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Quando alguém nos fala: tenho duas notícias pra contar, uma boa e outra ruim. Qual você quer ouvir primeiro? A grande maioria responde que quer ouvir a ruim antes. Reconhece-se que o ser humano tem uma tendência a dar mais atenção a informações negativas do que às positivas. Ter consciência de informações negativas, e presumivelmente ameaçadoras, pode ser visto como um traço de adaptação da espécie.

E o que dizer do incerto? Numa situação em que alguém nos diz: Tenho uma coisa para lhe contar. Você quer ouvir? Poucos devem discordar que a maioria nessa situação diria: conta logo!

A incerteza é vista pela psicologia como a antecipação de uma ameaça pouco definida. Se a exposição a um estímulo negativo representa uma ameaça, a exposição ao desconhecido pode ser ainda mais ameaçadora, já que não se sabe o tamanho do suposto inimigo. Alguns estudos nos mostram que o suspense da incerteza gera mais alterações fisiológicas associadas à ansiedade do que o confronto a estímulos negativos bem definidos. As pessoas preferem um capeta conhecido a um capeta que ainda não conhecem.

Uma pesquisa publicada pelo periódico Nature Communications confirma essa ideia. Voluntários mostravam mais sinais físicos de estresse quando estavam numa situação de expectativa do que quando já sabiam que o desfecho tinha grande chance de ser ruim. O estudo foi feito com um game em que os participantes tinham que atravessar um terreno pedregoso e ficar atentos a cobras. Caso encontrassem uma cobra eles levariam um pequeno choque. Quando a chance de se deparar com uma cobra era de 50%, níveis máximos de estresse eram encontrados. Quando a chance era de zero ou 100%, os níveis de estresse caíam a níveis mínimos. Por outro lado, o estresse trouxe também seus efeitos benéficos. Quanto maiores os níveis de estresse maior foi a capacidade de fugir das cobras. O estudo foi conduzido por pesquisadores da Universidade de Londres.

Outra pesquisa publicada pela revista Nature Neuroscience revelou que os macacos também querem saber das coisas o mais rápido possível, e que do ponto de vista neuroquímico, esse acesso adiantado à informação é semelhante ao de outros tipos de recompensa cerebral. Neste caso, o experimento envolvia a recompensa de uma quantidade de água maior ou menor. Outras pesquisas têm mostrado que, quando o assunto em questão envolve uma experiência negativa, a preferência por acesso rápido à informação é ainda maior.

Sabe-se desde a década de 1990 que há um contingente de pessoas com transtornos de ansiedade que tem muita dificuldade com a incerteza, e essa dificuldade é vista hoje como um traço de personalidade. As pessoas com quadro de anorexia costumam ter traços de personalidade de perfeccionismo, os obsessivos-compulsivos têm níveis de responsabilidade inflados, e a psicoterapia nessas condições foca os esforços para fazer com que essas características sejam moduladas permitindo um melhor equilíbrio mental. Da mesma forma, as pessoas com alta vulnerabilidade ao incerto devem ter o tratamento psicoterápico focado nessa fraqueza.

As pessoas com maior grau de intolerância à incerteza frequentemente vivem em uma rotina com a menor chance de surpresas. Muitas vezes acabam tomando decisões precipitadas para sair do suspense do desconhecido. E aí vem o megadesafio: a pandemia.  

Tudo passou a ficar em um estado de incerteza absoluto. Trabalho, escola, viagens, boletos a pagar, a vida, tudo incerto. Dezenas de estudos foram feitos desde então mostrando que as pessoas mais frágeis à experiência do desconhecido são as que mais têm sofrido por problemas emocionais nesse período.

Um estudo publicado em janeiro deste ano por pesquisadores da Universidade de Illinois nos EUA reavaliou os voluntários que tinham feito parte de uma pesquisa sobre intolerância ao desconhecido dois anos antes da pandemia. A reavaliação foi feita durante a pandemia e aqueles que tinham maiores escores na escala de intolerância e maior atividade numa região do cérebro chamada de ínsula no estudo inicial foram os que apresentaram maiores níveis de estresse, ansiedade e depressão na pandemia. Mas é claro que a perda de um ente querido provoca mais sofrimento que qualquer incerteza.

Person In The Middle Of A Forest

Pesquisa acaba de ser publicada pelo prestigiado periódico PLOS Biology apontando que a tendência em estar próximo à natureza tem um forte componente genético. O tempo junto à natureza de gêmeos idênticos, que tem quase 100% do material genético igual, é bem mais similar do que o de gêmeos não idênticos (50% do material genético igual). O estudo foi baseado no banco de dados inglês Twins UK com entrevistas relacionadas à relação dos indivíduos com a natureza. Foram abordados itens como familiaridade e desejo de estar em um ambiente natural e frequência de visitas a esses espaços. Mesmo assim, foi calculado que 50% da tendência em ter a natureza no dia a dia tem origem em fatores ambientais, como a facilidade de acessar esses espaços e estímulos de outras pessoas, especialmente quando ainda jovens.

 

Temos inúmeras evidências do quanto a natureza é benéfica para nosso cérebro e nosso equilíbrio psíquico. Quando se pensa no cortisol, hormônio produzido pelas glândulas suprarrenais e associado ao fenômeno do estresse, sabemos que o contato com o verde inibe a produção desse hormônio. Indivíduos que passeiam por áreas arborizadas têm menor produção de cortisol do que aqueles que fazem o mesmo numa rua comercial agitada.  

Mas qual o tempo mínimo de contato com o verde para se ter esse efeito anti-estresse? Pesquisadores da Universidade de Michigan, nos EUA, mostraram recentemente que esse benefício já acontece com 20 minutos de uma vivência em ambiente arborizado no perímetro urbano, independente de atividade física. Outro estudo, ainda mais robusto, foi publicado na revista Scientific Reports envolvendo quase vinte mil voluntários mostrando que o contato com a natureza, a partir de 120 minutos por semana, faz com que as pessoas tenham uma maior auto percepção de saúde e bem estar. O máximo benefício ocorre entre 200 e 300 minutos por semana e o efeito foi o mesmo se a pessoa tem essa vivência de 200 minutos em um só dia ou em parcelas de 30 minutos todos os dias da semana, por exemplo.

Alguns países como a Finlândia, Japão e Coréia do Sul já entenderam bem o recado e têm programas de “banhos de floresta” como forma de promoção da saúde. São muitos os benefícios já demonstrados com essas “pílulas de natureza”. Além da promoção do equilíbrio psíquico, temos ganhos na atenção, memória, linguagem e até na capacidade criativa. Também temos menores índices de doença cardiovascular, obesidade, diabetes, hospitalização por crises de asma e, finalmente, menor mortalidade.

Close-Up Shot of a Typewriter

Um estudo recentemente publicado no JAMA Network Open, conduzido nos EUA, aponta que falsas informações sobre a vacinação contra o coronavírus têm duas vezes mais chances de serem consideradas verdades entre pessoas com sintomas depressivos. De uma forma geral, sabe-se que um estado mental com viés negativista exacerba a propagação de fake news. E pessoas com quadros depressivos estão com suas mentes nesse modo negativista, enxergando o mundo com lentes nem um pouco cor-de-rosa.

O estudo, envolvendo mais de 15 mil voluntários, foi conduzido por pesquisadores da Universidade de Harvard envolvendo todos os 50 estados americanos e Washington D.C. Os pesquisadores mostraram que a prevalência de depressão foi três vezes maior do que a de estudos realizados antes da pandemia. Aqueles que apresentavam sintomas depressivos moderados ou severos acreditavam mais em notícias falsas sobre a vacinação e também eram os que menos se vacinavam. Numa segunda avaliação, realizada dois meses depois, aqueles que tinham sintomas depressivos na primeira avaliação passavam a acreditar ainda mais em informações falsas. Esses achados não foram influenciados pelo posicionamento político de cada um.

Os pesquisadores deixam claro que os resultados não devem ser interpretados como fake news causando depressão, mas que as pessoas deprimidas têm maior tendência em acreditar nesse conteúdo falso e são mais vulneráveis a contrair a infecção por uma menor disposição em se vacinar. 

Woman Placing Her Finger Between Her Lips

Faço nosso o meu segredo mais sincero (Daniel na Cova dos Leões- Renato Russo)

Guardar segredos é trabalhoso para nossa mente e está associado a um menor bem-estar psíquico, ansiedade depressão e piores relações com os outros. A constante vigília para não deixar escapar pistas dos nossos segredos pode ser uma tarefa exaustiva.

Entretanto, novas pesquisa nos apontam que o lado mais complicado dos segredos não é o esforço mental de guardá-los, mas o simples fato de ter que conviver com eles e pensar repetidamente sobre eles. O ato de ruminar segredos é bem cansativo e faz-nos sentir pessoas pouco autênticas.  

Pesquisadores da Universidade de Columbia nos EUA avaliaram mais de 5000 voluntários mostrando que 97% tinham pelo menos um segredo em algum momento da vida e uma média de 13 segredos. Desses 13, cinco jamais foram compartilhados com outra pessoa. Os mais comuns eram os relacionados a desejos, assuntos relacionados à sexualidade, traição e desonestidade. Quanto mais as pessoas pensavam nos seus segredos fora dos momentos de interação social, menores eram os índices de bem estar psíquico. O mesmo não aconteceu com a atitude de prestar atenção para que eles não fossem revelados a outras pessoas. Os pesquisadores ainda demonstraram que quando as pessoas confidenciam um segredo a outra pessoa, e pode ser o psicoterapeuta, elas passam a ruminar menos. E o melhor vem depois da confidência: o suporte emocional e conselhos. Isso faz com que as pessoas convivam de forma mais saudável com os segredos.   

Man Wearing White Dress Shirt With Black Necktie

Sentimentos como nervosismo e entusiasmo são frequentemente associados mais a um gênero do que ao outro. Pesquisadores da Universidade de Michigan, nos EUA, avaliaram se as mulheres realmente são mais emotivas que os homens, já que a ideia de elas serem mais emotivas que eles pode ser só um estereótipo. É comum a flutuação emocional de um homem durante um jogo de futebol ser considerada “paixão”, enquanto as flutuações das mulheres, em qualquer situação e mesmo que provocadas, são interpretadas, por muitos, como irracionalidade.

O estudo acompanhou 142 voluntários (18 a 38 anos) por 75 dias para mapear as emoções positivas e negativas no dia a dia. Os resultados mostraram que os altos e baixos emocionais não foram diferentes entre os gêneros, apesar de terem sido desencadeados por razões diferentes. Entre as mulheres, a flutuação emocional não estava associada ao uso de pílula anticoncepcional.

Os achados têm uma grande implicação na redução do estigma de “mulheres à beira de um ataque de nervos”, já que os homens estão na mesma montanha russa emocional. A pesquisa trará impacto também na inclusão das mulheres em estudos que historicamente as excluem com o argumento de que a flutuação emocional é muito alta e hormônio-dependente. Inúmeros estudos com roedores apontam que essas flutuações na fêmea são até menores do que no macho.

Refrescando a memória sobre esse estereótipo na CPI da covid-19:

Simone Tebet foi chamada de “descontrolada”.

A senadora Leila Barros foi interrompida várias vezes pelo senador governista Marcos Rogério enquanto tentava cumprir seu papel na CPI. Rogério afirmou, na ocasião, que ela estaria “nervosa”.

Ninguém chamou um homem de nervoso ou descontrolado na CPI. Estavam todos em estado de relaxamento profundo.

Black Ring Bell Alarm Clock

O número ideal de horas de sono é aquele que faz com que a pessoa no outro dia sinta que dormiu o suficiente. Um percentual pequeno de pessoas sente-se bem com menos de 7 horas, e estes são chamados de dormidores curtos. Há também os dormidores longos, aqueles que precisam de mais de 8 horas de sono e que também representam uma minoria. Porém, a maior parte da população mundial, incluindo os brasileiros, dorme entre 7 e 8 horas por noite.

Temos evidências de que as pessoas que dormem as 7 horas, mas acordam mais tarde, têm maior risco de desenvolver um quadro de depressão. Um estudo publicado recentemente pelo periódico JAMA Psychiatry mostrou que basta dormir 1 hora mais cedo que esse risco é reduzido em 23%. Se dormir 2 horas mais cedo essa tendência pode ser reduzida em quase 40%.

A pesquisa envolveu 840.000 voluntários e foi a evidência mais robusta até o momento de que a tendência em dormir tarde e acordar mais tarde influencia o risco de depressão. Uma das grandes virtudes do estudo, além do número elevado de pessoas estudadas, foi a análise do perfil genético dos voluntários para a tendência em dormir cedo ou tarde. É estimado que esse perfil explique de 12 a 42% a preferência em ir dormir cedo ou tarde. Na população estudada, 9% consideravam que tinham a tendência em ir dormir tarde, um terço em dormir cedo e o restante em um patamar intermediário. Na média, eles iam para a cama às 23h e acordavam às 6h.  

Aqueles que dormiam tarde ou o grupo intermediário eram contemplados com menor rico de depressão ao ir dormir mais cedo. O estudo não pode dizer se os que já dormiam e acordavam cedo teriam o mesmo benefício. Mas é fato que na população estudada, aqueles com perfil genético de ir cedo para a cama tinham menor chance de apresentar depressão.     

E como explicar esse efeito? Alguns estudos apontam que uma maior exposição à luz durante o dia (tem que acordar cedo!) está associada a padrões hormonais que influenciam o humor. Outra explicação é o impacto psicológico de estar desalinhado da maioria das pessoas que dorme cedo e acorda cedo.  

Nesta última premiação do Oscar, estava torcendo para que o filme “O homem que vendeu sua pele” levasse a estatueta de melhor filme estrangeiro, mas o premiado foi outro. Eu consegui assistir apenas dez minutos do filme vitorioso, pois achei realmente muito chato.

O homem que vendeu sua pele conta a história de um refugiado sírio que faz um contrato com um dos artistas contemporâneos mais cultuados do mundo, aceitando ter suas costas tatuadas e tendo que cumprir uma agenda de exposição em diversos museus mundo afora. Apesar de tratar de uma temática sensível, o seríssimo problema dos refugiados e direitos humanos, o filme foi leve e até com final feliz. Nem por isso deixei de passar uns três dias refletindo e refletindo. Depois de assistir ao filme, chegou até mim um artigo de um crítico de cinema falando que “o filme não está à altura das complexas questões que levanta”.

A leveza dos filmes é frequentemente avaliada por críticos de cinema de forma negativa como filmes sem mérito cultural. Não sou crítico de cinema e não tenho por que me aventurar a apontar que eles estão certos ou errados. Mas o fato é que muita gente aprecia os filmes que nos deixam “para cima” que traz uma “good vibe”. Pesquisadores do respeitado Instituto Max Planck na Alemanha recentemente demonstraram o que os filmes que te deixam pra cima têm em comum.

Cerca de 450 voluntários opinaram e os resultados mostraram que além de pitadas de humor e final feliz, o que faz um filme ser “para cima” inclui também personagens fora dos padrões em busca de um grande amor, que precisam lutar contra circunstâncias adversas e que encontram seu papel na comunidade. Além disso, o filme pode ter momentos de drama que provocam respostas emocionais intensas. E muito importante: todos esses atributos são frequentemente banhados por uma aura de fantasia. Muitos dos que participaram do estudo concordam que os filmes que te deixam para cima podem ser sentimentais, não necessariamente artificiais e são tecnicamente bem feitos.   

O ator que faz o sírio que vendeu sua pele ganhou o prêmio de melhor ator no Festival de Veneza de 2020, mas o filme tem romance, final feliz… Mas prêmio de melhor filme aí já é demais com uma mistura dessas.

“Aí, maloqueiro / levanta essa cabeça / enxuga essas lágrimas, sério / respira fundo e volta pro ringue / você vai sair dessa prisão / você vai atrás desse diploma / com a fúria da beleza do sol, entendeu / faz isso por nós / faz essa por nós / te vejo no pódio”. (Trecho de encerramento de AmarElo – Emicida)

Artistas de Rap são celebridades fortemente reconhecidas pelo público jovem não só nos EUA, mas em inúmeros países em todo o mundo. Uma análise qualitativa das letras das 125 músicas americanas mais populares desse estilo entre os anos de 1998 e 2018 mostrou que houve um significativo aumento da abordagem de temas relacionados à saúde mental: suicídio de 0% para 12%, depressão de 16% para 32% e metáforas relacionadas à saúde mental de 8% para 44%. Nesse mesmo período houve um drástico aumento na prevalência de transtornos mentais entre os jovens americanos.

O estudo acaba de ser publicado pelo periódico JAMA Pediatrics. Novas pesquisas são necessárias para examinar os efeitos negativos e positivos desse aumento substancial nas mensagens que abordam a saúde mental. Pode ser positivo, pois tem o potencial de reduzir o estigma dos transtornos mentais e aumentar a busca por tratamento. Ansiedade, por exemplo, afeta 30% dos adolescentes, mas 80% deles nunca procuraram assistência médica ou psicológica. Apenas 50% dos adolescentes com depressão são diagnosticados antes de atingirem a idade adulta.

Enquanto isso na pandemia… Nos EUA, sintomas de ansiedade triplicaram quando comparado ao ano de 2019 e sintomas depressivos quadruplicaram. A mudança é bem maior à encontrada após o atentado terrorista de 11 de setembro ou o furacão Katrina. E os jovens são especialmente vulneráveis. Cerca de 63% dos americanos com idades entre 18 e 24 anos demostram nesse período de pandemia transtornos de ansiedade ou depressão, 25% relatam que bebem e fumam mais devido ao estresse associado à pandemia e que já consideraram “seriamente” a possibilidade de cometer suicídio.

Unrecognizable female meditating on grass in highlands on sunny day

Por Dr. Ricardo Teixeira*

Pesquisadores da Universidade Wisconsin-Madison nos EUA nos brindaram com um super presente neste fim de ano, uma revisão cuidadosa das dimensões da nossa mente que podem ser treinadas para alcançarmos um melhor equilíbrio psíquico no nosso dia a dia. Depois de nove meses nas incertezas geradas pela pandemia, isso se torna uma ferramenta extremamente útil para nosso bem-estar. Uma pesquisa recente nos EUA demonstrou que enquanto no início da pandemia 33% dos americanos se sentiam afetados psicologicamente, em julho os números já eram de 53%   


O primeiro aspecto a ser treinado é a consciência, atenção ao meio em que se vive, aos sentimentos, pensamentos e sensações. Exercícios de meditação e psicoterapia são ferramentas preciosas para melhorar esse nível de consciência. Um estudo conduzido em 83 países apontou que os adultos passam em média 47% do tempo em que estão acordados sem essa consciência, essa atenção, como se estivessem no piloto automático. E acreditem, ao exercitar a consciência, temos mudanças críticas em circuitos neuronais que facilitam nossa vida.

O segundo exercício é o de conexão, que pode ser chamada também de valorização do outro, bondade e compaixão. É um senso de cuidado aos outros do nosso círculo social e também fora desse círculo com ações humanísticas, altruístas.

O terceiro exercício é para fortalecer nosso insight, ou seja, nosso discernimento, entender a maneira como nossas emoções, pensamentos e crenças afetam nossa experiência subjetiva. Ao nos encontrarmos ansiosos numa dada situação, o insight nos permite reconhecer como as memórias de experiências anteriores colaboram para uma expectativa exagerada de resultados negativos. Psicoterapia e algumas formas de meditação podem fazer nosso insight florescer.  

E enfim o quarto exercício é o de encontrar nosso propósito de vida. É deixar claro quais são nossos valores e objetivos na vida. Estudos mostram que valores e objetivos orientados ao poder e dinheiro têm menores resultados no bem-estar psíquico quando comparados a uma missão de vida voltada às conexões sociais e a contribuições à comunidade. Existem alguns tipos de psicoterapia voltadas ao treinamento de nossa mente para se manter fiel à nossa missão. O psiquiatra austríaco e sobrevivente do Holocausto Viktor Frankl disse: “A vida não deixa de ser suportável por conta das circunstâncias, mas quando ela deixa de fazer sentido”.

Esse treino pode e deve ser diário e promete fazer com que passemos a ser os reais pilotos da nossa mente.

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*Dr. Ricardo Teixeira é neurologista e Diretor Clínico do Instituto do Cérebro de Brasília

Woman in Green and White Stripe Shirt Covering Her Face With White Mask

Nos últimos meses ouvimos quase que diariamente a recomendação de evitar aglomerações e muitos estão separados da família e dos amigos, com uma vida social bem diferente do que era antes da pandemia. E o que acontece com nosso cérebro quando subitamente reduzimos nossas interações sociais?

Pesquisadores alemães trouxeram algumas respostas após um período de isolamento na Antártida por mais de um ano. Quando voltaram à civilização, percebiam quase tudo de forma distinta. As cores, as plantas e as pessoas, por exemplo. O cérebro parecia não ser mais o mesmo. A maior parte da equipe voltou com menores volumes dos hipocampos, estruturas cerebrais fortemente ligadas à memória, navegação espacial e emoções. Essa mudança estrutural já havia sido apontada entre presos na solitária.

Neste último mês, um estudo conduzido pelo MIT nos EUA mostrou as mudanças funcionais no cérebro após um isolamento social em laboratório por 10h, sem acesso a dispositivos eletrônicos, livros ou qualquer passatempo. Assim como ficamos fissurados por comida após um período de jejum prolongado, o isolamento social leva à fissura por pessoas, envolvendo circuitos idênticos no mesencéfalo, estrutura no tronco cerebral. O mesmo já havia sido demonstrado entre camundongos. Isso nos mostra, em outras palavras, o tanto que as interações humanas são uma necessidade básica do ser humano, não muito diferente da comida! E enquanto não formos todos vacinados, vamos manter fortes nossas interações virtuais.    

Close-Up Photo of Woman Using Phone

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Você prefere ganhar 100 reais hoje ou esperar uma semana para ganhar 120? Um recente estudo conduzido por pesquisadores de Berlin na Alemanha aponta que quanto mais usamos os smartphones, especialmente com jogos e aplicativos de redes sociais, maior a tendência em escolhermos a primeira alternativa: 100 reais agora.  


Estudos anteriores já haviam demonstrado similaridades comportamentais entre o uso excessivo de smartphones e comportamentos como abuso de álcool e outras drogas, assim como jogo compulsivo. Esses estudos foram baseados na descrição por parte dos usuários da quantidade de horas diárias da utilização do dispositivo, mas nessa nova pesquisa os voluntários tiveram seus smartphones monitorados para quantificação dos diferentes usos por 7 a 10 dias. Além disso, eles eram submetidos a testes que acessavam o autocontrole e o comportamento diante de recompensas.    

Os resultados apontaram que as atividades no smartphone mais associadas a um comportamento impulsivo foram aqueles que estimulam recompensas de forma mais explícita como os jogos e redes sociais.  O tempo de uso em aplicativos de compras, música e podcasts, e-mails não mostrou associação com o comportamento de impulsividade pela recompensa. 

Photo of a Man Sitting Under the Tree

Temos inúmeras evidências do quanto a natureza é benéfica para o cérebro e nosso equilíbrio psíquico. Indivíduos que passeiam por áreas arborizadas têm menor produção de cortisol, o hormônio do estresse, do que aqueles que fazem o mesmo numa rua comercial agitada.  Uma pesquisa recente aponta que esse benefício já acontece com 20 minutos de uma vivência em ambiente arborizado, independente de atividade física.

Alguns países como a Finlândia, Inglaterra, Japão e Coréia do Sul já entenderam bem o recado e têm programas de “banhos de floresta” como forma de promoção da saúde. São muitos os benefícios já demonstrados com essas “pílulas de natureza”. Além da promoção do equilíbrio psíquico, temos ganhos na atenção, memória, linguagem e até na capacidade criativa. Também temos menores índices de doença cardiovascular, obesidade, diabetes, hospitalização por crises de asma e, finalmente, menor mortalidade.

A conclusão lógica é que isso deve fazer parte da prescrição médica, mas um estudo que acaba de ser publicado pela prestigiada revista Scientific Reports mostra que pacientes com ansiedade e depressão colhem os frutos dessa imersão na natureza somente se o fazem de forma voluntária. A prescrição médica de contato com o verde até provocava piora dos sintomas de ansiedade.

Esse último estudo envolveu mais de 18 mil voluntários de 18 diferentes países. Os pesquisadores ficaram surpresos ao identificar que os pacientes com depressão tinham tanto contato com a natureza que aqueles sem um diagnóstico psiquiátrico, e que os pacientes com transtornos de ansiedade tinham até mais contato.

O estudo joga luz na sensibilidade que profissionais de saúde e pessoas próximas de pacientes com ansiedade ou depressão devem ter ao convencê-los em adotar um hábito saudável. Conseguir ser encorajador estimulando a motivação intrínseca de cada um é uma arte.      

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Os humanos passam a apresentar amizades mais seletivas à medida que atravessam as décadas de vida. Damos prioridade a relações bem estabelecidas e passamos a evitar aquelas que trazem tensão e conflito. É como se não tivéssemos mais tempo para desperdiçar com relações sem muito sentido. Uma pesquisa recém-publicada pela revista Science mostra que os chimpanzés têm o mesmo comportamento, apesar de não terem consciência da finitude da vida.

Pesquisadores da Universidade de Harvard estudaram a socialização de chimpanzés selvagens durante 78.000 horas por um período de 21 anos em Uganda. Os chimpanzés à medida que envelheciam davam prioridade a relações com reciprocidade. Por exemplo, àqueles que retribuíam o ato de limpar o outro, conhecido por “grooming” na língua inglesa.

Isso me fez lembrar do nosso atual momento de pandemia. Li um artigo há pouco tempo, não me lembro a fonte, que discutia o futuro do nosso círculo social a curto e médio prazo e uma aposta que será mais seguro termos convívio pessoal em um círculo mais restrito de amigos. Talvez demore um pouco para podermos encontrar a “galera” e vamos ter que ficar velhos na marra…

É fato que nós humanos, após os 30 anos de idade, temos cada vez menos amizades novas. Isso é mais frequente ainda entre os homens. Um estudo mostra que o pico de amigos em nosso círculo social se dá aos 25 anos de idade com uma queda drástica após essa idade. Acredita-se que não perdemos nossas habilidades sociais, mas há uma mudança dos horizontes de responsabilidades que explica esse fenômeno. Entenda a mudança nos horizontes de responsabilidade pelo maior interesse que temos por pessoas que dividem interesses comuns, mais afinidades. Pais que se dão melhor com casais que compartilham entre si a experiência de cuidar dos filhos é bem diferente da situação dos mil amigos que um adolescente tem no ensino médio simplesmente por estudar na mesma escola.

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A relação entre os sonhos e a experiência do medo tem sido mostrada ao longo do tempo em diversas culturas. O que os nossos ancestrais interpretavam como conselhos de divindades, hoje a neurociência e a psicologia enxergam nos sonhos um mecanismo cerebral de processamento de emoções negativas com chance de aprendizado para preparar o indivíduo para os desafios do dia a dia.

Pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, em parceria com a Universidade Federal de Pernambuco, têm desenvolvido técnicas para interpretação do sofrimento humano através de aplicativos que analisam as entrelinhas dos relatos de sonhos. Eles analisaram, com a ajuda de softwares, áudios que voluntários gravaram em seus smartphones sobre o conteúdo dos seus sonhos no ano de 2019 e nas primeiras semanas do anúncio da pandemia em 2020.   

Os resultados mostraram que os sonhos durante a pandemia eram mais relacionados a sentimentos negativos como tristeza e agressividade quando comparados aos sonhos antes da pandemia. No período da pandemia, a narrativa dos sonhos trazia mais ideias de contaminação e limpeza e as pessoas que expressavam esses conteúdos de forma mais robusta eram os que tinham maior dificuldade em se se adaptar à quarentena e que apresentavam maior sofrimento psíquico.

Outros estudos têm mostrado que as pessoas têm sonhado mais e dois conteúdos bastante recorrentes nos sonhos têm sido ameaças de outras pessoas e tarefas mal executadas, como perder o controle da direção de um automóvel. Uma pesquisa realizada com 100 enfermeiros em Wuhan na China apontou que 45% estavam apresentando pesadelos, cifra duas vezes maior que a de pacientes psiquiátricos e muitas vezes maior que os 5% da população geral.

Estamos longe de um normal, não é?

Woman in Gray Tank Top

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Uma pesquisa recém-publicada pelo periódico Sleep da Academia Americana do Sono aponta que a privação de sono faz com que as pessoas percebam que passaram o dia com mais raiva.

 

Primeiro os pesquisadores analisaram por um mês os diários de estudantes universitários que continham seus padrões de sono, fatores estressantes e sentimento de raiva. A análise desses diários mostrou que os estudantes sentiam mais raiva nos dias em que tinham dormido menos na noite anterior.

 

O estudo incluiu também uma experiência com voluntários da população geral que eram submetidos à exposição de um ruído irritante. Uma parte dos voluntários era instruída a dormir nas duas noites anteriores à exposição apenas cinco horas e foram esses os que menos se adaptaram ao ruído e reportaram mais o sentimento de raiva. Resultados semelhantes foram demonstrados em uma pesquisa que investigou esse mesmo efeito da privação do sono em um jogo competitivo.

 

Privação de sono tem mesmo a capacidade de mexer com muitas dimensões da nossa mente e do nosso corpo. Ficamos mais raivosos, comemos mais, compramos mais, mais pressão alta, aterosclerose e doença cardiovascular, mais comportamentos de risco, mais enxaqueca, e , claro, piora do desempenho cognitivo.

Woman Working At Home With Her Laptop

 

Antes da pandemia já vivíamos uma pandemia de solidão, especialmente na Europa e América do Norte. Em alguns países desses continentes, cerca de metade dos adultos vivem sozinhos.  Latino-americanos, africanos e asiáticos têm uma tendência maior em viver em família.

Antes da pandemia, havia a estimativa que dois terços dos americanos se sentiam solitários. A mesma metodologia utilizada nos estudos pré-pandemia continuou sendo aplicada nesses últimos meses de quarentena e a expectativa era que essa percepção de solidão fosse crescendo. Mas as pesquisas recentes não têm mostrado isso.

Quando se coloca a afirmação “Eu recebo o suporte emocional e social que eu preciso”, não houve piora nas respostas do inicio do ano sem quarentena e após a deflagração da pandemia. Houve até um leve incremento da percepção de suporte emocional e social após o início da quarentena entre americanos adultos estudados e isso foi confirmado por um estudo que incluiu adultos de 28 países. Outra pesquisa realizada na Alemanha apontou que houve no primeiro mês da quarentena uma maior percepção de solidão seguida por um declínio desse sentimento. Isso sugere que o súbito isolamento social promoveu uma adaptação rápida às circunstâncias, provavelmente através do incremento de outras formas de conexão com o outro. Sozinhos, porém não solitários.

O distanciamento social tem provocado o reconhecimento da importância de nossas relações sociais, interações que a ciência mostra um inequívoco efeito positivo sobre nossa saúde e longevidade. Além disso, muitos estão se dando a oportunidade de ações voluntárias no apoio aos mais vulneráveis de suas comunidades, gerando um senso importante de pertencimento de um todo. Estudos mostram que após o fatídico ataque terrorista de 11 de setembro, os americanos mostraram-se mais solidários e gentis. A pandemia pode estar trazendo a experiência coletiva de que estamos todos no mesmo barco.

É fato que essa é uma tendência quando se analisa um grupo, mas individualmente há aqueles que sofrem mais como os que vivem sozinhos ou que apresentam uma doença crônica incapacitante. Sofrem mais também as gerações mais novas, homens e residentes em países como uma cultura individualista.

Até o momento não temos evidências que mostrem que o afastamento social tem nos tornado mais solitários. Certamente, as plataformas digitais que permitem interações com as pessoas importantes de nossas vidas têm sido grandes trunfos para enfrentar o COVID 19.

Silhouette Photo of Woman

Por Dr. Ricardo Teixeira

Imagine só que pesquisadores do MIT (Massachusetts Institute of Technology) iniciaram um estudo sobre os efeitos cerebrais do isolamento social há três anos, sem a mínima ideia do que nos esperava no ano de 2020. Os achados inéditos mostram que regiões profundas do cérebro que modulam impulsos básicos de recompensa e motivação estão envolvidas tanto na experiência da fome como da solidão. A conclusão é que tanto comer e se conectar com os outros são experiências fundamentais para nossas vidas.

Os voluntários da pesquisa foram submetidos ao exame de Ressonância Magnética Funcional e durante o exame eram apresentados a imagens de interações sociais próprias ou alimentos preferidos, a depender se estavam sendo testados para isolamento ou fome. A ativação do cérebro foi semelhante em ambos os casos e também similar ao efeito da exposição de imagens da droga mais usada por pacientes em tratamento para drogadição.

O próximo passo é avaliar o quanto o cérebro realmente se satisfaz com as diferentes formas de mídias sociais. Com a pandemia, verbas para essa pesquisa certamente não faltarão.

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* Dr. Ricardo Teixeira é neurologista e Diretor Clínico do Instituto do Cérebro de Brasília

Low Light Photography of Books

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Isolamento social. Mas que experiência desafiadora, hein? A quarentena tem sido muito mais difícil para alguns do que para outros e são inúmeras as razões para essas diferenças. Extrovertidos sofrem mais que os introvertidos, quem mora numa quitinete sofre mais do que aquele que mora numa mansão, e por aí vai. Mas existe uma experiência nessa época que pode facilitar a vida de qualquer um de nós e estamos aqui falando na diversificação de experiências no dia a dia.

 

Uma pesquisa recém-publicada pela revista Nature Neuroscience aponta que pessoas que têm maior diversidade de deslocamento espacial com o passar dos dias, lugares diferentes e mais novidades, sentem-se mais positivas e com maior atividade no circuito que liga duas regiões cerebrais fortemente associadas ao bem estar.  Isso não é diferente entre animais de laboratório. Aqueles que têm um ambiente amplo e cheio de novidades tem um comportamento de maior sociabilidade e resiliência ao estresse. Além disso, esses animais têm maior ativação desse mesmo circuito demonstrado agora em humanos.

 

O estudo foi feito antes da pandemia quando as pessoas podiam se deslocar à vontade. E agora na quarentena? Uma dica preciosa é se deslocar à vontade por vídeo chamadas com as pessoas queridas, bons romances e filmes, apreciação de todas as formas de arte. Criatividade e novidades diárias. Isso certamente provocará efeitos no cérebro que facilitarão sobremaneira a travessia dessa tempestade que estamos vivendo.

Close-up of Hands

 

Alguns enxergam a religiosidade simplesmente como uma forma de controle social, algo maior vigiando o comportamento humano. Outra forma de entendê-la é pensar que a evolução da espécie humana favoreceu a experiência religiosa como um mecanismo que ajuda a manter comunidades unidas e também a promover um melhor autocontrole mental. A princípio, quando uma meta é encarada como sagrada, o indivíduo teria maior tendência em se esforçar para alcançá-la. Mais do que isso, o sagrado abastece a mente humana no desafio de pensar sobre a vida e a morte, e em tempos mais remotos, isso era fundamental para o entendimento dos sonhos e fenômenos da natureza.

Marx, Freud, Weber, entre tantos outros, defenderam a ideia de que a modernidade reduziria a influência das crenças religiosas na sociedade. No Brasil, nos últimos 20 anos, houve um discreto aumento na porcentagem de brasileiros que dizem não ter uma religião: em 1991 essa cifra era de 4.75%, em 2009 passou para 6.7% e pesquisa Datafolha publicada em janeiro de 2020 pelo jornal Folha de S.Paulo aponta que 50% dos brasileiros são católicos, 31%, evangélicos, e 10% não têm religião.

A religiosidade tem seu lugar no cérebro? A neurociência tem demonstrado que a experiência religiosa estimula circuitos cerebrais do neurotransmissor dopamina, os mesmos circuitos que são considerados disfuncionais em transtornos neuropsiquiátricos em que a hiperreligiosidade faz parte do quadro clínico, como é o caso da epilepsia do lobo temporal, esquizofrenia, mania e transtorno obsessivo-compulsivo. Sistemas cerebrais da serotonina também parecem estar implicados, já que drogas que têm influência sobre eles são facilitadoras da experiência religiosa. Entre essas drogas podemos citar o LSD, mescalina, ecstasy, e o chá de Ayahuasca utilizado pelo Santo Daime e União do Vegetal.

Cientistas das universidades americanas de Columbia e Yale demostraram recentemente que o estado de conexão com algo maior, seja pela experiência religiosa ou não, está associada a uma menor atividade da região parietal do cérebro. Ao alcançar esse estado de consciência, a pessoa apresenta um adormecimento de uma região fortemente vinculada à percepção de si mesmo e dos outros.

Quando pensamos na influência da fé na evolução de problemas de saúde, vale a pena refletir sobre o poder do efeito placebo. A origem do termo é o verbo placere do latim que significa AGRADAREI.  A simples expectativa positiva de que um tratamento pode nos fazer bem já é capaz de provocar mudanças fisiológicas em nosso corpo, e esse é o chamado efeito placebo. Pessoas que apresentam boa resposta ao placebo apresentam circuitos cerebrais de dopamina com maiores concentrações desse neurotransmissor. Também há evidências de que as concentrações dos opioides endógenos e de serotonina são influenciadas pela expectativa positiva. Isso tudo pode ter repercussões sobre o sistema imunológico e favorecer a evolução de uma condição de saúde. Se uma pílula de farinha já é capaz de provocar esses efeitos, podemos tentar imaginar o que a prece ou um ritual religioso pode promover. Esse é um modelo que a ciência tem para explicar os efeitos da fé sobre a mente e o corpo. Isso não quer dizer que outros mecanismos ainda intangíveis não possam ser descritos no futuro.

A religiosidade faz bem mesmo à saúde? Já temos um razoável corpo de evidências que indivíduos com uma maior vivência religiosa / espiritual têm maior capacidade de lidar com o estresse emocional, uma melhor saúde mental de forma geral e, em situações de doença, cooperam mais com o tratamento. Além disso, o envolvimento com uma comunidade religiosa está associado a uma maior rede social, e há tempos sabemos que pessoas socialmente integradas têm menos chance de adoecer, e quando doentes, a rede social é uma das principais fontes de apoio. Esse pode ser um dos principais fatores que explicam resultados de maior longevidade entre as pessoas com maior religiosidade. Assume-se também que essas pessoas têm a tendência a apresentar hábitos de vida mais saudáveis.

Entretanto, as crenças religiosas nem sempre estão a favor da saúde do paciente, já que podem em alguns casos dificultar a aderência ao tratamento com ideias do tipo: esse é o desejo de Deus, Deus me abandonou, este é o meu destino, este é o meu castigo, etc. Em situações como essas, é bem razoável que a equipe de saúde esteja minimamente preparada para abordar dimensões religiosas / espirituais do paciente e assim aumentar a aderência e sucesso do tratamento.

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Nossa história começa no ano de 2001 quando dois pesquisadores de Toronto no Canadá realizaram um estudo bastante provocativo. Redelmeier e Singh analisaram a longevidade de mais de 700 atores / atrizes que haviam atuado em filmes e que tenham recebido indicação ao Oscar.  Para cada ator / atriz indicado ao Oscar, eles identificaram um outro ator / atriz do mesmo sexo, com semelhante faixa etária e que havia participado do mesmo filme, mas que não havia sido indicado ao Oscar.

Todas as indicações de Oscar foram analisadas desde a criação da Academia até o ano 2000. Três grupos foram criados: 1) Vencedores: os que levaram a estatueta para casa; 2) Indicados: os que foram indicados, mas não ganharam; 3) Controles: nunca indicados e que nunca ganharam. Exemplos: Jack Nicholson foi classificado como Vencedor, pois já havia sido premiado três vezes na época; Richard Burton foi classificado como Indicado, pois já havia recebido sete indicações, mas nunca ganhou; Lorne Green era do grupo Controle, nunca indicado, e, claro, nunca ganhou.

Vejam só o que eles encontraram. De um total de 1649 artistas incluídos no estudo, 772 já haviam morrido. As principais causas de morte foram doença isquêmica do coração, derrame cerebral e câncer, e não foi diferente entre os três grupos. O nível educacional também não era diferente entre os grupos. Os Vencedores viveram cerca de 4 anos a mais que o grupo Indicados e o grupo Controles  (Vencedores: 79.7 anos; Indicados: 76,1 anos; Controles: 75.8 anos). Do ponto de vista estatístico, os Indicados apresentaram a mesma longevidade dos Controles. Entre os Vencedores, quanto mais jovens ao receber o Oscar, ou o primeiro Oscar, maior a longevidade. Os resultados não foram diferentes entre Vencedores de papel principal ou coadjuvante. Entretanto, os Vencedores de mais de um Oscar viveram 6 anos a mais que os controles: sorte do Jack Nicholson.

E como explicar esses resultados? A longevidade dos seres humanos tem sido consistentemente associada ao status socioeconômico. Os ricos vivem mais que os pobres. Aqueles que receberam maior contingente de educação formal também vivem mais. E por que será que o sucesso por si só também poderia nos trazer mais anos de vida? Vamos às hipóteses.

Pessoas de sucesso como os “Vencedores” são personalidades de grande visibilidade e buscariam andar na linha para não arranhar suas imagens. Muitas vezes, os próprios contratos com a indústria do cinema os obrigam a ter bons padrões de comportamento. Além disso, são cercados de assessoria para manter a forma física, boa alimentação, entre outros hábitos salutares. Conhecemos inúmeras histórias de celebridades que contrariam totalmente esse argumento, mas talvez não seja a regra. Nesse estudo, mesmo o grupo Controles apresentou maior longevidade que a média da população americana no mesmo período.

 

No ano de 2006 a mesma revista científica publicou uma crítica muito bem estruturada sobre o método de análise estatística do artigo publicado em 2001, sugerindo que o grupo Vencedor foi privilegiado, colocando em xeque os resultados de forma bastante contundente. Foi um balde de água fria, mas o assunto ainda não está encerrado. Ainda se discute que “Vencedores” podem até viver mais, mas não como consequência do sucesso. Ao invés disso, o sucesso seria o resultado do perfil de indivíduos com maior capital de saúde, e que também viveriam mais. Esse efeito foi sugerido em 2003 após análise da longevidade dos membros da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, comparando vencedores do Prêmio Nobel com não vencedores. Os vencedores do Prêmio Nobel viveram mais! Talvez essas celebridades tenham uma genética privilegiada não só do ponto de vista cerebral.

Redelmeier e Singh, os autores do estudo dos “vencedores”, analisaram também a longevidade de roteiristas de cinema e publicaram os resultados num dos mais respeitados periódicos científicos do mundo. A hipótese era de que o fato dos roteiristas gozarem de menos glória e sucesso que os atores, o efeito Oscar seria menos pronunciado. Resultado: aqueles que venceram o Oscar viveram três anos e meio a menos que aqueles que foram só indicados (Indicados: 77.7; Vencedores 74.1). Os roteiristas vencedores de Oscar que trabalhavam mais intensamente (maior média de filmes por ano) viviam menos ainda. Mesmo entre os roteiristas não agraciados com o Oscar, aqueles que escreviam mais filmes por ano também viviam menos. Discute-se que hábitos saudáveis talvez não sejam tão cobrados de roteiristas, pois muitos mantém-se em relativo anonimato quando comparados a atores / atrizes. Estudos anteriores já haviam evidenciado menor longevidade entre escritores, e uma das explicações é o estilo de vida menos saudável (ex: inatividade física, sono irregular). Questões até mesmo existenciais são contempladas, especialmente no caso dos poetas.

Ao fazermos um balanço geral dessas informações à luz do conhecimento atual, é bem razoável pensar que indivíduos com perfil genético vantajoso viverão mais e terão também mais chances de atingirem o sucesso (vantagens cerebrais). A vida de celebridade realmente pode ser um fator modulador positivo dos hábitos de vida, e isso precisa ser melhor investigado. No caso dos roteiristas, precisamos ser cautelosos e não sairmos dizendo por aí que trabalho faz mal à saúde, pois sabemos que faz bem quando é realizador e bem dosado. Melhor ainda quando associado a outros hábitos saudáveis. Certamente muitos cinéfilos argumentarão que vincular talento e sucesso no universo do cinema à estatueta é no mínimo discutível. Na pesquisa dos roteiristas de cinema, o Oscar mais uma vez foi a medida do sucesso.  No grupo daqueles que foram só indicados, mas nunca venceram, podemos encontrar nada mais, nada menos que Stanley Kubrick, Ingmar Bergman e Frederico Fellini. Não deve ter sido a falta de sucesso e talento que fez Bergman viver 91 anos.

 

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