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A síndrome de esgotamento profissional, descrita na língua inglesa como síndrome de “Burnout”, é caracterizada pela exaustão emocional e perda de entusiasmo pelo trabalho além da redução da empatia com as pessoas com uma tendência de tratá-las como objetos, fenômeno chamado de despersonalização. Estudos demonstram que um em cada três médicos sofre da síndrome de esgotamento em algum período da sua vida profissional, e apesar de ser um transtorno tão prevalente e relevante, são poucas as pesquisas que estudaram intervenções que possam ajudar. Mais raras ainda são as evidências de intervenções organizacionais, pois a maioria dos estudos foi realizada com pequeno número de participantes.
Pesquisadores da Universidade de Rochester nos Estados Unidos demonstraram de forma inédita que um programa de 52 horas distribuídas no período de um ano com o objetivo de melhorar o bem-estar do médico foi capaz de reduzir o risco da síndrome de esgotamento profissional e de transtornos do humor, além de melhora do grau de empatia com os pacientes. O programa foi oferecido a 70 médicos e incluía a prática de meditação para estimular a capacidade de estar mentalmente presente e com atenção nas atividades do dia-dia, além de uma dinâmica em grupo de troca de experiências com outros médicos. A pesquisa acaba de ser publicada pelo Journal of the American Medical Association.
Já é bem reconhecido que a síndrome de esgotamento profissional no médico está associada a uma piora da qualidade do atendimento oferecido aos pacientes e abandono da carreira, mas também a inúmeras repercussões pessoais como maior risco de acidentes, abuso de substâncias psicoativas, idéias de suicídio, doenças físicas relacionadas ao estresse e dificuldade nas relações familiares. O presente estudo abre caminhos para intervenções preventivas para um sério problema de saúde e de grandes custos sociais que não é restrito ao médico, mas afeta diversas classes profissionais.
Um estudo recém-publicado pelo British Medical Journal revela que o uso de antidepressivos na gravidez aumenta o risco de defeitos no coração no bebê. O estudo analisou 400 mil crianças dinamarquesas nascidas entre 1996 e 2003 e a relação entre a prevalência de malformações congênitas e o uso pela mãe de inibidores seletivos de recaptação de serotonina durante a gravidez. Os antidepressivos citalopram e sertralina na gravidez aumentaram a chance de defeitos no septo cardíaco, parede que separa o lado direito do lado esquerdo do coração. Esse efeito não foi observado entre outros antidepressivos da mesma classe como a fluoxetina e a paroxetina.
O risco desse tipo de malformação entre as crianças que não foram expostas à medicação foi de 0.5% comparado à chance de 0.9% das que foram expostas à medicação e de 2.2% no caso de exposição a mais de um tipo de antidepressivo. Pode-se dizer que uma em cada 246 crianças apresentará defeitos no septo cardíaco quando a mãe faz uso de antidepressivo na gravidez. Esse risco é quatro vezes maior quando o uso foi de mais de um tipo de antidepressivo: uma em cada 62 crianças é acometida.
Cerca de um quinto das mulheres apresenta depressão durante a gravidez e a decisão de tratamento com medicações deve ser pautada pelos potencias riscos de malformações no feto. Até o ano de 2005, uma série de estudos indicava que o uso de antidepressivos inibidores seletivos de recaptação de serotonina durante a gravidez não trazia riscos ao bebê. Entretanto, novos estudos têm demonstrado um discreto aumento da prevalência de malformações congênitas, sendo que o atual estudo revelou que esse risco só é aumentado no caso de defeitos do septo cardíaco. O risco absoluto é considerado baixo, mas deve ser visto como um importante fator na decisão do tratamento antidepressivo das mulheres grávidas. Devem também ser consideradas as conseqüências à mãe e ao feto de uma depressão não tratada.
Já é bem reconhecido que uma maior inteligência está associada a maior longevidade e estudos recentes chegaram atá a demonstrar que ganhadores do Oscar e Nobel vivem mais que seus colegas não ganhadores. Já temos evidências de que o nível de inteligência influencia a longevidade humana com o mesmo poder que o hábito de não fumar, e de forma ainda mais significativa que fatores como índice de massa corporal, hipertensão arterial e diabetes.
Podemos identificar pesquisas associando o grau de inteligência com a longevidade desde a década de 90, e hoje essa é uma área do conhecimento chamada de epidemiologia cognitiva. Há pelo menos quatro formas de explicar o porquê das pessoas mais inteligentes viverem mais. A primeira delas é que pessoas mais inteligentes tenham recebido mais educação e tido acesso a posições sociais e profissionais que permitiriam viver em ambientes menos arriscados. Outra questão importante é a relação entre inteligência e hábitos de vida mais saudáveis: atividade física, dieta equilibrada, menos álcool, menos cigarro, etc. Uma terceira explicação é a possibilidade de que indivíduos menos inteligentes tenham sido vítimas de mais eventos prejudiciais à saúde, e aqui podemos pensar em eventos até mesmo pré- e perinatais. E por último, há evidências de que testes de inteligência podem ser na verdade indicadores de um sistema cerebral que vai além das habilidades cognitivas, como por exemplo, velocidade de reação motora a um determinado estímulo. Nesse caso não seria a inteligência em si que confere maior longevidade ao indivíduo, mas a inteligência reflete um estado cerebral mais desenvolvido como um todo.
Essas relações entre inteligência e longevidade fazem-nos refletir que a fonte da juventude está muito mais próxima da escola e condições básicas de saúde do que de pílulas milagrosas.
Um estudo publicado recentemente pelo periódico Neurology, jornal oficial da Academia Americana de Neurologia, acompanhou por quatro anos quase seis mil franceses com mais de 65 anos de idade e demonstrou que os idosos envolvidos com atividades de lazer estimulantes pelo menos duas vezes por semana têm um risco duas vezes menor de desenvolver demência incluindo a Doença de Alzheimer.
O atual estudo dá um passo importante no entendimento do poder que a as atividades de lazer têm em reduzir o risco da Doença de Alzheimer e demência de uma forma geral. Alguns estudos já haviam demonstrado esse efeito protetor do lazer, mas dessa vez foi mostrado que o tipo de lazer pode fazer muita diferença. As atividades de lazer foram categorizadas em quatro tipos: estimulante: jogar cartas, palavras cruzadas, praticar atividade artística, ir ao cinema ou teatro, atividades junto a organizações; passiva: assistir à TV, ouvir música / rádio; social: visitar ou receber visitas de amigos ou parentes; física: passear a pé, jardinagem e outras atividades com estimulação física.
Os resultados mostraram que a realização de atividades de lazer do tipo estimulante foram as que foram associadas a uma menor incidência de demência. O tipo de lazer também foi influenciado pelo nível educacional. Indivíduos com maior escolaridade tinham tendência a se envolver com atividades do tipo estimulante, enquanto aqueles com menor escolaridade tinham tendência às atividades de lazer do tipo passiva. Podemos ver a educação e desempenho cerebral como um círculo virtuoso nesse caso. A educação por si só já está associada a uma maior longevidade e a um menor risco de Doença de Alzheimer influenciando escolhas na vida como o lazer estimulante, além de outras escolhas que fazem bem ao cérebro.
Vale ressaltar que o fato das atividades de lazer estimulantes estarem associadas a um menor risco de demência não significa que a prática de atividades passivas seja prejudicial. Um recente estudo chinês havia mostrado que as atividades de lazer como leitura, escrita, palavras cruzadas, jogos de tabuleiro ou cartas, reuniões para discussão em grupo, e hábito de tocar um instrumento musical mostraram-se protetoras enquanto o hábito de assistir à TV teve impacto negativo. A atual pesquisa não confirmou esse potencial efeito deletério de atividades passivas. O que sabemos até o momento é que não faz sentido deixar de estimular o cérebro com atividades de lazer “estimulantes” e trocá-las pelo lazer passivo.
Fatores de risco vascular como hipertensão arterial, colesterol alto e tabagismo são capazes de fazer com que homens de meia idade percam 10 a 15 anos de vida, revela estudo recém-publicado pelo periódico British Medical Journal. As condições gerais de saúde e hábitos de vida de quase 20 mil homens ingleses com idades entre 40 e 69 anos foram avaliados no fim da década de 1960. Nessa época, 42% dos participantes do estudo fumava, 39% apresentava hipertensão arterial e 51% colesterol alto.
Após 28 anos, dois terços dos sete mil indivíduos que ainda estavam vivos tinham parado de fumar e houve também uma redução de dois terços na proporção entre aqueles apresentavam pressão arterial e colesterol altos em relação àqueles que apresentavam esses índices baixos. A presença concomitante desses três fatores de risco vascular aumentava em três vezes o risco de morte por causas vasculares (ex: infarto do coração e derrame cerebral) e em duas vezes o risco de morte por causas não vasculares. Aos 50 anos de idade, um indivíduo com os três fatores de risco ainda viveu em média 23 anos, enquanto aqueles que não os apresentavam viveram 33 anos, 10 anos a mais. Os pesquisadores criaram também uma pontuação que levava em conta outros fatores de risco como obesidade e diabetes, e quanto mais fatores presentes maior essa pontuação. Eles demonstraram que os 5% com maior pontuação viviam 20 anos após os 50 anos de idade, enquanto os 5% com menor pontuação ainda viviam 35 anos após os 50, 15 anos a mais.
Hábitos de vida como atividade física regular, dieta saudável e ficar longe do cigarro são os principais caminhos para a longevidade. Uma pesquisa recente já havia demonstrado entre ingleses que o tabagismo por si só é capaz de encurtar a vida em 10 anos. Parar de fumar aos 60, 50, 40 e 30 anos de idade é capaz de acrescentar 3,6,9 e 10 anos respectivamente. O prêmio não é nada pequeno.
Um estudo recém-publicado pelo British Medical Journal demonstra que a associação entre pobreza e morte prematura é tão forte nos dias de hoje como era há 100 anos atrás. O estudo comparou os dados de mortalidade da Inglaterra e País de Gales do início do século 20 com os do início do século 21.
O século 20 nos trouxe uma grande melhora nas taxas de mortalidade. Na população européia estudada, há cem anos atrás um terço das mortes ocorria antes dos cinco anos de idade e só 13% após os 75 anos. Nos dias de hoje, menos de 1% das mortes ocorre antes dos cinco anos de idade e 65% das pessoas morrem após os 75 anos. A expectativa de vida nessa população saltou em cem anos de 46 para 77 anos no caso dos homens, e de 50 para 81 no caso das mulheres. Além disso, há cem anos as principais causas de morte eram doenças respiratórias e infecciosas, bem diferente do panorama atual em que o câncer, as doenças do coração e o derrame cerebral predominam. A experiência de pobreza também mudou muito nesses cem anos. O que era a ausência de necessidades básicas para a subsistência passou a ser, no mundo moderno, um conceito menos absoluto, uma pobreza relativa ao que é oferecido à sociedade como um todo.
Os resultados dessa pesquisa ainda mostraram que as regiões com altas taxa de privação e mortalidade no passado continuam a ter maior tendência à mortalidade nos dias de hoje. As diferenças na mortalidade entre as diferentes regiões até diminuiram um pouco ao longo do tempo, mas não há evidências de declínio da desigualdade de riqueza ou redução da relação entre pobreza e níveis de mortalidade.
Mesmo com todas as mudanças políticas, econômicas, sociais e de saúde pública, a relação entre pobreza e mortalidade continua a existir de forma tão robusta como há cem anos atrás. A criação de programas para redução da desigualdade social é um fenômeno relativamente recente, tanto no Brasil como em diversas outras culturas. Se esses programas tiverem o fôlego necessário, é bem possível que uma futura análise comparativa entre os indicadores de hoje e os do início do século 22 mostre menos estagnação do que a demonstrada nessa atual pesquisa européia.
O Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é uma condição neuropsiquiátrica que acomete 3-5% das crianças e que frequentemente persiste até a idade adulta, podendo ser considerado um dos mais comuns transtornos neuropsiquiátricos. Os principais sintomas são a dificuldade em manter a atenção, o comportamento hiperativo e de impulsividade.
Já existe um bom corpo de evidências indicando que circuitos cerebrais baseados no neurotransmissor dopamina não funcionam tão bem nos indivíduos com TDAH. Um importante estudo acaba de ser publicado pelo periódico Journal of the American Medical Association revelando que quem sofre desse problema apresenta menor atividade em duas das principais regiões relacionadas ao processo de recompensa cerebral, o mesoaccumbens e mesencéfalo, regiões fortemente vinculadas ao neurotransmissor dopamina. Essa menor atividade foi demonstrada pela redução de receptores da dopamina D2 e D3 e de proteína de transporte da dopamina através de tomografia por emissão de pósitrons.
A dopamina é o principal componente do nosso sistema cerebral de recompensa, sistema ativado toda vez que fazemos algo que dá prazer e sinaliza ao cérebro que vale a pena repetir a experiência, já que é prazerosa. A redução dessa atividade do sistema de recompensa está associada a alguns dos comportamentos característicos do TDAH como dificuldade em postergar uma gratificação e resposta preferencial a pequenas e imediatas recompensas do que a recompensas mais robustas e que demoram mais para chegar. Além disso, esses circuitos cerebrais estão associados à motivação do aprendizado, e não é à toa que quem sofre de TDAH tem mais dificuldade em manter a atenção em atividades repetitivas e desinteressantes.
Os achados desse estudo reforçam a importância do uso de intervenções motivacionais que consigam aumentar a atratividade das tarefas da escola e do trabalho, especialmente entre os portadores de TDAH. A demonstração de redução de atividade no sistema de recompensa cerebral nesses pacientes também sugere que esse é um importante mecanismo que explica a maior vulnerabilidade ao abuso de substâncias psicoativas e abre uma nova perspectiva para o tratamento da doença.
O ideal de uma relação médico-paciente é quando ambas as partes participam das decisões e um dos fatores mais importantes nessa relação é que o médico seja capaz de disponibilizar ao paciente informação de alta qualidade sobre o problema em questão. O fato é que a decisão de um paciente é fortemente influenciada pela forma como essa informação é apresentada, situação que foi elegantemente demonstrada em dois estudos recém-publicados pelo periódico PLoS Medicine.
Um dos estudos avaliou cerca de três mil indivíduos quanto à preferência de seis diferentes formas de dar o recado de que as medicações estatinas podem prevenir a doença isquêmica do coração. A frequencia natural da doença assim como o poder do medicamento em reduzir o risco relativo da doença foram as formas de apresentação de dados mais fortemente preferidas pelos participantes do estudo (ex: este tratamento é capaz de reduzir pela metade seu risco de desenvolver esta doença). Essas formas de comunicação se mostraram as mais inteligíveis e mais compatíveis com seus valores quando comparadas a outras formas como a demonstração do risco absoluto (ex: este tratamento é capaz de reduzir o risco de desenvolver esta doença de 4% para 2%). Um segundo estudo avaliou cerca de 1800 pessoas quanto à preferência de apresentação das vantagens em se utilizar um antibiótico para os sintomas de dor de garganta. Os participantes preferiram receber através de gráficos de barras a apresentação do tempo em que os sintomas deveriam ocorrer.
Esses resultados são provenientes de situações hipotéticas e são bem diferentes da situação clínica habitual que envolve maior influência de dimensões como a emocional, moral e cultural. Apesar desses dados não deverem ser diretamente generalizados para o mundo real, eles nos confirmam que a forma como os médicos transmitem a informação aos pacientes pode fazer muita diferença nas suas escolhas.

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É bem reconhecido que algumas medidas do corpo humano estão associadas ao aumento de doenças cardiovasculares, como é o caso de altos índices de massa corporal, da circunferência da cintura e da relação da circunferência cintura / quadril. Mas não são só altos índices que estão associados a maiores riscos à saúde. Baixos índices de massa corporal e do nível de massa muscular livre de gordura estão associados a mortalidade mais precoce. A novidade agora é que baixos graus de circunferência das coxas também têm relação com a saúde, de acordo com pesquisa recém-publicada pelo British Medical Journal.
O estudo acompanhou cerca de três mil homens e mulheres dinamarqueses com 35 a 65 anos de idade e revelou que aqueles com circunferência das coxas menor que 60 cm tinham maior risco de morte e de doenças cardiovasculares do que aqueles com circunferências maiores que 60cm. Entretanto, circunferências maiores que 60 cm não trouxeram benefícios adicionais. Os resultados demonstraram ainda que o risco associado aos baixos níveis de circunferência das coxas foi maior que o de uma alta circunferência abdominal. A baixa circunferência da coxa é um sinal de baixo conteúdo de musculatura nessa região e também reflete baixo grau de musculatura de forma sistêmica. Estudos têm mostrado que a baixa musculatura corporal, especialmente em membros inferiores, está associada a maior risco de diabetes. Além disso, baixos teores de gordura subcutânea também têm sido vinculados a alterações no metabolismo da glicose e de gordura.
A presente pesquisa nos indica que é bem razoável o estímulo à atividade física com especial atenção à musculatura de membros inferiores. É importante frisar que 50% dos dinamarqueses estudados tinham circunferência de coxas menores que os 60 cm, sugerindo que o estímulo à atividade física é fundamental em qualquer canto do mundo. É bom lembrar que em muitas populações do mundo o problema das coxas finas é falta de comida mesmo.












