No mesmo dia em que a atleta Rebeca Gusmão é penalizada com dois anos de suspensão por uso de doping, recebo uma ligação de um grande amigo bastante decepcionado com os rumos químicos do esporte amador. Um dos seus grandes prazeres é participar de provas regionais de ciclismo onde a grande maioria dos participantes é composta por atletas amadores. Diz que a brincadeira está perdendo a graça, pois boa parte dos atletas tem feito uso de hormônios anabolizantes para melhora do desempenho e que dessa forma a competição vai perdendo o sentido.

 

O problema do uso de esteróides anabolizantes (EA) não se restringe aos atletas de elite. Uma recente pesquisa realizada nos EUA e publicada há cerca de um mês no Journal of American College Health investigou o uso dessas substâncias entre estudantes universitários não atletas e revelou que cerca de 10% dos alunos faziam uso de EA, sendo bem mais freqüente entre os rapazes. As principais razões para o uso de EA foram: 48% para melhorar o desempenho físico, 45% para melhorar a aparência física e 7% porque os amigos estavam usando. Em Porto Alegre pesquisas realizadas em academias de musculação mostram que 11% dos atletas usam EA e até 25% já usaram.

 

Recentemente foi demonstrado que entre 500 usuários de EA, sendo a grande maioria praticante de musculação, praticamente 100% dos usuários apresentam efeitos colaterais e 25% usam também outras drogas como insulina e hormônio do crescimento (Med Sci Sports Exerc 2006). E não faltam efeitos colaterais associados ao uso de EA: redução da libido e fertilidade, acne, dependência física e psicológica, variação do humor, irritabilidade e agressividade, aumento do colesterol ruim e da agregação das plaquetas (engrossa o sangue), doença isquêmica do coração, morte súbita, doença do fígado e dos rins, e na mulher ainda podemos observar sinais de masculinização e alterações do ciclo menstrual. Os efeitos são dependentes das doses e tempo de uso dos EA.

 

Outro efeito colateral sério associado ao uso de EA é o de que muitas dessas substâncias são de uso injetável, e aí caímos no problema de uso inapropriado de agulhas, sendo que em alguns estudos o uso compartilhado de seringas é superior a 20% dos usuários. Meu amigo ciclista ainda disse hoje que boa parte dos usuários de EA que conhece tem sido tratada por um médico famoso que apenas “repõe a quantidade de hormônios que falta a cada atleta” junto a um tratamento ortomolecular, tudo pela veia e bem caro. Só o tratamento ortomolecular para atletas ou não atletas já merece outra discussão bem extensa….

 

O uso de EA é reconhecido mundialmente como prática contrária aos princípios éticos da competição esportiva. O American College of Sports Medicine, maior organização científica dedicada ao esporte, trabalha forte para a proibição dos EA no esporte e para penalização daqueles envolvidos na produção, prescrição e distribuição dessas drogas com o fim de aumentar o desempenho atlético. No Brasil, é lei desde o ano 2000 que tais medicamentos só podem ser vendidos com receituário médico (e as indicações são para problemas de saúde e não para ficar forte), mas na prática compra-se de forma mais fácil do que pão nas academias de ginástica, como diz Gabriel Pensador.

 

 
 
 

 

 

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