Há cerca de um ano discutimos que a cólica dos lactentes pode ser na verdade uma precursora da enxaqueca, já que a chance de cólica é mais de duas vezes maior nos bebês que têm mães que sofrem de enxaqueca.

 

Recentemente tivemos resultados de uma nova pesquisa publicada pelo jornal da Academia Americana de Medicina – JAMA – que encorpa bastante essa relação entre cólica e enxaqueca. Foram estudadas 208 crianças / adolescentes com idades entre 6 e 18 anos com diagnóstico de enxaqueca e outras 471 com a mesma faixa etária, mas sem enxaqueca. As que sofriam de enxaqueca tinham muito mais chance de ter apresentado cólica quando bebês quando comparadas às outras crianças (72.6% X 26.5%). Os pesquisadores ainda analisaram 120 crianças com outra forma de dor de cabeça, a cefaléia tensional, mas essas não apresentavam risco aumentado de terem apresentado cólica quando bebês.

 

Existem algumas condições clínicas que acontecem de forma recorrente na infância e que são entendidas como expressões precoces de genes que mais tarde serão expressos como enxaqueca. Entre essas condições podemos citar crises de torcicolo, vertigem, vômitos cíclicos, além das misteriosas cólicas dos bebês.

 

O choro normal da criança começa a se intensificar nas primeiras semanas de vida, alcança o seu topo entre a sexta e oitava semana, e aos três meses já começa a dar uma trégua. A tal cólica dos bebês é uma forma intensificada desse choro e é definida como crises de choro por pelo menos três horas e pelo menos três vezes por semana.  Também é chamada de choro inconsolável e está associada a uma maior incidência de casos da síndrome do bebê chacoalhado, condição em que um adulto sacode a criança para discipliná-la ou para tentar interromper o choro. Isso pode levar a lesões traumáticas de diferentes gravidades.

 

O termo cólica traz uma conotação de que o desconforto tem origem no aparelho digestivo, mas não existe qualquer evidência que aponte para essa localização. Estudos tentam ligar a cólica com gases intestinais, alergia à proteína do leite, intolerância à lactose, mas todos têm apresentado resultados negativos.

 

Por que seria um bebê com bagagem genética de um “cérebro de enxaqueca” mais propenso a ter crise de choro? Uma das maiores características de um cérebro enxaquecoso é a hiperexcitabilidade, uma maior sensibilidade a estímulos sensoriais como ruídos e luz. A transição do útero para o mundo cheio de estímulos pode fazer mesmo diferença a partir de algumas semanas, a partir de um nível de desenvolvimento da acuidade visual e auditiva. Isso pode explicar o porquê da cólica ser mais freqüente entre a sexta e oitava semana de vida, e não no período neonatal. Uma pesquisa chegou a demonstrar que a restrição de estímulos sensoriais foi capaz de reduzir o problema.

 

Com esse corpo de conhecimento, já se discute a modificação do termo cólica por algo como “Agitação Paroxística do Lactente” já que a raiz do problema tem mais chance de vir do cérebro do que da barriga.

 

 

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