Ricardo Afonso Teixeira*

O banimento dos smartphones na sala de aula melhorou o bem-estar de crianças e adolescentes, entretanto não houve melhora do desempenho acadêmico, de bullying online e de suspensões como se pensava. Essa é a conclusão de um estudo que acaba de ser publicado pelo Escritório Nacional de Pesquisas Econômicas envolvendo mais de 40 mil escolas nos Estados Unidos, comparando indicadores de escolas que adotaram a política de proibição dos aparelhos com outras que não o fizeram. Uma limitação do estudo foi que o acompanhamento foi feito por um período de no máximo três anos após a proibição.

Os resultados discordam de pequenos estudos que mostram um efeito negativo dos celulares no desempenho cognitivo. Aqui discutimos o efeito de drenagem cerebral induzido pelo smartphone proposto e demonstrado em 2017 (brain drain). Sabemos, muito antes disso, que o cérebro é melhor quando faz uma coisa por vez do que no modo multitarefa. Esse conceito de drenagem cerebral parte do princípio que os recursos cerebrais têm limites, e o simples esforço de ter que evitar acessar o aparelho em cima da mesa de trabalho, no modo silencioso-sem vibração e com a tela para baixo, já consome, drena recursos cognitivos que levam a um menor desempenho em testes cognitivos. Esse esforço é inconsciente e chamado de atenção automática. O mais impressionante desse trabalho de Ward e colaboradores foi que o desempenho foi melhor quando o smartphone ficava em uma sala separada, e só um pouco melhor quando no bolso ou nas mochilas dos estudantes, sugerindo que a mera presença do aparelho na sala teve impacto negativo. 

O uso dos smartphones e os algoritmos das redes sociais têm treinado nosso cérebro a ter recompensas imediatas o dia inteiro, numa velocidade bem diferente do processo acadêmico de construção do conhecimento. Já foi demonstrado que apenas um bip de alerta do smartphone influencia negativamente o desempenho cognitivo durante uma tarefa. Imagine o impacto do aparelho na sala de aula com todas as suas funções disponíveis? 

Temos estudos que mostram que os alunos usam 40-60% do tempo do laptop na sala de aula com navegação na internet sem relação com o aprendizado. Um estudo da Universidade de Michigan State, nos Estados Unidos, com estudantes de graduação em psicologia, descortinou alguns números importantes sobre o assunto. Eles mostraram que os estudantes passavam dois terços do tempo na sala de aula ligados a atividades não acadêmicas na web, como redes sociais, e-mail, compras, jogos etc. — 40 minutos a cada 100 minutos de aula.

Como previsto, o desempenho acadêmico foi inversamente proporcional ao tempo de uso do laptop para fins não acadêmicos. Por outro lado, o uso da web como ferramenta de apoio ao aprendizado era usado por apenas cinco minutos dentro dos 100 minutos de aula. Além disso, os estudantes ainda passavam em média 27 minutos dos 100 digitando mensagens no celular. Conseguir aprender assim parece um milagre.

Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília