Algumas pessoas relatam visões coloridas, em padrões ou com apresentação caótica, por vezes até cenas, na proximidade do orgasmo, durante o clímax e até no período imediato de recuperação após o orgasmo. A isso se dá o nome de sinestesia sexual, um tipo aparentemente incomum de sinestesia que tem chamado a atenção dos cientistas nos últimos anos, apesar de ter sido descrito ainda na década de 1970.
Sinestesia é uma condição que afeta cerca 4% da população e é reconhecida como um fenômeno de circuitos sensoriais cruzados. A leitura de uma determinada letra ou número, por exemplo, pode ativar a percepção de uma cor. Outra forma que não é rara são determinados sons que evocam experiências de cores.
Ainda temos poucos estudos explorando a sinestesia sexual, mas os relatos já nos mostram que ela é mais comum com parceiros habituais em que existe uma relação de confiança e raramente ocorre no sexo casual ou na masturbação. Quase todos têm uma relação positiva com o fenômeno e dizem que a experiência sexual fica mais rica. Alguns têm a percepção visual associada a sons e relatam receio de ser uma manifestação de um quadro psiquiátrico como a esquizofrenia. É muito frequente também a percepção distorcida de um estímulo sensorial fora da atividade sexual. Um exemplo é a síndrome de Alice no País das Maravilhas em que a pessoa percebe as coisas maiores ou menores do que realmente são. Esses pontos foram extraídos da tese de doutorado de Cathy Lebeau da Universidade de Quebec, no Canadá, em que entrevistou 16 pessoas com sinestesia sexual e que foi descrita na última semana por Kate Evans na revista Scientific American.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília
No ano de 2012, um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade da Califórnia sugeriu que a cólica dos lactentes pode na verdade ser uma precursora da enxaqueca ao mostrar que o risco é mais de duas vezes maior nos bebês que têm mães que sofrem de enxaqueca. Enquanto 29% dos bebês de mães com enxaqueca apresentavam cólica, apenas 11% daqueles de mães sem enxaqueca tinham o problema.
No ano seguinte, outro estudo de muito impacto encorpou a ideia dessa associação ao mostrar que crianças e adolescentes com enxaqueca tinham muito mais chances de ter apresentado cólica quando bebês quando comparadas a controles sem enxaqueca (72.6% X 26.5%). Desde então uma série de estudos, incluindo uma metanálise, vêm confirmando esses resultados.
Existem algumas condições clínicas que acontecem de forma recorrente na infância e que são entendidas como expressões precoces de genes que mais tarde serão expressos como enxaqueca. Entre essas condições podemos citar crises de torcicolo, vertigem, vômitos cíclicos, além das misteriosas cólicas dos bebês.
O choro normal da criança começa a se intensificar nas primeiras semanas de vida, alcança o seu topo entre a sexta e oitava semana, e aos três meses já começa a dar uma trégua. A cólica dos bebês é uma forma intensificada desse choro e é definida como crises de choro por pelo menos três horas e pelo menos três vezes por semana. Também é chamada de choro inconsolável e está associada a uma maior incidência de casos da síndrome do bebê chacoalhado, condição em que um adulto sacode a criança para discipliná-la tentando interromper o choro. Isso pode levar a lesões traumáticas de diferentes gravidades.
O termo cólica traz uma conotação de que o desconforto tem origem no aparelho digestivo e são vários os estudos que tentam ligar a cólica com gases intestinais, microbiota, alergia à proteína do leite, intolerância à lactose. Alguns apresentam resultados positivos e outros negativos.
Por que seria um bebê com bagagem genética de um “cérebro de enxaqueca” mais propenso a ter crise de choro? Uma das maiores características de um cérebro enxaquecoso é a hiperexcitabilidade, uma maior sensibilidade a estímulos sensoriais como ruídos e luz. A transição do útero para o mundo cheio de estímulos pode fazer mesmo diferença a partir de algumas semanas, a partir de um nível de desenvolvimento da acuidade visual e auditiva. Isso pode explicar o porquê da cólica ser mais frequente entre a sexta e oitava semana de vida, e não no período neonatal. Uma pesquisa chegou a demonstrar que a restrição de estímulos sensoriais foi capaz de reduzir o problema.
Com esse corpo de conhecimento, já se discute a modificação do termo cólica por algo como “Agitação Paroxística do Lactente” já que a raiz do problema pode ter mais a ver com o cérebro do que com a barriga.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília
“Deve existir algo para estimular sua imaginação, sua determinação e convicção. Sua realidade é muito limitada. Prefiro viver em um estado de sonho acordado. Um sonho acordado perpétuo” – Carlos Santana no documentário Carlos, 2023.
Você está lavando a louça, no piloto automático, e a mente começa a vaguear, o pensamento foi para sua próxima viagem de férias. Para tarefas pouco complexas, manter o pensamento em outro lugar pode fazer o trabalho ficar mais ágil porque nesse estado o cérebro consegue processar detalhes que ficam escondidos nas entrelinhas. É um estado semiacordado com aumento do contingente de ondas lentas características do sono profundo e que são crucias para a consolidação da memória.
Alguns estudos já mostraram que em tarefas simples esse estado de sonhar acordado pode muitas vezes ser um aliado do nosso desempenho cognitivo, incrementando, por exemplo, nossa criatividade. Um fator que já foi demonstrado estar associado à tendência de vaguear é a capacidade de estar aberto a novas experiências e a conteúdos fantásticos. E isso pode ser um grande parceiro da criatividade.
Isso tudo nos faz pensar que um cérebro com boa atenção e processamento rápido é importante, mas as fugidinhas do pensamento podem também ser muito interessantes, especialmente para a criação e consolidação da memória. E o que seria do nosso equilíbrio mental sem boas doses de fantasia? Isso me fez lembrar de outro documentário, este de Kleber Mendonça, Retratos Fantasmas. Após mostrar a substituição dos cinemas de rua do Recife por farmácias e igrejas, o motorista de aplicativo nas cenas finais fala a Kleber, seu passageiro, que ele tem um um superpoder de se tornar invisível e o documentário termina com o carro andando sem ninguém ao volante. Isso me fez sentir que tiraram do motorista o convívio diário com os cartazes dos filmes fantásticos no centro da cidade e seu aparelho psíquico logo se incumbiu de repor a dose de fantasia. Não tem mais King Kong, Tubarão, mas tem homem invisível.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília
A literatura médica descreve efeitos benéficos do consumo moderado de café em diferentes sistemas do nosso corpo. Reduz o risco de diabetes, doenças cardiovasculares, alguns tipos de câncer e doenças neuropsiquiátricas como depressão, Alzheimer e Parkinson. As restrições ao seu consumo são poucas e podemos falar das pessoas que têm intolerância gástrica ao café, gestantes que devem evitá-lo e indivíduos com osteoporose que podem ser prejudicados com seu consumo em excesso. Além disso, o café deve ser evitado após certa hora do período vespertino para não provocar insônia. Mas como o café exerce esse seu poder estimulante? A cafeína é a grande responsável por esse efeito ao se ligar a receptores de adenosina do cérebro que promovem uma inibição da atividade cerebral – adenosina é um neurotransmissor inibitório. A cafeína tem uma ação inibitória nesses receptores fazendo uma inibição de um sistema que é inibitório. Por isso o efeito final é estimulante. Quando reduzimos o efeito do freio de mão, o carro anda mais. Assim age a cafeína. Quando acordados ficamos mais despertos, mas como fica o sono sob a influência da cafeína?
O entendimento da cafeína sobre o sono teve um grande salto há cerca de um mês após uma análise dos ritmos cerebrais no eletroencefalograma com a assistência de inteligência artificial e conduzida por pesquisadores da Universidade Montreal no Canadá. A cafeína torna os sinais cerebrais otimizados para o processamento de informações e tomada de decisões mesmo durante o sono. É um estado ótimo durante o dia, mas esse padrão semiacordado e reativo pode interferir com o poder reparador do sono. A cafeína inibiu o contingente de ondas lentas do sono, ondas que estão associadas ao sono profundo e restaurador. Aumentou, por outro lado, o contingente de atividade beta no sono, atividade que é caraterística do estado de vigília. Esses efeitos são mais intensos entre indivíduos mais jovens, explicado por uma maior concentração de receptores de adenosina na juventude. O estudo foi publicado pela Nature Communications Biology.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília
A maioria das mulheres melhoram muito das crises de enxaqueca no período da gravidez, mas cerca de 8% pioram nessa fase e isso aumenta o risco de desfechos clínicos ruins, tanto da mãe quanto do bebê. É muito comum na prática clínica de um neurologista o atendimento de gestantes sofrendo de crises debilitantes de enxaqueca e na maioria das vezes por subtratamento. É frequente a gestante receber a orientação de que o paracetamol é a medicação mais indicada nesses casos. Entretanto, as crises nem sempre são responsivas a essa medicação.
Os triptanos são uma família de medicações com eficácia superior aos analgésicos comuns, como o paracetamol, e há vários anos já são considerados seguros no tratamento da enxaqueca na gestação. Entretanto, estima-se que três em cada quatro mulheres interrompem o uso dessas medicações ao descobrirem que estão grávidas.
O sumatriptano é o mais estudado deles e esta semana tivemos mais uma evidência robusta que seu uso antes e durante a gravidez não interferiu no neurodesenvolvimento de crianças acompanhadas por oito anos em média, alguns até os 14 anos de idade. De todas as gestações na Noruega, os filhos das mulheres que usaram sumatriptano no último ano antes da gravidez e durante a gravidez não apresentaram maiores índices de retardo mental, transtornos de comportamento ou linguagem, transtorno do espectro autista ou transtorno de déficit de atenção e hiperatividade. Ótimas notícias para as gestantes e mais uma evidência para encorajar os médicos a perderem o receio de prescrever triptanos durante a gestação. O estudo foi publicado nesta quarta-feira (21 maio) na Neurology, periódico da Academia Americana de Neurologia.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília
Adolescentes com depressão e ansiedade têm a tendência em usar as redes sociais por 50 minutos a mais que outros da mesma idade sem qualquer condição psiquiátrica. Além disso, sofrem mais com comentários que recebem e ao comparar o número de amigos/seguidores ou likes das suas publicações com os dos outros. Esses são resultados de um estudo com mais de três mil adolescentes publicado este mês pelo prestigiado periódico Nature Human Behaviour. É um dos primeiros estudos e o mais robusto até o momento que analisa os impactos das redes sociais em adolescentes que sofrem de transtornos psiquiátricos. Não há como descartar a possível influência do exagero das redes sociais na deflagração ou perpetuação dos quadros clínicos. Entretanto, esse potencial de deflagração parece não ser grande.
Outra pesquisa publicada pelo mesmo periódico em 2019 usou um método de análise estatística rigoroso de três estudos de larga escala voltados à saúde mental dos adolescentes e mostraram que o impacto das mídias digitais existe, mas é pequeno. Chega a ser responsável por no máximo 0.4% da variação do bem-estar psíquico de um adolescente.
Os pesquisadores compararam os efeitos do mundo digital com outros fatores que os adolescentes são confrontados, como exposição ao álcool, tabagismo, bullying, privação de sono, dieta saudável e hábito de tomar café da manhã, uso de óculos ou hábito de ir ao cinema, etc. Quase todos esses fatores tiveram efeitos mais significativos no bem-estar dos adolescentes que o tempo que passavam na frente dos dispositivos digitais. Em comparação aos 0.4% de impacto descrito acima, bullying tinha um impacto de 2.7% e uso da maconha era de 4.3%. O tamanho do efeito negativo das mídias digitais foi comparável ao hábito de comer batatas regularmente e menor do que o de usar óculos.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília
O JAMA Netw Open, periódico da Associação Médica Americana, publicou esta semana resultados de um estudo com voluntários com mais de 65 anos mostrando que muitos dizem que têm interesse em saber sob seus riscos de apresentar a Doença de Alzheimer, mas quase metade desses declinam. E não é por dar trabalho ou falta de recursos para realizar exames, pois eles já haviam sido feitos no decorrer de um longo projeto de pesquisa conduzido pela Universidade de Washington em Saint Louis. É não querer saber mesmo. E a principal razão apontada foi a de evitar a carga psicológica em saber sobre esse risco. Aqueles que tinham familiares com a doença tinham menos interesse em saber sobre os exames.
Pouco se estudou sobre o impacto psicológico sobre os resultados de biomarcadores da Doença de Alzheimer entre voluntários de estudos para a doença. Existem evidências ainda limitadas de que ter conhecimento dessa informação não traz repercussões psicológicas tão negativas. Um estudo pioneiro publicado ainda em 2009 pelo The New England Journal of Medicine avaliou o estado psicológico entre saber ou não saber sobre um desses biomarcadores (genotipagem da apolipoproteína E). Não houve diferença entre os níveis de ansiedade, depressão e estresse psíquico entre os dois diferentes grupos – saber ou não saber. Entretanto, aqueles que receberam resultados de menor risco no teste apresentaram menor grau de estresse psicológico, e aqueles que receberam resultados de maior risco apresentaram maior estresse psicológico, mas por um período de tempo limitado.
Esses estudos são de extrema importância no momento em que medicações que mudam o curso natural da doença passarão a estar disponíveis e será fundamental que diagnósticos sejam feitos cada vez mais precocemente. Estaremos começando essa nova era no tratamento do Alzheimer com o Donanemab, um anticorpo monoclonal recentemente aprovado pela Anvisa e com resultados clínicos bem modestos e preços nada, nada modestos.
Por ora, esses exames não devem ser realizados na população geral, mas apenas em pacientes selecionados por médico especializado no assunto, pois um resultado sem a devida orientação e aconselhamento pode trazer prejuízos para o equilíbrio psíquico.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília
A Scientific American, publicação do grupo editorial da Nature, nos trouxe este mês uma reflexão que compara o comportamento das atuais gigantes da mídia com a das companhias de tabaco no século passado. O artigo é assinado pelo cientista David Robert Grimes, um dos grandes nomes mundiais na luta contra a desinformação.
Desde a década de 1940 já tínhamos evidências da associação entre o tabagismo e câncer de pulmão e, ainda na década de 1950, as companhias de cigarro contrataram uma campanha publicitária poderosa para reforçar a ideia de dúvida. Criava assim na população geral uma opinião de que a associação entre cigarro e câncer era ainda controversa. Mark Zuckerberg da Meta usa a mesma estratégia da dúvida quando diz que não existem evidências científicas que mostrem um efeito danoso das redes sociais sobre a saúde mental, apesar de centenas de estudos mostrarem o contrário.
Zuckerberg anunciou este ano a interrupção da checagem de fatos, modelo já seguido pelo X, com a justificativa de que a checagem tinha um custo alto e por não respeitar a liberdade de expressão. Elon Musk do X se autointitula um defensor da liberdade de expressão absoluta e elenco aqui dois resultados dessa liberdade absoluta: incitação pelo Facebook ao genocídio em Mianmar em 1998 e um vídeo no Tik Tok que alcançou 1.8 milhão de views recomendando lavagem intestinal anual com água sanitária para a prevenção/tratamento de parasitose intestinal. Há pouco tempo uma criança de oito anos morreu vítima de um desafio da internet que propunha inalação de desodorante.
Para que a desinformação cause danos, ela não precisa convencer. Só precisa gerar dúvidas. É o fenômeno da verdade ilusória, quando a exposição repetida de uma informação nos faz aceitá-la, mesmo que intelectualmente sabemos que se trata de uma ideia falsa. Um capítulo à parte são os riscos que informações sem qualquer tipo de regulação oferecem às democracias. Juristas, ex-ministros, artistas lançaram recentemente um manifesto que pede regras para as redes sociais. O manifesto diz “Se é crime no mundo físico, também deve ser crime no mundo virtual! Internet sem regulamentação mata!”. Aqui você tem o link para assinatura: https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLSfm6UEfbjh-Hvltw5lICgTgW5mJfZmZ0MA2kYnr69A77dBl9g/viewform?pli=1
*Ricardo Afonso Teixeira é Doutor em Neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília
A definição de síndrome metabólica é um quadro de pelo menos três desses fatores: obesidade, hipertensão arterial, diabetes, aumento da taxa de triglicérides e redução do colesterol bom (HDL). A Academia Americana de Neurologia publica hoje no seu periódico Neurology um estudo que mostra um risco aumentado de demência entre os portadores desta síndrome. O risco teve um padrão cumulativo, ou seja, maior quanto mais critérios da síndrome estavam presentes, com um aumento na chance de desenvolver demência em 70% quando todos os critérios estavam presentes.
A idade dos participantes do estudo merece uma atenção especial. Os indivíduos faziam parte de uma amostra de duas mil pessoas que realizaram um check-up na Coreia do Sul com idades entre 40 e 60 anos em que 25% apresentavam síndrome metabólica. O acompanhamento médio desses indivíduos foi de oito anos e a identificação dos quadros de demência ocorreu antes dos 65 anos, em idades precoces quando comparados à maioria dos diagnósticos de demência. Os resultados mostraram que quanto mais precoce o diagnóstico de síndrome metabólica maior o risco de demência.
Nesse estudo, o subgrupo de pacientes com síndrome metabólica, mas sem obesidade, tinham um risco menor de demência do que aqueles com obesidade. Entretanto, o impacto negativo da obesidade sobre o cérebro já é bem reconhecido, tanto no que diz respeito a habilidades cognitivas, como na morfologia e conectividade funcional. Uma pesquisa longitudinal publicada em março deste ano pela prestigiada revista Nature Mental Health mostrou que essa influência no cérebro é dependente da duração e severidade da obesidade.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília
Pesquisadores da Universidade de São Paulo publicaram nesta quarta-feira na Neurology, periódico da Academia Americana de Neurologia, um estudo apontando que o cérebro fica mais suscetível a lesões cerebrais com o consumo de mais de oito doses de álcool por semana. Foram estudados 1781 indivíduos com média de idade de 75 anos e que foram submetidos a necropsia após morte de causa não traumática. O consumo de álcool nos últimos três meses de vida foi caracterizado através de questionário com familiares e separado em quatro grupos: abstêmios, consumo moderado (até sete doses por semana), consumo alto (oito ou mais doses por semana), consumo anterior alto (com pelo menos três meses de abstenção antes da morte).
Os resultados mostraram que indivíduos com história de alto consumo, oito ou mais doses por semana, apresentam maior contingente de placas neurofibrilares, consideradas biomarcadores da Doença de Alzheimer. Por outro lado, mesmo aqueles que tinham consumo moderado (até sete doses por semana), apresentavam mais lesões vasculares quando comparados aos abstêmios. Aqui estamos nos referindo a lesões secundárias ao espessamento e enrijecimento das pequenas artérias cerebrais (arterioloesclerose hialina). Uma dose de álcool correspondia a 14 g de álcool, 350ml de cerveja, 150 ml de vinho ou 45 ml de bebida destilada.
Temos acompanhado nos últimos anos uma série de estudos que demonstra que o consumo moderado de álcool reduz o risco de doenças cardiovasculares, incluindo o infarto do coração e o derrame cerebral. Além disso, é reconhecido que a relação entre álcool e doenças cardiovasculares tem um comportamento estatístico conhecido como curva J. Quanto mais alta a posição na curva J, maior o risco. Isso significa que a ausência de consumo de álcool, que está na ponta inferior do J, está associada a um risco maior de doenças cardiovasculares do que o consumo moderado que se encontra na “barriga” do J. Por outro lado, o consumo exagerado de álcool, que se encontra na ponta superior do J, reflete um maior risco de doenças cardiovasculares.
Alguns estudos epidemiológicos têm demonstrado que o álcool também tem um comportamento semelhante à curva J quando o assunto é declínio das capacidades cognitivas com o envelhecimento, sendo que o consumo moderado está associado a um menor risco de demência, e o consumo excessivo a um maior risco (ponta superior do J). Outras pesquisas não conseguem mostrar vantagem no baixo consumo sobre a abstenção.
Os resultados da presente pesquisa estão em linha com a corrente de pensamento de que o álcool em doses moderadas não protege o cérebro do ponto de vista neuropatológico e nem mesmo clínico. Um estudo de 2022 publicado pela Nature Communications, aponta que o consumo moderado de álcool está associado à redução do volume cerebral ao longo dos anos, fato que pode ter repercussão no desempenho cognitivo. Entretanto, existem também evidências de efeitos benéficos desse uso moderado (curva J) e atualmente essa discrepância de resultados é explicada por fatores confundidores presentes entre aqueles que consomem pouco álcool, como estilo de vida mais saudável, maior socialização e poder socioeconômico.
*Ricardo Afonso Teixeira é Doutor em Neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília
Pesquisa liderada pela Universidade de Viena e recém-publicada na Nature Communications mostra que voluntários sentem alívio de dor aguda ao serem expostos a vídeos de imagens da natureza. Imagens de ressonância magnética funcional apontaram que regiões do cérebro associadas ao processamento de dor eram menos ativadas, quando se comparou à exposição com outros tipos de vídeo, como o interior de uma casa ou cenas urbanas. Imagens da natureza se mostrando um potencial coadjuvante no tratamento da dor.
Há 40 anos, Ulrich publicou na Science a melhor evolução no pós-operatório de pacientes que tinham uma janela com visão de árvores comparado àqueles que só tinham uma parede de tijolos. Melhor evolução neste caso significa menor uso de analgésicos e alta mais precoce. Já visitei uma UTI na Alemanha em que os pacientes internados tinham a visão de um amplo jardim à frente dos leitos.
Ah! O exercício físico pode ser mais fácil quando a atividade física é feita na natureza, com mais vigor e menor percepção do esforço demandado. Mesmo que a natureza esteja presente de forme virtual no exercício, ela também favorece a regulação da pressão arterial. É o que se chama de Exercício Verde.
Alguns países como a Finlândia, Japão e Coréia do Sul têm programas de “banhos de floresta” como forma de promoção da saúde. São muitos os benefícios já demonstrados com essas pílulas de natureza. Além da promoção do equilíbrio psíquico, temos ganhos na atenção, memória, linguagem e até na capacidade criativa. Também temos menores índices de doença cardiovascular, obesidade, diabetes, hospitalização por crises de asma e, finalmente, menor mortalidade.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília
Hoje podemos dizer que 50% das chances de desenvolvermos a Doença de Alzheimer estão associadas a fatores genéticos e outros 50% a fatores ambientais. Entre os fatores ambientais, os vírus neurotópicos (i.e.,Herpesvírus) sempre foram considerados potencias agentes etiológicos, mas nunca antes tivemos uma evidência tão robusta dessa associação como a pesquisa publicada esta semana pela revista Nature.
Em 2013, um programa de vacinação no país de Gales no Reino Unido, por limitação na quantidade de doses, ofereceu vacinação para Herpes zoster para indivíduos com 79 anos de idade, no ano seguinte àqueles um ano mais jovens e assim por diante. O programa acabou sendo um experimento natural ímpar, pois permitiu a comparação com os indivíduos de 80 anos que não tiveram acesso à vacinação, apenas poucos dias, semanas, meses mais velhos. Isso foi muito próximo ao modelo de pesquisa padrão ouro para inferência de uma relação causa e efeito, os famosos estudos randomizados duplo-cegos.
Os idosos que receberam vacinação para o vírus Herpes zoster apresentaram uma redução de 20% no risco de apresentar um diagnóstico de demência em um período de sete anos. Os efeitos foram ainda mais significativos entre as mulheres.
Um corpo bem razoável de evidências laboratoriais e estudos clínicos com metodologia mais frágil mostra associação entre infecções virais, incluindo Herpes zoster, e o desenvolvimento de demência. A vacinação no presente estudo pode ter promovido uma melhora do estado imunológico geral, reduzindo o risco de demência, mas pode ter reduzido o componente inflamatório do cérebro ao inibir a reativação do vírus. Herpes zoster é o mesmo vírus da catapora que fica quiescente no nosso sistema nervoso, até que em idades mais avançadas eles podem ser reativados.
Planeja-se agora um estudo randomizado para testar os resultados em outras populações. A vacina usada no estudo foi a de vírus atenuado (Zostavax®) que vem sendo substituída pela de vírus inativado (Shingrix®). Ambos os tipos deverão ser testados.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília
Esta é uma receita bem comum na vida de casais que dividem o mesmo teto: homem trabalha o dia inteiro e leva dinheiro para casa, mulher trabalha o dia inteiro e leva dinheiro para casa, ele leva os filhos na escola e ela os busca. E o resto das atividades ligadas ao funcionamento de uma casa e de uma família? Não estamos falando de lavar, passar, cozinhar, fazer faxina, mas sim do trabalho cognitivo de gerenciamento de uma casa.
Existem escalas validadas para avaliar esse trabalho cognitivo doméstico, denominado “mental load” em inglês (carga mental, em tradução livre). Abaixo temos uma delas que divide esse trabalho em sete diferentes categorias. Veja só o quanto você está contribuindo:
1. Limpeza
1.a. Monitorar o momento que lençóis e toalhas precisam ser lavados
1.b. Dispensar roupas dos filhos que não servem mais
1.c. Supervisionar quando a casa precisa ser arrumada
2. Agendamento
2.a. Acompanhar a agenda familiar, como datas de vacinação dos filhos
2.b. Organizar um evento familiar, como o aniversário de um filho
2.c. Lembrar de marcar compromissos, como dentista
3. Assistência aos filhos
3.a. Buscar opções para itens que precisam ser comprados, como novos itens de material escolar, uniforme e calçados
3.b. Decidir por um profissional provedor de cuidados aos filhos (e.g., babá, creche, colônia de férias)
3.c. Supervisionar quando o filho precisa cortar as unhas
4. Manutenção
4.a. Anunciar, por exemplo, quando uma torneira ou a lavadora de roupas precisa de conserto
4.b. Agendar profissional para reparos em casa ou no carro
4.c. Lembrar de manutenção preventiva na casa ou no carro
5. Finanças
5.a. Pesquisar sobre produtos financeiros, como contas bancárias ou seguros
5.b. Decidir como investir o dinheiro
5.c. Monitorar os gastos domésticos mensais
6. Relações sociais
6.a. Buscar opções de socialização para as crianças (e.g., esportes, clubes)
6.b. Acompanhar datas de eventos esportivos e culturais
6.c. Marcar reuniões com família e amigos
7. Alimentação
7.a. Monitorar quais mantimentos precisam ser repostos
7.b. Decidir a refeição do dia
7.c. Verificar data de validade de alimentos e quais devem ser jogados fora
Os homens têm uma maior tendência em superestimar sua colaboração nesse trabalho invisível do que as mulheres. Eles têm melhorado um pouquinho no que diz respeito a trabalhos domésticos físicos, como limpeza e cuidado com os filhos, e assim como na distribuição do trabalho cognitivo, ambos ainda são bem assimétricos, recaindo mais sobre os ombros das mulheres, mesmo em casais que se julgam igualitários nesse aspecto.
Um estudo recente liderado por pesquisadores das Universidades de Bath e Melbourne (Inglaterra e Australia) mostrou que, entre americanos, 71% dessa carga mental fica com as mulheres e 45% com os homens. Elas tinham o encargo de atividades diárias duas vezes maior que os homens, enquanto eles se dedicavam mais a tarefas episódicas, como cortar a grama, por exemplo. A pesquisa foi publicada pelo Journal of Marriage and Family.
Assisti a uma entrevista com a apresentadora Fernanda Lima em que ela respondia sobre o exemplo de homem que é o seu companheiro Rodrigo Hilbert, homão da porr@, que faz muitas coisas que um homem não costuma fazer. Ela diz que ele faz mesmo e é o que o homem deveria fazer sem precisar fazer alarde, já que são milhões e milhões de mulheres que fazem o que culturamente é esperado dos homens e não são chamadas de mulherões da porr@.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília
Pesquisa liderada pela Universidade da California do Sul demonstra que idosos que apresentam dificuldade cognitiva apresentam uma menor eficiência dos pequenos vasos cerebrais nas regiões temporais. Esses achados foram encontrados em idosos com ou sem depósitos de proteínas associadas a doenças neurodegenerativas como a Doença de Alzheimer, sugerindo que alterações da microcirculação podem representar um biomarcador precoce de declínio cognitivo nessa faixa etária. Os resultados foram publicados este ano no periódico Neurology da Academia Americana de Neurologia.
Nossos vasos sanguíneos devem ser vistos como órgãos tão inteligentes e complexos como o fígado ou o coração, por exemplo. Quando nos levantamos, quando fazemos força, quando ficamos sem respirar por alguns instantes, todas essas situações exigem com que os vasos sanguíneos do cérebro adaptem seus calibres para manter sempre a mesma pressão do sangue que entra no cérebro. Se este controle falhar, alterações rápidas e transitórias do estado de consciência podem acontecer. As pequenas artérias do cérebro, também chamadas de arteríolas, são as maiores responsáveis por esse controle. O ato de pensar também exige uma vassorreatividade afinada.
No presente estudo, a eficiência dessa microcirculação foi testada com um teste de vasorreatividade após breves períodos de apneia. Quando prendemos a respiração, aumentamos o teor de gás carbônico no sangue o que leva a dilatação dos pequenos vasos cerebrais. É um mecanismo de autorregulação que, quando afetado, aumenta o risco de doença cerebrovascular e demência.
Tratamentos que visam aumentar a vasorreatividade cerebral nos lobos temporais, principais centros da memória, podem ser ferramentas poderosas no combate de condições como a Doença de Alzheimer. Enquanto não temos medicamentos específicos para alcançar esse alvo, devemos juntar todas as forças para evitar situações que sabidamente podem afetar essa autorregulação cerebral e aqui estamos falando de tratar com rigor problemas como a hipertensão arterial, diabetes e colesterol alto, além de evitar o sedentarismo. Tabagismo nem em pensamento.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília
O derrame cerebral, principal causa de morte em nosso país, é mais comum entre os idosos, mas tem ocorrido cada vez mais precocemente. Estudos apontam que os jovens chegam a representar uma fatia de quase 20% de todos os casos.
As mulheres têm alguns fatores de risco que os homens não têm e outros que elas apresentam de forma bem mais frequente.
Pílula anticoncepcional.
O tempo de exposição ao estrogênio pode ser estimado em uma mulher antes da menopausa pelo tempo entre a primeira menstruação e a menopausa adicionado ao tempo em que usou estrogênio como anticoncepcional. Uma pergunta muito comum no consultório neurológico é se o tempo prolongado do uso de anticoncepcionais pode aumentar o risco de derrame cerebral e uma grande pesquisa publicada em 2023 mostrou que maior exposição de estrogênio antes da menopausa, na verdade, reduz esse risco.
O estudo envolveu mais de 120 mil mulheres já na menopausa com acompanhamento por nove anos em média. Tanto o tempo de fertilidade, da primeira menstruação à menopausa, como o tempo de uso de estrogênio como pílula anticoncepcional, conferiram proteção contra a ocorrência de derrame cerebral.
Pesquisas anteriores já haviam demonstrado que o estrogênio tem um certo grau de proteção vascular no coração e no cérebro por suas propriedades vasodilatadoras, antioxidantes e de regulação no metabolismo do colesterol e glicose. Quando se pensa em reposição de estrogênio após a menopausa, essa proteção ocorre com o uso até os 60 anos de idade ou dentro de um período de dez anos após a menopausa. Após esse tempo, a resposta é indiferente ou o risco pode até aumentar.
Gravidez. O terceiro trimestre da gravidez e o puerpério são períodos em que a mulher tem mais chance de apresentar eventos vasculares, incluindo o derrame cerebral. As mudanças hormonais, na circulação e coagulação sanguínea podem responder por esse maior risco.
Enxaqueca com aura. Vale lembrar que as mulheres têm três vezes mais enxaqueca que os homens. Cerca de 25% das pessoas que sofrem de enxaqueca também apresentam sintomas que precedem as crises de dor de cabeça como por exemplo flashes visuais e formigamento de um lado do corpo. A esses sintomas dá-se o nome de aura e há inúmeras evidências de que a enxaqueca com aura aumenta a chance de derrame e o risco é ainda maior quando outros fatores de risco estão presentes.
A relação entre a enxaqueca e o derrame cerebral envolve uma complexa interação de particularidades do cérebro, vasos sanguíneos, coagulação, e até mesmo do coração de que tem enxaqueca. Os derrames costumam ocorrer mais nas regiões posteriores do cérebro e naqueles com crises mais frequentes. O risco é ainda maior quando existem outros fatores como uso de pílula anticoncepcional, dislipidemia, hipertensão arterial e obesidade e tabagismo. Mulheres com enxaqueca com aura devem evitar as pílulas anticoncepcionais que contêm o hormônio estradiol.
No caso do tabagismo, ele está associado ao derrame cerebral mesmo entre os jovens. Uma pesquisa acaba de ser publicada pela Neurology, periódico da Academia Americana de Neurologia, demonstrando que o risco de derrame cerebral é 2 a 5 vezes maior entre fumantes entre 18 e 49 anos de idade. É claro que esse risco é ainda maior quando o indivíduo tem enxaqueca com aura.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília
O que é felicidade? Desde a Antiguidade, colecionamos incontáveis definições, mas uma que pode nortear bem nossa conversa é a seguinte: as pessoas são mais felizes quando têm um dia a dia com predomínio de emoções positivas e também estão satisfeitas com o curso da própria vida.
Pesquisas realizadas com gêmeos têm demonstrado que existe sim um componente genético da felicidade. Cada um tem um nível básico de felicidade, maior em alguns, menor em outros. Essa influência genética pode ser comparada à tendência que algumas pessoas têm em estar sempre com o peso corporal em dia, independente dos altos e baixos da vida.
Esse perfil genético pode corresponder a 50% do grau de felicidade de uma pessoa, outros 10% têm a ver com as circunstâncias da vida (ex: inserção profissional e estado de saúde), e ainda temos uma margem de 40% daquilo que podemos exercitar para termos percepção que estamos mais felizes.
Atividade física faz bem ao corpo e à mente e hoje as pessoas falam com muita naturalidade sobre força, resistência, exercícios para as pernas, braços, abdome, etc. Existe outro tipo de treino que realmente incrementa nosso estado de felicidade de forma mais sustentada. Outras atividades, como se fosse um programa fitness de felicidade. E isso funciona num círculo virtuoso: quanto maior a regularidade dos exercícios, maior a percepção de felicidade e quanto maior o estado de felicidade, maior a disposição para os exercícios.
E qual é a melhor série de exercícios, qual o melhor treino? Boas doses de Otimismo, Altruísmo e Gratidão são reconhecidas como caminhos dos mais férteis para estimular esse estado de felicidade. Além disso, para seguirmos a vida satisfeitos com seu curso, precisamos navegar. O filósofo Sêneca nos deixou o famoso pensamento: “Para aqueles que não sabem para que porto vão, nenhum vento é bom”.
Além do bem estar psicológico, o estado de felicidade traz outros benefícios não só ao indivíduo, mas à sua família, comunidade e à sociedade de forma mais ampla. Pessoas mais felizes têm melhor desempenho profissional e melhores oportunidades, têm mais sucesso nas relações interpessoais, mais energia e saúde, o que inclui um melhor perfil imunológico, menor nível de estresse e maior longevidade. Pessoas mais felizes são mais criativas, autoconfiantes, altruístas e generosas, têm o hábito de praticar atividade física e são mais espiritualizadas. Não é pouca coisa, hein?
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília
No ano de 2021 o presidente da Coalisão Mundial de Saúde Mental rejeitou a orientação da Associação Americana de Psiquiatria ao dar um diagnóstico psiquiátrico a uma pessoa pública, no caso, Donald Trump, sem examiná-lo pessoalmente. A Coalizão se valeu da Declaração de Genebra que defende que médicos podem se expressar quando frente a governos destrutivos, Declaração criada após a experiência do Nazismo.
De acordo com a Coalisão, o fenômeno Trump e seus seguidores estão embasados em um narcisismo simbiótico e uma psicose compartilhada. Por narcisismo simbiótico devemos entender que um líder, faminto por adulação para compensar sua baixa autoestima, projeta uma onipotência grandiosa, enquanto seus seguidores, carentes pelo estresse social e econômico, buscam ansiosamente por uma figura parental. Quando esses indivíduos assumem posições de poder, eles elicitam a mesma patologia numa parte da população com encaixe perfeito, como uma chave feita para aquela fechadura. Quanto à psicose compartilhada, eles a chamam também de folie à million. Folie à deux (loucura a dois) é um fenômeno descrito na psiquiatria desde o século XVII e refere-se a sintomas delirantes compartilhados por duas pessoas geralmente da mesma família ou próximas. A folie à deux também é chamada de transtorno psicótico induzido, e folie à million, socorro! Quando um indivíduo muito sintomático é colocado em posição de poder e influência, seus sintomas podem se propagar à população por meio de ligações emocionais, amplificando patologias pré-existentes e afetando até indivíduos previamente saudáveis. E o fator delirante provavelmente é mais forte do que um cálculo estratégico, pois ele se dissemina mais facilmente.
É importante salientar que os indivíduos com transtornos mentais como um grupo não são mais perigosos que a população geral, mas quando o transtorno mental vem acompanhado de componentes destrutivos, esses indivíduos são mais perigosos sim. E de onde vem esse elemento destrutivo? Simplificando, se uma pessoa não recebe amor, ela busca respeito. Se ela não tem o respeito, ela realiza ameaças.
Uma pergunta comum que é feita desde o início dessa discussão é se Trump tem algum transtorno mental ou é apenas mau, ou os dois. Para quem quiser se aprofundar nessa discussão, vale a leitura do livro “The Dangerous Case of Donald Trump” (O perigoso caso de Donald Trump, em tradução livre), um bestseller do New York Times publicado em 2017.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília
Criar marcos temporais é um costume que costuma ajudar na execução de projetos. O acesso no google da palavra dieta é maior na época das festas de fim de ano, às segundas-feiras e no começo do mês. Um estudo mostrou que universitários frequentam mais uma academia de ginástica no começo da semana, começo do mês e no dia seguinte ao aniversário. Esses marcos temporais podem promover a sensação de estar começando do zero, com mais motivação e menos culpa. Pesquisadores usam para isso o termo na língua inglesa de “fresh start effect”.
Uma boa maneira de aumentarmos nossas chances de alcançar nossas metas é enxergar mais claramente o contraste entre as nossas expectativas e a atual realidade, o quanto realmente avançamos na direção de nosso objetivo. Fumantes têm mais chance largar o cigarro quando escrevem as metas lado a lado com os aspectos negativos da situação presente.
Aqui vão outras sugestões para que as intenções não fiquem congeladas no tempo ou andem para trás.
– Todo revés no percurso de seu objetivo deve ser visto como ensinamentos de como chegar lá;
– Encare esse percurso como uma aventura. Ela certamente terá altos e baixos;
– Reexamine periodicamente suas ações e pergunte-se o que você deveria ter feito de outro jeito;
– Convença-se que a persistência é uma escolha e não um traço de personalidade, não um presente de Deus;
– O que separa os “winners” dos “losers” (vencedores e perdedores) não é tanto a persistência. Ambos tentam o mesmo número de vezes para alcançar o objetivo, só que os “winners” chegam lá. Para esses vencedores, os fracassos servem de guias para o aperfeiçoamento para a próxima jogada. Não agem com impulsividade diante de uma batalha perdida. Estão pensando em vencer a guerra. Os “losers” não necessariamente trabalham menos, mas fazem mudanças de táticas além do necessário. Outro ponto que aumenta a chance de sucesso é a rapidez com que novas tentativas, se necessárias, acontecem. Quanto mais rapidamente você perceber o fracasso e se organizar para uma próxima investida, melhor;
– Não deixe de buscar a visão dos outros;
– Se ficar frustrado com um tropeço, isso é um sinal de que você se importa com o projeto e deixa claro que você deve continuar. Zero de frustração com um resultado negativo significa que aquilo nem é tão importante para sua vida;
– Reduza os níveis de estresse de uma forma geral. As emoções não ficam muito afinadas com altos níveis de estresse. Para suportar as pequenas frustrações as emoções têm que estar equilibradas.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília
Mais da metade das mulheres apresentam queixas de memória na fase de transição para a menopausa e temos algumas evidências de que, nessa fase da vida, elas realmente apresentam uma menor velocidade de processamento cognitivo e menor desempenho da memória verbal. Esse fenômeno também é conhecido por névoa cerebral (“brain fog”), a mesma expressão usada para as dificuldades que podem ser encontradas na COVID longa.
Uma forma de explicar esse menor desempenho na transição da menopausa é que a redução e flutuação dos níveis do hormônio estrogênio podem dificultar o pleno funcionamento cerebral. Já foi bem demonstrado que algumas áreas cerebrais são ricas em receptores de estrogênio, regiões que são fortemente vinculadas à memória, como é o caso do hipocampo e o córtex pré-frontal. Além disso, estudos experimentais revelam que o estrogênio é capaz de elevar os níveis de neurotransmissores e também promovem o crescimento neuronal e formação de conexão entre os neurônios.
As mulheres que recebem reposição hormonal antes do término da menstruação são beneficiadas do ponto de vista cognitivo, o que não acontece com aquelas que começam esse tipo de tratamento após o término da menstruação. Essa é mais uma evidência de que a reposição hormonal deve ser utilizada pelo menor tempo necessário. Temos até evidências que o uso prolongado desse tipo de tratamento pode levar à perda do volume de substância cinzenta do cérebro e declínio cognitivo.
Uma recente pesquisa aponta também que, quanto mais tarde se dá o início da menopausa, melhores são os indicadores cognitivos e o uso de reposição hormonal não teve qualquer influência. Esses resultados não foram válidos para os casos de menopausa cirúrgica, condição em que as mulheres têm os ovários removidos cirurgicamente. Em 2020, a revista Menopauseda Sociedade Americana de Menopausa mostrou que durante as ondas de calor, que afetam um terço das mulheres de forma severa na transição da menopausa e em 30% daquelas na fase pós-menopausa, o desempenho cognitivo ainda é mais prejudicado. O aumento dos níveis do hormônio cortisol, elevados durante as ondas de calor, pode contribuir para esse efeito negativo na cognição. Isto abre uma oportunidade em que o tratamento das ondas de calor possa ser uma forma de incremento cognitivo nessas mulheres.
E no período pós-menopausa? Dois estudos são considerados referência na comparação entre o desempenho pré-menopausa, perimenopausa e pós-menopausa. O primeiro é o americano SWAN de 2009 que sugeriu que a limitação cognitiva era restrita a alguns anos no período de transição para a menopausa e depois as mulheres voltavam a apresentar o mesmo desempenho que tinham anteriormente. Em 2018, um estudo inglês (Kuh e cols.) revelou que as dificuldades cognitivas não são transitórias, mas persistem por vários anos, em concordância com outros trabalhos menos robustos. Entretanto, várias pesquisas também mostram que o perfil cognitivo na perimenopausa é pior que na pós-menopausa e há evidências de uma adaptação cerebral aos baixos níveis de estradiol – Mosconi e cols. (2021). Resumindo, muitas mulheres passam pela transição com dificuldades e depois se recuperam e essa chance pode ser maior se preservarem a rotina de estímulos cognitivos, atividade física, socialização, sono de qualidade e, acima de tudo, se cuidarem do equilíbrio mental.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília
O jornalista Stevens Silbermann, autor do best-seller Neurotribes, publicado em 2015 e ainda sem tradução para o português, disse: “Poucas pessoas podem dizer que cunharam um termo que tenha mudado o mundo para melhor, em uma direção mais humana e com mais compaixão. Judy Stinger pode”.
Judy é uma australiana que apresentou ao mundo em 1998 o conceito de neurodiversidade em sua tese, ainda na graduação, na Universidade de Tecnologia de Sydney. O trabalho pode ser conferido no livro: Neurorodiversity: The birth of an idea (Neurodiversidade: O nascimento de uma ideia, em tradução livre). A obra traz uma reflexão sociológica sobre grupos com disfunções neurológicas marginalizadas, com foco especial nos portadores do transtorno do espectro autista, chamando os leitores para uma revolução da neurodiversidade assim como houve a revolução feminista. O livro também não tem tradução para a língua portuguesa.
O esforço de Judy acendeu a chama para que essa revolução acontecesse. São inúmeras entidades ao redor do mundo que carregam a bandeira da neurodiversidade lutando para que o mundo respeite as diferenças e dê condições para que os neurodiversos, aqueles que não representam a maioria, não sejam estigmatizados e mais, que estes tenham acesso a oportunidades de inserção na sociedade, incluindo o trabalho, já que muitos são capazes de contribuir de forma sofisticada. Alguns têm talentos e capacidades que os neurotípicos, a maioria, nem sonham em ter. Só precisam encontrar o ambiente e o tipo de trabalho certos e muitas organizações têm trabalhado para que isto aconteça. No blog de Judy você encontra: “Eu não estou aqui para tornar o capitalismo mais eficiente, mas para torná-lo mais humano”.
Uma das pérolas do seu trabalho é a distinção entre o modelo médico e social de incapacidade. Uma pessoa pode ter uma deficiência, mas isto passa a ser uma incapacidade quando lhe são colocadas barreiras e práticas socias que dificultam suas oportunidades de inserção social. É claro que toda condição de saúde é permeada pelo espectro de gravidade e há um subgrupo em cada uma dessas condições que está no extremo mais grave onde deficiência dificilmente será diferente de incapacidade.
E quando falamos de neurotípicos e neurodiversos, vale contextualizar o conceito de normal. A palavra normal na saúde só passou a ser registrada na língua inglesa na metade do século 19, época em que a estatística passou a ser utilizada na saúde pública. O termo era o mais próximo do que se chamava de “ideal”, característica mais própria dos deuses do que dos mortais. Os estudiosos em incapacidade argumentam que o que chamamos hoje de norma, a maioria, raramente alcança o estado ideal.
E você? Você se considera um neuroideal? Parabéns. Que dádiva genética que você herdou! Ou os parabéns podem ser também por sua disciplina com os cuidados com a saúde. Mas tenho que lhe dizer que grande parte da humanidade está longe de você ou dos deuses. Não estou sendo irônico. O “Global Burden of Disease Study” (GBD) é um dos maiores esforços para medir a morbimortalidade das principais doenças ao redor do mundo, financiado pela Fundação Bill & Melinda Gates e sob a chancela da Organização Mundial da Saúde. Sua última análise foi publicada no prestigiado periódico The Lancet Neurology em 2024 e apontou que o grupo das condições neurológicas representa a maior causa de anos perdidos de vida saudável (DALYs), seguido pelo grupo de doenças cardiovasculares. Os resultados também mostraram que 43,1% das pessoas no mundo sofrem de alguma disfunção neurológica, seja por uma doença neurológica primária ou por efeito de outras condições que afetam o sistema nervoso. E esse sistema é o que faz nossa relação com o ambiente e isso envolve a relação com os outros.
A difusão do conhecimento tem ajudado a reduzir o estigma sobre as disfunções neurológicas, mas ainda de forma muito incipiente. É a pessoa que sofre de enxaqueca e sente que as pessoas acham que ela supervaloriza sua condição ou se aproveita dela. E vê cara feia quando pede a alguém para evitar o uso de perfume, pois desencadeia suas crises. É o portador da Doença de Parkinson que, por ter uma menor expressão da mímica facial e uma monotonia na voz, é tratado de forma infantilizada. São exemplos de neurodiversos, cérebros que funcionam diferente, mas os outros não têm consciência disso. Muitos sofrem de algum grau de marginalização por falta de compreensão plena das suas diferenças pela sociedade.
O movimento de conscientização da neurodiversidade, uma ação política para garantia de direitos, começou pelo espectro autista, mas se expande naturalmente para inúmeras disfunções neurológicas em que seus portadores vivem uma marginalização de suas limitações. Esse é o desejo expresso de Judy na sua obra seminal. Hoje são comumente incluídos sob esse guarda-chuva, além do autismo, o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, dislexia, transtorno bipolar, entre outros. Percebo no consultório o discurso libertador e empoderado daqueles que encontraram sua tribo e dizem sem timidez que são neurodiversos.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília
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