Nesta última semana, um rapaz de seus 20 e poucos anos me procurou para ter uma opinião sobre a continuação ou não de uma medicação que já usava desde o início da adolescência.

 

Rodolfo, assim vou chamá-lo, teve algumas crises de dor de barriga quando tinha seus 16-17  anos, fez um eletrencefalograma que revelou alguma anormalidade. Nessa época, Rodolfo começou a usar medicação para controlar epilepsia, como se esse fosse o seu diagnóstico inequívoco.

 

Muitas vezes é difícil raciocinar olhando apenas pelo retrospecto, mas conversando com Rodolfo, as evidências de um diagnóstico de epilepsia não eram significativas.  Crises de dor de barriga podem até ter a ver com epilepsia, mas depois de vários anos de acompanhamento, seria esperado que a pessoa apresentasse também crises de arresponsividade ao meio tipo ausência ou convulsão.

 

Vamos ao ponto principal de nossa história. Além de iniciar uma medicação de uso questionável no seu caso, Rodolfo foi orientado a parar com suas atividades esportivas. A situação para ele foi especialmente dramática, já que Rodolfo já era nessa época um atleta de competição de Taekwondo. Precisou suspender seus sonhos de atleta, mas por quê?

 

Mesmo que Rodolfo tivesse realmente o diagnóstico de epilepsia, não faria nenhum sentido ter restrições absolutas às atividades esportivas. É importante orientar um portador de epilepsia que evite nadar sozinho, que faça natação sempre com a monitorização de um profissional habilitado, pois no caso de uma crise, ele seria resgatado da água com segurança. Já entre os esportes fora da água, são poucos aqueles que demandam grandes preocupações. Claro que isso depende muito da freqüência de crises. É muito diferente um indivíduo que teve sua última crise há cinco anos daquele que tem crises diárias.

 

Na verdade, a relação entre atividade física e epilepsia fala muito mais na direção de benefícios. As pesquisas demonstram que exercício físico regular melhora o controle de crises epilépticas e uma das formas de explicar esse efeito é o estímulo de sistemas de neurotransmissores inibitórios e hormônios que modulam a excitação do cérebro. Além disso, a atividade física pode reduzir sintomas de ansiedade e depressão, comorbidades freqüentes entre pacientes com epilepsia, e minimizar o estigma e preconceito fortemente associados a essa condição.

 

E será que a atividade física pode fazer mal para algum tipo de transtorno neurológico? A princípio não. Enxaqueca, insônia, Doença de Parkinson e esclerose múltipla são condições mais facilmente controladas com atividade física. O exercício reduz o risco de derrame cerebral, Doença de Alzheimer e depressão. Isso sem falar no poder de reabilitação da atividade física naqueles que apresentam doenças neuromusculares ou que sofreram seqüelas de trauma cranioencefálico, derrame cerebral e tantos outros insultos neurológicos.

 

Rodolfo pode voltar sim para o Taekwondo. Inclusive, depois de atualizar seus exames, devemos pensar se já vale a pena retirar sua medicação anti-epiléptica.  As expectativas são boas, já que ao analisar seu antigo eletrencefalograma, não é possível identificar qualquer anormalidade.

 

smallicone

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