Se você precisar escolher entre um prêmio de 4 mil reais com 80% de chance de ganhá-lo ou um prêmio de 3 mil reais com 100% de chance de ganhá-lo, talvez você siga a tendência humana que é a de fazer a segunda escolha. Essa mesma tendência foi demonstrada entre roedores e diversas outras espécies animais, fenômeno conhecido pela ciência como Efeito Certeza.

 

As pesquisas mostram que quando os animais são submetidos a repetidos testes, eles insistem em escolher a opção que traz mais certeza de retorno, mesmo que o retorno na média seja menor.  Já entre os humanos, quando repetidos testes são realizados, o comportamento passa a ser diferente, influenciado pela experiência prévia de decisões semelhantes. O aprendizado então faz com que a tendência de escolha se inverta, ou seja, as pessoas passam a optar por um prêmio mais graúdo, mesmo que corram o pequeno risco de ficarem sem nada, fenômeno chamado de Efeito Certeza Reverso.

 

Uma pesquisa publicada recentemente pela revista Nature [2008:453(12)] nos mostra que tanto os animais quanto os homens podem escolher pela certeza ou pelo risco, e a escolha parece ser dependente do grau de informação perceptível sobre os prêmios. Testes com humanos mostraram o Efeito Certeza Reverso, ou seja, um maior prêmio “na maioria das vezes”, quando eles eram capazes de discernir que um prêmio era maior que outro pelo claro valor numérico do prêmio. Entretanto, quando a informação sobre o prêmio era através de um gráfico de pontinhos, uma forma menos clara de se avaliar o valor do prêmio, as pessoas passam a se comportar optando pela opção Certeza. 

 

 

 

 


Quando a percepção da diferença entre os prêmios é fácil, como é o caso de valores numéricos, as pessoas fazem a opção pelo maior valor, mesmo que tenham um pequeno risco de não ganharem nada. Quando essa percepção não é tão clara, como no exemplo dos pontinhos, as pessoas tendem a ser conservadoras: fazem a escolha pela segurança.

 

Os pesquisadores foram além. Reproduziram experimento semelhante com abelhas sendo que os prêmios eram soluções com diferentes concentrações de açúcar. Quando a diferença entre as concentrações de açúcar era de fácil percepção pelas abelhas, elas adotavam “comportamento de risco”, dando preferência ao maior prêmio, mesmo que incerto. Quando a diferença de concentração de açúcar era mais sutil, menos perceptível pelas abelhas, elas se comportavam de forma conservadora. Os resultados sugerem que o comportamento de escolhas, tanto nos animais como no homem, está associado à clareza em que se percebe a diferença entre o potencial ganho de cada escolha.

 

Podemos voar alto pensando nas aplicações desse tipo de comportamento no mundo real. Na verdade, esse jogo de escolhas tem sido estudado há décadas, e hoje compreende um forte ramo do conhecimento chamado de Teoria dos Jogos.  A Teoria dos Jogos passou a ser muito mais popular após a década de 90 quando o americano John Nash recebeu o Nobel de Economia pelos seus estudos matemáticos para o melhor entendimento do equilíbrio da economia, conhecido como equilíbrio de Nash (o filme Mentes Brilhantes é a sua biografia).  Um outro Nobel foi concedido ao israelense Daniel Kahnemann por sua Teoria de Perspectivas, um desdobramento da Teoria dos Jogos e que iluminou o entendimento de como as pessoas fazem escolhas, como escolhem entre o risco e a segurança. Atualmente, a Teoria dos Jogos e seus filhotes têm sido discussão obrigatória em diversos ramos do conhecimento que vão além da matemática e das ciências econômicas, mas também em áreas como a psicologia, o marketing, a administração e qualquer área do conhecimento que se interessa por estratégia e cooperação.  

 

 

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