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Saímos hoje um pouco do formato de post a que estamos acostumados para discutir algo que tem sim a ver com a Consciência do Dia-a-Dia: o risco de atropelamento numa praia cearense.

 

Quando digo praia, é na areia mesmo. Passei sete dias agora com a família no Beach Park (Porto das Dunas – Fortaleza) onde minha filha de 4 anos quase foi atropelada duas vezes entre seu baldinho na areia e o mar, deixando o pai com o coração disparado por bons minutos. A cena é constante e daria uma matéria de TV bem relevante.

 

Os buggys até que são poucos, mas o vai e vem na areia é principalmente por parte dos 4X4 e dos quadriciclos. Os 4X4 passam freqüentemente a 50-60 km/h e a 3-4 metros das cadeiras e sombrinhas. Muitos estacionam entre as cadeiras de praia e o mar tampando a vista de quem está ali sentado. Aí a turma desce do carrão para curtir aquele determinado pedaço de praia. Alguns são mais sofisticados: a turma desce e quem cuida de montar as cadeiras e o guarda sol é o motorista – e o carro continua roubando um pedaço da areia e da vista do mar. Os quadriciclos são mais intrigantes ainda, pois chegam a bater pega entre eles, e a maioria dos pilotos é de crianças e adolescentes menores de idade.

 

Além da sensação de insegurança, ainda tem o problema da feiúra, pois os condomínios, hotéis e resorts** fazem barricadas improvisadas para tentar inibir o fluxo de veículos e proteger os hóspedes. Não é uma medida eficaz e a praia ainda fica parecendo uma barreira para entrar em território israelense.

 

** Aliás, alguém um dia me explica o que é resort, pois no que ficamos hospedados só se disponibilizava 6 guardas-sóis na praia para três edifícios com 121 apartamentos cada.

 

Que os cearenses não entendam esse post como crítica barata, mas uma lembrança para que cuidem melhor de suas praias e especialmente das vidas que ainda as freqüentam. Um cenário desse numa praia que tem como principal atrativo turismo para crianças (Aquapark), numa cidade em que o turismo é uma de suas galinhas dos ovos de ouro, parece que estão depenando essa galinha.  

 

# Há cerca de dez anos, fiquei “chapado” ao levar uma buzinada de um buggy na praia de Jericoacoara -CE para sair da frente pois eu estava caminhando na sua rota habitual. Eu já estava pra lá das dunas. Esse foi bem civilizado. Pelo menos buzinou… 

 

 

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É muito comum as pessoas terem na ponta da língua uma recomendação de saúde do tipo “não misture manga com leite, pois você pode entortar a boca”. Muitas dessas dicas da cultura popular são à vezes duvidosas e sem comprovação científica. Não ter o status de “cientificamente comprovadas” não significa que são simplesmente mitos. Uma coisa é uma crença que já passou por inúmeras provas científicas e aí então passou a ser considerada como um engano cientificamente comprovado (ex: Ginkgo biloba para turbinar o cérebro). Outra coisa são crenças que ainda não foram submetidas a estudos científicos e por isso devem ser vistos como algo que ainda não foi cientificamente comprovado. Uma das histórias mais emblemáticas que vivi nesse sentido foi a crença por parte de pacientes com epilepsia de que na época da lua cheia as crises epilépticas são mais freqüentes. Eu dava um sorriso silencioso toda vez que ouvia de um paciente essa história, com a sensação de que a cultura popular cria coisas fantasiosas. Em 2006 caí do cavalo com um estudo publicado na revista Neurology demonstrando que crises epilépticas eram realmente mais freqüentes na lua cheia.

 

Nesta semana, pesquisadores da Universidade de Indianápolis nos EUA desconstruíram mais seis mitos, alguns fortemente associados às nossas festas de fim de ano, e publicaram a revisão na última edição do British Medical Journal.  

 

 

* Suicídio é mais comum no feriado de fim de ano. É mito.

Justifica-se a idéia de que o suicídio pode ser mais comum nos feriados de fim de ano já que nessa data pessoas solitárias podem ter a solidão exacerbada, e no caso do hemisfério norte, também por coincidir com dias mais frios e noites mais longas do inverno. Entretanto, não há evidências científicas de que realmente exista um pico na incidência de suicídios nessa época do ano, mesmo em países do hemisfério norte. Os estudos existentes mostram que os suicídios na verdade ocorrem mais nos meses quentes do ano, e quanto à questão do “efeito solidão no natal”, as pesquisas mostram que as pessoas até mesmo procuram menos serviços psiquiátricos no natal, sugerindo que existe um maior componente de apoio emocional e social nessa época.   

 

* Açúcar provoca comportamento de hiperatividade em crianças. É mito.

São pelo menos 12 estudos de primeira grandeza mostrando que o consumo de açúcar não tem a ver com o comportamento hiperativo.

 

* A flor conhecida aqui no Brasil como Bico de Papagaio é um dos maiores símbolos de natal em vários países, sendo muito usada na decoração natalina e por isso é até chamada de Estrela do Natal ou Flor do Natal. Ainda existe na cultura popular certo receio de que a ingestão acidental da flor pode ser perigosa, e como não é tão raro as crianças comerem aquilo que não foi feito para comer… Intoxicação pelo Bico de Papagaio também é mito.

Registros de quase 23 mil casos de ingestão acidental da flor nos EUA não evidenciaram nenhum caso que precisasse de cuidados especiais. Uma pesquisa tentando definir a dose potencialmente tóxica da flor em ratinhos não conseguiu demonstrar efeito tóxico mesmo após a ingestão equivalente a 500-600 folhas da planta.

 

* A perda de calor é maior pela cabeça, correspondendo a 40-45% da perda, e por isso é fundamental o uso de chapéus nos dias frios. É mito.  

As pesquisas mostram que qualquer parte do corpo quando descoberta tem o potencial de perder calor proporcionalmente ao seu tamanho. A cabeça não tem nada de diferente das outras partes do corpo. O gorro do Papai Noel não é mais importante que o resto de sua roupa.  

 

* Comer à noite engorda mais que comer de dia. É mito.

Várias pesquisas revelam que não é o fato de comer à noite que engorda, mas sim o total de calorias ingeridas por dia. Também é verdade que quem faz várias refeições no dia tem menos chance de exagerar em uma única refeição noturna.

 

* Existe remédio para evitar ressaca.  É mito.

Não existe qualquer evidência que uma medicação ou suplemento alimentar possa ajudar a prevenir a ressaca. Pode-se dizer que o melhor remédio para evitar ressaca é beber pouco. Ao beber um pouco mais, evitar a desidratação com reposição de líquidos não alcoólicos pode fazer com que a ressaca seja menos penosa no outro dia.

 

 

CLIQUE AQUI e ouça um bae-papo na Rádio CBN sobre o assunto com o Dr. Ricardo Teixeira

 

 

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A obesidade há muito tempo não é mais vista como uma questão estética. É um dos grandes desafios de qualquer política de saúde pública já que está só um pouco atrás do tabagismo na lista das principais causas de morte precoce que podem ser prevenidas. Calcula-se que maus hábitos de vida como o tabagismo, sedentarismo e uma dieta prejudicial são responsáveis por cerca de 40% das mortes precoces em países como os Estados Unidos.

 

Um dos fatores que pode explicar a crescente prevalência da obesidade ao redor do mundo é um comportamento auto-destrutivo, privilegiando a gratificação imediata (prazer em comer) e pouco investimento naquilo que trará benefícios a longo prazo.  A mesma opção pela gratificação imediata que pode trazer prejuízos às pessoas (ex: gratificação imediata) poderia ser usada para ajudá-las.  Ou seja, o mesmo mecanismo cerebral que faz com que as pessoas sejam presas fáceis de uma gratificação imediata poderia ser usado também para o bem.

 

Uma pesquisa recentemente publicada pelo JAMA (Journal of the American Medical Association) ofereceu dois tipos diferentes de recompensa a um grupo de indivíduos obesos que só seriam recebidos se os participantes conseguissem perder o peso previamente estipulado. Aqueles que receberam a promessa de prêmio conseguiram perder mais peso no período de 4 meses do que o grupo controle que não recebeu o incentivo financeiro. Metade dos participantes que receberam a proposta de prêmio conseguiu alcançar a meta de peso definida, enquanto isso só aconteceu em 10% dos indivíduos do grupo controle.

 

Um próximo passo é avaliar se os resultados positivos são mantidos a longo prazo. Outra questão a ser investigada no futuro é o custo-benefício desse tipo de abordagem em comparação às atuais estratégias de combate à obesidade que não são nada baratos. Não é tão absurdo pensar que um dia chegaremos à conclusão de que oferecer prêmios à população para abandonar maus hábitos de saúde saia mais barato para um país do que arcar com suas conseqüências. Vale lembrar que hoje o programa Bolsa Família dá dinheiro a onze milhões de famílias que têm em contrapartida a responsabilidade de manter as crianças na escola, monitorização periódica de peso e altura, além de garantir a realização de pré-natal e vacinação.

 

 

 

 

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Não precisa nem falar que o melhor remédio contra o câncer é a prevenção e sabemos que campanhas para sua detecção precoce têm como uma de suas maiores dificuldades a baixa participação da população. O British Medical Journal acaba de publicar a experiência de um grande programa de detecção precoce de câncer colo-retal na Noruega que revelou que a participação é maior quando a pessoa têm a consulta médica marcada no mês de dezembro ou dentro de duas semanas após seu aniversário e também quando o convite à consulta é realizado na semana anterior ao aniversário. Além disso, mulheres e indivíduos mais idosos tiveram maior participação na campanha.

 

Não se pode dizer com certeza a razão para a maior participação da população nessas datas, mas é possível hipotetizar que tanto a data de aniversário como as festas de fim de ano nos fazem lembrar que estamos envelhecendo e por isso podemos dar mais atenção à nossa saúde nessas épocas. Talvez esse comportamento não seja muito diferente entre brasileiros e escandinavos e a grande importância desse estudo é que campanhas de prevenção podem ser mais bem sucedidas se realizadas em determinadas datas.

 

Clique aqui se quiser ler a pesquisa na íntegra (em inglês)

 

 

 

 

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Alguns estudos conduzidos na década de 90 nos Estados Unidos revelaram um aumento de mortalidade por doenças isquêmicas do coração nos meses mais frios. Além disso, observava-se também um pico de mortalidade durante o feriado de natal e ano novo, o que levantou a hipótese de que algum fator associado ao feriado poderia aumentar o risco de um infarto do coração (ex: estresse emocional, abuso de álcool). Em 2004 foi publicado pela American Heart Association uma pesquisa bem mais ampla confirmando os estudos anteriores, demonstrando que a mortalidade no feriado de fim de ano é cerca de 5% maior tanto para causas cardíacas como não cardíacas (excluindo-se mortes por causas violentas), e também foi independente do fator frio.

 

Como explicar esse Efeito Natal-Reveillon ? Algumas hipóteses:

 

1- Menos pessoas procuram os serviços médicos de emergência nos finais de semana e feriados, levantando a hipótese de que pode haver um adiamento pela procura de assistência médica, para não atrapalhar os dias de folga em que a visita a um pronto-socorro não está entre os programas mais desejáveis.

 

2- Excessos durante o feriado. É muito comum nos feriados de fim de ano as pessoas mudarem abruptamente suas rotinas de vida, incluindo aí o nível de atividade física, dieta e consumo de bebida alcoólica. Diferentes pesquisas já mostraram um ganho médio de 500 a 800 gramas após as festas de fim de ano, acompanhado de leve aumento nas taxas de colesterol, triglicerídeos e glicose. O estresse emocional pode ser relevante também. Algumas pessoas podem se desgastar emocionalmente com a corrida tumultuada às lojas e shoppings para dar conta dos presentes, e podem se estressar até mesmo pela necessidade de se reunir com parentes que evitariam a todo custo.  Essas hipóteses de certa forma apóiam os resultados de outros recentes estudos que mostraram que tanto o derrame cerebral isquêmico como o infarto do miocárdio ocorrem mais freqüentemente nas segundas-feiras. A volta ao trabalho na segunda-feira pode ser um fator emocionalmente estressante para muitos, assim como o fim de semana pode estar associado a excessos.

 

3- Redução da qualidade dos serviços hospitalares no feriado por redução do número de profissionais da saúde escalados para plantão.

 

Até que novos estudos esclareçam quais fatores têm maior influência sobre o Efeito Natal-Reveillon, é prudente aconselhar as pessoas a assumirem algumas atitudes durante o feriado, especialmente aquelas que são consideradas como grupo de risco para eventos vasculares:

 

ð Ao sentir algo suspeito, não adie a procura por um serviço médico de emergência só por que é feriado. Melhor ainda se conseguir chamar seu médico para lhe ver.

 

ð Aproveite o melhor das ceias: a companhia das pessoas queridas e os preciosos alimentos como as frutas, nozes, castanhas e o vinho sem exagero. Evite fatores reconhecidos como potenciais desencadeantes de eventos vasculares. O excesso de sal, álcool e alimentos gordurosos,  o estresse emocional, todos podem exigir dos vasos que alimentam seu cérebro e coração mais do que eles podem oferecer.

 

 

CLIQUE AQUI  e ouça um bate-papo sobre o assunto na Rádio CBN com o Dr. Ricardo Teixeira

 

 

 

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Já conhecemos uma série de atitudes no dia-a-dia que reconhecidamente podem turbinar nosso cérebro:  atividade física, sono e alimentação regulares, estar sempre aprendendo, equilíbrio psíquico, etc. Além disso, alguns estudos com as famosas pílulas usadas para turbinar o cérebro têm demonstrado que elas podem melhorar o desempenho intelectual até mesmo de indivíduos sem qualquer tipo de problema neurológico ou psiquiátrico. As medicações mais usadas para esse fim são as anfetaminas e o metilfenidato, indicadas no tratamento de indivíduos com o diagnóstico de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade.

 

O fato é que dispomos de pouquíssimas evidências científicas de que essas pílulas trazem reais benefícios cognitivos a indivíduos sem transtornos neurológicos ou psiquiátricos, e há até resultados mostrando que algumas pessoas podem piorar o desempenho. É como se nosso cérebro fosse uma orquestra bem afinada e introduzíssemos um violino a mais. Pode melhorar, pode não fazer diferença no resultado, ou pode até desafinar. E apesar desse conhecimento ainda estar engatinhando, essas medicações têm-se tornado cada vez mais populares entre adultos e adolescentes, na maior parte das vezes sem qualquer orientação médica.

 

Pesquisadores americanos e ingleses de primeira grandeza reuniram-se recentemente na Universidade Rockfeller e publicaram o resultado desse encontro na revista Nature no último dia 7 de dezembro. O documento tem o objetivo de conclamar todas as partes envolvidas para que se aprofunde a discussão, a regulação e as pesquisas “Pelo uso responsável dessas drogas por pessoas saudáveis”.  Elenco aqui os principais pontos de discussão do documento.

 

 Existe atualmente um forte mercado negro dessas medicações voltado para indivíduos saudáveis, com transações de compra e venda que podem ser punidas até mesmo com prisão em países como os Estados Unidos.

 

 O uso de medicações dessa natureza para melhorar o desempenho cerebral poderia ser visto como “trapaça” ao pensarmos que outras pessoas podem não estar usufruindo dos mesmos benefícios. Os autores defendem a idéia de que trapaça é quando se rompe uma regra, como é o caso do doping no esporte. Não dispomos ainda de regras que regulem se as pessoas podem ou não fazer uso dessas medicações (ou boas doses de café) para a realização de um concurso público, por exemplo. Outra situação: uma pessoa tem o hábito de investir no seu equilíbrio psíquico, como por exemplo através da meditação e atividade física regular, e outra pessoa não o faz. Esse equilíbrio psíquico tem grandes chances de aumentar o desempenho cognitivo, mas culturamente isso não costuma ser visto como trapaça, já que a pessoa “investiu seus esforços” para alcançar sua vantagem. Por que a vantagem alcançada por pílulas deveria ser vista de outra forma? E será que essas drogas realmente oferecem vantagens no aprendizado ou só melhoram o desempenho a curto prazo em dias de maiores desafios? Será justo para aqueles que não usam as drogas concorrer com outros cérebros “turbinados”? Seria a mesma coisa se parte dos concorrentes num teste de matemática estivessem usando calculadora e outra parte não?

 

 O consumo dessas medicações poderia ser visto como uma forma de artificializar a vida. Os autores provocam uma reanálise daquilo que é genuinamente natural na vida do homem contemporâneo: meios de transporte, alimentação, cirurgia plástica, reprodução assistida, etc.

 

 Medicações dessa natureza poderiam provocar dependência e efeitos colaterais. Não se dispõe desse conhecimento quando se fala em consumo por indivíduos saudáveis. Por outro lado, até a cafeína é passível de desenvolver dependência e efeitos colaterais, apesar do seu risco de fazer mal à saúde ser infinitamente menor do que de outras drogas. Com base na atual experiência, talvez os riscos de dependência / efeitos colaterais das medicações estimulantes não sejam muito diferentes do que os da cafeína e por isso não há razões para tanto receio. É preciso avançar nas pesquisas sobre o assunto.

 

 Em crianças, as questões éticas são muito mais complexas. A primeira questão é em relação à segurança dessas medicações em indivíduos que ainda têm o cérebro em franco desenvolvimento. Além disso, a criança não tem o poder de fazer suas próprias escolhas. Entre os adultos, há de se considerar no futuro questões éticas ligadas à obrigatoriedade em se usar tais medicações em algumas situações ocupacionais. Nos EUA, o modafinil é hoie uma droga aprovada pelo FDA para trabalhadores em turno invertido. Será que o empregador poderá um dia obrigar o trabalhador a usar a medicação para evitar acidentes ou para melhorar o desempenho?

 

 Como qualquer tecnologia, drogas para turbinar o cérebro poderão um dia ser bem usadas ou mal usadas. Há muito trabalho pela frente para se avaliar seus custos e benefícios, para se educar a população sobre o assunto e para ajustar a legislação vigente caso se consiga demonstrar que elas são realmente seguras e eficazes para as pessoas que querem turbinar seus cérebros.   

 

 

** Em entrevista concedida à Scientific American e publicada na última edição da revista Mente & Cérebro, o Prêmio Nobel Eric Kandel, o neurocientista mais renomado do planeta e certamente um dos pesquisadores que mais contribuíram para o nosso atual entendimento da memória, declara: “Ainda não temos evidências de segurança e nem mesmo de eficácia do uso de medicações para melhorar o cérebro de pessoas saudáveis. Eu não aconselharia meus netos, pelo menos por enquanto, a usar essas medicações”.

 

Ler também: Pílulas para turbinar o cérebro. Onde estamos e onde podemos chegar?

 

CLIQUE AQUI e veja a entrevista com o Dr. Ricardo Teixeira sobre o assunto no Jornal Hoje- Rede Globo

 

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O estado de felicidade está associado a diversos aspectos do bem estar, incluindo a saúde orgânica e mental, a relação familiar, relações e o próprio desempenho no trabalho, rede social, e há de se considerar também a dimensão espiritual. Uma série de estudos tem demonstrado que o estado de felicidade do indivíduo guarda relação com uma série de indicadores fisiológicos e de saúde: a) menor mortalidade; b) menores índices de marcadores hormonais, inflamatórios e do ritmo cardíaco associados ao estresse; c) maior rede e suporte sociais.

 

Um estudo publicado esta semana pelo British Medical Journal confirma que nosso estado de felicidade é mesmo um fenômeno de rede social, ou seja, depende do grau de felicidade das pessoas com as quais estamos conectados. A pesquisa foi desenvolvida com quase 5 mil pessoas do grupo Framingham e que foram acompanhadas por décadas. O grau de felicidade foi medido usando um componente do questionário CES-D já bem validado em estudos anteriores. Quatro perguntas eram aplicadas quanto à percepção de alguns sentimentos na última semana pelo indivíduo entrevistado: 1) Senti-me esperançoso quanto ao futuro; 2) Eu estava feliz; 3) Eu aproveitei a vida; 4) Eu senti que estava tão bem quanto as outras pessoas.

 

A análise da rede social dos indivíduos envolvidos no estudo revelou que há uma tendência de pessoas felizes estarem no centro de suas redes sociais e próximas de outras com alto grau de felicidade, criando aglomerados de pessoas felizes. Além disso, ao longo do tempo, as pessoas ficaram mais felizes quando passaram a ser cercadas por outras felizes. Um amigo feliz que mora por perto (menos de 2 km) aumentava a chance de uma pessoa ser feliz em 25%, irmãos felizes por perto em 14%, e vizinhos em 34%. Esse efeito contagioso da felicidade diminui com o tempo e também com a distância entre as pessoas, e não foi percebido entre colegas de trabalho. A felicidade de uma pessoa esteve associada à felicidade dos outros em até três graus de sua rede social (ex: “amigo do amigo do amigo”). Esse contágio do comportamento em três graus parece ser uma regra genérica, já que os mesmos pesquisadores recentemente o demonstraram também em outros padrões de comportamento como o tabagismo e a obesidade.

 

E qual seria a explicação para isso? Pesquisas já haviam demonstrado que existe um certo contágio emocional entre as pessoas. Pessoas que mantém contato com um indivíduo deprimido têm maior tendência a ficarem deprimidas. Emoções positivas também se disseminam entre as pessoas próximas. Emoções positivas, o sorriso, o estado de felicidade, todos podem ser vistos do ponto de vista evolutivo como um mecanismo que facilita as relações sociais ao promover sentimentos prazerosos nos outros, recompensar os esforços dos outros e encorajar a continuidade da relação social. E o sucesso da espécie humana depende de sua capacidade de fazer relações sociais.  

 

 

O estudo é relevante do ponto de vista de saúde pública já que sugere que intervenções com potencial de aumentar a felicidade das pessoas (ex: melhoria do estado de saúde) podem provocar resultados positivos em cadeia. A Organização Mundial da Saúde tem reconhecido cada vez com maior ênfase a felicidade como um dos componentes da saúde. Se a felicidade é mesmo contagiosa como a pesquisa sugere, ela pode contribuir também para a transmissão social da saúde.   

 

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O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) tem sido bastante explorado entre as crianças e só recentemente passou também a ser melhor entendido nos adultos. Estima-se que cerca de 60% das crianças com diagnóstico de TDAH continuam a apresentar os sintomas (desatenção, inquietude, impulsividade) durante a adolescência e idade adulta e pesquisas revelam que os adultos podem ter significativo prejuízo no seu desempenho no trabalho.

 

Um grande estudo realizado pela Organização Mundial da Saúde em dez países revelou que 3.5% dos adultos entre 18 e 44 anos inseridos no mercado de trabalho podem ser classificados como portadores de TDAH. Esses indivíduos apresentavam mais absenteísmo e menos desempenho no trabalho quando comparados a indivíduos sem TDAH.  Apesar de apenas uma minoria ter história de receber tratamento específico, uma grande proporção era tratado por outros transtornos mentais, considerados como comorbidades: transtornos que são mais comuns entre os que têm diagnóstico de TDAH do entre aqueles sem TDAH. Os resultados dessa pesquisa foram recentemente publicados no periódico Occupational and Environmental Medicine.

 

A pesquisa chama à atenção que programas para identificação e tratamento de indivíduos com TDAH no ambiente de trabalho podem ter uma boa relação custo-benefício para o empregador, por conta de uma potencial melhora no desempenho no trabalho.  

 

 

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A mídia é vista como cão de guarda das relações entre médicos, pesquisadores e a indústria farmacêutica. Uma discussão recente do British Medical Journal levanta a poeira de uma discussão que tem recebido pouca atenção da mídia: E quem é que vigia os cães de guarda, suas relações com a indústria farmacêutica e de materiais e equipamentos médicos? A responsabilidade do jornalismo em saúde vai desde a alfabetização em saúde da sociedade até a influência que exerce sobre a prática dos médicos, já que ciência médica divulgada pela mídia é mais conhecida também pelos próprios médicos e recebe mais citações em artigos científicos, independente da sua qualidade.

 

A relação entre a indústria farmacêutica e o jornalismo em saúde não é nada desprezível. Nos Estados Unidos ela já começa com relações comerciais com programas universitários de jornalismo em saúde. Indústrias farmacêuticas financiam bolsas de estudo, programas de TV, e também oferecem prêmios em jornalismo em saúde. A Academia Americana de Escritores em Medicina, que tem em seu quadro jornalistas e especialistas em relações públicas, também tem relação com a indústria farmacêutica incluindo o financiamento da conferência anual da academia e bolsas de estudo.

 

As boas revistas científicas solicitam aos pesquisadores que declarem se há conflitos de interesse na publicação, e isso aparece na publicação de forma transparente, ex: Dr. tal declara ser consultor científico da indústria farmacêutica tal que financiou a pesquisa. O mesmo não acontece na mídia em geral. As indústrias patrocinam programas de TV, patrocinam associações de pacientes que por sua vez dão entrevistas aos jornais e à TV para “humanizar” a reportagem. Em nenhuma dessas situações podemos ver qualquer referência a esses conflitos de interesse.

 

Como cães de guarda, os jornalistas fazem bem o trabalho de vigiar as possíveis relações entre médicos e a indústria. Podem fazer ainda melhor: dar o exemplo. O hábito de declarar possíveis conflitos de interesse pode aumentar a credibilidade do jornalismo em saúde.

 

 

 

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Comportamentos de risco são assumidos por pesquisas psicológicas e biomédicas como uma expressão anormal do comportamento, que pode ser justificado por sua associação com o abuso de substâncias psicoativas e com transtornos psiquiátricos como o transtorno bipolar. Por outro lado, um comportamento de risco, quando bem dosado, pode ter seu lado positivo. O que dizer dos indivíduos empreendedores, que correm o risco de abrir seus próprios negócios?

 

Pesquisadores ingleses partiram da hipótese que empreendedores seriam modelos de comportamento de risco muito bem adaptados do ponto de vista evolutivo, graças a algumas características como impulsividade e habilidade de tomar decisões em situações de estresse e em ambientes em rápida transformação. Dezesseis indivíduos que já haviam criado pelo menos duas empresas foram comparados a dezessete gerentes de empresas e sem experiência em ter criado sua própria empresa. O estudo foi publicado na última edição da revista Nature.

 

Uma série de testes foi aplicada a ambos os grupos para avaliação de habilidades de tomada de decisão. Os grupos apresentaram desempenho similar quando o teste envolvia decisões “frias”, que na vida real poderia ser ilustrada pela decisão de contratar um novo funcionário, decisões neutras do ponto de vista emocional. Quando o teste era associado a decisões “quentes”, os empreendedores se comportaram de forma mais arriscada. Decisões “quentes” podem ser exemplificadas como a decisão de se investir em uma entre duas opções arriscadas de negócio, com possível desfecho de recompensa ou punição, e com inequívoco envolvimento emocional.  Os empreendedores mostraram também uma maior flexibilidade cognitiva para resolução de problemas, e maiores scores em testes que medem impulsividade.   

 

O mesmo grupo de pesquisadores já havia demonstrado que o desempenho em testes de decisões “quentes” diminui com o envelhecimento. Os gerentes estudados nesse último estudo realmente apresentaram esse padrão, mas o desempenho dos empreendedores (média de idade de 51 anos) foi semelhante ao de indivíduos mais jovens. Os autores chamam também à atenção para outro estudo por eles conduzido apontando que o desempenho desse tipo de teste pode ser aumentado com o uso de medicação (metilfenidato), no caso de pacientes com o transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. Chegam até a interrogar se intervenções medicamentosas não poderiam desenvolver o perfil empreendedor das pessoas.

 

 

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A pobreza é reconhecida como um dos principais fatores que contribuem para o número de pessoas com retardo mental ao redor o mundo. Em países desenvolvidos, a prevalência de retardo mental situa-se em torno de 3-5 / 1000 indivíduos, enquanto em países pobres encontramos uma prevalência que chega a ser cinco vezes maior. Uma estimativa recentemente publicada na revista Lancet por um painel de experts no assunto aponta que cerca de 200 milhões de crianças menores de cinco anos em países subdesenvolvidos não atingem seu pleno potencial de desenvolvimento cognitivo devido a condições associadas à pobreza. A pobreza está por trás de dois dos principais fatores de risco para o retardo mental: deficiência nutricional e de estímulo cerebral. Uma revisão sobre o assunto publicada pela Academia Americana de Neurologia em agosto de 2008 intitula o problema como UMA EPIDEMIA NEUROLÓGICA ESCONDIDA. Do ponto de vista de saúde pública, a pobreza tem um impacto sobre o estado neurológico muito maior que a grande maioria das doenças neurológicas com suas organizadas sociedades médicas e associações de pacientes, e com seus medicamentos que movem o business da saúde.

 

Atacar de frente a pobreza vai além da questão de humanismo, de direitos humanos. O Banco Mundial reconhece que dentre todas as intervenções em saúde, o controle da desnutrição pode ser considerada a que apresenta melhor custo-benefício. E os primeiros anos de vida de uma criança são os mais vulneráveis para o cérebro, começando a contar desde o primeiro dia da concepção, na barriga da mãe. A mãe precisa comer bem! Todo mundo tem que comer bem. E uma coisa puxa a outra. Crianças desnutridas têm menor chance de chegar à escola, e quando chegam têm maior chance de evasão.

 

Há cerca de uma semana o maior programa de transferência de renda do mundo, o Bolsa Família, ficou órfão com a precoce morte de Rosani Cunha, secretária nacional do programa desde 2004. É bom entendermos por meio de números o tamanho do trabalho de Rosani, e daqueles que a acompanharam e a antecederam. Ela certamente está na galeria daqueles que mais fizeram pelo cérebro dos brasileiros.

– O Programa Bolsa Família atende atualmente a 11 milhões de famílias pobres. Além da transferência de renda, que permite a compra de alimentos, as famílias devem manter seus filhos na escola. Devem seguir ainda uma agenda de acompanhamento da saúde, como vacinação, pré-natal e acompanhamento nutricional de gestantes, nutrizes e crianças até completarem 7 anos.

– Entre 2003 e 2006, a redução da pobreza foi de 31,4%. Quatorze milhões de pessoas superaram a condição de pobreza no período. A concentração de renda no país atingiu, em 2006, o menor índice dos últimos 30 anos. Uma pesquisa aponta que 93% das crianças e 82% dos adultos beneficiários fazem três ou mais refeições por dia.

– A taxa de mortalidade infantil no Brasil caiu de 47 por mil, em 1990, para 25 por mil, em 2006 – uma queda de 45%.

– A desnutrição medida por peso por idade das crianças com menos de 1 ano diminuiu de 10%, em 1999, para 2,4%, em 2006. Entre as crianças de 1 a 2 anos de idade, a desnutrição caiu de 20% para 5%. Ou seja, a queda da desnutrição nas duas faixas etárias foi superior a 75% em sete anos.

– O Relatório de Desenvolvimento Humano 2007/2008 da ONU registra que o Brasil atingiu um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de 0,8 – situando-o, pela primeira vez, no grupo de países de alto desenvolvimento humano. 

 

 

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Em editorial intocável publicado esta semana no British Medical Journal por Fiona Godlee, editora da revista, temos mais uma oportunidade de repensar a importância da Alfabetização em Saúde da população. A Associação Americana de Medicina define o conceito de Alfabetização em Saúde como a capacidade de obter, processar e compreender informação básica em saúde necessária à tomada de decisões apropriadas e que apóie o correto seguimento de instruções terapêuticas.

 

O recado de Fiona parte do fato de que há muito que se fazer pela Alfabetização em Saúde e essa não é uma questão de que “seria bom” investir nisso, mas que esse investimento é imperativo. Estima-se que nos EUA anualmente são gastos entre 106 e 236 bilhões de dólares anuais por conta do baixo nível de Alfabetização em Saúde e suas conseqüências: a não procura de ajuda médica quando necessária, a dificuldade em assumir hábitos de vida saudáveis, erros no uso de medicações, etc.

 

A melhora da comunicação em saúde tem de ser pensada já desde o nível da relação médico-paciente, assumindo que o paciente é capaz sim de entender questões que os médicos podem julgar ser de difícil entendimento, e a maioria dos pacientes quer entender melhor seus problemas. É preciso também melhorar a qualidade do jornalismo em saúde, pois ele representa uma das principais fontes de informação em saúde da população. Jornalistas, médicos e demais profissionais da saúde, cientistas, agências governamentais, indústrias farmacêuticas e de equipamentos médicos, cada qual tem sua parcela de responsabilidade pela qualidade da informação em saúde que chega até o público leigo. Espera-se que cada parte faça seu papel de forma ética e que dialoguem entre si para a construção de um movimento que assegure à população informação cada vez mais correta e de qualidade.

 

 

 

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O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é uma condição geneticamente herdada que se caracteriza por sintomas de desatenção, inquietude e impulsividade. O problema acomete entre 6 e 8% das crianças em todo o mundo e ate 60% delas continuarão a apresentar os sintomas durante a adolescência e idade adulta. Uma série de estudos já havia demonstrado associação entre traumas cranianos em fases precoces da vida e o desenvolvimento posterior de TDAH. A questão que ainda não havia sido resolvida era se o trauma em si poderia colaborar para o desenvolvimento de TDAH ou se o trauma na verdade já é o resultado de um comportamento mais impulsivo e de risco entre crianças com maior tendência a desenvolver o transtorno. Um estudo publicado hoje pelo British Medical Journal ajuda muito a repensar essa questão.

 

 

Os pesquisadores avaliaram 62 mil crianças divididas em três grupos: 1) crianças com história de trauma craniano antes dos 2 anos de idade; 2)  crianças com história de queimadura antes dos 2 anos de idade; 3) crianças com nenhuma das 2 condições anteriores. Os resultados mostraram que tanta as crianças com história de traumatismo craniano como as com história de queimadura tinham mais chance de apresentar o diagnóstico de TDAH antes dos 10 anos de idade. Esses resultados reforçam bastante a hipótese de que não é o trauma craniano que aumenta a chance de desenvolver TDAH, mas que crianças com história de trauma mais freqüentemente tem um comportamento associado a um maior risco de acidentes em geral, como é o exemplo das queimaduras.

 

 

 

 

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Temos uma série de evidências de que crianças que aprendem a tocar um instrumento musical na infância têm ganhos significativos em habilidades motoras e auditivas e que também são utilizadas em diversas outras situações do dia-a-dia. Além disso, pesquisas já demonstraram que o aprendizado musical na infância pode aumentar o desempenho em outras dimensões cognitivas como habilidades espaciais, matemáticas, de linguagem verbal, e até mesmo uma associação com maior QI e desempenho acadêmico na idade adulta.

 

Um novo estudo publicado esta semana no periódico PloS ONE confirma parte desses achados ao mostrar que crianças que tiveram aprendizado musical por pelo menos três anos apresentam melhor desempenho motor e auditivo como também  uma melhor habilidade verbal e de raciocínio não verbal. Uma das formas de explicar os resultados é o próprio efeito estimulante do estudo da música sobre o cérebro. Por outro lado, as crianças que recebem educação musical podem na verdade terem pais mais dedicados ao processo educacional dos filhos como um todo. Além disso, crianças que passam anos no processo de educação musical podem ser genuinamente mais persistentes e motivadas do que aquelas que começam e desistem logo em seguida. E se são mais persistentes para a música, têm chance de serem mais persistentes também nas tarefas da escola.

 

Essa nova pesquisa é a divulgação de resultados parciais de um grande estudo longitudinal conduzido por pesquisadores de Harvard e que devem num futuro próximo nos trazer respostas mais precisas de quais desses mecanismos são os mais relevantes para explicar a relação entre a música e o sucesso cerebral das crianças.

 

 

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A cafeína quando absorvida atravessa a placenta livremente e estudos em humanos demonstram que imediatamente após a ingesta de 200mg de cafeína, o fluxo sanguíneo placentário é reduzido em 25%. Além disso, o principal mecanismo de metabolismo da cafeína (Citocromo P450 1A2) é ausente tanto na placenta como no feto.

 

Já temos evidências que o consumo de cafeína na gravidez aumenta o risco de aborto espontâneo e de gerar recém-nascidos de baixo peso, especialmente em doses maiores que 200mg/dia.  Alguns estudos demonstraram que o excesso de café também pode reduzir a fertilidade feminina. Um novo estudo publicado esta semana no British Medical Journal sugere que ao invés de maneirar no café durante a gravidez, o melhor mesmo é evitá-lo.

 

Quase três mil mulheres com gravidez de baixo risco foram acompanhadas durante a gravidez com rígida monitorização do consumo de cafeína, álcool e cigarro, além de terem sido avaliadas quanto ao perfil individual de rapidez no metabolismo da cafeína. Confirmou-se a associação entre o consumo de cafeína na gravidez e menor peso dos recém-nascidos, e quanto maior a dose diária de cafeína, maior o efeito. IMPORTANTE: não houve dose baixa de cafeína que pudesse ser considerada segura no sentido de não influenciar o peso dos bebês. Além disso, o impacto do consumo de cafeína sobre o peso dos bebês foi semelhante ao do consumo de álcool no grupo estudado.

 

Não custa lembrar que a cafeína não está só no café e na coca-cola. Sua principal fonte de consumo entre essas mulheres estudadas foi o chá (60%), enquanto só 14% era por consumo de café. Tanto nos EUA como na Inglaterra, as agências federais de saúde recomendam que na gravidez não se deva usar mais que 300mg de cafeína por dia. Esse novo estudo certamente mudará a atual recomendação para que se evite cafeína de qualquer origem durante a gravidez. Para as mulheres que estão querendo engravidar, é bom reduzir o consumo também.

 

 

Leia também  Afinal, Café faz bem à saúde?  

 

 

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Em diversos países, o Ecstasy  é a segunda droga ilegal mais utilizada, perdendo só para a maconha.  Já dispomos de uma série de estudos experimentais que evidenciam que o Ecstasy é tóxico aos neurônios, especialmente às ramificações de neurônios que produzem serotonina, neurotransmissor fortemente vinculado à regulação de funções como a memória e o humor. Pesquisas que avaliaram a associação do uso do Ecstasy com alterações cerebrais deixam dúvida se as alterações encontradas são conseqüências da droga ou se são elas que fazem com que o indivíduo tenha mais predisposição a usá-la. Ovo ou galinha? Um novo estudo divulgado ontem pela revista inglesa Brain traz novidades bastante esclarecedoras.

 

Pesquisadores holandeses selecionaram cerca de 190 indivíduos entre 18 e 35 anos de idade que nunca tinham usado Ecstasy e que eram considerados como potenciais usuários em futuro próximo: ou porque declararam tal intenção ou porque tinham um ou mais amigos que usavam a droga. Diversas técnicas de neuroimagem foram inicialmente realizadas, e após 12 meses de seguimento os voluntários voltavam a ser submetidos a novas imagens cerebrais até três anos de seguimento. Ao longo do acompanhamento, 59 pessoas haviam usado a droga (média de 6 unidades, variando de 0.5 a 80), e esses foram comparados a outros 56 do grupo original que não experimentaram a droga. Os grupos não foram diferentes quanto à idade, uso de álcool, maconha, anfetamina e cocaína.

 

Foi identificada uma série de anormalidades cerebrais no grupo de indivíduos que usaram Ecstasy: alterações na perfusão sanguínea, na estrutura da substância branca e maturação cerebral. O importante é que essas alterações realmente foram adquiridas após o início do estudo, quando os voluntários ainda não apresentavam essas alterações. Um estudo anterior já havia demonstrado leve redução da capacidade de memória verbal em usuários leves da droga. Ainda não se pode concluir se essas alterações são irreversíveis, mas esses resultados são fortemente indicativos que o uso de Ecstasy pode ser neurotóxico, mesmo em baixas doses.

 

 

 

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Um estudo publicado ontem no respeitado periódico New England Journal of Medicine aponta que a primeira semana do horário de verão aumenta o risco de infarto do coração. O efeito é ainda mais significativo entre indivíduos com menos de 65 anos e entre as mulheres. Os pesquisadores avaliaram a incidência de infarto do coração na Suécia entre 1987 a 2006. 

 

A melhor explicação para esses resultados é o conhecido efeito da privação do sono no sistema cardiovascular. Pesquisas demonstram que a privação do sono é capaz de aumentar marcadores de inflamação (ex: citocinas), aumenta o nível de atividade do sistema nervoso autônomo simpático, podendo gerar alterações metabólicas significativas.  Será que não seria justo oferecer à população uma transição mais flexível na implantação do horário de verão, como por exemplo, poder começar o trabalho uma hora mais tarde nos primeiros dias? Isso poderia ser especialmente relevante na segunda-feira e para aqueles que têm reconhecido risco vascular, pois já sabemos que é na segunda-feira que ocorre o maior número de casos de infarto do coração e derrame cerebral. Esse efeito pode ser explicado pelo estresse de ter que voltar ao trabalho e até mesmo pelos excessos do fim de semana.

 

É de se esperar que as autoridades estejam repensando o custo-benefício do horário de verão ou uma maior flexibilização do horário na primeira semana de implantação. Na hora de refazer as contas, é importante considerar que pesquisas tanto no Canadá quanto nos EUA mostram que na primeira semana da implantação do horário os acidentes de trânsito aumentam cerca de 8%.

 

  

 

 

 

Já faz uma década que pesquisadores têm procurado definir se o campo magnético dos telefones celulares está associado a um maior risco de tumores cerebrais. O tema sempre foi tratado como controverso e a partir do ano de 2007 alguns estudos têm mostrado o que o negócio da telefona móvel não gostaria de ouvir.

 

Pesquisadores suecos demonstraram que o uso de celular por mais de dez anos está associado ao risco de tumores cerebrais do mesmo lado do cérebro em que o aparelho é usado, especificamente gliomas e neurinoma do nervo da audição. Por outro lado, há uma série de pesquisas que não conseguiram demonstrar essa relação. Em abril de 2008 foi publicada uma metanálise, um tipo de balanço geral de todos os estudos realizados até então, e que evidenciou haver associação entre o uso de celular a longo prazo e tumores cerebrais (Hardell et al., Int J Oncol 2008).

 

Este ano uma série de neurocirurgiões de grande renome mundial tem se manifestado no sentido de que a tarefa de provar definitivamente que o celular causa tumor cerebral é só uma questão de tempo, já que uma lesão dessa natureza precisa de pelo menos dez anos para se desenvolver. Já existem estudos mostrando que a incidência de tumores cerebrais tem aumentado, e uma das explicações seria o diagnóstico por imagem cada vez mais desenvolvido, com uma crescente disponibilidade de aparelhos de tomografia computadorizada e ressonância magnética. A última edição da revista Surgical Neurology, jornal oficial da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia em nível internacional em conjunto com outras sociedades, traz um editorial conclamando a cooperação da sociedade científica com os órgãos governamentais para tirar essa história a limpo, devido à potencial gravidade da situação.

 

Tanto se reconhece a dúvida do risco dos celulares que o governo francês a partir desse ano passou a recomendar que as crianças devem evitá-los, e tanto o governo alemão quanto a Agência Ambiental Européia recomendam restrições ao uso de celular.  Hoje em dia há cerca de três bilhões de usuários ao redor do mundo. Em Brasília há mais de um celular por habitante. Quem viver verá o resultado dessa polêmica. 

 

 

 

   

 

 

 

A enxaqueca é um transtorno neurológico que chega a acometer quase 20% das mulheres e é mais freqüente justamente nas fases de vida mais produtivas: entre 25 e 55 anos. Alguns estudos têm demonstrado que pessoas com enxaqueca perdem de 1 a 4 dias de trabalho por ano devido ao problema. Nos EUA, estima-se que o absenteísmo secundário à enxaqueca leva a um prejuízo de 8 bilhões de dólares ao ano.

 

A maioria das pesquisas que avaliou a relação entre enxaqueca e absenteísmo não oferece a possibilidade de comparação dos dias de trabalho perdidos com a população geral. Os poucos estudos que disponibilizaram essa comparação geraram resultados conflituosos, alguns deles com amostras populacionais pequenas.

 

Um novo estudo publicado este mês na revista Cephalalgia demonstrou que mulheres com enxaqueca realmente faltam mais ao trabalho por razões médicas do que a média da população. O estudo acompanhou por três anos mais de 27 mil mulheres do serviço público finlandês e revelou que 24% dessa amostra apresentava diagnóstico de enxaqueca realizado por médico. Mulheres com enxaqueca apresentaram cinco dias a mais de absenteísmo por ano quando comparado às mulheres sem enxaqueca, enquanto depressão e problemas respiratórios causavam 14 e 6 dias a mais de absenteísmo por ano respectivamente.  

 

Do ponto de vista econômico, o absenteísmo é apenas uma parte do prejuízo causado pela enxaqueca, já que mesmo que o profissional não tire licença por conta de crises, sabe-se que seu desempenho no trabalho é prejudicado. A realização de campanhas educativas para um maior reconhecimento e diagnóstico do problema, podendo assim proporcionar tratamento adequado a mais pessoas, é uma importante estratégia para melhorar a qualidade de vida e a capacidade de trabalho de uma parcela bem significativa da sociedade.

 

** O mesmo grupo de pesquisadores publicou no início do ano uma pesquisa que mostrou que mulheres realizadas profissionalmente têm menos enxaqueca.

Clique aqui e confira o post relacionado a esse estudo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Temos acompanhado nos últimos anos uma série de estudos que demonstra que o consumo moderado de álcool reduz o risco de doenças cardiovasculares, incluindo o infarto do coração e o derrame cerebral. Devemos entender consumo moderado como até duas doses de bebida por dia para homens e uma dose para mulheres. Além disso, é bem reconhecido que a relação entre álcool e doenças cardiovasculares tem um comportamento estatístico conhecido como curva J. Quanto mais alta a posição na curva J, maior o risco. Isso significa que a ausência de consumo de álcool, que está na ponta inferior do J, está associada a um risco maior de doenças cardiovasculares do que o consumo moderado que se encontra na “barriga” do J. Quem bebe pouco tem menos eventos cardiovasculares do que quem não bebe. Por outro lado, o consumo exagerado de álcool, que se encontra na ponta superior do J, reflete um maior risco de doenças cardiovasculares.

 

Alguns estudos epidemiológicos têm demonstrado que o álcool também tem um comportamento semelhante à curva J quando o assunto é declínio das capacidades cognitivas com o envelhecimento, sendo que o consumo moderado está associado a um menor risco de demência, e o consumo excessivo a um maior risco (ponta superior do J). Temos ainda resultados de pesquisas nos mostrando que o excesso de álcool está associado à redução do volume do cérebro. Na verdade, já a partir dos 15 anos de idade nosso cérebro já tem seu peso reduzido em 1.5-1.19% por década, e essa redução não significa que há perdas funcionais. E será que o consumo moderado de álcool reduz esse ritmo de perda de volume cerebral? Na tentativa de responder a essa pergunta, uma população significativa de americanos sem história de derrame cerebral ou demência (grupo Frahmingham Offspring) foi avaliada quanto ao histórico de consumo de álcool e submetida à ressonância magnética do crânio. Os resultados foram publicados na última edição da revista Archives of Neurology. Confirmaram-se resultados anteriores de que o consumo excessivo de álcool está associado a um maior risco de redução do volume cerebral, e esse efeito foi mais forte nas mulheres do que nos homens. Além disso, não foi possível demonstrar que o uso moderado de álcool tenha efeito protetor sobre a redução do volume cerebral.

 

Já existe realmente um bom corpo de pesquisas mostrando o efeito protetor do álcool em doses moderadas. Além disso, o efeito protetor do vinho tinto parece ser superior ao de outras bebidas, pois além do álcool, ele possui outras substâncias nobres antioxidantes (ex: polifenóis).  Do ponto de vista de saúde pública, não se deve fazer campanhas convidando a população a começar a beber. A recomendação é de que quem já bebe não precisa parar, desde que consiga beber dentro dos limites considerados seguros (duas doses diárias para homens e uma dose para mulheres). Quem não bebe não deveria começar a beber, já que hábitos como uma dieta inteligente e atividade física regular podem ser mais interessantes à saúde que os potenciais efeitos positivos do álcool.

 

  

 

 CLIQUE AQUI e confira matéria do jornal Correio Braziliense sobre o tema com o Dr. Ricardo Teixeira

 

 

 

 

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