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O periódico Neurology da Academia Americana de Neurologia publicou hoje uma pesquisa que revelou que idosos com memores capacidades executivas têm um risco quase duas vezes maior de desenvolver um infarto do coração ou AVC.  O estudo acompanhou cerca de quatro mil indivíduos com uma média de idade de 75 anos por três anos.

Os resultados chamam a atenção para a influência que cada um desses órgãos exerce sobre o outro.  Apontam também a importância de uma avaliação cognitiva para se definir o risco cardiovascular de um indivíduo.  Deficiência das funções cerebrais executivas pode refletir doença dos seus vasos e redução de sua irrigação sanguínea e, como foi demonstrado, um maior risco de derrame cerebral. E essa menor vascularização cerebral é acompanhada de uma menor vascularização do coração e uma maior chance ataques cardíacos. Enquanto na Doença de Alzheimer a memória é a deficiência cognitiva mais encontrada, na disfunção cognitiva vascular o acometimento das funções executivas é o mais observado.

Procrastinação é uma tendência a deixar as coisas para a última hora. Isso pode produzir estresse, especialmente quando começa a afetar o trabalho ou até mesmo as rotinas da vida familiar. O velho ditado de “não deixe para amanhã aquilo que você pode fazer hoje” para algumas pessoas não cola muito.

O outro lado da moeda da procrastinação é o exagero em precipitação que também tem seu nome: precrastinação. Às vezes as pessoas tomam atitudes sem a reflexão necessária, respondem a um email sem pensar duas vezes, pagam uma conta muito antes do vencimento, etc. Estudos recentes têm demonstrado que esse comportamento não é um simples resultado da correria da vida. Pombos que ganham alimento após tocar uma touchscreen demonstram precrastinação e a tendência não é diferente nos seres humanos.  É possível que esse comportamento seja uma forma do cérebro não gastar memória para lembrar ações para o futuro.  Outra forma de explicar é o prazer gerado por uma tarefa que se completa e , além do prazer, terminar uma tarefa permite a avaliação sobre o custo-benefício de novas ações. Quanto mais cedo ficar sabendo melhor.

E você é do tipo que procrastina ou precrastina?

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A teoria da evolução defende a tese que nós humanos chegamos até aqui com o cérebro que temos pelo menos em parte graças ao nosso padrão de alimentação. Há uma série de evidências paleontológicas que nos aponta que existe uma relação direta entre acesso ao alimento e tamanho do cérebro, e que mesmo pequenas diferenças nesse acesso podem influenciar a chance de sobrevivência e o sucesso reprodutivo. Entre os hominídeos, pesquisas mostram que o tamanho do cérebro está associado a diversos fatores que em última instância refletem o sucesso em se alimentar como é o caso da capacidade de preparar alimentos, estratégias para poupança de energia, postura bípede e habilidade em correr.

O consumo de ácidos graxos da família Ômega 3 é a mais estudada interação entre alimento e a evolução das espécies. O ácido docosahexanóico (DHA) pode ser considerado o ácido graxo mais importante para o cérebro, já que é o mais abundante nas membranas das células cerebrais e são considerados essenciais por não serem produzidos pelo organismo humano, que precisa obtê-los por meio de dieta. Acredita-se que o consumo de Ômega 3 teria sido fundamental para o processo de aumento na relação peso cérebro/ peso corpo, fenômeno conhecido como encefalização, ou seja, aumento progressivo do tamanho do cérebro em relação ao corpo ao longo do processo evolutivo. Estudos arqueológicos apóiam essa hipótese, já que esse processo de encefalização não ocorreu enquanto os hominídeos não se adaptaram ao consumo de peixe.

Este ano a prestigiada revista Neuron publicou os resultados de uma pesquisa bem interessante que mostrou que somos o que somos graças à abundância de gordura em nossos cérebros. Esse  conteúdo de gordura é de importância gigantesca, pois é a principal matéria-prima das membranas celulares e são essas membranas que permitem a sinalização elétrica entre os neurônios.

Pesquisadores do Instituto Max Planck na Alemanha avaliaram o conteúdo de mais de cinco mil tipos de moléculas de gordura no cérebro de humanos, chimpanzés e roedores. Eles demonstraram que o cérebro dos humanos tem uma variedade de lipídios muito maior que o dos outros animais. Na história da evolução, homens e chimpanzés se originaram de um ancestral comum em uma época semelhante. Acreditava-se que esse conteúdo de gordura do cérebro não devesse ser muito diferente, mas a análise mostrou que somos três vezes mais avantajados. Já o conteúdo de gordura não foi diferente quando se comparou o cerebelo dos homens e chimpanzés. Essa é uma região do sistema nervoso mais arcaica e comum a todos os vertebrados e não é o que nos faz tão diferentes.

Deficiencia de Ômega 3 está associada a uma série de transtornos neuropsiquiátricos, como é o caso da depressão e transtorno bipolar, esquizofrenia, transtorno de déficit de atenção e dislexia.

Dietas ricas em Ômega 3, ou até mesmo na forma de suplementos alimentares, são capazes de melhorar o aprendizado e memória de crianças e ainda reduzem o risco de desenvolver depressão e demência. Pode ainda facilitar o controle da epilepsia e da esclerose múltipla.

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Um estudo publicado nesta última semana pelo periódico da Academia Americana de Neurologia aponta que o diabetes não é muito amigo do cérebro. A regulação dos vasos do cérebro no diabetes não é tão afinada e isso acaba implicando em um menor desempenho cognitivo e na capacidade de realizar atividades do dia a dia.

A regulação dos vasos sanguíneos cerebrais em resposta às diferentes demandas de atividade, também conhecida como vasorreatividade, é reduzida entre pacientes com diabetes tipo 2. Nossos vasos sanguíneos devem ser vistos como órgãos tão inteligentes e complexos como o fígado ou o coração. Quando nos levantamos, quando fazemos força, quando ficamos sem respirar por alguns instantes, todas essas situações exigem com que os vasos sanguíneos do cérebro adaptem seus calibres para manter sempre a mesma pressão do sangue que entra no cérebro. Se este controle falhar, alterações rápidas e transitórias do estado de consciência podem acontecer.  As pequenas artérias do cérebro, também chamadas de arteríolas, são as maiores responsáveis por esse controle. Pensar e falar também exige uma vassorreatividade afinada.

A atual pesquisa demonstrou que idosos com o diagnóstico de diabetes apresentam um declínio mais acentuado da vasorreatividade ao longo dos anos, mas também de algumas funções cognitivas como memória e  tomada de decisões. Os idosos estudados que tinham essa regulação dos vasos menos eficiente foram os que mais apresentaram dificuldades em atividades diárias como cozinhar ou tomar banho. Testes sanguíneos mostraram também que maiores níveis de inflamação sistêmica estão associados a uma pior regulação dos vasos, mesmo entre aqueles que têm a doença bem  controlada.

O recado principal desse estudo é o de que investir na saúde dos vasos sanguíneos, além de prevenir as duas doenças que mais matam no Brasil (infarto do coração e derrame cerebral), pode ainda prevenir declínio cognitivo nos idosos. Como investir nas artérias do cérebro? Atividade física regular, consumo regular de frutas e verduras, tratar com rigor problemas como a hipertensão arterial, diabetes e colesterol alto. Tabagismo nem em pensamento.

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Uma pesquisa recente aponta que a música dos quartos cantos do mundo tem mais coisas em comum do que diferenças.  Entre essas semelhanças sobressaem os ritmos marcantes que podem funcionar como uma “cola social”, facilitando a conexão entre membros de um grupo.

Musicólogos de diversos países publicaram recentemente no prestigiado periódico PNAS uma analise de 304 músicas de diferentes estilos representando os diversos continentes. Eles selecionaram músicas da Enciclopédia Garland de World Music que inclui músicas instrumentais e canções, tradicionais e contemporâneas.  Os pesquisadores analisaram 32 aspectos das músicas como tonalidade, ritmo, forma, contexto social e concluíram que, apesar de uma aparente diversidade, a música de diversos pontos do mundo têm muita coisa em comum.

Quando se pensa em música como uma cola social, é bom lembrarmos da imagem de trabalhadores cantando em coro durante o trabalho braçal. Não faz muito tempo que o Instituto Max Plamck na Alemanha, junto a outros grupos de pesquisa, demonstrou que a música ajuda na hora de fazer um esforço físico não simplesmente por distrair a atenção do sofrimento do corpo. A música realmente é capaz de reduzir o esforço na hora de executar uma tarefa.

Para chegar a essa conclusão os cientistas realizaram experimentos em que voluntários tinham que se exercitar em um aparelho de musculação ora ouvindo uma música de forma passiva, ora ouvindo a música, mas podendo interferir na sua estrutura de acordo com o ritmo que imprimiam no aparelho.  Eles ainda eram monitorados quanto ao consumo de oxigênio e a experiência subjetiva do esforço físico.

Quando eles “produziam” a música, a percepção do esforço era menor e os músculos realmente eram mais eficientes: faziam o corpo consumir menos energia.

Os homens seguem mais as carreiras de engenharia, ciência e tecnologia que as mulheres. Uma das formas de explicar essa diferença é que eles têm mais facilidade em matemática. Entretanto, uma pesquisa recém-publicada por pesquisadores da Universidade Estadual de Washington nos EUA mostra que os homens têm a ilusão de que são melhores em matemática e, por se “acharem”, acabam mesmo tendo um melhor desempenho. Já as mulheres são mais realistas quando julgam seus talentos matemáticos. Nem para mais nem para menos.

O estudo envolveu testes de aritmética, mas também um questionário que abordava uma autocrítica sobre as habilidades matemáticas de cada voluntário. Os homens realmente julgaram ter um melhor desempenho do que os testes mostraram, mas foram melhores que as mulheres. Já entre as mulheres, aquelas que tiveram experiências positivas com a matemática foram aquelas que se julgavam mais talentosas com os números.

Realmente não faz sentido levar a sério a crença de que o cérebro das mulheres é menos talentoso para o pensamento matemático. Há até estudos mostrando que as meninas ganham dos meninos no ensino fundamental. A autoconfiança pode fazer toda a diferença. Ameaça de estereótipo é um fenômeno em que uma pessoa experimenta insegurança e ansiedade pelo receio de terem um pior desempenho por fazerem parte de um grupo com estereótipo de inferioridade. Estamos falando, por exemplo, da raça negra e gênero feminino.

As pessoas que fazem parte desses grupos têm pior desempenho quando “lembradas” desses estereótipos. Esse é o caso de meninas em testes de matemática quando lembradas que os meninos são melhores em matemática. O mesmo ocorre se as meninas recebem algum “toque” de que meninos são superiores no xadrez. O estereótipo de um campeão de xadrez é o de um homem bem esquisito e não o de uma mulher de salto alto.

Negros também têm pior desempenho em um teste cognitivo quando são avisados que a resolução do problema depende de habilidade intelectual. Negros carregam o estereotipo que são menos inteligentes que os brancos. Pobres também carregam um estigma gigante.

A ameaça de estereótipos pode fazer com que mulheres não sigam uma série de carreiras que os homens são supostamente superiores. Pode fazer com que negros e pobres não desenvolvam plenamente suas habilidades cognitivas. Meninos também carregam seus estereótipos. Sá que eles têm mesmo menores dons artísticos?

É fundamental a conscientização desse fenômeno por parte de pais e professores. Dar pistas para que se lembre da igualdade entre os gêneros e entre as raças pode mudar essa realidade.

Compartilho com vocês três dicas que a revista Scientific American trouxe esta semana para que os pais sejam melhores pais ainda.

Deixe as crianças ficarem entediadas.

As crianças precisam de tempo à toa para que criem suas próprias formas de passar o tempo.  Temos evidências de que crianças que vivem numa agenda lotada de atividades orientadas – aula disso, aula daquilo – têm menores habilidades executivas.  Esse tempo que a criança precisa inventar o que fazer é fundamental para o exercício da iniciativa, persistência, criatividade e consciência de que podem influenciar seus mundos.

Deixe as crianças às vezes se virarem sozinhas

Pais não podem ser muito ausentes. Também não é legal uma presença exagerada. Os pais não precisam resolver todos os problemas dos filhos. É bom deixá-los resolver parte deles sozinhos, pois isso traz um senso de competência, autoconfiança e autonomia.

Coloque a máscara de oxigênio em você antes de colocar no filho.

Os pais devem investir em sua saúde mental. Pais com mentes desafinadas desafinam as crianças!

O cerebelo é uma região do sistema nervoso central que fica na sua parte posterior e por muitos anos foi considerado como o maestro de nossa coordenação motora. Há algum tempo temos evidências de que o cerebelo também participa da nossa atividade cognitiva. Nesse caso ele usa sua batuta para fazer com que as regiões do pensamento trabalhem em conjunto de forma mais eficaz.

Pesquisadores da Universidade de Stanford nos EUA demonstraram recentemente de que o cerebelo também é um dos atores principais para a orquestração de nossa criatividade. Quando voluntários fazem desenhos dentro de uma máquina de ressonância magnética funcional, os desenhos eleitos pelos participantes como os mais criativos foram os que foram feitos com uma maior ativação do cerebelo.  O cerebelo é um maestro que trabalha em um nível inconsciente. Quanto menor a consciência do processo, maior será sua ativação. Trocando em miúdos: quanto mais nos esforçamos para pensar e calcular uma criação, menos criativo será o produto final.

A velha história de que o hemisfério cerebral direito é mais criativo que o esquerdo está cada vez mais fora de moda. O cerebelo também tem dois lados e parece que ambos fazem toda a diferença no processo criativo.

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O cérebro das crianças pode aprender a ter reações exageradas aos própios erros quando os pais são muito rigorosos. Isso é meio caminho andado para desenvolver um quadro de ansiedade que pode durar muito anos.

Uma pesquisa realizada no fim de 2014 nos EUA, envolvendo mais de quatro mil adultos das mais diferente idades, mostrou que as pessoas que têm mais memórias de infância de pais autoritários são os que também relatam mais sintomas de ansiedade.

Outro estudo conduzido por pesquisadores da universidade americana Stony Brook revelou que o cérebro das crianças que têm pais autoritários responde de forma diferente aos erros.  Já é reconhecido um sinal elétrico no cérebro evocado pelo lobo pré-frontal que faz com que possamos corrigir erros durante uma ação. Eles estudaram esse sinal em cerca de 300 crianças aos três anos de idade e depois novamente aos seis anos enquanto montavam um quebra-cabeça na companhia dos pais. O sinal aos seis anos de idade era maior nas crianças que aos três anos tinham pais que se julgavam mais severos / punitivos e também naquelas com pais que apresentaram comportamento autoritário / crítico durante a dinâmica com a criança.

“ hay que endurecer, pero sin perder la ternura jamás”

O som de uma cachoeira no ambiente de trabalho pode melhorar o humor das pessoas e até mesmo a produtividade. Essa é a conclusão de um estudo do Instituto Politécnico Renseleer de Nova Iorque – EUA que foi apresentado na última semana em Pittsburgh no Encontro da Sociedade Acústica da América.

O barulhinho de uma corredeira de água pode facilitar a concentração das pessoas no trabalho, pois ele faz com que não se perceba o conteúdo daquilo que outras pessoas a metros distância estão dizendo. Isso também dá mais privacidade nas conversas dentro de um ambiente que comporta muitas mesas de trabalho.

Já existem alguns modelos de sons de fundo com a mesma intenção, também chamados de “ruídos brancos”. São sons digitais irregulares e estáveis.  Esse grupo de pesquisadores começou a testar se os ruídos naturais também têm sua função, e parece que o barulho da água correndo pode ser melhor que esses sons digitais ou até mesmo o silêncio.  O segredo desse ruído natural é a constância com certa irregularidade. Isso poderia até ser aplicado para reduzir o estresse de pacientes hospitalizados.

 

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Os homens devem pensar duas vezes antes de se vestir de vermelho. Esta é uma cor que transparece um ar de agressividade de acordo com uma pesquisa publicada recentemente no periódico Biolgy Letters por pesquisadores ingleses da Universidade de Durham  .

Existem situações, como uma entrevista de emprego, em que a roupa vermelha pode ser uma faca de dois gumes. O vermelho passa a imagem de maior agressividade, dá a impressão de que a pessoa é mais competitiva e em algumas situações é o que se espera do entrevistado. Por outro lado, quando se espera um perfil colaborativo, o vermelho pode ser um tiro no pé.

Vermelho é um sinal que sinaliza agressividade e perfil de dominador entre os animais. Devemos ter herdado isso dos nossos ancestrais. Os humanos ficam com a face ruborizada quando têm a experiência de raiva. Esse grupo de pesquisadores já havia demonstrado a influência da cor vermelha em times esportivos, sendo um fator de intimidação nos oponentes. Chegam até a propor aos cartolas que criem regulamentos para banir o vermelho dos uniformes, evitando vantagens pela cor do uniforme.

Os pesquisadores analisaram a impressão que mulheres tinham de 50 diferentes homens, através de imagens manipuladas digitalmente em que se mudava a cor das camisetas. Os homens com camiseta vermelha foram considerados mais agressivos e dominadores do que os vestidos de azul ou cinza. Além disso, a expressão facial dos homens de vermelho foi classificada mais frequentemente como brava. As outras duas opções de classificação eram amedrontada e neutra.

Não temos ainda resultados da impressão dos homens sobre mulheres de vermelho, mas não tenho muitas dúvidas de que deva ser bem diferente.

O smartphone atrapalha seu exercício físico na esteira se você falar ao telefone ou digitar um texto. Entretanto, ele pode melhorar seu desempenho se você estiver o usando para ouvir música.  Essa é a conclusão de um estudo recém-publicado nesta última semana por pesquisadores americanos na prestigiada revista PLoS ONE.

Eles estudaram 44 voluntários (média de 22 anos de idade) na esteira que fizeram testes em quatro dias diferentes em cada uma das seguintes modalidades: sem celular, com celular falando ao telefone, com celular digitando uma mensagem, com celular ouvindo música de uma playlist própria.  Durante os testes foram monitorados a velocidade alcançada, freqüência cardíaca e o prazer durante o teste, Aqueles que ouviram música tiveram mais prazer no teste e também foram os que tiveram o melhor desempenho cardiorrespiratório e de velocidade. Aqueles que falaram ao celular também tiveram mais prazer, mas perderam em velocidade e mantiveram a freqüência cardíaca.  Já digitar uma mensagem piorou tanto a velocidade como o desempenho cardiorrespiratório, sem influenciar o prazer.

Atividade física e música: uma dupla poderosa

Até há pouco tempo, competições esportivas como maratonas liberavam o uso de aparelhinhos de música com fones de ouvido, mas hoje em dia isso não é permitido. São duas as justificativas: pela segurança do atleta e para não criar desvantagens para aquele que não compete com o aparelho.

Nos últimos dez anos muito se avançou no entendimento desse binômio música / atividade física. Já em 1911, o pesquisador Leonard Ayres observou que os ciclistas pedalavam mais rápido quando tinha uma banda de música na rua do que quando não tinha. Música diminui a percepção da dor, da fadiga e do esforço despendido, melhora o estado de humor e aumenta a resistência. A música melhora o desempenho em atividades como corrida e natação, sem que a pessoa nem tenha consciência disso.

 

Qual é a melhor música?

A maioria das pessoas tem um instinto para sincronizar os movimentos e expressões com o ritmo da música. As conexões diretas entre o sistema auditivo e motor são os pilares desse instinto.

. O ritmo de dois batimentos por segundo parece ser a preferência inata da maioria das pessoas. Um estudo avaliou mais de 70 mil músicas pop e mostrou que o pulso mais comum era o de dois por segundo – 120 por minuto. Quando as pessoas são solicitadas a batucar os dedos ou caminhar, esse é o ritmo mais comumente observado.

A sincronia com o ritmo musica promove o uso de energia de forma mais eficiente, com menos ajustes para a coordenação. A relação entre a música e o movimento no cérebro é íntima. Ao ouvirmos uma música agradável, há um aumento da atividade elétrica de várias regiões do cérebro responsáveis pelos movimentos. Uma pesquisa demonstrou que o consumo de oxigênio é 7% menor quando se pedala sincronizado com a música. Já existem até aplicativos que selecionam as músicas de acordo com a frequência cardíaca.

Ritmo acelerado não é tudo. As memórias e emoções evocadas pela música fazem muita diferença. Distração é outra forma de explicar o poder da música durante a atividade física. A música nos distrai dos alarmes do corpo de que já chegamos no limite. Essa distração também pode facilitar acidentes e por isso devemos ficar bem atentos e ter consciência de que em algumas situações a música é incompatível com segurança.

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Muitas companhias de alimentos probióticos  vendem a ideia de que cultivar no intestino as bactérias certas pode ser meio caminho andado para nosso bem estar mental.  Os cientistas eram muito céticos quanto a essa possível influência, mas hoje chegam a chamar o intestino de “segundo cérebro”.

A comunicação entre o cérebro e o sistema digestivo é conhecida há muito tempo, especialmente no que tange a influência de “cima para baixo”. Expressões como frio na barriga dizem muito sobre isso. O cérebro regula o sistema digestivo através do sistema nervoso autônomo, composto pelos sistemas simpático e parassimpático.  São eles que controlam nossos batimentos cardíacos, a respiração e a digestão.  A rede de neurônios do sistema digestivo é tão robusta que até funcionaria sem o cérebro, mas é bem mais inteligente com as comunicações de cima para baixo e de baixo para cima.

Além das fiações que ligam o cérebro ao sistema digestivo, também é bem reconhecida a influencia dos hormônios e mais recentemente a flora intestinal. As bactérias do intestino podem ter influência em condições clínicas como a depressão, ansiedade e o autismo, e uma das formas de entender essa relação é o fato de que algumas bactérias são produtoras de neurotransmissores como a sertralina e o GABA.  E parece que o contato com bactérias durante o nascimento já faz alguma diferença. Ratinhos que nascem por parto cesárea têm mais comportamentos de ansiedade e depressão do que os nascidos por parto vaginal.

Um estudo publicado em 2013 mostrou que um modelo de ratinho de comportamento ansioso e antissocial apresentava menores níveis de uma bactéria frequentemente encontrada na flora intestinal, Bacterioidis fragilis. Os pesquisadores reverteram esse comportamento dos ratinhos ao alimentarem os mesmos com a bactéria.  Eles também demonstraram que os ratinhos estressados tinham uma maior concentração no sangue de um metabólito bacteriano (4EPS) e que a injeção desse metabólito em ratinhos normais provocava o comportamento alterado.

As possibilidades de associação da flora intestinal com algumas doenças neuropsiquiátricas estão só engatinhando. Não podemos dizer muita coisa ainda, mas a neurociência está de olho.

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Aquilo que considerávamos importante para ser feliz há 80 anos é um pouco diferente do que se pensa hoje.  Essa é a conclusão de uma análise dos psicólogos Sandie McHugh e Jerome Carson da Universidade de Bolton na Inglaterra ao refazerem um famoso estudo sobre felicidade de 1938.

Em 1938, um anúncio de jornal em Bolton convidou os leitores a responderem à pergunta “O que é felicidade?”. Um total de 256 pessoas enviou cartas ao jornal e estes foram convidados a elencar dez fatores que julgavam mais importantes para serem felizes. Em 2014, o estudo foi replicado.

Em 1938, segurança, educação e religião foram os três ingredientes mais importantes, no entender desse moradores de Bolton, para a felicidade.  J[a em 2014, segurança ficou em terceiro lugar e bom humor e lazer em primeiro e segundo.  Religião, em 2014,  foi deslocada para décimo lugar.

Em 1938 a maioria das pessoas sentia-se feliz na cidade, mas em 2014 63% declararam estar mais felizes quando estavam fora da cidade.  Sorte foi um item lembrado para a felicidade por 40% das pessoas nos dois períodos.

Em 2014, 77% responderam que a felicidade NÃO está diretamente ligada aos bens materiais.  Em 1938, bens materiais não chegaram a fazer parte dos dez fatores mais elencados pelos participantes do estudo. Os tempos mudaram, não?

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Solidão faz mal à nossa saúde e não sabemos muito bem ao certo quais os mecanismos envolvidos nesse “comportamento de risco”. Um estudo recém-publicado pelo periódico Hormones and Behavior testou a hipótese que uma das possíveis explicações para esse efeito adverso à saúde seria o aumento da ingestão calórica e suas bem conhecidas repercussões.

Pesquisadores da Universidade Estadual de Ohio nos Estados Unidos recrutaram 42 voluntárias (53 anos em média) que foram submetidas a um jejum de doze horas antes do inicio do estudo. Começaram a manhã com uma dieta de 930 calorias composta de ovos, salsicha de peru e biscoitos. No restante do dia elas tinham amostras de sangue para quantificação do hormônio grelina que está muito associado à fome e ao ato de comer. Elas também respondiam o quanto se sentiam famintas.

Os resultados mostraram que aquelas que se sentiam mais solitárias eram as que referiam mais fome e também as que tinham maiores níveis de grelina. Um estudo anterior publicado pelo mesmo grupo de pesquisadores havia revelado que mulheres que sofriam um estresse psicológico agudo tinham um aumento da grelina e redução do hormônio moderador de apetite – leptina.

Apenas hipóteses para explicar essa relação entre fome / grelina e solidão. A mais aventada é a de que do ponto de vista evolutivo a solidão provoca fome, já que comer é uma atividade de grupo e oportunidade de promover socialização.

O cheiro do suor pode transmitir a outra pessoa seu estado emocional. Se alguém está alegre, seu suor pode “contaminar” o outro com essa alegria e o mesmo acontece com o estado de medo. Essa transmissão se dá por sinais químicos presentes no suor. Essa é a conclusão de um estudo publicado esta semana pelo periódico Psychological Science.

Pesquisas anteriores já tinham demonstrado que emoções negativas podem ser transmitidas a outras pessoas através do suor, mas não se sabia bem ao certo se o mesmo acontece com emoções positivas.

Pesquisadores holamdeses da Universidade de Utrecht colheram amostras de suor de 12 voluntários homens após assistirem a vídeos que induziam três diferentes estados emocionais: medo, alegria e neutralidade.  Trinta e seis mulheres cheiraram as amostras de suor dos doze homens e quando eram expostas ao suor de homens que assistiram ao vídeo alegre, passavam a demonstrar uma expressão facial de alegria. Quando sentiam o suor dos homens que assistiram ao vídeo que evocava medo, passavam a apresentar uma expressão facial apreensiva,  enrugando os músculos da testa.  O teste foi duplo cego – nem os voluntários nem os pesquisadores sabiam que tipo de suor estava sendo testado.

Futuros estudos deverão explorar esse conhecimento para aplicação na indústria de perfumes.

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Um estudo publicado recentemente pelo periódico Sleep da Academia Americana de Medicina do Sono aponta que depressão e insônia são os dois fatores mais associados à experiência de se ter pesadelos frequentes.

O estudo conduzido por pesquisadores finlandeses da Universidade de Turku mostrou que 3.9% de adultos referem ter muitos pesadelos – 4.8% entre as mulheres e 2.9% entre os homens. Já entre aqueles com diagnóstico de depressão essa frequência era de 28% e para quem sofria de insônia era de 17%. Pesadelos ocasionais chegavam a acontecer em quase metade dos voluntários. Foram avaliados 14 mil indivíduos com idades entre 25 e 74 anos.

Os resultados mostram uma clara associação entre pesadelos e o bem estar mental. Ovo ou galinha? Não sabemos se a depressão e a insônia levam a pesadelos ou se os pesadelos são sinais desses transtornos. Pesadelos são sonhos realistas, vívidos e perturbadores com conteúdos que ameaçam a própria sobrevivência e que frequentemente levam a ansiedade e medo. Pesadelos passam a ser um distúrbio do sono quando começam a influenciar negativamente a vida social ou de trabalho. A pessoa pode ter o sono interrompido muitas vezes e até criar receio de ir dormir e voltar a ter a experiência ruim.

Um estudo publicado esta última semana pelo prestigiado periódico Science mostrou que as concentrações do hormônio ocitocina de humanos, e também dos cães, aumentam à medida que eles interagem entre si.

Pesquisadores japoneses da Universidade de Azabu demonstraram que após uma interação de trinta minutos entre uma pessoa e seu cão os níveis de ocitocina na urina eram maiores nas “duplas” que interagiam mais entrte si com o olhar. A interação do cão com uma pessoa desconhecida não provocou o mesmo efeito.  Em outro experimento eles aplicaram ocitocina intranasal nos cães e observaram que as fêmeas passaram a ter uma maior interação visual com seus donos, e isso por sua vez aumentou a concentração do hormônio dos donos.  Essa diferença de gêneros não aconteceu no primeiro experimento e novos estudos deverão ser feitos para esmiuçar melhor essa questão.

A ocitocina é um hormônio produzido no cérebro (hipotálamo) e está associado a processos fisiológicos envolvidos na maternidade –contrações uterinas no momento do parto e a liberação de leite na amamentação. Ela atua no cérebro materno fortalecendo os laços de carinho com o filho, os cuidados básicos e de proteção. A ocitocina está associada também à produção de dopamina, o neurotransmissor responsável pelo controle do sistema de recompensa cerebral. Quando o hormônio é administrado a homens com relações estáveis e, a estes são apresentadas fotos de suas mulheres, o sistema de recompensa cerebral é estimulado de forma mais intensa, fazendo o cérebro ficar mais atraído pela parceira.

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É bem reconhecido o benefício do humor do ponto de vista individual e por facilitar as interações sociais. O humor ajuda as pessoas a tolerar melhor a dor e a tragédia e promove coesão em grupos reduzindo a chance de conflitos sociais

Uma linha de pesquisa tem mostrado também que o humor pode facilitar o desempenho no trabalho incrementando a criatividade e o coleguismo. Um estudo publicado recentemente pelo periódico Journal of Applied Psychology fez uma avaliação longitudinal de eficiência e produtividade de colaboradores de duas indústrias na Alemanha. Os pesquisadores avaliaram o vídeo de 54 reuniões e quantificaram o conteúdo de humor de cada uma delas.  Um exemplo de de manifestação de humor em reunião é uma consideração seguida de risadas pelo grupo.

Podemos pensar que o humor em reuniões de trabalho pode distrair o grupo e ser contraprodutivo, mas parece que acontece o contrário. Os pesquisadores avaliaram respostas a curtíssimo prazo após uma interação bem humorada e mostraram que o humor atraiu comportamentos de solução de problemas e definição de metas além de maior suporte entre os pares.

Os pesquisadores foram além. Entrevistaram os supervisores das equipes, que não estavam presentes nas reuniões, para avaliar o desempenho no curto prazo e após dois anos.  A eficiência era maior entre os grupos com maior conteúdo de humor em suas reuniões, tanto no curto como no longo prazo. Porém, essa relação entre humor e desempenho não existia quando  os colaboradores sentiam que seus empregos estavam em risco.

Nesta última semana, um estudo publicado pelo periódico Neurology da Academia Americana de Neurologia demonstrou que idosos que tinham uma boa vivência social e se envolveram com atividades artísticas como pintura na meia idade e na velhice tinham menos chances de apresentar declínio da memória.

Pesquisadores americanos da Mayo Clinic em Rochester, Minnesota, avaliaram 256 voluntários com uma média de idade de 87 anos e, após um seguimento de quatro anos, metade deles desenvolveu transtorno cognitivo leve. Eles demonstraram que aqueles que se envolveram na meia idade e na velhice em atividades como pintura, desenho ou escultura tinham 73% menos chance de apresentar esse déficit de memória. O envolvimento com trabalhos artesanais como marcenaria, costura, e cerâmica estava associado a um risco 45% menor. Já uma vida social com o hábito de encontros com amigos, cinema, teatro, concertos ou viagens conferia uma redução de risco de 55%. Atividades no computador como o uso da Internet e jogos diminuía o risco em 53%.  Por outro lado, o risco era maior quando se tinha história de pressão alta, depressão e outros fatores de risco vascular como diabetes.

O estudo nos faz concluir que deixar o cérebro ocupado é um grande negócio para proteger os neurônios, seja por garantir uma vida mais longa a eles, seja por estimular o crescimento de novos neurônios ou novas conexões. E não é só trabalho que deixa o cérebro ocupado.

É bastante comum vermos pessoas com mais de 60 anos de idade colocando a culpa de suas queixas de memória no cérebro que não é mais jovem. Na verdade, o envelhecimento cerebral normal provoca apenas discretas mudanças no desempenho cognitivo após os 50-60 anos de idade, muitas vezes só detectáveis através de testes rigorosos. Na maioria das vezes, porém, as queixas de memória têm mais relação com quadros de ansiedade, depressão, transtornos do sono e o estresse do dia a dia do que com doenças cerebrais propriamente ditas.

Infelizmente, algumas pessoas à medida que envelhecem começam a ter queixas de memória de forma mais intensa, podendo evoluir para quadros de demência. A definição de demência é o acometimento de diversas dimensões do pensamento que chega a comprometer a capacidade de um indivíduo em realizar suas atividades habituais. Entre o envelhecimento cerebral normal e a demência, podemos encontrar pessoas que estão no meio do caminho, e essa é uma condição chamada de transtorno cognitivo leve.

Idosos com transtorno cognitivo leve costumam apresentar dificuldades significativas de memória com outras funções cognitivas preservadas, sem que isso atrapalhe de forma expressiva suas atividades diárias. Outros apresentam uma variante em que a memória é preservada enquanto outras funções estão acometidas. Nem todas as pessoas que apresentam transtorno cognitivo leve apresentarão demência no futuro, mas a maioria apresentará sim. A cada ano, cerca de 10-15% de idosos com diagnóstico de transtorno cognitivo leve  receberá o diagnóstico de demência, comparado a 1-2% para idosos sem o problema.

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