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Uma pesquisa recém-publicada pela revista Neurology, periódico oficial da Academia Americana de Neurologia, demonstra que o risco de demência é maior entre as pessoas que classificam a própria saúde como ruim. Essa associação foi mais forte ainda entre as pessoas que nem apresentavam queixas de memória.

Mais de oito mil franceses com idade superior a 65 anos foram acompanhados por uma média de sete anos. Os voluntários responderam à seguinte pergunta: Como você considera sua saúde no momento atual? As respostas possíveis eram: muito ruim, ruim, mediana, boa, excelente. 

Nesse período, 618 deles desenvolveram um diagnóstico de demência e a chance de ter o problema foi 70% maior naqueles que classificaram seus estados de saúde como ruins, quando comparados aos que se julgavam bem de saúde.  Uma das formas de explicar esses resultados é a redução da interação social que uma pessoa que se julga pouco saudável pode apresentar, o que pode acelerar o processo de demência. 

As pessoas que têm a impressão de que a saúde está boa costumam apresentar um estado funcional preservado, o que significa uma boa memória, visão e audição, além de ausência de dor, dificuldades de locomoção ou respiração. Essa percepção reúne informações do funcionamento do corpo que, em última instância, podem refletir o tempo de vida que resta a um indivíduo. E isso tem sido demonstrado nas pesquisas que associam esse indicador à mortalidade geral.

 

 

 

 

Uma pesquisa recém-publicada pela Health Psychology, periódico da Associação Americana de Psicologia, apontou que os idosos que fazem atividades voluntárias apresentam, em média, uma longevidade quatro anos maior. Mais instigante ainda foi o fato de que esse efeito positivo só foi demonstrado entre aqueles que se engajaram no voluntariado com a intenção de ajudar os outros, especialmente quando as atividades eram frequentes. Aqueles com motivações que poderiam ser classificadas como mais egoístas (ex: aprender uma nova atividade, ocupar o tempo) tiveram a mesma sobrevida dos não voluntários.

 

Estudos anteriores já haviam demonstrado que as pessoas que se dedicam a trabalhos voluntários têm a percepção de terem um melhor estado físico e psicológico, apresentam menor risco de depressão, além de uma menor mortalidade.  Será que esses efeitos do voluntariado são decorrentes apenas das interações sociais associadas às atividades? Os resultados do presente estudo sugerem que o fator social é só um dos possíveis mecanismos.

 

O voluntariado é capaz de aumentar a motivação e promover uma sensação mais profunda de sentido na vida. Quando a motivação é para ajudar o outro, essa sensação pode ser ainda mais forte, pelo sentimento de dedicação a algo maior do que a si próprio. Anteriormente à presente pesquisa, já tínhamos evidências de que quando o voluntário é orientado pelo altruísmo, este têm maior chance de apresentar um melhor equilíbrio psicossocial.

 

Toda forma de voluntariado é legítima, mas quando a razão é focada em interesses próprios, a chance de estresse associada às atividades são maiores. Dessa forma, o trabalho voluntário pode deixar de trazer benefícios à saúde.

 

Uma pesquisa publicada hoje pelo periódico Archives of Internal Medicine demonstrou que mulheres que consomem café regularmente têm menos chance de apresentar depressão.

 

O estudo envolveu mais de 50 mil mulheres com uma média de idade de 63 anos e que foram acompanhadas por 10 anos. Ao final do estudo, 2607 casos de depressão foram identificados e as mulheres que consumiam café cafeinado com maior freqüência apresentaram um menor risco de desenvolver a doença. Esse mesmo efeito não foi observado no caso do café descafeinado.

 

A cafeína é o estimulante do sistema nervoso central mais consumido em todo o mundo e em 80% das vezes é na forma de café. Alguns poucos estudos já haviam demonstrado esse componente protetor do café contra a depressão, incluindo um estudo de acompanhamento prospectivo entre homens.

 

Mais um gol a favor do café. Algum gol contra? Café não é recomendado às grávidas e àqueles em que a bebida não cai bem no estômago. Além disso, muitas pessoas não conseguem dormir direito se tomarem uma xícara após certa hora da tarde.

 

 

 

 

 

O bocejo pode ser observado em todas as cinco classes de vertebrados, o que sugere que deva existir uma função adaptativa para esse fenômeno. Uma das formas de explicar o bocejo e seu caráter contagiante é a sua utilidade do ponto de vista social, com o potencial de sincronizar o conhecimento de um mau estado da mente ou do corpo num grupo de pessoas.  

 

Apesar da existência de inúmeras outras teorias que tentam explicar a razão biológica do bocejo, pouquíssimos estudos experimentais foram realizados para avançar esse conhecimento. Recentemente, uma pesquisa publicada pelo periódico Frontiers in Evolutionary Neuroscience apontou que o bocejo é mais freqüente em épocas do ano em que a temperatura do ambiente é menor que a do corpo, sugerindo que ele serve literalmente para esfriar a cabeça. A temperatura habitual do cérebro é de 37º C com flutuações de 0.5º C.  

 

Os pesquisadores avaliaram a freqüência de bocejo de 160 americanos do Arizona ao serem apresentados a imagens de gente bocejando, já que o bocejo tem o seu componente contagioso. Os resultados mostraram que no inverno as pessoas bocejam mais e isso é independente de outros fatores como umidade e tempo de sono na noite anterior. Quase metade dos voluntários do estudo bocejou durante o teste no inverno (temperatura média: 22º C) enquanto no verão (temperatura média: 37º C) a freqüência foi de apenas um quarto. Além disso, no verão, a freqüência de bocejo foi menor à medida que se ficava mais tempo em ambiente externo. Esse efeito da temperatura ambiente já havia sido demonstrado entre pássaros e macacos.   

 

Um dos pesquisadores da atual pesquisa já havia publicado em 2010 resultados revelando que o bocejo e o espreguiçar de um ratinho são desencadeados por aumento na temperatura do cérebro que por sua vez diminui logo após a realização de cada um dessas duas ações. O efeito de resfriamento do bocejo seria o resultado de uma maior troca de calor com o ambiente através das vias aéreas e até mesmo pelo ato de se espreguiçar. Essa troca de calor também é favorecida pela abertura da mandíbula e o conseqüente aumento do fluxo sanguíneo cerebral. Esses resultados apóiam a idéia de que uma disfunção da regulação térmica do corpo represente a principal explicação para os bocejos excessivos que podem acompanhar alguns transtornos neurológicos como a esclerose múltilpa.

 

Há evidências também que o bocejo facilita a ativação do córtex cerebral em situações de transição de estado, como por exemplo, do sono para a vigília. Em animais, já foi demonstrado que o bocejo ocorre com maior freqüência na antecipação de eventos estressantes e em mudanças súbitas de um estado de alto grau de atividade para a calmaria. Entretanto, o mais provável é que o resfriamento cerebral seja a forma pela qual o bocejo colabore para a modulação cerebral nessas situações.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Pesquisadores da Universidade de Harvard demonstraram que as pessoas que tomam decisões de forma mais intuitiva, baseadas em processos cognitivos automáticos e rápidos, têm uma tendência maior e acreditar em Deus quando comparadas àquelas com um perfil mais reflexivo,  que pensam em várias possibilidades antes de tomar uma decisão.

 

O estudo foi composto por diferentes partes. Na primeira, quase mil americanos participaram de uma enquete online sobre religiosidade. Logo em seguida, responderam testes matemáticos tipo pegadinha que avaliam se o indivíduo tem um comportamento intuitivo ou reflexivo.   Exemplo: Um par de raquetes de ping pong e uma bolinha custam 60 reais. As raquetes custam 50 reais a mais que a bolinha. Quanto custa a bolinha? A resposta mais intuitiva é 10 reais, mas a resposta certa é 5 reais. As pessoas que apresentaram um perfil mais intuitivo nos testes responderam à enquete demonstrando maior crença em Deus.

 

Em outra parte do estudo, voluntários foram instruídos a escrever uma experiência pessoal em que a intuição fez a diferença para um bom desfecho. Outro grupo fez o mesmo exercício descrevendo uma experiência em que a reflexão foi fundamental. Logo em seguida, cada um dos participantes respondeu a um questionário sobre religiosidade. Os que escreveram sobre a experiência intuitiva referiram com mais freqüência que acreditavam em Deus. Os resultados foram independentes do status educacional, socioeconômico  e de orientação política.

 

Vem primeiro o ovo ou a galinha? A intuição faz a pessoa ter mais crença em Deus ou a crença deixa a pessoa mais intuitiva? Talvez isso funcione em círculo virtuoso. Também é bom lembrar que a reflexão é um processo mental tão importante quanto a intuição e que o equilíbrio entre os dois, a princípio, é um ótimo negócio.

 

A pesquisa foi publicada esta semana pelo periódico da Associação Americana de Psicologia Journal of Experimental Psychology – General.

 

 

 

 

 

 

Maçã e pêra parecem ser as melhores frutas para a prevenção de derrame cerebral.  Essa é a conclusão de um estudo holandês recém-publicado no periódico Stroke da Associação Americana do Coração.

 

Já é bem reconhecido que o consumo de pelo menos cinco porções diárias de frutas e vegetais é uma das atitudes que podem ajudar a prevenir doenças vasculares do coração e do cérebro. No presente estudo, mais de 20 mil voluntários com média de idade de 41 anos foram acompanhados ao longo de 10 anos. O padrão de alimentação foi analisado através de um questionário em que as frutas e vegetais eram classificados em quatro grupos:

 

Verde. Ex: Brócolis, alface, repolho, espinafre

Alaranjado / Amarelo. Ex: Frutas cítricas, cenoura

Vermelho / Roxo. Ex: Uva, morango, tomate

Branco.  Ex: Pêra, maçã, pepino, alho, cebola

 

As frutas e vegetais BRANCOS foram os únicos que fizeram a diferença na redução do risco de derrame cerebral, possivelmente pela presença de um tipo de flavonóide chamado de quercetina. Batatas não foram incluídas nesse grupo de vegetais brancos por terem um valor nutricional muito diferente.

 

55% dos brancos eram compostos por maçãs e peras
         
10% de alho, cebola e alho porró

35% de banana, couve flor, chicória, pepino, cogumelos

Os resultados não devem ser transformados em dogma, pois outras pesquisas devem ser realizadas para confirmação. Por enquanto, é bem razoável que não se deixe de incluir na dieta pelo menos uma porção ao dia de vegetais e frutas de cada uma das quatro cores.

 

 

 

Dor de cabeça é um problema que afeta cerca de 50% da população em todo o mundo e, em países como os Estados Unidos e o Canadá, estima-se que até um terço dessas pessoas jamais chegou a procurar um serviço médico para cuidar desse problema. A grande maioria acaba usando analgésicos sem orientação médica o que pode, em alguns casos, dificultar ainda mais o controle das crises de dor. No Brasil as coisas não são muito diferentes. É o que aponta uma pesquisa recém-publicada pelo Headache, periódico oficial da Sociedade Americana de Cefaléia.

 

Pesquisadores da Faculdade Pernambucana de Saúde, Universidade de Pernambuco e Instituto de Medicina Integral Fernando Figueira avaliaram 200 pacientes adultos atendidos em três diferentes Unidades Básicas de Saúde da cidade do Recife-PE. Aqueles que referiam ter apresentado pelo menos um episódio de dor de cabeça nos últimos 12 meses responderam a um questionário para melhor caracterização do quadro clínico.

 

Os resultados mostraram que 52% dos pacientes avaliados referiram ter apresentado dor de cabeça nos últimos 12 meses, mas apenas 10% haviam procurado um médico por esse motivo. O problema já acontecia em média há 10 anos e as mulheres representavam quase 80% dos pacientes. Como já esperado, os diagnósticos mais freqüentes eram os de cefaléia tensional episódica e enxaqueca, os tipos de dor de cabeça mais comuns em nível global.   

 

Aqueles com cefaléia tensional quase não buscaram um médico para orientação, enquanto quase metade dos que tinham o diagnóstico de enxaqueca já havia procurado assistência médica. Além disso, aqueles que não foram atrás de assistência tinham níveis de redução da qualidade de vida por conta das dores não menos significativos do que os que procuraram ajuda.

 

A principal razão para a não ir ao médico foi o fato dos analgésicos conseguirem controlar as crises de dor, sendo que onze por cento disseram que era porque acreditavam que a dor era secundária a problemas como pressão alta, alterações emocionais e da visão. Essa é uma idéia muito arraigada em nossa cultura, mas essas não são nem de longe as principais causas de dor de cabeça.

 

Onze por cento desses pacientes que não buscaram ajuda apresentavam mais de 10 dias de dor por mês, resultados que são compatíveis com pesquisas que apontam que a condição de dores de cabeça quase diárias é mais comum no Brasil. Fatores que podem ajudar a explicar esse cenário são o fácil acesso a analgésicos sem prescrição médica e a falta de informação da população de que uma das principais causas de dor de cabeça crônica é o uso exagerado de analgésicos. São comuns em nosso meio os informes publicitários de analgésicos para dor de cabeça, mas não vemos campanhas que esclareçam que o tratamento em muitos casos necessita de uma medicação para prevenir as crises. Essas medicações não são os analgésicos. No presente estudo, mais da metade dos pacientes que não buscaram ajuda eram fortes candidatos a um tratamento profilático.  

 

Os resultados são muito próximos aos de estudos anteriores realizados em Unidades Básicas de Saúde no estado de São Paulo.

 

 

 

 

 A revista Pediatrics, periódico oficial da Academia Americana de Pediatria, publicou esta semana os resultados de uma pesquisa que mostra que alguns programas de TV podem deixar o cérebro das crianças menos eficientes.

 

O estudo envolveu 60 crianças de quatro anos de idade que foram divididas em três grupos. O primeiro grupo assistiu a um vídeo de nove minutos do popular Bob Esponja, cartoon com ritmo acelerado em que a mudança completa da cena acontecia em média a cada onze segundos (exemplo: cena na piscina passando para cena no quarto). O segundo grupo assistiu ao cartoon Caillou, com a mesma duração, mas que tem um ritmo mais lento, com mudanças de cena em média a cada 34 segundos. Um terceiro grupo passou os mesmos nove minutos numa atividade de desenho livre com giz de cera e canetinhas.

 

Imediatamente após o término das atividades, as crianças foram submetidas a uma testagem de habilidades cognitivas que envolviam funções executivas como a atenção, controle da impulsividade e capacidade de resolução de problemas. Os resultados apontaram que as crianças que assistiram ao vídeo acelerado tiveram um PIOR desempenho nos testes do que os demais grupos. Aquelas que assistiram ao vídeo mais pausado tiveram uma performance semelhante àquelas que ficaram desenhando.

 

Uma hipótese para explicar essa maior dificuldade executiva após uma experiência de rápida sucessão de eventos é que o cérebro disponibiliza muitos recursos para sua decodificação e fica relativamente desfalcado por um período.  O estudo deixa várias perguntas no ar. Esses efeitos persistem por quanto tempo? Será que são mesmo transitórios? Estudos anteriores já haviam demonstrado a associação de exposição à mídia e dificuldades de funções executivas, sugerindo que as disfunções podem não ser tão transitórias assim. Será que crianças mais velhas são influenciadas da mesma maneira por esses cartoons acelerados? O estúdio de animação Nickelodeon que transmite o Bob Esponja defende que o cartoon é destinado a crianças de6 a11 anos.

 

Alguns podem até interrogar se isso tem alguma relevância prática para a cultura atual de multitarefas sincrônicas e rápidas. O fato é que multitarefas não combinam muito com reflexão, capacidade que sempre fará toda a diferença. 

 

** Desde o ano de 1999, a Academia Americana de Pediatria recomenda que as crianças menores de dois anos não devem assistir TV de forma alguma. Uma pesquisa conduzida pela Universidade de Washington chegou até a demonstrar que bebês que assistem a vídeos educativos como o Baby Einstein têm piores scores em testes cognitivos. Outros estudos têm demonstrado que a TV pode ter impacto negativo nos bebês a depender do conteúdo assistido. Conteúdos violentos antes dos 3 anos de idade dobram a chance das crianças apresentarem problemas de atenção na infância.

 

Já no caso das crianças maiores de dois anos, o consenso é que elas não devem ser expostas a mais do que duas horas por dia às mídias eletrônicas, e isso inclui não só a TV, mas também videogames, DVDs e o uso do computador para atividades não escolares. Sabe-se que as crianças que passam desse limite têm mais chance de apresentar comportamento violento, início precoce da vida sexual, transtornos alimentares, obesidade, assim como maior risco de consumir álcool e cigarro.

 

Vale lembrar que os pais podem ajudar as crianças a entenderem as mensagens transmitidas no vídeo e a interpretá-las criticamente, o que inclui também o material publicitário. Cabe também aos pais a identificação de conteúdos que sejam inadequados para a idade da criança.

 

 

 

** Nesta mesma semana, o Departamento de Saúde Britânico divulgou uma pesquisa em que foi feito um ranking dos 20 cartoons mais populares de acordo com o nível de atividade física dos personagens. Essa pesquisa faz parte de um programa de incentivo à atividade física na infância do governo inglês.

 

Garfield ficou em penúltimo lugar e Charlie & Lola em último. Bob Esponja ficou em nono lugar. O campeão de atividades foi o Scooby Doo. Só não dá pra dizer que Scooby é o cartoon-saúde, porque apesar de correr e fugir o tempo todo, o cachorro come montanhas de comida daquelas que não têm nada de saudável. Aliás, vamos deixar o Scooby em paz…

 

 

 

 

 

 

Reconhece-se que a forma mais correta de divulgar o risco absoluto de algum problema de saúde ou de eficácia de um tratamento é usando o formato chamado de freqüência natural, como por exemplo, “chance de dois em 1000”. Essa é a recomendação de várias organizações ícones da saúde como o sistema de revisão Cochrane e o equivalente britânico do órgão regulador americano FDA. Entretanto, temos poucas evidências de que isso realmente é o mais certo. Um estudo recém-publicado pelo periódico Annals of Internal Medicine demonstra que essa crença parece não fazer muito sentido.

 

Através de uma enquete na internet, quase três mil americanos avaliaram cinco diferentes formatos da mesma informação que descrevia a eficácia de dois tratamentos hipotéticos: 1) freqüência natural – ex: 2 em 1000; 2) freqüência variável, para fazer com que o numerador seja sempre maior que 1 – ex: 2 em 100, 2 em 1000, 2 em 10000; 3) porcentagem; 4) porcentagem associada a freqüência natural; 5) porcentagem  associada a freqüência variável.

 

Os resultados mostraram que o formato porcentagem foi o que permitiu a melhor compreensão. Freqüências naturais, e mais ainda freqüências variáveis, foram os formatos que passaram com mais dificuldade a idéia de custo / benefício de um tratamento. Além disso, a associação da freqüência natural à porcentagem não facilitou em nada a compreensão.

 

Podemos falar então: o tratamento com a medicação “x” aumenta em 1% a chance de dor de cabeça (3% com a medicação e 2% com o placebo). Até aqui estamos tratando de risco absoluto. O menos recomendável de todos os formatos de apresentação de resultados é o chamado risco relativo, que dá uma impressão de que os resultados são bem mais robustos. O mesmo recado dos efeitos colaterais descrito acima em formato de risco relativo seria: a medicação aumenta a chance de efeitos colaterais em 50%. 

 

 

 

Quando alguém nos fala: tenho duas notícias pra contar, uma boa e outra ruim. Qual você quer ouvir primeiro? A grande maioria responde que quer ouvir a ruim antes. Reconhece-se que o ser humano tem uma tendência a dar mais atenção a informações negativas do que às positivas. Ter consciência de informações negativas, e presumivelmente ameaçadoras, pode ser visto como um traço de adaptação da espécie.

 

E o que dizer do incerto? Numa situação em que alguém nos diz: Tenho uma coisa pra te contar. Você quer ouvir? Poucos devem duvidar que a maioria nessa situação diria: conta logo! 

 

A incerteza é vista pela psicologia como a antecipação de uma ameaça pouco definida. Se a exposição a um estímulo negativo representa uma ameaça, a exposição ao desconhecido pode ser ainda mais ameaçadora, já que não se sabe o tamanho do inimigo (ou do amigo). Alguns estudos nos mostram que o suspense da incerteza gera mais alterações fisiológicas associadas à ansiedade do que o confronto a estímulos negativos bem definidos. Uma pesquisa recente publicada na revista Psychological Science aponta ainda que, entre indivíduos com traço de personalidade neurótico, a resposta de ansiedade ao incerto é ainda mais marcante. Os autores, psicólogos da Universidade de Toronto, concluem de forma provocativa: “As pessoas, especialmente as com altos níveis de neuroticismo, preferem um capeta conhecido a um capeta que ainda não conhecem”. 

 

E quanto mais rápida a informação vier, melhor a experiência para o cérebro. A revista Nature Neuroscience publicou em sua última edição um estudo revelando que os macacos também querem saber das coisas o mais rápido possível, e que do ponto de vista neuroquímico, esse acesso adiantado à informação é semelhante ao de outros tipos de recompensa cerebral. Neste caso, o experimento envolvia a recompensa de uma quantidade de água maior ou menor. Outras pesquisas têm mostrado que, quando o assunto em questão envolve uma experiência negativa, a preferência por acesso rápido à informação é ainda maior.

 

 

 

 

A epilepsia é uma condição neurológica grave que acomete três milhões de brasileiros e a cada hora, somam-se a este número mais 11 novos casos. Infelizmente, ainda nos dias de hoje, é comum ouvirmos idéias erradas, crenças, especialmente devido ao desconhecimento e ao estigma existente. Por isso, a pessoa com epilepsia tem dificuldade para se inserir na sociedade, formar uma família e até conseguir um emprego. Para mudar esta perspectiva, várias iniciativas têm sido feitas nacionalmente. A ASPE, Assistência à Saúde de Pacientes com Epilepsia, uma ONG-executora da Campanha Global Epilepsia fora das sombras no Brasil- com a missão de promover saúde biopsicossocial para as pessoas com epilepsia e suas famílias, tem realizado desde a sua fundação, atividades que promovem a conscientização social sobre esta condição.

Neste ano de 2011, em parceria com a UNICAMP, FCM, CInAPCe e LBE, promoverá no dia 9 de setembro, às14:00h, um evento de atualização sobre epilepsia. Participarão desta oficina profissionais altamente qualificados, abordando temas centrais na epilepsia. As pessoas podem interagir com os palestrantes, online, em forma de pergunta e resposta. Para assistir à transmissão online, basta acessar o portal: www.fcm.unicamp.br/videoconferencia. Para as pessoas que quiserem participar da oficina pessoalmente, pedimos que enviem um e-mail para paula@aspebrasil.org para efetuar a inscrição, que é gratuita e limitada

 

  

 

Programa:

14:00h -Palestra online: Epilepsia sob nova perspectiva

 

1) Lidando com o estigma na epilepsia. Dra. Paula Fernandes, Presidente da ASPE, Pesquisadora Colaboradora do Departamento de Neurologia da FCM/UNICAMP e Professora da FEF/UNICAMP.

 

2) Experiência da Campanha Global “Epilepsia fora das Sombras” no Brasil. Prof. Dr. Li LiMin, Professor Associado do Departamento de Neurologia da FCM/UNICAMP, Presidente Fundador da ASPE.

 

3) Experiência ASPE no trabalho em grupo. Dra. Li HuiLing, Vice-Presidente da ASPE.

 

4) Experiências e vivências com a epilepsia. Eduardo CaminadaJunior.

 

Ouço frequentemente no consultório uma pergunta que costuma vir acompanhada de uma entonação pessimista: “Então doutor? Pelo jeito, enxaqueca não tem cura mesmo, não  é?”  Cura? Vamos conversar melhor sobre esse assunto.

 

Os órgãos do nosso corpo apresentam um sistema de dor que nos serve como um alarme. No caso do cérebro de uma pessoa que tem enxaqueca, essa tarefa é realizada pelo nervo trigêmeo em conjunto com os vasos sanguíneos cerebrais que são capazes de disparar o fenômeno de dor. Essa é uma forma de entender a enxaqueca como um fenômeno de proteção do cérebro que nos avisa que algo não está bem. Tanto os neurônios como os vasos cerebrais estão envolvidos como principais protagonistas da enxaqueca, mas ainda há muito por se descobrir.

 

Podemos dizer que a pessoa que apresenta enxaqueca tem um cérebro que funciona um pouquinho diferente. É um cérebro que se excita com mais intensidade a diferentes estímulos externos, como é o caso da luminosidade e cheiros, ou a estímulos internos, como por exemplo, a privação de sono e o estresse psíquico. Sabemos que essa super-excitação cerebral, condição determinada geneticamente, predispõe o indivíduo com enxaqueca à liberação de componentes neuroquímicos que podem desencadear a dor de cabeça.

 

Felizmente, a maioria das pessoas que tem enxaqueca apresenta crises mensais ou até menos do que isso. Quando as crises atingem uma freqüência maior ou igual a três vezes por mês, ou uma freqüência até menor, mas sem resposta satisfatória aos analgésicos, um tratamento profilático é indicado. Esse tratamento é feito através do uso diário de uma medicação independente da presença de dor e por um período de pelo menos seis meses.

 

Um tratamento de sucesso é aquele que consegue reduzir a intensidade e freqüência das crises em pelo menos 75%. Pode-se perceber que a meta não é a cura, pois mesmo após o sucesso do tratamento, a pessoa pode continuar a apresentar crises esporádicas, especialmente quando enfrenta situações que já são reconhecidas como precipitantes de crises. Essas situações são muito individuais e, por isso, listas de proibições rígidas podem ser mais penosas do que benéficas ao paciente.

 

Enxaqueca não se cura, mas pode ser controlada. Parando para pensar, quais são as condições clínicas que realmente podem ser curadas? Talvez você não consiga enumerar mais exemplos do que o número de dedos que tem na sua mão.

 

 

 

 

 

Uma pesquisa apresentada esta semana no Congresso da Sociedade Européia de Cardiologia em Paris, e publicada no British Medical Journalaponta que o chocolate realmente é um alimento amigo do coração e do cérebro.

 

Pesquisadores ingleses e colombianos analisaram os estudos mais relevantes que tenham testado o impacto do consumo do chocolate sobre a saúde vascular, o que significou a apreciação de sete pesquisas conduzidas nos Estados Unidos e Europa que envolveram mais de cem mil pessoas. Os resultados mostraram que as pessoas que consomem mais chocolate têm um risco relativo de doenças do coração 37% menor, 31% e 29% menor no caso do derrame cerebral e diabetes.

 

Por essa análise, não foi possível detectar diferenças entre os diversos tipos de chocolate. Entretanto, as evidências apontam que o que há de mais nobre no chocolate, pelo menos do ponto de vista de saúde, não é nem o leite, nem a gordura, nem o açúcar, mas sim o cacau com seus fatores anti-oxidantes e anti-inflamatórios.

O cacau é muito rico em flavonóides, substâncias fartamente encontradas em alguns vegetais e que promovem o bom funcionamento dos nossos vasos sanguíneos. Essas substâncias são as mesmas que fazem a boa fama dos chás verde e preto e da casca das frutas vermelhas, só que o cacau apresenta uma concentração especialmente generosa do subtipo flavanol que ultimamente tem sido apontado como o componente que mais tem efeito na nossa saúde vascular.

Sabemos hoje que o consumo de chocolate com altas doses de flavanols – leia-se CHOCOLATE AMARGO! – promove uma série de efeitos benéficos ao nosso corpo: 1) aumento dos níveis de óxido nítrico, considerado um dos principais combustíveis para a saúde dos nossos vasos sanguíneos; 2) redução da agregação das plaquetas, ação que é igual à da aspirina; 3) aumento dos níveis do HDL – nosso colesterol bom – entre outras ações antioxidantes; 4) redução de marcadores de inflamação – lembrando que aterosclerose é igual a inflamação; 5) redução da resistência à insulina, facilitando sua ação nas células; 6) aumento do fluxo sanguíneo periférico (nos membros) e nas artérias do coração; 7) redução da pressão arterial; 8) aumento do fluxo sanguíneo cerebral e/ou atividade neuronal durante uma tarefa cognitiva. E os efeitos chegam até à pele, com aumento de sua microcirculação sanguínea e maior nível de fotoproteção.

* Não custa lembrar que 100g de chocolate tem cerca de 500 calorias. Chocolate  em excesso pode colaborar para um quadro de obesidade. Nesse caso, os benefícios do chocolate vão por água abaixo.

 

 

 

 

 

 

Alguns enxergam a religiosidade simplesmente como uma forma de controle social, algo maior vigiando o comportamento humano. Outra forma de entendê-la é pensar que a evolução da espécie humana favoreceu a experiência religiosa como um mecanismo que ajuda a manter comunidades unidas e também a promover um melhor auto-controle mental. A princípio, quando uma meta é encarada como sagrada, o indivíduo teria maior tendência em se esforçar para alcançá-la. Mais do que isso, o sagrado abastece a mente humana no desafio de pensar sobre a vida e a morte, e em tempos mais remotos, era fundamental para o entendimento dos sonhos e fenômenos da natureza.

 

Marx, Freud, Weber, entre tantos outros, defenderam a idéia de que a modernidade reduziria a influência das crenças religiosas na sociedade. No Brasil, nos últimos 20 anos, houve um discreto aumento na porcentagem de brasileiros que dizem não ter uma religião: em 1991 essa cifra era de 4.75% e em 2009 passou para 6.7%. Entretanto, é notório que a humanidade continua com altos índices de religiosidade.

 

 

A religiosidade tem seu lugar no cérebro? A neurociência tem demonstrado que a experiência religiosa estimula circuitos cerebrais do neurotransmissor dopamina, os mesmos circuitos que são considerados disfuncionais em transtornos neuropsiquiátricos em que a hiperreligiosidade faz parte do quadro clínico, como é o caso da epilepsia do lobo temporal, esquizofrenia, mania e transtorno obsessivo-compulsivo. Sistemas cerebrais da serotonina também parecem estar implicados, já que drogas que têm influência sobre eles são facilitadoras da experiência religiosa. Entre essas drogas podemos citar o LSD, mescalina, ecstasy, e o chá de Ayahuasca utilizado pelo Santo Daime e União do Vegetal.

 

Quando pensamos na influência da fé na evolução de problemas de saúde, vale a pena refletir sobre o poder do efeito placebo. A origem do termo é o verbo placere do latim que significa AGRADAREI.  A simples expectativa positiva de que um tratamento pode nos fazer bem já é capaz de provocar mudanças fisiológicas em nosso corpo, e esse é o chamado efeito placebo. Pessoas que apresentam boa resposta ao placebo apresentam circuitos cerebrais de dopamina com maiores concentrações desse neurotransmissor. Também há evidências de que as concentrações dos opióides endógenos e de serotonina são influenciadas pela expectativa positiva. Isso tudo pode ter repercussões sobre o sistema imunológico e favorecer a evolução de uma condição de saúde. Se uma pílula de farinha já é capaz de provocar esses efeitos, podemos tentar imaginar o que a prece ou um ritual religioso pode promover. Esse é um modelo que a ciência tem para explicar os efeitos da fé sobre a mente e o corpo. Isso não quer dizer que outros mecanismos ainda intangíveis não possam ser descritos no futuro.

 

A religiosidade faz bem mesmo à saúde? Já temos um razoável corpo de evidências que indivíduos com uma maior vivência religiosa / espiritual têm uma maior capacidade de lidar com o estresse emocional, uma melhor saúde mental de forma geral e, em situações de doença, cooperam mais com o tratamento. Além disso, o envolvimento com uma comunidade religiosa está associado a uma maior rede social, e há tempos sabemos que pessoas socialmente integradas têm menos chance de adoecer, e quando doentes, a rede social é uma das principais fontes de apoio. Esse pode ser um dos principais fatores que explicam resultados de maior longevidade entre as pessoas com maior religiosidade. Assume-se também que essas pessoas têm a tendência a apresentar hábitos de vida mais saudáveis. 

 

Entretanto, as crenças religiosas nem sempre estão a favor da saúde do paciente, já que podem em alguns casos dificultar a aderência ao tratamento com idéias do tipo: esse é o desejo de Deus; Deus me abandonou; esse é o meu destino; esse é o meu castigo; etc. Em situações como essas, é bem razoável que a equipe de saúde esteja minimamente preparada para abordar dimensões religiosas / espirituais do paciente e assim aumentar a aderência e sucesso do tratamento.

 

A abordagem da religiosidade de um paciente não precisa ser um bicho de sete cabeças. Algumas doenças podem ter um efeito devastador na vida de um paciente e suas famílias, especialmente no caso do câncer e de doenças degenerativas e progressivas como a Doença de Alzheimer. Perguntas comuns nessas situações como Por que comigo? Por que com meu filho? Por que isso tudo? dão-nos uma pista de que, além dos cuidados físicos, cognitivos e emocionais, uma janela preciosa na relação  entre a equipe de saúde  e o paciente e seus familiares pode estar se abrindo: a dimensão espiritual.

 

Estudos revelam que mais de 90% dos médicos acreditam que a religiosidade dos pacientes deve ser considerada. Entretanto, apenas 30% dos médicos acreditam que isso deve ser efetivamente abordado, e só 10% adotam essa prática, mesmo entre pacientes terminais. Por outro lado, sabemos também que são bastante ruins os indicadores que medem a satisfação de pacientes quanto ao cuidado dispensado pela equipe de saúde aos seus aspectos emocionais e espirituais.

 

As pessoas com maior religiosidade são mais felizes? Já é bem reconhecido que a percepção do quanto nos sentimos felizes é influenciada pelo quanto exercitamos algumas dimensões de nossa experiência humana como a gratidão, gentileza, altruísmo e otimismo. Difícil discordar que a prática religiosa seja uma inestimável ferramenta para exercitar essas virtudes. Além disso, a dedicação a algo maior do que si próprio, a sensação de significado na vida e de fazer parte do todo, são condições que estão associadas à auto-percepção de felicidade e, mais uma vez, a religiosidade é uma das principais formas para se vivenciar essas experiências. 

 

 

 

Uma pesquisa publicada na última edição do Headache, periódico oficial da Academia Americana de Cefaléia, aponta que metade dos americanos que apresenta enxaqueca, ou outros tipos de dor de cabeça intensa, faz uso da Medicina Complementar e Alternativa (MCA), sendo que a metade destes não discutem a indicação com o médico de referência. 

 

Essa cifra foi significativamente maior entre os enxaquecosos, quando comparados à população geral (49.5% X 33.9%), e a maioria deles procuravam a MCA por sintomas de ansiedade, dores no corpo, para melhorar o estado de bem estar e prevenir doenças. Em apenas 4.9% dos casos, a razão da procura era para tratar especificamente as dores de cabeça. Os resultados também mostraram que terapias “Mente e Corpo” são as mais utilizadas, e aqui podem ser incluídas ioga, meditação e técnicas de relaxamento.  A pesquisa envolveu 23 mil voluntários com uma boa representação nacional.

 

O tratamento convencional da enxaqueca tem dois alvos principais. O primeiro é o controle da crise de dor com medicações sintomáticas e o outro é o tratamento profilático com medicações que trabalharão a química cerebral para reduzir a freqüência e intensidade das crises no futuro próximo.

 

Uma boa parte das pessoas que sofre de enxaqueca dá preferência a tratamentos não farmacológicos, muitas vezes por serem mais congruentes com seus valores, crenças e orientações filosóficas. Além disso, podem representar uma ótima opção em situações específicas como na gravidez ou em casos de intolerância, contra-indicação ou ausência de resposta aos medicamentos habituais. Alguns estudos avaliaram a combinação da medicação profilática com intervenções não medicamentosas e o resultado foi melhor do que o tratamento apenas com a medicação. Entre os tratamentos ditos não convencionais, os que tiveram melhores resultados em pesquisas científicas foram alguns fitoterápicos, acupuntura e as terapias “MENTE-CORPO”.

 

O processo de provocar a manifestação do paciente quanto às suas expectativas no tratamento, crenças e preferências, faz com que a relação médico-paciente tome um corpo mais forte. Muitas dessas terapias têm forte comprovação científica, como é o caso da acupuntura, e o médico deve sim transmitir esses detalhes ao paciente. Medicina alternativa/complementar com evidências científicas pode andar de mãos dadas com a medicina convencional, e a essa abordagem mais plural foi dado o nome de Medicina Integrativa. Então essa é a medicina do futuro? Não. Essa é melhor medicina de qualquer tempo: do passado, do presente e do futuro.

 

 

 

 

 

 

Foram prorrogadas, até 02 de setembro de 2011, as inscrições para o Mestrado em Divulgação Científica e Cultural, oferecido pelo LABJOR – Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo e IEL – Instituto de Estudos da Linguagem, da Unicamp.

Mais informações no edital, disponível no site <http://www.labjor.unicamp.br>, no link “cursos”.

 

 

 

Um estudo recém-publicado pelo periódico Annals of Internal Medicine analisou o conjunto da pesquisas mais relevantes sobre o impacto que tem um baixo grau de alfabetização em saúde e concluiu que esse é um problema que está associado a piores indicadores de saúde, uso menos eficiente dos serviços de saúde e dificuldades para entender e seguir as orientações médicas.

 

Cerca de cem pesquisas foram avaliadas e os resultados apontaram que pobres níveis de alfabetização em saúde têm associação com os seguintes índices:

– mais internações hospitalares;

– mais atendimentos em serviços de emergência;

– menos exames de mamografia preventivos e menos vacinação para gripe;

 – menos habilidade em demonstrar que as medicações estão sendo usadas de forma apropriada;

– menor capacidade para interpretar bulas de medicamentos / rótulos de alimentos ou mensagens de promoção de saúde;

 – pior estado de saúde e maior mortalidade entre os idosos.

** essa lista restrita de indicadores não quer dizer que outras condições também não tenham uma associação com a alfabetização em saúde.

 

Um dos principais objetivos da comunicação em saúde é proporcionar que indivíduos e comunidades melhorem comportamentos relacionados ao processo saúde-doença, através do compartilhamento de informação. Isso pode resultar no incremento da alfabetização em saúde da população, que pode ser definida como a capacidade de obter, processar e compreender informação básica em saúde necessária à tomada de decisões apropriadas e que apóie o correto seguimento de instruções terapêuticas. Estima-se que nos Estados Unidos, anualmente, são gastos entre US$ 106 e 236 bilhões anuais por conta do baixo nível de alfabetização em saúde e suas consequências, como a não procura de ajuda médica quando necessária, a dificuldade em assumir hábitos de vida saudáveis e erros no uso de medicações.

 

A comunicação em saúde tem sido definida como a “principal moeda do século XXI” nesse setor e, nos Estados Unidos, vem sendo encarada como a mais importante área na interface entre ciência e sociedade neste século, fazendo parte dos objetivos do Healthy People 2010, a agenda oficial de saúde pública do governo americano. No Brasil, deliberações das Conferências Nacionais de Saúde apontaram informação, educação e comunicação como elementos estratégicos para consolidação do Sistema Único de Saúde (SUS) e para a conquista da cidadania plena.

 

Quando se fala em comunicação pública da ciência, alguns autores criticam o uso do termo “alfabetização científica”, e a mesma crítica pode ser estendida ao termo “alfabetização em saúde”. O termo alfabetização reflete o modelo anglo-saxão de comunicação em ciência, também conhecido como modelo de déficit, centrado no indivíduo, no qual o público é uma entidade passiva com falhas de conhecimento, com fluxo de informação numa única direção. Por outro lado, o termo cultura em saúde traz uma contextualização mais sistêmica, saindo do foco do indivíduo como mero depósito de informação. Outros termos poderiam ser utilizados em substituição ao de alfabetização em saúde, como é o caso de entendimento público da saúde, assim como consciência pública da saúde, ambos chamando a atenção de que cultura em saúde vai além do processo de aquisição de informação, e envolve a construção de uma sociedade com visão crítica das diversas dimensões que envolvem o conhecimento nessa área.

 

 

 

 

Nos últimos cinco anos, uma série de estudos foi publicada sugerindo que uma incompetência do fluxo sanguíneo venoso no cérebro poderia ser o pontapé inicial para o desenvolvimento da esclerose múltipla. Essa história foi lançada por pesquisadores italianos, sob a liderança de Paolo Zamboni, e hoje constitui uma das maiores polêmicas da neurologia clínica.

 

Essa suposta insuficiência do sistema venoso cerebral devido a estreitamentos ou incompetência de válvulas levaria a um estado de aumento da pressão venosa que por sua vez provocaria invasões microscópicas de sangue no cérebro. Esse processo todo seria a razão das bem reconhecidas alterações inflamatórias ao redor das pequenas veias dos portadores de esclerose múltipla.

 

A confusão começou mesmo quando Zamboni e seus parceiros propuseram que a correção via cateterismo dessas anormalidades do sistema venoso cerebral poderia trazer benefícios na evolução da doença. As redes sociais acenderam o fogo e os pacientes passaram a demandar esse tipo de procedimento e vários centros ao redor do mundo começaram a disponibilizá-lo, mesmo sem evidências científicas satisfatórias. A Sociedade Européia de Radiologia Cardiovascular e Intervencionista emitiu um documento neste ano para modular a euforia da nova promessa, declarando que o procedimento ainda é totalmente experimental.

 

 

Os periódicos científicos em que os resultados de Zamboni foram publicados são de primeira grandeza, mas mesmo assim ainda não são suficientes para que esse tipo de tratamento seja indicado no mundo real. Pesquisas mais recentes têm colocado em xeque os achados iniciais, mostrando resultados discrepantes daqueles publicados por Zamboni. A última delas foi publicada esta semana. Essa é uma história que ainda vai render muitos capítulos.

 

 

 

Uma pesquisa publicada esta semana pelo periódico inglês Journal of Neurology Neurosurgery and Psychiatry apontou que as coisas parecem que não mudaram muito na cabeça dos neurologistas nesses últimos 100 anos quando eles estão diante de crises de histeria.

 

Todos os membros da Associação de Neurologistas Britânicos receberam por correio uma enquete com 33 questões que abordava a forma como a histeria era encarada na prática clínica. Cerca de 60% deles responderam, e isso não foi pouco, considerando a extensão do questionário.

 

Os resultados mostraram que os neurologistas concordavam teoricamente com a base psicológica do processo da histeria, mas na hora de definir o diagnóstico, a tendência era de usar diagnósticos com contextualização cerebral. Usa-se muito na prática clínica o diagnóstico “transtorno neurovegetativo somatoforme” que na classificação internacional de doenças tem o seu código F45.3.

 

Além disso, a maior parte dos voluntários respondeu que as crises conversivas se misturam com crises de fingimento e mais da metade não acreditava que a psiquiatria tenha uma explicação plausível para o fenômeno. Alguns responderam que as crises são fingimento puro, e este tipo de observação foi mais comum entre os mais velhos.

 

Conceitos enraizados… Boa parte dos neurologistas do século 21 continua a entender os pacientes com histeria com a mentalidade do século 19. Não acredito que no Brasil as respostas fossem muito diferentes.

 

A história da medicina nos mostra que os neurologistas no século 19 assistiam a pacientes que tinham crises estranhas em que de uma hora para outra passavam a não mais interagir com o ambiente e, depois de algumas horas ou dias, tudo voltava ao normal. Quando eles morriam, e o cérebro era examinado, nenhuma patologia em especial era encontrada que pudesse explicar os sintomas. Por isso, esse tipo de crise era interpretado por muitos médicos como se fosse só um fingimento. 

 

Freud mudou a história do pensamento humano quando introduziu o conceito do inconsciente. Desde então, crises como essas passaram a ser consideradas um transtorno psiquiátrico e que são chamadas de histeria ou crises conversivas. Esses pacientes não estão fingindo. Eles não sabem o que estão fazendo.

 

 

 

 

 

Resultados do estudo inglês Whitehall II foram publicados neste fim de semana pelo Annals of Neurology e apontaram que indivíduos com mais ocupação e maior nível educacional têm um melhor desempenho cognitivo, alcançaram uma maior reserva cerebral, mas nem por isso deixaram de apresentar perdas com o envelhecimento.

 

Cerca de 7500 ingleses, com uma média de idade de 56 anos no início do estudo, foram submetidos a testes seriados de desempenho cerebral por um período de dez anos. Três componentes que já têm demonstrada associação com o risco de demência – altura, educação e nível de ocupação – foram analisados em conjunto com os resultados dos testes cognitivos. Diferente de alguns estudos anteriores sobre o assunto, a presente pesquisa identificou a influência desses fatores numa fase um pouco mais precoce da vida. 

 

 

Todos esses três componentes confirmaram seu valor como marcadores de reserva cerebral: os mais altos (altura mesmo!), com maior nível educacional e com o cérebro mais ocupado foram os que tinham melhores escores nos testes cognitivos. O nível de ocupação foi o que apresentou a associação mais forte e altura foi o mais fraco. Após 10 anos de acompanhamento, com exceção do vocabulário, houve piora significativa de todas as outras capacidades pesquisadas: fluência verbal e fonêmica, raciocínio, e memória. 

 

O resultado mais importante da pesquisa foi que a velocidade de perda cognitiva não foi influenciada pelo nível de reserva cerebral do indivíduo. Entretanto, quanto maior o estímulo, maior a reserva, e mesmo que uma pessoa tenha a tendência genética a desenvolver a Doença de Alzheimer, com essa reserva mais avantajada, ela viveria mais anos sem apresentar sintomas. Análises dos cérebros de idosos que morreram sem qualquer suspeita clínica da doença de Alzheimer mostram que esses cérebros apresentam quase o mesmo contingente de alterações daqueles que têm o diagnóstico da doença. Essa é uma das bases da teoria de reserva cerebral.

 

Moral da história? Vamos encher os cérebros de reservas. Isso deve começar cedo, já na barriga da mãe: pré-natal e boa nutrição. Educação não pode faltar. Ocupar o cérebro é fundamental e um país com menos desemprego ajuda muito. Para os aposentados, o lazer inteligente faz a diferença. Aliás, o lazer é uma rica fonte de reserva cerebral em qualquer idade.

 

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