Algumas doenças podem ter um efeito devastador na vida de um paciente e suas famílias, especialmente no caso do câncer e de doenças degenerativas e progressivas como a Doença de Alzheimer. Perguntas comuns nessas situações como Por que comigo?, Por que logo com meu filho?, Por que isso tudo? nos dão uma pista de que além dos cuidados físicos e emocionais, uma janela preciosa na relação entre a equipe de saúde e o paciente e seus familiares pode estar se abrindo: a dimensão espiritual.
Estudos revelam que mais de 90% dos médicos acreditam que as crenças espirituais dos pacientes devem ser consideradas. Entretanto, apenas 30% dos médicos acreditam que essas crenças devam efetivamente ser abordadas, e só 10% adotam essa prática, mesmo entre pacientes terminais. Por outro lado, sabemos também serem bastante ruins os indicadores que medem a satisfação de pacientes quanto ao cuidado dispensado pela equipe de saúde aos seus aspectos emocionais e espirituais, evidenciando uma fraqueza dos serviços de saúde que precisa ser trabalhada.
Já temos um razoável corpo de evidências que indivíduos com uma maior vivência religiosa / espiritual têm uma melhor relação com a doença: maior cooperação no tratamento, maior capacidade de lidar com o estresse emocional, melhora mais rápida de sintomas depressivos. Além disso, o envolvimento com uma comunidade religiosa está associado a uma maior rede social, e há tempos sabemos que pessoas socialmente integradas têm menos chance de adoecer, e quando doentes, a rede social é uma das principais fontes de apoio. Entretanto, as crenças religiosas nem sempre estão a favor da saúde do paciente, já que podem em alguns casos dificultar a aderência ao tratamento com idéias do tipo: esse é o desejo de Deus; Deus me abandonou; esse é o meu destino; esse é o meu castigo; etc. Em situações como essas, é importante que a equipe de saúde esteja minimamente preparada para abordar as dimensões religiosas / espirituais do paciente com a intenção de aumentar a aderência e sucesso do tratamento, além de poder contribuir para um maior senso de controle e significado do problema. Tal abordagem pode ainda identificar crenças que podem ser relevantes em determinadas decisões médicas.
Alguns podem pensar que uma conversa dessa natureza pode ser percebida pelo doente como uma intromissão na sua intimidade. Claro que se no início dessa conversa o paciente já demonstra que religiosidade / espiritualidade são dimensões que não são questões importantes na sua vida, então a conversa já deve parar por aí. Ninguém deve também “prescrever” religião aos pacientes, convencê-los que um tipo de crença ou prática seja interessante ou entrar em polêmicos embates sobre religião. A idéia de um melhor entendimento da religiosidade / espiritualidade dos pacientes também não tem como objetivo o médico ou outro profissional de saúde ficar dando conselhos espirituais ao paciente.
Enquanto percebemos uma medicina cada vez mais comercial, em que os pacientes passam mais tempo nas máquinas de exames do que com o médico, há espaço sobrando para a discussão e aprofundamento de questões associadas às questões religiosas / espirituais dos doentes, e isso já está começando a tomar forma. Cresce o investimento em pesquisas que analisam o impacto da inserção de aspectos espirituais na relação médico-paciente, inclusão do assunto no currículo de graduação médica, e bem recentemente, a Comissão de Acreditação de Organizações de Saúde nos Estados Unidos incluiu em seu manual de acreditação para hospitais a recomendação de que os profissionais de saúde abordem sim os valores espirituais dos pacientes. Talvez a busca por “medalhas de qualidade” impulsione a tão esperada reumanização da saúde.





8 comentários
6 outubro, 2011 às 2:30 pm
sinara
Adorei saber que no futuro próximo teremos mais médicos humanizados. Parece estranho dizer que a função médica não é ao mesmo tempo humanizda, mas é o que sinto. São poucos os médicos que se envolvem com o paciente, sendo uma relação muito fria.Acho que esse inicio de pensamento poder ser um começo de transformação na classe médica, pois o que está sendo colocado aqui não é fácil para um médico se expor dessa maneira, deixando claro seu pensamento é literalmente colocando a cara pra bater. É de muita coragem e atitude sua Dr. Ricardo. Obrigada.
Sinara Gobbi
7 outubro, 2011 às 1:49 am
Ricardo Teixeira
Oi Sinara
mesmo os médicos mais humanizados têm dificuldades no dia a dia, pois a troca nem sempre existe. Obrigado por sua preciosa contribuição
10 março, 2010 às 9:29 am
Misty
conciencianodiaadia.com, how do you do it?
24 setembro, 2008 às 11:57 pm
Frasseincaste
well done, guy
16 julho, 2008 às 12:39 am
Sirlei Costa
Dr. Ricardo, boa tarde!
O Senhor está de parabéns pela excelente colocação na abordagem do
tema “espiritualidade”.
No dia em que o homem perder a fé, não importa sua religião ou crença, ele já estará pronto para morrer.
Cordialmente,
Sirlei Costa
13 julho, 2008 às 11:26 pm
Bruno Ayres
Outra convergência: o voluntariado também surgiu no templo, sinagoga, igreja, mesquita etc. No Brasil não foi diferente: a Santa Casa de Santos foi o primeiro registro de participação voluntária da sociedade, já lá pelo século XVI!
Amigos: passei a manhã inteira hoje procurando um curso de filosofia da religião aqui em Seattle. Tenho lido muito sobre este tema há anos e agora to buscando uma educação mais formal. To tentando buscar na essência. Essa busca tem a ver com aquela última conversa que tivemos em Brasíila.
Vamos ver no que dá!
13 julho, 2008 às 5:53 pm
drricardoteixeira
Caro Bruno
Já é tempo para que pessoas envolvidas com o sofrimento humano deixarem de lado a posição segura da seriedade, que às vezes soa como frieza para aquele que sofre. Os doutores da alegria são literalmente um espetáculo à parte, uma aula de humanização na saúde.
Uma boa lembrança que devemos ter da história dos hospitais ocidentais é que eles nasceram como casas de saúde lideradas por ordens religiosas. A transformação da saúde em negócio foi afastando aos poucos o apoio espiritual dos doentes. O humor é sem dúvida uma ferramenta facilitadora de comunicação entre a equipe que cuida e aqueles que recebrem cuidado. É nesse sentido que a parceria entre o ConsCiência no dia-o e nosso querido professor Adolar Gangorra está indo de vento e popa.
Forte Abraço,
Ricardo
13 julho, 2008 às 5:40 pm
Bruno Ayres
Legal saber que é aconselhável que o médico aborde a espiritualidade do paciente. Não é o que vemos na prática, como vc mesmo diz.
Não sei se tem alguma coisa a ver, mas eu tive oportunidade de estar em palestras com o Wellington Nogueira, do Doutores da Alegria. Muito, muito legal o que ele traz sobre a humanização hospitalar. Ele tem equipes de palhaços em hospitais e quando ele apresenta a idéia ele menciona o arquétipo do palhaço, que no indígena equivale ao pajé (líder espiritual): aquele que pula, dança, fala coisas estranhas e age de maneira inesperada.
Lendo seu post, relacionei os dois assuntos. O palhaço no hospital abre portas para relações outras que não centradas na doença; e acaba descobrindo o humano por trás do quadro clínico.