visão de um amplo jardim à frente dos leitos.
Ah! O exercício físico pode ser mais fácil quando a atividade física é feita na natureza, com mais vigor e menor percepção do esforço demandado. Mesmo que a natureza esteja presente de forme virtual no exercício, ela também favorece a regulação da pressão arterial. É o que se chama de Exercício Verde.
Alguns países como a Finlândia, Japão e Coréia do Sul têm programas de “banhos de floresta” como forma de promoção da saúde. São muitos os benefícios já demonstrados com essas pílulas de natureza. Além da promoção do equilíbrio psíquico, temos ganhos na atenção, memória, linguagem e até na capacidade criativa. Também temos menores índices de doença cardiovascular, obesidade, diabetes, hospitalização por crises de asma e, finalmente, menor mortalidade.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Ricardo Afonso Teixeira*
Hoje podemos dizer que 50% das chances de desenvolvermos a Doença de Alzheimer estão associadas a fatores genéticos e outros 50% a fatores ambientais. Entre os fatores ambientais, os vírus neurotópicos (i.e.,Herpesvírus) sempre foram considerados potencias agentes etiológicos, mas nunca antes tivemos uma evidência tão robusta dessa associação como a pesquisa publicada esta semana pela revista Nature.
Em 2013, um programa de vacinação no país de Gales no Reino Unido, por limitação na quantidade de doses, ofereceu vacinação para Herpes zoster para indivíduos com 79 anos de idade, no ano seguinte àqueles um ano mais jovens e assim por diante. O programa acabou sendo um experimento natural ímpar, pois permitiu a comparação com os indivíduos de 80 anos que não tiveram acesso à vacinação, apenas poucos dias, semanas, meses mais velhos. Isso foi muito próximo ao modelo de pesquisa padrão ouro para inferência de uma relação causa e efeito, os famosos estudos randomizados duplo-cegos.
Os idosos que receberam vacinação para o vírus Herpes zoster apresentaram uma redução de 20% no risco de apresentar um diagnóstico de demência em um período de sete anos. Os efeitos foram ainda mais significativos entre as mulheres.
Um corpo bem razoável de evidências laboratoriais e estudos clínicos com metodologia mais frágil mostra associação entre infecções virais, incluindo Herpes zoster, e o desenvolvimento de demência. A vacinação no presente estudo pode ter promovido uma melhora do estado imunológico geral, reduzindo o risco de demência, mas pode ter reduzido o componente inflamatório do cérebro ao inibir a reativação do vírus. Herpes zoster é o mesmo vírus da catapora que fica quiescente no nosso sistema nervoso, até que em idades mais avançadas eles podem ser reativados.
Planeja-se agora um estudo randomizado para testar os resultados em outras populações. A vacina usada no estudo foi a de vírus atenuado (Zostavax®) que vem sendo substituída pela de vírus inativado (Shingrix®). Ambos os tipos deverão ser testados.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Ricardo Afonso Teixeira*
Esta é uma receita bem comum na vida de casais que dividem o mesmo teto: homem trabalha o dia inteiro e leva dinheiro para casa, mulher trabalha o dia inteiro e leva dinheiro para casa, ele leva os filhos na escola e ela os busca. E o resto das atividades ligadas ao funcionamento de uma casa e de uma família? Não estamos falando de lavar, passar, cozinhar, fazer faxina, mas sim do trabalho cognitivo de gerenciamento de uma casa.
Existem escalas validadas para avaliar esse trabalho cognitivo doméstico, denominado “mental load” em inglês (carga mental, em tradução livre). Abaixo temos uma delas que divide esse trabalho em sete diferentes categorias. Veja só o quanto você está contribuindo:
1. Limpeza
1.a. Monitorar o momento que lençóis e toalhas precisam ser lavados
1.b. Dispensar roupas dos filhos que não servem mais
1.c. Supervisionar quando a casa precisa ser arrumada
2. Agendamento
2.a. Acompanhar a agenda familiar, como datas de vacinação dos filhos
2.b. Organizar um evento familiar, como o aniversário de um filho
2.c. Lembrar de marcar compromissos, como dentista
3. Assistência aos filhos
3.a. Buscar opções para itens que precisam ser comprados, como novos itens de material escolar, uniforme e calçados
3.b. Decidir por um profissional provedor de cuidados aos filhos (e.g., babá, creche, colônia de férias)
3.c. Supervisionar quando o filho precisa cortar as unhas
4. Manutenção
4.a. Anunciar, por exemplo, quando uma torneira ou a lavadora de roupas precisa de conserto
4.b. Agendar profissional para reparos em casa ou no carro
4.c. Lembrar de manutenção preventiva na casa ou no carro
5. Finanças
5.a. Pesquisar sobre produtos financeiros, como contas bancárias ou seguros
5.b. Decidir como investir o dinheiro
5.c. Monitorar os gastos domésticos mensais
6. Relações sociais
6.a. Buscar opções de socialização para as crianças (e.g., esportes, clubes)
6.b. Acompanhar datas de eventos esportivos e culturais
6.c. Marcar reuniões com família e amigos
7. Alimentação
7.a. Monitorar quais mantimentos precisam ser repostos
7.b. Decidir a refeição do dia
7.c. Verificar data de validade de alimentos e quais devem ser jogados fora
Os homens têm uma maior tendência em superestimar sua colaboração nesse trabalho invisível do que as mulheres. Eles têm melhorado um pouquinho no que diz respeito a trabalhos domésticos físicos, como limpeza e cuidado com os filhos, e assim como na distribuição do trabalho cognitivo, ambos ainda são bem assimétricos, recaindo mais sobre os ombros das mulheres, mesmo em casais que se julgam igualitários nesse aspecto.
Um estudo recente liderado por pesquisadores das Universidades de Bath e Melbourne (Inglaterra e Australia) mostrou que, entre americanos, 71% dessa carga mental fica com as mulheres e 45% com os homens. Elas tinham o encargo de atividades diárias duas vezes maior que os homens, enquanto eles se dedicavam mais a tarefas episódicas, como cortar a grama, por exemplo. A pesquisa foi publicada pelo Journal of Marriage and Family.
Assisti a uma entrevista com a apresentadora Fernanda Lima em que ela respondia sobre o exemplo de homem que é o seu companheiro Rodrigo Hilbert, homão da porr@, que faz muitas coisas que um homem não costuma fazer. Ela diz que ele faz mesmo e é o que o homem deveria fazer sem precisar fazer alarde, já que são milhões e milhões de mulheres que fazem o que culturamente é esperado dos homens e não são chamadas de mulherões da porr@.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Ricardo Afonso Teixeira*
Pesquisa liderada pela Universidade da California do Sul demonstra que idosos que apresentam dificuldade cognitiva apresentam uma menor eficiência dos pequenos vasos cerebrais nas regiões temporais. Esses achados foram encontrados em idosos com ou sem depósitos de proteínas associadas a doenças neurodegenerativas como a Doença de Alzheimer, sugerindo que alterações da microcirculação podem representar um biomarcador precoce de declínio cognitivo nessa faixa etária. Os resultados foram publicados este ano no periódico Neurology da Academia Americana de Neurologia.
Nossos vasos sanguíneos devem ser vistos como órgãos tão inteligentes e complexos como o fígado ou o coração, por exemplo. Quando nos levantamos, quando fazemos força, quando ficamos sem respirar por alguns instantes, todas essas situações exigem com que os vasos sanguíneos do cérebro adaptem seus calibres para manter sempre a mesma pressão do sangue que entra no cérebro. Se este controle falhar, alterações rápidas e transitórias do estado de consciência podem acontecer. As pequenas artérias do cérebro, também chamadas de arteríolas, são as maiores responsáveis por esse controle. O ato de pensar também exige uma vassorreatividade afinada.
No presente estudo, a eficiência dessa microcirculação foi testada com um teste de vasorreatividade após breves períodos de apneia. Quando prendemos a respiração, aumentamos o teor de gás carbônico no sangue o que leva a dilatação dos pequenos vasos cerebrais. É um mecanismo de autorregulação que, quando afetado, aumenta o risco de doença cerebrovascular e demência.
Tratamentos que visam aumentar a vasorreatividade cerebral nos lobos temporais, principais centros da memória, podem ser ferramentas poderosas no combate de condições como a Doença de Alzheimer. Enquanto não temos medicamentos específicos para alcançar esse alvo, devemos juntar todas as forças para evitar situações que sabidamente podem afetar essa autorregulação cerebral e aqui estamos falando de tratar com rigor problemas como a hipertensão arterial, diabetes e colesterol alto, além de evitar o sedentarismo. Tabagismo nem em pensamento.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília



