Ricardo Afonso Teixeira*

O jornalista Stevens Silbermann, autor do best-seller Neurotribes, publicado em 2015 e ainda sem tradução para o português, disse: “Poucas pessoas podem dizer que cunharam um termo que tenha mudado o mundo para melhor, em uma direção mais humana e com mais compaixão. Judy Stinger pode”. 

Judy é uma australiana que apresentou ao mundo em 1998 o conceito de neurodiversidade em sua tese, ainda na graduação, na Universidade de Tecnologia de Sydney. O trabalho pode ser conferido no livro: Neurorodiversity: The birth of an idea (Neurodiversidade: O nascimento de uma ideia, em tradução livre). A obra traz uma reflexão sociológica sobre grupos com disfunções neurológicas marginalizadas, com foco especial nos portadores do transtorno do espectro autista, chamando os leitores para uma revolução da neurodiversidade assim como houve a revolução feminista. O livro também não tem tradução para a língua portuguesa.

O esforço de Judy acendeu a chama para que essa revolução acontecesse. São inúmeras entidades ao redor do mundo que carregam a bandeira da neurodiversidade lutando para que o mundo respeite as diferenças e dê condições para que os neurodiversos, aqueles que não representam a maioria, não sejam estigmatizados e mais, que estes tenham acesso a oportunidades de inserção na sociedade, incluindo o trabalho, já que muitos são capazes de contribuir de forma sofisticada. Alguns têm talentos e capacidades que os neurotípicos, a maioria, nem sonham em ter.  Só precisam encontrar o ambiente e o tipo de trabalho certos e muitas organizações têm trabalhado para que isto aconteça. No blog de Judy você encontra: “Eu não estou aqui para tornar o capitalismo mais eficiente, mas para torná-lo mais humano”.

Uma das pérolas do seu trabalho é a distinção entre o modelo médico e social de incapacidade. Uma pessoa pode ter uma deficiência, mas isto passa a ser uma incapacidade quando lhe são colocadas barreiras e práticas socias que dificultam suas oportunidades de inserção social. É claro que toda condição de saúde é permeada pelo espectro de gravidade e há um subgrupo em cada uma dessas condições que está no extremo mais grave onde deficiência dificilmente será diferente de incapacidade.

E quando falamos de neurotípicos e neurodiversos, vale contextualizar o conceito de normal. A palavra normal na saúde só passou a ser registrada na língua inglesa na metade do século 19, época em que a estatística passou a ser utilizada na saúde pública. O termo era o mais próximo do que se chamava de “ideal”, característica mais própria dos deuses do que dos mortais. Os estudiosos em incapacidade argumentam que o que chamamos hoje de norma, a maioria, raramente alcança o estado ideal.

E você? Você se considera um neuroideal? Parabéns. Que dádiva genética que você herdou! Ou os parabéns podem ser também por sua disciplina com os cuidados com a saúde. Mas tenho que lhe dizer que grande parte da humanidade está longe de você ou dos deuses. Não estou sendo irônico. O “Global Burden of Disease Study” (GBD) é um dos maiores esforços para medir a morbimortalidade das principais doenças ao redor do mundo, financiado pela Fundação Bill & Melinda Gates e sob a chancela da Organização Mundial da Saúde. Sua última análise foi publicada no prestigiado periódico The Lancet Neurology em 2024 e apontou que o grupo das condições neurológicas representa a maior causa de anos perdidos de vida saudável (DALYs), seguido pelo grupo de doenças cardiovasculares. Os resultados também mostraram que 43,1% das pessoas no mundo sofrem de alguma disfunção neurológica, seja por uma doença neurológica primária ou por efeito de outras condições que afetam o sistema nervoso. E esse sistema é o que faz nossa relação com o ambiente e isso envolve a relação com os outros.

A difusão do conhecimento tem ajudado a reduzir o estigma sobre as disfunções neurológicas, mas ainda de forma muito incipiente. É a pessoa que sofre de enxaqueca e sente que as pessoas acham que ela supervaloriza sua condição ou se aproveita dela. E vê cara feia quando pede a alguém para evitar o uso de perfume, pois desencadeia suas crises. É o portador da Doença de Parkinson que, por ter uma menor expressão da mímica facial e uma monotonia na voz, é tratado de forma infantilizada. São exemplos de neurodiversos, cérebros que funcionam diferente, mas os outros não têm consciência disso.  Muitos sofrem de algum grau de marginalização por falta de compreensão plena das suas diferenças pela sociedade. 

O movimento de conscientização da neurodiversidade, uma ação política para garantia de direitos, começou pelo espectro autista, mas se expande naturalmente para inúmeras disfunções neurológicas em que seus portadores vivem uma marginalização de suas limitações. Esse é o desejo expresso de Judy na sua obra seminal. Hoje são comumente incluídos sob esse guarda-chuva, além do autismo, o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, dislexia, transtorno bipolar, entre outros. Percebo no consultório o discurso libertador e empoderado daqueles que encontraram sua tribo e dizem sem timidez que são neurodiversos.

*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Reposição hormonal no climatério com medicamentos orais são menos seguros que os transdérmicos

Ricardo Afonso Teixeira*

Reposição hormonal combinada por administração oral (estrogênio + progesterona), assim como o hormônio sintético tibolona, está associada a um maior risco de eventos vasculares. Tibolona aumenta o risco de acidente vascular cerebral (AVC) e infarto agudo do miocárdio (IAM) com estimativa de uma a cada mil mulheres. Terapia combinada está associada a maior chance de IAM e tromboembolismo venoso estimada em 7 a cada mil mulheres. Por outro lado, as terapias de reposição transdérmicas não aumentaram a incidência de eventos vasculares.

Essas foram as conclusões de uma pesquisa da Universidade de Uppsala na Suécia que envolveu um milhão de mulheres na menopausa em uso de diversas formas de reposição hormonal. A apresentação transdérmica evita que o hormônio tenha uma primeira passagem pelo fígado. No caso da administração oral, essa passagem pelo fígado promove a produção de fatores de coagulação que aumentam o risco de trombose.

A tibolona não é aprovada nos Estados Unidos e, após esses resultados, Åsa Johansson, líder dos pesquisadores do presente estudo, declara esperar que o medicamento também saia do mercado Europeu. O estudo foi publicado na última semana pelo prestigiado British Medical Journal.

*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Ricardo Afonso Teixeira*

A mulher nasce com cerca de dois milhões de óvulos, no início da puberdade são 400 mil, e apenas uma pequena parte é usada nas ovulações ao longo da vida adulta. A maior parte dos óvulos degenera-se com o tempo e quando os remanescentes passam a ser insuficientes para produzir estrogênio suficiente para manter ativo o sistema ovário-cérebro (ovário-hipófise-hipotálamo) a mulher não mais menstrua. Diferente das mulheres, a grande maioria das fêmeas no mundo animal continua fértil até o fim da vida e não sabe o que é menopausa. Duas exceções conhecidas são algumas espécies de baleias e elefantes.

Elegantes linhas de pesquisa têm compreendido a menopausa nas mulheres como uma vantagem evolutiva, ou seja, ela aumentaria as chances da espécie em gerar descendentes, perpetuando assim seus genes. A menopausa serviria como um fator de proteção tanto para as mães como para os filhos. Mas de que maneira?

As mulheres contemporâneas vivem uma condição muito recente na sua história evolutiva que é o grande número de ciclos ovulatórios ao longo da vida, pois começam a ter seus filhos tardiamente, e poucos filhos. Essa frequência maior de ovulações faz com que a mulher seja muito mais exposta às elevações periódicas de estrogênio, o que já sabemos que aumenta o risco de doenças como o câncer de mama. A menopausa pode ser vista como uma resposta adaptativa evitando que a mulher chegue aos 80 anos de idade com o mesmo nível de exposição ao estrogênio.

Outra vantagem de as mulheres não continuarem férteis em idades mais avançadas é a de que assim os filhos poderão contar com suas mães vivas nos seus primeiros anos de vida, e pesquisas nos confirmam que isso aumenta a chance de uma criança chegar à idade adulta. Além disso, os óvulos de mulheres mais maduras têm mais chances de serem defeituosos, e caso fossem fertilizados, haveria maior risco de gerar anormalidades cromossômicas e recém-nascidos de baixo peso ou prematuros.

Por essas e outras razões a natureza foi sábia em fazer com que as mulheres a partir de certa idade fossem mais úteis à perpetuação da espécie ao investir energia para a sobrevivência de filhos que não precisassem gerar: seus próprios netos. Esse conceito é bem conhecido pela ciência como “Hipótese Avó”, onde a avó colabora não só com conhecimento, mas também colocando a mão na massa, aumentando a chance de seus netos sobreviverem. Em contraste, na maior parte das espécies animais, o mais comum é que os filhos em idades pré-reprodutivas colaborem com as mães aumentando o sucesso de geração de novos irmãozinhos. Além de suporte aos netos, a “Hipótese Avó” contempla também a menopausa como fator que evita a competição reprodutiva entre gerações na espécie humana.

Um dos estudos mais importantes sobre esse tema foi publicado na respeitada revista científica Nature no ano de 2004. Os pesquisadores avaliaram dados históricos demográficos de populações canadenses e finlandesas do século XIX e evidenciaram que tanto mulheres como homens que tinham mães que viveram mais após os 50 anos de idade tiveram seus filhos mais precocemente, intervalos mais curtos entre o nascimento dos diferentes filhos e uma maior chance de que eles chegassem à idade adulta. Além disso, as mulheres que moravam longe das mães tinham menos filhos quando comparadas àquelas que moravam na mesma casa, no mesmo bairro, na mesma vila. O efeito positivo da avó foi mais pronunciado ainda quando a avó tinha menos de 60 anos de idade quando do nascimento de seu neto. Um dos resultados mais importantes do estudo foi o de que a presença da avó foi relevante na sobrevida dos netos entre os três e cinco anos de idade, mas não nos primeiros dois anos de vida (período da amamentação), reforçando a ideia de que o “efeito avó” existe independente das peculiaridades genéticas dos netos ou do desempenho das mães. E os resultados não foram diferentes entre as duas populações estudadas: canadenses e finlandeses.

O que dizer sobre as avós no século XXI? Nas últimas décadas podemos perceber uma mudança no papel dos avós em nossa sociedade, muitos deles passando a desempenhar o papel de pais. Podemos identificar um crescimento no número de lares em que três gerações convivem: pais, netos e avós. Cresce também o número de lares em que os avós cuidam plenamente de seus netos com os pais morando em outro domicílio.

Esses modelos de organização familiar em que os avós assumem o papel de “avós em tempo integral” podem estar associados a benefícios, mas também a dificuldades, tanto para as crianças como para os avós. Os avós podem se sentir realizados, menos sós e com maior autoestima por assumirem a responsabilidade dos netos, mas por outro lado podem estar sendo submetidos a uma sobrecarga de funções que em alguns casos não são mais compatíveis com os estados de saúde física e financeira comuns entre muitos idosos.

A “Hipótese Avó” é bem reconhecida pela ciência como o meio pelo qual a evolução permitiu que as mulheres ao amadurecerem fossem avós e não mães de novas crianças. Hoje em dia cresce o papel de avós como tutores dos netos, mas também há o outro lado da moeda: situações em que os avós entram em conflito com os pais por ultrapassarem os limites de interferência na educação dos netos sem a concordância dos pais. Usando o bom senso a chance de sucesso é grande: avó tem que ser avó e mãe tem que ser mãe.

*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Ricardo Afonso Teixeira*     

O cérebro humano entende a essência de uma cena visual em um piscar de olhos, mas a rapidez com que isso acontece na linguagem falada ou escrita é a mesma? Imagine a velocidade com que processamos sinais escritos diariamente, notificações que você recebe pelo seu smartphone ou alertas na estrada. Imagine ainda que você posta um vídeo nas redes sociais e usa um aplicativo de geração automática de legendas. Frases curtas das legendas serão registradas pelos cérebros de sua plateia mais rapidamente que o áudio. Parece-lhes contraintuitivo? O recado curto na linguagem escrita chega ao cérebro em aproximadamente 130 milissegundos, a duração do mesmo piscar de olhos para a percepção de uma imagem, o tempo que demoramos para ouvir uma única sílaba.

Esses 130 milissegundos correspondem ao tempo para ativação do lobo temporal esquerdo, região responsável pela interpretação da linguagem. Pesquisadores da Universidade de Nova Iorque mostraram essa resposta, através da magnetoencefalografia, após submeterem voluntários a flashes, com duração de 300 milissegundos, de frases simples de três palavras incluindo sujeito, verbo e objeto, como por exemplo “enfermeiros limpam feridas”.

Impressionante é que a rapidez de ativação cerebral é até maior quando as palavras eram mostradas dentro desse modelo de frases simples do que quando eram expostas individualmente. Isso sugere que cada uma das palavras apresentadas simultaneamente em sentenças simples e com estrutura sintática reforça o reconhecimento das outras por fazerem parte de um bloco único com significado. É uma ativação mais próxima do reconhecimento de uma cena, digo estímulo visual, bem mais rápida que a linguagem falada em que a sequência temporal é soberana e se faz palavra após palavra. O estudo foi publicado na última semana no periódico Science Advances que é parte da editoria da revista Science.  

*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Ricardo Afonso Teixeira*

São inúmeros os benefícios demonstrados do café sobre o cérebro. Temos uma ressalva quando se pensa nas gestantes e a recomendação atual é que elas evitem seu consumo por potencias efeitos negativos no desenvolvimento cerebral do embrião. Essa diretriz ainda é válida, mesmo após o estudo recém-publicado pelo periódico Psychological Medicine, envolvendo milhares de famílias norueguesas, demostrando que o café no período gestacional não interfere de forma significativa no desenvolvimento cerebral. A pesquisa se soma a outras que apontaram ausência de interferência negativa no cérebro e a várias outras que evidenciaram o contrário. A inconsistência dos resultados faz com tenhamos que aguardar por novos estudos.

Além das gestantes, pacientes com osteoporose representam outra população que deve ser cautelosa no consumo do café, pois o excesso de cafeína pode promover a perda de cálcio nos ossos.  Na população geral, devemos encarar o café como bebida segura e com inúmeros benefícios à saúde. Uma pesquisa encomendada pela Associação Brasileira das Indústrias do Café (ABIC) revelou que 94% dos indivíduos maiores de 15 anos bebem café e 95% desses o consomem diariamente. Entre aqueles que não tomam café, a principal razão apontada é a de que ele pode fazer mal à saúde.

Uma revisão publicada pelo British Medical Journal reforça aquilo que já tínhamos boas evidências: 3 a 4 doses de café por dia fazem bem à nossa saúde. Pesquisadores do Reino Unido reuniram os resultados de mais de 200 estudos sobre os efeitos do café sobre nossa saúde e concluíram que podemos tomar café, com moderação, sem medo. Os resultados mostraram que o café promove maior longevidade e menor incidência de inúmeras doenças que elenco a seguir:

– doenças cardiovasculares

– alguns tipos de câncer, como o de próstata, endométrio, fígado e pele

– diabetes, cálculos biliares e gota

– depressão, Doenças de Alzheimer e Parkinson

Mas como o café pode ajudar a prevenir doenças neuropsiquiátricas? A grande responsável por esse efeito é a cafeína mesmo. A cafeína se liga a receptores do cérebro chamados de adenosina que promovem uma inibição da atividade cerebral. A cafeína tem uma ação inibitória nesses receptores fazendo uma inibição de um sistema que é inibitório. Por isso o efeito final é estimulante.  Quando reduzimos o efeito do freio de mão, o carro anda mais. Esta é a cafeína.

Modelos animais da Doença de Parkinson apontam que a inibição do receptor adenosina pela cafeína reduz a perda de células dos sistemas comumente envolvidos na doença.  No caso do da Doença de Alzheimer, estudos demonstram que o consumo de café ao longo da vida pode reduzir o risco da doença. Pesquisas em animais revelam que a cafeína tem o poder de reduzir as alterações patológicas encontradas no cérebro de quem sofre dessa doença. Entretanto, o consumo exagerado da bebida pode trazer efeitos danosos ao cérebro. Uma pesquisa, envolvendo quase 18 mil voluntários, nos mostra que o consumo de mais de seis doses por dia está associado a uma redução do volume cerebral e ao aumento do risco de demência. Café sem culpa, mas com moderação.

*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Ricardo Afonso Teixeira*

Enquanto as doenças do coração mantêm a liderança como as principais causas de morte no mundo, observa-se um aumento substancial na prevalência das doenças do cérebro, especialmente as demências como a Doença de Alzheimer. É interessante notar que os quadros demenciais e as doenças do coração dividem os mesmos fatores de risco como a hipertensão arterial, diabetes, obesidade e tabagismo. Está se tornando claro que a redução dos fatores de risco vascular pode fazer a diferença na redução de doenças do cérebro, e não estamos mais falando só de acidente vascular cerebral (AVC).

A mortalidade global associada à Doença de Alzheimer e outras demências têm crescido num ritmo maior que o das doenças do coração. Entre 2010 e 2020 houve um aumento de 44% na mortalidade associada a quadros demenciais e de 21% por doenças do coração. Quando se pensa em 30 anos (1990-2020), o incremento de mortes por quadros demenciais foi de 144%.

Voltando aos fatores de risco vascular, o que não faz bem ao coração também não faz bem ao cérebro. Hipertensão arterial aumenta em cinco vezes as chances de uma pessoa apresentar declínio cognitivo e quadros demenciais. No caso da obesidade, esse aumento é de três vezes. Tabagismo aumenta o risco de demência em 30-40%.

Há também uma forte relação entre a função do coração e o desempenho cognitivo. Menor desempenho cognitivo é encontrado com 40% mais chances em portadores de doença coronariana. Essa relação também existe na mesma intensidade em quem tem fibrilação atrial, uma arritmia cardíaca comum. Insuficiência cardíaca eleva em duas vezes o risco de um quadro demencial e cerca de metade das pessoas acometidas por essa disfunção cardíaca apresenta algum grau de deficiência cognitiva.

A influência dessas três entidades cardiovasculares sobre a cognição pode ser dar pelo aumento de êmbolos no coração que se deslocam para o cérebro provocando obstrução de vasos e lesões cerebrais. Aqui incluímos lesões causadas por êmbolos grandes que irão provocar alterações súbitas da função cerebral, o AVC, assim como por microêmbolos, que na sua maioria são silenciosos e frequentemente ultraestruturais, não visíveis por métodos de neuroimagem usados na prática clínica. Mas não é só através de êmbolos que o cérebro é afetado por essas doenças cardíacas. Devemos incluir aqui redução do fluxo sanguíneo cerebral, processo inflamatório sistêmico e ativação neuro-hormonal.

A intimidade da relação entre o coração e o cérebro é bidirecional, o cérebro doente também tem impacto sobre o funcionamento do coração. Nos primeiros dias após um acidente vascular cerebral isquêmico, por exemplo, cerca de 10 a 20% dos pacientes apresentam alterações no coração e aqui devemos incluir as três entidades discutidas anteriormente: doença coronariana, insuficiência cardíaca e arritmia cardíaca. O cérebro que sofre desencadeia um processo inflamatório sistêmico além de uma disfunção do sistema nervoso autônomo que podem afetar diretamente o coração. A esse fenômeno dá-se hoje o nome de síndrome AVC-Coração.     

*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Ricardo Afonso Teixeira*

Na década de 1960, um estudo realizado em diferentes países capitalistas e socialistas, perguntou o que as pessoas ainda precisavam na vida para serem realmente felizes. As respostas foram surpreendentemente parecidas, independente das diferenças culturais e econômicas entre os países analisados. A resposta mais comum foi a de melhoria do padrão de vida material, seguido por uma vida familiar feliz e em terceiro lugar o estado de saúde pessoal e dos familiares.

Será que as pessoas serão mais felizes se subirem um degrau na sua capacidade de consumo?  Ganhadores da loteria voltam ao mesmo estado de felicidade que tinham antes do prêmio após um ano. Dinheiro e felicidade andam juntos até certo ponto, fenômeno conhecido como paradoxo de Easterlin, economista americano que estudou essa questão em inúmeros países. Depois de garantidas as necessidades mais importantes, mais dinheiro no bolso não atrai mais felicidade. Em 2018, uma pesquisa publicada na revista Nature Human Behaviour confirmou o paradoxo de Easterlein com uma população bastante generosa com dados do Instituto Gallup envolvendo 1.7 milhões de indivíduos em 164 países diferentes.

Os pesquisadores encontraram um teto de renda anual de 60 a 75 mil dólares anuais para o bem-estar emocional, definido como sentimentos positivos no dia a dia. Valores maiores não incrementavam esses sentimentos. O mais curioso é que havia uma menor satisfação com a vida quando um teto de 90 mil dólares anuais era ultrapassado. Nessa situação as pessoas podem entrar numa roda viva de consumo e cair na armadilha de ficar de olho na grama do vizinho.

Estudos têm apontado que os mais afortunados podem ficar menos sensíveis aos pequenos prazeres, às coisas mais prosaicas.  O simples fato de se deparar com a imagem de um maço de notas de dinheiro é capaz de reduzir o tempo em que uma pessoa aprecia um pedaço de chocolate na boca antes de engolir.  Nesse caso, as pessoas ainda relatam menos prazer com o chocolate do que aqueles que visualizam imagens neutras.

Gastar direito pode ajudar

Tem uma propaganda de automóvel que diz assim: “Quem fala que dinheiro não traz felicidade ainda não aprendeu a gastá-lo direito”.  Já é bem reconhecido que gastar o dinheiro com experiências é melhor do que com coisas. Experiências que reforçam as relações de amizade, que promovem o crescimento pessoal, que contribuem para a comunidade onde se vive, pequenos prazeres como uma massagem, flores para a pessoa querida, tudo isso pode gerar mais prazer do que uma mega TV ou um turbo-super-carro.

Uma pesquisa muito interessante, publicada no prestigiado periódico PNAS , mostra que as pessoas que gastam dinheiro para ter mais tempo (e.g., serviços de casa) são mais felizes do que aquelas que gastam mais com coisas. O impressionante é que metade dos milionários estudados gastava tempo com atividades que não apreciavam e que poderiam ser feitas por outros, desde que pagassem por isso. Outro achado importante foi que o estado de bem-estar e felicidade esteve associado com essa opção de “comprar seu próprio tempo” em todo o espectro socioeconômico estudado, mesmo entre os que tinham as contas mais apertadas.

Por último, trago aqui uma análise realizada sobre a satisfação com a vida publicada no último mês pelo mesmo periódico PNAS. Foi demonstrada que a satisfação entre moradores de pequenas comunidades, em cinco diferentes continentes, incluindo populações indígenas, com baixíssimo poder aquisitivo, era semelhante ou até maior do que em diversos países considerados ricos, comparação feita com os dados do Instituto Gallup.

Todas essas pequenas comunidades tinham uma forte dependência dos meios naturais para a sobrevivência e, além desse contato íntimo com a natureza, outros fatores podem colaborar para esses altos índices de satisfação, mesmo com pouco dinheiro. Entre eles estão o modelo de comunidades mais coletivistas, menos individualistas, e até mesmo uma maior vivência espiritual. Indígenas da Amazônia brasileira foram um dos 19 grupos estudados.

Vale sempre lembrar que felicidade pode trazer dinheiro. Pessoas mais felizes têm mais chance de ter sucesso profissional e financeiro.

*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Ricardo Afonso Teixeira*

Um hino hindu ancestral comparava o jogo de dados a uma droga aditiva. Três mil anos depois, quando apareceu o primeiro cassino na Veneza Renascentista, a classe dominante quase colapsou por conta das dívidas no jogo. Hoje o fascínio pelo jogo faz com que seu mercado movimente valores similares a todos os outros tipos de entretenimento somados. Os jogos eletrônicos movimentam mais de duas vezes o faturamento da indústria de cinema, contando com cerca de metade da população mundial como jogadores. O jogo tem o apelo gigantesco da imprevisibilidade. É uma forma de lidarmos com o incerto. Aqui nasce a teoria da probabilidade.  

Platão defendia as virtudes do jogo, pois era uma maneira de ensinar as crianças a seguirem regras e como adultos seguiriam as leis. Aristocratas na idade média eram encorajados a jogar como ferramenta de autoconhecimento. Jogos competitivos são vistos como oportunidades de desenvolver habilidades de cooperação com impactos positivos na liga social, já que nos força a pensar no outro, o que o outro quer e como fará para alcançar seu objetivo.  

Vício na internet ainda não faz parte da classificação internacional de doenças mentais, mas vícios em jogos sim. Alguns têm convicção que suas apostas em bets são investimentos. Ainda não entendi esse argumento, mas sei que os jogos poderiam fazer parte da listinha de meios fáceis para transbordamento cerebral de dopamina e prazer: Drugs, Sex, Rock and Roll and Games. Como disse Dra. Kelly Clamcy, especialista no assunto e inspiração da coluna de hoje, “ou entendemos como os jogos influenciam nossas vidas ou são eles que irão jogar com a gente”.

*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Ricardo Afonso Teixeira*

O jornalista Stevens Silbermann, autor do best-seller Neurotribes, publicado em 2015 e ainda sem tradução para o português, disse: “Poucas pessoas podem dizer que cunharam um termo que tenha mudado o mundo para melhor, em uma direção mais humana e com mais compaixão. Judy Stinger pode”. 

Judy é uma australiana que apresentou ao mundo em 1998 o conceito de neurodiversidade em sua tese na Universidade de Tecnologia de Sydney. O trabalho pode ser conferido no livro: Neurorodiversity: The birth of an idea (Neurodiversidade: O nascimento de uma ideia, em tradução livre). A obra traz uma reflexão sociológica sobre grupos com disfunções neurológicas marginalizadas com foco especial nos portadores do transtorno do espectro autista chamando os leitores para uma revolução da neurodiversidade assim como houve a revolução feminista. O livro também não tem tradução para a língua portuguesa.

O esforço de Judy acendeu a chama para que essa revolução acontecesse. São inúmeras entidades ao redor do mundo que carregam a bandeira da neurodiversidade lutando para que o mundo respeite as diferenças e dê condições para que os neurodiversos, aqueles que não representam a maioria, não sejam estigmatizados e mais, que estes tenham acesso a oportunidades de inserção na sociedade, incluindo o trabalho, já que muitos são capazes de contribuir de forma sofisticada. Alguns têm talentos e capacidades que os neurotípicos, a maioria, nem sonham em ter.  Só precisam encontrar o ambiente e o tipo de trabalho certos e muitas organizações têm trabalhado para que isto aconteça. No seu blog você encontra: “Eu não estou aqui para tornar o capitalismo mais eficiente, mas para torná-lo mais humano”.

Uma das pérolas do trabalho de Judy é distinção entre o modelo médico e social de incapacidade. Uma pessoa pode ter uma deficiência, mas isto passa a ser uma incapacidade quando lhe são colocadas barreiras e práticas socias que dificultam as oportunidades de inserção social. É claro que toda condição de saúde é permeada pelo espectro de gravidade e há um subgrupo em cada uma dessas condições que está no extremo mais grave onde deficiência dificilmente será diferente de incapacidade.

E quando falamos de neurotípicos e neurodiversos, vale contextualizar o conceito de normal. A palavra normal na saúde só passou a ser registrada na língua inglesa na metade do século 19, época em que a estatística passou a ser utilizada na saúde pública. O termo era o mais próximo do que se chamava de “ideal”, característica mais própria dos deuses do que dos mortais. Os estudiosos em incapacidade argumentam que o que chamamos hoje de norma, a maioria, raramente alcança o estado ideal.

E você? Você se considera ideal? Parabéns. Que dádiva genética que você herdou! Ou os parabéns podem ser também por sua disciplina com os cuidados com sua saúde. Mas tenho que lhe dizer que no cenário global a humanidade está longe de você ou dos deuses. Não estou sendo irônico. O “Global Burden of Disease Study” (GBD) é um dos maiores esforços para medir a morbimortalidade das principais doenças ao redor do mundo, financiado pela Fundação Bill & Melinda Gates e sob a chancela da Organização Mundial da Saúde. Sua última análise foi publicada no prestigiado periódico The Lancet Neurology em 2024 e apontou que o grupo das condições neurológicas representa a maior causa de anos perdidos de vida saudável (DALYs), seguido pelo grupo de doenças cardiovasculares. Os resultados também mostraram que 43,1% das pessoas no mundo sofrem de alguma disfunção neurológica, seja por uma doença neurológica primária ou por efeito de outras condições que afetam o sistema nervoso. Quase metade da população e não estão incluídos aqui muitos diagnósticos psiquiátricos.

A difusão do conhecimento tem ajudado a reduzir o estigma sobre as disfunções neurológicas, mas ainda de forma muito incipiente. É a pessoa que sofre de enxaqueca e sente que as pessoas acham que ela supervaloriza sua condição ou se aproveita dela. E vê cara feia quando pede a alguém para evitar usar perfume, pois desencadeia suas crises. É o portador da Doença de Parkinson que, por ter uma menor expressão da mímica facial e uma monotonia na voz, é tratado de forma infantilizada. São exemplos de neurodiversos, cérebros que funcionam diferente, mas os outros não têm consciência disso.

Neurodiversos somos todos nós, mas o movimento de conscientização, uma ação política para garantia de direitos, começou pelo espectro autista, mas se expande naturalmente para inúmeras disfunções neurológicas em que seus portadores vivem uma marginalização de suas limitações que pode gerar incapacidade. Hoje é comum incluir também sob o guarda-chuva da neurodiversidade o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, dislexia, transtorno bipolar, entre outros. Hoje percebo no consultório o discurso libertador e empoderado daqueles que encontraram sua tribo ao dizerem que são neurodiversos.

*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Por Ricardo Afonso Teixeira

Os efeitos danosos da poluição atmosférica sobre nossa saúde são fortemente explorados através dos impactos negativos sobre os sistemas respiratório e cardiovascular, mas as repercussões no sistema nervoso não são nada desprezíveis e são na verdade um problema de saúde pública de alta relevância.

Um dos maiores vilões da poluição são as partículas minúsculas com menos de 2,5 micrômetros de diâmetro (PM 2.5). Elas podem atingir o cérebro, pois conseguem atravessar a barreira hematoencefálica que funciona como um filtro para partículas maiores. Podem também, através do epitélio olfativo, alcançar o nervo olfativo e o cérebro, assim como fazem alguns vírus. As pequenas partículas, ao entrar em contato com o cérebro, podem promover inflamação, que por sua vez deflagra alterações no cérebro nos curto e longo prazos.

A Organização Mundial de Saúde e entidades de controle do clima definem um valor máximo dessas micropartículas no ar para que não haja prejuízos à saúde da população. O fato é que as queimadas são capazes de multiplicar a concentração dessas partículas. As queimadas são responsáveis por cerca de 50% dos gases de efeito estufa, mais do que as emissões de todos os motores a combustão e fábricas juntas. As concentrações de PM 2.5 podem ser responsáveis por 50% da poluição atmosférica.

Estudos já demonstraram que a exposição a altas concentrações de PM 2.5 está associada em curtíssimo prazo a dificuldades cognitivas e a uma série de condições psiquiátricas com maior busca pelos sistemas de saúde por quadros de depressão, surtos psicóticos e tentativa de suicídio. Condições psiquiátricas estão associadas a essa poluição também quando se pensa no longo prazo. O mesmo se vê com doenças neurogenerativas, como Parkinson e Alzheimer, assim como o acidente vascular cerebral.

O maior risco de obesidade nas pessoas expostas à poluição foi parcialmente explicado pela menor eficiência do hormônio da saciedade leptina. Animais expostos a altas concentrações de PM 2.5 apresentaram inflamação no hipotálamo, estrutura do cérebro que dialoga com a leptina. Após cinco dias de exposição, os animais dispararam a comer. O desenvolvimento do diabetes tipo 2 também tem forte associação com o PM 2.5. 

Uma pesquisa recém-publicada pelo periódico Environmental Health Perspectives apontou que o cérebro dos pequenos também sofre com altas concentrações de PM 2.5. Mais de dez mil pré-adolescentes do maior estudo americano sobre o desenvolvimento do cérebro do adolescente (ABCD) apresentaram mais sintomas psiquiátricos nos períodos de maiores concentrações de PM 2.5, podendo persistir por até um ano. Aqui estamos falando de sintomas de depressão, ansiedade e comportamento desafiador.

Tem sido demonstrado também efeitos negativos sobre o cérebro e desenvolvimento de crianças em que a mãe foi exposta a estas substâncias em altas concentrações. Os efeitos negativos incluem alterações estruturais do cérebro, rebaixamento cognitivo e até mesmo limitação motora. 

Para finalizar, vamos falar do impacto na expectativa de vida. Pesquisas em países como Canadá, Holanda e Finlândia demonstram que um aumento de 10µg por m3 na concentração de partículas menores que 2.5µm está associado a uma redução na expectativa de vida de 0.8 a 1.3 anos. Um importante e pioneiro estudo foi publicado no jornal New England Journal of Medicine confirmando essa relação entre poluição e longevidade só que de forma inversa: a redução da poluição é capaz de aumentar a longevidade da população. A redução dos mesmos 10µg por m3 na concentração de PM 2.5 promoveu um aumento de 0.77 ano na expectativa de vida da população.

O recado não está difícil de entender. A expressão apagão aéreo é utilizada para situações de caos na malha aérea, aeronaves. Hoje vivemos um apagão aéreo muito mais caótico: o da poluição atmosférica. Paradoxalmente é um apagão alimentado pelas chamas.   

*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Ricardo Afonso Teixeira*

A solidão aumenta o risco de demência, doenças cardiovasculares, sono de má qualidade, deficiência imunológica, depressão e ainda faz a pessoa morrer mais cedo. Será que esses efeitos da vida solitária podem ser explicados pela ausência de “cães de guarda”, pessoas que estimulam bons hábitos e reprimem maus hábitos? Pode até ser, mas parece que existem outras explicações.

Temos evidências que a solidão é capaz de mudar percepção, os pensamentos, a química e a estrutura do cérebro.  Os solitários são mais sensíveis a experiências ruins como quando são apresentados a imagens de pessoas com expressão facial de dor. Exames de ressonância magnética funcional demonstram que o isolamento social faz com que as áreas do sistema de recompensa cerebral sejam menos ativadas quando provocadas com estímulos sociais o que explica a menor empolgação por um hipotético encontro.


Pesquisas com ratinhos mostram que o isolamento reduz hormônios cerebrais que modulam a agressividade e diminui também o processo de mielinização que é fundamental para a plasticidade cerebral. Influencia ainda a expressão de genes ligados a comportamentos ansiosos.  Os animais que crescem solitários têm uma inibição no crescimento de novos neurônios em áreas associadas à comunicação e memória.  Em um modelo de derrame cerebral, provocado intencionalmente, ratinhos solitários morrem mais do que os que cresceram com os companheirinhos.

Os médicos costumam lembrar seus pacientes de qualidade de sono, dieta e atividade física. Por que não incluir nesse roteiro uma “prescrição social”? Em vez de simplesmente falar ao paciente que ele deveria socializar mais, se for o caso, abordar individualmente janelas de oportunidade para que isso aconteça pode ser mais efetivo.  É um momento ímpar para o estreitamento da relação médico-paciente. É inspirar uma reflexão de Etnia do extraordinário Chico Science.   

Não há mistérios em descobrir
O que você tem e o que gosta
Não há mistérios em descobrir
O que você é e o que você faz

*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Ricardo Afonso Teixeira*

Na hora de escolher um político que irá comandar os rumos da sua cidade, estado ou país, é bem razoável pensarmos que esta escolha privilegiará o candidato que revele mais sabedoria. O mesmo se dá em outras escolhas da vida como um médico ou um psicoterapeuta, por exemplo. É comum termos a expectativa de que o(a) escolhido(a) seja uma pessoa sábia e não simplesmente sabida. A sabidas chamo aquelas que têm conhecimento técnico e experiência em determinado assunto. Mas uma pessoa sábia pode ir além.

Pesquisadores canadenses da Universidade de Waterloo conduziram um estudo recém-publicado pelo periódico Nature Communications para entender como as pessoas reconhecem que uma pessoa é sábia. Foram incluídos na pesquisa quase três mil indivíduos de doze países e cinco continentes. Duas qualidades principais foram identificadas como indicadores de sabedoria. A primeira é a aplicação do conhecimento de forma lógica associado a controle emocional e a segunda é a consideração e percepção dos sentimentos dos outros. Esses resultados foram semelhantes nas diversas culturas estudadas.

Os resultados também mostraram nas diferentes culturas que o pensamento lógico foi mais forte que a percepção dos sentimentos dos outros ao eleger se uma pessoa é sábia ou não. Se uma pessoa não for sabida, como descrevi anteriormente, seu componente de empatia não é suficiente para que ela seja considerada sábia. O líder do grupo de pesquisadores, Igor Grossman, exemplifica este fenômeno com o recente debate presidencial Trump-Biden em que Trump foi considerado vencedor. Apesar de Biden apresentar um melhor componente socioemocional, na articulação das ideias ele foi frágil.   

Algumas sociedades priorizam valores individualistas enquanto outras valores coletivistas. A atual pesquisa sugere que a forma de enxergar sabedoria no outro não é muito diferente entre elas. Ambas dão mais valor ao pensamento lógico do indivíduo do que na sua habilidade de relacionamento com os outros.

*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Por Ricardo Afonso Teixeira*

Uma crise de enxaqueca pode ser precedida por alguns minutos por alterações sensoriais, como estrelinhas no campo visual, que duram habitualmente poucos minutos. Este é um fenômeno que ocorre em cerca de um quarto das pessoas que sofrem de enxaqueca e é chamado de aura, uma das quatro fases da doença. Outra fase é a própria dor e ainda existem duas outras que falaremos a seguir.  

Antes mesmo dos sintomas de aura, muitas pessoas percebem, até com 48 horas de antecedência, que uma crise está por vir. Os sintomas incluem um aumento do apetite e sensibilidade à luz e a estímulos sonoros, fadiga, tontura, rigidez e/ou dor na musculatura do pescoço, bocejos, irritabilidade, entre outros. Esses sintomas premonitórios representam a fase prodrômica da enxaqueca. A última fase é chamada de posdrômica, com sintomas semelhantes às da fase prodrômica e é como se fosse uma ressaca após a fase de dor, podendo durar até 48 horas.

      

Se a maioria das pessoas com enxaqueca reconhece sintomas premonitórios, um estudo mostrou que este é o caso em 77% dos pacientes, por que não usar uma medicação para abortar a crise ainda nesta fase? Teoricamente isso faz todo sentido e nesta quarta-feira (28 agosto) tivemos a publicação de um estudo na revista Neurology da Academia Americana de Neurologia mostrando de forma pioneira que o uso de medicação já no pródromo é mais eficaz do que no início da fase de dor. A medicação utilizada foi o ubrogepant, ainda não disponível em nosso meio, mas os resultados positivos podem se replicados com medicações disponíveis no Brasil e precisam ser testados em novos estudos.

*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Por Ricardo Afondo Teixeira

Muitos encontraram maior equilíbrio entre o trabalho e a vida pessoal com os modelos de trabalho remoto e híbrido. É claro que isso importa não só para os colaboradores, mas também para as instituições. Mentes mais equilibradas e satisfeitas no trabalho significam maior produtividade, menor absenteísmo, menor rotatividade e talvez até mais inovação quando se pensa no médio e longo prazo.

O assunto inovação nesses diferentes esquemas de trabalho tem sua primeira análise empírica publicada na última semana no periódico Scientific Reports por pesquisadores da Universidades de Essex, na Inglaterra. Foi estudada uma plataforma interna de uma empresa de tecnologia na Índia que incentivava seus colaboradores a alimentá-la com ideias inovadoras. Algumas eram aprovadas e executadas e outras descartadas. 

Os colaboradores que trabalhavam presencialmente foram os que mais alimentaram a plataforma com ideias inovadoras, à frente daqueles em modelos de trabalho remoto ou híbrido. E mais, foram os que tiveram as ideias mais aprovadas, tanto por supervisores como por clientes. Uma explicação para o resultado é a de que o contato presencial de uma equipe traz mais colaboração do que as interações virtuais. Recentemente, e ironicamente, o CEO do Zoom, plataforma em que fazemos reuniões virtuais, decidiu que os colaboradores deveriam trabalhar mais presencialmente com o principal objetivo de recuperar os indicadores de inovação da empresa.

É importante ressaltar que o modelo híbrido pode ter mais sucesso quando é bem gerenciado. Ao invés de ter colaboradores presentes na instituição de forma aleatória, alguns na segunda-feira outros na terça, por exemplo, a definição de um ou mais dias na semana em que todos se encontram pode trazer melhores resultados. Além da troca presencial com pessoas importantes em determinado projeto, o encontro com pessoas envolvidas em outros projetos e de outras áreas pode ser um combustível poderoso para novas ideias.

*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Ricardo Afonso Teixeira*

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Por muito tempo, o termo esclerosado era usado para se referir ao estado de uma pessoa portadora de demência. Hoje consideramos que boa parte das pessoas “esclerosadas” eram, na sua maioria, portadoras da Doença de Alzheimer (DA), mas existem outras causas de demência, como a frontotemporal que acometeu o ator Bruce Wyllis e a causada por doença cerebrovascular.

Nos estudos que foram feitos para testagem de novas medicações para a DA, sempre havia um contingente significativo de voluntários que não apresentava qualquer melhora após o início das drogas. Além disso, as pesquisas também mostravam que muitos desses voluntários não apresentavam os marcadores patológicos da doença quando eram submetidos a necropsias. Estudos recentes têm demonstrado que muitas dessas pessoas podem, na verdade, ser portadoras de uma outra forma de demência que recebeu o nome de LATE. LATE é a sigla recém-proposta por múltiplos centros de pesquisa para Limbic-predominant age-related TDP-43 encephalopathy. Limbic é o envolvimento preferencial da doença nos circuitos límbicos, semelhante à DA; Age related nos diz que é uma doença que ocorre em idosos, de forma mais gradual e numa idade até mais avançada que na DA; TDP-43 diz respeito ao acúmulo de proteínas com esse mesmo nome; Encephalopathy significa disfunção cerebral difusa.

Peter Nelson, primeiro autor da publicação, compara o trabalho desse consórcio de pesquisadores com a descoberta da eletricidade por Benjamin Franklin. O grupo publicou no periódico Brain em 2019 critérios patológicos para identificação de LATE à necropsia. Os estudos realizados até o momento mostram uma prevalência da patologia de LATE em necropsias que gira em torno de 20% dos indivíduos acima de 80 anos e, em muitos casos, a DA ocorre concomitantemente.

O que era uma entidade que só poderia ser diagnosticada pela necropsia, passa a ter a partir deste mês critérios diagnósticos clínicos, de neuroimagem e outros biomarcadores que permitem que o diagnóstico seja feito em vida. Este é o resultado do trabalho de pesquisadores da renomada Mayo Clinic, nos EUA, que cunharam a nova sigla LANS para uso na prática clínica – síndrome amnéstica neurodegenerativa de predomínio límbico e que tem o LATE como seu principal representante quando os critérios para LANS são fortes.

Os critérios clínicos são um grande avanço para o delineamento do prognóstico de pacientes idosos com quadros de amnésia, especialmente no momento em que terapias que retardam o avanço da DA já estão disponíveis e logo estarão chegando ao Brasil. Aqui estou me referindo aos anticorpos monoclonais. Os critérios ajudam a separar o que é LATE e o que é DA e vale lembrar que os anticorpos monoclonais teoricamente só trariam benefícios aos pacientes com esta última doença.

 *Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Por Dr. Ricardo Afonso Teixeira

Em 2022, tivemos o dia mais frio da história aqui no Distrito Federal. Os termômetros marcaram 1.4ºC e a sensação térmica ficou abaixo de zero. E não é que tinha gente nadando na Água Mineral? Essa temperatura hostil possivelmente traz algum bem-estar para esses nadadores. Sabemos que nessa hora tiveram maiores concentrações do hormônio cortisol e de neurotransmissores como noradrenalina, dopamina e endorfina.  

 

No ano de 2017, o jornalista e antropólogo americano Scott Carney publicou seu livro “What doesn´t kill us” (O que não nos mata, em tradução livre) que foi muito bem recebido e fez parte da lista de bestsellers do New York Times. Scott tinha um projeto de escrever um livro sobre falsos profetas quando teve conhecimento de Wim Hof, um guru holandês conhecido por Iceman (homem gelo) e logo pensou que ele poderia ser mais um candidato para compor os personagens de seu livro.

 

Hof é conhecido como homem gelo, pois preconiza o reencontro do Homo sapiens com o ambiente natural sem o conforto a que estamos acostumados e isso inclui enfrentar temperaturas geladas sem proteção térmica. O homem gelo defende que a prática de uma rotina de meditação no frio extremo promove a regulação do nosso sistema nervo autônomo, com benefícios ao estado mental, imunológico entre outros.

 

Scott foi atrás de Hof na Polônia e, até a publicação do livro, Scott já estava o seguindo há quatro anos. O que era para ele um possível charlatão passou a ser um guru. Entrou para o livro dos recordes subindo quase nu, junto a Hof e outros seguidores, o Kilimanjaro a seis mil metros de altitude.  

 

No livro você pode encontrar estudos que avaliaram particularidades fisiológicas do corpo de Hof, como um contingente avantajado de gordura marrom. O tecido adiposo marrom é abundante em animais que hibernam como os ursos, mas também existe entre os humanos e de forma bem mais expressiva nos recém-nascidos. Esse é um tecido que tem a capacidade de produção de calor para o organismo bem superior a qualquer outro tipo de tecido do corpo, e nos animais, é bem reconhecido que essa gordura varia nas diferentes épocas do ano por conta de mudanças de temperatura. 

 

A onda “Iceman” está correndo o mundo e recentemente recebi pelas redes sociais uma prática de imersão em uma tina de gelo na Chapada dos Veadeiros. Temos algumas evidências de que a água gelada pode ter efeitos positivos para o humor e nos sistemas imunológico, endócrino e cardiovascular. Pode trazer riscos? Sim. Exposição prolongada a águas com temperaturas muito baixas pode levar a hipotermia, estresse cardíaco e arritmias. Cuidado especial deve ser tomado por aqueles com sabida patologia cardiovascular. Para os que não estão acostumados, um treinamento sob orientação profissional pode garantir mais segurança para ingressar nessa onda Iceman. Vale lembrar que o banho frio de chuveiro tem o seu lugar e pode até trazer benefícios semelhantes.

*Dr. Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp, professor do curso de medicina do Unieuro e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Ricardo Afonso Teixeira*

Não é raro no consultório neurológico a apreensão de mulheres em tratamento para epilepsia que descobriram que estão grávidas. Exceto nos casos em que há um transtorno psiquiátrico grave associado, a grande maioria das mulheres que fazem tratamento para controle de crises epilépticas podem e devem ficar grávidas se este for o desejo.

Elenco a seguir algumas informações que devem ajudar a reduzir a ansiedade de pacientes e médicos quando frente à condição epilepsia e gravidez e podem também colaborar para a redução do estigma associado à doença. As recomendações foram atualizadas recentemente pela Academia Americana de Neurologia no periódico Neurology.

Há evidências inequívocas de aumento do risco para a mãe e o feto se a medicação for interrompida durante a gravidez, atitude não rara por medo da medicação vir a prejudicar o desenvolvimento fetal. Controle das crises por pelo menos 9 meses antes da gravidez significa uma chance de 84-92% da mulher não ter crises durante a gravidez.

Toda mulher fértil deve usar ácido fólico em combinação com a medicação antiepiléptica para reduzir o risco de malformações fetais, mesmo se não estiver planejando gravidez. Quando descobre que está grávida, a mulher não deve interromper seu tratamento. Se planeja ficar grávida, é bom discutir com o médico se há opções terapêuticas com menor risco. De todas as medicações, o valproato de sódio é o que está associado ao maior risco de malformações (9.7%). Em seguida vem o topiramato e fenobarbital. As drogas oxcarbazepina, lamotrigina ou levetiracetam devem ser consideradas como boas opções a depender do tipo de síndrome epiléptica. Entre essas três medicações, os índices de malformações ficam entre 3.1 e 3.5%. Sempre que factível, evitar a politerapia. Vale lembrar que o risco de malformações fetais na gravidez de uma mulher que não tem epilepsia e não usa drogas antiepiléticas é de 2.4% a 2.9%.

*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp, professor do curso de medicina do Unieuro e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Por Dr. Ricardo Teixeira*

Um dos fenômenos muito especiais da maternidade é o deslocamento do eixo de preocupações de uma fêmea. A vida orientada para suas próprias necessidades passa a se concentrar também no cuidado e bem-estar de seus filhos.

A natureza dá uma força para que esse projeto de cuidar da cria seja bem sucedido, já que as alterações hormonais características da gravidez, parto e lactação, permitem que o cérebro das mães seja “turbinado” nessas fases. O cérebro materno é por definição um modelo espetacular do fenômeno de neuroplasticidade, que é a capacidade do cérebro em criar novas conexões em resposta a um estímulo.


A maior parte das evidências de incremento de funções cerebrais com a maternidade tem origem em estudos com mamíferos inferiores, especialmente os roedores. Pesquisas apontam que não só as alterações hormonais, mas também o ambiente rico em estímulos associados à maternidade (ex: múltiplas novas tarefas, sons, cheiros), têm um papel importante nesse upgrade cerebral das mães.


A maioria dos mamíferos compartilha instintos maternais de defender seu ninho e sua cria. Ao ter que optar entre sexo, drogas, alimento ou seu ratinho recém-nascido, as mamães ratinhas escolhem seus ratinhos. O cuidado com os filhotes ativa nas mães centros cerebrais de recompensa ligados ao prazer, mesmo no caso de filhotes adotivos. Esse fenômeno também foi demonstrado entre as mães humanas ao ouvir o choro dos filhos, ou simplesmente ao olhar para eles.

Em ratinhas, temos evidências de que a maternidade provoca aumento do volume dos neurônios e mais conexões em algumas regiões cerebrais. Mais recentemente, tem sido demonstrado também o fenômeno de geração de novos neurônios. As mães passam a apresentar melhor desempenho em orientação espacial e memória, ficam mais corajosas e rápidas para capturar a presa, e com menos sinais de ansiedade em situações de estresse. Tudo em prol de uma maior capacidade de alimentar as crias. Artemis é ao mesmo tempo a deusa grega do parto e da caça.

E esses efeitos parecem durar bastante. As mamães ratinhas chegam ao equivalente humano de 60 anos de idade com melhor desempenho e coragem, além de menor declínio cognitivo e também menos sinais de degeneração cerebral quando comparadas a ratinhas virgens da mesma idade.

 
Cerca de 80% das mulheres na gestação, especialmente no terceiro trimestre, queixam-se de menor desempenho cognitivo e alguns estudos confirmam essa tendência, mas demonstram que a intensidade não chega a atrapalhar as atividades do dia a dia. Temos evidências também que, após o parto, a mães recuperam suas habilidades e ficam até mais eficientes do que antes da gravidez. O atual corpo de evidências, juntando resultados de modelos animais e humanos, nos permite pensar que a maternidade colabora para uma maior reserva cognitiva, deixando as mulheres mais resilientes ao processo de envelhecimento cerebral. Entretanto, conclusões ainda devem ser tratadas com cautela, pois há muito que se investigar ainda, especialmente no impacto de longo prazo da maternidade sobre o cérebro.

As mães modernas, com suas rotinas de malabaristas, devem apresentar adaptações cerebrais mais robustas do que as dos modelos animais, já que são submetidas a um nível de estimulação ambiental como nenhuma outra espécie. Além de cuidar da cria e de sua própria sobrevivência, protagonizam diversos outros papéis simultâneos (esposa, amante, conselheira, profissional, dona-de-casa, etc.). É estímulo para dar, vender e jogar fora.

*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp, professor do curso de medicina do Unieuro e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Ricardo Afonso Teixeira*

Chegamos aos 70 anos com o cérebro mais protegido contra declínio cognitivo quando temos um trabalho desafiador ao logo das décadas. Essa é conclusão de um estudo norueguês publicado recentemente pela Neurology, periódico da Academia Americana de Neurologia.

Após analisarem sete mil pessoas em 305 diferentes ocupações, os pesquisadores demonstraram que 42% dos que tinham um trabalho com baixa demanda cognitiva apresentaram déficit cognitivo após os 70 anos, comparados a 27% daqueles com trabalho de alta demanda. O ofício que trouxe o maior efeito protetor foi o de professor. Os resultados foram ajustados para outros fatores como sexo, nível educacional, renda e atividade física regular. Outro estudo, realizado com funcionários públicos ingleses, já havia apontado que trabalhos considerados passivos, com pouca autonomia e baixa demanda em dimensões psíquicas e sociais, estão associados a maior sedentarismo.

Mas isso não é tudo. Hirayama é o personagem do premiado filme “Dias Perfeitos”, ainda em cartaz nos cinemas, e nos mostra aquilo que as pesquisas dificilmente conseguirão detectar. Hirayama trabalha como limpador de banheiros públicos em Tóquio. Tem uma rotina de trabalho repetitiva, mas tem dois canais de conexão essenciais abertos que nos fazem enxergar a experiência humana em outras dimensões. O primeiro deles eu chamaria de amor à vida. Aqui incluo a empatia e a forte ligação com o mundo natural, seja em casa ou nos seus intervalos de almoço no trabalho. O segundo canal é o amor à arte. Sempre que tem uma oportunidade saca sua câmera fotográfica para registrar elementos do seu primeiro canal de conexão. A música o acompanha com suas fitas cassetes e, como todo filme do diretor Wim Wenders, a trilha é impecável. Chega em casa, deita-se no chão e liga sua luminária de luz fraca para ler William Faulkner. Difícil imaginar que Hirayama faça parte do grupo com maior chance de declínio cognitivo desse estudo que descrevemos anteriormente pelo fato de seu trabalho exigir pouca demanda cognitiva. Ele pode até ter traços obsessivos, mas eu diria uma obsessão do bem.

Dica de filme, mas também vai uma de livro. Faulkner já estava na mira após o relato de Gabriel Garcia Marques de que ele tenha sido o autor que mais o influenciou. O mesmo diz John Fosse, autor Norueguês, vencedor do último Prêmio Nobel de Literatura. Hirayama me inspirou a encarar “O Som e a Fúria” de Faulkner, uma sinfonia com todos os seus movimentos. O livro não é tão extenso, mas um livro difícil, talvez uma sinfonia de Mahler e não de Mozart, em que o leitor terá sua descomunal recompensa se não desistir antes de chegar ao final e ovacionar o maestro e sua orquestra.

* Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp, professor do curso de medicina do Unieuro e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Ricardo Afonso Teixeira*

Os japoneses têm uma tradição chamada de hakidashisara, em que hakidashi significa cuspir, expulsar, purificar, e sara se refere a um prato ou disco. Eles escrevem sobre pensamentos negativos numa placa e depois a destroem. Hakidashisara é um festival anual em que as pessoas quebram pequenos discos que representam coisas que as deixam com raiva, levando-as a uma sensação de alívio.

Pesquisadores da Universidade de Nagoya acabam de publicar na Scientific Reports da Nature os resultados de um estudo que mostra que, ao sentir raiva, a simples atitude de escrever sobre a resposta emocional ao incidente em um pedaço de papel, e jogá-lo no cesto de lixo ou triturá-lo, é capaz de neutralizar esse sentimento negativo. Os voluntários voltavam a ter os mesmos níveis de raiva que tinham antes do insulto. Isso não acontecia com aqueles que escreviam, mas eram instruídos a guardar o papel. Estes apresentaram uma redução apenas discreta dos níveis de raiva.

O estudo reforça evidências anteriores de que escrever ajuda no controle da raiva e os autores chamam atenção paras as inúmeras aplicações práticas, especialmente na redução da violência doméstica. Eles reportam que ficaram surpresos com a intensidade desse efeito após o descarte do papel e foi a primeira vez que isso foi demonstrado empiricamente.

 *Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp, professor do curso de medicina do Unieuro e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

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