Hoje em dia ligamos o rádio ou a TV e ouvimos especialistas em marketing nos ensinando sobre como o Neuromarketing pode ser uma valiosa ferramenta para o sucesso das empresas. Nesse caso, a idéia é de que algumas estratégias de comunicação podem ser mais eficazes no processo de “pescar os cérebros dos consumidores” com base em sérios, porém poucos, experimentos neuropsicológicos e de imagem cerebral. Grandes empresas já começam a pedir assessoria de neurocientistas para compor o time que pensa as estratégias de marketing. Paralelamente ao crescimento do volume de conhecimento nessa área, podemos observar um crescimento muito mais veloz no número de consultores de marketing que parecem às vezes já deterem o segredo do “centro cerebral de compras”.
Profissionais da saúde que trabalham com a mente e o cérebro já vendem programas de estimulação e exercícios para o cérebro chamados de Neuróbica, Neurofitness. Temos evidências científicas sérias sobre efeitos de programas de exercícios cognitivos através de “ginásticas cerebrais padronizadas”’, especialmente entre idosos. Queixas de memória são muito freqüentes entre adultos jovens e na maioria das vezes essas queixas são só a ponta do iceberg do estresse no dia-a-dia, quadros de ansiedade e depressão ou outras doenças. Buscar “consertar a vida”, dando mais chance ao lazer, à atividade física e ao bom sono, reduzindo o estresse e tratando o corpo e a mente quando preciso, provavelmente deixe o cérebro muito mais “sarado” do que cursos de criatividade, de memorização ou de como usar melhor os dois lados do cérebro.
Temos vivenciado discussões sobre a Neuroestética, uma forma de explicar a experiência estética através das neurociências. Alguns estudos têm demonstrado que a obra de um certo pintor ativa mais certas regiões do cérebro enquanto a obra de outro pintor ativa outras regiões. Outros nos mostram que a obra de um poeta estimula certas áreas do cérebro por conter um tipo específico de fórmula sintática. Não precisamos nos esforçar muito para defender a idéia de que a arte está longe de ser um fenômeno meramente estético, em que padrões de tipo A e tipo B estimulam áreas X e Y do cérebro. A apreciação da arte envolve não só a experiência sensorial, como também a experiência de vida de quem a aprecia, o contexto histórico da obra, etc. Chega a ser uma provocação patética tentar explicar o virtuosismo de um bailarino através do seu padrão de ativação neuromuscular.
E por aí vai. A cada dia somos surpreendidos com os mais originais e às vezes duvidosos “neuros”: neurofilosofia, neurocomunicação, neurofuturo, neuroética, neuronutrição, neuro-psicanálise, programação neurolinguística, neuroeconomia, etc. A impressão é que o prefixo neuro é muitas vezes usado para dar um ar de credibilidade e legitimidade científica ajudando a vender idéias que ainda estão saindo do ovo ou que não passam de meras neuroespeculações e neuroextrapolações.





6 comentários
24 julho, 2008 às 12:36 am
DTRibeiro
Adorei este! Muito bom!
Denise.
18 julho, 2008 às 11:17 pm
Raquel Barros
Dr.Ricardo, você é um gênio para escrever suas idéias.Obrigada por mais uma informação.
15 julho, 2008 às 11:12 pm
drricardoteixeira
Prezados Rafaela e Antonio,
A maioria das fronteiras do conhecimento que é enriquecida pelos avanços das neurociência são absolutamente legítimas. Porém, o que vemos muitas vezes, e isso acontece em qualquer outra área do conhecimento, é a tentação de transformar aquilo que está ainda em investigação, em construção teórica e experimental, em uma fórmula pronta para ser usada e aplicada na prática.
Freqüentemente recebo visitas de representantes da indústria farmacêutica com folders coloridos nos apresentando uma medicação, e quando vamos buscar nesse mesmo material, em letrinhas miúdas, a base científica da indicação do medicamento vemos referências apenas com ratinhos ou coelhos que aquele medicamento melhora alguma coisa. Às vezes vemos referências apenas de que o medicamento melhora uma medida fisiológica, como por exemplo aumento da velocidade do fluxo sanguíneo cerebral. Essa não é informação suficiente, apesar de preciosa para futuros estudos, para que usemos tal medicação em um paciente. Precisamos de estudos que mostrem que esse efeito está associado a uma melhora da evolução clínica de pessoas, melhora de sintomas, etc.
As “neurofórmulas prontas” às vezes têm esse comportamento.
15 julho, 2008 às 9:52 pm
Rafaela e Caldas
Dr. Ricardo, pertinente o arremate desta postagem! Já até sabemos que a mídia, afoita por novidades, muitas vezes se vale de pesquisas ainda não finalizadas pelos cientistas, e sai professando como verdades inabaláveis o que são ainda, por vezes, apenas conjecturas nas “neuro-teias” dos pesquisadores. Isso, a quem observa de perto, perigosamente cria sempre a mais nova moda científica!
15 julho, 2008 às 1:46 pm
Adeline
“meras neuroespeculações e neuroextrapolações. ” adorei essa provocação!!!!” vamos tirar da gaveta?
bjs
14 julho, 2008 às 10:41 pm
rubens gabriel teixeira neto
Prezado Dr. Ricardo Teixeira, gosto muito dos seus comentários e uma amiga minha da Rede Globo( Gilvana Teles-Jornalista); gostou muito sobre
o artigo: podemos turbinar o nosso cérebro? e ela gostaria que eu realize
a intermediação. Seria possível dar uma entrevista para Rede Globo? Um cordial abraço.
Dr.Rubens G. T. Neto- Tel-33424213Cel-9236-9547