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O que faz um adolescente ter contato inicial com a maconha e tornar-se usuário crônico enquanto outros têm apenas uma experiência isolada? A resposta a esta pergunta envolve inúmeras questões biológicas, assim como sociológicas, e uma pesquisa recém-publicada pelo periódico Archives of Pediatric and Adolescent Medicine apontou que o tipo de personalidade de um adolescente tem influência sobre o padrão de consumo de maconha da adolescência até a idade adulta.
Cerca de 800 americanos foram acompanhados entre os 14 e 37 anos de idade por meio de seis diferentes entrevistas ao longo desse período. Cinco diferentes perfis do uso de maconha foram identificados: 1) não usuários e experimentadores; 2) usuários ocasionais; 3) usuários em redução do consumo e ex-usuários; 4) usuários em incremento do consumo; 5) usuários crônicos.
Os resultados mostraram que os usuários crônicos apresentavam mais frequentemente uma personalidade do tipo “busca por novidade”, menor controle de emoções, comportamento mais impulsivo/agressivo e menos aspirações e expectativas educacionais. Essas características da personalidade de adolescentes foram capazes de predizer o padrão de consumo de maconha até 14 anos depois, podendo representar ferramentas valiosas para identificação precoce de adolescentes com maior risco de consumo crônico da droga.
No caso específico da personalidade tipo “busca por novidade”, esta já foi associada em estudos anteriores ao uso crônico e pesado de maconha. Já foi demonstrado também que indivíduos com esse tipo de personalidade apresentam uma menor concentração de um tipo de receptor da dopamina. A dopamina é o principal componente do nosso sistema cerebral de recompensa que é ativado toda vez que fazemos algo que dá prazer e sinaliza ao cérebro que vale a pena repetir a experiência, já que ela é prazerosa. Nesses indivíduos, toda vez que o sistema é ativado, mais dopamina seria liberada e a experiência com a novidade amplificada. Novos desafios “dariam mais barato” a essas pessoas, pois elas estão transbordando de dopamina.
Os duendes das estatísticas do WordPress.com analisaram o desempenho deste blog em 2010 e apresentam-lhe aqui um resumo de alto nível da saúde do seu blog:

O Blog-Health-o-Meter™ indica: Uau.
Números apetitosos
O Museu do Louvre é visitado por 8,5 milhões de pessoas todos os anos. Este blog foi visitado cerca de 240,000 vezes em 2010, o que quer dizer que se fosse uma exposição no Louvre, eram precisos 10 dias para que as mesmas pessoas a vissem.
Em 2010, escreveu 82 novo artigos, aumentando o arquivo total do seu blog para 368 artigos. Fez upload de 50 imagens, ocupando um total de 1mb. Isso equivale a cerca de 4 imagens por mês.
De onde vieram?
Os sites que mais tráfego lhe enviaram em 2010 foram google.com.br, search.conduit.com, slogbox.com, icbneuro.com.br e buscador.terra.com.br
Alguns visitantes vieram dos motores de busca, sobretudo por sertralina, sertralina emagrece, ginkgo biloba para que serve, ginko biloba para que serve e quantas horas devemos dormir por dia
Atracções em 2010
Estes são os artigos e páginas mais visitados em 2010.
Sertralina ganha a disputa de melhor antidepressivo. março, 2009
1668 comentários
Mais uma vez comprovado: Ginkgo biloba não traz benefícios ao cérebro novembro, 2008
63 comentários
Afinal, devemos dormir quantas horas por dia? outubro, 2008
146 comentários
Ricardo Teixeira abril, 2008
197 comentários
Pesquisa mostra mais uma vez que o Ginkgo biloba não ajuda o cérebro dos idosos. dezembro, 2009
40 comentários
Quanto tempo de sono o cérebro de um adulto realmente precisa? O número ideal de horas de sono é aquele que faz com que a pessoa no outro dia sinta que dormiu o suficiente. Para a grande maioria da população, incluindo os brasileiros, esse número encontra-se entre 7 e 8 horas por noite. Existe um percentual pequeno de pessoas que se sente bem com menos de 7 horas, também chamados de dormidores curtos. Há também os dormidores longos, aqueles que precisam de mais de 8 horas de sono.
As pesquisas têm demonstrado que o hábito de dormir muito ou pouco está associado a uma menor longevidade. No caso da privação de sono, espera-se alterações metabólicas e endocrinológicas. Já no caso do excesso de sono, a melhor explicação é a de que indivíduos que dormem muito têm mais chance de ter problemas de saúde que levam a esse comportamento.
E o nosso desempenho cerebral? Faz diferença dormir muito ou pouco? Uma pesquisa recém-publicada pelo Journal of Sleep Research (resumo em inglês) demonstrou, através da análise de mais de cinco mil finlandeses adultos, que tanto muito como pouco sono estão associados a um cérebro mais lento, e isso é independente de fatores como sonolência, cansaço e fadiga. O estudo apontou que aqueles que dormem menos de sete horas ou mais de oito horas por noite apresentam menor desempenho em testes de velocidade psicomotora. Velocidade psicomotora é o tempo que levamos para processar um sinal, preparar uma resposta e executá-la. Os resultados não foram diferentes quando se comparou sete e oito horas de sono e o efeito negativo do excesso de sono foi mais robusto que a privação.
Mais uma vez a melhor forma de explicar a relação entre excesso de sono e piores indicadores de saúde, no caso específico uma menor velocidade psicomotora, é que dorme-se demais por existir uma condição de saúde que leva a esse hábito, e esse é o fator que guardaria uma relação causa e efeito com o menor desempenho cognitivo. Muito sono por si só não deixaria o cérebro mais lento, mas pode ser reflexo de um problema de saúde que muitas vezes ainda não foi nem diagnosticado.
O planejamento estratégico é uma das maiores armas que as empresas dispõem para garantir o crescimento e a viabilidade de seus negócios ao longo dos anos. É fato que existem muitas pessoas habilidosas que conduzem as decisões da empresa de forma instintiva, sem planejamento formal, e o negócio vai muito bem, obrigado. Isto hoje. E amanhã? Um cientista não começa um experimento sem que o método esteja muito bem descrito, incluindo como os resultados serão analisados ao final do trabalho. É difícil imaginar que Amyr Klink teria conseguido fazer o que fez sem sua preciosa capacidade de planejamento.
Muitas pessoas atravessam os anos gastando semanas de reuniões para a formulação do planejamento de seu negócio ou dos outros, e não chegam a investir sequer minutos rabiscando idéias de seu próprio planejamento pessoal. Muitos certamente têm bastante simpatia com a música do talentoso Zeca Pagodinho: “Deixa a vida me levar, vida leva eu...”. Outros não concordam com isso e parece que esse devia ser o caso do filósofo Sêneca que nos deixou a famosa frase: “Para aqueles que não sabem para que porto vão, nenhum vento é bom”.
Podemos nos valer de algumas idéias do MÉTODO DE PLANEJAMENTO ESTRATÉGICO do mundo corporativo para promover nossa saúde. São várias as dimensões essenciais de nossa vida que devem fazer parte dessa reflexão: atividade física, sono, alimentação, família, amigos, carreira profissional, lazer, sexualidade, espiritualidade, etc.
Vamos começar por nossa ANÁLISE INTERNA. Aqui devemos focar em nossas próprias forças e fraquezas. Esse não é um processo exato, mas é bem provável que o rumo de sucesso em saúde mais certeiro seja o de solidificar / aumentar nossas forças e corrigir nossas fraquezas. Ao elencarmos nossas forças e fraquezas, podemos priorizá-las e definir quais são aquelas em que devemos mais investir. Uma boa dica é começar investindo naquelas que sejam sustentáveis ao longo prazo. Talvez não valha a pena gastar tantos esforços com dietas de promessas milagrosas para colocar o peso em dia. Dieta da Ração Humana? Difícil imaginar que alguém consiga manter uma dieta dessas por muito tempo. Da mesma forma, não vale a pena apostar alto na correção de uma fraqueza em que o resultado não vai nos trazer muita vantagem. Para quem está saindo do sedentarismo, não faz sentido alcançar uma meta de três horas de atividade física diária e desorganizar vários outros fatores como o convívio familiar, sono e lazer. Meia hora por dia já um bom começo.
Um segundo passo é identificar o quanto nossas forças são raras, pois estas devem ser muito bem cuidadas. São essas forças raras que costumam dar um tempero especial na vida, trazendo realização pessoal e felicidade. E pessoas mais felizes são mais saudáveis. Quanto às fraquezas, uma boa sugestão é a de priorizar nossos reparos com foco em dois momentos. Primeiro resolver a curtíssimo prazo aquilo que é fácil de consertar. Parar de fumar não é fácil, mas para quem fuma, esta é a PRIORIDADE NÚMERO UM e a decisão pode ser imediata. Pensando mais a médio e longo prazo, devemos depositar um grande contingente de energia no reparo de fraquezas que são difíceis de corrigir e que nos trazem desvantagem. Difícil de corrigir significa que a deficiência não pode ser corrigida da noite pro dia, mas não quer dizer que seja a coisa mais difícil ou penosa do mundo. Estamos falando de sono irregular, maus hábitos alimentares e sobrepeso, falta de lazer, atividade física, interação social e interesse sexual. A análise interna pode ser vista como aquilo que poderíamos fazer para melhorar.
Por fim, a decisão do que devemos fazer com nossas forças e fraquezas deve ser permeada também por aquilo que gostaríamos de fazer para melhorar, e para isso é necessário identificarmos com muita clareza qual é nossa missão nessa vida e quais são os nossos valores. As empresas costumam pendurar em suas paredes frases de efeito descrevendo suas missões e valores, mas poucas realmente se comprometem a seguir fielmente o que está ali escrito. Assim como as empresas, somos pressionados por todos os lados para não darmos conta de fazer aquilo que acreditamos e que faz parte do nosso discurso. Ser fiel aos nossos propósitos traz realização pessoal e certamente trará benefícios à saúde.
Após essa análise interna, podemos passar para a construção do cenário externo, que é a percepção das ameaças e oportunidades que nos rondam no presente e que nos aguardam no futuro. Se vivemos numa cidade em que o trânsito está ficando cada vez mais caótico, e só tende a piorar, esse fator que vem “de fora” deve fazer parte do planejamento de nossa vida, já que um dia pode vir a anular nossas forças, nossa saúde. O mesmo podemos dizer para um trabalho em que assédio moral é uma constante. Por outro lado, é bom ficar de olho nas oportunidades. Se um(a) amigo(a) inicia um programa de exercícios físicos, esta pode ser uma grande chance para se pegar carona no embalo do(a) amigo(a). Se o restaurante do local de trabalho dá a opção de peixe, essa escolha duas a três vezes por semana deveria ser vista como pleno aproveitamento de oportunidades (exceto para aqueles que odeiam peixe). Parte desse cenário externo pode ser visto como aquilo que deveríamos fazer para melhorar.
Planejar minimamente nossas escolhas e ações pode nos ajudar a integrar nossos ideais com o que realmente fazemos no nosso dia a dia. Isso é viver com integridade, em busca de uma vida não fragmentada e com mais saúde. É bom ter em mente que não são poucas as coisas que fogem do nosso controle, e nisso o Zeca Pagodinho tem razão em deixar rolar quando a coisa não sai do jeito planejado. Colocando o Zeca e o Sêneca pensando juntos, o pagode poderia sair assim: Se conheço bem para onde vou, vida leva eu, com vento bom, E PRO MELHOR LUGAR.
A revista The Lancet (resumo em inglês) publicou neste mês de dezembro uma importante pesquisa que apontou que o uso diário de aspirina está associado a uma redução dos índices de mortalidade de vários tipos de câncer.
Os pesquisadores analisaram oito estudos para prevenção de eventos vasculares que envolveram mais de 25 mil pacientes que usaram aspirina por pelo menos quatro anos. Dos oito estudos, três foram conduzidos na Inglaterra, dois na Escócia, um na Suécia, um nos Estados Unidos e outro no Japão. Os resultados mostraram que o uso diário de aspirina reduziu em 20% o risco relativo de mortalidade por câncer e, após cinco anos do uso da medicação, essa redução de risco chegou a 34%. Diferentes doses de aspirina foram utilizadas, mas doses maiores que 75mg por dia não trouxeram maiores benefícios. Além disso, os achados foram consistentes nos oito estudos, sugerindo que os números não devem ser muito diferentes em populações não incluídas nesta pesquisa.
Pesquisas anteriores já haviam demonstrado que o uso diário da aspirina tem o poder de reduzir o risco de câncer, especialmente o câncer do intestino grosso, onde os resultados são mais consistentes. As evidências do fator protetor da aspirina sobre outros tipos de câncer eram muito frágeis e o atual estudo dá um grande passo nesse sentido: após cinco anos de uso diário da medicação, já se consegue detectar menor mortalidade por câncer de esôfago, pâncreas, cérebro e pulmão. No caso dos cânceres de estômago, próstata e intestino grosso, os efeitos benéficos da medicação são ainda mais tardios.
Esses resultados deverão ter grandes implicações na prática clínica, especialmente para aqueles pacientes que usam medicações antiplaquetárias para prevenção de eventos vasculares. Não é incomum encontrarmos pessoas com fatores de risco vascular como diabetes e hipertensão arterial usando aspirina para prevenir eventos cardiovasculares (infarto do coração e o derrame cerebral). A aspirina é muito bem indicada para quem já apresentou um desses eventos cardiovasculares, e é o que se chama de prevenção secundária. Quanto à prevenção primária, ou seja, prevenir um primeiro evento cardiovascular, os estudos têm demonstrado que a medicação não é eficaz mesmo em pacientes com maior risco de eventos, como é o caso dos diabéticos. Novas pesquisas deverão contemplar também o fator prevenção de câncer na equação de riscos e benefícios, o que pode mudar as atuais recomendações.
Não podemos nos esquecer que muitas pessoas não toleram a aspirina e que ela é considerada uma das dez medicações que mais causam efeitos adversos, especialmente sintomas gastrintestinais e sangramentos. O desenvolvimento de novas fórmulas de seu princípio ativo com maior proteção gástrica pode minimizar parte dos efeitos colaterais.
Todo adulto já deveria começar então a usar uma pílula de aspirina por dia para prevenir o câncer? A resposta por enquanto é um inequívoco NÃO. A pesquisa publicada pelo The Lancet foi a primeira a evidenciar esse efeito da aspirina em diversos tipos de câncer e consolidou aquilo que já se conhecia melhor no caso do câncer do intestino grosso. Precisamos aguardar novas pesquisas que deverão definir qual a melhor dose de aspirina, qual a melhor idade para se começar a medicação e por quanto tempo ela deve ser usada, e em quais segmentos da população adulta os benefícios da medicação superam os potenciais efeitos colaterais. Para HOJE, podemos continuar fazendo o dever de casa do dia a dia para a prevenção de câncer:
1. ficar longe do cigarro;
2. respeitar o sol;
3. não exagerar no álcool – melhor ainda é nem beber;
4. seguir uma dieta saudável com muitas verduras, frutas e grãos integrais, pouca carne vermelha e do tipo processada (ex: salsichas);
5. manter o peso sob controle e atividade física diária por pelo menos 30 minutos;
6. conversar com o médico de confiança sobre os exames necessários para prevenção de câncer, em que época e com que freqüência fazê-los.
Estarão abertas, de 03 a 31 de janeiro/2011, as inscrições para os cursos de pós-graduação – “lato sensu”, oferecidos pelo Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo, da Unicamp:
– Especialização em Jornalismo Científico
– Especialização em Divulgação Científica e Saúde: Neurociências
As inscrições deverão ser feitas somente por meio eletrônico, através do formulário, que estará disponível no site do Labjor http://www.labjor.unicamp.br a partir de janeiro/2011
O Papai Noel não é nenhuma unanimidade quando se fala em modelo de saúde para as crianças. Para começar, ele está sempre muito além do peso, e alguns acham que ele poderia trocar o trenó com as renas por uma bicicleta. Em alguns países, é uma tradição oferecer ao Papai Noel biscoitos, tortas, uma dose de brandy ou vinho do porto quando ele passa por uma residência, e esse hábito pode influenciar as crianças a pensarem que álcool e direção, mesmo que de trenós, podem andar de mãos dadas. Há quem defenda a tese de que se os discutíveis hábitos do Papai Noel influenciarem negativamente 0.1% das crianças, já seriam milhões de vidas prejudicadas.
Nos EUA, o Papai Noel é o único personagem fictício mais conhecido que o Ronald MacDonald, e sua fama é quase universal. Se o Ronald é um personagem tão eficaz para vender Mac Coisas, Papai Noel não fica para trás. Sua popularidade bem que poderia ser usada para a promoção de hábitos de vida saudáveis, mas o que podemos observar é que ele anda ajudando a vender coca-cola desde a década de 30. Em outros tempos, ele já foi um forte “garoto” propaganda de cigarros. Já que o Papai Noel é um ícone associado ao universo infantil, seria bem-vinda alguma forma de regulação que evitasse sua vinculação com anúncios de bebidas alcoólicas e alimentos pouco saudáveis, regulação que já foi aplicada no caso do cigarro em vários países.
Aproveitar a mega fama do velhinho para a divulgação de bons hábitos de vida é uma ótima oportunidade para a promoção de saúde da população na época das festas de fim de ano, especialmente das crianças. Isso não quer dizer que o Papai Noel tenha que abandonar as renas e passar a ter um corpo sarado. No mundo da ficção ou no mundo real, radicalismos são sempre empobrecedores. Mesmo com todo o amor do mundo pelas crianças, Monteiro Lobato provavelmente nunca trocaria a Dona Benta e tia Anastácia com seus bolinhos por uma vovó magrinha que descasca cenouras para as crianças no lanchinho da tarde. Talvez também não trocasse o saci com cachimbo por um saci mascando chicletes sem açúcar.
Vivemos em rede desde os mais remotos tempos e o sucesso da espécie humana depende de sua capacidade em fazer relações sociais, capacidade que é vista como uma vantagem evolutiva. Indivíduos no centro de uma rede social têm mais acesso à informação, e no caso dos nossos ancestrais, essa informação poderia ser, por exemplo, o local de uma nova fonte de alimento. Entender melhor como funciona as redes sociais permite-nos entender também como elas podem influenciar importantes problemas de saúde pública, área recente do conhecimento chamada de epidemiologia social. Nos últimos três anos, riquíssimos estudos nessa área vêm sendo publicados por pesquisadores da Universidade da Califórnia (Fowler GH) e de Harvard (Christakis NA) junto a outros colaboradores nos mais renomados periódicos científicos do mundo.
Ainda no ano de 2007 (NEJM 357;4), eles demonstraram que a rede social de um indivíduo tem impacto no seu risco de tornar-se obeso em até três graus da rede (ex: amigo do amigo do amigo). Essa associação é muito mais forte pela proximidade social do que pela geográfica, como é o caso de vizinhos. A chance de uma pessoa se tornar obesa é 57% maior se um amigo tornou-se obeso num dado período. Entre irmãos, a chance é 40% maior e no caso do cônjuge, a chance aumenta em 37%.
No ano de 2008 (NEJM 358;21), os pesquisadores demonstraram esse mesmo efeito de contágio social na chance que uma pessoa tem de parar de fumar. Quando um dos membros de um casal pára de fumar, o outro tem uma chance 67% maior de parar também. O indivíduo tem 25% mais chances de parar quando um irmão/ irmã também pára, 36% mais chance quando um amigo pára e 34% mais chance quando um colega de trabalho pára. Ainda em 2008, os pesquisadores também demonstraram o efeito de contágio social na capacidade de uma pessoa se considerar feliz (BMJ) . Há uma tendência de pessoas felizes estarem no centro de suas redes sociais e próximas de outras com alto grau de felicidade, criando aglomerados de pessoas felizes. Além disso, ao longo do tempo, as pessoas ficaram mais felizes quando passaram a ser cercadas por outras felizes. Um amigo feliz que mora por perto (menos de 2 km) aumentava a chance de uma pessoa ser feliz em 25%, irmãos felizes por perto em 14%, e vizinhos em 34%. Esse efeito contagioso da felicidade diminui com o tempo e também com a distância entre as pessoas, e não foi percebido entre colegas de trabalho.
Em 2010, o contágio social também foi demonstrado no consumo de bebidas alcoólicas ( Ann Int Med). A quantidade de álcool que uma pessoa consome é proporcional ao tanto que seus amigos e parentes próximos bebem. O padrão de consumo de álcool de vizinhos e colegas de trabalho não teve a mesma influência. O estudo também demonstrou que aqueles que não bebem têm menos amigos e parentes que não bebem. Os pesquisadores publicaram ainda em 2010 uma tendência do contágio social de sintomas depressivos entre amigos e vizinhos. O efeito foi mais marcante com amigas do sexo feminino (Mol Psychiatry).
Uma das pesquisas mais interessantes foi publicada em março de 2010 (PLoS One). Foi demonstrado entre adolescentes que o efeito do contágio social no perfil de uso de drogas chega a envolver quatro níveis da rede social. O estudo também mostrou o efeito de contágio social no número de horas diárias de sono e que há uma relação estreita entre a quantidade de sono o e o consumo de drogas. Quando uma pessoa dorme menos de 7 horas por noite, a chance de um amigo dormir menos de sete horas é 11% maior. Quando um adolescente usa maconha, a chance de um amigo usar é 110% maior. O estudo também apontou que quando uma pessoa dorme menos de 7 horas, a chance de um amigo usar drogas aumenta em 19%. Esta foi a primeira vez que se evidenciou que o contágio social de um comportamento influencia o contágio de outro tipo de comportamento.
Em setembro de 2010 (PLoS One), os mesmos pesquisadores publicaram outro estudo que revelou que, numa epidemia infecto-contagiosa, indivíduos mais ao centro da rede social são acometidos mais precocemente. Esse achado pode facilitar o controle de epidemias ao se focar os esforços precocemente em indivíduos mais vulneráveis.
Este é um novo modo de pensar a saúde. Qualquer intervenção positiva nos hábitos de vida de um indivíduo pode se alastrar para a sua rede social. Há também o outro lado da moeda: comportamentos negativos também se difundem pela rede. É de se esperar que a internet amplifique cada vez mais esse poder, tanto para o lado positivo quanto negativo, mas o balanço geral certamente será um reflexo da eficiência das políticas públicas para a promoção de saúde da população.
Uma pesquisa recém-publicada pelo Journal of Epidemiology and Community Health aponta que mulheres grávidas que usam regularmente o telefone celular têm maior chance de ter filhos com problemas de comportamento, e esse risco passa a ser ainda maior quando as crianças começam a usar o aparelho de forma precoce.
Os mesmos pesquisadores que conduziram o presente estudo já haviam demonstrado esse efeito dos telefones celulares no ano de 2008 numa amostra de 13 mil crianças dinamarquesas. Desta vez, eles analisaram 28 mil crianças e suas mães, diferentes daquelas do estudo anterior, com ajustes na metodologia da pesquisa, incluindo outras variáveis que refletem o nível de atenção que as mães dispensam aos filhos nas fases precoces do desenvolvimento. As mães foram entrevistadas durante a gravidez e novamente quando os filhos completavam 7 anos de idade.
Os resultados mostraram que 35% das crianças usavam um aparelho de celular aos 7 anos, menos de 1% destes por mais de uma hora por semana, e 17.9% foram expostas ao aparelho antes e depois do nascimento. As crianças mais expostas ao aparelho foram as de famílias com menor status ocupacional, cujas mães eram mais jovens e que fumaram durante a gravidez e que tiveram mais estresse pré-natal. Cerca de 7% das crianças foram classificadas como portadoras de transtornos do comportamento e a exposição combinada pré-natal / infância aumentou em 50% essa chance comparado a um aumento de 40% no caso de exposição pré-natal restrita e 20% quando limitada à infância. Pouco tempo dedicado à amamentação foi associado a uma maior chance de alterações do comportamento, mas mesmo excluindo-se esse fator, o efeito do celular ainda permaneceu estatisticamente significativo.
E como é que as ondas eletromagnéticas do celular poderiam afetar o desenvolvimento da mente? Uma das hipóteses é a de que o uso do celular pode levar a um aumento do hormônio melatonina nas mães, hormônio que por sua vez tem influência nos hormônios sexuais femininos e que podem interferir na formação do bebê.
Os resultados são concordantes com o estudo anterior, mas não permite concluir que exista uma relação de causa e efeito entre o uso do celular por grávidas e crianças e problemas de comportamento na infância. As pesquisas disponíveis até o momento ainda são muito limitadas para qualquer tipo de orientação do tipo “mulheres grávidas não devem falar ao celular”. Entretanto, enquanto não tivermos novas pesquisas sobre o tema, é bem razoável que as grávidas pelo menos evitem exagerar no uso da aparelhinho.
Os esteróides anabolizantes androgênicos (EAA) constituem uma família de hormônios com efeitos anabolizantes (ganho muscular) e também masculinizantes. Na década de 1930 a testosterona foi quimicamente identificada e passou a ser usada no tratamento de quadros psiquiátricos como a depressão. Para os homens com deficiência na sua síntese, sua reposição pode aumentar a energia, libido e até mesmo o humor.
Na década de 1950, os EAA já eram usados no mundo do esporte de elite, e nos últimos 30 anos, seu uso entre atletas amadores passou a ser impulsionado pelo modelo de imagem corporal musculoso. Na verdade, essa história é bem mais antiga. Já em 1889, o famoso médico Brown Séquard dizia se sentir mais forte com a ingestão de um preparado de testículos de cães e porcos e provavelmente não estava enganado. Os hormônios realmente podem aumentar a massa e desempenho muscular além da capacidade aeróbica.
A maioria das pesquisas que avaliaram a freqüência do uso dos EAA por jovens do sexo masculino foram feitas em países ocidentais e apontaram que cerca de 3% já usaram esse tipo de hormônio alguma vez na vida. Entretanto, quando se avalia grupos mais restritos, essas cifras são bem maiores. O uso dos EAA entre estudantes universitários americanos não atletas chega a ultrapassar os 10% e é bem mais freqüente entre os rapazes. Cerca de metade dos usuários revelam que usam essas substâncias para melhorar o desempenho físico e a outra metade para melhorar a aparência. Em Porto Alegre, pesquisas realizadas em academias de musculação mostram que 11% dos atletas usam EAA e até 25% já os usaram.
O uso dos EAA por atletas amadores vêm quase sempre acompanhado de efeitos colaterais e em um quarto dos casos está associado ao uso de outras drogas como insulina e hormônio do crescimento (Med Sci Sports Exerc 2006). E não faltam efeitos colaterais associados ao uso dos EEA: redução da libido e fertilidade, acne, perda de cabelo e aumento das mamas entre os homens, dependência física e psicológica, variação do humor, sintomas psicóticos, irritabilidade e agressividade, aumento do colesterol ruim e da agregação das plaquetas (engrossa o sangue), doença isquêmica do coração, morte súbita, doença do fígado, dos rins e dos músculos. No caso da mulher, ainda podemos observar sinais de masculinização e alterações do ciclo menstrual. Além disso, adolescentes muito jovens podem ter sua curva de crescimento inibida. Os efeitos são proporcionais à dose e ao tempo de uso.
Outro efeito colateral sério associado ao uso dos EAA é o de que muitas dessas substâncias são de uso injetável, e aí caímos no problema de uso inapropriado de agulhas, sendo que em alguns estudos, o uso compartilhado de seringas é superior a 20% dos usuários.
O uso dos EAA é reconhecido mundialmente como prática contrária aos princípios éticos da competição esportiva. O American College of Sports Medicine, maior organização científica dedicada ao esporte, trabalha forte para a proibição dos EAA no esporte e para penalização daqueles envolvidos na produção, prescrição e distribuição dessas drogas com o fim de aumentar o desempenho atlético. No Brasil, é lei desde o ano 2000 que tais medicamentos só podem ser vendidos com receituário médico (e as indicações são para problemas de saúde e não para ficar forte). Entretanto, a maior parte de seu consumo é ilícito e, por incrível que pareça, ainda há médicos que têm prescrito esses hormônios a atletas, com o argumento de que só repõem a quantidade que falta a cada indivíduo. Vale lembrar que a deficiência de hormônios masculinos entre adolescentes e adultos jovens está longe de ser um diagnóstico comum.
Uma pesquisa divulgada nesta semana pelo periódico britânico Heart demonstra que uma mulher com história de abortos espontâneos tem até cinco vezes mais chance de apresentar um ataque do coração.
Os pesquisadores avaliaram cerca de 11.500 mulheres alemãs que tinham ficado grávidas pelo menos uma vez e que faziam parte de um grande estudo Europeu de análise do impacto do estilo de vida na freqüência de doenças, especialmente o câncer. Uma em cada quatro mulheres (25%) já havia apresentado pelo menos um aborto espontâneo, quase uma em cada cinco mulheres (18%) tinha o histórico de pelo menos um aborto provocado e cerca de 2% já tiveram um filho natimorto.
Após um seguimento médio de dez anos, 82 mulheres tiveram um ataque do coração e 112 um derrame cerebral. As mulheres com história de pelo menos um episódio de aborto espontâneo apresentavam um risco de ataque do coração 3.5 vezes maior. Naquelas que tiveram três ou mais episódios (0.2%), o risco chegou a ser nove vezes maior, e após ajuste de vários outros fatores como peso, tabagismo e consumo de álcool, o risco ainda se manteve cinco vezes maior.
E qual será a explicação para essa relação entre aborto espontâneo e risco vascular? Fatores da saúde da mulher que podem levar a um aborto espontâneo podem ser os mesmos fatores que aumentam o risco de um ataque do coração. Entre esses fatores podemos citar a hipertensão arterial, diabetes, alterações da coagulação e níveis de inflamação no sangue. Outra forma de explicar essa associação é o maior risco de infecções durante o processo de aborto que pode levar a uma maior chance de fenômenos vasculares na mãe.
Os resultados da presente pesquisa sugerem que mulheres com história de aborto espontâneo recorrente devem ser vistas como tendo maior chance de doença cardiovascular e podem precisar de medidas preventivas diferenciadas. Vale lembrar que aborto espontâneo não é uma condição nada incomum e ocorre em cerca de 20% das gravidezes.
Uma pesquisa publicada nesta semana pelo periódico Archives of Internal Medicine demonstrou que um programa de atividade física para idosos baseado em ritmo musical melhora a marcha, o equilíbrio e ainda reduz o risco de quedas.
Os pesquisadores estudaram cerca de 130 idosos suíços com mais de 65 anos e algum grau de risco de queda definido pelo exame clínico ou por história pregressa de queda. Metade dos voluntários foi submetida a um programa de atividade física que consistia em sessões semanais de uma hora ao ritmo de improvisação ao piano com exercícios que promoviam ações cognitivas e de movimento simultâneas, com desafios do equilíbrio e manipulação de objetos como bolas e instrumentos musicais de percussão.
O programa tinha a duração de seis meses e, após esse período, os voluntários eram orientados a voltar às suas atividades habituais. Um segundo grupo de voluntários iniciava o mesmo programa após o encerramento das atividades do primeiro grupo. Ambos os grupos eram avaliados no início do estudo e após 6 e 12 meses. Os resultados revelaram que o programa promoveu a melhora do desempenho da marcha e do equilíbrio e ainda reduziam o risco de queda em 54%, efeitos que persistiram por seis meses após sua interrupção.
O treinamento utilizado no presente estudo também é conhecido por Eurritmia de Jacques-Dalcroze, método de educação ritmo-musical musical do corpo desenvolvido ainda no início do século 20 pelo músico suíço de mesmo nome e que é praticado em várias partes do mundo em atividades que vão da música, dança e teatro até terapia. Resultados um pouco mais modestos que os do presente estudo já foram descritos com a prática de Tai Chi e outros métodos que estimulam o equilíbrio. Entretanto, não é possível traçar comparações, pois as metodologias e populações estudadas foram bem distintas.
Queda da própria altura é um dos problemas mais sérios da medicina geriátrica. Aos 60 anos de idade, 85% dos idosos apresentam uma capacidade de caminhar normal e aos 80 anos apenas cerca de 20% caminham sem dificuldades. Além disso, anualmente, um terço dos idosos com mais de 65 anos sofrem uma queda e metade desses cai de forme recorrente, 30% das vezes levando a alguma injúria e em 6% dos casos resultando em fratura. Com o crescente envelhecimento da população, esse é um problema que se torna cada dia mais sério.
A atual pesquisa chama a atenção para o fato de que qualquer leve melhora no desempenho cerebral e muscular de um idoso pode fazer a diferença na redução do seu risco de queda. O interessante da estratégia utilizada é que ela estimula funções motoras e cognitivas de forma integrada.
** Vale lembrar que há boas evidências de que o uso de vitamina D em altas doses é capaz de aumentar a força muscular e o equilíbrio entre os idosos e reduzir em 20% o risco de quedas.

A revista Neurology, periódico oficial da Academia Americana de Neurologia, publicou esta semana um estudo que demonstra que mulheres idosas com dietas ricas em vitamina D têm desempenho cognitivo melhor do que aquelas com ingesta insuficiente da vitamina.
Evidências recentes têm demonstrado que uma baixa concentração de vitamina D no sangue está associada a cérebros menos afiados, não só entre idosos e mulheres, mas também entre adultos de meia idade. A atual pesquisa acrescenta um dado inédito ao mostrar que a fonte dietética de vitamina D pode fazer diferença. Esse é um passo fundamental antes de se partir para um estudo de suplementação de cápsulas de vitamina D entre idosos com déficit cognitivo e baixos índices da vitamina.
Não se levava muito em consideração o impacto da dieta sobre o nível de vitamina D em nosso organismo, já que 90% são dependentes de sua síntese na pele por exposição ao sol. A dieta contribui com os outros 10% especialmente através de alimentos enriquecidos com a vitamina, óleo de fígado de bacalhau, peixes, e de forma menos importante, gema de ovo e fígado. Os vegetais contêm concentrações de vitamina D mínimas.
A deficiência de vitamina D sempre foi muito associada a problemas ósseos nas crianças e também nos adultos, mas nos últimos anos, começou-se a entender que sua deficiência também poderia estar associada a alterações do funcionamento cerebral. A vitamina D também atua no cérebro e sabe-se que ela está associada à expressão de diferentes proteínas e células essenciais para sua função e estudos experimentais sugerem que sua deficiência pode estar associada a disfunções cerebrais inflamatórias e vasculares que podem culminar em processos degenerativos.
Os próximos passos a serem dados serão estudos que consigam definir se uma dieta rica em vitamina D ou mesmo suplementos de vitamina D são capazes de prevenir, ou mesmo reverter déficits cognitivos. Enquanto isso, os médicos devem estar conscientes da alta freqüência de déficit da vitamina na população idosa.
Podemos dizer também que encontramos mais uma razão para consumir peixes regularmente. Os peixes ricos em vitamina D são praticamente os mesmos ricos em ômega 3 (ex: salmão, atum, sardinha), sendo este último componente nutricional de reconhecida eficácia na melhora do desempenho cerebral e também na capacidade de evitar doenças como o derrame cerebral e a Doença de Alzheimer. Mais uma razão também para não deixar de tomar um solzinho.
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Se alguém ainda se pergunta se as mudanças climáticas têm alguma coisa a ver com saúde, é bom saber que tem muito a ver e o problema já é considerado como a maior ameaça à saúde das pessoas no século 21.
Uma série de estudos mostra que o aquecimento global está associado ao aumento da incidência de doenças infecciosas como a dengue e a malária e ao aparecimento das mesmas em regiões do planeta em que não existiam antes. Além disso, a mortalidade por doenças cardiovasculares é maior nos extremos de temperatura, especialmente no calor. Isso sem falar do crescente número de catástrofes naturais como furacões e ciclones.
Médicos poderiam dar sua colaboração profissional para a redução de emissão de gases e aquecimento do planeta adicionando ao atendimento dos pacientes algumas recomendações ecológicas básicas. Uma regra simples que pode ajudar e vale a pena refletir é a de que aquilo que faz bem ao clima do planeta também faz bem à saúde do homem.
Redução de emissão de gases implica em usar menos o carro, caminhar e pedalar mais. Atividade física reduz o risco de inúmeras doenças crônicas como infarto do coração, derrame cerebral, depressão, diversos tipos de câncer e demência. Outra ação que favorece o clima do planeta é a redução no consumo de produtos animais que tem o potencial de conter o desflorestamento e a emissão de gás metano. O homem também se beneficia: menos alimentos animais significa maior longevidade.
A ameaça das mudanças climáticas não está batendo à nossa porta. Já entrou e sentou-se à mesa com nossos filhos e netos. Se não tomarmos medidas efetivas para combater o problema, chegaremos a uma situação de injustiça intergeracional, ou seja, as novas gerações pagarão caro por aquilo que não tiveram qualquer responsabilidade.
Uma pesquisa publicada na última edição do periódico britânico Occupational and Environmental Medicine demonstrou que o telefone celular ao longo prazo pode estar associado ao sintoma de zumbido.
Os pesquisadores avaliaram 100 indivíduos consecutivos que procuraram o serviço de otorrrinolaringologia na Universidade de Viena com queixas de zumbido, um terço deles com sintomas bilaterais. Esses voluntários foram comparados a um grupo controle sem os sintomas, pareados por idade e gênero. Foram excluídos aqueles que apresentavam doenças do ouvido e que tenham feito uso de medicações potencialmente associadas ao zumbido. Foram excluídos também pacientes com doenças sistêmicas e psiquiátricas severas. Mais de 90% dos voluntários incluídos no estudo faziam uso do telefone celular.
Os resultados apontaram que o uso do telefone celular por um tempo maior que quatro anos está associado a uma maior chance de zumbido do lado em que o celular é utilizado. Esse efeito não foi demonstrado no caso de zumbido do lado oposto ao uso do celular.
O zumbido no ouvido, condição também conhecida como tinnitus subjetivo, é a percepção de um ruído que não pode ser atribuído a uma fonte externa e chega a acometer 10-15% dos adultos, especialmente os idosos. O sintoma pode ser percebido como um ruído no ouvido ou até mesmo da cabeça, com caráter variado: cachoeira, cigarra, campainha, sino, apito, etc.
Trauma craniano, medicações tóxicas ao ouvido, perdas da audição por exposição a ruídos e quase toda doença que acomete o ouvido podem vir acompanhadas de zumbido. Pode ser bilateral ou apenas de um lado, e quando pulsátil, pode sugerir comprometimento dos vasos sanguíneos. Entretanto, na grande maioria dos casos, a causa do zumbido é incerta.
Como o tratamento não costuma ser eficaz, medidas de prevenção são muito importantes, já que o problema está associado a estresse psicológico, transtornos do sono e dificuldades no trabalho. Teoricamente, o campo eletromagnético emitido pelos aparelhos de celular é absorvido pelas estruturas do ouvido e pode alterar a dinâmica desse sistema e gerar zumbido. O presente estudo sugere que o uso do telefone celular ao longo prazo pode sim ser um fator de risco para zumbido, mas novas pesquisas deverão ser realizadas para confirmar esse achado.
Uma pesquisa publicada na última edição do periódico Archives of General Psychiatry sugere que os atuais critérios para o diagnóstico de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) entre adultos devem ser modificados para a próxima edição (DSM V), com a incorporação de mais sintomas que reflitam dificuldades nas funções executivas.
Após entrevista de cerca de 350 adultos, os resultados apontaram que 45.7% dos adultos que apresentaram o diagnóstico de TDAH na infância persistiram com o transtorno na idade adulta, sendo que o déficit de atenção foi bem mais persistente do que a hiperatividade: 95% e 34.6% respectivamente. Apesar da maior persistência do déficit de atenção, esse é um sintoma frequentemente associado a outros transtornos psiquiátricos e teoricamente não deveria ser considerado um forte critério que discrimina o diagnóstico de TDAH desses outros problemas.
O resultado mais importante da presente pesquisa foi a demonstração de que sintomas que refletem problemas de funções executivas, como é o caso de planejamento e capacidade de resolução de problemas, são os mais específicos e que melhor auxiliam no diagnóstico do TDAH em adultos. Três dos atuais critérios (DSM IV) dizem respeito à dificuldade de funcionamento executivo (dificuldade em organizar as tarefas, comete erros por descuido, perde muito as coisas). Entretanto, a presente pesquisa mostrou que outros sintomas de disfunção executiva, ainda não incluídos nos atuais critérios, têm grande potencial de incrementar a nova classificação. Entre eles podemos destacar: dificuldade de planejamento e de definir prioridades.
O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) tem sido bastante explorado entre as crianças e só recentemente passou também a ser melhor entendido nos adultos. Estima-se que cerca de 60% das crianças com diagnóstico de TDAH continuam a apresentar os sintomas (desatenção, inquietude, impulsividade) durante a adolescência e idade adulta. Entretanto, o diagnóstico de TDAH nos adultos ainda é um tema controverso, especialmente no que diz respeito aos seus critérios diagnósticos.
Pesquisas demonstram que 3.5% dos adultos inseridos no mercado de trabalho podem ser classificados como portadores de TDAH. Esses indivíduos apresentam mais absenteísmo e menos desempenho no trabalho quando comparados a indivíduos sem TDAH. Apesar de apenas uma minoria receber tratamento específico, uma grande proporção é tratada por outros transtornos mentais, considerados como comorbidades: problemas que são mais comuns entre os que têm diagnóstico de TDAH, como é o caso de ansiedade, depressão e abuso e dependência de substâncias psicoativas.
Dr. Ricardo Teixeira, titular do Consciência no Dia-a-Dia, foi um dos poucos brasileiros a serem incluídos na tradicional e respeitada publicação Who´s Who in the World em sua edição 2011.
A publicação integra os perfis profissionais de pessoas que se destacaram nas suas áreas, em mais de 215 países. Uma em cada 100 mil pessoas no mundo é selecionada para o Who´s Who in the World.
Um brinde!
Sucos de uva contêm grandes quantidades de substâncias conhecidas por polifenóis e flavonóides, especialmente quando feitos das uvas do tipo Concord, que são ricas em proantocianidina e antocianina, e do tipo Niágara, ricas em proantocianidina. O resveratrol é um polifenol que tem sido muito comentado nos últimos anos como um dos componentes do vinho tinto que responde pelos seus efeitos benéficos à saúde. Pesquisadores da Universidade Federal de Santa Maria-RS demostraram que os sucos de uva produzidos no Brasil também são ricos em resveratrol (Sautter et al., Ciênc. Tecnol. Aliment., Campinas, 2005)
Essas substâncias têm propriedades antioxidantes e antiinflamatórias que têm o potencial de melhorar a sinalização entre os neurônios e reduzir alterações cerebrais associadas a doenças neurodegenerativas, como é o caso da Doença de Alzheimer, e podem ter importante papel na redução do risco dessas doenças. Potencial benefício é uma coisa. Mas quais são as evidências de que faz alguma diferença?
Em roedores já em idades avançadas, suco de uva por 6 a 8 semanas promoveu melhora do desempenho cognitivo (Shukitt-Hale et al., Nutrition 2006). Em humanos com doenças cardiovasculares, suco de uva melhora os índices de colesterol e a função dos vasos sanguíneos (endotélio) e ainda reduz a tendência de agregação das plaquetas. Entre idosos com dificuldades no processamento de memória e sem demência, suco de uva do tipo Concord por 12 semanas melhorou o desempenho da memória (Krikorian et al., British Journal of Nutrition 2010). Entretanto esse estudo foi realizado com um número reduzido de idosos e pesquisas mais robustas são necessárias para uma melhor definição sobre os efeitos do consumo de suco de uva sobre as funções cognitivas.
O consumo diário de frutas e verduras é um consenso quando se pensa em prevenção da Doença de Alzheimer e algumas frutas podem ser mais eficientes que outras. A uva é um forte candidato ao lado de outras frutas com cores fortes como é o caso do morango, amora, framboesa, acerola, açaí e mirtilo, este último pouco conhecido no Brasil e chamado de Blueberry no hemisfério norte.
Resfriados são menos comuns e menos fortes em quem faz atividade física regular. Essa é a conclusão de uma pesquisa divulgada nesta semana pelo British Journal of Sports Medicine.
Cerca de mil americanos adultos com até 85 anos foram estudados por 12 semanas durante o outono e inverno do ano de 2008. Quatro de cada dez voluntários tinham menos de 40 anos e um em cada quatro tinha mais de 60 anos. Sessenta por cento deles eram mulheres.
Todos os participantes do estudo foram avaliados quanto ao nível de atividade física aeróbica e foram submetidos a uma auto-avaliação de preparo físico por uma escala de dez pontos já bem validada. Responderam também a questionários que avaliavam sintomas de resfriado, hábitos de vida e ocorrência de eventos recentes que tenham provocado estresse psicológico, já que esses podem afetar a resposta do sistema imunológico.
Os resultados mostraram que o número de dias com sintomas de resfriado foi maior no inverno: uma média de 13 dias no inverno e 8 dias no outono. O número de dias com sintomas de resfriado foi cerca de DUAS VEZES MENOR entre aqueles que se sentiam em boa forma física e relatavam fazer atividade física pelo menos cinco vezes na semana quando comparados àqueles que se exercitavam apenas uma vez por semana ou até menos que isso. A severidade dos sintomas era 41% menor entre aqueles que se sentiam em forma e 31% menor naqueles que se exercitavam mais.
Pesquisas anteriores já haviam demonstrado associação entre atividade física moderada e menor risco de resfriados. Porém, nenhuma delas usou uma ferramenta bem validada que tenha medido de forma objetiva os sintomas, como foi o caso do presente estudo.
O efeito protetor da atividade física contra infecções se dá pelo aumento temporário de anticorpos e células de defesa do corpo e, apesar do sistema imunológico retornar ao nível basal após poucas horas, cada um desses incrementos é capaz de melhorar a defesa contra microorganismos agressores. Por outro lado, sabe-se que a atividade física exagerada pode levar a uma disfunção do sistema imunológico, inflamação e estresse oxidativo, aumentando o risco de infecções. Pesquisas também apontam que atletas profissionais podem ter o sistema imunológico menos vulnerável a essas atividades extenuantes.
Diferente da gripe que é causada por um único tipo de vírus, o Influenza, os resfriados são causados por mais de 200 diferente vírus, o que faz com que uma vacina anti-resfriado seja uma realidade muito distante. Entretanto, as pesquisas têm demonstrado que o exercício físico regular tem muito a ajudar na prevenção do problema. Pouco estresse no dia a dia, sono regular e dieta equilibrada também têm o seu papel.
Por Miguel Nicolelis*, especial para o Viomundo
Desde que cheguei ao Brasil, há duas semanas, eu vinha sentindo uma sensação muito estranha. Como se fora acometido por um ataque contínuo da famosa ilusão, conhecida popularmente como déjà vu, eu passei esses últimos 15 dias tendo a impressão de nunca ter saído de casa, lá na pacata Chapel Hill, Carolina do Norte, Estados Unidos.
Mas como isso poderia ser verdade? Durante esse tempo todo eu claramente estava ou São Paulo ou em Natal. Todo mundo ao meu redor falava português, não inglês. Todo mundo era gentil. A comida tinha gosto, as pessoas sorriam na rua. No aeroporto, por exemplo, não precisava abrir a mala de mão, tirar computador, tirar sapato, tirar o cinto, ou entrar no scan de corpo todo para provar que eu não era um terrorista. Ainda assim, com todas essas provas evidentes de que eu estava no Brasil e não nos EUA, até no jogo do Palmeiras, no meio da imortal “porcada”, a sensação era a mesma: eu não saí da América do Norte! Mesmo quando faltou luz na Arena de Barueri durante o jogo, porque nem a 25 km da capital paulista a Eletropaulo consegue garantir o suprimento de energia elétrica para um prélio vital do time do coração do ex-governador do estado (aparentemente ninguém vai muito com a cara dele na Eletropaulo. Nada a ver com o Palmeiras), eu consegui me sentir à vontade.
Custou-me muito a descobrir o que se sucedia.
Porém, ontem à noite, durante o debate dos candidatos a Presidência da República na Rede Record, uma verdadeira revelação me veio à mente. De repente, numa epifania, como poucas que tive na vida, tudo ficou muito claro. Tudo evidente. Não havia nada de errado com meus sentidos, nem com a minha mente. Havia, sim, todo um contexto que fez com que o meu cérebro de meia idade revivesse anos de experiências traumatizantes na América do Norte.
Pois ali na minha frente, na TV, não estava o candidato José Serra, do PSDB, o “partido do salário mais defasado do Brasil”, como gostam de frisar os sofridos professores da rede pública de ensino paulistana, mas sim uma encarnação perfeita, mesmo que caricata, de um verdadeiro George Bush tropical. Para os que estão confusos, eu me explico de imediato. Orientado por um marqueteiro que, se não é americano nato, provavelmente fez um bom estágio na “máquina de moer carne de candidatos” em que se transformou a indústria de marketing político americano, o candidato Serra tem utilizado todos os truques da bíblia Republicana. Como estudante aplicado que ainda não se graduou (fato corriqueiro na sua biografia), ele está pronto para realizar uns “exames difíceis” e ser aceito para uma pós-graduação em aniquilação de caracteres em alguma universidade de Nova Iorque.
Ao ouvir e ver o candidato, ao longo dessas duas semanas e no debate de ontem à noite, eu pude identificar facilmente todos os truques e estratégias patenteados pelo partido Republicano Americano. Pasmem vocês, nos últimos anos, essa mensagem rasa de ódio, preconceito, racismo, coberta por camadas recentes de fé e devoção cristã, tem sido prontamente empacotada e distribuída para o consumo do pobre povo daquela nação, pela mídia oficial que gravita ao seu redor.
Para quem, como eu, vive há 22 anos nos EUA, não resta mais nenhuma dúvida. Quem quer que tenha definido a estratégia da campanha do candidato Serra decidiu importar para a disputa presidencial brasileira tanto a estratégia vergonhosa e peçonhenta da “vitória a qualquer custo”, como toda a truculência e assalto à verdade que têm caracterizado as últimas eleições nos Estados Unidos. Apelando invariavelmente para o que há de mais sórdido na natureza humana, nessa abordagem de marketing político nem os fatos, nem os dados ou as estatísticas, muito menos a verdade ou a realidade importam. O objetivo é simplesmente paralisar o candidato adversário e causar consternação geral no eleitorado, através de um bombardeio incessante de denúncias (verdadeiras ou não, não faz diferença), meias calúnias, ou difamações, mesmo que elas sejam as mais absurdas possíveis.
Assim, de repente, Obama não era mais americano, mas um agente queniano obcecado em transformar a nação americana numa república islâmica. Como lá, aqui Dilma Rousseff agora é chamada de búlgara, em correntes de emails clandestinos. Como os EUA de Bill Clinton, apesar de o país ter experimentado o maior boom econômico em recente memória, foi vendido ao povo americano como estando em petição de miséria pelo então candidato de primeira viagem George Bush.
Aqui, o Brasil de Lula, que desfruta do melhor momento de toda a sua história, provavelmente desde o período em que os últimos dinossauros deixaram suas pegadas no que é hoje o município de Sousa, na Paraíba, passa a ser vendido como um país em estado de caos perpétuo, algo alarmante mesmo. Ao distorcer a verdade, os fatos, os números e, num último capítulo de manipulação extremada, a própria percepção da realidade, através do pronto e voluntário reforço do bombardeio midiático, que simplesmente repete o trololó do candidato (para usar o seu vernáculo favorito), sem crítica, sem análise, sem um pingo de honestidade jornalística, busca-se, como nos EUA de George Bush e do partido Republicano, vender o branco como preto, a comédia como farsa.
Não interessa que 26 milhões de brasileiros tenham saído da miséria. Nem que pela primeira vez na nossa história tenhamos a chance de remover o substantivo masculino “pobre” dos dicionários da língua portuguesa. Não faz a menor diferença que 15 milhões de novos empregos tenham sido criados nos últimos anos. Ou que, pela primeira vez desde que se tem notícia, o Brasil seja respeitado por toda a comunidade internacional. Para o candidato da oposição esse número insignificante de empregos é, na sua realidade marciana, fruto apenas de uma maior fiscalização que empurrou com a barriga do livro de multas 10 milhões de pessoas para o emprego formal desde o governo do imperador FHC.
Nada, nem a realidade, é capaz de impressionar os fariseus e arautos que estão sempre prontos a denegrir o sucesso desse país de mulatos, imigrantes e gente que trabalha e batalha incansavelmente para sobreviver ao preconceito, ao racismo, à indiferença e à arrogância daqueles que foram rejeitados pelas urnas e vencidos por um mero torneiro mecânico que virou pop star da política internacional. Nada vai conseguir remover o gosto amargo desse agora já fato histórico, que atormenta, como a dor de um membro fantasma, o ego daqueles que nunca acreditaram ser o povo brasileiro capaz de construir uma nação digna, justa e democrática com o seu próprio esforço. Como George Bush ao Norte, o seu clone do hemisfério sul não governa para o povo, nem dele busca a sua inspiração. A sua busca pelo poder serve a outros interesses; o maior deles, justiça seja feita, não é escuso, somente irrelevante, visto tratar-se apenas do arquivo morto da sua vaidade, o maior dos defeitos humanos, já dizia dona Lygia, minha santa avó anarquista. Para esse candidato, basta-lhe poder adicionar no currículo uma linha que dirá: Presidente do Brasil (de tanto a tanto). Vaidade é assim, contenta-se com pouco, desde que esse pouco venha embalado num gigantesco espelho.
Voltando à estratégia americana de ganhar eleições, numa segunda fase, caso o oponente sobreviva ao primeiro assalto, apela-se para outra arma infalível: a evidente falta de valores cristãos do oponente, manifestada pela sua explícita aquiescência para com o aborto; sua libertinagem sexual e falta de valores morais, invariavelmente associada à defesa do fantasma que assombra a tradição, família e propriedade da direita histérica, representado pela tão difamada quanto legítima aprovação da união civil de casais homossexuais. Nesse rolo compressor implacável, pois o que vale é a vitória, custe o que custar, pouco importa ao George Bush tupiniquim que milhares de mulheres humildes e abandonadas morram todos os anos, pelos hospitais e prontos-socorros desse Brasil afora, vítimas de infecções horrendas, causadas por abortos clandestinos.
George Bush, tanto o original quanto o genérico dos trópicos, provavelmente conhece muitas mulheres do seu meio que, por contingências e vicissitudes da vida, foram forçadas a abortos em clínicas bem equipadas, conduzidas por profissionais altamente especializados, regiamente pagos para tal prática. Nenhum dos dois George Bushes, porém, jamais deu um plantão no pronto-socorro do Hospital das Clínicas de São Paulo e testemunhou, com os próprios olhos e lágrimas, a morte de uma adolescente, vítima de septicemia generalizada, causada por um aborto ilegal, cometido por algum carniceiro que se passou por médico e salvador.
Alguns amigos de longa data, que também vivem no exterior, andam espantados com o grau de violência, mentiras e fraudes morais dessa campanha eleitoral brasileira. Alguns usam termos como crime lesa pátria para descrever as ações do candidato do Brasil que não deu certo, seus aliados e a grande mídia.
Poucos se surpreenderam, porém, com o fato de que até o atentado da bolinha de papel foi transformado em evento digno de investigação no maior telejornal do hemisfério sul (ou seria da zona sul do Rio de Janeiro? Não sei bem). No caso em questão, como nos EUA, a dita grande imprensa que circunda a candidatura do George Bush tupiniquim acusa o Presidente da República de não se comportar com apropriado decoro presidencial, ao tirar um bom sarro e trazer à tona, com bom humor, a melhor metáfora futebolística que poderia descrever a farsa. Sejamos honestos, a completa fabricação, desmascarada em verso, prosa e análise de vídeo, quadro a quadro, por um brilhante professor de jornalismo digital gaúcho.
Curiosamente, a mesma imprensa e seus arautos colunistas não tecem um único comentário sobre a gravidade do fato de ter um pretendente ao cargo máximo da República ter aceitado participar de uma clara e explicita fabricação. Ou será que esse detalhe não merece algumas mal traçadas linhas da imprensa? Caso ainda estivéssemos no meio de uma campanha tipicamente brasileira, o já internacionalmente famoso “atentado da bolinha de papel” seria motivo das mais variadas chacotas e piadas de botequim. Mas como estamos vivendo dentro de um verdadeiro clone das campanhas americanas, querem criminalizar até a bolinha de papel. Se a moda pega, só eu conheço pelo menos uns dez médicos brasileiros, extremamente famosos, antigos colegas de Colégio Bandeirantes e da Faculdade de Medicina da USP, que logo poderiam estar respondendo a processos por crimes hediondos, haja vista terem sido eles famosos terroristas do passado, que se valiam, não de uma, mas de uma verdadeira enxurrada, dessas armas de destruição em massa (de pulgas) para atingir professores menos avisados, que ousavam dar de costas para tais criminosos sem alma .
Valha-me Nossa Senhora da Aparecida — certamente o nosso George Bush tupiniquim aprovaria esse meu apelo aos céus –, nós, brasileiros, não merecemos ser a próxima vítima do entulho ético do marketing eleitoral americano. Nós merecemos algo muito melhor. Pode parecer paranoia de neurocientista exilado, mas nos EUA eu testemunhei como os arautos dessa forma de fazer política, representado pelo George Bush original e seus asseclas, conseguiram vender, com grande sucesso e fanfarra, uma guerra injustificável, que causou a morte de mais de 50 mil americanos e centenas de milhares de civis iraquianos inocentes.
Tudo começou com uma eleição roubada, decidida pela Corte Suprema. Tudo começou com uma campanha eleitoral baseada em falsas premissas e mentiras deslavadas. A seguir, o açodamento vergonhoso do medo paranóico, instilado numa população em choque, com a devida colaboração de uma mídia condescendente e vendida, foi suficiente para levar a maior potência do mundo a duas guerras imorais que culminaram, ironicamente, no maior terremoto econômico desde a quebra da bolsa de 1929.
Hoje os mesmos Republicanos que levaram o país a essas guerras irracionais e ao fundo do poço financeiro acusam o Presidente Obama de ser o responsável direto de todos os flagelos que assolam a sociedade americana, como o desemprego maciço, a perda das pensões e aposentadorias, a queda vertiginosa do valor dos imóveis e a completa insegurança sobre o que o futuro pode trazer, que surgiram como conseqüência imediata das duas catastróficas gestões de George Bush filho.
Enquanto no Brasil criam-se 200 mil empregos pro mês, nos EUA perdem-se 200 mil empregos a cada 30 dias. Confrontado com números como esses, muitos dos meus vizinhos em Chapel Hill adorariam receber um passaporte brasileiro ou mesmo um visto de trabalho temporário e mudar-se para esse nosso paraíso tropical. Eles sabem pelo menos isto: o mundo está mudando rapidamente e, logo, logo, no andar dessa carruagem, o verdadeiro primeiro mundo vai estar aqui, sob a luz do Cruzeiro do Sul!
Fica, pois, aqui o alerta de um brasileiro que testemunhou os eventos da recente história política americana em loco. Hoje é a farsa do atentado da bolinha de papel. Parece inofensivo. Motivo de pilhéria. Eu, como gato escaldado, que já viu esse filme repulsivo mais de uma vez, não ficaria tão tranqüilo, nem baixaria a guarda. Quem fabrica um atentado, quem se apega ou apela para questões de foro íntimo, como a crença religiosa (ou sua inexistência), como plataforma de campanha hoje, é o mesmo que, se eleito, se sentirá livre para pregar peças maiores, omitir fatos de maior relevância e governar sem a preocupação de dar satisfações aqueles que, iludidos, cometeram o deslize histórico de cair no mais terrível de todos os contos do vigário, aquele que nega a própria realidade que nos cerca.
Aliás, ocorre-me um último pensamento. A única forma do ex-presidente (Imperador?) Fernando Henrique Cardoso demonstrar que o seu governo não foi o maior desastre político-econômico, testemunhado por todo o continente americano, seria compará-lo, taco a taco, à catastrófica gestão de George Bush filho. Sendo assim, talvez o candidato Serra tenha raciocinado que, como a sua probabilidade de vitória era realmente baixa, em último caso, ele poderia demonstrar a todo o Brasil quão melhor o governo FHC teria sido do que uma eventual presidência do George Bush genérico do hemisfério sul. Vão-se os anéis, sobram os dedos. Perdido por perdido, vamos salvar pelo menos um amigo. Se tal ato de solidariedade foi tramado dentro dos circuitos neurais do cérebro do candidato da oposição (truco!), só me restaria elogiá-lo por este repente de humildade e espírito cristão.
Ciente, num raro momento de contrição, de que algumas das minhas teorias possam ter causado um leve incômodo, ou mesmo, talvez, um passageiro mal-estar ao candidato, eu ousaria esticar um pouco do meu crédito junto a esse grande novo porta-voz do cristianismo e fazer um pequeno pedido, de cunho pessoal, formulado por um torcedor palmeirense anônimo, ao candidato da oposição. O pedido, mais do que singelo, seria o seguinte:
Candidato, será que dá pro senhor pedir pro governador Goldman ou pro futuro governador Dr. Alckmin para eles não desligarem a luz da Arena Barueri na semana que vem? Como o senhor sabe, o nosso Verdão disputa uma vaguinha na semifinal da Copa Sulamericana e, aqui entre nós, não fica bem outro apagão ser mostrado para todo esse Brazilzão, iluminado pelo Luz para Todos, do Lula. Afinal de contas, se ocorrer outro vexame como esse, o povão vai começar a falar que se o senhor não consegue nem garantir a luz do estádio pro seu time do coração jogar, como é que pode ter a pretensão de prometer que vai ter luz para todo o resto desse país enorme? Depois, o senhor vem aqui e pergunta por que eu vou votar na Dilma? Parece abestalhado, sô!
* Miguel Nicolelis é um dos mais importantes neurocientistas do mundo. É professor da Universidade de Duke, nos Estados Unidos, e criador do Instituto Internacional de Neurociência de Natal, (RN). Em 2008, foi indicado ao Prêmio Nobel de Medicina.






















