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Adorei uma frase que conheci há alguns anos através de um grande psiquiatra de Campinas, Pedro Amparo, quando ele me convencia que não deveríamos nos martirizar por ficarmos exigindo dos outros aquilo que eles não podem nos oferecer. Com sotaque bem português a frase dizia assim: Cada qual dá o que tem conforme a sua pessoa.

 

Anos depois aprendi com uma senhora portuguesa que na verdade essa frase é parte de uma quadra popular bastante conhecida em Portugal:

 

Pilriteiro, dás pilritos
Porque não dás coisa boa?
Cada qual dá o que tem
Conforme a sua pessoa.

 

Em Portugal há também um ditado muito popular que diz a mesma coisa:

 

Pilriteiro dá pilritos, a mais não é obrigado.

 

O pilriteiro é um arbusto espinhoso bastante comum em Portugal e dá uma frutinha muito ácida, o pilrito. Pela quadrinha popular, parece que o pilrito não deve mesmo ser uma fruta muito apreciada. Tenho uma teoria sobre frutas exóticas que se pilrito fosse bom mesmo, seu nome seria morango ou banana e seria exportado para todos os cantos do planeta.

 

Boa parte das situações do dia-a-dia que poderiam nos afastar do nosso equilíbrio mental tem a ver com a cobrança e às vezes com nossa indignação pelas atitudes dos outros que nos desagradam. É o prestador de serviço que não terminou o serviço direito, é o cara que passa à nossa frente pelo acostamento enquanto estamos parados direitinhos na fila do engarrafamento, é a moça do caixa do supermercado que é lenta no seu desempenho. Podemos começar a enxergar esse cotidiano através de uma outra ótica. O cara que fura fila não tem educação e princípios de cidadania. Vamos nos irritar ? Brigar ? A moça lenta no caixa do supermercado é lenta mesmo e nem foi treinada para ser mais rápida. O mau prestador de serviços é ruim de serviço mesmo e a gente que fez a escolha. Antes de reagirmos de forma a perdermos nosso dia, podemos pensar que pilriteiros dão pilritos  … E sempre que tivermos poder de escolha, não precisamos insistir em comer pilritos. Mudamos a página e seguimos em frente com morangos.

 

 

    

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

No mesmo dia em que a atleta Rebeca Gusmão é penalizada com dois anos de suspensão por uso de doping, recebo uma ligação de um grande amigo bastante decepcionado com os rumos químicos do esporte amador. Um dos seus grandes prazeres é participar de provas regionais de ciclismo onde a grande maioria dos participantes é composta por atletas amadores. Diz que a brincadeira está perdendo a graça, pois boa parte dos atletas tem feito uso de hormônios anabolizantes para melhora do desempenho e que dessa forma a competição vai perdendo o sentido.

 

O problema do uso de esteróides anabolizantes (EA) não se restringe aos atletas de elite. Uma recente pesquisa realizada nos EUA e publicada há cerca de um mês no Journal of American College Health investigou o uso dessas substâncias entre estudantes universitários não atletas e revelou que cerca de 10% dos alunos faziam uso de EA, sendo bem mais freqüente entre os rapazes. As principais razões para o uso de EA foram: 48% para melhorar o desempenho físico, 45% para melhorar a aparência física e 7% porque os amigos estavam usando. Em Porto Alegre pesquisas realizadas em academias de musculação mostram que 11% dos atletas usam EA e até 25% já usaram.

 

Recentemente foi demonstrado que entre 500 usuários de EA, sendo a grande maioria praticante de musculação, praticamente 100% dos usuários apresentam efeitos colaterais e 25% usam também outras drogas como insulina e hormônio do crescimento (Med Sci Sports Exerc 2006). E não faltam efeitos colaterais associados ao uso de EA: redução da libido e fertilidade, acne, dependência física e psicológica, variação do humor, irritabilidade e agressividade, aumento do colesterol ruim e da agregação das plaquetas (engrossa o sangue), doença isquêmica do coração, morte súbita, doença do fígado e dos rins, e na mulher ainda podemos observar sinais de masculinização e alterações do ciclo menstrual. Os efeitos são dependentes das doses e tempo de uso dos EA.

 

Outro efeito colateral sério associado ao uso de EA é o de que muitas dessas substâncias são de uso injetável, e aí caímos no problema de uso inapropriado de agulhas, sendo que em alguns estudos o uso compartilhado de seringas é superior a 20% dos usuários. Meu amigo ciclista ainda disse hoje que boa parte dos usuários de EA que conhece tem sido tratada por um médico famoso que apenas “repõe a quantidade de hormônios que falta a cada atleta” junto a um tratamento ortomolecular, tudo pela veia e bem caro. Só o tratamento ortomolecular para atletas ou não atletas já merece outra discussão bem extensa….

 

O uso de EA é reconhecido mundialmente como prática contrária aos princípios éticos da competição esportiva. O American College of Sports Medicine, maior organização científica dedicada ao esporte, trabalha forte para a proibição dos EA no esporte e para penalização daqueles envolvidos na produção, prescrição e distribuição dessas drogas com o fim de aumentar o desempenho atlético. No Brasil, é lei desde o ano 2000 que tais medicamentos só podem ser vendidos com receituário médico (e as indicações são para problemas de saúde e não para ficar forte), mas na prática compra-se de forma mais fácil do que pão nas academias de ginástica, como diz Gabriel Pensador.

 

 
 
 

 

 

 

 

 

A dor de cabeça é apenas um dos problemas de quem sofre de enxaqueca. Quem tem enxaqueca tem maior chance de apresentar outros problemas de saúde quando comparado à população geral, e é a isto que se chama de comorbidades. Chamamos aqui a atenção para o maior risco de eventos vasculares entre os enxaquecosos.

 

Derrame cerebral é levemente mais comum em indivíduos com enxaqueca, especialmente em mulheres jovens que apresentam aura (ex: estrelinhas no campo visual durante uma crise), tabagistas ou usuárias de pílula anticoncepcional, e entre aquelas com crises freqüentes. Mais recentemente, estudos têm revelado que o risco de eventos vasculares é elevado como um todo, incluindo doença isquêmica do coração. As explicações incluem alteração dos pequenos vasos, alterações da coagulação sanguínea durante ou fora da crise e até mesmo efeito adverso de medicações usadas para as crises. No caso de lesões cerebrais, algumas alterações congênitas do coração podem estar implicadas, por serem mais comuns nos indivíduos com enxaqueca.

  

Primeiro recado: mulheres que tem enxaqueca com aura não devem ser encorajadas a usar pílulas anticoncepcionais ou mesmo realizar reposição hormonal na menopausa. Se a mulher é tabagista, podemos dizer que a terapia hormonal é proibitiva devido ao risco muito mais elevado de derrame cerebral.

 

Hoje terminei o dia de trabalho conversando com uma mulher de cerca de 50 anos, história de enxaqueca e tabagismo.  Para piorar a história, foi-lhe prescrita reposição hormonal. Com poucos dias de terapia ela começou a apresentar fortes crises de dor de cabeça e alterações visuais que lhe trouxeram muita preocupação. Eram só crises de enxaqueca, mas poderia ter sido um derrame cerebral. O interessante é que a prescrição havia sido realizada por um “especialista” de uma área da medicina tão distante do conhecimento de menopausa e hormônios  quanto um dentista. Porém, o “especialista” estava sendo indicado por amigos e amigas pois havia feito um recente curso de reposição hormonal no exterior, de acordo com a paciente.

 

Segundo recado: as especialidades e áreas de atuação em medicina merecem formação apropriada. Sou neurologista e mesmo que me propusesse a fazer um curso no exterior de como tratar catarata, acredito que ninguém acreditaria que eu tivesse ferramentas apropriadas para cuidar dos olhos de alguém.

 

Terceiro recado: a população leiga pode ter mais segurança com os  médicos ao pedirem indicações ao seu médico de confiança. Defendo a idéia de que cada pessoa tenha o SEU MÉDICO de confiança, independente da especialidade. Se o problema não for da sua expertise, ele(a) saberá nos indicar o profissional de sua confiança. Podemos fazer nossa parte também. Se somos capaz de  procurarmos no rótulo da margarina se ela tem gordura trans ou não, por que não nos informarmos se o “especialista” tem pelo menos residência médica na área de atuação, e/ou é membro da sociedade científica da especialidade em questão.

Ninguém aprende a tocar violino com um curso de semanas ou meses. No caso das especialidades médicas, isso não é diferente. Não existe mágica. 

 

 

 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

É um consenso geral que portadores da Doença de Alzheimer (DA) em suas fases moderada e grave não deveriam mais dirigir. Entretanto, é controversa a situação de indivíduos na fase inicial da doença, ou mesmo entre aqueles sem demência, mas com queixas cognitivas. A princípio, muitos desses mantêm a capacidade de dirigir com segurança por algum tempo ainda, e a proibição de dirigir pode ser muito penosa já que influencia de maneira significativa a autonomia dos idosos. Um estudo publicado recentemente na revista americana Neurology revelou preciosas informações sobre o tema. A performance no volante de pacientes com a forma leve da DA foi comparada à de indivíduos sem problemas cognitivos (grupo controle) ao logo de três anos. Já na avaliação inicial, os portadores de DA apresentavam menor pontuação no teste de direção e já haviam apresentado mais acidentes do que o grupo controle. Entretanto, cerca de 80% dos pacientes era capaz de passar no teste de direção. Ao longo dos anos, tanto os portadores de DA como o grupo controle pioravam o desempenho no teste de direção, mas na DA as perdas eram mais robustas. Conclui-se com esse estudo que pacientes nas fases iniciais da DA não devem ser desencorajados a dirigir de forma arbitrária. A recomendação para se interromper a condução de veículos deve ser baseada no desempenho de cada indivíduo em testes de direção, e estes devem ser realizados de forma mais freqüente que o habitual, como por exemplo, a cada seis meses.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O tabagismo é freqüentemente iniciado na adolescência e hoje em dia cerca de 18% dos adolescentes entre 13 e 15 anos ao redor do mundo já fumou, sendo que 9% tem o hábito de fumar. Políticas agressivas para prevenção do tabagismo com especial foco nos adolescentes são fundamentais e podem ter especial impacto quando realizadas em parceria com as escolas. Entretanto, uma série de estudos tem revelado que campanhas anti-tabagismo em parceria com as escolas não são tão bem sucedidas quando se analisa o impacto a longo prazo. Um importante estudo publicado nesta semana  pela revista The Lancet nos chama a atenção para o quanto ações dessa natureza podem ser eficazes e podem alcançar ainda mais sucesso se estendidas para fora da sala de aula.

 

Cerca de onze mil estudantes da Inglaterra e País de Gales entre 12 e 13 anos de idade participaram do estudo. Inicialmente, um questionário foi aplicado entre os estudantes para o reconhecimento daqueles que exerciam maior liderança entre eles, e estes foram convidados a atuarem como agentes multiplicadores de conceitos sobre os malefícios do tabagismo. Os líderes multiplicadores recebiam um treinamento padronizado para influenciar os colegas através de conversas informais com conteúdo anti-tabagista. As intervenções duraram dez semanas e eram feitas sempre fora da sala de aula: no recreio, no caminho para a escola, em encontros fora da escola.

 

Adolescentes que foram encorajados pelos líderes a não fumar apresentaram chance significativamente menor de começar a fumar após um e dois anos de acompanhamento quando comparados àqueles que eram submetidos apenas à campanha anti-tabagismo padrão oferecida pela escola. Além disso, o método aplicado teve ótima receptividade por parte dos adolescentes.

 

Parabéns a esse grupo de pesquisadores de Bristol ! Os resultados dessa pesquisa devem dar uma chacoalhada nas atuais estratégias de prevenção ao tabagismo entre adolescentes.

 

 

 

     

    

   

  

 

 
 

 

 

 

 

A maioria dos brasileiros quando ouve o nome ciência cria uma ligação direta com algo vindo do estrangeiro. Claro que o Brasil não é o campeão mundial de produção científica, mas também não estamos tão mal assim. Nas áreas de saúde temos grupos de pesquisa de excelência, alguns até à frente de países desenvolvidos. É difícil imaginar que alguém consiga discordar que a autonomia científica e tecnológica de um país seja uma das principais estratégias para o desenvolvimento de sua economia. Ciência na saúde é tão ou mais importante do que em qualquer outra área do conhecimento. E por isso, precisamos trabalhar os diversos setores da sociedade para que ciência deixe de ser uma coisa esquisita dos gringos.

 

Podemos começar pela própria geração de ciência no nosso meio e nesse ponto temos sérios desafios. A baixa participação de alunos em programas de iniciação científica durante a graduação faz com que uma minoria aprenda a fazer ciência. No caso dos médicos, a residência médica seria outra grande oportunidade para se adquirir as ferramentas científicas necessárias para desenvolver pesquisa na sua prática clínica, mas infelizmente a formação científica não é priorizada nessa fase da formação.  Em países desenvolvidos, vemos muitos médicos que não optaram pelo caminho formal da pós-graduação stricto sensu serem lideranças científicas nas suas áreas de atuação. Isso porque aprenderam bem a fazer ciência durante a graduação e a residência médica.

 

Outro fator complicador em nosso país é que temos poucos programas de pós-graduação e estes estão em sua grande maioria nos grandes centros. Temos ainda recursos relativamente limitados voltados à pesquisa no país e sabemos que boas pesquisas custam dinheiro. A carreira acadêmica vem sendo desvalorizada especialmente do ponto de vista de remuneração, fazendo com que poucos profissionais da saúde recém-formados busquem esse caminho. A maior parte das universidades privadas do país (e existem exceções!) pouco colabora para a mudança desse cenário, sendo que uma minoria investe em pesquisa de forma sólida, não conseguindo cumprir a missão da universidade que inclui além do ensino, atividade de pesquisa e extensão.

 

Recentemente tenho ouvido uma série de casos de estudantes de medicina recém-formados que têm optado por não fazer residência médica, pelo menos por um tempo, em detrimento de um ou outro concurso público. Isso me faz lembrar bastante de uma experiência que tive em Cuba há cerca de 10 anos. Muitos pais revelavam certo desconforto ao verem seus filhos não quererem mais estudar ou seguir uma carreira, pois ao optarem por ser médicos ou físicos, ganhariam uma média de 20 dólares por mês pelo resto de suas vidas. Por outro lado, se passassem a se empenhar na briga por uma vaga de carregador de malas em hotel turístico, passariam a ter a chance de ganhar infinitamente mais com gorjetas. Não estou lutando contra a idéia da garantia do emprego estável, mas as autoridades envolvidas em educação em saúde precisam estar atentas em garantir que os jovens continuem sonhando em se formar profissionais de ponta, pesquisadores, criadores de novas tecnologias. Sabemos que o curso de graduação não permite vôos dessa natureza.

 

Acredito que a maioria dos brasileiros sente-se orgulhosa do grande impacto que nosso biodiesel pode vir a ter para a economia do nosso país, e é importante que os brasileiros saibam o quanto foi investido em pesquisa para que tenhamos chegado a esse produto. É nesse sentido que a divulgação científica ao público leigo representa uma importante ferramenta para que a sociedade passe realmente a entender o quanto a ciência é vital para o desenvolvimento de nossa sociedade. Essa conscientização pode fazer com que a ciência seja estimulada pela própria população por meio de seus representantes, e que ações que fomentem o crescimento científico e tecnológico do nosso país sejam levados em consideração na hora de darmos nosso voto a um político ou a outro.  Claro que isso não acontecerá da noite para o dia, mas precisamos pisar forte no acelerador incrementando o jornalismo científico aos adultos e levando ciência às crianças já no ensino fundamental de forma aplicada ao dia-a-dia delas. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Cuidar da saúde de outra pessoa envolve uma complexa interação entre o terapeuta e aquele que procura seus cuidados. Essa interação pode trazer benefícios que vão além dos efeitos da medicação ou de outro tipo de tratamento escolhido, e é a isto que chamamos de efeito placebo. Um novo estudo publicado esta semana no British Medical Journal evidencia com muita elegância o potencial desse efeito no tratamento de um problema gastrintestinal conhecido como Síndrome do Intestino Irritável (SII), condição crônica associada a dores abdominais e alterações da função intestinal (constipação e/ou diarréia).

 

Três tipos de tratamento foram testados ao longo de seis semanas: 1) apenas observação; 2) acupuntura placebo (sem perfuração da pele) e sem poder conversar com o paciente; 3) acupuntura placebo associada a atendimento com script padronizado com as seguintes características:

* 45 min de duração com questões relacionadas à descrição dos sintomas e percepção do paciente sobre a causa / razão do seu problema;

* comportamento empático por parte do terapeuta (ex: posso imaginar como a SII tem sido difícil para você);

* abordagem calorosa, amigável e com escuta ativa (ex: repetição das palavras do paciente e perguntas no sentido de melhor entender o que o paciente dizia);

* contato físico através da palpação do pulso em silêncio por 20s;

* comunicação por parte do terapeuta de expectativas positivas quanto ao sucesso do tratamento (ex: eu tenho uma boa experiência em tratar SII com bons resultados).

 

Ao final do tratamento a seguinte pergunta era feita: Nas últimas semanas você teve alívio adequado dos seus sintomas de SII ?

A resposta foi sim em:

*  em 28% dos pacientes do grupo 1 (só observados)

*  em 44% dos pacientes do grupo 2  (acupuntura placebo)

*  em 62% dos pacientes do grupo 3

    (acupuntura placebo + atendimento padronizado)

 

Os resultados não deixam dúvida o quanto o efeito placebo pode ter impacto em alguns tipos de queixas e problemas de saúde. Mais do que isso, reforça que o efeito placebo quando associado a um atendimento humanizado tem mais impacto ainda no sucesso de um tratamento. 

 

Isso levanta uma importante discussão. Seria ético os terapeutas proporem tratamentos que sabidamente só teriam efeito placebo, sem contar aos seus pacientes ? Quando procuramos um terapeuta temos a expectativa de sermos ouvidos e bem tratados, e tão ou mais importante que isso, de que ele nos ofereça diagnóstico e tratamento precisos. “Remedinhos” ou procedimentos sem eficácia comprovada, que por alguns são vistos como inofensivos,  podem estar associados a riscos de saúde – ver POSTS dos dias 7 e 8 de maio. Seguimos refletindo…..

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Quem tem filho sabe que passa a não ser mais dono exclusivo do próprio nariz. Tanto o pai quanto a mãe passam por um processo adaptativo, especialmente do ponto de vista psíquico, que pode estar associado a alterações neuroquímicas e estruturais do cérebro deflagradas pela experiência de cuidar dos filhos. Hoje em dia já conhecemos muito dessas mudanças cerebrais entre as mães. Não é só o coração da mãe que é avantajado: o cérebro também é.

 Clique aqui e confira o artigo na íntegra.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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O cogumelo do sol, Agaricus blazei Murrill, foi descoberto no interior de São Paulo ainda na década de 60 e então levado ao oriente onde seu uso é bastante popular, especialmente no Japão. No Brasil difunde-se a idéia de que seus efeitos medicinais podem ser úteis na prevenção e tratamento de diversas doenças: câncer, aterosclerose, diabetes, colesterol alto, doença cardíaca, etc. Uma série de estudos em tubos de ensaio e em animais já foi realizada na tentativa de testar se há realmente benefício em se usar os cogumelos. Entretanto, pouquíssimos estudos em humanos foram feitos até o momento, já tendo sido demonstrados efeitos de redução de peso, da pressão arterial e colesterol e até redução de reações adversas à quimioterapia e melhora de marcadores imunológicos em pacientes com câncer.

 

Não sabemos exatamente quais componentes do cogumelo do sol são responsáveis pelos poucos efeitos já demonstrados sobre nossa saúde e nem mesmo temos pesquisas que tenham avaliado seus efeitos a longo prazo. Além disso, sabemos que o cogumelo do sol apresenta em sua composição substâncias da família das hidrazinas aromáticas (ex: aritina), comprovadamente cancerígenas em estudos com animais. A conclusão é óbvia. Faltam estudos para que tenhamos segurança em usar o cogumelo do sol, qualquer que seja sua indicação. 

 

  

 

 

 

 

 

 

 

Hoje conversei com uma moça que estava tomando uma fórmula que continha uma mistura de colágeno, barbatana de tubarão, etc. A prescrição havia sido feita por um médico e perguntei a ela qual era a indicação. Ela disse que era para equilibrar sua saúde. Foi-lhe prescrito também o famoso Gingko biloba, e dessa vez a proposta do médico foi um casamento com a erva para o resto da vida, para equilibrar seu cérebro.

Essa história mexe um pouco com minha cabeça, pois hoje mesmo foi publicado mais um estudo mostrando que não faz sentido usar Ginkgo biloba para melhorar ou prevenir dificuldades de memória ou outras funções do nosso cérebro (Neurology, 6 de maio de 2008). Nesse último estudo, a novidade foi que as pessoas que usaram Ginkgo biloba tiveram mais derrames cerebrais ao longo dos anos do que aqueles que não usaram a erva. O velho ditado “canja de galinha não faz mal a niguém” parece não se aplicar no caso de medicações, incluindo os fitoterápicos, pois apesar de naturais, são drogas também.

Atendo diariamente pessoas que tomam medicações sem saber o porquê, e muitas delas sem ter por que. Felizmente, hoje em dia a assimetria de informações entre médico e paciente é cada vez menor e a internet á maior reponsável por isso. Hoje é comum um paciente começar a consulta colocando em cima da mesa um bolinho de páginas impressas da internet sobre seu problema.       

E essa é a missão do Blog ConsCiência no dia-a-dia: reduzir a distância entre as ciências da saúde e o dia-a-dia das pessoas, com enfoque naquilo que diz respeito à mente e ao cérebro.

Discuta, pesquise, peça outras opiniões quando necessário. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

Alguns estudos já haviam chamado a atenção para o fato de que alimentos com aditivos artificiais podem piorar os sintomas entre crianças com o diagnóstico de TDAH. Em 2004, um estudo populacional evidenciou que aditivos artificiais comumente encontrados em alimentos consumidos por crianças poderiam aumentar a chance de sintomas de hiperatividade entre crianças em idade pré-ecolar, não portadoras de TDAH. Recentemente, o mesmo grupo publicou uma extensão do estudo no periódico The Lancet, desta vez mostrando que o efeito existe não só entre pré-escolares com também em crianças entre 8 e 9 anos de idade. O resultado mais importante desse estudo é o de que os sintomas de hiperatividade, inatenção e impulsividade passavam a ser mais freqüentes com o uso de aditivos artificiais em crianças da população geral, e não somente em crianças com diagnóstico de TDAH.

 

 

 

 

 

 
 

 

 

 

 

 

 
 

 

 

A poluição do ar tem sido crescentemente implicada no aumento do risco de doenças vasculares através da exacerbação da aterosclerose e conseqüente aumento do risco de infarto do coração e derrame cerebral. Os estudos que demonstraram essa associação documentaram o grau de poluição com partículas poluentes relativamente grandes (diâmetro < 10 mM). Reconhece-se atualmente que são as partículas menores (diâmetro < 0.18 mM) que representam maior risco às nossas artérias, e de longe, são as mais abundantes em um ambiente urbano, pois têm emissão fundamentalmente ligada à queima de combustível.

 

Uma pesquisa publicada há cerca de um mês na revista Circulation Research comprova em ratinhos que a exposição a essas pequenas partículas poluentes tem o poder de promover placas de aterosclerose nas artérias de forma muito mais potente que as partículas maiores.

 

Futuros estudos epidemiológicos deverão levar em conta a dosagem dessas partículas menores para reavaliação do impacto da poluição sobre as doenças vasculares e não será surpresa se for ainda maior do que foi demonstrado até o momento. Precisamos estar cada vez mais cientes da evolução desse problema e cobrar das autoridades do governo ações que evitem um novo tipo de “apagão aéreo”. Mas não é só cobrar. Devemos também assumir nossa parcela de responsabilidade e começar a ter atitudes em prol de um ar mais limpo. Se o seu trabalho fica próximo ao do seu vizinho, que tal um dar carona para o outro ?

  

 

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O altruísmo é uma especial característica da espécie humana já que estende os benefícios de nossas boas ações a indivíduos que não fazem parte do núcleo familiar. Atualmente há uma forte linha de pesquisas que busca explicar as raízes de nossas ações altruísticas através da idéia de que elas podem gerar ganhos do ponto de vista de reputação, colocando o altruísmo como uma possível vantagem evolutiva, ou seja, indivíduos com comportamento altruísta teriam maior chance de sucesso em gerar descendentes. Essa discussão incomoda um pouco alguns dogmas religiosos que não aceitam a teoria da evolução e entendem que o homem foi criado já pronto e que a criação o fez bom e generoso. Entretanto, algumas diretrizes religiosas são até concordantes com o conceito de altruísmo gerando reputação, só que a recompensa viria após a morte.

 

O aumento da reputação poderia gerar vantagens ao altruísta de duas maneiras, e vários estudos experimentais têm confirmado essas posições. A primeira é a chamada reputação recíproca indireta, que é a tendência de membros até mesmo não beneficiados recompensarem o altruísta, de forma também altruística. A segunda maneira seria a sinalização por parte do altruísta de uma imagem favorável a relações sociais, alianças e parcerias (sexuais ou não). Nesse caso, ambas as partes se beneficiam no processo, pois os observadores lucram em ter sinalizações de qualidade na potencial relação. 

 

Esse efeito reputação é ainda mais reforçado por resultados de pesquisas que evidenciam que ações altruísticas são maiores quando há platéia. Além dos potencias ganhos sociais, há um outro nível de recompensa, já que nosso sistema cerebral de recompensa e prazer é ativado quando nos doamos para outras pessoas. Tudo isso não é simples ceticismo. O corpo atual de evidências nos faz pensar que nosso cérebro evoluiu para se sentir bem fazendo bem aos outros e que isso permitiu que aumentássemos nosso potencial de relações e procriação.

 

O comportamento humano frente a situações injustas reforça ainda mais o papel da reputação como base do altruísmo. Experimentos nos mostram que indivíduos que assistem a uma situação de injustiça, que não os afeta pessoalmente, ganham em reputação quando assumem um comportamento de punição à injustiça. Esse comportamento também ativa os centros cerebrais de recompensa. Talvez isso tenha alguma coisa a ver com a fábrica de CPIs no congresso com seus “justiceiros” recebendo uma audiência significativa. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Alguns estudos já haviam demonstrado que trabalhar em turno invertido representa um fator estressante do ponto de vista social e aumenta o risco de tabagismo, obesidade e diabetes. Uma pesquisa conduzida na Alemanha e em processo de publicação na revista Atherosclerosis revelou que indivíduos com história pregressa de trabalho em turno invertido apresentam maior risco de infarto do coração e de aterosclerose, demonstrada através da medida de espessura da camada interna das artérias carótidas. Esse risco aumentado foi independente de outros fatores de risco vascular como o tabagismo ou diabetes, e foi maior entre os indivíduos com mais anos de trabalho noturno. A pesquisa chama a atenção para a necessidade de programas especiais de prevenção de doenças vasculares para os trabalhadores corujões.  

  

 
 

 

 

 

 

 

 

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O British Medical Journal publicou recentemente um estudo bastante polêmico com cerca de 1500 mulheres em menopausa da Nova Zelândia com metade delas tendo sido submetida a suplementação de cálcio. O objetivo primário do estudo era o de avaliar a densidade óssea ao longo de cinco anos, mas também tinha o objetivo secundário de testar se a suplementação do cálcio reduziria o risco de infarto do coração, derrame cerebral e morte súbita. Surpreendentemente, o grupo de mulheres que recebeu a suplementação de cálcio apresentou maior incidência de infartos do coração. Já a incidência de derrames cerebrais não foi aumentada pelo cálcio. A possível explicação para esse achado é que o cálcio extra poderia se depositar nas coronárias, aumentando o risco de eventos vasculares, especialmente em indivíduos de idade mais avançada (média de idade das mulheres do estudo = 74 anos). O estudo contradiz resultados de trabalhos anteriores e por isso ainda não se pode concluir se a suplementação de cálcio previne ou provoca infarto do coração ou derrame cerebral. Por isso, nada de alardes.

  

 

 

 

 

 

O curso de medicina da UFBA em Salvador é a  escola de medicina mais antiga do Brasil e nesta semana recebeu uma má avaliação pelo MEC. Isso por si só já é muito triste, mas o coordenador do curso de medicina  resolveu piorar ainda mais a situação.  Chega a ser até difícil comentar uma declaração como essa, mas vamos lá

O coordenador do curso disse que as baixas notas dos alunos na avaliação têm como causa o baixo QI dos baianos. Chegou a dizer que ” O baiano toca berimbau porque só tem uma corda. Se tivesse mais de uma corda não conseguiria “, ” O berimbau é o tipo de instrumento para o indivíduo que tem poucos neurônios”. Claro que o coordenador já está sendo afastado pela reitoria por suas declarações.

O fato é que redução de performance cognitiva realmente existe em populações carentes e desnutridas. Não deve ser este o caso de alunos que passaram pelo severo funil de um vestibular de uma Universidade Federal da capital do estado

 

 

 

 

 

 

No dia do trabalho, vale a pena refletir um pouco sobre o que estamos fazendo com nossas vidas, com nosso tempo livre, o quanto investimos em nossa vida pessoal. Uma das obras primas do Tom Jobim, Two Kites, é bastante inspiradora:

 

And may I ask you what you to do with your days, with your nights, with your  time, with your life. Suppose I dare to ask what are you doing tonight. If you’re free I can lend you these wings for a flight.

(E eu poderia lhe perguntar o que você faz com os seus dias, com suas noites, com a sua vida. Imagine se eu arriscasse lhe perguntar o que você fará hoje à noite. Se você estiver livre, empresto-lhe essas asas para um vôo)

 

 Quando falamos em lazer devemos pensar em esporte, recreação, entretenimento, folclore, arte e cultura. Muito já se conhece sob os inúmeros efeitos positivos da atividade física sobre nossa saúde. O lazer de forma independente da atividade física também tem um importante papel na promoção da saúde e alguns estudos têm revelado resultados interessantes.  Confira aqui o artigo na íntegra e entenda o que o lazer pode fazer por nossa saúde.  

 

 

 

 

 

 

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É indiscutível a relação entre altos níveis de colesterol e risco de infarto do coração e derrame cerebral. Alguns estudos têm evidenciado também uma associação entre colesterol alto e doenças degenerativas como a Doença de Alzheimer e a Doença de Parkinson. Com relação à Doença de Parkinson, os resultados de algumas pesquisas foram conflitantes e agora em maio de 2008 será publicado na revista Neurology os resultados da maior pesquisa até o momento que avaliou a relação entre o risco de desenvolver a doença e os níveis de colesterol. Mais de 50 mil finlandeses foram acompanhados revelando que indivíduos com altos níveis de colesterol no começo do estudo apresentavam maior risco de apresentar a doença após uma média de 18 anos de acompanhamento. Essa associação não é tão surpreendente já que o cérebro é o órgão do corpo humano mais rico em colesterol, e uma alteração da sua homeostase pode provocar alterações nas conexões e membranas celulares cerebrais.

 

E como manter o colesterol no seu lugar certo ? Realize atividade física regular, reduza o estresse, alimente-se diariamente com frutas, vegetais e grãos integrais, reduza o consumo de gordura animal e gordura trans, capriche no consumo de alimentos ricos em Omega 3, como é o caso do azeite, e não coma mais do que você gasta de energia. Além disso, nem pensar em fumar e bebida alcoólica só se for com moderação.

Invista no seu cérebro, no seu coração, na sua vida.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

No último domingo a Revista do Correio Braziliense gastou duas páginas falando de dor de cabeça entre as mulheres, ilustrando a matéria com a foto de uma mulher debruçada sobre uma coleção de analgésicos (inclusive alguns “primos” da morfina) e ao final resume as principais causas de dor de cabeça. Infelizmente, não chega sequer a comentar que uma das principais causas de dor de cabeça é o uso exagerado de analgésicos. 

   

A cada ano, até 15% das pessoas com enxaqueca passa a apresentar crises quase diárias. Já conhecemos alguns fatores de risco modificáveis que aumentam o risco para a cronificação da enxaqueca como por exemplo a obesidade, distúrbios do sono, excesso de cafeína, tabagismo, eventos estressantes e dor crônica. Entretanto, nenhum fator tem tanto impacto como o uso excessivo de analgésicos. Seu consumo não deve exceder mais do que 2 vezes por semana. Vários estudos epidemiológicos revelam que cerca de 3-4% da população mundial sofre de dor de cabeça diária, grande parte devido ao excesso de analgésicos. Resolve-se o problema com a suspensão abrupta dos analgésicos e o início de um tratamento profilático, com medicação diária para reequilibrar a química cerebral. Durante a retirada dos analgésicos, deve-se evitar o uso de analgésicos associados a tranquilizantes, opióides, barbitúricos, cafeína, assim como mistura de analgésicos. Os anti-inflamatórios não hormonais são boas opções nesses casos. Além do risco de cronificação da enxaqueca, o uso de analgésicos sem instrução médica pode levar a outros riscos, já que algumas medicações são contra-indicadas a depender do tipo de enxaqueca e dos antecedentes patológicos do indivíduo.

 

Outra coisa que me chamou muita a atenção nessa matéria do Correio Braziliense é a sugestão de que a abstinência de verduras cruas pode ser útil para o tratamento da enxaqueca. Essa é uma outra história bastante complicada, pois os leitores podem achar que verduras cruas provocam dor de cabeça, e não há qualquer evidência científica nesse sentido. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O derrame cerebral é um dos principais problemas de saúde em todo o mundo, e em muitos países representa a principal causa de morte, como é o caso do Brasil. Entre aqueles que sobrevivem a um derrame cerebral, 20-30% viverão dependentes de outrem para atividades como higiene pessoal e alimentação. Durante um episódio de derrame cerebral uma parte do cérebro é perdida, uma porção de tecido cerebral morre. Felizmente, parte dessa perda é compensada através de um fenômeno conhecido como neuroplasticidade, que é a capacidade cerebral de criação de novas conexões após um insulto ou  através de estímulos não perniciosos. Muito esforço tem sido investido para encontrar estratégias que aumentem essa capacidade cerebral em situações críticas. E que tal a música ?

 

Um estudo publicado na última edição da revista inglesa Brain mostra de forma inédita que a música pode ser uma ótima opção. Pacientes finlandeses com derrame cerebral na fase aguda foram submetidos a dois diferentes tipos de intervenção aliados à fisioterapia: musicoterapia ou escutar um livro audio (audio book) por pelo menos uma hora diária nos primeiros dois meses após o evento. No caso da musicoterapia, cada paciente recebia um CD player portátil e CDs com músicas de sua preferência, qualquer que fosse o estilo musical.

 

O grupo de pacientes submetidos à musicoterapia apresentou uma melhor recuperação nos domínios da memória e atenção. Apresentaram também menos sintomas depressivos e de confusão mental. Diante desses dados, fica difícil pensar em não oferecer música aos pacientes que estão em recuperação de um derrame cerebral. Som na caixa !

 

 

 
 
 
 

 

 

 

 

 

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