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Um estudo recém-publicado pelo British Medical Journal revela que o uso de antidepressivos na gravidez aumenta o risco de defeitos no coração no bebê. O estudo analisou 400 mil crianças dinamarquesas nascidas entre 1996 e 2003 e a relação entre a prevalência de malformações congênitas e o uso pela mãe de inibidores seletivos de recaptação de serotonina durante a gravidez. Os antidepressivos citalopram e sertralina na gravidez aumentaram a chance de defeitos no septo cardíaco, parede que separa o lado direito do lado esquerdo do coração. Esse efeito não foi observado entre outros antidepressivos da mesma classe como a fluoxetina e a paroxetina.
O risco desse tipo de malformação entre as crianças que não foram expostas à medicação foi de 0.5% comparado à chance de 0.9% das que foram expostas à medicação e de 2.2% no caso de exposição a mais de um tipo de antidepressivo. Pode-se dizer que uma em cada 246 crianças apresentará defeitos no septo cardíaco quando a mãe faz uso de antidepressivo na gravidez. Esse risco é quatro vezes maior quando o uso foi de mais de um tipo de antidepressivo: uma em cada 62 crianças é acometida.
Cerca de um quinto das mulheres apresenta depressão durante a gravidez e a decisão de tratamento com medicações deve ser pautada pelos potencias riscos de malformações no feto. Até o ano de 2005, uma série de estudos indicava que o uso de antidepressivos inibidores seletivos de recaptação de serotonina durante a gravidez não trazia riscos ao bebê. Entretanto, novos estudos têm demonstrado um discreto aumento da prevalência de malformações congênitas, sendo que o atual estudo revelou que esse risco só é aumentado no caso de defeitos do septo cardíaco. O risco absoluto é considerado baixo, mas deve ser visto como um importante fator na decisão do tratamento antidepressivo das mulheres grávidas. Devem também ser consideradas as conseqüências à mãe e ao feto de uma depressão não tratada.
Já é bem reconhecido que uma maior inteligência está associada a maior longevidade e estudos recentes chegaram atá a demonstrar que ganhadores do Oscar e Nobel vivem mais que seus colegas não ganhadores. Já temos evidências de que o nível de inteligência influencia a longevidade humana com o mesmo poder que o hábito de não fumar, e de forma ainda mais significativa que fatores como índice de massa corporal, hipertensão arterial e diabetes.
Podemos identificar pesquisas associando o grau de inteligência com a longevidade desde a década de 90, e hoje essa é uma área do conhecimento chamada de epidemiologia cognitiva. Há pelo menos quatro formas de explicar o porquê das pessoas mais inteligentes viverem mais. A primeira delas é que pessoas mais inteligentes tenham recebido mais educação e tido acesso a posições sociais e profissionais que permitiriam viver em ambientes menos arriscados. Outra questão importante é a relação entre inteligência e hábitos de vida mais saudáveis: atividade física, dieta equilibrada, menos álcool, menos cigarro, etc. Uma terceira explicação é a possibilidade de que indivíduos menos inteligentes tenham sido vítimas de mais eventos prejudiciais à saúde, e aqui podemos pensar em eventos até mesmo pré- e perinatais. E por último, há evidências de que testes de inteligência podem ser na verdade indicadores de um sistema cerebral que vai além das habilidades cognitivas, como por exemplo, velocidade de reação motora a um determinado estímulo. Nesse caso não seria a inteligência em si que confere maior longevidade ao indivíduo, mas a inteligência reflete um estado cerebral mais desenvolvido como um todo.
Essas relações entre inteligência e longevidade fazem-nos refletir que a fonte da juventude está muito mais próxima da escola e condições básicas de saúde do que de pílulas milagrosas.
Um estudo publicado recentemente pelo periódico Neurology, jornal oficial da Academia Americana de Neurologia, acompanhou por quatro anos quase seis mil franceses com mais de 65 anos de idade e demonstrou que os idosos envolvidos com atividades de lazer estimulantes pelo menos duas vezes por semana têm um risco duas vezes menor de desenvolver demência incluindo a Doença de Alzheimer.
O atual estudo dá um passo importante no entendimento do poder que a as atividades de lazer têm em reduzir o risco da Doença de Alzheimer e demência de uma forma geral. Alguns estudos já haviam demonstrado esse efeito protetor do lazer, mas dessa vez foi mostrado que o tipo de lazer pode fazer muita diferença. As atividades de lazer foram categorizadas em quatro tipos: estimulante: jogar cartas, palavras cruzadas, praticar atividade artística, ir ao cinema ou teatro, atividades junto a organizações; passiva: assistir à TV, ouvir música / rádio; social: visitar ou receber visitas de amigos ou parentes; física: passear a pé, jardinagem e outras atividades com estimulação física.
Os resultados mostraram que a realização de atividades de lazer do tipo estimulante foram as que foram associadas a uma menor incidência de demência. O tipo de lazer também foi influenciado pelo nível educacional. Indivíduos com maior escolaridade tinham tendência a se envolver com atividades do tipo estimulante, enquanto aqueles com menor escolaridade tinham tendência às atividades de lazer do tipo passiva. Podemos ver a educação e desempenho cerebral como um círculo virtuoso nesse caso. A educação por si só já está associada a uma maior longevidade e a um menor risco de Doença de Alzheimer influenciando escolhas na vida como o lazer estimulante, além de outras escolhas que fazem bem ao cérebro.
Vale ressaltar que o fato das atividades de lazer estimulantes estarem associadas a um menor risco de demência não significa que a prática de atividades passivas seja prejudicial. Um recente estudo chinês havia mostrado que as atividades de lazer como leitura, escrita, palavras cruzadas, jogos de tabuleiro ou cartas, reuniões para discussão em grupo, e hábito de tocar um instrumento musical mostraram-se protetoras enquanto o hábito de assistir à TV teve impacto negativo. A atual pesquisa não confirmou esse potencial efeito deletério de atividades passivas. O que sabemos até o momento é que não faz sentido deixar de estimular o cérebro com atividades de lazer “estimulantes” e trocá-las pelo lazer passivo.
Fatores de risco vascular como hipertensão arterial, colesterol alto e tabagismo são capazes de fazer com que homens de meia idade percam 10 a 15 anos de vida, revela estudo recém-publicado pelo periódico British Medical Journal. As condições gerais de saúde e hábitos de vida de quase 20 mil homens ingleses com idades entre 40 e 69 anos foram avaliados no fim da década de 1960. Nessa época, 42% dos participantes do estudo fumava, 39% apresentava hipertensão arterial e 51% colesterol alto.
Após 28 anos, dois terços dos sete mil indivíduos que ainda estavam vivos tinham parado de fumar e houve também uma redução de dois terços na proporção entre aqueles apresentavam pressão arterial e colesterol altos em relação àqueles que apresentavam esses índices baixos. A presença concomitante desses três fatores de risco vascular aumentava em três vezes o risco de morte por causas vasculares (ex: infarto do coração e derrame cerebral) e em duas vezes o risco de morte por causas não vasculares. Aos 50 anos de idade, um indivíduo com os três fatores de risco ainda viveu em média 23 anos, enquanto aqueles que não os apresentavam viveram 33 anos, 10 anos a mais. Os pesquisadores criaram também uma pontuação que levava em conta outros fatores de risco como obesidade e diabetes, e quanto mais fatores presentes maior essa pontuação. Eles demonstraram que os 5% com maior pontuação viviam 20 anos após os 50 anos de idade, enquanto os 5% com menor pontuação ainda viviam 35 anos após os 50, 15 anos a mais.
Hábitos de vida como atividade física regular, dieta saudável e ficar longe do cigarro são os principais caminhos para a longevidade. Uma pesquisa recente já havia demonstrado entre ingleses que o tabagismo por si só é capaz de encurtar a vida em 10 anos. Parar de fumar aos 60, 50, 40 e 30 anos de idade é capaz de acrescentar 3,6,9 e 10 anos respectivamente. O prêmio não é nada pequeno.
Um estudo recém-publicado pelo British Medical Journal demonstra que a associação entre pobreza e morte prematura é tão forte nos dias de hoje como era há 100 anos atrás. O estudo comparou os dados de mortalidade da Inglaterra e País de Gales do início do século 20 com os do início do século 21.
O século 20 nos trouxe uma grande melhora nas taxas de mortalidade. Na população européia estudada, há cem anos atrás um terço das mortes ocorria antes dos cinco anos de idade e só 13% após os 75 anos. Nos dias de hoje, menos de 1% das mortes ocorre antes dos cinco anos de idade e 65% das pessoas morrem após os 75 anos. A expectativa de vida nessa população saltou em cem anos de 46 para 77 anos no caso dos homens, e de 50 para 81 no caso das mulheres. Além disso, há cem anos as principais causas de morte eram doenças respiratórias e infecciosas, bem diferente do panorama atual em que o câncer, as doenças do coração e o derrame cerebral predominam. A experiência de pobreza também mudou muito nesses cem anos. O que era a ausência de necessidades básicas para a subsistência passou a ser, no mundo moderno, um conceito menos absoluto, uma pobreza relativa ao que é oferecido à sociedade como um todo.
Os resultados dessa pesquisa ainda mostraram que as regiões com altas taxa de privação e mortalidade no passado continuam a ter maior tendência à mortalidade nos dias de hoje. As diferenças na mortalidade entre as diferentes regiões até diminuiram um pouco ao longo do tempo, mas não há evidências de declínio da desigualdade de riqueza ou redução da relação entre pobreza e níveis de mortalidade.
Mesmo com todas as mudanças políticas, econômicas, sociais e de saúde pública, a relação entre pobreza e mortalidade continua a existir de forma tão robusta como há cem anos atrás. A criação de programas para redução da desigualdade social é um fenômeno relativamente recente, tanto no Brasil como em diversas outras culturas. Se esses programas tiverem o fôlego necessário, é bem possível que uma futura análise comparativa entre os indicadores de hoje e os do início do século 22 mostre menos estagnação do que a demonstrada nessa atual pesquisa européia.
O Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é uma condição neuropsiquiátrica que acomete 3-5% das crianças e que frequentemente persiste até a idade adulta, podendo ser considerado um dos mais comuns transtornos neuropsiquiátricos. Os principais sintomas são a dificuldade em manter a atenção, o comportamento hiperativo e de impulsividade.
Já existe um bom corpo de evidências indicando que circuitos cerebrais baseados no neurotransmissor dopamina não funcionam tão bem nos indivíduos com TDAH. Um importante estudo acaba de ser publicado pelo periódico Journal of the American Medical Association revelando que quem sofre desse problema apresenta menor atividade em duas das principais regiões relacionadas ao processo de recompensa cerebral, o mesoaccumbens e mesencéfalo, regiões fortemente vinculadas ao neurotransmissor dopamina. Essa menor atividade foi demonstrada pela redução de receptores da dopamina D2 e D3 e de proteína de transporte da dopamina através de tomografia por emissão de pósitrons.
A dopamina é o principal componente do nosso sistema cerebral de recompensa, sistema ativado toda vez que fazemos algo que dá prazer e sinaliza ao cérebro que vale a pena repetir a experiência, já que é prazerosa. A redução dessa atividade do sistema de recompensa está associada a alguns dos comportamentos característicos do TDAH como dificuldade em postergar uma gratificação e resposta preferencial a pequenas e imediatas recompensas do que a recompensas mais robustas e que demoram mais para chegar. Além disso, esses circuitos cerebrais estão associados à motivação do aprendizado, e não é à toa que quem sofre de TDAH tem mais dificuldade em manter a atenção em atividades repetitivas e desinteressantes.
Os achados desse estudo reforçam a importância do uso de intervenções motivacionais que consigam aumentar a atratividade das tarefas da escola e do trabalho, especialmente entre os portadores de TDAH. A demonstração de redução de atividade no sistema de recompensa cerebral nesses pacientes também sugere que esse é um importante mecanismo que explica a maior vulnerabilidade ao abuso de substâncias psicoativas e abre uma nova perspectiva para o tratamento da doença.
O ideal de uma relação médico-paciente é quando ambas as partes participam das decisões e um dos fatores mais importantes nessa relação é que o médico seja capaz de disponibilizar ao paciente informação de alta qualidade sobre o problema em questão. O fato é que a decisão de um paciente é fortemente influenciada pela forma como essa informação é apresentada, situação que foi elegantemente demonstrada em dois estudos recém-publicados pelo periódico PLoS Medicine.
Um dos estudos avaliou cerca de três mil indivíduos quanto à preferência de seis diferentes formas de dar o recado de que as medicações estatinas podem prevenir a doença isquêmica do coração. A frequencia natural da doença assim como o poder do medicamento em reduzir o risco relativo da doença foram as formas de apresentação de dados mais fortemente preferidas pelos participantes do estudo (ex: este tratamento é capaz de reduzir pela metade seu risco de desenvolver esta doença). Essas formas de comunicação se mostraram as mais inteligíveis e mais compatíveis com seus valores quando comparadas a outras formas como a demonstração do risco absoluto (ex: este tratamento é capaz de reduzir o risco de desenvolver esta doença de 4% para 2%). Um segundo estudo avaliou cerca de 1800 pessoas quanto à preferência de apresentação das vantagens em se utilizar um antibiótico para os sintomas de dor de garganta. Os participantes preferiram receber através de gráficos de barras a apresentação do tempo em que os sintomas deveriam ocorrer.
Esses resultados são provenientes de situações hipotéticas e são bem diferentes da situação clínica habitual que envolve maior influência de dimensões como a emocional, moral e cultural. Apesar desses dados não deverem ser diretamente generalizados para o mundo real, eles nos confirmam que a forma como os médicos transmitem a informação aos pacientes pode fazer muita diferença nas suas escolhas.

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É bem reconhecido que algumas medidas do corpo humano estão associadas ao aumento de doenças cardiovasculares, como é o caso de altos índices de massa corporal, da circunferência da cintura e da relação da circunferência cintura / quadril. Mas não são só altos índices que estão associados a maiores riscos à saúde. Baixos índices de massa corporal e do nível de massa muscular livre de gordura estão associados a mortalidade mais precoce. A novidade agora é que baixos graus de circunferência das coxas também têm relação com a saúde, de acordo com pesquisa recém-publicada pelo British Medical Journal.
O estudo acompanhou cerca de três mil homens e mulheres dinamarqueses com 35 a 65 anos de idade e revelou que aqueles com circunferência das coxas menor que 60 cm tinham maior risco de morte e de doenças cardiovasculares do que aqueles com circunferências maiores que 60cm. Entretanto, circunferências maiores que 60 cm não trouxeram benefícios adicionais. Os resultados demonstraram ainda que o risco associado aos baixos níveis de circunferência das coxas foi maior que o de uma alta circunferência abdominal. A baixa circunferência da coxa é um sinal de baixo conteúdo de musculatura nessa região e também reflete baixo grau de musculatura de forma sistêmica. Estudos têm mostrado que a baixa musculatura corporal, especialmente em membros inferiores, está associada a maior risco de diabetes. Além disso, baixos teores de gordura subcutânea também têm sido vinculados a alterações no metabolismo da glicose e de gordura.
A presente pesquisa nos indica que é bem razoável o estímulo à atividade física com especial atenção à musculatura de membros inferiores. É importante frisar que 50% dos dinamarqueses estudados tinham circunferência de coxas menores que os 60 cm, sugerindo que o estímulo à atividade física é fundamental em qualquer canto do mundo. É bom lembrar que em muitas populações do mundo o problema das coxas finas é falta de comida mesmo.
Não é à toa que a cafeína é o estimulante cerebral mais frequentemente consumido no mundo, pois ela é capaz de provocar bem estar, aumentar o nível de alerta, energia e sociabilidade. A relação entre a cafeína e a dor de cabeça pode ser vista como uma faca com muito mais de dois gumes. De um lado estão as pessoas que têm dores de cabeça precipitadas pela cafeína. A substância também é capaz de aliviar uma crise de enxaqueca, tanto é que muitas das medicações para essa doença têm cafeína em sua composição. Além disso, para quem usa cafeína diariamente, sua abstinência súbita pode causar crises de dor de cabeça. Um estudo publicado recentemente pelo periódico Journal of Headache and Pain confirma que o excesso de cafeína pode tanto melhorar como piorar as crises de dor de cabeça. O estudo foi conduzido na Noruega e envolveu mais de 50 mil pessoas que tinham o consumo médio de cafeína de 420mg/dia, o que significa umas quatro xícaras de café expresso. Cerca de 40% das pessoas estudadas relatou ter apresentado dor de cabeça no último ano e aquelas que consumiam mais cafeína tiveram maior chance de apresentar crises de dor. Por outro lado, cerca de 1% das pessoas apresentou crises por mais de 14 dias durante o mês, e esse risco de alta freqüência de dor de cabeça foi menor entre aqueles que consumiam mais cafeína. Os resultados sugerem que, para as pessoas que têm crises pouco freqüentes, o excesso de cafeína pode atrapalhar, e já para quem tem alta freqüência de crises, a cafeína pode até ajudar. Esses resultados não são definitivos e o que se pode recomendar por enquanto para quem sofre de dor de cabeça é que não se deve abusar da cafeína, especialmente nos casos de enxaqueca. Outra recomendação é que não se deve proibir seu uso de forma indiscriminada, exceto nos casos em que a pessoa percebe que basta tomar uma dose que a dor de cabeça aparece. No caso das pessoas que usam muita cafeína, essas não devem parar seu uso subitamente, pois isso pode causar dor de cabeça. . .
Os músculos das vias aéreas superiores relaxam durante o sono, e em algumas pessoas isso chega a provocar obstrução do fluxo de ar, levando aos sintomas de ronco, parada respiratória intermitente e sonolência diurna devido à má qualidade do sono. A isso se dá o nome de síndrome de apnéia obstrutiva do sono (SAOS). Pesquisa publicada recentemente pelo periódico PloS Medicine revela que a SAOS em sua forma grave está associada a uma maior risco de morte, especialmente por doença isquêmica do coração e entre homens de 40 a 70 anos de idade.
A SAOS é um problema de saúde muito comum afetando cerca de 10% das mulheres e 25% dos homens. Na última década, vários estudos revelaram que a doença aumenta o risco de diversos problemas de saúde como hipertensão arterial, diabetes, insuficiência cardíaca e doença isquêmica do coração, derrame cerebral, além do maior risco de acidentes devido à sonolência diurna. O presente estudo é o maior até o momento sobre a mortalidade da doença. Mais de seis mil americanos maiores de 40 anos foram acompanhados por uma média de oito anos e o os resultados demonstraram que a SAOS aumenta em 40% o risco relativo de morte, independentemente de outros fatores como hipertensão arterial e obesidade.
Vale frisar que existe tratamento eficaz para a SAOS e já há boas evidências de que quando tratada há uma redução no número de suas potenciais complicações. Novos estudos provavelmente ainda nos mostrarão que o tratamento também é capaz de reduzir a mortalidade da doença.
O tecido adiposo marrom é abundante em animais que hibernam como os ursos, mas também existe entre os humanos e de forma bem mais expressiva nos recém-nascidos. Esse é um tecido que tem a capacidade de produção de calor para o organismo bem superior a qualquer outro tipo de tecido do corpo, e nos animais, é bem reconhecido que essa gordura varia nas diferentes épocas do ano por conta de mudanças de temperatura e luminosidade. A quantidade desse tecido nos adultos humanos não é grande, mas pesquisas recentes têm apontado que é menor a atividade dessa gordura entre os obesos, mas ainda não se conhece bem quais fatores influenciam essa atividade.
Um estudo recém-publicado pela revista da Associação Americana de Diabetes demonstra que a luminosidade é um fator crítico para o controle da atividade da gordura marrom entre adultos. Mais de 3500 ingleses tiveram o nível de atividade de gordura marrom medido por exames de imagem (PET SCAN) e os resultados revelaram que a atividade dessa gordura no inverno inglês foi três vezes maior do que durante o verão, e era muito mais associada à luminosidade do que à temperatura. Além disso, a pesquisa revelou que as mulheres têm uma maior atividade dessa gordura quando comparadas aos homens.
O estudo foi realizado por pesquisadores da Universidade de Nottingham que defendem a idéia que a ativação da gordura marrom pode representar mais uma ferramenta no controle de um dos maiores problemas de saúde do mundo: a obesidade.
Pesquisa publicada na última edição do periódico Proceedings of the National Academy of Sciences mostra que o colesterol influencia as correntes elétricas que geram os batimentos cardíacos e pode contribuir para que o coração saia do seu ritmo ideal. Antes dessa pesquisa, já se reconhecia que tanto o colesterol como as medicações que são usadas pra reduzir seus níveis são capazes de influenciar o ritmo cardíaco, mas não se sabia como.
Pesquisadores franceses e canadenses demonstraram em células cardíacas de animais que altos níveis de colesterol são capazes de inibir o funcionamento de canais iônicos do íon potássio responsáveis pelo fluxo de correntes elétricas nas células do coração, também chamados de Kv1.5. O estudo também demonstrou que a redução dos níveis de colesterol é capaz de restaurar o funcionamento desse sistema.
A descoberta abre as portas para o desenvolvimento de novas drogas para o tratamento do grave problema que são as arritmias do coração, que além de provocarem paradas cardíacas, são responsáveis por boa parte dos casos de acidente vascular cerebral.
Um estudo publicado na última edição do periódico Neurology, jornal oficial da Academia Americana de Neurologia, confirma que a enxaqueca vai muito além das crises de dor de cabeça: a doença está associada a um maior risco de eventos vasculares como o infarto do coração e derrame cerebral.
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Vinte e oito mil mulheres americanas com mais de 45 anos de idade foram acompanhadas por doze anos, sendo que 13% delas eram portadoras de enxaqueca. As mulheres com enxaqueca sem aura não apresentaram maior risco de eventos vasculares. Vale lembrar que aura são sintomas que acompanham a dor de cabeça como alterações visuais e da sensibilidade, e que ocorrem em 25% das pessoas que têm enxaqueca. No presente estudo, as mulheres com enxaqueca com aura e crises frequentes (≥ 1 vez por semana) tiveram risco de derrame cerebral quatro vezes maior. Mesmo aquelas com crises pouco frequentes (< 1 vez por mês) também apresentaram maior risco vascular, com chance duas vezes maior de ter um infarto do coração quando comparadas às mulheres sem enxaqueca.
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Esses resultados não devem gerar pânico em quem têm enxaqueca com aura, já que o risco absoluto de eventos vasculares é baixo: das 180 mulheres com enxaqueca com aura, apenas duas delas apresentaram um infarto do coração e quatro delas um derrame cerebral ao longo de 12 anos. Entretanto, é importante o recado de que indivíduos com enxaqueca com aura já saem à frente das outras pessoas com risco maior de eventos vasculares, e por isso devem evitar e controlar a todo custo outros fatores de risco como o tabagismo e, no caso das mulheres, o uso do hormônio estrogênio.
Uma pesquisa recém-publicada pelo Journal of Nutrition, periódico oficial da Associação Americana de Nutrição, avaliou meio milhão de europeus de dez diferentes países e demonstrou que homens e mulheres com boa aderência à dieta mediterrânea têm menor nível de gordura abdominal. Vale lembrar que a dieta mediterrânea é uma alimentação rica em peixes, verduras, legumes, frutas, cereais (melhor se forem integrais), azeite e outras fontes de ácidos graxos insaturados, e baixo consumo de carnes e laticínios e outras fontes de gorduras saturadas, além do uso moderado, porém regular, de álcool.
O fato da dieta mediterrânea ter alto conteúdo de azeite gerava dúvidas de que ela poderia ser capaz de aumentar o risco de obesidade. Porém, uma série de estudos tem revelado justamente o contrário. Um desses estudos já havia até mostrado um menor grau de gordura abdominal associado à dieta mediterrânea, o que foi fortemente confirmado pela atual pesquisa européia. O alto teor de fibras e baixa densidade energética dos alimentos da dieta mediterrânea são possíveis explicações para esse melhor equilíbrio do depósito de gordura no corpo. Outra explicação é que hábitos bons atraem outros hábitos bons, ou seja, quem segue uma dieta saudável têm maior chance, por exemplo, de fazer atividade física regularmente.
Diversas pesquisas têm demonstrado que a dieta mediterrânea está associada a uma maior longevidade assim como redução do risco da doença de Alzheimer e de doenças cardiovasculares. Agora começamos a colecionar evidências de que ela é uma dieta que também nos ajuda a manter o peso e a barriga em dia.
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Confira artigo de minha autoria recém-publicado na Revista de Jornalismo Científico ComCiência em que discuto quais as possíveis explicações para o maior risco de derrame cerebral entre as pessoas que têm enxaqueca. É discutido também como minimizar esse risco, especialmente entre as mulheres.
Clique aqui para ler o artigo na íntegra.
Um estudo recém publicado pelo periódico Neurology, jornal oficial da Academia Americana de Neurologia, descreve a história de um homem e uma mulher de 25 anos de idade que apresentaram lesão cerebral após crises epilépticas desencadeadas pela ingestão de ecstasy.
O rapaz teve uma crise epiléptica cinco horas após o consumo de dois comprimidos de ecstasy e oito doses de álcool, crise que se repetiu no dia seguinte. A moça teve uma crise epiléptica após 11 horas do consumo de um comprimido de ecstasy e cinco doses de álcool. Ambos apresentaram evidências de lesão do hipocampo direito à ressonância magnética cerca de 48 horas após as crises que se mantiveram ao longo do tempo. Vale lembrar que os hipocampos são considerados uma das regiões mais importantes do cérebro, fortemente responsáveis pelo funcionamento de nossa memória.
Há algum tempo reconhece-se que os efeitos do ecstasy podem ir além da agitação psicomotora, ansiedade e hiperatividade. Já é bem demonstrado que o ecstasy pode causar crises epilépticas, mas é a primeira vez que se demonstra que as crises nesses casos podem chegar a provocar lesão cerebral. Chamou muito a atenção o fato das crises terem sido breves e ainda assim capazes de lesionar o cérebro, situação normalmente esperada em crises muito prolongadas.
Em diversos países, o ecstasy é a segunda droga ilegal mais utilizada, perdendo só para a maconha. Já dispomos de uma série de estudos experimentais que evidenciam que o ecstasy é tóxico aos neurônios, especialmente às ramificações de neurônios que produzem serotonina, neurotransmissor fortemente vinculado à regulação de funções como a memória e o humor. Entre humanos, mesmo em usuários leves da droga, já foi demonstrada redução do desempenho de memória verbal, além de alterações na estrutura da substância branca e na perfusão sanguínea e maturação cerebral. Podemos ver com isso que já é bem ultrapassado pensar no ecstasy como uma droga inocente à saúde do cérebro.
Calcula-se que mais de 100 milhões de mulheres no mundo façam uso de pílulas anticoncepcionais. Podemos encontrar no mercado dezenas de tipos de pílulas com as mais diferentes concentrações dos hormônios estrogênio e progesterona e a escolha depende muito mais do perfil de efeitos colaterais de cada tipo de pílula, já que do ponto de vista de eficácia elas são muito parecidas.
A trombose das veias das pernas é um desses efeitos adversos, e reconhece-se que ela é cinco vezes mais freqüente entre mulheres que usam pílula. Apesar de não ser um efeito adverso muito comum, esse tipo de trombose é uma condição clínica grave, pois pode levar à trombose das veias pulmonares e que por sua vez pode até levar à morte.
Duas grandes pesquisas acabam de ser publicadas na última edição do British Medical Journal e nos ajudam a entender melhor a relação entre o uso de pílulas e trombose. Um dos resultados mais relevantes dessas pesquisas foi que o tipo de pílula combinada (estrogênio + progesterona) fez toda a diferença: as com baixas doses de estrogênio estão associadas a um menor risco de trombose assim como aquelas com tipos de progesterona chamados de levonorgestrel ou norestisterona. Já as pílulas sem estrogênio e os dispositivos anticoncepcionais intra-uterinos não se mostraram associados ao aumento de risco de trombose. Foi demonstrado ainda que apesar de existir uma relação entre maior tempo de uso da pílula e maior risco de trombose, a época de maior risco foram os primeiros três meses de uso.
Essas recomendações devem ser feitas de forma ainda mais rigorosa a mulheres com história pessoal ou familiar de trombose, já que essas não devem usar pílulas que contenham estrogênio. O mesmo deve ser recomendado a mulheres com história de enxaqueca com aura, que são dores de cabeça associadas a alguns sintomas tais como visão de pontos luminosos e sensação de formigamento de um lado do corpo. No caso daquelas que usam pílulas para o tratamento de espinhas, há estudos bem robustos mostrando que as que contêm levonorgestrel são tão eficazes como as outras com maior risco de trombose, e também não diferem entre si quanto ao risco de ganho de peso.
Este mês foi marcado por muitas evidências de que um estilo de vida saudável é capaz de preservar nossas funções cerebrais à medida que envelhecemos. O periódico científico JAMA publicou uma pesquisa que evidencia que a dieta mediterrânea, assim como a prática de atividade física regular, são capazes de reduzir o risco da Doença de Alzheimer, e os resultados conseguiram demonstrar que cada um desses fatores tem seu poder independente do outro.
Nesse estudo, quase dois mil idosos de Nova Iorque foram acompanhados por uma média de 5.4 anos, período em que os pesquisadores os examinaram do ponto de vista de desempenho cerebral e aplicavam escalas para avaliação da aderência à dieta mediterrânea e à atividade física. Vale lembrar que a dieta mediterrânea é uma alimentação rica em peixes, verduras, legumes, frutas, cereais (melhor se forem integrais), azeite e outras fontes de ácidos graxos insaturados, e baixo consumo de carnes e laticínios e outras fontes de gorduras saturadas, além do uso moderado, porém regular, de álcool.
Após o período de seguimento, 15% dos idosos desenvolveram o diagnóstico da Doença de Alzheimer. O risco absoluto em desenvolver a doença foi de 21% no caso de idosos sedentários e com baixo consumo dos itens da dieta mediterrânea, comparado a um risco de 9% entre aqueles com alta aderência à dieta e atividade física intensa. Atividade física intensa nesse grupo de idosos foi assim definida: 1.3 horas semanais de atividade intensa ou 2.4 horas de atividade moderada ou 4 horas de atividade leve. A atividade física foi capaz de reduzir o risco relativo da doença em 29-41%, e quando em nível intenso o poder de redução de risco foi ainda maior: 37-50%. Quanto à aderência à dieta mediterrânea, a terça parte dos idosos com maior aderência à dieta apresentou um risco relativo 32-40% menor de desenvolver a doença. Quando se analisou a terça parte dos idosos com os maiores níveis tanto de atividade física como de aderência à dieta mediterrânea, o risco da doença foi 61-67% menor.
Um segundo estudo publicado nessa mesma edição do JAMA confirma o poder protetor da dieta mediterrânea sobre o cérebro, dessa vez entre moradores da cidade de Bordeaux na França. Cerca de 1500 idosos foram acompanhados por uma média de 5 anos e aqueles com maior aderência à dieta mediterrânea foram os que menos tiveram declínio das funções cerebrais. Porém, os resultados não conseguiram demonstrar uma redução no risco da Doença de Alzheimer no período estudado, pois a metodologia do estudo não tinha poder para demonstrar esse tipo de efeito.
E não pára por aí. Neste mesmo mês, o American Journal of Epidemiology publicou um grande estudo realizado na Inglaterra em que os hábitos de vida de mais de cinco mil pessoas foram acompanhados por uma média de 17 anos em diferentes períodos entre a meia-idade e a velhice. Uma escala foi utilizada para definir o grau de comportamento deletério à saúde e incluía a pesquisa dos seguintes hábitos: tabagismo, abstinência de álcool, baixo nível de atividade física e baixo consumo de frutas e vegetais. Aqueles que concentravam mais hábitos deletérios apresentaram mais perdas das funções cerebrais ao envelhecerem, especialmente a memória e capacidade de alcançar objetivos, também conhecida como funções executivas. E um dos dados mais importantes desse estudo foi que os hábitos deletérios já na meia idade foram capazes de influenciar o desempenho cognitivo na velhice.
O efeito negativo sobre as funções cognitivas de cada um desses fatores estudados já havia sido anteriormente demonstrado, mas essa é foi a primeira vez que esses efeitos foram demonstrados em conjunto. Isso é importante, pois é bem reconhecido que hábitos de vida costumam andar em grupo: um hábito saudável atrai outros hábitos saudáveis assim como hábitos deletérios também atraem outros. E por falar em grupos, outra coisa que a ciência tem nos demonstrado é que andar ao lado de pessoas com estilo de vida saudável aumenta nossa chance de adotar hábitos saudáveis também.
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Um estudo publicado recentemente pelo periódico Neurology, jornal oficial da Academia Americana de Neurologia, revela que as atividades de lazer entre os idosos são capazes de proteger o cérebro da perda de memória. Quase 500 americanos com idades entre 75 e 85 anos sem problemas cognitivos foram estudados por uma média de cinco anos. Os pesquisadores avaliaram periodicamente o nível de participação dos idosos em seis diferentes atividades de lazer: leitura, escrita, palavras cruzadas, jogos de tabuleiro ou cartas, reuniões para discussão em grupo, e hábito de tocar um instrumento musical. Durante o estudo, cerca de um quinto dos voluntários desenvolveu um quadro de demência, e a velocidade da perda de memória foi menor entre os idosos que tinham mais atividade de lazer, independentemente do nível educacional.
Vivemos numa época em que esperamos viver muitos e muitos anos, graças aos grandes avanços da ciência. Sabemos que muito de nossa estrutura cerebral modifica-se com o envelhecimento, mas também já sabemos que essas alterações não provocam necessariamente perdas da função cerebral. É como se fosse um cabo-de-guerra: de um lado o envelhecimento cerebral e de outro uma série de estratégias já bem conhecidas que podem fazer com que as perdas sejam menores ao longo dos anos. Dentre essas estratégias, as atividades de lazer podem ser colocadas lado a lado com uma dieta saudável e atividade física e intelectual, todas elas voltadas para uma mesma direção: aumentar nossa RESERVA CEREBRAL. Quem tem muita RESERVA pode até perder um pouquinho que não sentirá tanta falta e o nível educacional é um dos fatores mais importantes dessa nossa RESERVA.
O presente estudo não é o primeiro a revelar que o lazer tem efeito protetor sobre o cérebro. Não podemos esquecer que o tipo de lazer pode fazer a diferença. Uma das pesquisas revelou que várias atividades de lazer foram positivas ao estado cognitivo dos idosos, mas já o tempo em que eles passavam em frente à TV teve impacto negativo.






















