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Quando alguém nos fala: tenho duas notícias pra contar, uma boa e outra ruim. Qual você quer ouvir primeiro? A grande maioria responde que quer ouvir a ruim antes. Reconhece-se que o ser humano tem uma tendência a dar mais atenção a informações negativas do que às positivas. Ter consciência de informações negativas, e presumivelmente ameaçadoras, pode ser visto como um traço de adaptação da espécie.
E o que dizer do incerto? Numa situação em que alguém nos diz: Tenho uma coisa pra te contar. Você quer ouvir? Poucos devem duvidar que a maioria nessa situação diria: conta logo!
A incerteza é vista pela psicologia como a antecipação de uma ameaça pouco definida. Se a exposição a um estímulo negativo representa uma ameaça, a exposição ao desconhecido pode ser ainda mais ameaçadora, já que não se sabe o tamanho do inimigo (ou do amigo). Alguns estudos nos mostram que o suspense da incerteza gera mais alterações fisiológicas associadas à ansiedade do que o confronto a estímulos negativos bem definidos. Uma pesquisa recente publicada na revista Psychological Science aponta ainda que, entre indivíduos com traço de personalidade neurótico, a resposta de ansiedade ao incerto é ainda mais marcante. Os autores, psicólogos da Universidade de Toronto, concluem de forma provocativa: “As pessoas, especialmente as com altos níveis de neuroticismo, preferem um capeta conhecido a um capeta que ainda não conhecem”.
E quanto mais rápida a informação vier, melhor a experiência para o cérebro. A revista Nature Neuroscience publicou em sua última edição um estudo revelando que os macacos também querem saber das coisas o mais rápido possível, e que do ponto de vista neuroquímico, esse acesso adiantado à informação é semelhante ao de outros tipos de recompensa cerebral. Neste caso, o experimento envolvia a recompensa de uma quantidade de água maior ou menor. Outras pesquisas têm mostrado que, quando o assunto em questão envolve uma experiência negativa, a preferência por acesso rápido à informação é ainda maior.
A epilepsia é uma condição neurológica grave que acomete três milhões de brasileiros e a cada hora, somam-se a este número mais 11 novos casos. Infelizmente, ainda nos dias de hoje, é comum ouvirmos idéias erradas, crenças, especialmente devido ao desconhecimento e ao estigma existente. Por isso, a pessoa com epilepsia tem dificuldade para se inserir na sociedade, formar uma família e até conseguir um emprego. Para mudar esta perspectiva, várias iniciativas têm sido feitas nacionalmente. A ASPE, Assistência à Saúde de Pacientes com Epilepsia, uma ONG-executora da Campanha Global Epilepsia fora das sombras no Brasil- com a missão de promover saúde biopsicossocial para as pessoas com epilepsia e suas famílias, tem realizado desde a sua fundação, atividades que promovem a conscientização social sobre esta condição.
Neste ano de 2011, em parceria com a UNICAMP, FCM, CInAPCe e LBE, promoverá no dia 9 de setembro, às14:00h, um evento de atualização sobre epilepsia. Participarão desta oficina profissionais altamente qualificados, abordando temas centrais na epilepsia. As pessoas podem interagir com os palestrantes, online, em forma de pergunta e resposta. Para assistir à transmissão online, basta acessar o portal: www.fcm.unicamp.br/videoconferencia. Para as pessoas que quiserem participar da oficina pessoalmente, pedimos que enviem um e-mail para paula@aspebrasil.org para efetuar a inscrição, que é gratuita e limitada
Programa:
14:00h -Palestra online: Epilepsia sob nova perspectiva
1) Lidando com o estigma na epilepsia. Dra. Paula Fernandes, Presidente da ASPE, Pesquisadora Colaboradora do Departamento de Neurologia da FCM/UNICAMP e Professora da FEF/UNICAMP.
2) Experiência da Campanha Global “Epilepsia fora das Sombras” no Brasil. Prof. Dr. Li LiMin, Professor Associado do Departamento de Neurologia da FCM/UNICAMP, Presidente Fundador da ASPE.
3) Experiência ASPE no trabalho em grupo. Dra. Li HuiLing, Vice-Presidente da ASPE.
4) Experiências e vivências com a epilepsia. Eduardo CaminadaJunior.
Ouço frequentemente no consultório uma pergunta que costuma vir acompanhada de uma entonação pessimista: “Então doutor? Pelo jeito, enxaqueca não tem cura mesmo, não é?” Cura? Vamos conversar melhor sobre esse assunto.
Os órgãos do nosso corpo apresentam um sistema de dor que nos serve como um alarme. No caso do cérebro de uma pessoa que tem enxaqueca, essa tarefa é realizada pelo nervo trigêmeo em conjunto com os vasos sanguíneos cerebrais que são capazes de disparar o fenômeno de dor. Essa é uma forma de entender a enxaqueca como um fenômeno de proteção do cérebro que nos avisa que algo não está bem. Tanto os neurônios como os vasos cerebrais estão envolvidos como principais protagonistas da enxaqueca, mas ainda há muito por se descobrir.
Podemos dizer que a pessoa que apresenta enxaqueca tem um cérebro que funciona um pouquinho diferente. É um cérebro que se excita com mais intensidade a diferentes estímulos externos, como é o caso da luminosidade e cheiros, ou a estímulos internos, como por exemplo, a privação de sono e o estresse psíquico. Sabemos que essa super-excitação cerebral, condição determinada geneticamente, predispõe o indivíduo com enxaqueca à liberação de componentes neuroquímicos que podem desencadear a dor de cabeça.
Felizmente, a maioria das pessoas que tem enxaqueca apresenta crises mensais ou até menos do que isso. Quando as crises atingem uma freqüência maior ou igual a três vezes por mês, ou uma freqüência até menor, mas sem resposta satisfatória aos analgésicos, um tratamento profilático é indicado. Esse tratamento é feito através do uso diário de uma medicação independente da presença de dor e por um período de pelo menos seis meses.
Um tratamento de sucesso é aquele que consegue reduzir a intensidade e freqüência das crises em pelo menos 75%. Pode-se perceber que a meta não é a cura, pois mesmo após o sucesso do tratamento, a pessoa pode continuar a apresentar crises esporádicas, especialmente quando enfrenta situações que já são reconhecidas como precipitantes de crises. Essas situações são muito individuais e, por isso, listas de proibições rígidas podem ser mais penosas do que benéficas ao paciente.
Enxaqueca não se cura, mas pode ser controlada. Parando para pensar, quais são as condições clínicas que realmente podem ser curadas? Talvez você não consiga enumerar mais exemplos do que o número de dedos que tem na sua mão.
Uma pesquisa apresentada esta semana no Congresso da Sociedade Européia de Cardiologia em Paris, e publicada no British Medical Journal, aponta que o chocolate realmente é um alimento amigo do coração e do cérebro.
Pesquisadores ingleses e colombianos analisaram os estudos mais relevantes que tenham testado o impacto do consumo do chocolate sobre a saúde vascular, o que significou a apreciação de sete pesquisas conduzidas nos Estados Unidos e Europa que envolveram mais de cem mil pessoas. Os resultados mostraram que as pessoas que consomem mais chocolate têm um risco relativo de doenças do coração 37% menor, 31% e 29% menor no caso do derrame cerebral e diabetes.
Por essa análise, não foi possível detectar diferenças entre os diversos tipos de chocolate. Entretanto, as evidências apontam que o que há de mais nobre no chocolate, pelo menos do ponto de vista de saúde, não é nem o leite, nem a gordura, nem o açúcar, mas sim o cacau com seus fatores anti-oxidantes e anti-inflamatórios.
O cacau é muito rico em flavonóides, substâncias fartamente encontradas em alguns vegetais e que promovem o bom funcionamento dos nossos vasos sanguíneos. Essas substâncias são as mesmas que fazem a boa fama dos chás verde e preto e da casca das frutas vermelhas, só que o cacau apresenta uma concentração especialmente generosa do subtipo flavanol que ultimamente tem sido apontado como o componente que mais tem efeito na nossa saúde vascular.
Sabemos hoje que o consumo de chocolate com altas doses de flavanols – leia-se CHOCOLATE AMARGO! – promove uma série de efeitos benéficos ao nosso corpo: 1) aumento dos níveis de óxido nítrico, considerado um dos principais combustíveis para a saúde dos nossos vasos sanguíneos; 2) redução da agregação das plaquetas, ação que é igual à da aspirina; 3) aumento dos níveis do HDL – nosso colesterol bom – entre outras ações antioxidantes; 4) redução de marcadores de inflamação – lembrando que aterosclerose é igual a inflamação; 5) redução da resistência à insulina, facilitando sua ação nas células; 6) aumento do fluxo sanguíneo periférico (nos membros) e nas artérias do coração; 7) redução da pressão arterial; 8) aumento do fluxo sanguíneo cerebral e/ou atividade neuronal durante uma tarefa cognitiva. E os efeitos chegam até à pele, com aumento de sua microcirculação sanguínea e maior nível de fotoproteção.
* Não custa lembrar que 100g de chocolate tem cerca de 500 calorias. Chocolate em excesso pode colaborar para um quadro de obesidade. Nesse caso, os benefícios do chocolate vão por água abaixo.
Alguns enxergam a religiosidade simplesmente como uma forma de controle social, algo maior vigiando o comportamento humano. Outra forma de entendê-la é pensar que a evolução da espécie humana favoreceu a experiência religiosa como um mecanismo que ajuda a manter comunidades unidas e também a promover um melhor auto-controle mental. A princípio, quando uma meta é encarada como sagrada, o indivíduo teria maior tendência em se esforçar para alcançá-la. Mais do que isso, o sagrado abastece a mente humana no desafio de pensar sobre a vida e a morte, e em tempos mais remotos, era fundamental para o entendimento dos sonhos e fenômenos da natureza.
Marx, Freud, Weber, entre tantos outros, defenderam a idéia de que a modernidade reduziria a influência das crenças religiosas na sociedade. No Brasil, nos últimos 20 anos, houve um discreto aumento na porcentagem de brasileiros que dizem não ter uma religião: em 1991 essa cifra era de 4.75% e em 2009 passou para 6.7%. Entretanto, é notório que a humanidade continua com altos índices de religiosidade.
A religiosidade tem seu lugar no cérebro? A neurociência tem demonstrado que a experiência religiosa estimula circuitos cerebrais do neurotransmissor dopamina, os mesmos circuitos que são considerados disfuncionais em transtornos neuropsiquiátricos em que a hiperreligiosidade faz parte do quadro clínico, como é o caso da epilepsia do lobo temporal, esquizofrenia, mania e transtorno obsessivo-compulsivo. Sistemas cerebrais da serotonina também parecem estar implicados, já que drogas que têm influência sobre eles são facilitadoras da experiência religiosa. Entre essas drogas podemos citar o LSD, mescalina, ecstasy, e o chá de Ayahuasca utilizado pelo Santo Daime e União do Vegetal.
Quando pensamos na influência da fé na evolução de problemas de saúde, vale a pena refletir sobre o poder do efeito placebo. A origem do termo é o verbo placere do latim que significa AGRADAREI. A simples expectativa positiva de que um tratamento pode nos fazer bem já é capaz de provocar mudanças fisiológicas em nosso corpo, e esse é o chamado efeito placebo. Pessoas que apresentam boa resposta ao placebo apresentam circuitos cerebrais de dopamina com maiores concentrações desse neurotransmissor. Também há evidências de que as concentrações dos opióides endógenos e de serotonina são influenciadas pela expectativa positiva. Isso tudo pode ter repercussões sobre o sistema imunológico e favorecer a evolução de uma condição de saúde. Se uma pílula de farinha já é capaz de provocar esses efeitos, podemos tentar imaginar o que a prece ou um ritual religioso pode promover. Esse é um modelo que a ciência tem para explicar os efeitos da fé sobre a mente e o corpo. Isso não quer dizer que outros mecanismos ainda intangíveis não possam ser descritos no futuro.
A religiosidade faz bem mesmo à saúde? Já temos um razoável corpo de evidências que indivíduos com uma maior vivência religiosa / espiritual têm uma maior capacidade de lidar com o estresse emocional, uma melhor saúde mental de forma geral e, em situações de doença, cooperam mais com o tratamento. Além disso, o envolvimento com uma comunidade religiosa está associado a uma maior rede social, e há tempos sabemos que pessoas socialmente integradas têm menos chance de adoecer, e quando doentes, a rede social é uma das principais fontes de apoio. Esse pode ser um dos principais fatores que explicam resultados de maior longevidade entre as pessoas com maior religiosidade. Assume-se também que essas pessoas têm a tendência a apresentar hábitos de vida mais saudáveis.
Entretanto, as crenças religiosas nem sempre estão a favor da saúde do paciente, já que podem em alguns casos dificultar a aderência ao tratamento com idéias do tipo: esse é o desejo de Deus; Deus me abandonou; esse é o meu destino; esse é o meu castigo; etc. Em situações como essas, é bem razoável que a equipe de saúde esteja minimamente preparada para abordar dimensões religiosas / espirituais do paciente e assim aumentar a aderência e sucesso do tratamento.
A abordagem da religiosidade de um paciente não precisa ser um bicho de sete cabeças. Algumas doenças podem ter um efeito devastador na vida de um paciente e suas famílias, especialmente no caso do câncer e de doenças degenerativas e progressivas como a Doença de Alzheimer. Perguntas comuns nessas situações como Por que comigo? Por que com meu filho? Por que isso tudo? dão-nos uma pista de que, além dos cuidados físicos, cognitivos e emocionais, uma janela preciosa na relação entre a equipe de saúde e o paciente e seus familiares pode estar se abrindo: a dimensão espiritual.
Estudos revelam que mais de 90% dos médicos acreditam que a religiosidade dos pacientes deve ser considerada. Entretanto, apenas 30% dos médicos acreditam que isso deve ser efetivamente abordado, e só 10% adotam essa prática, mesmo entre pacientes terminais. Por outro lado, sabemos também que são bastante ruins os indicadores que medem a satisfação de pacientes quanto ao cuidado dispensado pela equipe de saúde aos seus aspectos emocionais e espirituais.
As pessoas com maior religiosidade são mais felizes? Já é bem reconhecido que a percepção do quanto nos sentimos felizes é influenciada pelo quanto exercitamos algumas dimensões de nossa experiência humana como a gratidão, gentileza, altruísmo e otimismo. Difícil discordar que a prática religiosa seja uma inestimável ferramenta para exercitar essas virtudes. Além disso, a dedicação a algo maior do que si próprio, a sensação de significado na vida e de fazer parte do todo, são condições que estão associadas à auto-percepção de felicidade e, mais uma vez, a religiosidade é uma das principais formas para se vivenciar essas experiências.
Uma pesquisa publicada na última edição do Headache, periódico oficial da Academia Americana de Cefaléia, aponta que metade dos americanos que apresenta enxaqueca, ou outros tipos de dor de cabeça intensa, faz uso da Medicina Complementar e Alternativa (MCA), sendo que a metade destes não discutem a indicação com o médico de referência.
Essa cifra foi significativamente maior entre os enxaquecosos, quando comparados à população geral (49.5% X 33.9%), e a maioria deles procuravam a MCA por sintomas de ansiedade, dores no corpo, para melhorar o estado de bem estar e prevenir doenças. Em apenas 4.9% dos casos, a razão da procura era para tratar especificamente as dores de cabeça. Os resultados também mostraram que terapias “Mente e Corpo” são as mais utilizadas, e aqui podem ser incluídas ioga, meditação e técnicas de relaxamento. A pesquisa envolveu 23 mil voluntários com uma boa representação nacional.
O tratamento convencional da enxaqueca tem dois alvos principais. O primeiro é o controle da crise de dor com medicações sintomáticas e o outro é o tratamento profilático com medicações que trabalharão a química cerebral para reduzir a freqüência e intensidade das crises no futuro próximo.
Uma boa parte das pessoas que sofre de enxaqueca dá preferência a tratamentos não farmacológicos, muitas vezes por serem mais congruentes com seus valores, crenças e orientações filosóficas. Além disso, podem representar uma ótima opção em situações específicas como na gravidez ou em casos de intolerância, contra-indicação ou ausência de resposta aos medicamentos habituais. Alguns estudos avaliaram a combinação da medicação profilática com intervenções não medicamentosas e o resultado foi melhor do que o tratamento apenas com a medicação. Entre os tratamentos ditos não convencionais, os que tiveram melhores resultados em pesquisas científicas foram alguns fitoterápicos, acupuntura e as terapias “MENTE-CORPO”.
O processo de provocar a manifestação do paciente quanto às suas expectativas no tratamento, crenças e preferências, faz com que a relação médico-paciente tome um corpo mais forte. Muitas dessas terapias têm forte comprovação científica, como é o caso da acupuntura, e o médico deve sim transmitir esses detalhes ao paciente. Medicina alternativa/complementar com evidências científicas pode andar de mãos dadas com a medicina convencional, e a essa abordagem mais plural foi dado o nome de Medicina Integrativa. Então essa é a medicina do futuro? Não. Essa é melhor medicina de qualquer tempo: do passado, do presente e do futuro.
Foram prorrogadas, até 02 de setembro de 2011, as inscrições para o Mestrado em Divulgação Científica e Cultural, oferecido pelo LABJOR – Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo e IEL – Instituto de Estudos da Linguagem, da Unicamp.
Mais informações no edital, disponível no site <http://www.labjor.unicamp.br>, no link “cursos”.
Um estudo recém-publicado pelo periódico Annals of Internal Medicine analisou o conjunto da pesquisas mais relevantes sobre o impacto que tem um baixo grau de alfabetização em saúde e concluiu que esse é um problema que está associado a piores indicadores de saúde, uso menos eficiente dos serviços de saúde e dificuldades para entender e seguir as orientações médicas.
Cerca de cem pesquisas foram avaliadas e os resultados apontaram que pobres níveis de alfabetização em saúde têm associação com os seguintes índices:
– mais internações hospitalares;
– mais atendimentos em serviços de emergência;
– menos exames de mamografia preventivos e menos vacinação para gripe;
– menos habilidade em demonstrar que as medicações estão sendo usadas de forma apropriada;
– menor capacidade para interpretar bulas de medicamentos / rótulos de alimentos ou mensagens de promoção de saúde;
– pior estado de saúde e maior mortalidade entre os idosos.
** essa lista restrita de indicadores não quer dizer que outras condições também não tenham uma associação com a alfabetização em saúde.
Um dos principais objetivos da comunicação em saúde é proporcionar que indivíduos e comunidades melhorem comportamentos relacionados ao processo saúde-doença, através do compartilhamento de informação. Isso pode resultar no incremento da alfabetização em saúde da população, que pode ser definida como a capacidade de obter, processar e compreender informação básica em saúde necessária à tomada de decisões apropriadas e que apóie o correto seguimento de instruções terapêuticas. Estima-se que nos Estados Unidos, anualmente, são gastos entre US$ 106 e 236 bilhões anuais por conta do baixo nível de alfabetização em saúde e suas consequências, como a não procura de ajuda médica quando necessária, a dificuldade em assumir hábitos de vida saudáveis e erros no uso de medicações.
A comunicação em saúde tem sido definida como a “principal moeda do século XXI” nesse setor e, nos Estados Unidos, vem sendo encarada como a mais importante área na interface entre ciência e sociedade neste século, fazendo parte dos objetivos do Healthy People 2010, a agenda oficial de saúde pública do governo americano. No Brasil, deliberações das Conferências Nacionais de Saúde apontaram informação, educação e comunicação como elementos estratégicos para consolidação do Sistema Único de Saúde (SUS) e para a conquista da cidadania plena.
Quando se fala em comunicação pública da ciência, alguns autores criticam o uso do termo “alfabetização científica”, e a mesma crítica pode ser estendida ao termo “alfabetização em saúde”. O termo alfabetização reflete o modelo anglo-saxão de comunicação em ciência, também conhecido como modelo de déficit, centrado no indivíduo, no qual o público é uma entidade passiva com falhas de conhecimento, com fluxo de informação numa única direção. Por outro lado, o termo cultura em saúde traz uma contextualização mais sistêmica, saindo do foco do indivíduo como mero depósito de informação. Outros termos poderiam ser utilizados em substituição ao de alfabetização em saúde, como é o caso de entendimento público da saúde, assim como consciência pública da saúde, ambos chamando a atenção de que cultura em saúde vai além do processo de aquisição de informação, e envolve a construção de uma sociedade com visão crítica das diversas dimensões que envolvem o conhecimento nessa área.
Nos últimos cinco anos, uma série de estudos foi publicada sugerindo que uma incompetência do fluxo sanguíneo venoso no cérebro poderia ser o pontapé inicial para o desenvolvimento da esclerose múltipla. Essa história foi lançada por pesquisadores italianos, sob a liderança de Paolo Zamboni, e hoje constitui uma das maiores polêmicas da neurologia clínica.
Essa suposta insuficiência do sistema venoso cerebral devido a estreitamentos ou incompetência de válvulas levaria a um estado de aumento da pressão venosa que por sua vez provocaria invasões microscópicas de sangue no cérebro. Esse processo todo seria a razão das bem reconhecidas alterações inflamatórias ao redor das pequenas veias dos portadores de esclerose múltipla.
A confusão começou mesmo quando Zamboni e seus parceiros propuseram que a correção via cateterismo dessas anormalidades do sistema venoso cerebral poderia trazer benefícios na evolução da doença. As redes sociais acenderam o fogo e os pacientes passaram a demandar esse tipo de procedimento e vários centros ao redor do mundo começaram a disponibilizá-lo, mesmo sem evidências científicas satisfatórias. A Sociedade Européia de Radiologia Cardiovascular e Intervencionista emitiu um documento neste ano para modular a euforia da nova promessa, declarando que o procedimento ainda é totalmente experimental.
Os periódicos científicos em que os resultados de Zamboni foram publicados são de primeira grandeza, mas mesmo assim ainda não são suficientes para que esse tipo de tratamento seja indicado no mundo real. Pesquisas mais recentes têm colocado em xeque os achados iniciais, mostrando resultados discrepantes daqueles publicados por Zamboni. A última delas foi publicada esta semana. Essa é uma história que ainda vai render muitos capítulos.
Uma pesquisa publicada esta semana pelo periódico inglês Journal of Neurology Neurosurgery and Psychiatry apontou que as coisas parecem que não mudaram muito na cabeça dos neurologistas nesses últimos 100 anos quando eles estão diante de crises de histeria.
Todos os membros da Associação de Neurologistas Britânicos receberam por correio uma enquete com 33 questões que abordava a forma como a histeria era encarada na prática clínica. Cerca de 60% deles responderam, e isso não foi pouco, considerando a extensão do questionário.
Os resultados mostraram que os neurologistas concordavam teoricamente com a base psicológica do processo da histeria, mas na hora de definir o diagnóstico, a tendência era de usar diagnósticos com contextualização cerebral. Usa-se muito na prática clínica o diagnóstico “transtorno neurovegetativo somatoforme” que na classificação internacional de doenças tem o seu código F45.3.
Além disso, a maior parte dos voluntários respondeu que as crises conversivas se misturam com crises de fingimento e mais da metade não acreditava que a psiquiatria tenha uma explicação plausível para o fenômeno. Alguns responderam que as crises são fingimento puro, e este tipo de observação foi mais comum entre os mais velhos.
Conceitos enraizados… Boa parte dos neurologistas do século 21 continua a entender os pacientes com histeria com a mentalidade do século 19. Não acredito que no Brasil as respostas fossem muito diferentes.
A história da medicina nos mostra que os neurologistas no século 19 assistiam a pacientes que tinham crises estranhas em que de uma hora para outra passavam a não mais interagir com o ambiente e, depois de algumas horas ou dias, tudo voltava ao normal. Quando eles morriam, e o cérebro era examinado, nenhuma patologia em especial era encontrada que pudesse explicar os sintomas. Por isso, esse tipo de crise era interpretado por muitos médicos como se fosse só um fingimento.
Freud mudou a história do pensamento humano quando introduziu o conceito do inconsciente. Desde então, crises como essas passaram a ser consideradas um transtorno psiquiátrico e que são chamadas de histeria ou crises conversivas. Esses pacientes não estão fingindo. Eles não sabem o que estão fazendo.
Resultados do estudo inglês Whitehall II foram publicados neste fim de semana pelo Annals of Neurology e apontaram que indivíduos com mais ocupação e maior nível educacional têm um melhor desempenho cognitivo, alcançaram uma maior reserva cerebral, mas nem por isso deixaram de apresentar perdas com o envelhecimento.
Cerca de 7500 ingleses, com uma média de idade de 56 anos no início do estudo, foram submetidos a testes seriados de desempenho cerebral por um período de dez anos. Três componentes que já têm demonstrada associação com o risco de demência – altura, educação e nível de ocupação – foram analisados em conjunto com os resultados dos testes cognitivos. Diferente de alguns estudos anteriores sobre o assunto, a presente pesquisa identificou a influência desses fatores numa fase um pouco mais precoce da vida.
Todos esses três componentes confirmaram seu valor como marcadores de reserva cerebral: os mais altos (altura mesmo!), com maior nível educacional e com o cérebro mais ocupado foram os que tinham melhores escores nos testes cognitivos. O nível de ocupação foi o que apresentou a associação mais forte e altura foi o mais fraco. Após 10 anos de acompanhamento, com exceção do vocabulário, houve piora significativa de todas as outras capacidades pesquisadas: fluência verbal e fonêmica, raciocínio, e memória.
O resultado mais importante da pesquisa foi que a velocidade de perda cognitiva não foi influenciada pelo nível de reserva cerebral do indivíduo. Entretanto, quanto maior o estímulo, maior a reserva, e mesmo que uma pessoa tenha a tendência genética a desenvolver a Doença de Alzheimer, com essa reserva mais avantajada, ela viveria mais anos sem apresentar sintomas. Análises dos cérebros de idosos que morreram sem qualquer suspeita clínica da doença de Alzheimer mostram que esses cérebros apresentam quase o mesmo contingente de alterações daqueles que têm o diagnóstico da doença. Essa é uma das bases da teoria de reserva cerebral.
Moral da história? Vamos encher os cérebros de reservas. Isso deve começar cedo, já na barriga da mãe: pré-natal e boa nutrição. Educação não pode faltar. Ocupar o cérebro é fundamental e um país com menos desemprego ajuda muito. Para os aposentados, o lazer inteligente faz a diferença. Aliás, o lazer é uma rica fonte de reserva cerebral em qualquer idade.
Hoje em dia, 5% das mortes em nosso país são decorrentes de doenças infecciosas, mas em 1930 esse número chegava a 50%, e essa proporção deveria ser ainda maior no século 19, antes de Osvaldo Cruz. No dia 05 de agosto, comemora-se o Dia Nacional da Saúde em homenagem ao dia do nascimento desse grande médico, cientista, epidemiologista, sanitarista, gestor público
Oswaldo Cruz é um dos maiores pilares da história da saúde no Brasil. Na sua luta patriótica pela saúde, foi uma das mais fortes lideranças no avanço da política sanitária impulsionando definitivamente o progresso do país. Na pesquisa sobre percepção pública de ciência e tecnologia em nosso país, conduzida em 2010, Oswaldo Cruz foi o cientista mais lembrado pelos entrevistados. É indiscutivelmente um herói nacional. Morreu em 1917 aos 44 anos.
Voltando ao conceito de saúde.
Em 1948, a Organização Mundial de Saúde (OMS) formulou uma definição de saúde bem arrojada para a época e que é válida até os dias de hoje: saúde é um estado de completo bem estar físico, mental e social e não simplesmente a ausência de doença. Já nessa época, o conceito já era alvo de muitas críticas, mas mesmo assim ele nunca foi adaptado pela OMS. Elenco a seguir duas das mais importantes críticas.
1- O termo “estado de completo bem estar” colabora para o fenômeno de medicalização da sociedade. Medicalização define o fenômeno em que um comportamento ou uma condição física ou mental passa a ser tratado como se fosse um problema médico, recebendo um rótulo de doença e opções de tratamento. Dessa forma, é difícil olhar para os lados e encontrar alguém que seja tão “completo” assim.
A medicalização não para de crescer. Percebemos limites da normalidade de marcadores biológicos cada vez mais estreitos além de um crescente número de novas doenças. O que não era diabetes agora se chama pré-diabetes. O que não era pressão alta, agora é pré-hipertensão. Transtorno de déficit de atenção que tinha que começar na infância, agora já se discute que pode ter seu início na vida adulta. Quase não existe mais tristeza. Qualquer sentimento parecido é encarado como depressão.
O centro da discussão quando se fala em medicalização é a força da indústria farmacêutica num processo que impulsiona a sociedade civil, profissionais de saúde, órgãos do governo e a mídia a retroalimentarem a cultura de que todo organismo vivo da espécie sapiens, a princípio, deve ter alguma doença ou precisa de algum remédio. Todos esses atores têm seu papel na medicalização;
2- Os tempos mudaram. Hoje em dia morre-se mais tardiamente e a chance de desenvolver doenças crônicas é maior, o que dificilmente permite uma situação de “completo bem estar”. Hábitos de vida modernos estão associados aos alarmantes índices de obesidade atuais e ao aumento da prevalência de diabetes e hipertensão arterial. Envelhecer com alguma doença crônica é quase a regra e essa não é uma condição restrita aos países ricos. Em 2007, 72% dos brasileiros morriam por doenças crônicas e provavelmente esse número hoje não deve ser muito diferente.
A definição da OMS não contempla a capacidade humana de adaptação a uma doença crônica com a preservação do bem estar. Uma forma mais moderna de definir a saúde seria a capacidade de adaptação para a manutenção da independência e sensação de bem estar. Ao invés de um estado de completo bem estar, o EQUILÍBRIO DINÂMICO ENTRE OPORTUNIDADES E LIMITAÇÕES também parece uma definição de saúde mais interessante.
O derrame cerebral ou acidente vascular cerebral (AVC) é a segunda maior causa de morte e a primeira causa de incapacidade física permanente no mundo. Os AVCs de etiologia isquêmica (AVCi) representam 70 a 80% dos casos, e portanto, são os principais alvos para o desenvolvimento de terapêuticas que visem a redução da mortalidade e incapacidade física decorrentes das doenças cerebrovasculares.
Como o AVCi decorre da obstrução de um vaso arterial cerebral, a melhor estratégia para alcançar um tratamento eficaz é a busca de métodos que permitam a desobstrução desta artéria antes que haja um grau de lesão cerebral irreversível. Desde a década de 1950 que isso vem sendo tentado, mas foi só no ano de 1995 que tivemos os resultados do primeiro estudo que mudou para valer a história do tratamento do AVCi na sua fase aguda. Tínhamos então a primeira forte evidência de que o uso de uma medicação por via endovenosa nas primeiras três horas do início dos sintomas era capaz de salvar vidas e reduzir a chance de seqüelas. Nesse primeiro estudo, foram excluídos pacientes com mais de 80 anos.
Muita coisa evoluiu nesses últimos 15 anos. Vários outros estudos foram realizados confirmando a eficácia do tratamento inclusive no caso de pacientes com mais de 80 anos. Nessa idade, é de se esperar que o prognóstico não seja tão bom quanto o de pacientes mais jovens. Entretanto, as pesquisas apontam cada vez mais que as complicações do tratamento, especialmente sangramento cerebral, não são maiores entre os octogenários.
No caso de pacientes com mais de 80 anos, a indicação de qualquer tratamento sempre deve se feita de forma mais criteriosa. Isso não quer dizer que devam ser privados, somente pelo fator idade, da chance de receber um tratamento que pode mudar radicalmente o curso de suas vidas. Essa é a posição do Pacto AVC, projeto brasileiro para organização do atendimento emergencial do AVC e que tem apoio da Sociedade Brasileira de Doenças Cerebrovasculares. Essa também é a posição das recentes publicações da American Heart Association sobre o assunto.
Não custa lembrar que metade dos pacientes que sofrem um AVC tem mais de 75 anos e um terço deles já tem mais de 80.
* Esse post é um alerta aos médicos que atuam nas emergências assim como uma homenagem a um paciente muito querido que não recebeu o tratamento trombolítico, já que tinha 84 anos. Não pude ajudar, pois estava fora do país no dia do AVC.
Uma pesquisa publicada nesta semana pelo Journal of Sleep Research aponta que o consumo de cafeína pode amenizar a tendência a comportamentos de risco associados à privação de sono.
Vinte e cinco voluntários saudáveis com idades entre 20 e 35 anos foram submetidos a privação de sono ininterrupta por 75 horas. Durante esse período testes que avaliam propensão a comportamento de risco foram aplicados de forma seriada. Os resultados mostraram que com o passar das horas, os voluntários passavam a apresentar um maior comportamento de risco, mas, por outro lado, não tinham consciência dessa mudança de comportamento. Além disso, o estudo também mostrou que os indivíduos que receberam nas três noites do estudo quatro doses de 200mg cafeína em intervalos de 2 horas, estes não demonstraram aumento de atitudes de risco após as 75 horas de privação de sono, quando comparados ao grupo que recebeu placebo. Esse efeito da cafeína foi independente do estado de alerta do indivíduo.
Esses resultados sugerem que a privação de sono deprime a função dos sistemas envolvidos no julgamento e percepção de risco e que a cafeína pode minimizar esses efeitos negativos.
Neste ano de 2011, outra pesquisa demonstrou, através de Ressonância Magnética Funcional e testes psicológicos, que uma noite sem dormir muda a forma como o cérebro processa a chance de ganhar ou perder. A pesquisa revelou que uma noite sem dormir provocou aumento de atividade cerebral em regiões que processam expectativas otimistas e reduz a atividade de outras que processam expectativas pessimistas. Além disso, testes psicológicos evidenciaram que os voluntários mostraram-se mais sensíveis a recompensas e com menor sensibilidade a conseqüências negativas.
As repercussões no dia a dia desse tipo de mudança de comportamento do cérebro não devem ser tão inocentes. Já sabemos que problemas de sono só perdem para o álcool como causa de desastres no trânsito, especialmente pela redução da atenção e dos reflexos. Imaginem só se ainda adicionamos a essa mistura uma pitada de comportamento valente e de risco.
Estão abertas, de 25/07/2011 a 25/08/2011, as inscrições para o Mestrado em Divulgação Científica e Cultural, oferecido pelo LABJOR – Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo e IEL – Instituto de Estudos da Linguagem, da Unicamp.
Mais informações no edital, disponível no site do LABJOR.
A mulher nasce com cerca de dois milhões de óvulos, no início da puberdade são 400 mil, e apenas uma pequena parte é usada nas ovulações ao longo da vida adulta. A maior parte dos óvulos degenera-se com o tempo, e quando os remanescentes passam a ser insuficientes para produzir estrogênio suficiente para manter ativo o sistema ovário-cérebro (ovário-hipófise-hipotálamo), a mulher não mais menstrua. Diferente das mulheres, a grande maioria das fêmeas no mundo animal continua fértil até o fim da vida e não sabe o que é menopausa. Duas exceções conhecidas são algumas espécies de baleias e elefantes.
Elegantes linhas de pesquisa têm compreendido a menopausa nas mulheres como uma vantagem evolutiva, ou seja, ela aumentaria as chances da espécie em gerar descendentes, perpetuando assim seus genes. A menopausa serviria como um fator de proteção tanto para as mães como para os filhos. Mas de que maneira?
As mulheres contemporâneas vivem uma condição muito recente na sua história evolutiva que é o grande número de ciclos ovulatórios ao longo da vida, pois começam a ter seus filhos tardiamente, e poucos filhos. Essa freqüência maior de ovulações faz com que a mulher seja muito mais exposta às elevações periódicas de estrogênio, o que já sabemos que aumenta o risco de doenças como o câncer de mama. A menopausa pode ser vista como uma resposta adaptativa evitando que a mulher chegue aos 80 anos de idade com o mesmo nível de exposição ao estrogênio.
Outra vantagem das mulheres não continuarem férteis em idades mais avançadas é a de que assim os filhos poderão contar com suas mães vivas nos seus primeiros anos de vida, e pesquisas nos confirmam que isso aumenta a chance de uma criança chegar à idade adulta. Além disso, os óvulos de mulheres mais maduras têm mais chances de serem defeituosos, e caso fossem fertilizados, haveria maior risco de gerar anormalidades cromossômicas (ex: Síndrome de Down) e recém-nascidos de baixo peso ou prematuros.
Por essas e outras razões a natureza foi sábia em fazer com que as mulheres a partir de certa idade fossem mais úteis à perpetuação da espécie ao investir energia para a sobrevivência de filhos que não precisassem gerar: seus próprios netos. Esse conceito é bem conhecido pela ciência como “Hipótese Avó”, onde a avó colabora não só com conhecimento, mas também colocando a mão na massa, aumentando a chance de seus netos sobreviverem. Em contraste, na maior parte das espécies animais, o mais comum é que os filhos em idades pré-reprodutivas colaborem com as mães aumentando o sucesso de geração de novos irmãozinhos. Além de suporte aos netos, a “Hipótese Avó” contempla também a menopausa como fator que evita a competição reprodutiva entre gerações na espécie humana.
Um dos estudos mais importantes sobre o tema foi publicado na respeitada revista científica Nature no ano de 2004. Os pesquisadores avaliaram dados históricos demográficos de populações canadenses e finlandesas do século XIX e evidenciaram que tanto mulheres como homens que tinham mães que viveram mais após os 50 anos de idade tiveram seus filhos mais precocemente, intervalos mais curtos entre o nascimento dos diferentes filhos e uma maior chance de que eles chegassem à idade adulta. Além disso, as mulheres que moravam longe das mães tinham menos filhos quando comparadas àquelas que moravam na mesma casa, no mesmo bairro, na mesma vila. O efeito positivo da avó foi mais pronunciado ainda quando a avó tinha menos de 60 anos de idade quando do nascimento de seu neto. Um dos resultados mais importantes do estudo foi o de que a presença da avó foi relevante na sobrevida dos netos entre os três e cinco anos de idade, mas não nos primeiros dois anos de vida (período da amamentação), reforçando a idéia de que o “efeito avó” existe independentemente das peculiaridades genéticas dos netos ou do desempenho das mães. E os resultados não foram diferentes entre as duas populações estudadas: canadenses e finlandeses.
O que dizer sobre as avós no século XXI? Nas últimas décadas podemos perceber uma mudança no papel dos avós em nossa sociedade, muitos deles passando a desempenhar o papel de pais. Podemos identificar um crescimento no número de lares em que três gerações convivem: pais, netos e avós. Cresce também o número de lares em que os avós cuidam plenamente de seus netos com os pais morando em outro domicílio. Lopes, Neri e Park (2005) listaram alguns fatores que colaboram para esses padrões de estrutura familiar: a) inserção da mulher no mercado de trabalho com maior dificuldade em cuidar dos filhos; b) dificuldade econômica por parte dos pais, e necessidade de apoio dos avós; c) dissolução de casamentos com retorno, geralmente da mulher, à casa dos pais; d) gravidez precoce e despreparo para cuidar dos filhos; e) morte precoce dos pais; f) incapacidade física ou emocional dos pais.
Esses modelos de organização familiar em que os avós assumem o papel de “avós em tempo integral” podem estar associados a benefícios, mas também a dificuldades, tanto para as crianças como para os avós. Os avós podem se sentir realizados, menos sós e com maior auto-estima por assumirem a responsabilidade dos netos, mas por outro lado podem estar sendo submetidos a uma sobrecarga de funções que em alguns casos não são mais compatíveis com os estados de saúde física e financeira comuns entre muitos idosos. No Brasil não dispomos de dados que nos mostrem qual a porcentagem de lares em que se pode encontrar esse papel expandido dos avós, mas sabemos que 20% dos lares brasileiros têm idosos como chefes de família e cerca de um terço desses lares é composto por casal e/ou parentes (IBGE, 2002). Ao cruzarmos esses dados com o percentual de apenas 15% das crianças na fase pré-escolar que freqüenta creches ou escolas, e a crescente participação das mulheres no mercado de trabalho, em algumas regiões do país superando a marca dos 50%, podemos imaginar que nossos avós brasileiros devam estar participando de forma significativa para criação de seus netos.
A “Hipótese Avó” é bem reconhecida pela ciência como o meio pelo qual a evolução permitiu que as mulheres ao amadurecerem fossem avós e não mães de novas crianças. Hoje em dia cresce o papel de avós como tutores dos netos, mas há também o outro lado da moeda: há situações em que os avós entram em conflito com os pais por ultrapassarem os limites de interferência na educação dos netos sem o concordância dos pais. Usando o bom senso a chance de sucesso é grande: avó tem que ser avó e mãe tem que ser mãe.
É bastante comum vermos pessoas com mais de 60 anos de idade colocando a culpa de suas queixas de memória no cérebro que não é mais jovem. Na verdade, o envelhecimento cerebral normal provoca apenas discretas mudanças no desempenho cognitivo após os 50-60 anos de idade, muitas vezes só detectáveis através de testes rigorosos. Na maioria das vezes, porém, as queixas de memória têm mais relação com quadros de ansiedade, depressão, transtornos do sono e o estresse do dia a dia do que com doenças cerebrais propriamente ditas.
Infelizmente, algumas pessoas à medida que envelhecem começam a ter queixas de memória de forma mais intensa, podendo evoluir para quadros de demência. A definição de demência é o acometimento de diversas dimensões do pensamento que chega a comprometer a capacidade de um indivíduo em realizar suas atividades habituais. Entre o envelhecimento cerebral normal e a demência, podemos encontrar pessoas que estão no meio do caminho, e essa é uma condição chamada de transtorno cognitivo leve.
Idosos com transtorno cognitivo leve costumam apresentar dificuldades significativas de memória com outras funções cognitivas preservadas, sem que isso atrapalhe de forma expressiva suas atividades diárias. Outros apresentam uma variante em que a memória é preservada enquanto outras funções estão acometidas. Nem todas as pessoas que apresentam transtorno cognitivo leve apresentarão demência no futuro, mas a maioria apresentará sim. A cada ano, cerca de 10-15% de idosos com diagnóstico de transtorno cognitivo leve receberá o diagnóstico de demência, comparado a 1-2% para idosos sem o problema.
Um estudo envolvendo 4 mil idosos revelou que, após 3 anos de acompanhamento, aqueles que desenvolveram uma síndrome demencial apresentavam uma pontuação média significativamente maior (4.4 pontos) numa escala de auto-avaliação de memória do que os idosos que não desenvolveram a doença (2.5 pontos). Não há um número mágico nesta escala que permita dizer que um determinado indivíduo tenha mais chance de vir apresentar demência, mas é razoável pedir a opinião de um médico no caso de uma pontuação acima de 2 pontos. Veja abaixo a escala.
E nada de pânico, já que dificuldades de memória na maior parte das vezes não são sinais de doenças degenerativas.
Escala de Queixas Subjetivas de Memória – 10 ítens
Adaptado de Schmand et al., Neurology 2006
| Pontuação itens 1 a 3 | 0=não | 1= sim, mas não traz problemas | 2= sim, e traz problemas | 3= sim, e traz problemas sérios |
| 1-Você tem queixas quanto à sua memória? | ||||
| 2- Você já esqueceu nomes de amigos ou parentes? | ||||
| 3- Você costuma esquecer onde coloca as coisas? | ||||
| Pontuação itens 4 e 5 | 0=não | 1= sim, às vezes | 2= sim, frequentemente | |
| 4- As outras pessoas acham que você é esquecido(a)? | ||||
| 5- Você costuma anotar as coisas para não esquecê-las? | ||||
| Pontuação itens 6 e 7 | 0=não | 1=sim | ||
| 6- Você já teve dificuldades em se lembrar de determinadas palavras? | ||||
| 7- Você já se perdeu na vizinhança? | ||||
| Pontuação itens 8 a 10 | 0=não | 1=sim | 2= sim, e traz problemas sérios | |
| 8- Você tem hoje o pensamento mais lento do que antes? | ||||
| 9- Você já teve momentos de confusão mental? | ||||
| 10- Você tem problemas para se concentrar? | ||||
| PONTUAÇÃO TOTAL | ||||
Todo mundo conhece um pouco sobre as diferentes mudanças físicas, mentais e psicossociais que as mulheres passam quando se tornam mães, e seus potenciais reflexos sobre a saúde. Até mesmo o cérebro passa a ser diferente com a maternidade (Cérebro de mãe é turbinado mesmo). Já o efeito da paternidade sobre a saúde dos homens é um tema ainda pouco explorado pela ciência.
A paternidade no mundo contemporâneo extrapola o modelo estereotipado do pai provedor trabalhando fora e a mãe em casa cuidando dos filhos. Hoje em dia não são raros os pais que moram sozinhos com os filhos, pais que cuidam da casa enquanto a mãe que é provedora e trabalha fora, pais que moram longe dos filhos, pais numa relação homossexual, e outras variações de paternidade que pareceriam exceções à regra há algumas décadas atrás.
E será que a paternidade exerce alguma influência sobre a saúde dos homens? Os filhos podem ser um fator positivo na vida dos homens como fonte de satisfação e realização, e até de atividade física, já que muitos homens retornam à atividade esportiva incentivados pela chance de fazê-la junto aos filhos. Inclusive, atividade física junto ao filho é mais comum com o pai do que com a mãe. Por outro lado, a paternidade pode trazer efeitos negativos se, por exemplo, o homem encará-la com culpa por não viver junto ao filho ou se o homem tiver que trabalhar além dos seus limites desejáveis depois que a conta com os filhos passou a ficar mais cara, deixando de cuidar de sua própria saúde e às vezes até se sentindo penalizado. A forma como o homem vive a paternidade além de poder influenciar seus hábitos de vida, e conseqüentemente sua saúde, pode influenciar também o desenvolvimento psíquico de seus filhos e a própria saúde do relacionamento conjugal. Pesquisas ainda revelam que pais com filhos que apresentam doenças crônicas apresentam mais chance de estresse na relação conjugal e separação e também maior chance de desemprego.
Mas os estudos sobre o efeito da paternidade sobre a saúde dos homens ainda estão só no começo. O conhecimento até o momento foi muito focado no impacto psicossocial nos primeiros após o nascimento do filho, e estudos tem sido desenvolvidos para avaliar essa questão mais no longo prazo. O fator paternidade deve começar a ser levado em conta no cuidado da saúde do homem, com recomendações de equilíbrio entre trabalho e família integradas às habituais orientações de hábitos saudáveis de vida. Uma pesquisa recente envolvendo milhares de americanos revelou que o consumo de gordura total e saturada por adultos é maior nos lares com crianças.
Uma maior atenção ao lado pai do homem tem o potencial de promover sua saúde, e certamente promoverá mais saúde aos seus filhos também. Recentemente, a academia americana de pediatria passou a recomendar aos pediatras que estimulem os pais a participarem mais do dia-a-dia dos filhos, já que são inúmeras as evidências da forte influência do pai sobre o desenvolvimento dos filhos, do ponto de vista social, psíquico e cognitivo.
Um estudo divulgado esta semana na Conferência Internacional da Associação de Alzheimer (Paris) e publicado pelo periódico Lancet Neurology aponta que metade dos casos de Doença de Alzheimer no mundo pode ser atribuída a sete diferentes fatores de risco: 1) tabagismo; 2) sedentarismo; 3) baixo estímulo cognitivo; 4) hipertensão arterial; 5) diabetes; 6) obesidade; 7) Depressão. A pesquisa ainda demonstrou que o fator que tem maior associação com a doença é o baixo estímulo cognitivo ao longo da vida seguido pelo tabagismo e sedentarismo.
Calcula-se que 15% da população mundial nunca freqüentaram a escola e outros 25% não passaram do ensino fundamental. No Brasil, o analfabetismo está na ordem de 10%, mas na região nordeste esse índice chega a quase 20%. É bom lembrar que um baixo estímulo cognitivo anda de mãos dadas com a pobreza e afetam o cérebro de forma bem precoce.
A pobreza é reconhecida como um dos principais fatores que contribuem para o número de pessoas com retardo mental ao redor o mundo. Em países desenvolvidos, a prevalência de retardo mental situa-se em torno de 3-5 / 1000 indivíduos, enquanto em países pobres encontramos uma prevalência que chega a ser cinco vezes maior. Estima-se que cerca de 200 milhões de crianças menores de cinco anos em países subdesenvolvidos não atingem seu pleno potencial de desenvolvimento cognitivo devido a condições associadas à pobreza que por sua vez está por trás de dois dos principais fatores de risco para o retardo mental: deficiência nutricional e de estímulo cerebral. Uma revisão sobre o assunto publicada pela Academia Americana de Neurologia em agosto de 2008 intitula o problema como UMA EPIDEMIA NEUROLÓGICA ESCONDIDA. Do ponto de vista de saúde pública, a pobreza tem um impacto sobre o estado neurológico muito maior que a grande maioria das doenças neurológicas com suas organizadas sociedades médicas e associações de pacientes, e com seus medicamentos que movem o business da saúde.
Atacar de frente a pobreza vai além da questão de humanismo, de direitos humanos. O Banco Mundial reconhece que dentre todas as intervenções em saúde, o controle da desnutrição pode ser considerada a que apresenta melhor custo-benefício. E os primeiros anos de vida de uma criança são os mais vulneráveis para o cérebro, começando a contar desde o primeiro dia da concepção, na barriga da mãe. A mãe precisa comer bem! Todo mundo tem que comer bem. E uma coisa puxa a outra. Crianças desnutridas têm menor chance de chegar à escola, e quando chegam têm maior chance de evasão.

Esta semana um senhor de meia idade me procurou com a queixa de duas crises recentes de dor de cabeça muito fortes durante uma viagem de avião. Quanto à intensidade das crises, sempre pergunto aos pacientes em que nível eles classificam a dor numa escala de 1 a 10. Nota 11 foi a que o paciente atribuiu a ambas as crises. As duas crises aconteceram quando o avião estava pousando, de um lado só da cabeça e com lacrimejamento e corrimento nasal do mesmo lado.
Esses casos têm sido pouco descritos na literatura médica, mas acredita-se que o fenômeno seja bem mais comum do que parece. A classificação internacional de cefaléias reconheceu na sua última edição a cefaléia da altitude, condição que define a dor de cabeça que algumas pessoas vivenciam quando atingem locais de grande altitude. Entretanto, os casos descritos até o momento sugerem que em breve deverá ser incluída uma nova entidade que é a dor de cabeça associada à MUDANÇA de altitude. Já foi descrito um caso em Portugal em que o paciente apresentava os sintomas durante a descida do avião, mas também toda vez que descia de carro uma montanha de dois mil metros de altitude.
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