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O cérebro humano é dotado de um sistema de recompensa que é estimulado por ações que julgamos prazerosas, estímulos que nos sinalizam que vale a pena repetir um determinado comportamento. Esse mecanismo é visto como uma vantagem evolutiva que favorece a sobrevivência da espécie e tem o neurotransmissor dopamina como seu principal ingrediente. A cada situação de prazer, o cérebro memoriza a relação do prazer experimentado à situação que o provocou e sabemos que alguns estímulos são mais potentes que outros no disparo desse processo: um alimento bastante calórico como o chocolate é mais poderoso que uma salada de folhas.
Esse sistema é uma importante janela para o entendimento dos mecanismos que fazem com que algumas pessoas tenham tendência a comportamento alimentar compulsivo e vício em drogas. Os mesmos mecanismos que são úteis para a sobrevivência podem ser meio “desafinados” em alguns indivíduos.
O uso de táticas mentais com o objetivo de modular as emoções tem reconhecido sucesso na redução de reações negativas frente a estímulos conflituosos. Sabemos muito menos sobre o efeito de tais táticas no controle do comportamento humano diante de situações recompensadoras e um estudo publicado ontem pela revista Nature revela que o resultado nessas situações também é positivo.
Indivíduos foram submetidos a um teste psicológico que envolvia recompensa em dinheiro ao visualizar um quadrado azul. Aqueles que foram instruídos a olhar para o quadrado azul e pensar no dinheiro tiveram regiões do cérebro associadas ao sistema de recompensa mais estimuladas do que aqueles que foram instruídos a pensar em algo azul na natureza que os deixasse mais calmos, como a imagem de um oceano. Essas respostas foram demonstradas tanto por medidas eletrofisiológicas com por ressonância magnética funcional.
Os resultados dessa pesquisa sugerem que pacientes com comportamentos compulsivos (ex: drogadição) podem se beneficiar de terapias que os ensinem a usar a força do pensamento para evitar o contato com os estímulos “recompensadores”, porém nocivos à saúde.
Um dos principais marcadores da Doença de Alzheimer é o acúmulo no cérebro de uma substância protéica chamada de beta-amilóide, substância também encontrada no cérebro de idosos saudáveis, porém em pequenas quantidades. Esse acúmulo excessivo de proteínas no cérebro, que é geneticamente determinado, faz com que aos poucos ele vá ficando ineficiente. Os medicamentos atualmente aprovados para o tratamento da doença apenas retardam levemente a progressão do declínio cognitivo, sem mudar a história natural da doença. O grande sonho é encontrar uma estratégia eficiente que reduza o acúmulo dessas proteínas no cérebro.
Estudos com ratinhos vêm demonstrando resultados positivos de vacinas com a intenção de reduzir o depósito de beta-amilóide no cérebro. Além da redução do menor depósito da substância, os ratinhos que tomam a vacina ficam mais espertos. Esses estudos foram o alicerce para que um estudo em humanos fosse iniciado no ano de 2000 e esta semana podemos ter acesso aos seus resultados em publicação pela revista The Lancet. Os participantes do estudo já apresentavam diagnóstico clínico de Doença de Alzheimer e foi evidenciado que aqueles que usaram a vacina apresentaram uma significativa redução de depósitos de beta–amilóide no cérebro. Entretanto, o estudo não conseguiu demonstrar que essa redução de depósitos cerebrais mudou a velocidade de progressão da doença: os pacientes evoluíram tão mal quanto aqueles que não usaram a vacina.
Os resultados não devem ser vistos exatamente como um banho de água gelada, já que a redução de depósitos cerebrais de beta-amilóide demonstrados já foi um resultado vitorioso. Entretanto, o fato da vacina não ter ajudado a evolução clínica dos pacientes reforça a idéia de que a simples redução dos depósitos é insuficiente para impedir o processo degenerativo. Talvez o uso da vacina em fases mais precoces da doença possa ter um melhor desempenho clínico e essa deve ser uma estratégia a ser testada, já que os pacientes incluídos no presente estudo já apresentavam a doença em fase clínica moderada.
E o diagnóstico da doença antes dos sintomas é a ordem do dia. Fortes linhas de pesquisa têm tentado demonstrar marcadores biológicos seja no sangue, seja no líquido da espinha, ou através de métodos de neuroimagem, que possam detectar a doença antes que ela se espalhe pelo cérebro. São esses marcadores que conseguirão apoiar as pesquisas com vacinas e outras formas de tratamento para a Doença de Alzheimer, e esperamos que em breve cheguem a fazer parte do repertório da medicina preventiva como já são a mamografia, a colonoscopia e dosagem antígenos prostáticos.
Hoje em dia a previdência privada é uma das principais estratégias para se garantir um futuro financeiro tranqüilo e um dos pilares mais importantes de qualquer investimento é que quanto mais cedo começarmos a poupar, maior será o prêmio no futuro. Não é difícil conversarmos com pessoas que nem são da área financeira, mas que conhecem com bastante preciosismo o significado das diferentes estratégias de investimento. Esse mesmo nível de consciência é desejável também quando se pensa no investimento em saúde. O melhor entendimento do significado da aterosclerose é de extrema relevância, pois esta é a doença que mais causa mortes no nosso país. Investir ainda quando jovens em atitudes que evitem o desenvolvimento e progressão da aterosclerose pode ser o maior pé-de-meia que alguém pode fazer durante sua vida.
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O cérebro de uma pessoa com enxaqueca é sensível além do normal a diversos estímulos, entre eles alguns alimentos que podem desencadear crises. É comum vermos na prática clínica recomendações médicas que aconselham os pacientes a evitar uma lista enorme de alimentos, tarefa que muitas vezes pode ser mais penosa do que as crises de enxaqueca. É bom entender quais os principais cuidados que uma pessoa com enxaqueca realmente deve ter com sua dieta.
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O ideal de uma relação médico-paciente é quando ambas as partes participam das decisões. Entretanto, nem sempre as coisas funcionam assim. Em um extremo encontraremos médicos que se colocam em posição de superioridade e nem escutam a vontade do paciente. No outro extremo encontraremos pacientes com atitude passiva esperando de olhos fechados que o médico tome as decisões, e essa é uma situação mais comum entre idosos e indivíduos com baixo nível educacional. Entre esses dois extremos, encontramos a grande parte das relações médico-paciente, uma relação que tanto o médico como o paciente influenciam um ao outro mutuamente.
Em algumas situações em que o médico pensa que o paciente não quer participar de decisões, esse julgamento pode depender bastante da forma como ele aborda o paciente. Uma coisa é o médico perguntar: “Você prefere que eu tome as decisões a respeito do seu tratamento ou você mesmo pode tomá-las?”. Provavelmente teremos uma diferente resposta se o médico perguntar: “Você quer que eu tome decisões sobre seu tratamento sabendo o que é importante para você, ou sem saber o que é importante para você?
Não existe receita de bolo, fórmula ideal, para se chegar a um bom nível de compartilhamento de decisões. Muito do que se discute e se pesquisa sobre o assunto concentra-se em atitudes do médico que podem facilitar a comunicação e seu papel como facilitador da relação médico-paciente. Entretanto, são poucos os estudos que avaliaram o papel do paciente. Na verdade os pacientes tomam decisões o tempo todo, seja na frente do médico, seja chegando em casa e seguindo ou não a prescrição ou recomendações de mudanças de estilo de vida, ou então quando decide trocar de médico. Alguns pacientes querem só ouvir o que o médico tem a dizer e decidir sozinhos o que fazer.
Há muito que se trabalhar para melhorar a comunicação entre médico e paciente, em busca de uma relação mais eficiente e que promova os melhores resultados ao paciente. E muita gente tem trabalhado por isso. Temos como exemplo a Academia Americana de Comunicação na Assistência à Saúde e também a Academia Européia que têm todo um corpo de programas educacionais aos profissionais de saúde, mas também à comunidade. O sucesso terapêutico depende muito do paciente também, e começa com uma boa comunicação entre médico e paciente, em via dupla.
Um antialérgico chamado Dimebon, usado originalmente na Russia há 30 anos atrás, e esquecido desde que antialérgicos mais modernos entraram no mercado, está se mostrando eficaz no tratamento da Doença de Alzheimer. Hoje a revista Lancet publicou o resultado de uma pesquisa conduzida na Rússia que comparou o Dimebon X Placebo em pacientes com Doença de Alzheimer nas suas formas leve e moderada. O uso da droga mostrou-se seguro com melhora de desempenho em todos os critérios pesquisados, tanto cognitivos quanto comportamentais. Novos estudos com a droga já estão anunciados, e a medicação pode se tornar uma importante arma no tratamento da Doença de Alzheimer, e com custo muito mais em conta do que as drogas atualmente aprovadas.
O estudo russo chama-nos muito a atenção para a questão econômica e de otimização de recursos de pesquisa. Às vezes drogas sintéticas ou naturais que já existem para o tratamento de uma certa doença podem ser valiosas para outras doenças também. Há uma semana atrás um importante estudo foi publicado na revista Science mostrando justamente isso. A lógica de identificação das potenciais novas indicações terapêuticas de medicações foi baseada na identificação de seus efeitos colaterais. Os cientistas identificaram uma série de medicações de diferentes famílias que provocavam os mesmos efeitos colaterais e mostraram que essas mesmas medicações induziam ações similares do ponto de vista molecular / celular. É uma estratégia bastante fértil na busca de novas aplicações para medicações que já estão nas prateleiras das farmácias.
Além de aumentar o risco de inúmeras doenças como o câncer e doenças cardiovasculares, sabemos também que a obesidade influencia negativamente o pleno funcionamento de nossas funções cerebrais.
A capacidade do indivíduo em reconhecer que está acima do peso pode ter grande influência no controle da epidemia de obesidade do mundo moderno, e são vários os fatores envolvidos nessa auto-percepção de obesidade, incluindo os aspectos socioculturais.
Uma interessante pesquisa conduzida na Inglaterra e publicada no British Medical Journal esta semana revela que o número de ingleses que podem ser categorizados como obesos dobrou nos últimos 10 anos – de 11% em 1999, para 19% em 2007. Entretanto, em 1999, 43% da população podia ser classificada como acima do peso e 81% dessas pessoas reconhecia corretamente que estava acima do peso. Já em 2007, 53% da população podia ser classificada como acima do peso, e 75% reconhecia corretamente que estava acima do peso.
Uma das hipóteses mais fortes para explicar essa menor capacidade dos ingleses em se perceberem acima do peso é que o aumento da prevalência da obesidade faz com que as pessoas comparem-se a si mesmas com outras com graus de obesidade mais avançados. Isso faria com que pessoas com graus de sobrepeso leve ou moderado se sentissem em dia com a balança.
E de que adiantam campanhas educativas para redução da obesidade, se as pessoas com sobrepeso acham que o problema não é com elas. Uma das saídas é educar e incentivar a sociedade como um todo a adotar hábitos de vida saudáveis. Tirar o foco sobre os obesos poderia ajudar também a reduzir o estigma associado à condição.
O combate à obesidade é um dos maiores desafios da sociedade contemporânea e ainda há muita discussão sobre qual é o melhor tipo de dieta. Uma importante limitação que impede que possamos ser categóricos em dizer que um tipo de dieta é melhor do que outra é a falta de estudos comparativos a longo prazo. Um estudo publicado hoje pela prestigiada revista New England Journal of Medicine ajuda a preencher essa lacuna.
Durante dois anos, mais de 300 indivíduos obesos foram acompanhados após iniciarem um desses três tipos de dietas:
· Dieta pobre em gordura e com restrição de calorias
Para homens 1800 Kcal e para mulheres 1500 Kcal.
Gorduras: 30% das calorias
Gorduras saturadas: 10% das calorias
· Dieta Mediterrânea com restrição de calorias
Para homens 1800 Kcal e para mulheres 1500 Kcal.
Gorduras: < 35% das calorias
Azeite e nozes diários, muitas frutas e vegetais, grãos integrais e baixo consumo de carnes vermelhas.
· Dieta pobre em carboidratos sem restrição de calorias
Baseada na dieta Atkins: < 120g de carboidratos por dia (< 20g nos 1os dois meses)
Preferência a gordura de origem vegetal
A média de perda de peso para cada grupo ao final do estudo foi:
· Dieta pobre em gordura: 3.3 Kg
· Dieta mediterrânea: 4.6 Kg
· Dieta pobre em carboidratos: 5.5 Kg
Outras duas importantes diferenças entre as dietas foram demonstradas. A dieta pobre em carboidratos foi a que mais favoreceu o controle dos níveis de colesterol. Entre pacientes diabéticos, a dieta mediterrânea foi a que mais ofereceu o controle dos níveis de glicose.
Os resultados indicam que tanto a dieta pobre em carboidratos como a dieta mediterrânea podem ser alternativas eficazes à dieta pobre em gordura. Preferências pessoais devem ser levadas em conta. Uma dieta pobre em carboidratos mas sem restrição calórica seria uma boa opção a indivíduos que não tolerariam uma dieta com restrição calórica. A escolha da dieta também pode ser direcionada pelo perfil metabólico do indivíduo, sendo a dieta mediterrânea potencialmente mais interessante para aqueles com diabetes, enquanto a dieta pobre em carboidratos pode ser a melhor opção para aqueles com alteração dos níveis de colesterol.
A hipertensão arterial é um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento da aterosclerose, principal causa das doenças que mais matam ao redor do mundo: o infarto do coração e o derrame cerebral. A aterosclerose pode estar associada a depósitos de cálcio, situação que hoje em dia podemos detectar nos vasos do coração através de uma fotografia, a tomografia computadorizada das artérias coronárias. Indivíduos com maiores depósitos de cálcio apresentam maior risco de desenvolver eventos vasculares: infarto do coração e derrame cerebral. Reconhecemos um indivíduo como hipertenso quando sua pressão sistólica é > 140 mm Hg ou quando sua pressão diastólica é > 90 mm Hg. Indivíduos com pressão sistólica entre 120 e 129 mm Hg ou pressão diastólica entre 80 e 89 mm Hg são classificados como PRÉ-HIPERTENSOS, e os efeitos a longo prazo dessa condição são menos conhecidos do que no caso da hipertensão arterial.
A edição de hoje da revista Annals of Internal Medicine publicou um estudo muito importante que demonstra que adultos jovens PRÉ-HIPERTENSOS (<35 anos) apresentarão mais calcificação nas artérias coronárias 20 anos depois. Os resultados sugerem que adultos jovens PRÉ-HIPERTENSOS devem aumentar os esforços para manter a pressão arterial sistólica em níveis menores que 120 mmHg. Isso não significa sair tomando remédios de um dia para o outro, pois mudanças no estilo de vida como realização de atividade física diária, controle da dieta e redução do estresse podem ser suficientes para o controle da pressão arterial nesses casos.
Hoje em dia ligamos o rádio ou a TV e ouvimos especialistas em marketing nos ensinando sobre como o Neuromarketing pode ser uma valiosa ferramenta para o sucesso das empresas. Nesse caso, a idéia é de que algumas estratégias de comunicação podem ser mais eficazes no processo de “pescar os cérebros dos consumidores” com base em sérios, porém poucos, experimentos neuropsicológicos e de imagem cerebral. Grandes empresas já começam a pedir assessoria de neurocientistas para compor o time que pensa as estratégias de marketing. Paralelamente ao crescimento do volume de conhecimento nessa área, podemos observar um crescimento muito mais veloz no número de consultores de marketing que parecem às vezes já deterem o segredo do “centro cerebral de compras”.
Profissionais da saúde que trabalham com a mente e o cérebro já vendem programas de estimulação e exercícios para o cérebro chamados de Neuróbica, Neurofitness. Temos evidências científicas sérias sobre efeitos de programas de exercícios cognitivos através de “ginásticas cerebrais padronizadas”’, especialmente entre idosos. Queixas de memória são muito freqüentes entre adultos jovens e na maioria das vezes essas queixas são só a ponta do iceberg do estresse no dia-a-dia, quadros de ansiedade e depressão ou outras doenças. Buscar “consertar a vida”, dando mais chance ao lazer, à atividade física e ao bom sono, reduzindo o estresse e tratando o corpo e a mente quando preciso, provavelmente deixe o cérebro muito mais “sarado” do que cursos de criatividade, de memorização ou de como usar melhor os dois lados do cérebro.
Temos vivenciado discussões sobre a Neuroestética, uma forma de explicar a experiência estética através das neurociências. Alguns estudos têm demonstrado que a obra de um certo pintor ativa mais certas regiões do cérebro enquanto a obra de outro pintor ativa outras regiões. Outros nos mostram que a obra de um poeta estimula certas áreas do cérebro por conter um tipo específico de fórmula sintática. Não precisamos nos esforçar muito para defender a idéia de que a arte está longe de ser um fenômeno meramente estético, em que padrões de tipo A e tipo B estimulam áreas X e Y do cérebro. A apreciação da arte envolve não só a experiência sensorial, como também a experiência de vida de quem a aprecia, o contexto histórico da obra, etc. Chega a ser uma provocação patética tentar explicar o virtuosismo de um bailarino através do seu padrão de ativação neuromuscular.
E por aí vai. A cada dia somos surpreendidos com os mais originais e às vezes duvidosos “neuros”: neurofilosofia, neurocomunicação, neurofuturo, neuroética, neuronutrição, neuro-psicanálise, programação neurolinguística, neuroeconomia, etc. A impressão é que o prefixo neuro é muitas vezes usado para dar um ar de credibilidade e legitimidade científica ajudando a vender idéias que ainda estão saindo do ovo ou que não passam de meras neuroespeculações e neuroextrapolações.
É senso comum que para a promoção de um desenvolvimento sexual saudável durante a adolescência a participação ativa dos pais é muito valorosa. Estudos recentes têm revelado que filhos que discutem com seus pais a questão da sexualidade tendem a iniciar a vida sexual mais tardiamente, usam métodos contraceptivos com maior freqüência e tem menos parceiros sexuais. Os pais, sem dúvida alguma, são grandes protagonistas para o sucesso do desenvolvimento sexual dos filhos. Infelizmente, muitos pais pouco se comunicam com os filhos sobre o tema e tratam o assunto com desconforto e insegurança. Programas que promovam uma melhor comunicação entre pais e filhos podem ser extremamente valorosos, mas muitos desses programas não vão muito para frente devido às dificuldades de disponibilidade de tempo por parte dos pais. E se a montanha não vai até Maomé, que tal se Maomé for até à montanha.
A edição de hoje do British Medical Journal nos traz a experiência do programa PAIS QUE CONVERSAM, ADOLESCENTES SAUDÁVEIS liderado por Mark Schuster do Children´s Hospital de Boston – EUA. O programa foi desenvolvido para aumentar a competência dos pais em conversar com seus filhos sobre sexualidade. A inovação é que nesse programa os filhos vão até o trabalho de seus pais na hora do almoço. São oito encontros em grupos de cerca de 15 famílias, uma vez por semana com duração de uma hora onde pais e filhos participam de trabalhos em que treinam a capacidade de prestar atenção ao outro (escuta ativa), fazem uso de jogos, vídeos, realizam discussões e levam tarefas para casa (pais e filhos juntos), tudo focado para incrementar a capacidade de comunicação entre pais e filhos sobre o tema sexualidade.
Mais de 500 famílias com adolescentes em idades entre 11 e 16 anos participaram do estudo. Após o programa de oito semanas, os adolescentes e pais eram interrogados através de questionário sobre sobre comunicação de questões relacionadas à sexualidade. Quando comparados ao grupo controle, o grupo que participou do programa evidenciou que os pais mais freqüentemente deram instruções aos filhos de como usar o preservativo, conversaram mais sobre tópicos associados à sexualidade, e tanto pais como filhos, evidenciaram uma maior competência em discutir sobre o assunto. Esses resultados foram consistentes mesmo após nove meses de seguimento, e em alguns fatores pesquisados, os resultados melhoraram ainda mais com o passar do tempo.
O objetivo do estudo era de medir o impacto do programa sobre questões relacionadas à sexualidade. Poucos devem duvidar que os benefícios tendem a se estender a diversas outras dimensões da vida dos adolescentes.
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Algumas doenças podem ter um efeito devastador na vida de um paciente e suas famílias, especialmente no caso do câncer e de doenças degenerativas e progressivas como a Doença de Alzheimer. Perguntas comuns nessas situações como Por que comigo?, Por que logo com meu filho?, Por que isso tudo? nos dão uma pista de que além dos cuidados físicos e emocionais, uma janela preciosa na relação entre a equipe de saúde e o paciente e seus familiares pode estar se abrindo: a dimensão espiritual.
Estudos revelam que mais de 90% dos médicos acreditam que as crenças espirituais dos pacientes devem ser consideradas. Entretanto, apenas 30% dos médicos acreditam que essas crenças devam efetivamente ser abordadas, e só 10% adotam essa prática, mesmo entre pacientes terminais. Por outro lado, sabemos também serem bastante ruins os indicadores que medem a satisfação de pacientes quanto ao cuidado dispensado pela equipe de saúde aos seus aspectos emocionais e espirituais, evidenciando uma fraqueza dos serviços de saúde que precisa ser trabalhada.
Já temos um razoável corpo de evidências que indivíduos com uma maior vivência religiosa / espiritual têm uma melhor relação com a doença: maior cooperação no tratamento, maior capacidade de lidar com o estresse emocional, melhora mais rápida de sintomas depressivos. Além disso, o envolvimento com uma comunidade religiosa está associado a uma maior rede social, e há tempos sabemos que pessoas socialmente integradas têm menos chance de adoecer, e quando doentes, a rede social é uma das principais fontes de apoio. Entretanto, as crenças religiosas nem sempre estão a favor da saúde do paciente, já que podem em alguns casos dificultar a aderência ao tratamento com idéias do tipo: esse é o desejo de Deus; Deus me abandonou; esse é o meu destino; esse é o meu castigo; etc. Em situações como essas, é importante que a equipe de saúde esteja minimamente preparada para abordar as dimensões religiosas / espirituais do paciente com a intenção de aumentar a aderência e sucesso do tratamento, além de poder contribuir para um maior senso de controle e significado do problema. Tal abordagem pode ainda identificar crenças que podem ser relevantes em determinadas decisões médicas.
Alguns podem pensar que uma conversa dessa natureza pode ser percebida pelo doente como uma intromissão na sua intimidade. Claro que se no início dessa conversa o paciente já demonstra que religiosidade / espiritualidade são dimensões que não são questões importantes na sua vida, então a conversa já deve parar por aí. Ninguém deve também “prescrever” religião aos pacientes, convencê-los que um tipo de crença ou prática seja interessante ou entrar em polêmicos embates sobre religião. A idéia de um melhor entendimento da religiosidade / espiritualidade dos pacientes também não tem como objetivo o médico ou outro profissional de saúde ficar dando conselhos espirituais ao paciente.
Enquanto percebemos uma medicina cada vez mais comercial, em que os pacientes passam mais tempo nas máquinas de exames do que com o médico, há espaço sobrando para a discussão e aprofundamento de questões associadas às questões religiosas / espirituais dos doentes, e isso já está começando a tomar forma. Cresce o investimento em pesquisas que analisam o impacto da inserção de aspectos espirituais na relação médico-paciente, inclusão do assunto no currículo de graduação médica, e bem recentemente, a Comissão de Acreditação de Organizações de Saúde nos Estados Unidos incluiu em seu manual de acreditação para hospitais a recomendação de que os profissionais de saúde abordem sim os valores espirituais dos pacientes. Talvez a busca por “medalhas de qualidade” impulsione a tão esperada reumanização da saúde.
Já existem no mercado diferentes medicações que têm o poder de melhorar o desempenho de memória e concentração, e os médicos costumam prescrevê-las a pacientes com disfunções neuropsiquiátricas. Entretanto, nos últimos tempos podemos perceber que a prescrição dessas medicações tem sido estendida a outras situações, como é o caso de indivíduos que trabalham em turnos noturnos, militares, e até mesmo a pessoas que simplesmente querem “turbinar” o cérebro para o trabalho, com a intenção de melhorar a atenção e a memória.
Onde é que vamos chegar com isso? Além dos prós e contras dessas medicações sobre nossa saúde a longo prazo, certamente há uma grande questão ética a ser discutida. Tais medicações têm sido cada vez mais usadas em todo o mundo, cada vez em idades mais precoces. Uma recente pesquisa realizada pela revista britânica Nature envolvendo 1400 leitores (cientistas e estudantes) de 60 diferentes países revelou que 20% das pessoas que responderam à pesquisa já tinham usado medicações com a intenção de melhorar o desempenho cerebral por razões não médicas, 25% desses com consumo diário. O uso não foi diferente entre as diversas faixas etárias, sendo que 50% das pessoas queixaram-se de efeitos colaterais e um terço das pessoas adquiriam as medicações pela internet, sem necessidade de receia médica. Para se ter idéia da complexidade da discussão, vejam o que um cientista americano de 66 anos de idade respondeu à pesquisa: “Como cientista, é minha missão usar todas as ferramentas ao meu alcance para o benefício da humanidade. Se essas drogas podem contribuir para esse fim, então é minha tarefa usá-las. “
No consultório de neurologia, freqüentemente atendo jovens querendo uma medicação para esse fim. Recentemente uma paciente que fazia curso preparatório para concurso público disse que o próprio professor, um juiz federal, a orientou a procurar um neurologista com o seguinte apelo: “já existem medicações que podem melhorar seu desempenho”. Posições radicais como “Oh que horror!” não costumam colaborar muito. É hora sim de aprofundarmos essa discussão com a participação de diversas áreas do conhecimento.
Já existem medicações que permitem que o indivíduo fique até três dias sem dormir e “disposto”, e pouco conhecemos sobre seus efeitos a médio e longo prazo. Será que chegaremos ao ponto de criar políticas anti-doping no caso de concursos públicos? Chegaremos a viver numa sociedade que não relaxa e não dorme, já que as vantagens evolutivas da nossa tão falada sociedade da informação são muito mais cerebrais do que musculares e sexuais? Será que os pais ao verem inúmeros colegas de seus filhos usando medicações para o vestibular vão deixar de usar tais hipotéticas armas de competição? É difícil alguém se imaginar cometendo um neuro-doping ao consumir 10 xícaras de café por dia nos meses que antecedem um concurso. Com pílulas deveria ser diferente? Será que essas pílulas poderiam nos oferecer mais do que uns cafezinhos durante o dia? Um indivíduo nascido rico e com boa nutrição no seu desenvolvimento tem inequívocas vantagens competitivas do ponto de vista cerebral quando comparado a outro que passou a infância desnutrido. “Medicações espertas” podem um dia contribuir para reduzir as conseqüências das desigualdades sociais?
A ciência tem muito que investir na avaliação do custo-benefício dessas drogas neuromoduladoras em indivíduos sem queixas ou diagnósticos neuropsiquiátricos. Já existem estudos sendo conduzidos ao redor do mundo, inclusive no Brasil, buscando saber se o uso de antidepressivos usados por indivíduos saudáveis não poderiam deixá-los mais saudáveis ainda. Ainda sabemos pouco. E quem disse que as pílulas têm mais poder de provocar alto desempenho cerebral do que uma vida saudável com tudo aquilo que sabemos que faz bem ao cérebro: educação, alimentação e sono adequados, atividade física, equilíbrio emocional, etc. Minha aposta é que as pílulas não ganham a disputa.
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Ler também: Evolui a polêmica sobre o uso de medicações para turbinar o cérebro
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A indicação de testes cardiológicos preventivos para jovens atletas é um tema controverso. Na Europa o atleta é obrigado a ser submetido a uma bateria de testes cardiológicos para poder participar de uma competição oficial. Na Itália já foi demonstrado que esse cuidado reduziu a incidência de mortes súbitas em competições. Por outro lado, a American Heart Society ainda não reconhece que tais testes oferecem benefícios aos jovens atletas.
Um importante estudo foi publicado hoje pelo British Medical Journal revelando resultados do programa italiano de check-up a atletas que incluiu mais 30 mil atletas durante cinco anos e com uma média de idade de 30 anos. O eletrocardiograma de repouso revelou anormalidades em 6% dos participantes, sendo que cerca de 80% destas anormalidades foram classificadas como irrelevantes do ponto de vista clínico. Em 5% dos participantes, o eletrocardiograma de esforço foi anormal. Um dos achados mais importantes foi que mais de 1200 atletas com eletrocardiograma normal no repouso apresentaram o exame anormal ao esforço físico. Após a bateria de exames, 0.6% dos participantes foram classificados como desqualificados ao esporte competitivo. Entre esses atletas “desqualificados” após o check-up, 80% apresentaram alterações cardíacas apenas ao teste de esforço. Os atletas com mais de 30 anos de idade foram os que tiveram mais risco de apresentar alterações cardíacas.
Do ponto de vista psicológico, clima frio é aquele nos provoca a sensação de frio ou até mesmo desconforto. Do ponto de vista fisiológico, clima frio é aquele que altera nosso sistema de regulação de temperatura. Podemos dizer que esse nosso termostato funciona em “marcha lenta” em ambientes com temperaturas de 25-27oC, não disparando reações de aumento do metabolismo no caso do frio ou de transpiração no caso do calor. A inteligência maior dessa regulação encontra-se em um centro profundo do cérebro, o hipotálamo, e é ele que comanda nossas reações de suor, calafrios e constrição ou vasodilatação dos vasos sanguíneos em resposta à temperatura ambiente.
Será que realmente funcionamos em outro ritmo em dias mais frios?
A adaptação do nosso corpo ao frio envolve mecanismos neurológicos, que influenciam nosso sistema endocrinológico e vascular, mas é claro que também envolve mecanismos comportamentais, como tirar do armário aquele cobertor que só usamos algumas vezes no ano.
Vários fatores determinam a regulação do frio em um determinado indivíduo: idade, sexo, preparo físico, quantidade de gordura corporal. Até mesmo o tipo de personalidade do indivíduo pode influenciar: extrovertidos reagem mais ao desconforto do frio com maior aumento da pressão arterial e secreção de noradrenalina. Doenças sistêmicas e medicações também podem afetar a resposta individual ao frio.
Do ponto de vista de desempenho físico, o frio prejudica a função muscular em exercícios dinâmicos. Já em exercícios estáticos (isométricos), o frio não influencia tanto, e ao contrário, pode até aumentar a resistência muscular. Um recente estudo revelou associação entre o frio e a capacidade de equilíbrio, possivelmente por reduzir a eficiência de nossas “antenas” que regulam nosso balanço. E o nosso cérebro?
Sabemos que tanto o frio como o calor exagerados podem influenciar negativamente nossas habilidades mentais, e um balanço geral dos estudos existentes sugere que o frio tende a atrapalhar mais. Entretanto, alguns estudos também nos mostram que o frio leve/moderado pode melhorar nosso desempenho intelectual.
Duas principais teorias explicam o efeito do frio sobre nossas habilidades cognitivas. A primeira é do “efeito distração” que o desconforto associado ao frio pode causar, ao desviar nossa atenção da tarefa que estamos efetuando. A outra teoria defende a idéia de que o frio leve / moderado deixa-nos mais acordados, e o maior estado de vigília permite um melhor desempenho do nosso cérebro. Evidências neurofisiológicas apóiam essa hipótese, ao mostrar que a atividade elétrica cerebral no frio leve/moderado é mais “esperta”.
O frio pode reduzir nosso nível de vigília, nossa concentração e memória de curto prazo, entre outras funções cognitivas, especialmente.em temperaturas abaixo de 10º C. No caso de hipotermia, ou seja, em situações de frio extremo em que a temperatura corporal chega a níveis inferiores a 35º C, pode-se observar sintomas de confusão mental e redução da vigília. O efeito do inverno sobre nosso comportamento também pode ter uma parcela de contribuição do fator luminosidade. Em países muito ao sul ou muito ao norte, o inverno vem acompanhado de pouca luz por conta de dias muito curtos, fenômeno que é bem reconhecido como fator que aumenta a freqüência de sintomas depresivos nessa estação. E depressão é igual a cérebro menos eficiente. Há evidências também que as concentrações dos hormônios da tiróide estão reduzidas em invernos rigorosos. E hormônios da tiróide são combustíveis importantes para o cérebro.
Até o momento, a melhor dica para nosso cérebro curtir o frio com boa performance é a de nos agasalharmos bem para não ficarmos distraídos com o desconforto do frio. No ambiente de trabalho, o ar condicionado simulando uma câmara frigorífica pode ser um fator de distração. Viver o inverno sem ficarmos lembrando que está frio pode até deixar o cérebro mais ligado. Um cafezinho vai muito bem também.




















