Por Dr. Ricardo Teixeira*

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Este mês tivemos os resultados de uma pesquisa conduzida por pesquisadores do Instituto de Neurologia de Montreal no Canadá mostrando que os centros cerebrais de recompensa, aqueles ativados quando você come, por exemplo, um magnífico chocolate, são também estimulados quando você é apresentado a um acorde dissonante. Isso aconteceu quando as pessoas se confrontaram com o inesperado na música, quando elas achavam que iam ouvir algo, mas ouviam algo diferente. E quanto mais ativado o sistema de recompensa cerebral, maior foi o aprendizado do lado “consonante” da música.

Há pouco tempo, pesquisadores do MIT e da Universidade de Brandeis nos EUA conduziram um estudo que envolveu mais de 100 índios de uma tribo remota da Amazônia boliviana – Tsimane. Eles vivem bem isolados e não recebem influência da música que as pessoas da cidade são expostas mesmo inconscientemente. Os resultados sugeriram que nosso gosto musical tem origem cultural e não há porque pensar que é algo do cérebro desde que nascemos.

Acordes dissonantes e consonantes eram apresentados e eles tinham que dar uma nota para o quanto cada um deles os agradava. Um exemplo de acorde consonante, para muitos considerado “agradável ao cérebro”, é formado por dó maior e sol maior, um intervalo de quinta. Esse é um intervalo utilizado pela esmagadora maioria da música ocidental. Já os acordes dissonantes, como por exemplo o formado por dó maior e fá sustenido são muito pouco usados e até já foram considerados pela igreja católica como elementos musicais do capeta.

E não é que para os índios os acordes consonantes ou dissonantes não faziam diferença. Eram igualmente agradáveis a eles. Isso desconstrói a tese defendida por muitos que o cérebro nasceu batendo palmas aos acordes consonantes. É interessante o fato que os índios conseguiam categorizar dissonantes e consonantes como dois tipos de som.

Os mesmos testes foram aplicados a moradores de uma pequena cidade nas proximidades da tribo Tsimane, a moradores de La Paz e americanos músicos e não músicos. Os bolivianos da cidade deram uma discreta preferência aos acordes consonantes. Entre os americanos a preferência foi maior, especialmente entre os músicos.

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*Dr. Ricardo Teixeira é neurologista clínico e Diretor do Instituto do Cérebro de Brasília

 

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