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Fatores psicológicos como fatalismo podem fazer a diferença no risco de uma pessoa vir a desenvolver um derrame cerebral. Essa é a conclusão de um estudo recém-publicado pelo periódico Stroke da Associação Americana de Cardiologia.
Cerca de 700 americanos internados por terem sido acometidos por derrame cerebral foram submetidos a uma entrevista com escalas que avaliam o estado psicológico antes do derrame cerebral, com ênfase no grau de otimismo, fatalismo, espiritualidade e sintomas depressivos.
Os resultados apontaram que um maior componente de fatalismo esteve associado ao risco de morte e à chance de um novo derrame cerebral. A escala que avalia o fatalismo aborda três diferentes dimensões: 1) pré-determinismo – percepção de que a saúde é uma questão de destino e que não há o que fazer para mudar; 2) sorte – tendência a vincular o estado de saúde à sorte; 3) pessimismo – expectativas negativas quanto ao futuro. A mesma associação com mortalidade e chance de recorrência do derrame cerebral foi demonstrada no caso de sintomas depressivos. Além disso, a influência do fatalismo sobre a mortalidade foi maior entre os pacientes que não apresentavam sintomas depressivos.
Esse é o primeiro estudo a associar o componente de fatalismo com o prognóstico de um derrame cerebral. O impacto negativo do fatalismo já havia sido demonstrado em condições como o câncer, doenças cardiovasculares, diabetes e comportamentos de risco. A hipótese que melhor explica essa relação é uma pior aderência a tratamentos propostos e maior dificuldade em assumir hábitos de vida saudáveis.
Já temos um amplo conhecimento sobre os efeitos da saúde mental das mães sobre os filhos. Já no caso dos pais, essa relação ainda é pouco explorada. Uma pesquisa publicada este mês pelo periódico da Academia Americana de Pediatria – Pediatrics – revela que crianças que moram com pais com sintomas depressivos ou outros problemas mentais têm mais chance de apresentarem problemas emocionais e de comportamento.
O estudo envolveu mais de vinte mil crianças americanas com idades entre cinco e 17 anos e que vivem com ambos os pais, independente de serem biológicos, adotivos ou postiços. A chance de uma criança apresentar dificuldades de ordem emocional ou de comportamento foi de 19% quando a mãe tinha sintomas depressivos, 11% quando só o pai tinha esses sintomas e 6% quando nenhum dos pais apresentava os sintomas. No caso de ambos os pais terem sintomas depressivos, o risco das crianças subia para 25%.
A presente pesquisa é a análise mais robusta já realizada sobre a influência que tem a depressão do pai sobre a saúde mental dos filhos. Os resultados também revelam de forma inédita o impacto relativo da depressão materna e paterna numa mesma população.
A prevalência de depressão é muito alta na população geral, acometendo nos EUA 17% das mulheres e 9% dos homens. No Brasil os números não são muito diferentes. Estudo recente demonstrou uma prevalência de 10% na região metropolitana de São Paulo, sendo duas vezes mais freqüente nas mulheres do que nos homens.
A exposição a solventes pode colaborar para o desenvolvimento da Doença de Parkinson (DP) muitos anos depois. Essa é a conclusão de uma pesquisa divulgada esta semana pelo periódico da Associação Americana de Neurologia – Annals of Neurology. Essas substâncias estão presentes em produtos como tintas, colas, produtos de limpeza, combustíveis e lubrificantes, e chegam a contaminar até mesmo os lençóis freáticos.
O estudo avaliou 99 pares de gêmeos americanos em que apenas um dos irmãos apresentava o diagnóstico de DP. O tipo de ocupação profissional e hobbies desses voluntários foram analisados através de questionários já bem validados. Os resultados mostraram que o grau de exposição ao solvente tricloroetileno (TCE) foi associado a uma maior chance de apresentar a doença. Outros solventes tiveram impacto menor, porém nada desprezíveis.
Já tínhamos evidências menos robustas da associação entre a exposição ao TCE e a DP. Um modelo experimental de DP em camundongos já havia apontado que o TCE é capaz de provocar alterações cerebrais semelhantes às encontradas entre os portadores da doença. Além disso, casos clínicos isolados também foram relatados descrevendo a ocorrência doença entre indivíduos com altos níveis de exposição ao TCE.
A DP ocorre em uma a cada cem pessoas com mais de 65 anos, e em 90% dos casos, não existe uma história familiar da doença. Reconhece-se que tanto um componente genético, como fatores ambientais estão associados à doença.
Outras substâncias tóxicas ao cérebro podem provocar a DP, como é o caso do MPTP, substância que é parente próxima da heroína, e de alguns agrotóxicos, como o paraquat. Nos últimos anos, temos colecionado evidências de novos candidatos que podem ser deflagradores da DP:
– Foram descritos no ano de 2009 dois novos agrotóxicos (ácido 2,4-dichlorophenoxyacetic, permethrin) que aumentam em três vezes o risco da DP;
– Foi demonstrado que um metabólito da bactéria Streptomyces venezuelae reduz a função do Sistema Proteolítico Ubiquitina – Proteassoma (UPS) em modelo animal. A redução da função desse sistema tem sido implicada na patogênese da DP esporádica;
– Inoculação intranasal do vírus da gripe aviária (H5N1) em ratos provocou alterações cerebrais semelhantes às encontradas na DP: inflamação, agregados de a-sinucleína e degeneração de neurônios produtores de dopamina;
* Maiores níveis de colesterol aumentam risco da DP independente do índice de massa corporal. O cérebro é o órgão mais rico em colesterol e uma alteração de sua homeostase pode provocar alterações em suas conexões e membranas celulares.
Esses estudos nos estimulam a pensar a Doença de Parkinson como pensamos várias outras doenças como a hipertensão arterial, o diabetes e a Doença de Alzheimer. Todas são doenças que têm seu componente genético, mas fatores ambientais pode ser o empurrãozinho que faltava para o desenvolvimento da doença.
14 de novembro. Dia mundial do Diabetes. O diabetes mata uma pessoa a cada 8 segundos e não discrimina. Ele acomete mulheres e homens, jovens e adultos, ricos e pobres. Em muitos casos, o cérebro também perde desempenho.
O impacto do diabetes sobre a função cerebral é maior em duas fases da vida: durante o desenvolvimento cerebral na infância assim como na velhice, quando o cérebro passa por alterações degenerativas. O diabetes é um dos reconhecidos fatores de risco para o transtorno cognitivo leve dos idosos, assim como para a demência vascular e a Doença de Alzheimer. Fora desses períodos chamados críticos, os efeitos da doença costumam ocorrer preferencialmente entre aqueles que apresentam complicações vasculares como, por exemplo, a retinopatia, doença coronariana e complicações renais.
A influência do diabetes sobre o funcionamento cerebral vai além do comprometimento dos vasos sanguíneos, pois há evidências de que a doença pode promover alterações cerebrais semelhantes às encontradas entre indivíduos com a Doença de Alzheimer, possivelmente decorrente do distúrbio de homeostase da insulina. Já sabemos que a insulina otimiza o consumo de glicose pelos neurônios e colabora para a formação de novas sinapses e para a modulação das mesmas. Na Doença de Alzheimer, a concentração e atividade desse hormônio no cérebro são reduzidas e já existem resultados bastante promissores do seu uso por via intranasal para o tratamento dessa patologia.
Para um desenvolvimento e envelhecimento cerebral saudável, devemos a todo custo evitar o desenvolvimento do diabetes. Atividade física regular e a manutenção do peso em dia é o dever de casa básico. Para quem tem história familiar da doença, o recado deve ser levado ainda mais a sério, pois o risco é duas a quatro vezes maior que na população geral. E para aqueles que já têm o diagnóstico, o dever de casa é o mesmo, acrescido de um controle rigoroso da doença.
Este ano, uma pesquisa publicada pela revista Nature Neuroscience demonstrou que o volume da amígdala, uma das principais regiões cerebrais associadas ao processamento de emoções, é maior entre pessoas que têm maiores redes sociais reais. Logo em seguida, outro grupo de pesquisadores fez outra pergunta: será que a quantidade de amigos que uma pessoa tem no facebook também tem alguma relação com a anatomia do seu cérebro?
Cento e vinte e cinco universitários ingleses com 23 anos em média, todos eles vinculados à rede facebook, foram submetidos a exames de ressonância magnética. As imagens do cérebro foram analisadas com uma técnica especial que mede o tamanho das regiões de interesse – morfometria baseada em voxels.
Os resultados apontaram que, quanto maior o número de amigos no facebook, maior o volume de algumas regiões do cérebro. Uma dessas regiões é a própria amígdala, já apontada no estudo anterior como sendo maior entre indivíduos com uma maior rede social de “carne e osso”. Outras estruturas do lobo temporal também se mostraram mais volumosas, algumas delas ligadas à memória e à capacidade de associar informações – ligar o nome à imagem da pessoa -, enquanto outras são associadas a funções como a habilidade de perceber a intenção do outro e de notar que estamos sendo observados.
Os pesquisadores investigaram também se o tamanho da rede de amigos online era proporcional à rede real. Um questionário de três perguntas foi aplicado para estimar o tamanho da rede real: 1) quantas pessoas lhe enviariam uma mensagem convidando para uma comemoração? 2) qual o número de pessoas na sua lista de telefones? 3) quantos amigos da época de escola ou faculdade que você ainda pode ter uma conversa amigável? As respostas indicaram que as redes do facebook e do mundo real eram proporcionais.
Uma questão que a pesquisa não pôde responder é se as características do cérebro são causa ou conseqüência da experiência social. É fresquinho porque vende mais ou vende mais porque é fresquinho?
O estudo foi publicado pelo periódico Proceedings of the Royal Society B.
** A última edição da Science traz um estudo mostrando que macacos que convivem em grupos maiores também apresentam maior volume da substância cinzenta em diversas áreas cerebrais, incluindo a região temporal. Mais uma evidência de que o cérebro é uma grande ferramenta social.
Álcool em baixas doses também aumenta o risco de câncer de mama. Essa é a conclusão de uma pesquisa publicada esta semana pelo JAMA, periódico oficial da Associação Americana de Medicina.
A publicação é referente ao grande Estudo de Saúde de Enfermeiras dos Estados Unidos. Desde o ano de 1976, mais de 120 mil enfermeiras com idades entre 30 e 55 anos têm sido acompanhadas e reavaliadas a cada dois anos. Vários resultados desse estudo já haviam sido apresentados e nessa última análise os pesquisadores deram uma grande contribuição para o entendimento da relação entre álcool e câncer de mama.
Os resultados mostraram que as mulheres que consomem duas ou mais doses de álcool por dia têm um risco de câncer em dez anos de 4.1%, comparado ao risco de 2.8% entre as abstêmias. Já o consumo de uma dose diária de álcool aumenta o risco de câncer de mama em 10 anos para 3.5%.
Estudos anteriores já haviam demonstrado que uma dose diária já aumenta o risco do câncer. A presente pesquisa trouxe novas informações ao demonstrar que quantidades mais baixas ainda, como três doses por semana, aumentam de forma discreta a chance da doença. Mostrou também que tanto o consumo numa fase precoce da idade adulta como em fases mais tardias estão associados a um maior risco, e o efeito foi cumulativo. Além disso, o hábito de beber quatro ou mais doses no mesmo dia, mesmo que não seja de forma freqüente, também se mostrou associado a uma maior chance de desenvolver a doença.
Radiação ionizante e terapias com hormônios são os dois principais fatores ambientais associados ao câncer de mama. No primeiro caso, o desenvolvimento do câncer pode guardar relação com a exposição da radiação de 20 anos atrás ou até mais. Já o efeito da terapia hormonal parece ter seu efeito carcinogênico em poucos anos, e o risco começa a ser diluído após dois anos da sua interrupção.
Se a influência do álcool sobre o câncer de mama for semelhante à da terapia hormonal, a suspensão do álcool poderia também reduzir os riscos. Essa é uma hipótese que ainda não tem respaldo científico. Outra questão que ainda não tem resposta é se a proteção contra o câncer de mama que a abstinência promove chega a superar os benefícios cardiovasculares de uma dose diária.
Insônia aumenta o risco de infarto agudo do miocárdio (IAM). Essa é a conclusão de um grande estudo recém-publicado pelo periódico da Associação Americana de Cardiologia, Circulation.
Mais de 50 mil noruegueses foram acompanhados por 11 anos e as conclusões foram as seguintes:
– os voluntários que, no início do estudo, relataram ter dificuldade quase diária para induzir o sono, apresentaram um risco de IAM 45% maior quando comparados àqueles sem essa queixa;
– quando a queixa foi dificuldade em manter o sono quase toda noite, o risco de IAM foi 30% maior e, no caso de acordar mais do que uma vez por semana com sensação de sono não reparador, a chance de IAM aumentou em 27%;
– o risco de IAM foi cumulativo, ou seja, quanto mais sintomas de insônia, maior o risco.
Estima-se que cerca de um terço das pessoas apresente pelo menos um sintoma de insônia. É uma condição fácil de ser diagnosticada e tem várias opções de tratamento disponíveis. É bom saber que nem o coração aprova uma vida sem dormir direito!
Há cerca de um mês, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) decidiu pela proibição da comercialização de mamadeiras de plástico que contenham o componente tóxico bisfenol A. Já existe um grande corpo de evidências científicas dos riscos à saúde dessa substância, e parece que o problema já começa na barriga da mãe.
Mais uma pesquisa sobre o assunto foi publicada hoje pelo periódico oficial da Academia Americana de Pediatria, Pediatrics. Cerca de 250 mães americanas e seus filhos foram acompanhados de forma prospectiva desde o início da gestação. A concentração de bisfenol A foi medida na urina das mães durante a gestação e nos primeiros três anos dos filhos. As crianças também foram submetidas a testes de avaliação de comportamento e funções cognitivas.
O bisfenol A estava presente na urina de 97% das gestantes e das crianças, sendo que a concentração era maior entre os pequenos. Quanto maior a concentração da substância nas mães durante a gestação, maiores eram os índices de ansiedade, hiperatividade e sintomas depressivos nas crianças, e de uma forma bem mais expressiva nas meninas. Essa mesma associação não pôde ser demonstrada com a concentração do bisfenol A das crianças.
Mas por que o efeito nas meninas é diferente? O bisfenol A tem ação similar ao hormônio estrogênio e pode influenciar os neurotransmissores e o sistema endócrino, o que pode alterar a diferenciação sexual do cérebro e o comportamento de uma forma diferenciada de acordo com o gênero.
Evitar a exposição ao bisfenol A é uma boa recomendação para todos nós, independente de gênero e idade. Uma gestante tem boas razões para ter mais cuidados ainda. Uma dica fácil é evitar alimentos e bebidas em lata e utensílios de cozinha plásticos que contenham a substância e que podem ser reconhecidos pelos números 3 ou 7 no símbolo de reciclagem do plástico.
Mesmo sabendo que uma dieta equilibrada fornece uma quantidade suficiente de vitaminas e sais minerais, uma boa parcela da população lança mão de suplementos alimentares com a intenção de promover o bem-estar e prevenir doenças. Em alguns países desenvolvidos, como é o caso dos Estados Unidos, esse consumo faz parte da vida de até mais da metade da população. Entretanto, as evidências científicas dos benefícios à saúde desses suplementos estão longe de serem conclusivas.
Nesta última semana, o Archives of Internal Medicine, periódico da Academia Americana de Medicina, publicou mais um estudo apontando que, quando o assunto é vitaminas e sais minerais, MAIS pode ser MENOS. Cerca de 40 mil mulheres americanas com uma média de idade de 61 anos foram acompanhadas por quase 20 anos. Aquelas que faziam uso de suplementos de vitaminas e sais minerais apresentaram uma maior chance de morrer do que as que não usavam. Os que se mostraram mais na contramão da saúde foram os complexos multivitamínicos, vitamina B6, ácido fólico, magnésio, cobre, zinco e ferro. Muitos outros microelementos não demonstraram qualquer associação com a longevidade, nem para o mal, muito menos para o bem.
O uso dos suplementos era comparável entre as mulheres com ou sem doenças no início do estudo, mais especificamente câncer, diabetes e doenças cardiovasculares. Além disso, no decorrer do estudo, as mulheres que tiveram esses diagnósticos não passaram a usar mais suplementos, sugerindo que não faz muito sentido o argumento de que as mulheres que usavam suplementos morreram mais precocemente porque eram mais doentes.
Esses resultados não estão isolados. Nesta mesma semana o periódico JAMA publica outro estudo evidenciando maior risco de câncer de próstata entre homens que fazem uso de suplementos de vitamina E. Essas pesquisas somam-se a um grande corpo de evidências que coloca em xeque o valor da prática de prevenção de doenças através das cápsulas de vitaminas.
A conclusão dos autores do presente estudo é aquilo que nosso Conselho Federal de Medicina (CFM) preconiza: os suplementos de vitaminas e sais minerais só devem ser utilizados em situações de comprovada deficiência nutricional. O CFM ainda acrescenta na sua última resolução sobre o assunto do ano de 2010: medidas higiênicas, dietéticas e de estilo de vida não podem ser substituídas por qualquer tratamento medicamentoso, suplementos de vitaminas, de sais minerais, de ácidos graxos ou aminoácidos.
As opiniões sobre as mudanças na rotina com o início do horário de verão são bem divididas: muitos gostam enquanto outros optariam pela manutenção do horário antigo. E qual é a opinião do nosso corpo? Essa mudança faz diferença para nossa saúde? Um estudo sueco publicado em 2008 pelo respeitado periódico New England Journal of Medicine aponta que a primeira semana do horário de verão está associada a um maior risco de infarto do coração. O efeito é ainda mais significativo entre indivíduos com menos de 65 anos e entre as mulheres. Os pesquisadores avaliaram a incidência de infarto do coração na Suécia entre1987 a 2006.
A melhor explicação para esses resultados é o conhecido efeito da privação do sono no sistema cardiovascular. Pesquisas demonstram que a privação do sono é capaz de aumentar marcadores de inflamação, aumenta o nível de atividade do sistema nervoso autônomo simpático, podendo gerar alterações metabólicas significativas.
Será que não seria justo oferecer à população uma transição mais flexível na implantação do horário de verão, como por exemplo, poder começar o trabalho uma hora mais tarde nos primeiros dias? Isso poderia ser especialmente relevante na segunda-feira e para aqueles que têm reconhecido risco vascular, pois já sabemos que é na segunda-feira que ocorre o maior número de casos de infarto do coração e derrame cerebral. Esse efeito pode ser explicado pelo estresse de ter que voltar ao trabalho e até mesmo pelos excessos do fim de semana.
Pode ser que no futuro as autoridades passem a implantar o horário de verão com uma maior flexibilização de horário na primeira semana. Na hora de fazer as contas do custo-benefício da mudança, é importante considerar que pesquisas tanto no Canadá quanto nos EUA mostram que na primeira semana da implantação do horário os acidentes de trânsito aumentam cerca de 8%.
Veja abaixo algumas atitudes que podem ser tomadas 1-2 dias antes da implantação do horário de verão e que podem facilitar a adaptação:
– Acertar os horários das refeições e de ir para a cama – UMA HORA MAIS CEDO;
– Aumentar a exposição à luz do dia, especialmente ao sol da manhã;
– Evitar fatores que possam atrapalhar o sono: cafeína, álcool, alimentação pesada;
– Atividade física pode ajudar.
E depois da implantação? Será que vale a pena voltar para o horário antigo?
Defende-se a idéia de que manter o horário de verão indefinidamente pode ser uma forma de promoção de saúde da população simples e sem custos. Essa seria uma medida que incentivaria mais atividades físicas em ambientes externos, melhorando o bem estar físico e mental e prevenindo doenças. Essa tese parte do pressuposto que as horas de luz depois do trabalho são mais acessíveis à realização de atividade física do que aquelas antes do trabalho.
Estudos apontam que, no hemisfério norte, nas épocas do ano com dias mais longos, as pessoas adoecem menos, sentem-se mais felizes e com mais energia. Manter o horário de verão pode favorecer as atividades de comércio e turismo, a segurança no trânsito, e pode até mesmo reduzir a incidência de acidentes de trabalho.
Uma das principais queixas de saúde dos idosos é a memória que já não funciona como na juventude. Realmente, após os 60 anos de idade, pode-se identificar, através de testes psicométricos, um menor desempenho de algumas funções cognitivas, dentro de um universo que chamamos de envelhecimento cerebral normal. O melhor entendimento de como se dá esse declínio é de extrema importância para o desenvolvimento de intervenções clínicas que possam amenizar esse fenômeno. Pesquisadores chineses deram recentemente um grande salto nesse conhecimento e publicaram seus resultados na prestigiada revista Nature.
O estudo teve como objetivo a compreensão do funcionamento da memória de trabalho e o possível incremento de seus mecanismos. A memória de trabalho é aquela responsável pela retenção de informações recentemente adquiridas ou resgatadas pela memória de longo-prazo, mas que já não estão mais disponíveis no ambiente externo. É uma ferramenta crítica para uma série de funções cognitivas como a linguagem, planejamento e raciocínio lógico. É ela que nos permite resolver um problema do tipo: somar só com a cabeça os resultados de 2+2, 3+3, 4+4 e 5+5.
Já é bem reconhecido que a base neural da memória de trabalho é a atividade neuronal persistente em áreas críticas como o córtex pré-frontal. Os pesquisadores chineses estudaram macacos de diferentes idades e demonstraram que as descargas neuronais no córtex pré-frontal entre os macacos mais velhos eram menores que nos jovens. A principal razão para esse menor nível de atividade com o envelhecimento é a redução das ramificações dos neurônios e alterações químicas que dificultam a atividade neuronal persistente. Os cérebros desses macacos foram então submetidos à aplicação de uma antiga droga para hipertensão arterial (guanfacina) e que teoricamente poderia resgatar o equilíbrio químico e incrementar a atividade neuronal. O resultado foi magnífico. A intensidade dos disparos neuronais entre os macacos idosos passou então a ser comparável ao dos jovens.
Esses resultados abrem uma grande janela para novos tratamentos para melhorar o desempenho cerebral de idosos e já existe até um estudo clínico em andamento testando a eficácia da guanfacina para a melhoria de funções executivas nessa população. Já temos evidências também de que o treinamento cognitivo pode ajudar e ainda resta saber também se a abordagem farmacológica pode ter uma ação sinérgica com esse tipo de treinamento.
Uma pesquisa recém-publicada pela revista Neurology, periódico oficial da Academia Americana de Neurologia, demonstra que o risco de demência é maior entre as pessoas que classificam a própria saúde como ruim. Essa associação foi mais forte ainda entre as pessoas que nem apresentavam queixas de memória.
Mais de oito mil franceses com idade superior a 65 anos foram acompanhados por uma média de sete anos. Os voluntários responderam à seguinte pergunta: Como você considera sua saúde no momento atual? As respostas possíveis eram: muito ruim, ruim, mediana, boa, excelente.
Nesse período, 618 deles desenvolveram um diagnóstico de demência e a chance de ter o problema foi 70% maior naqueles que classificaram seus estados de saúde como ruins, quando comparados aos que se julgavam bem de saúde. Uma das formas de explicar esses resultados é a redução da interação social que uma pessoa que se julga pouco saudável pode apresentar, o que pode acelerar o processo de demência.
As pessoas que têm a impressão de que a saúde está boa costumam apresentar um estado funcional preservado, o que significa uma boa memória, visão e audição, além de ausência de dor, dificuldades de locomoção ou respiração. Essa percepção reúne informações do funcionamento do corpo que, em última instância, podem refletir o tempo de vida que resta a um indivíduo. E isso tem sido demonstrado nas pesquisas que associam esse indicador à mortalidade geral.
Uma pesquisa recém-publicada pela Health Psychology, periódico da Associação Americana de Psicologia, apontou que os idosos que fazem atividades voluntárias apresentam, em média, uma longevidade quatro anos maior. Mais instigante ainda foi o fato de que esse efeito positivo só foi demonstrado entre aqueles que se engajaram no voluntariado com a intenção de ajudar os outros, especialmente quando as atividades eram frequentes. Aqueles com motivações que poderiam ser classificadas como mais egoístas (ex: aprender uma nova atividade, ocupar o tempo) tiveram a mesma sobrevida dos não voluntários.
Estudos anteriores já haviam demonstrado que as pessoas que se dedicam a trabalhos voluntários têm a percepção de terem um melhor estado físico e psicológico, apresentam menor risco de depressão, além de uma menor mortalidade. Será que esses efeitos do voluntariado são decorrentes apenas das interações sociais associadas às atividades? Os resultados do presente estudo sugerem que o fator social é só um dos possíveis mecanismos.
O voluntariado é capaz de aumentar a motivação e promover uma sensação mais profunda de sentido na vida. Quando a motivação é para ajudar o outro, essa sensação pode ser ainda mais forte, pelo sentimento de dedicação a algo maior do que a si próprio. Anteriormente à presente pesquisa, já tínhamos evidências de que quando o voluntário é orientado pelo altruísmo, este têm maior chance de apresentar um melhor equilíbrio psicossocial.
Toda forma de voluntariado é legítima, mas quando a razão é focada em interesses próprios, a chance de estresse associada às atividades são maiores. Dessa forma, o trabalho voluntário pode deixar de trazer benefícios à saúde.
Uma pesquisa publicada hoje pelo periódico Archives of Internal Medicine demonstrou que mulheres que consomem café regularmente têm menos chance de apresentar depressão.
O estudo envolveu mais de 50 mil mulheres com uma média de idade de 63 anos e que foram acompanhadas por 10 anos. Ao final do estudo, 2607 casos de depressão foram identificados e as mulheres que consumiam café cafeinado com maior freqüência apresentaram um menor risco de desenvolver a doença. Esse mesmo efeito não foi observado no caso do café descafeinado.
A cafeína é o estimulante do sistema nervoso central mais consumido em todo o mundo e em 80% das vezes é na forma de café. Alguns poucos estudos já haviam demonstrado esse componente protetor do café contra a depressão, incluindo um estudo de acompanhamento prospectivo entre homens.
Mais um gol a favor do café. Algum gol contra? Café não é recomendado às grávidas e àqueles em que a bebida não cai bem no estômago. Além disso, muitas pessoas não conseguem dormir direito se tomarem uma xícara após certa hora da tarde.
O bocejo pode ser observado em todas as cinco classes de vertebrados, o que sugere que deva existir uma função adaptativa para esse fenômeno. Uma das formas de explicar o bocejo e seu caráter contagiante é a sua utilidade do ponto de vista social, com o potencial de sincronizar o conhecimento de um mau estado da mente ou do corpo num grupo de pessoas.
Apesar da existência de inúmeras outras teorias que tentam explicar a razão biológica do bocejo, pouquíssimos estudos experimentais foram realizados para avançar esse conhecimento. Recentemente, uma pesquisa publicada pelo periódico Frontiers in Evolutionary Neuroscience apontou que o bocejo é mais freqüente em épocas do ano em que a temperatura do ambiente é menor que a do corpo, sugerindo que ele serve literalmente para esfriar a cabeça. A temperatura habitual do cérebro é de 37º C com flutuações de 0.5º C.
Os pesquisadores avaliaram a freqüência de bocejo de 160 americanos do Arizona ao serem apresentados a imagens de gente bocejando, já que o bocejo tem o seu componente contagioso. Os resultados mostraram que no inverno as pessoas bocejam mais e isso é independente de outros fatores como umidade e tempo de sono na noite anterior. Quase metade dos voluntários do estudo bocejou durante o teste no inverno (temperatura média: 22º C) enquanto no verão (temperatura média: 37º C) a freqüência foi de apenas um quarto. Além disso, no verão, a freqüência de bocejo foi menor à medida que se ficava mais tempo em ambiente externo. Esse efeito da temperatura ambiente já havia sido demonstrado entre pássaros e macacos.
Um dos pesquisadores da atual pesquisa já havia publicado em 2010 resultados revelando que o bocejo e o espreguiçar de um ratinho são desencadeados por aumento na temperatura do cérebro que por sua vez diminui logo após a realização de cada um dessas duas ações. O efeito de resfriamento do bocejo seria o resultado de uma maior troca de calor com o ambiente através das vias aéreas e até mesmo pelo ato de se espreguiçar. Essa troca de calor também é favorecida pela abertura da mandíbula e o conseqüente aumento do fluxo sanguíneo cerebral. Esses resultados apóiam a idéia de que uma disfunção da regulação térmica do corpo represente a principal explicação para os bocejos excessivos que podem acompanhar alguns transtornos neurológicos como a esclerose múltilpa.
Há evidências também que o bocejo facilita a ativação do córtex cerebral em situações de transição de estado, como por exemplo, do sono para a vigília. Em animais, já foi demonstrado que o bocejo ocorre com maior freqüência na antecipação de eventos estressantes e em mudanças súbitas de um estado de alto grau de atividade para a calmaria. Entretanto, o mais provável é que o resfriamento cerebral seja a forma pela qual o bocejo colabore para a modulação cerebral nessas situações.
Pesquisadores da Universidade de Harvard demonstraram que as pessoas que tomam decisões de forma mais intuitiva, baseadas em processos cognitivos automáticos e rápidos, têm uma tendência maior e acreditar em Deus quando comparadas àquelas com um perfil mais reflexivo, que pensam em várias possibilidades antes de tomar uma decisão.
O estudo foi composto por diferentes partes. Na primeira, quase mil americanos participaram de uma enquete online sobre religiosidade. Logo em seguida, responderam testes matemáticos tipo pegadinha que avaliam se o indivíduo tem um comportamento intuitivo ou reflexivo. Exemplo: Um par de raquetes de ping pong e uma bolinha custam 60 reais. As raquetes custam 50 reais a mais que a bolinha. Quanto custa a bolinha? A resposta mais intuitiva é 10 reais, mas a resposta certa é 5 reais. As pessoas que apresentaram um perfil mais intuitivo nos testes responderam à enquete demonstrando maior crença em Deus.
Em outra parte do estudo, voluntários foram instruídos a escrever uma experiência pessoal em que a intuição fez a diferença para um bom desfecho. Outro grupo fez o mesmo exercício descrevendo uma experiência em que a reflexão foi fundamental. Logo em seguida, cada um dos participantes respondeu a um questionário sobre religiosidade. Os que escreveram sobre a experiência intuitiva referiram com mais freqüência que acreditavam em Deus. Os resultados foram independentes do status educacional, socioeconômico e de orientação política.
Vem primeiro o ovo ou a galinha? A intuição faz a pessoa ter mais crença em Deus ou a crença deixa a pessoa mais intuitiva? Talvez isso funcione em círculo virtuoso. Também é bom lembrar que a reflexão é um processo mental tão importante quanto a intuição e que o equilíbrio entre os dois, a princípio, é um ótimo negócio.
A pesquisa foi publicada esta semana pelo periódico da Associação Americana de Psicologia Journal of Experimental Psychology – General.
Maçã e pêra parecem ser as melhores frutas para a prevenção de derrame cerebral. Essa é a conclusão de um estudo holandês recém-publicado no periódico Stroke da Associação Americana do Coração.
Já é bem reconhecido que o consumo de pelo menos cinco porções diárias de frutas e vegetais é uma das atitudes que podem ajudar a prevenir doenças vasculares do coração e do cérebro. No presente estudo, mais de 20 mil voluntários com média de idade de 41 anos foram acompanhados ao longo de 10 anos. O padrão de alimentação foi analisado através de um questionário em que as frutas e vegetais eram classificados em quatro grupos:
Verde. Ex: Brócolis, alface, repolho, espinafre
Alaranjado / Amarelo. Ex: Frutas cítricas, cenoura
Vermelho / Roxo. Ex: Uva, morango, tomate
Branco. Ex: Pêra, maçã, pepino, alho, cebola
As frutas e vegetais BRANCOS foram os únicos que fizeram a diferença na redução do risco de derrame cerebral, possivelmente pela presença de um tipo de flavonóide chamado de quercetina. Batatas não foram incluídas nesse grupo de vegetais brancos por terem um valor nutricional muito diferente.
55% dos brancos eram compostos por maçãs e peras
10% de alho, cebola e alho porró
35% de banana, couve flor, chicória, pepino, cogumelos
Os resultados não devem ser transformados em dogma, pois outras pesquisas devem ser realizadas para confirmação. Por enquanto, é bem razoável que não se deixe de incluir na dieta pelo menos uma porção ao dia de vegetais e frutas de cada uma das quatro cores.
Dor de cabeça é um problema que afeta cerca de 50% da população em todo o mundo e, em países como os Estados Unidos e o Canadá, estima-se que até um terço dessas pessoas jamais chegou a procurar um serviço médico para cuidar desse problema. A grande maioria acaba usando analgésicos sem orientação médica o que pode, em alguns casos, dificultar ainda mais o controle das crises de dor. No Brasil as coisas não são muito diferentes. É o que aponta uma pesquisa recém-publicada pelo Headache, periódico oficial da Sociedade Americana de Cefaléia.
Pesquisadores da Faculdade Pernambucana de Saúde, Universidade de Pernambuco e Instituto de Medicina Integral Fernando Figueira avaliaram 200 pacientes adultos atendidos em três diferentes Unidades Básicas de Saúde da cidade do Recife-PE. Aqueles que referiam ter apresentado pelo menos um episódio de dor de cabeça nos últimos 12 meses responderam a um questionário para melhor caracterização do quadro clínico.
Os resultados mostraram que 52% dos pacientes avaliados referiram ter apresentado dor de cabeça nos últimos 12 meses, mas apenas 10% haviam procurado um médico por esse motivo. O problema já acontecia em média há 10 anos e as mulheres representavam quase 80% dos pacientes. Como já esperado, os diagnósticos mais freqüentes eram os de cefaléia tensional episódica e enxaqueca, os tipos de dor de cabeça mais comuns em nível global.
Aqueles com cefaléia tensional quase não buscaram um médico para orientação, enquanto quase metade dos que tinham o diagnóstico de enxaqueca já havia procurado assistência médica. Além disso, aqueles que não foram atrás de assistência tinham níveis de redução da qualidade de vida por conta das dores não menos significativos do que os que procuraram ajuda.
A principal razão para a não ir ao médico foi o fato dos analgésicos conseguirem controlar as crises de dor, sendo que onze por cento disseram que era porque acreditavam que a dor era secundária a problemas como pressão alta, alterações emocionais e da visão. Essa é uma idéia muito arraigada em nossa cultura, mas essas não são nem de longe as principais causas de dor de cabeça.
Onze por cento desses pacientes que não buscaram ajuda apresentavam mais de 10 dias de dor por mês, resultados que são compatíveis com pesquisas que apontam que a condição de dores de cabeça quase diárias é mais comum no Brasil. Fatores que podem ajudar a explicar esse cenário são o fácil acesso a analgésicos sem prescrição médica e a falta de informação da população de que uma das principais causas de dor de cabeça crônica é o uso exagerado de analgésicos. São comuns em nosso meio os informes publicitários de analgésicos para dor de cabeça, mas não vemos campanhas que esclareçam que o tratamento em muitos casos necessita de uma medicação para prevenir as crises. Essas medicações não são os analgésicos. No presente estudo, mais da metade dos pacientes que não buscaram ajuda eram fortes candidatos a um tratamento profilático.
Os resultados são muito próximos aos de estudos anteriores realizados em Unidades Básicas de Saúde no estado de São Paulo.
A revista Pediatrics, periódico oficial da Academia Americana de Pediatria, publicou esta semana os resultados de uma pesquisa que mostra que alguns programas de TV podem deixar o cérebro das crianças menos eficientes.
O estudo envolveu 60 crianças de quatro anos de idade que foram divididas em três grupos. O primeiro grupo assistiu a um vídeo de nove minutos do popular Bob Esponja, cartoon com ritmo acelerado em que a mudança completa da cena acontecia em média a cada onze segundos (exemplo: cena na piscina passando para cena no quarto). O segundo grupo assistiu ao cartoon Caillou, com a mesma duração, mas que tem um ritmo mais lento, com mudanças de cena em média a cada 34 segundos. Um terceiro grupo passou os mesmos nove minutos numa atividade de desenho livre com giz de cera e canetinhas.
Imediatamente após o término das atividades, as crianças foram submetidas a uma testagem de habilidades cognitivas que envolviam funções executivas como a atenção, controle da impulsividade e capacidade de resolução de problemas. Os resultados apontaram que as crianças que assistiram ao vídeo acelerado tiveram um PIOR desempenho nos testes do que os demais grupos. Aquelas que assistiram ao vídeo mais pausado tiveram uma performance semelhante àquelas que ficaram desenhando.
Uma hipótese para explicar essa maior dificuldade executiva após uma experiência de rápida sucessão de eventos é que o cérebro disponibiliza muitos recursos para sua decodificação e fica relativamente desfalcado por um período. O estudo deixa várias perguntas no ar. Esses efeitos persistem por quanto tempo? Será que são mesmo transitórios? Estudos anteriores já haviam demonstrado a associação de exposição à mídia e dificuldades de funções executivas, sugerindo que as disfunções podem não ser tão transitórias assim. Será que crianças mais velhas são influenciadas da mesma maneira por esses cartoons acelerados? O estúdio de animação Nickelodeon que transmite o Bob Esponja defende que o cartoon é destinado a crianças de6 a11 anos.
Alguns podem até interrogar se isso tem alguma relevância prática para a cultura atual de multitarefas sincrônicas e rápidas. O fato é que multitarefas não combinam muito com reflexão, capacidade que sempre fará toda a diferença.
** Desde o ano de 1999, a Academia Americana de Pediatria recomenda que as crianças menores de dois anos não devem assistir TV de forma alguma. Uma pesquisa conduzida pela Universidade de Washington chegou até a demonstrar que bebês que assistem a vídeos educativos como o Baby Einstein têm piores scores em testes cognitivos. Outros estudos têm demonstrado que a TV pode ter impacto negativo nos bebês a depender do conteúdo assistido. Conteúdos violentos antes dos 3 anos de idade dobram a chance das crianças apresentarem problemas de atenção na infância.
Já no caso das crianças maiores de dois anos, o consenso é que elas não devem ser expostas a mais do que duas horas por dia às mídias eletrônicas, e isso inclui não só a TV, mas também videogames, DVDs e o uso do computador para atividades não escolares. Sabe-se que as crianças que passam desse limite têm mais chance de apresentar comportamento violento, início precoce da vida sexual, transtornos alimentares, obesidade, assim como maior risco de consumir álcool e cigarro.
Vale lembrar que os pais podem ajudar as crianças a entenderem as mensagens transmitidas no vídeo e a interpretá-las criticamente, o que inclui também o material publicitário. Cabe também aos pais a identificação de conteúdos que sejam inadequados para a idade da criança.
** Nesta mesma semana, o Departamento de Saúde Britânico divulgou uma pesquisa em que foi feito um ranking dos 20 cartoons mais populares de acordo com o nível de atividade física dos personagens. Essa pesquisa faz parte de um programa de incentivo à atividade física na infância do governo inglês.
Garfield ficou em penúltimo lugar e Charlie & Lola em último. Bob Esponja ficou em nono lugar. O campeão de atividades foi o Scooby Doo. Só não dá pra dizer que Scooby é o cartoon-saúde, porque apesar de correr e fugir o tempo todo, o cachorro come montanhas de comida daquelas que não têm nada de saudável. Aliás, vamos deixar o Scooby em paz…
Reconhece-se que a forma mais correta de divulgar o risco absoluto de algum problema de saúde ou de eficácia de um tratamento é usando o formato chamado de freqüência natural, como por exemplo, “chance de dois em 1000”. Essa é a recomendação de várias organizações ícones da saúde como o sistema de revisão Cochrane e o equivalente britânico do órgão regulador americano FDA. Entretanto, temos poucas evidências de que isso realmente é o mais certo. Um estudo recém-publicado pelo periódico Annals of Internal Medicine demonstra que essa crença parece não fazer muito sentido.
Através de uma enquete na internet, quase três mil americanos avaliaram cinco diferentes formatos da mesma informação que descrevia a eficácia de dois tratamentos hipotéticos: 1) freqüência natural – ex: 2 em 1000; 2) freqüência variável, para fazer com que o numerador seja sempre maior que 1 – ex: 2 em 100, 2 em 1000, 2 em 10000; 3) porcentagem; 4) porcentagem associada a freqüência natural; 5) porcentagem associada a freqüência variável.
Os resultados mostraram que o formato porcentagem foi o que permitiu a melhor compreensão. Freqüências naturais, e mais ainda freqüências variáveis, foram os formatos que passaram com mais dificuldade a idéia de custo / benefício de um tratamento. Além disso, a associação da freqüência natural à porcentagem não facilitou em nada a compreensão.
Podemos falar então: o tratamento com a medicação “x” aumenta em 1% a chance de dor de cabeça (3% com a medicação e 2% com o placebo). Até aqui estamos tratando de risco absoluto. O menos recomendável de todos os formatos de apresentação de resultados é o chamado risco relativo, que dá uma impressão de que os resultados são bem mais robustos. O mesmo recado dos efeitos colaterais descrito acima em formato de risco relativo seria: a medicação aumenta a chance de efeitos colaterais em 50%.

























