Pela primeira vez na história, um pequeno dispositivo implantado no cérebro se mostrou eficiente para prever o início de uma crise epiléptica. Os resultados da experiência foram divulgados esta semana pelo prestigiado periódico The Lancet Neurology.

 

Para quem tem crises epilépticas que não são controladas com medicações, e elas representam 30% das pessoas que sofrem dessa condição neurológica, saber com antecipação o momento de uma nova crise pode fazer toda a diferença, promovendo um estado de maior segurança e autonomia. Saber que uma crise acontecerá em alguns minutos permite que a pessoa que está dirigindo, por exemplo, encoste o carro e evite um acidente. Essa informação também pode fazer com que o indivíduo use uma medicação extra nos períodos imediatamente antes da crise.  

 

O dispositivo foi desenvolvido por pesquisadores americanos de Seattle (NeuroVista) para detectar atividade elétrica anormal no cérebro que precede uma crise epiléptica. Ele é implantado entre o cérebro e a caixa craniana e transmite informações para outro dispositivo colocado abaixo da pele na região do tórax. Um aparelhinho do tamanho de um iPod que pode ser adaptado ao cinto emite três diferentes sinais sonoros e luzes que informam a chance de uma nova crise: luz vermelha (risco alto), luz branca (risco moderado) e luz azul (baixo risco).

 

O estudo foi conduzido em três diferentes centros australianos ligados à Universidade de Melbourne e envolveu 15 indivíduos com idades entre 20 e 62 anos que tinham duas a 12 crises epilépticas por mês, mesmo usando duas ou mais medicações para tentar evitá-las. O sistema não foi perfeito, mas teve boa sensibilidade para detectar crises, poucos alarmes falsos e relativa segurança. O tempo médio entre o acionamento da luz vermelha e uma crise foi de 114 minutos (5 a 960 min). Dois pacientes precisaram retirar o sistema por desconforto ou complicação infecciosa no local do dispositivo do tórax.

 

Os resultados do estudo chamaram muito a atenção para a discrepância entre o número de crises registradas e aquilo que os voluntários estimavam num diário. Um dos participantes declarou que tinha cerca de 10 crises por mês enquanto o sistema registrou mais de 100 nesse mesmo período. O dispositivo também ajudou na condução clínica, como foi o caso de um paciente que apresentava sonolência por suposta toxicidade medicamentosa, e na verdade os sintomas coincidiam com mais de uma dezena de crises antes não identificadas.

 

Essa tecnologia abre uma grande porta para o desenvolvimento de novos métodos para controle de crises epilépticas de ação ultrarrápida como estímulos elétricos ou até mesmo medicações. Isso pode trazer mais independência àqueles que sofrem com quadros de epilepsia de difícil controle, reduzindo acidentes e o impacto psicossocial dessa condição neurológica que afeta uma em cada cem pessoas. Epilepsia não escolhe idade, raça, gênero, muito menos status socioeconômico.  

 

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