Isso mesmo. Estudo publicado por Joanna Syrda da Universidade de Bath na Inglaterra mostra que casais com filhos, em que a mulher ganha mais do que o homem, acabam fazendo a divisão do trabalho doméstico ainda mais desequilibrada. E esse desequilíbrio é no sentido de mais trabalho para a mulher. E estamos falando só de limpeza, cozinha e outros trabalhos domésticos, sem incluir qualquer trabalho com os filhos. Foram estudadas mais de seis mil famílias americanas num período de oito anos, todos os casais com relação heterossexual.

A racionalidade econômica sugere que o casal, especialmente aqueles que têm filhos, encontrará um equilíbrio ideal nas tarefas de casa quando se coloca no tabuleiro o tempo livre e ganhos de cada um. O homem ou a mulher quando precisam trabalhar mais horas e têm a chance de um ganho maior que seu cônjuge, tem uma justificativa até razoável de contribuir menos com as tarefas de casa. Mas o que Syrda apontou é que esse raciocínio parece ser válido só para os homens. Muitos casais partem de uma condição fora da norma, da mulher ganhando mais que o homem, promovendo simultaneamente um incremento da assimetria das atividades domésticas, o que permite parecerem, para si mesmos e para os outros, mais próximos da norma. E esse incremento de assimetria é a mulher cuidando ainda mais da casa que o homem, mesmo trabalhando mais e ganhando mais. Reafirmam assim identidades ameaçadas e aumentam a tradição que se espera de um casal.

Syrda lembra da importância do ajuste nessa divisão de participação no trabalho de casa, especialmente quando nascem os filhos. Um padrão de divisão disfuncional deve ser discutido já na sua gênese, pois depois de uma rotina estabelecida, tudo fica mais difícil de renegociar. Isso sem falar na experiência que os filhos terão assistindo essa divisão de trabalho sem sentido que poderá ser replicada quando chegarem à idade adulta. Ela conclui o artigo lembrando da revolução comportamental da década de 1960 que deveria, no longo prazo, vir a ter uma crescente participação dos homens nas atividades domésticas à medida que as mulheres estivessem na rua trabalhando, muitas das vezes, com salários superiores aos deles. Como reativar essa revolução?

Diante disso, finalizamos com o jargão que o homem não tem que ajudar sua mulher em casa. Tem sim é que fazer sua parte.  O homem tem que estar atento no que ela precisa, mesmo no meio de uma disputa. Gottmann, professor emérito da Universidade de Washington, estudou a fundo os fatores que promovem a estabilidade de um casal. Ele filmou o cotidiano de milhares de casais para analisar suas interações e apresentou os resultados de forma quantitativa. Ele lembra que podemos aplicar a Teoria dos Jogos nas relações conjugais também.  A princípio, se um ganha dois pontos, o outro perde dois.  O equilíbrio em que ambos ganham, em que cada um sai com um ponto, aproxima-se mais do equilíbrio de Nash – John Nash Prêmio Nobel de Economia. Rubem Alves trouxe a ideia das relações como um jogo de frescobol. Se o outro erra, o prejuízo é dos dois. Por isso vale a pena jogar a bola com capricho para o outro. Tudo isso precisa de esforço de ambas partes.

Por Dr. Ricardo Teixeira*

É só uma cabeça equilibrada em cima do corpo (Chico Science & Nação Zumbi)

Costumo provocar alguns dos meus pacientes que buscam minha orientação sobre como melhorar o funcionamento do cérebro de que existe uma hierarquia nas tarefas. A maioria está pensando em melhorar a memória, concentração e capacidades executivas. A hierarquia de tarefas se dá numa certa direção. Para otimizar essas capacidades precisamos estar vivos. Precisamos estar acordados.  Precisamos prestar atenção nas coisas. Só então atingiremos bom desempenho na memória e outras funções cognitivas complexas. Só que no meio desse caminho há uma pedra: nosso equilíbrio psíquico. Você pode estar vivo, mas se o equilíbrio emocional não estiver bem modulado, o resto da cadeia fica bem prejudicada.

Isso já se reflete no segundo passo que é estar acordado. O sono é influenciado sobremaneira pelas nossas emoções. Fica extremamente perturbado quando estamos preocupados, ansiosos ou deprimidos, sem falar de tantas outras condições que perturbam a qualidade do sono, muitas delas muito comuns, como o excesso de trabalho e o consumo exagerado de álcool. Como exigir desempenho do cérebro sem um sono reparador? O fato é que muitos desses fatores ameaçam também o primeiro estágio de nossa hierarquia que é o de nos mantermos vivos. Maiores índices de doenças que reduzem nossa expectativa de vida não nos ajudarão a passar para os próximos estágios.  

Temos um “zilhão” de evidências de que muitas ações que promovem o melhor funcionamento cerebral carregam também o potencial de modular nossas emoções. A atividade física regular libera substâncias no cérebro que o faz funcionar melhor. A mesma atividade física também ajuda no controle das emoções no dia a dia por outras vias neuroquímicas. E aqui nossa hierarquia de ações ganha autonomia de voo, com menos obstáculos para melhores resultados nas funções cognitivas complexas. O mesmo raciocínio vale para a sociabilidade, o trabalho altruísta, a experiência da arte, o contato com a natureza. E coisa boa atrai outras coisas boas.  Onde encontramos lazer, encontramos também mais limites no tempo dedicado ao trabalho. É claro que estamos falando daqueles que têm poder de escolha. Chico Science nos lembra disso em Samba Makossa: A responsabilidade de tocar o seu pandeiro é a responsabilidade de você manter-se inteiro. Se temos poder de escolha, somos um pouco mais responsáveis em manter-nos inteiros do que aqueles que não tem teto, comida na mesa ou que vivem num sistema Casa Grande e Senzala.

E coisa ruim atrai outras coisas ruins. O uso de substâncias neurotóxicas, por exemplo, atrai comportamentos que afetam toda nossa cadeia hierárquica, comprometendoa chance de nos mantermos vivos, nosso sono, nossa cognição. É o tão conhecido círculo vicioso.

Mas se essa discussão está ficando mais embolada do que você esperava, caro leitor, vamos a uma lista simples de atitudes para turbinar seu cérebro.

Durma bem

Pratique atividade física regularmente

A dieta mediterrânea pode preservar o funcionamento do seu cérebro ao longo dos anos (peixes, cereais integrais, frutas, legumes, azeite, pouca carne e laticínios)

Evite substâncias neurotóxicas e aqui se inclui o uso exagerado de álcool 

Sua socialização faz muita diferença

Seu cérebro precisa de atividades estimulantes  

E nesses tempos de pandemia e guerra, mantenha sua cabeça equilibrada em cima do corpo, procurando antenar boas vibrações, preocupando antenar boa diversão. Termino com Lenine, mais um ilustre pernambucano: Enquanto todo mundo espera a cura do mal… A gente espera do mundo e o mundo espera de nós, um pouco mais de paciência.

*Dr. Ricardo Teixeira é neurologista e diretor clínico do Instituto do Cérebro de Brasília

No início da pandemia os holofotes eram todos voltados ao sistema respiratório e circulatório e aos poucos os transtornos provocados pelo vírus sobre o sistema nervoso começaram a ser identificados. Os problemas incluem desde a redução do olfato, dificuldades de memória e dores de cabeça até derrames cerebrais, encefalite, estados de confusão mental e psicose. Isso sem falar dos efeitos das mudanças psicossociais do fenômeno pandemia, como depressão, ansiedade e estresse pós-traumático. Vale lembrar que parte dos sintomas psiquiátricos encontrados podem ser secundários a alterações cerebrais promovidas pela infecção mesmo.

Como isso tudo acontece no cérebro? Já temos evidências de inchaço e inflamação do cérebro em alguns pacientes e tivemos também a demonstração de lesões na bainha de mielina bem semelhantes às que são encontradas em doenças neurodegenerativas como esclerose múltipla. Sabemos que o SARS-CoV-2 pode sim invadir o cérebro, mas as séries neuropatológicas apontam que a identificação do vírus no cérebro não é tão significativa quanto em outros órgãos. O componente de insultos microvasculares parece estar envolvido também, fenômeno descrito por um elegante estudo de Ressonância Magnética e autopsias publicado em 2020 pelo New England Journal of Medicine.  

Um achado muito relevante foi revelado este ano entre pacientes ambulatoriais com declínio cognitivo após a infecção, condição conhecida por brain fog. Dez meses após os primeiros sintomas da COVID-19, a análise do líquor mostrou alterações muito sugestivas de um processo inflamatório autoimune onde o sistema de defesa do indivíduo ataca o próprio sistema nervoso central. O estudo foi conduzido por pesquisadores da Universidade da California nos EUA e publicado pelo periódico Annals of Clinical and Translational Neurology. A Cell, periódico do grupo Nature, publicou este ano evidências de que o vírus, mesmo sem conseguir penetrar em células nervosas do nosso olfato, promove um processo inflamatório que promove alterações da arquitetura do núcleo e DNA dessas células, tornando-as disfuncionais. Isso pode explicar inúmeros sintomas da chamada COVID longa.

E quando se fala em COVID longa no cérebro, acho que nenhum estudo foi tão divulgado como o da Universidade de Oxford que revelou redução do volume de estruturas cerebrais após a infecção pela COVID em sua forma leve. O artigo foi publicado pela Nature e apontou que, após 4.5 meses em média, estruturas do cérebro fortemente ligadas ao olfato tinham uma redução da espessura da substância cinzenta, mais especificamente o giro parahipocampal e córtex orbitofrontal. Houve também uma redução do volume total do volume cerebral e outras estruturas do encéfalo como o cerebelo. Os pacientes apresentaram uma redução do desempenho cognitivo que foi associada à redução do volume cerebelar. O incrível feito desse estudo foi o fato de ter avaliado 785 pessoas por neuroimagem e testes cognitivos de forma seriada ao longo dos anos e, entre as duas últimas testagens, 401 voluntários testaram positivo para o SARS-CoV-2. Os cérebros daqueles que foram contaminados foram comparados aos dos não contaminados.

Estudos apontam que o consumo moderado de álcool aumenta nossa longevidade. Entretanto, um corpo de pesquisas nos mostra que esse mesmo consumo moderado pode aumentar o risco de alguns tipos de câncer e redução do volume cerebral ao longo dos anos. Como resolver essa equação? 

*Por Dr. Ricardo Teixeira

No consultório médico, uma senhora que precisa de medicações para controlar sua pressão arterial encerra sua consulta perguntando se ela pode manter o seu hábito de tomar uma taça de vinho por dia. O doutor lhe responde que não só pode como deve – “Minha cara, temos acompanhado nos últimos anos uma série de estudos que demonstram que o consumo moderado de álcool reduz o risco de doenças cardiovasculares, incluindo o infarto do coração e o derrame cerebral. Isso significa que quem bebe pouco tem menos eventos cardiovasculares do que aqueles que não bebem. Já o consumo exagerado de álcool provoca um maior risco de doenças cardiovasculares. Veja bem, devemos entender consumo moderado como até duas doses de bebida por dia para homens e uma dose para mulheres. As pesquisas ainda apontam que esse efeito protetor do consumo diário e moderado deixa de existir quando a pessoa exagera na dose, mesmo que seja por apenas um dia no mês”.

Essa mesma senhora ouvirá dos médicos que sua taça de vinho é capaz de reduzir seu risco de doença de Alzheimer e outros tipos de demência. Ouvirá também que já existem estudos que demonstram que o seu hábito também está associado a um envelhecimento com maior nível de independência física e maior longevidade. As bebidas alcoólicas de uma forma geral podem promover esses efeitos positivos, mas o vinho tinto parece ser levemente superior, pois além do álcool, ele possui outras substâncias protetoras como os flavonoides, incluindo o resveratrol. 

Esse discurso ainda é controverso, especialmente quando se pensa no cérebro. Algumas pesquisas realmente mostram que o uso moderado de álcool reduz o risco das doenças citadas acima, enquanto outras apontam na direção contrária. Um grande estudo publicado pelo British Medical Journal, evidenciou que o consumo moderado afeta negativamente a estrutura cerebral assim como as funções cognitivas. O estudo envolveu mais de 500 adultos ingleses por um período superior a 30 anos. E o que foi considerado moderado? Para os padrões ingleses, isso significa 4 cervejas de 600ml por semana ou 5 taças de 175ml de vinho. Para os americanos, o consumo moderado é mais generoso: 7 cervejas ou 9 taças de vinho por semana. Nenhum desses dois limites foi seguro para o cérebro. Além disso, o uso leve de álcool não atrapalhou o cérebro, mas também não trouxe benefícios. O que é consumo leve? Duas cervejas ou 2-3 taças de vinho por semana.  

Nesta última semana, uma pesquisa ainda mais robusta, e publicada pela Nature Communications, aponta que o consumo moderado de álcool está associado à redução do volume cerebral ao longo dos anos, fato que pode ter repercussão no desempenho cognitivo. O consumo leve foi definido de acordo com os padrões ingleses como meia taça de vinho ou meia long neck de cerveja por dia e não mostrou nenhum efeito protetor para o volume cerebral. Entretanto, o consumo moderado, uma taça de vinho diária ou uma long neck, já estava associado à redução do tamanho do cérebro.     

À luz do conhecimento atual, recomenda-se que os médicos não indiquem o uso de álcool como se fosse um suplemento alimentar para prevenir doenças. Devem recomendar às pessoas que não bebem que continuem sem beber, e às pessoas que já têm o hábito de beber, que não ultrapassem os limites. Além desse impacto negativo no volume cerebral descrito acima, estudos recentes têm demonstrado que o consumo regular de álcool, mesmo em doses leves, está associado a um maior risco de diferentes tipos de câncer, como o de mama, orofaringe e esôfago. Por essa razão, em 2009 o Instituto Nacional do Câncer da França deu início a uma campanha chamada Álcool Zero, defendendo a ideia de que mesmo uma dose diária não é segura.

Devemos evitar em pensar no álcool como um elemento promotor de saúde da população, não só por essas questões apontadas, mas também porque muitas pessoas atravessam a barreira entre o consumo moderado e o consumo exagerado. O exagero é responsável por uma em cada 25 mortes no mundo, e como se não bastasse as mais de duzentas doenças secundárias ao álcool, ainda temos os enormes problemas sociais que estão associados ao seu consumo.

O encontro anual da Academia Americana de Neurologia apresentará, no início de abril, os resultados de uma pesquisa conduzida nos EUA apontando que ter um animal de estimação reduz o declínio cognitivo quando ultrapassamos os 60 anos. Após seis anos de seguimento de 1369 adultos, com média de idade de 65 anos, aqueles que tinham um pet em casa, especialmente quando por um tempo maior que cinco anos, apresentavam desempenho em testes cognitivos com declínio mais lento. No Japão foi demonstrado recentemente que ter um cachorro, e não um gato, reduz pela metade a chance de incapacidade após os 65 anos, efeito ainda mais robusto entre aqueles que praticam atividade física. Uma maior interação social também explica, em parte, esse efeito protetor dos cães.  

Sabemos que adultos que têm um animal de estimação em casa costumam ser mais integrados à comunidade.  Quanto mais um adulto participa do cuidado com o bicho de estimação, mais atitudes altruísticas ele tem na comunidade e entre amigos e familiares. Quanto maior a conexão com os bichos, maior a empatia com as outras pessoas e autoconfiança.

Em 2017 a prestigiada revista Scientific Reports do grupo Nature publicou os resultados de uma pesquisa que envolveu três milhões e meio de indivíduos na Suécia acompanhados desde o ano de 2001. Aqueles que tinham um cachorro como animal de estimação viveram mais! Tiveram menor incidência de doenças cardiovasculares, mas também de outras doenças. O interessante é que os que moravam sozinhos com o cachorro foram os que mais se beneficiaram. Além disso, esse efeito protetor foi maior entre os que tinham cães de caça.

Já tínhamos evidências que essa ligação entre os humanos e os animais é capaz de promover uma redução nos níveis da pressão arterial e do estresse.  Pesquisadores de Nova Iorque demonstraram que pacientes que têm cães sobrevivem mais após passado um ano de um infarto do coração. Nos últimos anos, diferentes grupos de pesquisadores evidenciaram que os indivíduos que têm cães apresentam um menor nível de alterações cardíacas provocadas pelo estresse.

E os efeitos positivos dos animais de estimação não param por aí. Há evidências de que a presença do animal está associada a uma menor procura por consultas médicas pelos indivíduos idosos e menor incidência de depressão.

As crianças também se beneficiam da presença do animal. Os cachorros são ótimos para o equilíbrio psíquico delas em situações estressantes. Durante uma prova de estresse em laboratório, a presença do cão de estimação conferiu uma resposta de estresse menor até mesmo quando comparada à presença dos pais.

Não estou advogando pela substituição dos amigos pelos animais. Entretanto, é razoável hoje em dia recomendar a uma pessoa com poucos contatos sociais, e que goste de animais, que não deixe de experimentar viver com um animal de estimação, pois ele pode fazer muito bem à nossa saúde do corpo e da mente. Também não estou querendo minimizar os efeitos positivos de um gato em casa, mas os estudos até o momento sugerem que os cães realmente parecem trazer impactos mais robustos que os gatos à saúde humana.

Quando alguém nos fala: tenho duas notícias pra contar, uma boa e outra ruim. Qual você quer ouvir primeiro? A grande maioria responde que quer ouvir a ruim antes. Reconhece-se que o ser humano tem uma tendência a dar mais atenção a informações negativas do que às positivas. Ter consciência de informações negativas, e presumivelmente ameaçadoras, pode ser visto como um traço de adaptação da espécie.

E o que dizer do incerto? Numa situação em que alguém nos diz: Tenho uma coisa para lhe contar. Você quer ouvir? Poucos devem discordar que a maioria nessa situação diria: conta logo!

A incerteza é vista pela psicologia como a antecipação de uma ameaça pouco definida. Se a exposição a um estímulo negativo representa uma ameaça, a exposição ao desconhecido pode ser ainda mais ameaçadora, já que não se sabe o tamanho do suposto inimigo. Alguns estudos nos mostram que o suspense da incerteza gera mais alterações fisiológicas associadas à ansiedade do que o confronto a estímulos negativos bem definidos. As pessoas preferem um capeta conhecido a um capeta que ainda não conhecem.

Uma pesquisa publicada pelo periódico Nature Communications confirma essa ideia. Voluntários mostravam mais sinais físicos de estresse quando estavam numa situação de expectativa do que quando já sabiam que o desfecho tinha grande chance de ser ruim. O estudo foi feito com um game em que os participantes tinham que atravessar um terreno pedregoso e ficar atentos a cobras. Caso encontrassem uma cobra eles levariam um pequeno choque. Quando a chance de se deparar com uma cobra era de 50%, níveis máximos de estresse eram encontrados. Quando a chance era de zero ou 100%, os níveis de estresse caíam a níveis mínimos. Por outro lado, o estresse trouxe também seus efeitos benéficos. Quanto maiores os níveis de estresse maior foi a capacidade de fugir das cobras. O estudo foi conduzido por pesquisadores da Universidade de Londres.

Outra pesquisa publicada pela revista Nature Neuroscience revelou que os macacos também querem saber das coisas o mais rápido possível, e que do ponto de vista neuroquímico, esse acesso adiantado à informação é semelhante ao de outros tipos de recompensa cerebral. Neste caso, o experimento envolvia a recompensa de uma quantidade de água maior ou menor. Outras pesquisas têm mostrado que, quando o assunto em questão envolve uma experiência negativa, a preferência por acesso rápido à informação é ainda maior.

Sabe-se desde a década de 1990 que há um contingente de pessoas com transtornos de ansiedade que tem muita dificuldade com a incerteza, e essa dificuldade é vista hoje como um traço de personalidade. As pessoas com quadro de anorexia costumam ter traços de personalidade de perfeccionismo, os obsessivos-compulsivos têm níveis de responsabilidade inflados, e a psicoterapia nessas condições foca os esforços para fazer com que essas características sejam moduladas permitindo um melhor equilíbrio mental. Da mesma forma, as pessoas com alta vulnerabilidade ao incerto devem ter o tratamento psicoterápico focado nessa fraqueza.

As pessoas com maior grau de intolerância à incerteza frequentemente vivem em uma rotina com a menor chance de surpresas. Muitas vezes acabam tomando decisões precipitadas para sair do suspense do desconhecido. E aí vem o megadesafio: a pandemia.  

Tudo passou a ficar em um estado de incerteza absoluto. Trabalho, escola, viagens, boletos a pagar, a vida, tudo incerto. Dezenas de estudos foram feitos desde então mostrando que as pessoas mais frágeis à experiência do desconhecido são as que mais têm sofrido por problemas emocionais nesse período.

Um estudo publicado em janeiro deste ano por pesquisadores da Universidade de Illinois nos EUA reavaliou os voluntários que tinham feito parte de uma pesquisa sobre intolerância ao desconhecido dois anos antes da pandemia. A reavaliação foi feita durante a pandemia e aqueles que tinham maiores escores na escala de intolerância e maior atividade numa região do cérebro chamada de ínsula no estudo inicial foram os que apresentaram maiores níveis de estresse, ansiedade e depressão na pandemia. Mas é claro que a perda de um ente querido provoca mais sofrimento que qualquer incerteza.

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Sentir tontura ao assumir a posição ereta é uma queixa que é difícil encontrar alguém que nunca a tenha experimentado. Temos nesse momento redução da pressão arterial e aumento da frequência cardíaca.  A isso se chama hipotensão postural inicial e algumas pessoas apresentam o fenômeno de forma exacerbada, chegando a desmaiar e, por vezes, inúmeras vezes por dia. A recomendação mais comum dada pelos médicos é de que a pessoa passe a se levantar lentamente. Se está deitado, sentar primeiro por alguns instantes para só depois ficar em pé.

Um novo estudo mostra que duas atitudes simples e sem custo podem auxiliar na prevenção desses eventos. Os achados foram publicados por pesquisadores canadenses no periódico Heart Rhythm apontando que o movimento e contração da musculatura das coxas e glúteos, antes ou após se levantar, aumenta o volume de sangue bombeado pelo coração e pode ajudar muito na redução dos sintomas. Para facilitar o entendimento, a ativação dessa musculatura transfere mais sangue para o coração e consequentemente mais sangue chega ao cérebro.

Os pacientes estudados tinham pelo menos quatro episódios por mês de pré-síncope (podemos chamar de “pré-desmaio”) ou síncope ao se levantar e todos tinham uma redução da pressão arterial sistólica de pelo menos 40mmHg. O protocolo de movimento e contração era o de elevar os joelhos repetidas vezes ainda sentado (30 segundos) e quando em pé fazer contração da musculatura dos glúteos e cruzamento das pernas (30 segundos). Os voluntários foram controles deles mesmos: levantaram-se também sem esse protocolo. Ambos os procedimentos amenizaram a queda da pressão arterial e sintomas associados.

A pesquisa incluiu apenas mulheres entre 25 e 38 anos e futuros estudos deverão mostrar se os mesmos resultados podem ser alcançados entre homens e indivíduos idosos.     

Person In The Middle Of A Forest

Pesquisa acaba de ser publicada pelo prestigiado periódico PLOS Biology apontando que a tendência em estar próximo à natureza tem um forte componente genético. O tempo junto à natureza de gêmeos idênticos, que tem quase 100% do material genético igual, é bem mais similar do que o de gêmeos não idênticos (50% do material genético igual). O estudo foi baseado no banco de dados inglês Twins UK com entrevistas relacionadas à relação dos indivíduos com a natureza. Foram abordados itens como familiaridade e desejo de estar em um ambiente natural e frequência de visitas a esses espaços. Mesmo assim, foi calculado que 50% da tendência em ter a natureza no dia a dia tem origem em fatores ambientais, como a facilidade de acessar esses espaços e estímulos de outras pessoas, especialmente quando ainda jovens.

 

Temos inúmeras evidências do quanto a natureza é benéfica para nosso cérebro e nosso equilíbrio psíquico. Quando se pensa no cortisol, hormônio produzido pelas glândulas suprarrenais e associado ao fenômeno do estresse, sabemos que o contato com o verde inibe a produção desse hormônio. Indivíduos que passeiam por áreas arborizadas têm menor produção de cortisol do que aqueles que fazem o mesmo numa rua comercial agitada.  

Mas qual o tempo mínimo de contato com o verde para se ter esse efeito anti-estresse? Pesquisadores da Universidade de Michigan, nos EUA, mostraram recentemente que esse benefício já acontece com 20 minutos de uma vivência em ambiente arborizado no perímetro urbano, independente de atividade física. Outro estudo, ainda mais robusto, foi publicado na revista Scientific Reports envolvendo quase vinte mil voluntários mostrando que o contato com a natureza, a partir de 120 minutos por semana, faz com que as pessoas tenham uma maior auto percepção de saúde e bem estar. O máximo benefício ocorre entre 200 e 300 minutos por semana e o efeito foi o mesmo se a pessoa tem essa vivência de 200 minutos em um só dia ou em parcelas de 30 minutos todos os dias da semana, por exemplo.

Alguns países como a Finlândia, Japão e Coréia do Sul já entenderam bem o recado e têm programas de “banhos de floresta” como forma de promoção da saúde. São muitos os benefícios já demonstrados com essas “pílulas de natureza”. Além da promoção do equilíbrio psíquico, temos ganhos na atenção, memória, linguagem e até na capacidade criativa. Também temos menores índices de doença cardiovascular, obesidade, diabetes, hospitalização por crises de asma e, finalmente, menor mortalidade.

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No início da pandemia os holofotes eram todos voltados ao sistema respiratório e circulatório e aos poucos os transtornos provocados pelo vírus sobre o sistema nervoso começaram a ser identificados. Os problemas incluem desde a redução do olfato, dificuldades de memória e dores de cabeça até derrames cerebrais, encefalite, estados de confusão mental e psicose. Isso sem falar dos efeitos das mudanças psicossociais do fenômeno pandemia, como depressão, ansiedade e estresse pós-traumático.

Como isso tudo acontece no cérebro? Já temos evidências de inchaço e inflamação do cérebro em alguns pacientes e tivemos também a demonstração de lesões na bainha de mielina bem semelhantes às que são encontradas em doenças neurodegenerativas como esclerose múltipla. Sabemos que o SARS-CoV-2 pode sim invadir o cérebro, mas as séries neuropatológicas apontam que a identificação do vírus no cérebro não é tão significativa quanto em outros órgãos. Entretanto, novas mutações podem ter um comportamento diferente.

Um achado muito relevante foi revelado este ano entre pacientes ambulatoriais com declínio cognitivo após a infecção, condição que conhecida por brain fog. Dez meses após os primeiros sintomas da COVID-19, a análise do líquor mostrou alterações muito sugestivas de um processo inflamatório autoimune onde o sistema de defesa do indivíduo ataca o próprio sistema nervoso central. O estudo foi conduzido por pesquisadores da Universidade da California nos EUA e publicado pelo periódico Annals of Clinical and Translational Neurology. Não é definitivo devido à pequena amostragem, mas aponta para uma possível e fértil avenida terapêutica. E a Cell, periódico do grupo Nature, acaba de publicar evidências de que o vírus, mesmo sem conseguir penetrar em células nervosas do nosso olfato, promove um processo inflamatório que promove alterações da arquitetura do núcleo dessas células, tornando-as disfuncionais. Isso pode explicar inúmeros sintomas da chamada COVID longa.     

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Enquanto as doenças do coração mantêm a liderança como as principais causas de morte no mundo, observa-se um aumento substancial na prevalência das doenças do cérebro, especialmente as demências como a Doença de Alzheimer. É interessante notar que os quadros demenciais e as doenças do coração dividem os mesmos fatores de risco como a hipertensão arterial, diabetes, obesidade e tabagismo. Está se tornando claro que a redução dos fatores de risco vascular pode fazer a diferença na redução de doenças do cérebro, e não estamos mais falando só de derrame cerebral.

A mortalidade global associada à Doença de Alzheimer e outras demências têm crescido num ritmo maior que o das doenças do coração. Entre 2010 e 2020 houve um aumento de 44% na mortalidade associada a quadros demenciais e de 21% por doenças do coração. Quando se pensa em 30 anos (1990-2020), o incremento de mortes por quadros demenciais foi de 144%. Nos EUA, a mortalidade por Doença de Alzheimer tem sido até maior que por derrame cerebral.

Voltando aos fatores de risco vascular, o periódico Circulation da Associação Americana do Coração nos trouxe nesta última semana dados inequívocos de que o que não faz bem ao coração também não faz bem ao cérebro. Hipertensão arterial aumenta em cinco vezes as chances de uma pessoa apresentar declínio cognitivo e quadros demenciais. No caso da obesidade, esse aumento é de três vezes. Tabagismo aumenta o risco de demência em 30-40%.

Há também uma forte relação entre a função do coração e o desempenho cognitivo. Menor desempenho cognitivo é encontrado com 40% mais chances em portadores de doença coronariana. Essa relação também existe em quem tem fibrilação atrial, uma arritmia cardíaca comum. Insuficiência cardíaca eleva duas vezes o risco de um quadro demencial.

Fatores socioeconômicos, de gênero e raça também influenciam o risco de demência. Mulheres têm mais Doença de Alzheimer que os homens. Uma amostra global de 2020 mostra que 65% dos casos são de mulheres. Em uma análise da população americana, negros e hispânicos têm 3 a 4 vezes mais chances de desenvolver declínio cognitivo que interfere nas atividades de vida diárias quando comparados aos brancos, e aqui fatores socioeconômicos têm forte influência.

Voltando mais uma vez aos fatores de risco vascular, vale lembrar que o exercício físico e a dieta mediterrânea são um show na prevenção de doenças do coração e também de demência.     

Close-Up Shot of a Typewriter

Um estudo recentemente publicado no JAMA Network Open, conduzido nos EUA, aponta que falsas informações sobre a vacinação contra o coronavírus têm duas vezes mais chances de serem consideradas verdades entre pessoas com sintomas depressivos. De uma forma geral, sabe-se que um estado mental com viés negativista exacerba a propagação de fake news. E pessoas com quadros depressivos estão com suas mentes nesse modo negativista, enxergando o mundo com lentes nem um pouco cor-de-rosa.

O estudo, envolvendo mais de 15 mil voluntários, foi conduzido por pesquisadores da Universidade de Harvard envolvendo todos os 50 estados americanos e Washington D.C. Os pesquisadores mostraram que a prevalência de depressão foi três vezes maior do que a de estudos realizados antes da pandemia. Aqueles que apresentavam sintomas depressivos moderados ou severos acreditavam mais em notícias falsas sobre a vacinação e também eram os que menos se vacinavam. Numa segunda avaliação, realizada dois meses depois, aqueles que tinham sintomas depressivos na primeira avaliação passavam a acreditar ainda mais em informações falsas. Esses achados não foram influenciados pelo posicionamento político de cada um.

Os pesquisadores deixam claro que os resultados não devem ser interpretados como fake news causando depressão, mas que as pessoas deprimidas têm maior tendência em acreditar nesse conteúdo falso e são mais vulneráveis a contrair a infecção por uma menor disposição em se vacinar. 

Woman Placing Her Finger Between Her Lips

Faço nosso o meu segredo mais sincero (Daniel na Cova dos Leões- Renato Russo)

Guardar segredos é trabalhoso para nossa mente e está associado a um menor bem-estar psíquico, ansiedade depressão e piores relações com os outros. A constante vigília para não deixar escapar pistas dos nossos segredos pode ser uma tarefa exaustiva.

Entretanto, novas pesquisa nos apontam que o lado mais complicado dos segredos não é o esforço mental de guardá-los, mas o simples fato de ter que conviver com eles e pensar repetidamente sobre eles. O ato de ruminar segredos é bem cansativo e faz-nos sentir pessoas pouco autênticas.  

Pesquisadores da Universidade de Columbia nos EUA avaliaram mais de 5000 voluntários mostrando que 97% tinham pelo menos um segredo em algum momento da vida e uma média de 13 segredos. Desses 13, cinco jamais foram compartilhados com outra pessoa. Os mais comuns eram os relacionados a desejos, assuntos relacionados à sexualidade, traição e desonestidade. Quanto mais as pessoas pensavam nos seus segredos fora dos momentos de interação social, menores eram os índices de bem estar psíquico. O mesmo não aconteceu com a atitude de prestar atenção para que eles não fossem revelados a outras pessoas. Os pesquisadores ainda demonstraram que quando as pessoas confidenciam um segredo a outra pessoa, e pode ser o psicoterapeuta, elas passam a ruminar menos. E o melhor vem depois da confidência: o suporte emocional e conselhos. Isso faz com que as pessoas convivam de forma mais saudável com os segredos.   

A Man in Red Shirt Covering His Face

É bastante comum ouvir a resposta onze (!) quando perguntamos a um paciente que sofre de cefaleia em salvas qual a intensidade da dor numa escala de 1 a 10. Esse tipo de dor de cabeça é bem menos comum que a enxaqueca, 1 em cada 1000 pessoas, e costuma ser mais forte. Alguns até batem a cabeça na parede de tanto desespero e têm ideação suicida. Infelizmente ela é subdiagnosticada e os indivíduos comumente passam décadas sendo tratados como se tivessem uma enxaqueca.

Salvas porque ela acontece frequentemente em ciclos de dor de cabeça de uma semana a meses e com intervalos de remissão, mas também pode ocorrer de forma crônica sem esses intervalos ou com intervalos menores que três meses. A dor costuma acontecer no mesmo período do dia como se fosse um despertador que te acorda na mesma hora e num período de 24 horas pode ocorrer quase uma dezena de crises intercaladas por períodos assintomáticos ou de dor fraca. Esse padrão temporal é bem característico da cefaleia em salvas, mas ela tem sinais e sintomas bem peculiares como vermelhidão no olho, lacrimejamento, congestão nasal, todos do mesmo lado da dor de cabeça. Diferente da enxaqueca que pede repouso, numa crise de cefaleia em salvas, os indivíduos costumam ficar agitados.

Uma pesquisa recém-publicada pelo periódico Headache mostra que a cefaleia em salvas já se inicia na infância em mais de um quarto das vezes, mas apenas 15% serão diagnosticados antes dos 18 anos. Confirma também a maior prevalência entre os homens: 85% dos casos.  

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Thomas Edison inventou a lâmpada e tinha um estranho hábito de dormir numa cadeira segurando duas bolas de aço. Quando adormecia ele acordava com o barulho das bolas e defendia que isso o fazia resolver problemas complexos que não tinha sido capaz de resolver quando em vigília.

Um estudo acaba de ser publicado na revista Science Advances mostrando que que Edison tinha razão. Voluntários que despertavam na transição entre a vigília e o sono superficial, antes de iniciar o sono profundo, tinham uma capacidade até três vezes maior de resolver problemas matemáticos. Esse benefício não era observado imediatamente ao acordar, mas já ia se revelando após 30 minutos.

O período dessa transição é curto, mas ganhar consciência nesse momento pode trazer um maior insight em questões ainda não respondidas. Podemos chamá-lo de “janela criativa”, um estado de consciência que dá acesso a conteúdos inacessíveis na vigília (experiências hipnagógicas) e menos acessíveis ainda no sono profundo. E o cérebro trabalha e muito durante o sono. É quando consolidamos nossa memória e agora temos esse fenômeno criativo demonstrado.

O estudo, conduzido por pesquisadores franceses envolveu mais de cem voluntários sem qualquer dificuldade em induzir ou manter o sono. Aqueles que não conseguiam resolver problemas matemáticos na vigília eram submetidos à mesma tática de Edison: relaxar numa poltrona reclinável segurando um objeto. A história aponta que gigantes como Albert Einstein, Alexandre o Grande e Salvador Dali eram simpatizantes dessa tática. E então? Vai experimentar?

Person Jogging

Um estudo recém-publicado por pesquisadores japoneses na prestigiada revista Scientific Reports aponta que dez minutos de atividade física moderada deixa o cérebro com melhor desempenho e maior atividade em regiões estratégicas para as funções executivas, além de um melhor estado de humor. Pesquisas do mesmo grupo já haviam demonstrado o efeito positivo sobre a cognição após atividade moderada e breve na bicicleta, mas a melhora do estado de humor só aconteceu na corrida. Atividade física moderada foi definida como 50% do consumo máximo de oxigênio.  

A cada dia temos mais evidências de que o cérebro lucra e muito com o hábito da atividade física regular. E esse benefício já começa em idades precoces. Ao contrário do que já se chegou a cogitar, o tempo gasto com atividade física na escola promove mais sucesso acadêmico do que se o jovem direcionasse esse tempo de atividade física para mais atividades na sala de aula.

Os efeitos da atividade física também têm sido muito bem estudados no processo de envelhecimento cerebral sugerindo um efeito neuroprotetor. Uma série de pesquisas tem revelado que a atividade física em idosos melhora o desempenho cognitivo. Os efeitos positivos podem ser observados em diversas dimensões da cognição e de forma mais marcante sobre as funções executivas que incluem, por exemplo, a memória operacional (de curto prazo), a capacidade de planejamento, de tomada de decisão e de dar atenção a mais de uma coisa ao mesmo tempo. Já dispomos também de um bom corpo de evidências de que a atividade física em idosos reduz o risco de desenvolver a Doença de Alzheimer e a Demência Vascular, ou pelo menos adia seu aparecimento.

Os ganhos no cérebro já foram demonstrados através de variáveis fisiológicas que vão desde o aumento da perfusão sanguínea, metabolismo e tamanho do cérebro em determinadas regiões, até a modulação de sua própria atividade elétrica. Em animais as pesquisas chegam ao nível celular e molecular. Ratinhos que se exercitam criam novos neurônios e conexões em uma das regiões mais importantes do cérebro no que se refere à memória: o hipocampo. Novos vasos sanguíneos também são criados no hipocampo assim como em outras regiões cerebrais. O exercício estimula também a produção do Fator Neurotrófico Derivado do Cérebro, e isso foi demonstrado também em humanos. Esse fator é responsável pela saúde dos neurônios e está associado à capacidade de aprendizado e memória. Até mesmo ratinhos recém-nascidos de mães que se exercitaram durante a gravidez têm mais neurônios no hipocampo do que aqueles de mães sedentárias. Para quem não sabe, uma das primeiras regiões cerebrais afetadas pela Doença de Alzheimer é o hipocampo, doença que promove redução do número de neurônios dessa região.

O exercício físico ainda é capaz de promover ativação de secreção de diversas substâncias no cérebro como endorfina e endocanabinoides, que podem provocar, além do efeito imediato de euforia e redução da percepção de dor, a modulação do funcionamento químico do cérebro de forma mais sustentada. Essa é uma das formas de explicar resultados de pesquisas que mostram que a atividade física tem o poder de reduzir a chance de uma pessoa vir a desenvolver depressão. O interessante desses estudos é que esse poder é bem mais robusto no caso da atividade física associada ao lazer do que ao trabalho. Sabemos que o lazer, independente de estarmos nos mexendo, já é capaz de recompensar quimicamente o cérebro levando ao bem-estar psíquico. Um dos componentes que ajudam a ativar esse bem-estar é a interação social vinculada a boa parte das atividades de esporte e lazer.

Person Holding Black and White Wall Decor

Por Dr. Ricardo Teixeira*

O cerebelo é uma região do sistema nervoso central que fica na sua parte posterior e por muitos anos foi considerado o maestro de nossa coordenação motora. Há algum tempo temos evidências de que ele também participa da nossa atividade cognitiva, processamento das emoções e comportamento. Nesse caso, ele usa sua batuta para fazer com que as regiões ligadas ao pensamento e às emoções trabalhem em conjunto de forma mais eficaz. E esse conhecimento só teve início há duas décadas após a descrição da Síndrome Afetiva Cognitiva Cerebelar pelo americano Jeremy Schmahmann. Ele mostrou que indivíduos com lesões no cerebelo apresentavam, além de alterações de coordenação motora, disfunções cognitivas e de controle emocional.

Mais recentemente, temos evidências de ligação entre alterações da função do cerebelo a condições como adição a drogas, autismo e esquizofrenia. Esses achados sugerem que o cerebelo deva participar do sistema de recompensa cerebral e de nosso comportamento social, mas uma clara conexão entre esses sistemas ainda era desconhecida. A revista Science publicou em 2019 uma pesquisa que deixou mais clara essa questão.

Pesquisadores americanos mostraram, pela primeira vez, um circuito que liga o cerebelo diretamente ao centro tegmentar ventral, área do cérebro considerada um dos mais importantes centros do nosso sistema de recompensa. A pesquisa foi realizada em roedores e mostrou também que a estimulação desse circuito era capaz de provocar comportamento semelhante ao de adição. Um futuro experimento testará se roedores expostos a drogas, como cocaína, podem ter o componente de adição reduzido após a inibição desse circuito.

Neste mês de novembro, tivemos mais uma descoberta importantíssima da influência que um núcleo de neurônios no cerebelo tem sobre o comportamento humano. Desta vez foi demonstrada que a ativação desses neurônios é capaz de aumentar a saciedade em até 75%. O início da investigação partiu da evidência de um padrão de ativação atípico no cerebelo em pacientes com a síndrome de Prader Willi quando expostos ao alimento. Essa é uma condição genética rara em que os portadores comem compulsivamente, levando-os ao desenvolvimento de obesidade. Os pesquisadores conseguiram demonstrar também um circuito ligando esse grupo de neurônios no cerebelo com o sistema de recompensa cerebral.

Novos estudos em humanos já estão na mira desses laboratórios. A manipulação da atividade dessas conexões (cerebelo-sistema de recompensa) com técnicas de impulsos magnéticos e microeletricidade pode ser promissora para o tratamento de adição a drogas e obesidade, por exemplo.

*Dr. Ricardo Teixeira é neurologista e diretor clínico do Instituto do Cérebro de Brasília

Em 2013, pela primeira vez na história, um pequeno dispositivo implantado no cérebro se mostrou eficiente para prever o início de uma crise epiléptica. Os resultados na época foram divulgados pelo prestigiado periódico The Lancet Neurology.

Para quem tem crises epilépticas que não são controladas com medicações, e elas representam 30% das pessoas que sofrem dessa condição neurológica, saber com antecipação o momento de uma nova crise pode fazer toda a diferença, promovendo um estado de maior segurança e autonomia. Saber que uma crise acontecerá em alguns minutos permite que a pessoa que está dirigindo, por exemplo, encoste o carro e evite um acidente. Essa informação também pode fazer com que o indivíduo use uma medicação extra nos períodos imediatamente antes da crise.  

O dispositivo foi desenvolvido por pesquisadores americanos de Seattle (NeuroVista) para detectar atividade elétrica anormal no cérebro que precede uma crise epiléptica. Ele é implantado entre o cérebro e a caixa craniana e transmite informações para outro dispositivo colocado abaixo da pele na região do tórax. Um aparelhinho do tamanho de um iPod que pode ser adaptado ao cinto emite três diferentes sinais sonoros e luzes que informam a chance de uma nova crise: luz vermelha (risco alto), luz branca (risco moderado) e luz azul (baixo risco).

Essa tecnologia abre uma grande porta para o desenvolvimento de novos métodos para controle de crises epilépticas de ação ultrarrápida como estímulos elétricos ou até mesmo medicações. Entretanto, nem todo mundo que tem crises não controladas com medicações pode arcar com os custos ou se sujeitaria à implantação de um eletrodo cerebral. Pesquisadores da Mayo Clinic nos EUA acabam de publicar os resultados de uma experiência de sucesso com uma pulseira que avisa quando uma crise está por vir com 30 minutos de antecedência, sem a necessidade de implantação de eletrodos intracranianos. Essa pulseira usa a tecnologia de um algoritmo que prevê uma crise com dados das oscilações do ciclo circadiano de cada paciente e associado a informações de sua temperatura, frequência cardíaca, fluxo sanguíneo e atividade eletrodérmica do pulso e também de movimentos. Tudo isso através da pulseira e sem precisar implantar eletrodos no cérebro. Para quem achava que o Apple Watch era superpoderoso, hein?    

Tudo isso pode trazer mais independência àqueles que sofrem com quadros de epilepsia de difícil controle, reduzindo acidentes e o impacto psicossocial dessa condição neurológica que afeta uma em cada cem pessoas. Epilepsia não escolhe idade, raça, gênero, muito menos status socioeconômico.  

Silhouette of Bird Above Clouds

O número ideal de horas de sono é aquele que faz com que a pessoa no outro dia sinta que dormiu o suficiente. Um percentual pequeno de pessoas sente-se bem com menos de 7 horas, e estes são chamados de dormidores curtos. Há também os dormidores longos, aqueles que precisam de mais de 8 horas de sono e que também representam uma minoria. Porém, a maior parte da população mundial, incluindo os brasileiros, dorme entre 7 e 8 horas por noite.

Temos evidências de que as pessoas que dormem as 7 horas, mas acordam mais tarde, têm maior risco de desenvolver um quadro de depressão. Discutimos recentemente um estudo que mostrou que basta dormir 1 hora mais cedo que esse risco é reduzido em 23%. Se dormir 2 horas mais cedo essa tendência pode ser reduzida em quase 40%.

Como explicar esse efeito? Temos evidências de que uma maior exposição à luz durante o dia (tem que acordar cedo!) está associada a padrões hormonais que influenciam o humor. Outra explicação é o impacto psicológico de estar desalinhado da maioria das pessoas que dorme cedo e acorda cedo.  E o hábito de ir dormir cedo e acordar cedo traz benefícios ao coração também.

Uma pesquisa divulgada esta semana pela Sociedade Europeia de Cardiologia apontou, após acompanhar 88 mil voluntários por 6 anos, que aqueles que iam para a cama entre 22 e 23h tinham menor chance de apresentar um evento cardiovascular como infarto do coração ou derrame cerebral. Isso comparado aos que iam dormir mais cedo ou mais tarde e a explicação seria o rompimento do ciclo circadiano que é o nosso relógio biológico.  Os que iam dormir depois da meia noite foram os que apresentaram maior risco. Já temos um corpo robusto de evidências mostrando que dormir e acordar tarde têm impacto negativo no controle de nossa glicemia e aumenta a incidência de hipertensão arterial e obesidade. O estudo também confirmou o que já sabíamos através de várias outras pesquisas: dormir pouco aumenta o risco de eventos vasculares.

Man Wearing White Dress Shirt With Black Necktie

Sentimentos como nervosismo e entusiasmo são frequentemente associados mais a um gênero do que ao outro. Pesquisadores da Universidade de Michigan, nos EUA, avaliaram se as mulheres realmente são mais emotivas que os homens, já que a ideia de elas serem mais emotivas que eles pode ser só um estereótipo. É comum a flutuação emocional de um homem durante um jogo de futebol ser considerada “paixão”, enquanto as flutuações das mulheres, em qualquer situação e mesmo que provocadas, são interpretadas, por muitos, como irracionalidade.

O estudo acompanhou 142 voluntários (18 a 38 anos) por 75 dias para mapear as emoções positivas e negativas no dia a dia. Os resultados mostraram que os altos e baixos emocionais não foram diferentes entre os gêneros, apesar de terem sido desencadeados por razões diferentes. Entre as mulheres, a flutuação emocional não estava associada ao uso de pílula anticoncepcional.

Os achados têm uma grande implicação na redução do estigma de “mulheres à beira de um ataque de nervos”, já que os homens estão na mesma montanha russa emocional. A pesquisa trará impacto também na inclusão das mulheres em estudos que historicamente as excluem com o argumento de que a flutuação emocional é muito alta e hormônio-dependente. Inúmeros estudos com roedores apontam que essas flutuações na fêmea são até menores do que no macho.

Refrescando a memória sobre esse estereótipo na CPI da covid-19:

Simone Tebet foi chamada de “descontrolada”.

A senadora Leila Barros foi interrompida várias vezes pelo senador governista Marcos Rogério enquanto tentava cumprir seu papel na CPI. Rogério afirmou, na ocasião, que ela estaria “nervosa”.

Ninguém chamou um homem de nervoso ou descontrolado na CPI. Estavam todos em estado de relaxamento profundo.

Photo credit: Kevin Mazur - Getty Images

Recentemente pudemos acompanhar cenas do show da lenda do jazz Tony Bennet junto a Lady Gaga no Radio City Music Hall em Nova Iorque. Nos ensaios, ele não era capaz de reconhecer Lady Gaga, amiga e companheira em inúmeros projetos. Mas no dia do show, ele falou o nome dela com muita emoção quando ela subiu ao palco. Tony sofre de doença de Alzheimer desde 2016, está com 95 anos e a turnê era sua despedida dos palcos. O vídeo é emocionante. Clique aqui para assistir.

Depois do show Lady Gaga disse: “Eu quero que as pessoas saibam que, se tem alguém que você ama com Alzheimer, há uma maneira de se comunicar e tocar uma magia no coração que ainda está lá. E eu acho que cabe a nós questionarmos por quais maneiras podemos despertar esses sentimentos e assim nos comunicarmos melhor com eles.” O recado de Lady Gaga é precioso às famílias que têm um ente querido com a doença.

Calcula-se que a chance de desenvolvermos um quadro demencial seja de 25%, se ultrapassarmos os 80 anos de vida, e de 50% se passarmos dos 90. Esse cenário era bem diferente no caso de nossos ancestrais, pois eles não envelheciam e toda a programação genética estava concentrada em oferecer condições para que o indivíduo conseguisse se reproduzir e perpetuar a espécie. Nossa grande longevidade é um fenômeno bem recente, e não houve tempo de nos adaptarmos geneticamente a esse novo cenário. Vale lembrar que a expectativa de vida do Australopitecus, há 4 milhões de anos, era de apenas 15 anos, 25 anos no caso dos europeus na Idade Média, cerca de 40 anos no século XIX e 55 anos no início do século XX.

Já que não somos geneticamente tão “atualizados” assim, e esse tipo de atualização é coisa para milhão de anos, o que podemos fazer para chegar aos 80 anos com a cabeça tinindo é investir em atitudes de vida saudáveis. As estrelas de primeira grandeza são a atividade física regular e uma rotina em que o cérebro tenha muitas demandas, e aí o lazer certamente está incluído.

Além disso, a ciência demonstra, de forma inequívoca, que o padrão da dieta mediterrânea ajuda a prevenir a demência. Essa é uma dieta rica em peixes, verduras, legumes, frutas, cereais (melhor se forem integrais), azeite e outras fontes de ácidos graxos insaturados, e baixo consumo de carnes e laticínios e outras fontes de gorduras saturadas, além do uso moderado, porém regular, de álcool.

Tão importante quanto o incremento dessas atitudes saudáveis é evitar condições que diminuam as reservas do cérebro, como é o caso do tabagismo, álcool em excesso e o uso de outras drogas neurotóxicas. Para quem tem problemas de saúde como hipertensão arterial e diabetes, o tratamento rigoroso dessas condições é de extrema importância para proteger o cérebro das principais causas de “esclerose”, que são a doença de Alzheimer e demência vascular. Esta última é resultante de lesões causadas por vasos cerebrais doentes.

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Acompanhe o quadro CUCA LEGAL com o Dr. Ricardo Teixeira na Rádio CBN Brasília às quartas-feiras no horário de 11:35h

Também às segundas no Correio Braziliense

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