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O jornalismo é freqüentemente criticado por divulgar conteúdo sensacionalista, e no caso do jornalismo em saúde, critica-se que muitas matérias supervalorizam os resultados de uma pesquisa e ainda deixam de reportar suas limitações. Um exemplo bem ilustrativo é uma recente publicação por uma das mais importantes agências de notícias do mundo: “Maconha pode preservar memória na velhice, sugere estudo”. Parece até que é bom fumar maconha quando jovem para prevenir a Doença de Alzheimer. Na verdade a matéria trata de estudos experimentais com ratinhos em busca de uma droga sintética que ao se ligar nos mesmos receptores que atua a maconha no cérebro, poderia então reduzir alterações inflamatórias que colaboram para o desenvolvimento da Doença de Alzheimer. Isso está bem longe da chamada “Maconha pode preservar memória na velhice”, e nesse caso específico, ao lado do título ainda tem um jovem fumando um cigarro de maconha.   

 

Mas será que está só nas mãos dos jornalistas a responsabilidade pela qualidade das matérias em ciências da saúde divulgadas pela mídia? Um estudo recém-publicado pelo periódico Annals of Internal of Medicine sugere que os institutos de pesquisa têm muito a colaborar para a melhoria da qualidade da informação que chega até o público leigo.

 

Com a suspeita de que parte daquilo que se aponta como sensacionalista tenha origem nos próprios comunicados de imprensa disponibilizados pelos institutos de pesquisa, pesquisadores americanos avaliaram sistematicamente os comunicados de imprensa de vinte diferentes institutos de pesquisa. A análise desses comunicados revelou que cada instituição disponibilizava uma média de 49 comunicados por ano. Dentre os comunicados analisados, quase metade (44%) era referente a estudos laboratoriais ou experimentos com animais, sendo que 74% desses frisavam de forma explícita a potencial relevância do estudo para a saúde humana. Ao se analisar os estudos realizados em humanos, 23% omitiu o tamanho da amostra estudada e 34% não quantificou os resultados. Apenas 17% dos comunicados de pesquisas com humanos eram referentes a pesquisas com metodologia robusta (ex: estudos randomizados, metanálises). Por outro lado, 40% dos estudos tinham metodologia frágil (ex: pequeno número de participantes, resultados ainda não publicados), sendo que desses, 58% não fizeram qualquer menção quanto a estas limitações.

 

Os resultados dessa pesquisa são consistentes com o que já havia sido demonstrado no caso de comunicados de imprensa disponibilizados pela indústria farmacêutica e até mesmo pelos periódicos científicos: os comunicados costumam promover pesquisas preliminares sem alertar o leitor, no caso os jornalistas, os cuidados necessários para o julgamento da relevância e validade dos resultados.  Os pesquisadores também têm sua participação nessa história, já que muitas vezes o entusiasmo de suas participações nos comunicados vão além daquilo que se pode considerar compatível com os resultados da pesquisa. A geração de um menor número de comunicados de imprensa por parte dos centros de pesquisa, mas com maior qualidade, pode melhorar sobremaneira a informação em saúde que chegará aos jornalistas, e consequentemente, à sociedade como um todo.

 

** Leia também os demais artigos da categoria JORNALISMO em SAÚDE

 

 

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Saúde é um dos campeões de audiência quando se fala em busca de informação na internet. Nos últimos anos, a internet possibilitou uma democratização da informação como nunca antes vista, permitindo que o indivíduo que sofre de algum problema de saúde tenha uma postura mais ativa frente ao seu médico / terapeuta, com mais repertório para trocar informações. Por outro lado, a relação com o  “Dr. Google“ não deixa de ter suas armadilhas, já que a internet quase não tem políticas de regulação sobre seu conteúdo.

 

Pesquisadores da Universidade de Florença acabam de publicar um artigo no  British Medical Journal acendendo a discussão para a criação de algum tipo de regulação na qualidade de informação em saúde. Os autores descrevem a experiência de se digitar o termo “aloe” no Google e nos primeiros resultados da busca poder ser encontrado que Aloe arborescens é indicado no tratamento e prevenção do câncer (efeitos sem comprovação científica), e claro que o site vende o extrato da planta. Essa é uma experiência que qualquer um pode ter ao digitar Ginkgo biloba e receber várias ofertas de que a plantinha é capaz de melhorar o desempenho cerebral, efeitos também sem qualquer comprovação.

 

É sabido que boa parte dos lucros do Google tem origem na publicidade associada aos termos de busca usados. Isso chega a situações críticas como foi o caso de uma notícia de assassinato nos EUA em que as partes do corpo da vítima foram escondidas em uma mala. Ao acessar essa notícia, podiam-se ver anúncios de malas no topo da página. O Google tem investido no incremento de filtros que impeçam esse tipo situação, mas esses dispositivos ainda precisam de muito aprimoramento. Outra sugestão seria a proibição de links patrocinados quando os termos de busca forem relacionados à saúde. No caso da experiência “aloe”, os pesquisadores italianos encontraram o link patrocinado do Padre Romano Zago que cura câncer com Aloe arborescens.  

 

O Google certamente tem grande interesse em aprimorar os mecanismos de filtragem para amenizar os riscos de levar informação errada à população. Enquanto isso não acontece, é importante que os diferentes setores da sociedade continuem a cobrar uma solução para o problema. Antigamente, ao procurar o significado de uma palavra em um dicionário de qualidade, não havia qualquer tipo de surpresa. Hoje, na pescaria do Google, fisgam-se peixes graúdos, assim como botinas velhas.

 

 

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Uma recente pesquisa realizada pela revista Nature envolvendo cerca de 500 jornalistas científicos revelou que as oportunidades de emprego na área estão diminuindo e aqueles que conseguem manter seus empregos estão trabalhando em ritmo cada vez mais acelerado: estão envolvidos não só na produção de matérias, mas também alimentam blogs, podcasts, etc. Por outro lado, cresce o número de blogs assinados por cientistas, chegando a alcançar centenas de milhares de acessos semanais. Além disso, os próprios jornalistas têm acessado cada vez mais blogs científicos em busca de idéias para suas matérias. Essa pesquisa mostrou que 63% dos jornalistas baseiam-se em blogs científicos para a construção de suas matérias, comparado a 18% há cinco anos atrás.

 

Atualmente, com os meios de comunicação de massa contratando cada vez menos jornalistas científicos, as matérias elaboradas por relações públicas de instituições de pesquisa passam a ser cada vez mais utilizadas. A pesquisa conduzida pela Nature demonstrou que 39% dos jornalistas científicos publicam os press releases dessas instituições. Será que é esse o mundo ideal? Os próprios cientistas e suas instituições levando informação à sociedade? O fato é que esse tipo de informação tem o viés do interesse da instituição de origem, cenário um pouco distante daquilo que se chama de cobertura jornalística independente.

 

Ao mesmo tempo que os jornalistas penetram no universo dos blogs, os  cientistas estão penetrando na mídia tradicional. Esse movimento pode até ser visto como uma tendência de fusão entre a cultura do jornalismo e da ciência. É ótimo observar os cientistas colocando a cara para fora dos laboratórios, colaborando de forma mais intensa para a divulgação científica. Por outro lado, pode-se perceber que os meios de comunicação ficam cada vez mais dependentes dos press releases das instituições de pesquisa.

 

 

 

 

 

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Os meios de comunicação de massa representam uma das principais fontes de informação em saúde não só da população leiga, mas até mesmo dos próprios profissionais de saúde. Uma série de estudos revela que pesquisas divulgadas pela mídia são mais citadas por outros estudos científicos.

 

Nos últimos anos, a internet possibilitou uma democratização da informação como nunca antes vista, permitindo que o indivíduo que sofre de algum problema de saúde tenha uma postura mais ativa frente ao seu médico / terapeuta, com mais repertório para trocar informações. Pode-se argumentar que muito daquilo que o leigo lê na internet não é fonte segura de informação, e no caso de informação equivocada, o “ Dr. Google” pode fazer mais mal do que bem. Isso até pode existir, mas de uma forma geral, a internet ajuda muito mais do que atrapalha. E foi isso que um estudo recém-publicado pela prestigiada revista Cancer sugere.

 

Pesquisadores da Universidade da Pensilvânia estudaram mais de 600 pacientes com diagnóstico de câncer colo-retal e a hipótese lançada era a de que aqueles que buscavam mais informações sobre a doença na internet e mídia impressa também estariam sendo submetidos a tratamentos mais modernos. No caso em questão, os autores definiram como terapêutica moderna o uso de duas medicações recentemente aprovadas para uso nos EUA e amplamente divulgadas pela mídia (bevacizumab e cetuximab). O resultado foi que os pacientes que procuraram informação na internet e mídia impressa tinham uma chance três vezes maior de ter conhecimento sobre as duas medicações, e também foi três vezes maior a chance de serem submetidos ao tratamento com essas drogas.

 

Estudos anteriores já haviam revelado que cerca de 40% dos pacientes com diagnóstico de câncer buscam informações sobre a doença na internet, mas não se sabia ao certo qual o nível de impacto isso poderia ter sobre o tratamento efetivamente oferecido aos pacientes.

 

 

 

 

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Em uma pesquisa recém publicada no BMC Medicine envolvendo quase 40 mil pessoas na Ásia, pesquisadores japoneses investigaram a relação entre a percepção do próprio estado de saúde, e o grau de confiança nas relações interpessoais, no conteúdo disponibilizado pelos meios de comunicação de massa e no sistema de saúde.

 

Os indivíduos que mais se consideraram saudáveis foram os mais jovens, com alto nível educacional e sócio-econômico, e os mais confiantes nas relações interpessoais, nos veículos de comunicação de massa e no sistema de saúde.  Cerca de 60% dos entrevistados responderam que acreditam muito ou parcialmente na mídia.

 

Não se pode inferir uma relação causal precisa entre acreditar na mídia e ter uma boa saúde, mas uma maior confiança no conteúdo de informações em saúde disponibilizado por ela pode ser uma poderosa ferramenta para a promoção de saúde através de uma maior incorporação de hábitos de vida saudáveis. Esse conjunto de confiança entre os indivíduos e entre indivíduo e instituições é parte fundamental do conceito de Capital Social, que é definido como a quantidade e qualidade das interações sociais. Pesquisas apontam que sociedades com alto Capital Social apresentam melhores indicadores de saúde. No Brasil, os jornalistas estão bem na foto. Pesquisa encomendada pelo Ministério da Ciência e Tecnologia e divulgada em 2006 revela que o jornalista é o profissional em que a população mais confia quando o assunto é ciência e tecnologia, seguido pelo médico e só depois vem o cientista.

 

É também bem conhecido que os meios de comunicação de massa representam as principais fontes de informação em saúde da sociedade e desempenham um dos pilares do processo de alfabetização em saúde. Dessa forma, ações voltadas ao fortalecimento da imagem de confiabilidade do jornalismo em saúde de uma sociedade podem refletir em seus indicadores de saúde. Claro que o jornalismo em saúde também tem que fazer sua parte.  

 

 

 

 

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Durante a última década a internet passou a ser um meio de comunicação de massa cada vez mais importante, abraçando todas as áreas do conhecimento com duas principais vertentes: fonte de informação e meio de comunicação entre pessoas e grupos. No caso da saúde, a internet é hoje uma das principais fontes de informação (“Dr. Google”), mas também é crescente o número de comunidades virtuais de ajuda mútua.

 

Devido ao fato de uma grande quantidade de informação na internet ter qualidade duvidosa, é natural a preocupação de que a informação acessada poder trazer mais prejuízos do que lucro à saúde de um indivíduo. Isso realmente pode ocorrer, e nem precisa da informação ser incorreta, pois muitas vezes o indivíduo não sabe o que fazer com a informação certa, podendo deixar de buscar ajuda de um profissional da saúde quando na verdade está precisando. Mesmo com essas ressalvas, a internet trouxe infinitamente mais benefícios do que riscos à sociedade quando o assunto é informação em saúde.   

 

E as comunidades virtuais de ajuda mútua? Elas deveriam ser vistas com cautela? As pessoas se associam a essas comunidades porque estão sofrendo com uma doença ou estão preocupadas com a saúde de forma mais ampla e podem encontrar suporte emocional ao dividir com outros suas experiências e seus medos. Isso por si só já tem efeito terapêutico. Estudos têm demonstrado que as comunidades virtuais oferecem significativo suporte emocional aos seus participantes, e a auto-percepção desse suporte é diretamente proporcional ao tempo investido na leitura das contribuições. Além disso, o receio de que tais comunidades possam afastar as pessoas doentes dos profissionais de saúde parece não proceder. Pesquisas recentes com comunidades virtuais de transtornos de alimentação e de tendência ao suicídio revelam que a participação nessas comunidades aumentou a motivação para a busca de tratamento especializado em até 27% dos casos. Não é pouco, pois se apenas uma pequena parcela dessa porcentagem procurar tratamento especializado, o efeito já é formidável.

 

Alguns profissionais de saúde temem em indicar que seus pacientes participem de comunidades virtuais de ajuda mútua, e não há justificativa para isso. Ao contrário, hoje as comunidades devem ser vistas muito mais como uma valiosa ferramenta para o processo terapêutico do que uma atividade de risco. Tais comunidades podem passar a fazer parte no futuro da lista de recomendações que um terapeuta fará a um paciente, lado a lado com a prescrição médica, mudanças de hábitos de vida, etc. E é claro que os próprios profissionais de saúde podem se beneficiar sobremaneira de comunidades em que possam dividir as próprias dificuldades que enfrentam no dia-a-dia para o pleno exercício de suas profissões.

 

** Para uma idéia bastante interessante sobre a riqueza dessas comunidades, recomendo uma visita ao Blog Eu vou parar de fumar (www.euvouparardefumar.com).

 

 

 

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Começamos o ano inspirados pelo primeiro volume de 2009 do New England Journal of Medicine que nos traz uma rediscussão preciosa sobre a responsabilidade do jornalismo em saúde com foco especial na seguinte questão: o jornalismo em saúde deve apenas contar a novidade ou deve também oferecer à sociedade a noção do todo, contando a novidade, mas contextualizando também o que ela acrescenta ou discorda do conjunto de evidências anteriores. Veja abaixo alguns exemplos de divulgação científica em saúde que poderia ter sido muito melhor.

 

Exemplo 1. No ano de 2006 foi publicada uma importante pesquisa que demonstrou que dieta com baixo teor de gordura não reduziu a incidência de câncer de mama entre mulheres (JAMA 2006). Na época da divulgação da pesquisa foram raríssimas as matérias que confrontaram os resultados com um importante estudo publicado no mesmo ano que evidenciou que a dieta com baixo teor de gordura reduz o risco de câncer de mama em mulheres que já apresentaram a doença (J Natl Cancer Inst 2006). O recado da vez para as mulheres passava então a ser: dieta com pouca gordura não reduz risco de câncer de mama. Esse é um fenômeno que contribui para certa desconfiança por parte da opinião pública quando se fala em ciência em saúde. Um comentário muito comum que ilustra essa questão é: “Ah Doutor! A gente fica sem saber no que acreditar. Num dia ouvimos que saiu uma pesquisa falando que café é ruim para o coração. Noutro dia ouvimos que faz bem. Fica difícil!”.

 

Exemplo 2. Recentemente foi demonstrado que após o insucesso inicial com o tratamento com um tipo de antidepressivo, uma nova tentativa com outro tipo de medicação e apoio psicoterápico fez com que metade dos pacientes passassem a responder bem ao tratamento (NEJM 2006). Do ponto de vista médico, os resultados da pesquisa foram positivos. A divulgação pelo Washington Post, por exemplo, foi a de que os resultados do estudo foram um fracasso: “Antidepressivos falharam em curar os sintomas de depressão maior em metade dos pacientes mesmo quando os pacientes receberam o melhor tratamento possível, de acordo com um definitivo estudo do governo divulgado ontem”. Essa forma de notícia provavelmente é mais lida do que se apenas fosse descrito que os resultados confirmam estudos anteriores de que uma parte dos pacientes melhorou e outra não.

 

Exemplo 3. Em 2008 uma pesquisa revelou que o uso da medicação sinvastatina foi tão eficiente para reduzir um marcador de aterosclerose nas artérias como a sua combinação com uma segunda droga mais moderna – o ezetimibe (NEJM 2008). Por outro lado, a associação com o ezetimibe promoveu redução significativa tanto dos níveis de colesterol como dos níveis de triglicerídeos assim como o de outro marcados de aterosclerose. E o que se viu na verdade foi uma série de matérias divulgando que o ezetimibe não é eficaz na prevenção de infarto do coração e derrame cerebral. O estudo simplesmente não teve como objetivo demonstrar esse tipo de efeito e nem mostrou qualquer resultado dessa natureza. O desserviço à população não foi pequeno, já que o que sai na mídia é lido e levado a sério também por médicos que podem passar a não acreditar mais em uma medicação por erro de divulgação científica.

 

Exemplo 4. Em novembro de 2008, a BBC Brasil divulgou uma matéria com o seguinte título: Maconha pode preservar memória na velhice, sugere estudo. A idéia é que futuras drogas poderão ser desenvolvidas para atuarem nos receptores canabinóides e que podem ser uma grande arma contra o envelhecimento cerebral e redução do risco de desenvolver a Doença de Alzheimer. A maconha exerce seu efeito no cérebro através desses receptores e a notícia não deveria ser que a maconha pode ser útil para o cérebro. Úteis sim podem vir a ser drogas sintéticas que não produzam os danos cerebrais causados pela maconha que já são bem descritos, inclusive pela própria BBC. Quem lê uma manchete dessa pode se confundir, especialmente quando está associada à foto de um homem fumando um “baseado”.

 

Podemos elencar alguns dos muitos gargalos para o pleno desenvolvimento do jornalismo em saúde que podemos assistir hoje:

 

1- O próprio ritmo de produção 24 horas/7 dias do atual jornalismo, que na maioria das vezes só recebe o press release da instituição ou do periódico em que a pesquisa está sendo publicada, e já o repassa sem mudar nem mesmo uma vírgula. Não há tempo para se trabalhar a matéria ou ir atrás de uma outra opinião.

 

2- Cada vez menos veículos de comunicação têm departamentos especializados, como, por exemplo, o de jornalismo científico ou jornalismo em saúde. Existem poucos jornalistas científicos especializados e a classe reconhece que é pouco treinada para divulgar dados científicos sem risco de perder a credibilidade da informação (ver também o post: Jornalismo e Alfabetização em Saúde).

 

Ao mesmo tempo, estudos mostram um crescente domínio de matérias oriundas de relações públicas nas agências de notícias, chegando a dominar mais de 2/3 do total de notícias. Cresce também o conflito de interesse por parte de jornalistas e dos meios de comunicação em massa que às vezes exercem o papel de relações públicas de alguns “clientes” e não o de jornalismo, o que alguns acadêmicos da comunicação chamam de relações públicas maquiadas de jornalismo ou “parajornalismo”.

 

3- A contextualização da pesquisa em questão com resultados já alcançados anteriormente pode ser evitada pelo jornalista para que a notícia não perca sua força de pesquisa inédita.

 

 

Apesar da maior parte do trabalho para a melhoria do jornalismo em saúde depender dos próprios jornalistas e do sistema em que o jornalismo atualmente opera, profissionais da saúde e pesquisadores podem ajudar muito também. Ao discutirem sobre uma nova pesquisa, especialistas e pesquisadores podem ajudar muito se facilitarem o entendimento, por parte dos jornalistas, do contexto mais amplo onde a pesquisa se situa – estudos anteriores que confirmam ou contradizem os resultados atuais e potenciais conflitos de interesse. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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A mídia é vista como cão de guarda das relações entre médicos, pesquisadores e a indústria farmacêutica. Uma discussão recente do British Medical Journal levanta a poeira de uma discussão que tem recebido pouca atenção da mídia: E quem é que vigia os cães de guarda, suas relações com a indústria farmacêutica e de materiais e equipamentos médicos? A responsabilidade do jornalismo em saúde vai desde a alfabetização em saúde da sociedade até a influência que exerce sobre a prática dos médicos, já que ciência médica divulgada pela mídia é mais conhecida também pelos próprios médicos e recebe mais citações em artigos científicos, independente da sua qualidade.

 

A relação entre a indústria farmacêutica e o jornalismo em saúde não é nada desprezível. Nos Estados Unidos ela já começa com relações comerciais com programas universitários de jornalismo em saúde. Indústrias farmacêuticas financiam bolsas de estudo, programas de TV, e também oferecem prêmios em jornalismo em saúde. A Academia Americana de Escritores em Medicina, que tem em seu quadro jornalistas e especialistas em relações públicas, também tem relação com a indústria farmacêutica incluindo o financiamento da conferência anual da academia e bolsas de estudo.

 

As boas revistas científicas solicitam aos pesquisadores que declarem se há conflitos de interesse na publicação, e isso aparece na publicação de forma transparente, ex: Dr. tal declara ser consultor científico da indústria farmacêutica tal que financiou a pesquisa. O mesmo não acontece na mídia em geral. As indústrias patrocinam programas de TV, patrocinam associações de pacientes que por sua vez dão entrevistas aos jornais e à TV para “humanizar” a reportagem. Em nenhuma dessas situações podemos ver qualquer referência a esses conflitos de interesse.

 

Como cães de guarda, os jornalistas fazem bem o trabalho de vigiar as possíveis relações entre médicos e a indústria. Podem fazer ainda melhor: dar o exemplo. O hábito de declarar possíveis conflitos de interesse pode aumentar a credibilidade do jornalismo em saúde.

 

 

 

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Em editorial intocável publicado esta semana no British Medical Journal por Fiona Godlee, editora da revista, temos mais uma oportunidade de repensar a importância da Alfabetização em Saúde da população. A Associação Americana de Medicina define o conceito de Alfabetização em Saúde como a capacidade de obter, processar e compreender informação básica em saúde necessária à tomada de decisões apropriadas e que apóie o correto seguimento de instruções terapêuticas.

 

O recado de Fiona parte do fato de que há muito que se fazer pela Alfabetização em Saúde e essa não é uma questão de que “seria bom” investir nisso, mas que esse investimento é imperativo. Estima-se que nos EUA anualmente são gastos entre 106 e 236 bilhões de dólares anuais por conta do baixo nível de Alfabetização em Saúde e suas conseqüências: a não procura de ajuda médica quando necessária, a dificuldade em assumir hábitos de vida saudáveis, erros no uso de medicações, etc.

 

A melhora da comunicação em saúde tem de ser pensada já desde o nível da relação médico-paciente, assumindo que o paciente é capaz sim de entender questões que os médicos podem julgar ser de difícil entendimento, e a maioria dos pacientes quer entender melhor seus problemas. É preciso também melhorar a qualidade do jornalismo em saúde, pois ele representa uma das principais fontes de informação em saúde da população. Jornalistas, médicos e demais profissionais da saúde, cientistas, agências governamentais, indústrias farmacêuticas e de equipamentos médicos, cada qual tem sua parcela de responsabilidade pela qualidade da informação em saúde que chega até o público leigo. Espera-se que cada parte faça seu papel de forma ética e que dialoguem entre si para a construção de um movimento que assegure à população informação cada vez mais correta e de qualidade.

 

 

 

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A Associação Americana de Medicina define o conceito de alfabetização em saúde como a capacidade de obter, processar e compreender informação básica em saúde necessária à tomada de decisões apropriadas e que apóie o correto seguimento de instruções terapêuticas. Reconhece-se que a maioria da população americana não é alfabetizada em saúde, o que leva a mais freqüentes erros no uso de medicações, à não procura de ajuda médica quando necessário e à dificuldade em assumir hábitos de vida saudáveis. E o jornalismo tem um importante papel na construção dessa alfabetização.

 

Esta semana, pesquisadores da escola de jornalismo de Missouri – EUA divulgaram uma importante pesquisa sobre jornalismo científico em saúde e receberam o prêmio Top Faculty Paper em comunicação em ciências na última Convenção da Associação para Educação em Jornalismo e Comunicação em Massa, Chicago – EUA. Foram entrevistados cerca de 400 jornalistas dedicados à área de saúde de magazines e jornais em todo o país, com uma média de sete anos de experiência em jornalismo em saúde.

 

Apenas 18% dos entrevistados haviam recebido treinamento especializado em jornalismo científico em saúde. Metade deles declarou não ter familiaridade com o conceito de alfabetização em saúde e muitos disseram ter dificuldade em explicar informações científicas aos leitores mantendo a credibilidade científica da informação. As três táticas mais usadas pelos jornalistas para ajudar no melhor entendimento da informação pelo leigo foram: 1) incluir a opinião de especialistas; 2) evitar o uso de termos técnicos; 3) disponibilizar dados estatísticos. Quanto aos dados estatísticos, esse é um conhecimento muito importante para o entendimento de informações em saúde, e levar esse conhecimento ao público leigo é um grande desafio, já que uma importante parcela da população tem limitação em entender números.

 

Mais da metade dos entrevistados disse acreditar que a maioria dos leitores usa as informações para melhor entendimento de temas sobre saúde, e que usam essas informações para uma melhor comunicação com profissionais de saúde. Os jornalistas dedicados aos jornais reconheceram contribuir primariamente na disponibilização de informação, enquanto os jornalistas de magazines relataram acreditar terem um importante papel na mudança de atitudes de vida dos seus leitores.

 

O jornalismo em saúde tem o importantíssimo papel de traduzir informações científicas de qualidade à população leiga, com um grande potencial de transformação social. A boa formação dos profissionais que atuam na área pode aumentar o sucesso com que a informação chega aos interessados. Essa boa formação deve contemplar o desenvolvimento de habilidades na comunicação com o público leigo, como também o fortalecimento de um senso crítico que promova a priorização de divulgação das informações que sejam mais relevantes à sociedade.   

 

 

 

 

 

  

 

 

 

 

 

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