Hoje em dia, uma boa parte do tempo que se gasta em frente a um médico é para monitorização de índices como o colesterol e a glicose no sangue. O aminoácido homocisteína é mais um desses índices vigiados pela medicina moderna.

 

Altos níveis no sangue de homocisteína têm sido associados a um maior risco de eventos vasculares, como o infarto do coração e o derrame cerebral, e é bem reconhecido que a suplementação de ácido fólico, uma das vitaminas do tipo B, reduz a quantidade desse aminoácido no sangue. Entretanto, uma pesquisa publicada esta semana pelo periódico Archives of Internal Medicine (Associação Médica Americana) demonstra que essa redução dos níveis de homocisteína pelo ácido fólico não é acompanhada de uma menor chance de eventos vasculares, câncer ou mortalidade.

 

Os pesquisadores avaliaram os resultados de oito grandes estudos sobre o tema que envolveram mais de 37 mil indivíduos com homocisteína elevada, metade deles tendo feito uso de ácido fólico na dose de 0.4 a 40 mg e a outra metade tendo utilizado placebo. Aqueles que usaram ácido fólico tiveram uma redução de 25% nas concentrações de homocisteína.  Após um acompanhamento médio de cinco anos, a suplementação de ácido fólico não reduziu os números de mortalidade e de novos casos de infarto do coração, derrame cerebral e câncer. Por outro lado, o uso de ácido fólico também não aumentou o risco de doenças ou mortalidade, o que reforça a segurança de sua suplementação a mulheres férteis com o objetivo de evitar malformações congênitas.

  

Esse estudo chama a atenção para duas questões muito importantes. A primeira é que o tratamento de uma alteração de exame laboratorial não necessariamente garante benefícios à saúde. Um outro exemplo que pode ilustrar essa questão é a relação entre a vitamina D e o cérebro. Recentemente, uma série de estudos identificou que indivíduos com menores concentrações de vitamina D apresentam desempenho cerebral menos afiado. Essa é uma constatação que não quer dizer que exista uma relação causa e efeito e não sabemos ainda se a reposição da vitamina promove melhora das funções cerebrais.

 

A segunda questão é que os suplementos vitamínicos e minerais costumam ser vistos pela sociedade como produtos inofensivos: se não faz bem, mal é que não vai fazer. Infelizmente, isso não é verdade. Os suplementos, quando mal indicados, podem sim fazer mal à saúde. Recentemente, discutimos o maior risco de infarto do coração associado à suplementação de cálcio.  

 

Nos EUA, estima-se que 50% dos adultos usam algum tipo de suplemento alimentar, e no Brasil, essas cifras são menores, mas nada desprezíveis. Ironicamente, as pessoas que mais fazem uso desses suplementos são aquelas que têm estilo de vida mais saudável. São as que praticam mais atividade física, estão mais em dia com a balança, fumam menos e têm maior nível educacional.  E quem é que realmente precisa de suplementos? A resolução 1938-2010 do Conselho Federal de Medicina que regulamente a prática da medicina ortomolecular facilita bem esta resposta: “É vedado o uso de quaisquer terapias antienvelhecimento, anticâncer, antiarteriosclerose ou voltadas para doenças crônicas degenerativas, exceto nas situações de deficiências diagnosticadas cuja reposição mostra evidências de benefícios cientificamente comprovados“. É isto que a medicina baseada em evidências tem a nos dizer na atual fase do conhecimento.

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** CLIQUE AQUI e confira um bate-papo sobre o assunto com o Dr. Ricardo Teixeira e o jornalista Estevão Damasio veiculado na Rádio CBN Brasília no dia 15 out 2010

 

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