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Ricardo Afonso Teixeira

Estava bem longe de casa, apreciando uma pequena cidade colonial por cima dos seus telhados, nova paisagem, outros ares. Ares que carregavam o odor da torra do café que atingiram em cheio minha memória profunda da infância que veio acompanhada de uma emoção gostosa. Certamente cada um de vocês que agora lê esta coluna já passou por algo semelhante.

Experiências. Esta é uma palavra-chave para a manutenção das habilidades cognitivas ao longo do envelhecimento cerebral. Estudos demonstram que as pessoas que têm mais experiências, não só com leitura, atividade física, mas também com trabalhos manuais e socialização, por exemplo, envelhecem com o cérebro mais afiado. Camundongos restritos a gaiolas com poucos estímulos visuais e auditivos envelhecem menos espertos. E voltando aos estímulos olfativos, sabemos que um ambiente rico em odores promove maior geração de novos neurônios e melhor memória. Esse ambiente é eficaz quando os odores são apresentados individualmente, mas não numa mistura, um “blend” de odores.

O mesmo é observado em idosos, humanos, com ou sem doenças neurodegenerativas, como Parkinson e Alzheimer. A multiplicidade de experiências individualizadas vale mais que um “blend” de aromas. No mundo real, seria uma tarefa difícil criar uma rotina diária de estimulação olfativa em que um idoso abra, cheire e feche frascos com diferentes aromas várias vezes ao longo do dia. E se isso fosse feito de forma automática enquanto se dorme? Que tal um vaporizador de aromas programado para jogar no ambiente aromas de óleos essenciais por duas horas enquanto dormimos, um diferente a cada noite? Foi isso que pesquisadores da Universidade da California desenvolveram. Os resultados acabam de ser publicados na Frontiers in Neuroscience mostrando que, após seis meses dessa intervenção, o desempenho de memória de idosos saudáveis melhorou 226%. Além disso, os voluntários que receberam a estimulação olfativa reportaram que dormiram melhor e os exames de ressonância magnética apontaram um incremento na função do circuito que conecta estruturas do lobo temporal mesial ao córtex pré-frontal. O grupo placebo foi exposto a doses indetectáveis de óleos essenciais. Os aromas usados? Rosas, laranja, eucalipto, limão, hortelã-pimenta, alecrim e lavanda. A Procter & Gamble patrocinou o estudo e em breve lança no mercado seu vaporizador de óleos essenciais. Entretanto, novos estudos devem confirmar esses achados.

O que esperar do nosso cérebro na velhice?

Já se conhece bastante sobre as alterações cerebrais morfológicas e fisiológicas associadas ao processo de envelhecimento normal. Por volta dos 15 anos de idade nosso encéfalo alcança seu maior peso (~ 1350g), com uma perda de cerca de 1,5% desse peso a cada década. Essa redução se dá muito mais por redução do tamanho dos neurônios do que por destruição dos mesmos. Paralelamente, há uma redução no número de conexões entre os neurônios e significativo acúmulo de substâncias associadas ao envelhecimento que dificultam o pleno funcionamento cerebral.

O envelhecimento cerebral normal provoca apenas discretas mudanças no desempenho cognitivo após os 50-60 anos de idade, muitas vezes só detectáveis através de testes rigorosos. Na maioria das vezes, porém, as queixas de memória têm mais relação com quadros de ansiedade, depressão, transtornos do sono e o estresse do dia a dia do que com doenças cerebrais propriamente ditas. Além disso, alguns estudos têm mostrado que a maturidade faz com que algumas habilidades cognitivas fiquem até mais eficientes do que nos jovens. Um exemplo é a capacidade executiva de inibir estímulos que levam à distração do foco naquilo que realmente interessa.

Infelizmente, algumas pessoas à medida que envelhecem começam a ter queixas de memória de forma mais intensa, podendo evoluir para a demência. A definição de demência é o acometimento de diversas dimensões do pensamento que chega a comprometer a capacidade de um indivíduo em realizar suas atividades habituais. Entre o envelhecimento cerebral normal e a demência, podemos encontrar pessoas que estão no meio do caminho, e essa é uma condição chamada de transtorno cognitivo leve.

Idosos com transtorno cognitivo leve costumam apresentar dificuldades significativas de memória com outras funções cognitivas preservadas, sem que isso atrapalhe de forma expressiva suas atividades diárias. Outros apresentam uma variante em que a memória é relativamente preservada enquanto outras funções estão mais acometidas. Nem todas as pessoas que apresentam transtorno cognitivo leve apresentarão demência no futuro, mas a maioria apresentará sim.

A cada ano, cerca de 10-15% de idosos com diagnóstico de transtorno cognitivo leve receberá o diagnóstico de demência, comparado a 1-2% para idosos sem o problema. E quanto à chance de desenvolvermos um quadro de demência, nossa chance é de 25%, se ultrapassarmos os 80 anos de vida, e de 50% se passarmos dos 90. O ser humano inventou o antibiótico, a vacina e tantas outras coisas que estenderam nossa longevidade, mas não houve tempo de nos adaptarmos geneticamente a esse novo cenário.

Esta explicação evolutiva não deve nos deixar congelados, mas ao contrário, precisamos mexer a mente e o corpo, não parar de experienciar. As medicações usadas para tantas doenças neurodegenerativas, incluindo a Doença de Alzheimer, melhoram os sintomas sem mudar o curso natural da doença. Recentemente três novas drogas para o Alzheimer (anticorpos monoclonais) mostraram efeitos na redução da velocidade do declínio cognitivo e redução no depósito de marcadores patológicos (placas beta-amiloides), resultados que já nos deixam enxergar uma luzinha no fim do túnel. Enquanto isso, vamos experienciando e acho que vou dormir hoje com um sachê de óleo de lavanda sobre o criado mudo.

*Dr. Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e diretor clínico do Instituto do Cérebro de Brasília

Por Dr. Ricardo Afonso Teixeira*

Cena 1: sala de aula. O professor discute o tema com alunos interessados e que participam ativamente. Os cérebros passam a ficar sincronizados. Neurônios são ativados ao mesmo tempo nas mesmas localizações, como se estivessem dançando juntos. A sincronização é mais forte quando as partes constroem o conhecimento juntos, como na metodologia de ensino baseada em problemas (PBL), do que numa aula expositiva onde o professor fala e os alunos ouvem.     

Cena 2: show de música. A sincronização entre as pessoas da plateia também acontece, especialmente entre aqueles que estão tendo prazer com o espetáculo. Claro que esse contágio também acontecerá em rituais religiosos ou na arquibancada do estádio de futebol ao entoar um canto de torcida.

Cena 3: casal de namorados conversando sobre um acontecimento do dia. A sincronização se dará entre eles de forma mais robusta do que entre estranhos.

Cena 4: reunião de trabalho. Os que trabalham mais para alcançar um consenso têm maior sincronização cerebral com os outros do que aqueles que falam muito sem buscar o entendimento entre as partes.  

A sincronização é demonstrada através da atividade elétrica e de fluxo sanguíneo e não é um fenômeno que é explicado pela simples experiência compartilhada. Eu ouço, vejo o mesmo que o outro, e assim, ambos os cérebros são ativados em determinadas regiões. A história vai muito além disso.    

Vamos explorar o casal para explicar. João tem uma série de circuitos neuronais “H” disparados que refletem o seu comportamento, mas tem outra série de circuitos “O” disparados pela percepção do comportamento de Ana. Ana tem ativação de circuitos “O” do seu próprio comportamento, mas tem disparos de circuitos “H” pela percepção do que João está fazendo. A soma dessa atividade é semelhante nos cérebros de João e Ana, mas é mais do que uma soma simples: “H” e “O” ativados em ambos os cérebros cria algo maior. Podemos fazer uma analogia com H e O de hidrogênio e oxigênio. Juntos criam algo especial que é a água: João tem um pouco da atividade cerebral de Ana e Ana um pouco da de João.       

A sincronização entre os cérebros permite a preparação para a interação, já que ambos têm uma nova linguagem em comum. Esse conhecimento tem origem em pesquisas em animais, como roedores e morcegos, mas também em humanos. As cenas elencadas no início dessa coluna não são obras de ficção.

*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e diretor do Instituto do Cérebro de Brasília

Por Dr. Ricardo Afonso Teixeira

Já conhecemos uma série de atitudes no dia a dia que reconhecidamente podem deixar nosso cérebro mais esperto. Estamos falando de atividade física, sono e alimentação regulares, estar sempre aprendendo, equilíbrio psíquico e um cafezinho para arrematar. Além disso, as famosas pílulas usadas para turbinar o cérebro, conhecidas como “smart drugs”, têm sido cada vez mais consumidas por pessoas sem qualquer tipo de problema neurológico ou psiquiátrico. Uma pesquisa que avaliou o consumo dessas drogas entre dezenas de milhares de pessoas ao redor do mundo mostra um crescimento nada discreto. Em 2017, 14% das pessoas utilizaram essas medicações pelo uma vez no último ano, comparado a 5% em 2015. Nos EUA, esse consumo é de 30% da população geral.

O fato é que dispomos de pouquíssimas evidências científicas de que essas pílulas trazem reais benefícios cognitivos a indivíduos sem transtornos neurológicos ou psiquiátricos, e há até resultados mostrando que algumas pessoas podem piorar o desempenho. É como se nosso cérebro fosse uma orquestra bem afinada e introduzíssemos 20 violinos a mais. Pode melhorar, pode não fazer diferença no resultado, ou pode até desafinar. E apesar desse conhecimento ainda estar engatinhando, essas medicações têm-se tornado cada vez mais populares entre adultos e adolescentes, na maior parte das vezes sem qualquer orientação médica.

Elenco a seguir algumas questões sobre esse fenômeno que têm sido discutidas nos últimos anos por pesquisadores da área.   

– Existe atualmente um forte mercado negro dessas medicações voltado para indivíduos saudáveis, com transações de compra e venda que podem ser punidas até mesmo com prisão em países como os Estados Unidos.

– O uso de medicações dessa natureza para melhorar o desempenho cerebral poderia ser visto como “trapaça”, ao pensarmos que outras pessoas podem não estar usufruindo dos mesmos benefícios. Não dispomos ainda de regras que regulem se as pessoas podem ou não fazer uso dessas medicações para a realização de um concurso público, por exemplo. Outra situação: uma pessoa tem o hábito de investir no seu equilíbrio psíquico, como por exemplo através da meditação e atividade física regular, e outra pessoa não o faz. Esse equilíbrio psíquico tem grandes chances de aumentar o desempenho cognitivo, mas culturalmente isso não costuma ser visto como trapaça, já que a pessoa “investiu seus esforços” para alcançar sua vantagem. Por que a vantagem alcançada por pílulas deveria ser vista de outra forma? E será que essas drogas realmente oferecem vantagens no aprendizado ou só melhoram o desempenho a curto prazo em dias de maiores desafios? Será justo para aqueles que não usam as drogas concorrer com outros cérebros turbinados? Seria a mesma coisa se parte dos concorrentes num teste de matemática estivessem usando calculadora e outra parte não?

– Medicações dessa natureza poderiam provocar dependência e efeitos colaterais. Por outro lado, até a cafeína é passível de desenvolver dependência e efeitos colaterais, apesar do seu risco de fazer mal à saúde ser infinitamente menor do que de outras drogas. Com base na atual experiência, talvez os riscos de dependência / efeitos colaterais das medicações estimulantes não sejam muito diferentes do que os da cafeína e por isso não há razões para tanto receio. É preciso avançar nas pesquisas sobre o assunto.

– Em crianças, as questões éticas são muito mais complexas. A primeira questão é em relação à segurança dessas medicações em indivíduos que ainda têm o cérebro em franco desenvolvimento. Além disso, a criança não tem o poder de fazer suas próprias escolhas. Entre os adultos, há de se considerar no futuro questões éticas ligadas à obrigatoriedade em se usar tais medicações em algumas situações ocupacionais. Nos EUA, o modafinil é hoje uma droga aprovada pelo FDA para trabalhadores em turno invertido. Será que o empregador poderá um dia obrigar o trabalhador a usar a medicação para evitar acidentes ou para melhorar o desempenho?

– Como qualquer tecnologia, as smart drugs poderão um dia ser bem ou mal-usadas. Há muito trabalho pela frente para se avaliar seus custos e benefícios, para se educar a população sobre o assunto e para ajustar a legislação vigente caso se consiga demonstrar que elas são realmente seguras e eficazes para as pessoas que querem turbinar seus cérebros.

Em entrevista concedida à Scientific American, e publicada há alguns anos na revista Mente & Cérebro, o Prêmio Nobel Eric Kandel, um dos neurocientistas mais renomados do planeta e certamente um dos pesquisadores que mais contribuíram para o nosso atual entendimento da memória, declara: “Ainda não temos evidências de segurança e nem mesmo de eficácia do uso de medicações para melhorar o cérebro de pessoas saudáveis. Eu não aconselharia meus netos, pelo menos por enquanto, a usar essas medicações”.

E a cada dia o conselho de Kandel parece ser mais acertado. Este mês pesquisadores da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, e Melbourne, na Austrália, publicaram na Scientific Advances resultados de estudos mostrando que as tais smart drugs podem piorar o desempenho cognitivo entre pessoas sem transtornos cognitivos. As medicações deixam os voluntários mais motivados, mas com desempenho menos eficiente, mais errático, com maior demora para execução de tarefas complexas. No caso do metilfenidato (Ritalina), o tempo de execução da tarefa aumentou em 50%. E os mais prejudicados foram os que tinham o melhor desempenho antes de usar as medicações. Talvez caiba aqui novamente a analogia com a orquestra sinfônica com 20 violinos extras e sem ensaio.    

Por Dr. Ricardo Afonso Teixeira

Semana passada, apareceu para mim uma matéria (alagoas24horas) sobre o sucesso de bolinhos, também conhecidos por Bentô Cakes, só que agora com frases irônicas, bem humoradas, para comemorar as pequenas derrotas. Isso tomou conta das redes sociais com celebrações que vão desde o divórcio à reprovação em uma prova de concurso. É de certa forma uma libertação da pressão pelo sucesso. Vocês já devem ter ouvido uma frase do psicanalista Contardo Calligaris que dizia que ter uma vida feliz é pouco. Devemos buscar uma vida interessante, e isso inclui, claro, vales e montanhas no percurso. Vida sem insucessos não existe e a ciência tem nos mostrado como usá-los a nosso favor.

Quando pensamos em sucesso vem às nossas mentes conceitos como boas ideias, trabalho duro, disciplina, criatividade, imaginação, perseverança e até sorte. O que uma pesquisa recente publicada pela Nature nos aponta é que os fracassos devem fazer parte dessa lista também. Mas não é qualquer fracasso. São aqueles que nos aprimoram para as próximas tentativas e estas não devem demorar a acontecer.

Os autores do estudo mostram que o que separa os “winners” dos “losers” não é a persistência. Ambos tentam o mesmo número de vezes para alcançar o objetivo, só que os “winners” chegam lá. Eles trabalham duro da mesma forma, mas de forma mais esperta. Os fracassos servem de guias para o aperfeiçoamento para a próxima jogada. Não agem com impulsividade diante de uma batalha perdida. Estão pensando em vencer a guerra. Os “losers” não necessariamente trabalham menos, mas fazem mudanças de táticas além do necessário.

Outro ponto que diferenciava os projetos de sucesso foi a rapidez com que as novas tentativas aconteciam. Quanto mais rapidamente você perceber o fracasso e se organizar para uma próxima investida, melhor. O orientador da minha tese de doutorado, Fernando Cendes, me introduziu esse conceito de forma muito convincente. “Ricardo, se você não encontrar os resultados que procura nessa amostra de 20 indivíduos, não adianta procurar em outros cem. Mude sua tática”.

As conclusões do estudo não querem dizer que disciplina e sorte, por exemplo, não tenham seu valor. Mas se todos têm esses atributos de forma equânime, usar o fracasso de forma inteligente e rápida faz toda a diferença. Os pesquisadores estudaram milhares de pedidos de financiamento de pesquisa e desempenho de startups. Curiosamente avaliaram também o “sucesso” de terroristas e atentados sem mortos foram considerados fracassos. Os resultados foram aplicáveis para esses três diferentes universos e provavelmente para muitos outros que não foram estudados na pesquisa.

Você pode comemorar com leveza e bom-humor os pequenos infortúnios da vida, mas acho que não precisa exagerar também, senão pode acabar virando o caso do Amor para Recomeçar do Frejat – “E que você descubra que rir é bom Mas que rir de tudo é desespero.”

Por Dr. Ricardo Afonso Teixeira

Ela tem crises de enxaqueca, como ela mesmo diz, desde que se entende por gente. As crises começaram aos 13 anos de idade, mais fortes no período próximo à menstruação, frequentemente acompanhada de náusea, intolerância à luz, cheiros e ruídos. A dor costuma ser forte, às vezes tão forte que as medicações que usa para abortar a crise não funcionam, e acaba procurando ajuda no hospital onde lhe é prescrito um remédio na veia que consegue aliviar o sofrimento. Isso interfere sobremaneira na sua qualidade de vida, mas não a deixava sem dormir pensando que pudesse ter outro diagnóstico diferente da enxaqueca.

Por vezes apresentava crises de vertigem, como uma “labirintite”, que durava dois a três dias e que foram identificadas como migrânea vestibular, um transtorno do sistema do labirinto associado à enxaqueca. Isso também não lhe preocupava tanto. Uma vez, antes do fenômeno doloroso, passou a enxergar flashes de zigue zague no campo visual direito seguidos por dificuldade em sem se comunicar. Isso gerou muito mais preocupação, pois tinha sido inédito e pensava que poderia estar acontecendo um derrame cerebral. Ficou mais tranquila com a transitoriedade do fenômeno, 20 minutos, e após consultar seu médico que lhe tranquilizou que os sintomas também podem acontecer em pessoas que sofrem de enxaqueca.

Mais recentemente, ela teve mais uma crise forte, mas dessa vez acompanhada de grande inchaço ao redor de um dos olhos com duração de poucos dias. O quadro a deixou muito angustiada e novamente interrogou se não poderia ter ocorrido um derrame cerebral. Seu médico a acalmou dizendo, mais uma vez, que o inchaço pode ser esperado em pacientes com enxaqueca.

Esse tipo de inchaço é decorrente de uma maior ativação do sistema parassimpático e é mais comumente encontrado em outro grupo de dor de cabeça chamado de cefaleias trigeminovasculares, como é o caso da cefaleia em salvas. É uma expressão do desequilíbrio do sistema nervoso autônomo no momento da crise e não é incomum entre os pacientes com enxaqueca. Estudos mostram que até 75% dos que sofrem de enxaqueca podem apresentar em algum momento sintomas disautonômicos cranianos que, além do inchaço palpebral, podem incluir lacrimejamento, congestão/corrimento nasal, pressão no ouvido, vermelhidão ocular, queda palpebral e rubor/suor facial. Os sintomas podem ser uni ou bilaterais e o inchaço palpebral pode ocorrer em um terço dos pacientes. E não tem nenhuma relação com derrame cerebral.        

Ricardo Afonso Teixeira*

Você pode imaginar que as pessoas ao chegarem aos 90 anos de idade com as funções cognitivas excelentes tenham um contingente menor de alterações estruturais no cérebro quando comparadas àquelas com declínio cognitivo por Doença de Alzheimer. Entretanto, um estudo recém-publicado pelo Journal of Alheimer’s Disease, liderado por pesquisadores da Universidade da California-Irvine, nos EUA, apontou que as autopsias desses “super-olds” apresentavam alterações microscópicas vasculares ou as associadas à Doença de Alzheimer da mesma monta quando comparadas às de indivíduos com a doença. Super-olds são os idosos que chegam aos 90 anos com o as funções cognitivas preservadas.

Esses achados sugerem que os cérebros de pessoas com envelhecimento cerebral funcionalmente ótimo sejam mais resilientes a essas alterações patológicas, comuns também entre indivíduos idosos sem doença. Essas lesões são consideradas marcadores da Doença de Alzheimer e essa suposta resiliência não aconteceria nos indivíduos que desenvolvem a doença. Os resultados ainda mostraram que os super-olds tinham menos lesões que estão associadas a outras doenças neurodegenerativas, como a Doença de Parkinson. A menor presença dessas outras lesões (corpúsculos de Lewy e esclerose hipocampal) é um forte candidato para explicar a resiliência dos super-olds e novos estudos deverão pontuar como os hábitos de vida podem influenciar esses achados neuropatológicos. O cérebro de Olga Kotelko, atleta aos 93 anos, já nos trouxe algumas pistas sobre o impacto da atividade física no cérebro que ultrapassa os 90 anos.

A canadense Olga Kotelko, detentora de mais 30 recordes mundiais em diversas modalidades de atletismo, faleceu no ano de 2014, mas teve seu cérebro estudado cuidadosamente em 2012 pela Universidade de Illinois nos EUA.

Os pesquisadores compararam o desempenho cognitivo de Olga e as características da ressonância magnética de seu cérebro com outras 58 mulheres com idades entre 66 e 78 anos. Nessa época Olga tinha 93 anos. Os resultados foram publicados na revista Neurocase.

O estudo mostrou que o cérebro de Olga era mais volumoso do que o esperado para sua idade. Surpreendente foi encontrar que a parte do cérebro que liga os dois hemisférios, o corpo caloso, era mais intacta em Olga do que entre as mulheres dez ou vinte anos mais jovens!

O desempenho cognitivo de Olga mostrou-se levemente inferior ao das mulheres mais jovens, mas superior ao de mulheres da mesma idade e não atletas de um estudo independente. Os hipocampos de Olga, área cerebral fortemente responsável por nossa memória, também eram menores que o das mulheres de 60-70 anos, mas maiores que o de mulheres da mesma idade.

Estudos prévios já haviam demonstrado que a atividade aeróbica é capaz de garantir um bom funcionamento cerebral entre os idosos e até preservar o volume de algumas áreas estratégicas do pensamento, como o hipocampo.

O mais interessante é que Olga iniciou sua vida de atleta aos 65 anos e passou a se dedicar ao atletismo aos 77 anos. Competiu em corridas curtas e longas, saltos e arremessos de disco, martelo e dardos.

*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e diretor do Instituto do Cérebro de Brasília

Por Dr. Ricardo Afonso Teixeira*

A Universidade da California em Los Angeles liderou um estudo publicado recentemente na Scientific Reports que mostrou que os seres humanos cooperam entre si na maior parte das vezes que são requisitados. Mais de 40 horas de análise de vídeos da rotina de mais de 350 pessoas espalhadas em cidades de diferentes países da Europa e vilas rurais em quatro continentes demonstraram que o apoio em tarefas do cotidiano acontece em 80% das vezes em que há simples solicitação de ajuda, mesmo não verbal. Um exemplo é o de passar um talher para o outro durante uma refeição quando alguém lhe aponta o objeto.

Foram mais de mil oportunidades de colaboração nessas 40 horas de vídeo. Dez por cento ignoram o pedido de ajuda e outros 10% negam, mas justificam a razão de não poderem colaborar naquele momento. Não houve diferenças significativas entre as diferentes culturas estudadas, e mais, a cooperação foi semelhante entre parentes e não parentes. O método utilizado para analisar o nível de cooperação através de atitudes pequenas do dia a dia traz um resultado diferente de outros estudos com tarefas de maior custo para o indivíduo. Nessas situações de maior demanda, há mais influência de fatores culturais e do fenômeno de reputação.

Esses resultados sugerem que nossa tendência a ajudar o outro é mais inata do que cultural. É sabido que crianças, até com menos de dois anos de idade, já são capazes de colaborar com outras na realização de tarefas motoras, fenômeno chamado de altruísmo instrumental, e essa é uma condição também observada entre nossos ancestrais chimpanzés. Porém, dar uma forcinha para abrir uma porta é uma coisa, já dividir o alimento é outra bem diferente. Crianças com 7 a 8 anos de idade já dividem seu alimento de forma igualitária com parceiros do mesmo grupo social (coleguinhas de escola), mesmo quando têm a chance de ficar com a maior parte e ainda apresentam aversão a situações em que a divisão é feita com desigualdade.

*Dr. Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e diretor do Instituto do Cérebro de Brasília

Por Ricardo Afonso Teixeira*

Os gregos já falavam do amor pelo semelhante e cunharam o termo homofilia. A homofilia realmente é um fenômeno inequívoco, mas há um crescente corpo de pesquisas mostrando que há também a acrofilia – amor pelos extremos. As pessoas tendem a dar mais atenção àqueles que pensam de forma similar, homofilia, mas também têm mais atração por opiniões extremas, mesmo que sejam diferentes das delas próprias. As pessoas com opiniões extremas podem ser vistas pelo outro como mais engajadas, talvez mais interessantes. Os estudos têm mostrado, como já era esperado, que a combinação de homofilia e acrofilia política alimenta a segregação tornando mais difícil a cooperação, dimensão essencial para uma sociedade saudável.

A acrofilia tem sido estudada entre pessoas que nem se conhecem, situação muito distante de uma relação próxima, como a de um casal. Numa relação a dois temos um corpo muito robusto de evidências de que os opostos não se atraem. Aqui a homofilia tem que existir para que a relação tenha maior chance de durar.

A tal história que os opostos se atraem realmente é um mito. As pessoas costumam se casar com outras com nível educacional / socioeconômico parecido, com crenças religiosas e políticas semelhantes e que têm mais interesses em comum. E a bagagem que carregamos no nosso código genético influencia também a escolha do nosso parceiro. Pesquisas mostram que uma pessoa tem o código genético mais parecido com o do seu parceiro ou parceira quando comparado ao DNA de outras pessoas com mesmo nível socioeconômico, etnia e origem de nascimento.

Pessoas com mais semelhanças que diferenças têm mais chance de se atrair para construírem uma relação de longo prazo. Entretanto, vale sempre a pena lembrar que respeitar e incentivar as diferenças pode ser uma das melhores receitas para que essa relação se sustente.

*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e diretor do Instituto do Cérebro de Brasília

Por Dr. Ricardo Afonso Teixeira


Alimentos com altos teores de carboidratos e gorduras têm grande poder de estimular nossos centros cerebrais relacionados ao prazer e à sensação de nos sentirmos recompensados, promovendo a liberação de neurotransmissores como a dopamina, serotonina e a endorfina. Sabemos que a ativação desses centros de recompensa cerebral está fortemente associada à sensação de bem-estar e já foi demonstrado que até o simples contato na boca de uma solução de carboidratos, sem sua ingesta, é capaz de ativar esse sistema cerebral.

A interpretação para esse fenômeno é a de que nosso cérebro é programado desde os tempos ancestrais a ter prazer em consumir alimentos calóricos e com isso ter maior vantagem evolutiva. Baseado nessa teoria, a preferência por alimentos calóricos seria inata sim, mas ao consumirmos alimentos calóricos, o cérebro muda suas conexões em curtíssimo prazo, como se fosse treinado a repetir a ação em um futuro próximo. Isso foi o que pesquisadores do Instituto Max Planck na Alemanha e da Universidade de Yale acabaram de demonstrar em estudo publicado pela respeitadíssima revista Cell Metabolism.

Voluntários comeram diariamente um pudim com uma dose extra de gordura, por um período de oito dias, e passaram a apresentar uma ativação do sistema dopaminérgico de recompensa numa intensidade bem maior do que aqueles que comeram o pudim com menos gordura. Essa maior ativação não se desfaz do dia para a noite, o que nos faz pensar que cada alimento hipercalórico que ingerimos faz com que o cérebro, dias ou semanas depois, ainda esteja bem treinado a sentir o prazer novamente. E mais: outros estudos já mostraram que, após semanas comendo alimentos supercalóricos, o cérebro não se ativa como antes a alimentos pouco calóricos.

Em tempos que não mais caçamos ou coletamos, tempos de geladeira e supermercado, esse “treinamento” do sistema de recompensa dopaminérgico é um motor potente que contribui sobremaneira para a espiral de obesidade que vivemos hoje.

*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e diretor do Instituto do Cérebro de Brasília

Ricardo Afonso Teixeira*

O arroz está salgado mesmo que a foto não mostre isso.

Muitas pessoas procuram um serviço de saúde com sintomas neurológicos como fraqueza de um lado do corpo e os exames clínico, de neuroimagem, entre outros, não evidenciam uma doença neurológica que responda por esse sintoma. Histeria, síndrome conversiva, crise psicogênica, pseudocrise, são outros termos para descrever esse fenômeno e hoje não devem ser vistos como a denominações preferenciais, pois alimentam o estigma, preconceito e desinformação.

Histeria traz a origem grega do termo histero, de útero, sendo que a condição afeta em 70% dos casos as mulheres, mas não só as mulheres.  Para a “elite masculina” o termo neurastenia já foi muito usado, sugerindo sintomas como reflexo do excesso de trabalho e ambição. O termo conversivo alimenta a ideia de que existe um trauma na história do paciente que se converte em sintomas neurológicos. Isso vem de longe, ainda com Freud e seus antecessores. O trauma nem sempre existe, mas eles estavam certos. História de negligência na infância e abuso físico e sexual são oito vezes mais frequentes entre indivíduos com transtorno de sintomas funcionais neurológicos (TSNF) e duas vezes mais comuns quando comparados a outros transtornos psiquiátricos. Isso tudo acontece mais nas classes econômicas menos favorecidas, e aqui a mulher está em desvantagem. Vale também lembrar que a América Latina tem o maior índice de violência contra as mulheres em todo o mundo (Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas).

Pseudocrise é um termo que leva o quadro do paciente ao descrédito e desconfiança e psicogênico alimenta a cisão entre a mente e o corpo. Aqui vale uma correção ao que foi dito no início: “quando não evidenciam uma doença neurológica que responda por esse sintoma”. Hoje o TSNF é visto como uma doença neurológica sim, doença psiquiátrica sim, e pra romper essa separação mente e corpo, vamos ao termo doença neuropsiquiátrica, então. Essa condição neuropsiquiátrica é considerada a segunda razão pela procura por atendimento numa cínica neurológica.   

A mesma fraqueza de um lado do corpo que descrevemos é muito mais respeitada pelos profissionais de saúde quando é decorrente de uma doença neurológica bem conhecida e reconhecida, como por exemplo um tumor cerebral. O TSNF ainda é frequentemente designado pelos profissionais de saúde como piti, às vezes de simulação, fingimento, que são coisas bem diferentes. Isso traz muito sofrimento ao paciente. O cérebro desses pacientes com TSNF apresentam alterações em neuroimagem funcional como PET Scan e até em avaliações morfológicas na ressonância magnética. Não só as conexões cerebrais, o software, está alterado, mas o hardware também está. Imaginem Sigmund Freud tendo contato hoje com essas evidências! Pois é. Ele nos apresentou um outro lado do cérebro, ainda no século XIX, mas a ficha ainda não caiu. O TSNF não é consciente!

Portanto, dizer a um paciente com TSNF que os sintomas são coisas da cabeça dele ou dela refletem ignorância e falta de sensibilidade. A abordagem empática influencia na aceitação do diagnóstico e aderência ao tratamento que inclui psicoterapia, e em casos selecionados, medicações. Os resultados, na maior parte dos pacientes, são ótimos.

* Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e diretor do Instituto do Cérebro de Brasília

Por Ricardo Teixeira*

Na última semana, uma paciente, acompanhada por mim para tratamento de enxaqueca crônica, pediu-me um relatório para o seu trabalho recomendando que se possível fosse oferecida a ela espaço de trabalho menos ruidoso e com iluminação branca menos intensa para o melhor controle de sua condição clínica. As pessoas que sofrem de enxaqueca sofrem com a luz, ruídos e odores, não só quando estão tendo uma crise de cefaleia, mas é comum serem hipersensíveis a estímulos sensoriais intensos também entre as crises. Esse é o meu caso, dessa paciente, e é claro, fiz o relatório.

Nesses três anos de pandemia a discussão sobre o espaço físico do trabalho ressurgiu com tudo. Já na década de 1960 a companhia química DuPont inovou com espaços únicos para inúmeros colaboradores com a promessa de maior colaboração entre eles. Inúmeros estudos mostraram que as pessoas, na verdade, colaboram menos nesse modelo e frequentemente se queixam de ruído e distração. Além disso, o modelo de grandes espaços alimenta o sexismo e a hierarquia corporativa, onde as mulheres se sentem mais oprimidas em serem julgadas pela vestimenta enquanto aqueles com níveis mais altos na hierarquia solidificam suas posições também por se vestirem de forma mais sofisticada.

A saúde também entra nessa equação de custo e benefício dos grandes espaços compartilhados. Nesse quesito, a pandemia de COVID-19 mostrou que a maioria das pessoas pode trabalhar em casa com a mesma qualidade ou até melhor que no local de trabalho tradicional. Desde a década de 1990 sabemos que dividir o espaço de trabalho aumenta em um terço as chances de múltiplas infecções virais no ano.

Hoje pensa-se que o melhor é oferecer a possibilidade de espaços customizados de acordo com o tipo de trabalho e preferências do colaborador, respeitando a neurodiversidade. Uma pesquisa conduzida em 2021 nos Estados Unidos (Gensler Research Institute) mostrou que um terço das pessoas gostariam de trabalhar em casa integralmente e metade preferem um esquema híbrido, idealmente com dois dias na semana no escritório. Lembremos também do maestro dessas decisões pelo lado do empregador: o dinheiro. O trabalho em casa ou em um escritório virtual, que pode ser um Café, permite redução de custos, maior satisfação e menor rotatividade por parte dos colaboradores.    

*Ricardo Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e diretor do Instituto do Cérebro de Brasília        

Por Ricardo Teixeira

Enxaqueca é uma condição clínica muito prevalente chegando a acometer uma em cada cinco mulheres. Por outro lado, cefaleia em salvas é mais rara e acomete preferencialmente os homens. As crises de dor de cabeça dessas duas condições clínicas dividem inúmeros aspectos em comum e, entre eles, está a tendência em ocorrer em determinados períodos do dia e segue um padrão de intervalo entre as crises de 24 horas..

Uma análise publicada esta semana na Neurology, periódico da Academia Americana de Neurologia, mostrou que a influência do relógio biológico ocorre em 71% e 50% dos pacientes com cefaleia em salvas e enxaqueca respectivamente, reforçando a influência do hipotálamo nesses casos. Hipotálamo é uma estrutura cerebral que controla o relógio biológico e tantas outras funções primárias como sono, fome e sede.

No caso da cefaleia em salvas, as crises costumam ocorrer do fim da noite até o amanhecer. É comum o paciente acordar com a dor, algo que também acontece muito na enxaqueca. Crises de salvas ocorrem mais na primavera e outono especialmente nos países com as estações bem delimitadas. Pacientes com salvas apresentam níveis maiores do hormônio cortisol e menores da melatonina.

Na enxaqueca as crises acontecem com ampla distribuição no curso do dia e são menos comuns no período da noite. Os níveis de melatonina também são reduzidos. Apesar de ainda termos um número limitado de estudos, uma das terapêuticas empregadas para a profilaxia de crises de enxaqueca e salvas é a melatonina. Os resultados até o momento são promissores.

*Ricardo Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e diretor do Instituto do Cérebro de Brasília.

Por Ricardo Teixeira*

COVID longa, que podemos também chamar de sequela pós-infecção aguda por COVID-19, já tem mais de 200 sintomas registrados, mas aqueles associados à disfunção do sistema nervoso estão entre os mais prevalentes e incapacitantes. Na maioria das vezes os sintomas ocorrem mesmo após um quadro agudo de COVID-19 leve, devem durar pelo menos três meses após a infecção e podem persistir por anos. Estima-se que 10-40% dos infectados podem desenvolver COVID longa.

Sintomas comuns incluem fadiga, dificuldade de memória e concentração, hipersensibilidade à luz e ruídos, ansiedade, depressão e alterações do sistema nervoso autônomo que podem levar a tontura, taquicardia, desmaios, instabilidade da pressão arterial e distúrbios do ritmo intestinal.

Não é o ataque direto do vírus que provoca essa miríade de sintomas, mas provavelmente uma resposta imunológica desregulada e inflamação sejam os principais fatores. Partículas do vírus são mais encontradas no cérebro das pessoas que têm essas manifestações crônicas. Alterações nos pequenos vasos sanguíneos do cérebro parecem colaborar também e, junto aos neurônios e astrócitos, todos são vitimados pelo processo inflamatório.      

A vacinação é imperativa para a redução dos perigos de uma infecção aguda grave, mas estima-se que só reduz a chance de desenvolvimento da COVID longa em 15%. Portanto o melhor negócio é não se infectar e para isso o uso de máscaras em ambientes fechados ainda é um grande aliado. Continuo recebendo frequentemente no consultório  pacientes que se infectaram pela terceira ou quarta vez, sendo que a última há menos de três meses.

E então? Melhor é continuar se prevenindo, concorda?

*Ricardo Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e diretor do Instituto do Cérebro de Brasília

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Há décadas nos deparamos com notícias de que há um efeito protetor contra crises epiléticas quando se ouve a música do gênio, especificamente a Sonata KV448 em Ré Maior. Será que isso tem algum fundamento? Pesquisadores da Universidade de Viena, país em que Mozart nasceu, acabam de publicar uma análise de todos os relatos científicos sobre o tema, mostrando que não há evidência confiável de que o fenômeno realmente exista na epilepsia ou em qualquer outra condição clínica. O estudo foi publicado pela Scientific Reports do grupo Nature.

Especula-se que a sonata de Mozart tenha efeitos positivos não só para a espécie humana, mas também para animais e até microorganismos. Poderia promover a inteligência de humanos adultos, crianças e até fetos. Fala-se nas vacas que têm maior produção de leite e bactérias que tratam melhor o esgoto quando em ambiente com a Sonata KV448. A origem dessas ideias começou após a observação na década de 1990 de que estudantes quando ouviam o primeiro movimento da sonata apresentavam um incremento cognitivo transitório na inteligência espacial, fato não comprovado por estudos posteriores. Uma indústria de produtos de músicas clássicas para o cérebro surge.

Todas essas promessas não têm sido confirmadas pela boa ciência, ou seja, através de metodologia robusta que permita chegar a conclusões de real associação entre uma coisa e outra. Mas uma coisa é certa: para muitos a música de Wolfgang Amadeus é um bálsamo para a alma que poderia trazer benefícios em algumas doenças. O atual estudo sugere que isso ainda não pôde ser comprovado com segurança.   

A Academia Americana de Neurologia publicou recentemente em seu periódico Neurology evidências de que pressão alta na gravidez reduz o desempenho cognitivo décadas mais tarde. O efeito é ainda maior quando o quadro é de pré-eclâmpsia, condição em que os rins e outros órgãos são envolvidos. Esse efeito também foi maior nas grávidas que apresentam eclampsia que é quando a hipertensão arterial vem acompanhada de uma ou mais crises epilépticas, podendo evoluir até para um estado de coma.

Já sabemos que a pressão alta na gravidez é considerada um fator de risco para doença isquêmica do coração e acidente vascular cerebral e tem sido demonstrada uma associação com quadro demencial no futuro, apesar de resultados conflitantes. A disfunção cerebrovascular é um elemento chave para explicar a relação entre pressão alta na gravidez e demência, mas não devemos pensar apenas na demência vascular, quando lesões vasculares causam o déficit cognitivo, mas também na Doença de Alzheimer.  

 

Os achados do atual estudo, com número robusto de pacientes envolvidos, confirmam a ligação entre pressão alta na gravidez e déficit cognitivo futuro, chamando a atenção para o rigoroso controle da pressão nesse período, ou melhor, em qualquer período.

Por Ricardo Teixeira*

Ó! Assim se pronuncia a palavra awe da língua inglesa que significa deslumbramento, admiração, reverência, mas ao mesmo tempo temor. Atingir o topo de uma montanha ao pôr do sol ou remar assistindo à aurora parecem ser mais interessantes do que fazer o mesmo no sol do meio dia, concorda? Uma pesquisa publicada recentemente no Journal of Environmental Psychology confirmaessa tendência que pode até ser encarada como uma obviedade. O começo e o fim do dia são mais belos, os fotógrafos não vão discordar, mas os extremos do dia são também mais associados à experiência mental de awe, fato confirmado pela pesquisa. A natureza, qualquer que seja o momento do dia, já é capaz de proporcionar benefícios mentais e cognitivos, mas pesquisas demonstram que com a vivência do awe os efeitos são ainda maiores.

Awe não é um sentimento que é incitado por qualquer estímulo. Qualquer fenômeno mais raro ou surpreendente na natureza tem mais chance de promovê-lo que o sol do meio dia. Estamos falando de um arco íris numa cachoeira, uma tempestade e outros estímulos que misturam o deslumbramento com o temor. Uma das teorias mais aceitas para explicar essa experiência é o encolhimento do ego, quando passamos a nos sentir um grão de areia frente a algo sublime.  Pesquisas demonstram que o awe é capaz de incrementar as emoções positivas e o estado de humor, deixa as pessoas com atitudes pró-sociais, condições valiosas para o bem estar psíquico.

Outras vivências frequentemente associadas ao awe são os ritos religiosos e não religiosos, drogas psicodélicas e a arte. Ah, a Nona Sinfonia de Beethoven é um awe só.

*Dr. Ricardo Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e diretor do Instituto do Cérebro de Brasília

O tempo de exposição ao estrogênio pode ser estimado em uma mulher antes da menopausa pelo tempo entre a primeira menstruação e a menopausa adicionado ao tempo em que usou estrogênio como anticoncepcional. Uma pergunta muito comum no consultório neurológico é se o tempo prolongado do uso de anticoncepcionais pode aumentar o risco de derrame cerebral e uma grande pesquisa publicada recentemente no periódico Neurology da Academia Americana de Neurologia aponta que maior exposição de estrogênio antes da menopausa, na verdade, reduz esse risco.

O estudo envolveu mais de 120 mil mulheres já na menopausa com acompanhamento por nove anos em média. Tanto o tempo de fertilidade, da primeira menstruação à menopausa, como o tempo de uso de estrogênio como pílula anticoncepcional, conferiram proteção contra a ocorrência de derrame cerebral.

Pesquisas anteriores já haviam demonstrado que o estrogênio tem um certo grau de proteção vascular no coração e no cérebro por suas propriedades vasodilatadoras, antioxidantes e de regulação no metabolismo do colesterol e glicose. Quando se pensa em reposição de estrogênio após a menopausa, essa proteção ocorre com o uso até os 60 anos de idade ou dentro de um período de dez anos após a menopausa. Após esse tempo, a resposta é indiferente ou o risco pode até aumentar.   

Uma pesquisa recém-publicada pelo periódico Frontiers in Psychology mostrou que a educação musical entre os adolescentes promove o bem estar mental com maiores indicadores de domínios positivos no desenvolvimento dos jovens como competência e autoconfiança, atributos que estão associados a maiores contribuições para a sociedade e menor chance de comportamentos de risco, mesmo em idades mais avançadas. Aqueles adolescentes em que a educação musical teve início antes dos oito anos de idade se mostraram mais esperançosos com o futuro. O estudo foi conduzido pela Universidade do Sul da California nos EUA e envolveu 120 voluntários.

Uma série de estudos já havia demonstrado resultados positivos da educação musical sobre o desempenho acadêmico de crianças, com maior desempenho cognitivo, incluindo criatividade, mais autoconfiança e estabilidade emocional e aumento da conexão com a escola e a comunidade. Na pesquisa inicialmente destacada, os efeitos positivos foram demonstrados mesmo entre aqueles que tiveram a educação musical através de curso online para estudantes do ensino médio desenvolvido pela Fundação Fender em 2020, ápice da pandemia por coronavirus. O curso tem duração de três meses, uma hora duas vezes por semana. Aqueles que se inscrevem têm os instrumentos musicais emprestados pela Fundação Fender.

Fica aí a dica para os produtores de instrumentos musicais e aos gestores de educação no Brasil. Termino com o fim da carta às próximas gerações de artistas escrita por Herbie Hancock e Wayne Shorter para acender as mentes criativas. Acho que isso deveria servir de inspiração a todos nós, independente de sermos ou não artistas. A vida pode ser uma obra de arte. Aliás, deve ser. 

“Tudo o que existe é produto da imaginação de alguém; cuide bem e nutra sua imaginação e você sempre se encontrará à beira da descoberta.  Como cada um desses fatores levam à criação de uma sociedade pacífica? – você deve estar se perguntando. Tudo começa com uma causa. Suas causas criam os efeitos que moldam o seu futuro e o futuro de todos ao seu redor. Sejam os protagonistas no filme de suas vidas. Vocês são os diretores, os produtores e os atores. Sejam ousados e incansavelmente benevolentes enquanto dançam pela viagem que é esta vida”.

A culpa de ter feito algo de que nos arrependemos é um sentimento bem desconfortável, especialmente quando ficamos ruminando essa culpa por longos períodos. Um estudo liderado por pesquisadores da Universidade de Basel na Suíça, e recém-publicado pela prestigiada Scientific Reports, mostra que o placebo pode reduzir esse sentimento, mesmo que você saiba que está tomando uma pílula de farinha.

Os voluntários da pesquisa eram instruídos a escrever uma situação em que se sentiam arrependidos como uma conduta fora das regras sociais ou um tratamento injusto com outra pessoa. Tomavam então uma pílula placebo, sendo avisados ou não que era placebo. Um grupo controle não tomava nada e ficava folheando uma revista de paisagens. Logo depois eles eram orientados a pensar de olhos fechados por um minuto na situação que tinham escrito e então o sentimento de culpa era quantificado. Aqueles que tomaram placebo, sabendo ou não, apresentaram menor sentimento de culpa.

Os participantes da pesquisa não apresentavam qualquer transtorno mental e novos estudos deverão ser realizados em pacientes com doenças psiquiátricas, especialmente a depressão, condição onde o sentimento de culpa é muito prevalente.

Não é a primeira vez que temos evidências de que o placebo funciona mesmo quando o indivíduo sabe que o que está sendo administrado é placebo. Esse fenômeno já foi demonstrado no controle da ansiedade e dor, por exemplo, mas também em quadros de rinite, enxaqueca e   síndrome do intestino irritável. É muito importante que o terapeuta instrua os pacientes que o placebo pode ter efeitos significativos e que devem ter um pensamento positivo para potencializar seu efeito. E mais: passar a mensagem de que o placebo funcionará mesmo sem esse pensamento positivo.

Um estudo publicado no ano de 2001 pela revista Science deu uma balançada naquilo que a comunidade científica até então entendia como efeito placebo. Pacientes portadores da Doença de Parkinson receberam medicação específica para a doença (levodopa) ou pílulas placebo e o surpreendente foi que tanto os pacientes que receberam a medicação como aqueles que receberam placebo, e que tiveram boa resposta clínica, demonstraram aumento das concentrações de dopamina no cérebro.

Em outro estudo mais recente, publicado pela revista Neurology, pesquisadores de Luxemburgo mostraram que pacientes com a Doença de Parkinson que tinham boa resposta ao placebo apresentavam aumento de dopamina no cérebro em regiões que são comuns ao efeito cerebral de recompensa. Isso sugere que o fator “expectativa positiva” pode ter um importante papel no efeito placebo.

Em quadros de dor, também há evidências de que o placebo muda quimicamente o cérebro, dessa vez através da liberação de opioides endógenos, efeito que pode ser desfeito através de medicações que bloqueiam o efeito de medicações opioides. As mudanças químicas também ocorrem em quadros depressivos, sendo que o placebo apresenta efeito muito semelhante às drogas que aumentam a concentração de serotonina (ex: fluoxetina). Nessas duas condições, a “expectativa positiva” também parece ser a forma como o cérebro faz com que o efeito placebo funcione.   E essa parece ser a explicação do porquê de algumas pessoas responderem positivamente ao placebo e outras não. Há evidências de que bons respondedores apresentam expectativa de receber maiores recompensas e têm maior ativação do sistema de recompensa cerebral, não só na situação de tratamento, mas também em situações de jogos que envolvem recompensa em dinheiro.

Em 2016, o British Medical Journal publicou uma pesquisa revelando que a maioria dos americanos não vê problema em receber uma medicação placebo. O estudo envolveu 853 voluntários com idades entre 18 e 75 anos que eram acompanhados por alguma condição clínica crônica. Apenas 22% achavam inaceitável o uso de placebo. O restante considerava o placebo uma alternativa possível nos casos em que o médico tem clareza que os benefícios são maiores que os riscos e, melhor ainda, quando existir transparência no que está sendo proposto quando o médico é interrogado.

Por Prof. Dr. Ricardo Teixeira

Todas as pessoas que nos maltrataram durante anos merecem pagar, mesmo que estejam mortas – o inferno pode esperar. (Chico Science)

No dia 10 de janeiro, o jornal Estado de São Paulo divulgou estudo que apontou que 18.4% dos brasileiros entrevistados concordam com a depredação dos prédios públicos. Mostrou ainda que 38% acreditam que os atos golpistas se justificam de alguma forma. No dia seguinte, pesquisa Datafolha mostra que 3% dos entrevistas são a favor dos ataques.

O judiciário promete responsabilização e punição dos organizadores, financiadores e manifestantes do ato golpista. Inclui também nessa lista os incentivadores. A presidente interina do Conselho Federal de Medicina pode ser incluída nessa última categoria, ao comemorar nas redes sociais o ato terrorista com comentário de “agora vai!”? Jair Messias deveria ser incluído só nessa categoria ou também na categoria de idealizadores?

James Piazza da Universidade da Pensilvânia nos EUA nos ajuda a responder essa questão. Ele publicou uma pesquisa em 2020 no periódico International Interactions mostrando que discursos de ódio efetuados por políticos alimentam a polarização política que por sua vez aumenta o terrorismo doméstico. A pesquisa analisou o teor de ódio em discursos políticos e a incidência de atos terroristas em 163 países no período entre 2000 e 2017.

Existe um consenso de que há um espectro de visões políticas extremistas e outro de ações extremistas. O radicalismo nesse espectro de opiniões não chega a se manifestar em radicalismo de ações, como atentados terroristas, em 99% dos casos.

Há um perfil psicológico comum entre indivíduos que passam do extremismo de ideias para ações terroristas? Décadas de pesquisas têm nos mostrado que não existe um perfil psicológico para um terrorista. Não existe um transtorno mental específico que é associado ao terrorismo. Entretanto, alguns terroristas apresentam alguns traços psicológicos mais comuns que a população geral e, mesmo nesse grupo, a prevalência de transtornos mentais não chega a 50%. Chamar os perpetradores do ato terrorista de doentes mentais alimenta o estigma de quem realmente sofre com as doenças mentais.

A ideia de que o terrorista seja absolutamente racional para alcançar seus objetivos é bastante aceita. Porém, pesquisas têm demonstrado que eles são influenciados sim pelas emoções, como a raiva, assumindo comportamentos míopes, frequentemente cegos. Podemos pensar neles como buchas de canhão, com personalidade coletiva que seguem um grande influencer.

*Dr. Ricardo Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e diretor clínico do Instituto do Cérebro de Brasília

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