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Essa combinação aumenta o risco de doenças cardiovasculares.

Ricardo Afonso Teixeira*
Um grande estudo, liderado por pesquisadores da Universidade Michigan, nos EUA, mostrou que os sintomas vasomotores na menopausa, que incluem ondas de calor e suor noturno, são mais comuns entre as mulheres que apresentavam enxaqueca antes desse período. A pesquisa foi publicada no periódico Menopause esta semana após acompanhamento por décadas de mais de 1900 mulheres.
As mulheres que tinham a combinação de enxaqueca e sintomas vasomotores por vários anos apresentaram maior risco de doenças cardiovasculares, incluindo infarto agudo do miocárdio e acidente vascular cerebral. Este é um grupo de mulheres em que os esforços para redução de risco vascular devem ser ainda maiores. E a receita de prevenção vascular hoje é vista como tendo 8 alvos essenciais: controle cuidadoso do peso, pressão arterial, glicemia e gorduras no sangue, não fumar, dieta saudável, e aqui os peixes ricos em ômega-3 têm seu papel, atividade física regular e boa qualidade do sono.
Enxaqueca é uma condição cerebral, mas não é que os sintomas vasomotores na menopausa também parecem ter origem no sistema nervoso central? Pesquisadores da Universidade do Arizona, nos EUA, descobriram um grupo de células do hipotálamo, região do cérebro que faz a ponte com os sinais hormonais, que podem ser as responsáveis pelas desconfortáveis ondas de calor que boa parte das mulheres vivencia nos primeiros anos da menopausa.
Em um modelo de menopausa em camundongos, os pesquisadores mostraram que o efeito de dilatação dos vasos da pele era interrompido quando um grupo de células do hipotálamo, chamadas de KNDy, era inativado. Apesar de representarem uma pequena população de células do cérebro, elas têm grande importância no controle das fontes de energia do corpo, temperatura e reprodução. Com a baixa dos níveis do hormônio estradiol na menopausa, essas células ficam hiperfuncionantes e disparam o comando de vasodilatação, com a intenção não muito apropriada de provocar a perda de calor do organismo.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp, professor do curso de medicina do Unieuro e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Ricardo Afonso Teixeira*
Os medicamentos da família do Viagra, inibidores da fosfodiesterase tipo 5, foram desenvolvidos como vasodilatadores para o tratamento da angina e hipertensão arterial e apresentaram um efeito colateral entre os homens que vocês já devem imaginar. Não tiveram sucesso na cardiologia, pois as medicações já existentes eram mais eficazes. Hoje são medicações aprovadas para o tratamento da hipertensão pulmonar e disfunção erétil.
Dois estudos publicados nos anos de 2021 e 2022 apontaram resultados controversos quanto ao efeito protetor desse grupo de medicamentos contra a Doença de Alzheimer. Um terceiro estudo, porém não definitivo, é publicado nesta quarta-feira pela Neurology, periódico da Academia Americana de Neurologia, sugerindo que homens acima de 59 anos que receberam a prescrição dessas medicações tiveram menor chance de desenvolver o diagnóstico de Alzheimer após acompanhamento de cinco anos.
O estudo foi observacional e a metodologia não permite inferir uma relação de causa e efeito e, por isso, o estudo está longe de ser definitivo. Em camundongos, já tivemos evidências que essas drogas podem melhorar a memória e até reduzir um dos marcadores biológicos da Doença de Alzheimer. Teoricamente poderíamos esperar uma ação neuroprotetora do efeito de uma medicação que promova maior fluxo sanguíneo para o cérebro. Entretanto, as pesquisas que avaliaram esse efeito de incremento na perfusão cerebral também são contraditórias até o momento.
Futuros estudos deverão ser feitos nos moldes daqueles que vocês acompanharam na aprovação das vacinas contra a COVID-19 – estudos randomizados com número grande de participantes e inclusão das mulheres.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp, professor do curso de medicina do Unieuro e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Ricardo Afonso Teixeira*
Para quem sofre de enxaqueca, poder prever se uma crise está por vir no outro dia pode fazer toda a diferença, promovendo um estado de maior segurança e autonomia. Ainda não chegamos ao ponto de implante de eletrodos cerebrais para fazer esse serviço, algo que já existe no caso da epilepsia, mas um aplicativo em que a pessoa alimenta de forma repetida sua percepção subjetiva de parâmetros sobre sono, energia e nível de estresse mostrou-se útil na previsão das crises.
O aplicativo ainda ajudou a saber se uma crise tem mais chance de acontecer pela manhã ou ao final da tarde. A sensação de pouca energia durante o dia e uma noite de sono ruim foram associadas a crises no outro dia pela manhã. O sentimento de alta carga de estresse e muita energia durante o dia previram uma crise vespertina no dia seguinte. Não devemos esperar aqui, como em qualquer modelo biológico, que tenhamos cem por cento de acerto, mas os resultados chamam a atenção para a importância dos estados físico e emocional como preditores de uma crise de enxaqueca.
O estudo foi publicado esta semana pelo periódico Neurology da Academia Americana de Neurologia.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp, professor do curso de medicina do Unieuro e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília
A humildade intelectual é imprescindível para que isso aconteça.

Ricardo Afonso Teixeira*
Cada click de curtida nas redes sociais faz com que seja disparado no cérebro um circuito de recompensa que é o mesmo ativado quando experimentamos um delicioso chocolate ou quando terminamos uma tarefa que estava pendente. Temos realmente uma engrenagem que nos faz sentir confortáveis e seguros com o pensamento daqueles que pensam como a gente.
O diferente dá mais trabalho. Ele ativa outro circuito, o da amígdala, localizado no lobo temporal, que sinaliza medo e desconfiança daquilo que pode nos trazer perigo, do que é estranho, diferente.
Isso tudo é muito mais inconsciente do que podemos imaginar. Estudos mostram que brancos acham que os negros são mais violentos e propensos a provocar transtornos, simplesmente por serem negros. E essa opinião inconsciente acontece mesmo quando se fala em crianças negras de cinco anos de idade. Nessas situações, estudos de neuroimagem mostram que as amígdalas estão bem ativadas e essa ativação reflete o quanto as pessoas são relutantes em acreditar nas outras.
Por outro lado, o sistema de recompensa desempenha o seu papel de contrabalancear o efeito de desconfiança das amígdalas. Esses circuitos de recompensa são antigos na evolução dos vertebrados e estão presentes nos pássaros, répteis, anfíbios e nos mamíferos. Uma pesquisa clássica conduzida por pesquisadores da Universidade de Stanford mostrou que o sistema de recompensa de camundongos era bastante ativado quando eles encontravam outro camundongo desconhecido, mas que era da sua própria linhagem genética.
Os cientistas desconhecem todos os segredos desses sistemas na promoção de interações sociais, mas a expansão dessa linha de pesquisa pode nos dar rumos de como fazer com que os “diferentes” cooperem entre si. Já sabemos que essa cooperação traz grandes resultados e é mais desafiador. Onde iremos parar com uma vida banhada de recompensa cerebral por aqueles que nos cercam, sem sermos desafiados por pontos de vista diversos?
Ouvir, de verdade, uma opinião diferente requer humildade intelectual. A troca envolve o exercício de apresentar suas ideias de maneira respeitosa. É chegar ao seu número certo: nem tão grande que você possa parecer arrogante e nem tão pequeno, o que é uma autodepreciação. E se você mudar suas convicções, mude de cabeça erguida e ainda cante Raul: “Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo.”
Pessoas com diferentes expertises têm mais sucesso no desempenho de uma tarefa complexa que um time de pessoas com formação muito homogênea. E a diversidade social também traz vantagens. Juntar pessoas com diferentes convicções políticas, etnias, gêneros e orientações sexuais pode ser muito melhor que uma turma de homens branquinhos que apoia o mesmo partido político.
Essa diversidade é vista hoje como condição necessária para uma equipe alcançar a inovação. Pesquisas mostram que empresas que têm mais mistura étnica e de gênero ganham mais dinheiro que as muito homogêneas. Grupos de cientistas multiétnicos têm mais sucesso.
A diversidade permite mais criatividade. Quando interagimos com uma pessoa diferente da gente, temos a tendência em nos preparar melhor para a tarefa, para a argumentação. É mais comum anteciparmos alternativas de opinião e temos a expectativa de que o esforço será grande para um consenso. As pessoas acabam se esforçando mais.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp, professor do curso de medicina do Unieuro e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Estudo aponta que o contexto social da enxaqueca tem mais impacto na qualidade de vida
do paciente que a frequência das crises
Ricardo Afonso Teixeira*
Uma pesquisa acaba de ser publicada no periódico Neurology da Academia Americana de Neurologia e mostra que um terço dos portadores de enxaqueca percebem frequentemente estigma associado à sua doença e isso está associado à dificuldade no controle das crises de cefaleia e a uma pior qualidade de vida. Cerca de 60 mil americanos com enxaqueca foram incluídos nesse estudo que foi o primeiro com dimensão populacional realizado até então para a análise do estigma na enxaqueca.
As pessoas que sofrem de crises de enxaqueca repetidamente explicitam a dificuldade que os outros têm de entender o quanto sua condição é capaz de restringir as atividades do dia a dia. A enxaqueca tem impacto negativo na vida acadêmica e profissional, limita o convívio familiar e social, isso sem falar na restrição de atividades de lazer e exercício físico. Muitos apresentam até um quadro de ansiedade antecipatória que é um fantasma para qualquer compromisso futuro. Marcarei esta reunião tão importante? E se no dia eu apresentar uma daquelas crises fortes? Compro ingresso para este show? E se no dia?
Vale lembrar que a enxaqueca é a segunda causa de incapacidade entre todas as doenças e, quando miramos nas mulheres com até 50 anos, ela é a principal causa de incapacidade. Os relatos dos pacientes demonstram que eles percebem o estigma até entre os familiares. Não vai à festa com a gente por conta de enxaqueca? Mas de novo? No ambiente de trabalho, não é tão comum a compreensão de que uma crise de enxaqueca é razão suficiente para que uma pessoa falte naquele dia.
O estigma associado à enxaqueca pode ser dividido em dois tipos. O primeiro é quando a pessoa sente que os outros estão achando que ela está se aproveitando para tirar vantagem e ir para casa antes do fim do expediente, por exemplo. Outro tipo é a percepção de que as pessoas estão achando que o problema está sendo supervalorizado. Afinal é só uma enxaqueca.
A relação entre estigma e controle das crises é aparentemente bidirecional. Aqueles que sofrem com crises mais incapacitantes percebem mais o estigma. Por outro lado, a percepção de estigma pode piorar o controle das crises. Os resultados do presente estudo apontam que o componente do estigma tem mais impacto na qualidade de vida do paciente com enxaqueca que a frequência de suas crises!
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp, professor do curso de
medicina do Unieuro e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília
Áreas cerebrais menos vinculadas ao processo consciente participam desse processo

Ricardo Afonso Teixeira*
Assisti na última semana ao documentário recém-lançado “Carlos”, uma biografia do sublime músico mexicano Carlos Santana. A obra traz o caminho de autoconhecimento que ele trilhou sem as drogas e vale, por si só, pelo recado que ele deixa para nós, reles mortais – “Deve existir algo para estimular sua imaginação, sua determinação e convicção. Sua realidade é muito limitada. Prefiro viver em um estado de sonho acordado. Um sonho acordado perpétuo” (em tradução livre).
Claro que Carlos tem seus inúmeros momentos em que o pensamento não vagueia. Entendo seu depoimento como uma forma de explicitar seu estado mental no ato de criação ou até na hora de executar uma obra. Quando estamos menos conectados com o aqui e o agora, abrimos portas para a criatividade. Nessas situações, a ativação de estruturas cerebrais pouco associadas às tarefas conscientes, como o cerebelo, podem fazer a diferença.
Pesquisadores da Universidade de Stanford nos EUA demonstraram há pouco tempo de que o cerebelo é um dos atores principais para a orquestração de nossa criatividade. Quando voluntários fazem desenhos dentro de uma máquina de ressonância magnética funcional, os desenhos eleitos pelos participantes como os mais criativos foram os feitos com uma maior ativação do cerebelo. O cerebelo é um maestro que trabalha em um nível inconsciente. Quanto menor a consciência do processo, maior será sua ativação. Trocando em miúdos: quanto mais nos esforçamos para pensar e calcular uma criação, menos criativo será o produto final.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp, professor do curso de medicina do Unieuro e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília
Políticas públicas contra a violência às mulheres e o rigor da lei é que farão a diferença.

Ricardo Afonso Teixeira*
Poucos devem discordar de que as experiências sensoriais olfativas têm forte relação com nosso cérebro emocional. É aquele perfume que faz você lembrar, profundamente, da primeira paixão da sua vida. As vias olfativas têm conexão direta com regiões do cérebro que modulam as emoções, como é o caso das amígdalas nos lobos temporais. E essa conexão não tem escalas. Explico. No caso dos outros sentidos, todas as informações passam por uma modulação em uma estrutura cerebral, o tálamo, que de certa forma filtra os estímulos que farão conexão com regiões que regulam as emoções. O olfato segue seu caminho a essas regiões sem passar por essa peneira.
Discutimos recentemente o poder que a inalação de diferentes óleos essenciais durante o sono exerce sobre o cérebro humano, incrementando a memória e aumentando o fluxo sanguíneo de áreas associadas a esse domínio cognitivo. Em camundongos esse mesmo estímulo promove a gênese de neurônios nessas mesmas áreas que fazem parte de um sistema maior que também regula as emoções, o sistema límbico. Circuitos da memória e emoções são vizinhos íntimos.
Esta semana tivemos a demonstração por pesquisadores do Instituto de Ciências de Weizmann, em Israel, e da Universidade de Duke, nos EUA, de que a inalação de lágrimas de uma mulher, e precisa estar dentro de um contexto emocional, contêm sinais químicos capazes de reduzir em 43,7% a agressividade entre os homens, reduzindo o fluxo sanguíneo em áreas associadas à agressividade, especificamente ínsula anterior e córtex pré-frontal. Já sabíamos que a inalação das lágrimas femininas reduz os níveis de testosterona entre homens, que por sua vez têm relação com a agressividade masculina. A agressividade era provocada por um game em que homens eram sugestionados que tinham sido trapaceados e podiam usar táticas para se vingarem.
Em 2023, o Distrito Federal bateu o recorde de feminicídios em apenas um ano, de acordo com reportagem publicada neste jornal. Foram 35 mulheres e os machos indomáveis não pouparam nem a noite do último dia do ano. Jaqueline tinha 29 anos e foi morta a facadas pelo seu ex que não aceitava o fim do relacionamento, de acordo com apuração deste jornal. Jaqueline representa a história de grande parte das mulheres que perderam a vida por homens que tem ou teve relação íntima com a vítima e cometem o crime como vingança, penso eu que por não suportar a ideia de que ela agora não é mais sua propriedade. Quando usei o termo “machos indomáveis” foi em referência ao admirável livro “O macho demoníaco: as origens da agressividade humana” de Richard Whranhham e Dale Peterson. Um trabalho de campo com primatas com um corpo teórico impecável que nos faz entender melhor a violência humana. Editora Objetiva, 1988.
No caso da violência contra a mulher, esse estudo nos faz pensar em uma auto regulação da natureza que faz com que o homem se torne menos agressivo após ser exposto à inalação química das lágrimas da mulher. Mas essa auto regulação parece que está totalmente quebrada para muitos. O estudo me fez lembrar dos saches de óleos essenciais durante o sono para turbinar a memória. Saches de lágrimas femininas para controlar o macho indomável não vão dar conta, nem de longe, do recado. As lágrimas, muitas vezes, já são resultado de assédio moral, ameaças, e nada justifica ficarmos congelados. Temos a PM, a Central de Atendimento à Mulher, a Lei Maria da Penha e o protocolo Não é Não que foi sancionado como lei no último dia 28 de dezembro pelo Presidente Lula. Cinco amigas no Rio de Janeiro iniciaram um projeto com capilarização nacional no combate contra a violência sexual à mulher com este mesmo nome – Não é Não. Na mesma época, em 2018, a cidade de Barcelona, torna-se referência na proteção da mulher em espaços públicos através do protocolo “No Callem” (não nos calaremos, em tradução livre), ferramenta que deu celeridade à prisão do jogador Daniel Alves em 2022 após evidências de ter estuprado uma jovem no banheiro de uma boate.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp, professor do curso de medicina do Unieuro e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Por Ricardo Afonso Teixeira*
O planejamento estratégico é uma das maiores armas que as empresas dispõem para garantir o crescimento e a viabilidade de seus negócios no longo prazo. É fato que existem muitas pessoas habilidosas que conduzem as decisões da empresa de forma instintiva, sem planejamento formal, e o negócio vai muito bem, obrigado. Isso hoje. E amanhã? Um cientista não começa um experimento sem que o método esteja muito bem descrito, incluindo como os resultados serão analisados ao final do trabalho. É difícil imaginar que Amyr Klink teria conseguido atravessar remando sete mil quilômetros do atlântico sem sua preciosa capacidade de planejamento.
Muitas pessoas passam os anos gastando semanas de reuniões para a formulação do planejamento de seu negócio ou dos outros, e não chegam a investir sequer minutos rabiscando ideias de seu próprio planejamento pessoal. Muitos certamente têm bastante simpatia com a música do talentoso Zeca Pagodinho: “Deixa a vida me levar, vida leva eu...”. Outros não concordam com isso e parece que esse devia ser o caso do filósofo Sêneca que nos deixou o pensamento: “Para aqueles que não sabem para que porto vão, nenhum vento é bom”.
Podemos nos valer de algumas ideias do método de planejamento estratégico do mundo corporativo para nossa vida pessoal. São várias as dimensões essenciais de nossa vida que devem fazer parte dessa reflexão: saúde, família, amigos, carreira profissional, realização intelectual, lazer, sexualidade, espiritualidade, etc.
Planejamento pessoal
Vamos começar por nossa análise interna. Aqui devemos focar em nossas próprias forças e fraquezas. Esse não é um processo exato, mas é bem provável que o rumo de sucesso pessoal mais certeiro seja o de solidificar / aumentar nossas forças e corrigir nossas fraquezas. Ao elencarmos nossas forças e fraquezas, podemos priorizá-las e definir quais são aquelas em que devemos mais investir. Entre forças e fraquezas, vale sempre trabalhar em equilíbrio, pois as pessoas têm uma tendência em enxergar mais as fraquezas do que as forças. Acham que as fraquezas podem ser “trabalhadas” e deixam as forças de escanteio.
Uma boa dica é começar investindo naquelas que sejam sustentáveis no longo prazo. Talvez não valha a pena gastar tanta energia para nos aprimorar em uma determinada carreira se ela está em extinção, mesmo que exista um forte talento pessoal. Da mesma forma, não vale a pena apostar em corrigir uma fraqueza em que o resultado da correção não vai nos trazer muita vantagem. Se ao digitar no computador você “cata milho” de forma rápida e eficiente, investir em um curso de digitação para atingir uma performance olímpica pode não ser sua maior prioridade.
Um segundo passo na priorização de ações é a identificação de forças e fraquezas que são essenciais para nossa vida. Cada um tem sua própria análise, mas há algumas premissas que não deveriam ser muito diferentes entre as pessoas, como é o caso do investimento em nossa saúde. Sem saúde, todo o resto ficará congelado. Vale repensar se faz sentido estar atrasado em um ano com os exames periódicos preventivos, mas ter tempo para criar um novo projeto profissional. Investimento na saúde mental, então, fico até sem graça de estar sempre batendo nesta tecla.
Um terceiro passo, e esse considero que seja mais relevante no âmbito da carreira profissional, é o de identificar o quanto suas forças e fraquezas são raras, difíceis de imitar, difíceis de consertar. Ao identificar uma força valorosa do ponto de vista profissional, dê mais prioridade ainda às que são raras no seu meio. Essas forças diferenciam-lhe dos outros e fazem-lhe “sair da pilha”, como dizia Jack Welch, grande personalidade do mundo corporativo. Quanto às fraquezas, uma boa sugestão é a de priorizar nossos reparos com foco em dois momentos. Primeiro resolver a curtíssimo prazo aquilo que é fácil de consertar. Um médico talentoso que tem seu consultório vazio, talvez por ter o cabelo pintado de roxo, poderia pelo menos tentar pintar o cabelo de outra cor, e para ontem. Pensando mais no médio e longo prazo, devemos depositar um grande contingente de energia no reparo de fraquezas que são difíceis de corrigir e que nos trazem desvantagem. Difícil de corrigir significa que a deficiência não pode ser corrigida da noite para o dia, mas não quer dizer que seja a coisa mais difícil ou penosa do mundo. Pode ser a falta de proficiência em determinada língua, falta de ferramentas de gestão, um problema de saúde crônico, etc. A análise interna pode ser vista como aquilo que poderíamos fazer para melhorar.
Após essa análise interna, podemos passar para a construção do cenário externo, que é a percepção das ameaças e oportunidades que nos rondam no presente e que nos aguardam no futuro. Se vivemos numa cidade em que o trânsito está ficando cada vez mais caótico, e só tende a piorar, esse fator que vem “de fora” deve fazer parte do planejamento de nossa vida, já que um dia pode vir a anular nossas forças. Parte desse cenário pode ser visto como aquilo que deveríamos fazer para melhorar.
Por fim, a decisão do que devemos fazer com nossas forças e fraquezas deve ser permeada também por aquilo que gostaríamos de fazer para melhorar, e para isso é necessário identificarmos com muita clareza qual é nossa missão e quais são os nossos valores. As empresas costumam pendurar em suas paredes frases de efeito descrevendo esses conceitos eloquentes, mas poucas realmente se comprometem a seguir fielmente o que está ali escrito. Assim como as empresas, somos pressionados por todos os lados para não darmos conta de fazer aquilo que acreditamos e que faz parte do nosso discurso.
Planejar minimamente nossas escolhas e ações pode nos ajudar a integrar nossos ideais com o que realmente fazemos no nosso dia a dia. Isso é viver com integridade em busca de uma vida não fragmentada. É bom ter em mente que não são poucas as coisas que fogem do nosso controle, e nesse quesito Zeca Pagodinho tem razão em deixar rolar quando a coisa não sai do jeito planejado. Colocando o Zeca e o Sêneca compondo juntos, o pagode poderia sair assim: “Se conheço bem para onde vou, vida leva eu, com vento bom, e para o melhor lugar.”
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp, professor do curso de medicina do Unieuro e diretor do Instituto do Cérebro de Brasília

Ricardo Afonso Teixeira*
Aliria Rosa Piedrahita de Villegas é uma colombiana de Medelin que têm uma forte predisposição genética a desenvolver a Doença de Alzheimer, já que faz parte de uma família que carrega um gene que faz com que seus membros desenvolvam a doença entre os 40 e 50 anos de idade. Nada de pânico. Esta forma familiar corresponde a apenas 1% dos casos da doença.
Aliria, como ela mesma diz, tem um cérebro de ouro. Aos 70 anos de idade ainda não tinha queixas cognitivas. Foi identificado em 2019 que, além do gene responsável por essa forte predisposição genética à doença (PSEN-1), ela também apresenta duas cópias de uma variante rara do gene APOE, conhecida como mutação de Christchurch, cidade na Nova Zelândia onde se deu sua descoberta. A mutação de Christchurch poderia ser então um fator crítico para a proteção. Aliria e seus familiares têm sido estudados há décadas por pesquisadores de Harvard nos EUA. Através de exame PET, sabemos que seu cérebro apresenta um alto contingente de placas beta-amiloides e uma quantidade muito limitada de emaranhados neurofibrilares (proteína tau), ambos biomarcadores da Doença de Alzheimer. Então a possível proteção da mutação de Christchurch pode se dar pela redução dos depósitos desses emaranhados evitando assim a morte neuronal.
Uma pesquisa revolucionária foi publicada esta semana pela prestigiada revista Cell mostrando que camundongos geneticamente modificados para expressarem a variante de Christchurch apresentaram menores depósitos de proteína tau apesar de grandes quantidades de placas beta-amiloides. As células micróglia, que funcionam como um depósito de lixo do cérebro, ficaram muito mais eficientes em impedir o depósito intracelular de proteína tau. Foi dada a largada para a busca de tratamentos que mimetizem os efeitos da variante de Christchurch!
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp, professor do curso de medicina do Unieuro e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Ricardo Afonso Teixeira*
Não só o povo brasileiro, mas toda a raça humana é otimista. Essa é a conclusão de uma série de pesquisas que aponta que cerca de 80% das pessoas superestimam as chances de eventos positivos quando têm que predizer o futuro. Esse é um fenômeno inerente da natureza humana e é observado independente do gênero, da raça, idade e nacionalidade. Mesmo os experts são otimistas quando analisam prognósticos em suas áreas.
Pensamos que vamos viver acima da expectativa de vida do brasileiro, que teremos muito sucesso na carreira quando completamos um curso de formação e que nossos filhos serão brilhantes. Também costumamos subestimar as chances de eventos negativos, pois achamos que essas coisas só acontecem com os outros – divórcio, acidentes de carro, doenças graves. Temos a tendência de incorporar ao nosso repertório as notícias que são ainda melhores que a nossa expectativa inicial. O contrário não acontece. Quando temos contato com previsões piores que nossa ideia inicial, não damos muita bola. A posição otimista é resistente a mudanças.
Pesquisas também mostram que as pessoas com quadros depressivos são as únicas que não apresentam essa expectativa otimista superestimada do futuro. Aqueles com um quadro de depressão leve não apresentam expectativas desviadas nem para o lado positivo, nem para o negativo. Já aqueles com depressão grave enxergam o futuro de uma forma negativa exagerada.
Os cientistas já localizaram as regiões do cérebro que orquestram esse otimismo. Quanto mais otimista for uma pessoa, menos importância seu lobo frontal direito (giro frontal inferior) dará para expectativas ruins. É como se a censura ficasse adormecida. Quando a previsão é ainda melhor do que o esperado, os lobos pré-frontais são ativados de forma similar tanto nos pouco como nos muito otimistas. Além disso, quando pensamos no futuro com otimismo, duas regiões envolvidas no controle das emoções são ativadas (amígdala e giro do cíngulo anterior rostral), as mesmas regiões disfuncionais em indivíduos deprimidos.
Mas afinal esse otimismo é um aliado de nossa saúde? Na maior parte das vezes sim. Os otimistas têm maior longevidade e melhores marcadores de saúde. Apresentam menores índices de doença cardiovascular, doenças infecciosas, ansiedade e depressão, e vivem mais quando acometidos por doenças como câncer e AIDS. Além disso, já foi demonstrado que pessoas mais otimistas têm maior tendência a assumir hábitos de vida saudáveis. Por outro lado, aqueles com excesso de otimismo podem ter uma saúde mais vulnerável, pois tem maior tendência em assumir comportamentos de risco.
E por que o ser humano é tão otimista? Uma explicação bem interessante é a de que, ao adquirirmos a consciência sobre o futuro, passamos a conviver de forma mais intensa com a ideia de nossa finitude e nossas fragilidades. Ilusões otimistas criam um equilíbrio para que toda nossa consciência não atrapalhe a dinâmica da vida. Essa ilusão não deve ser exagerada, já que isso pode ter efeito pernicioso no planejamento de nossas ações. Uma pesquisa recém-publicada por pesquisadores da Universidade Bath, na Inglaterra, no periódico Personality and Social Psychology Bulletin, revelou que as pessoas com excesso de otimismo apresentam menor desempenho em testes cognitivos. O Homo sapiens pode, em diferentes graus, balizar a tendência evolucionista em ser otimista. Aí não dá para deixar de citar a icônica frase de Ariano Suassuna: O otimista é um tolo. O pessimista, um chato. Bom mesmo é ser um realista esperançoso. Como médico não posso nem pensar em usar o termo tolo, mas Ariano é Ariano.
*Dr. Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp, professor do curso de medicina do Unieuro e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Ricardo Afonso Teixeira*
Os hipocampos poderiam ser chamados como os principais centros da memória no cérebro, localizam-se nos lobos temporais, e a redução de seus tamanhos predizem o declínio cognitivo em idosos. A interpretação imediata para esse fato é de que a atrofia dessas estruturas seriam sinais precoces da Doença de Alzheimer. Essa interpretação está, na maioria das vezes, correta. Entretanto, uma pesquisa recém-publicada pela Neurology, periódico da Academia Americana de Neurologia, mostra que o déficit cognitivo subsequente pode não estar associado exclusivamente à Doença de Alzheimer.
Para chegar a essa conclusão, pesquisadores da Harvard Medical School e de outros centros na Europa e Australia acompanharam idosos sem queixas cognitivas por uma década. Mediram de forma seriada as estruturas cerebrais pela ressonância magnética, assim como o contingente de acúmulo das proteínas tau e beta-amiloide através do exame PET (tomografia por emissão de pósitrons). Esses exames PET têm sido repetidamente apontados como preditores de declínio cognitivo na Doença de Alzheimer. Idosos sem queixas cognitivas, mas com PET anormal para ambas as proteínas, têm 50% de chance de apresentarem declínio cognitivo nos próximos 2 a 5 anos.
Os resultados do presente estudo mostraram que os idosos com menores volumes dos hipocampos tiveram maior chance de declínio cognitivo durante o período de seguimento. Isso já era esperado. O que chamou mais a atenção foi o achado de que essa associação é independente dos resultados dos exames de PET, sugerindo que outras doenças neurodegenerativas, não só a Doença de Alzheimer, podem ser responsáveis pelo declínio cognitivo.
Entre essas doenças degenerativas devemos nos lembrar de algumas bem menos comuns que o Alzheimer e que têm diagnóstico somente através de lâminas de patologia na necropsia, já que ainda não temos biomarcadores para detecção enquanto o indivíduo está vivo. Uma delas é a LATE (Limbic-predominant age-related TDP-43 encephalopathy), descrita em 2019. Limbic é o envolvimento preferencial da doença nos circuitos límbicos, semelhante ao Alzheimer; Age related nos diz que é uma doença que ocorre em idosos, de forma mais gradual e numa idade até mais avançada que no Alzheimer; TDP-43 diz respeito ao acúmulo de proteínas com esse mesmo nome; Encephalopathy significa disfunção cerebral difusa. PART foi descrita em 2014 e é um outro diagnóstico que pode se assemelhar clinicamente com a demência de Alzheimer. PART é o acrônimo para “Primary Age-Related Tauopathy”, condição em que o acúmulo de proteínas beta-amiloide não é expressivo.
Qual a importância disso tudo? Recentemente, três novas drogas para o Alzheimer (anticorpos monoclonais) mostraram efeitos na redução da velocidade do declínio cognitivo e redução no depósito de marcadores patológicos (placas beta-amiloides), resultados que já nos deixam enxergar uma luzinha no fim do túnel. Entretanto, os resultados clínicos foram muito modestos, e uma das explicações para isso é a de que outros diagnósticos foram incluídos nos estudos, além da Doença de Alzheimer. O desenvolvimento de marcadores para essas outras causas de demência que podem se confundir com o Alzheimer é urgente. Um marcador da proteína TDP-43 auxiliaria também no diagnóstico de metade dos pacientes com demência frontotemporal que apresenta depósitos dessa proteína e de 97% dos casos de esclerose lateral amiotrófica.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp, professor do curso de medicina do Unieuro e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Ricardo Afonso Teixeira*
Quem é que não deixa o carro no “piloto automático” enquanto rumina uma preocupação, pensamentos que costumam estar bem distantes da atenção que a condução de um veículo exige. Já sabemos o quanto o álcool e distrações, como o uso do celular, aumentam o risco de um acidente de trânsito, mas estudos demonstram que a redução da atenção por essas divagações da mente corresponde a até 20% dos acidentes.
Contudo, esses passeios do pensamento também podem ser vistos como valiosos para o aprendizado, criatividade e o planejamento da vida pessoal. A evolução da espécie provavelmente selecionou esses pensamentos internos como uma vantagem adaptativa para a resolução de problemas complexos, mas a condução de veículos não fazia parte do cenário. Se não estiver no volante, ou em outra situação em que a atenção seja fundamental, viver momentos em um mundo paralelo não é nada mau.
Assisti a um documentário recentemente sobre a vida do escritor Gabriel Garcia Marques em que amigos de infância e familiares contam que Gabito enxergava no dia a dia o que os outros não viam. Isso certamente contribuiu para que ele fosse categorizado como um representante maior do realismo mágico, alcunha que ele argumentava contrariamente: “a realidade que é mágica.” Uma salva de palmas a Gabito e a todos aqueles que enxergam na realidade o fantástico.
Isso me fez recordar uma carta que os brilhantes músicos americanos Herbie Hancock e Wayne Shorter escreveram para as próximas gerações de artistas para acender as mentes criativas. Acho que isso deveria servir de inspiração a todos nós, independente de sermos ou não artistas. A vida pode ser uma obra de arte. Aliás, deve ser.
Seleciono aqui um trecho da carta que acho um primor: “Finalmente, esperamos que você viva em um estado de constante deslumbramento. Com o acúmulo dos anos, partes da nossa imaginação podem se apagar. Ou por tristeza, dificuldades prolongadas, ou condicionamento social, em algum momento de suas vidas as pessoas se esquecem de como acessar esta mágica inerente que existe dentro de nossas mentes. Não deixe essa parte da sua imaginação desaparecer. Olhe para as estrelas e imagine como seria ser um astronauta ou um piloto. Imagine explorar as pirâmides ou o Machu Picchu. Imagine poder voar como um pássaro ou passar por uma parede como o Super-Homem. Imagine correr com os dinossauros ou nadar com criaturas do mar. Tudo o que existe é produto da imaginação de alguém; cuide bem e nutra sua imaginação e você sempre se encontrará à beira da descoberta. Como cada um desses fatores levam à criação de uma sociedade pacífica? – você deve estar se perguntando. Tudo começa com uma causa. Suas causas criam os efeitos que moldam o seu futuro e o futuro de todos ao seu redor. Sejam os protagonistas no filme de suas vidas. Vocês são os diretores, os produtores e os atores. Sejam ousados e incansavelmente benevolentes enquanto dançam pela viagem que é esta vida.”
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp, professor do curso de medicina do Unieuro e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Ricardo Afonso Teixeira*
Nosso cérebro tem um mecanismo de alarme que acende a `luz vermelha` quando fazemos algo de perigoso, errado ou imoral. Contar uma mentira tem o poder de disparar esse alarme, também conhecido como amígdalas das regiões temporais. Em um estudo publicado pela prestigiada revista Nature Neuroscience tivemos a demonstração de como o cérebro colabora para o fenômeno “uma mentira leva a outra”.
Pesquisadores do University College of London estudaram através de ressonância magnética funcional os cérebros de 80 voluntários durante um jogo que eles tinham a possibilidade de mentir para aumentar as chances de ganhar o jogo.
Uma pequena mentira era capaz de estimular as amígdalas, e à medida que novas mentiras iam sendo contadas, as amígdalas iam ficando menos estimuladas, iam adormecendo. Com as amígdalas adormecidas, o cérebro ficaria mais encorajado a contatar mentiras mais robustas. E foi exatamente isso que os cientistas encontraram: à medida que eles iam mentindo, as amígdalas iam se apagando e as mentiras ficavam cada vez mais ousadas. Você deve estar aí imaginando que muitas personalidades do nosso noticiário diário devem ter as amídalas, não adormecidas, mas em coma.
E não é só de amígdalas adormecidas que a mentira vive. Regiões frontais do cérebro precisam estar intactas para que a mentira aconteça. Vejam só o caso dos portadores da Doença de Parkinson.
O Parkinson é muito conhecido pelos seus sintomas motores tais como o tremor e rigidez, mas o fato é que a doença vai muito além disso. Já é bem reconhecida a redução de funções cognitivas na evolução da doença e há quase um século já se descrevia que os parkinsonianos apresentavam uma personalidade peculiar e os estudos têm consistentemente demonstrado que há uma tendência a um maior grau de determinação, seriedade e inflexibilidade.
O processo de degeneração cerebral associado à doença é visto como um grande candidato para explicar esses traços de personalidade. A honestidade também é descrita como um traço peculiar da personalidade do parkinsoniano, descrita como uma tendência em não mentir. Nesse caso, o mais provável é que os doentes tenham dificuldade em mentir devido às alterações cerebrais e não porque sejam genuinamente mais honestos. E foi isso que pesquisadores japoneses conseguiram confirmar em um elegante estudo publicado no periódico especializado Brain.
Num teste psicológico experimental, indivíduos com o diagnóstico da Doença de Parkinson apresentaram mais dificuldade em dar respostas falsas quando comparados ao grupo controle sem a doença. Além disso, foi demonstrado que essa dificuldade em mentir foi maior entre os parkinsonianos que tinham menor metabolismo cerebral nas regiões pré-frontais, medido por tomografia por emissão de positrons (PET). Estudos anteriores já haviam demonstrado que essas mesmas regiões pré-frontais são ativadas quando um indivíduo saudável conta uma mentira. Essa foi a primeira vez que se demonstrou a base biológica da personalidade honesta dos portadores da Doença de Parkinson e que esta está associada à disfunção nas regiões frontais do cérebro.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp, professor do curso de medicina do Unieuro e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Ricardo Afonso Teixeira*
Farinha pouca, meu pirão primeiro. Quando se pergunta a uma pessoa se ela tem interesse em saber as repercussões que uma escolha feita por ela mesma pode ter na vida dos outros, 40% respondem que não. Essa é conclusão de uma metanálise envolvendo 22 estudos com mais de seis mil pessoas nos EUA e Europa Ocidental.
A lógica é esta: você pode receber, por exemplo, um prêmio de 50 reais sendo que um desconhecido receberá a mesma quantia. Em vez de 50 reais, você pode optar por receber 60, mas o desconhecido receberá apenas 10. Quando as pessoas são perguntadas se querem saber o quanto a escolha de 50 ou 60 reais influenciará nos outros, 40% optam por não saber e abocanhar o maior valor ignorando o que o outro receberia. Essa preferência em não querer saber é de certa forma um egoísmo que não ficará mal na foto, já que a pessoa tem o trunfo de não saber que o outro será prejudicado com sua escolha.
O mesmo raciocínio é válido quando pensamos no consumidor inconsciente, aquele que não faz questão de saber da responsabilidade social ou ambiental da empresa que fornece um determinado produto. Acompanhamos alguns lampejos de boicotes a marcas que não agem dentro da legalidade e estão na contramão da sustentabilidade. O que dirá sobre não querer saber do impacto das mudanças climáticas, do alto consumo de carne bovina. A consciência pode levar as pessoas a se sentirem compelidas, inconvenientemente forçadas a fazer mudanças nos seus hábitos. Lembra-se do documentário sobre o aquecimento global “Uma Verdade Inconveniente” com o ex-vice-presidente dos EUA, Al Gore? Vem à minha mente agora a impressionante “Comfortably Numb” (confortavelmente entorpecido) de Roger Waters, música com que ele abriu seu show esta semana em Brasília.
Não fiquemos desalentados com a espécie humana, pois o altruísmo existe independente de ter alguém olhando ou não. Entretanto o efeito plateia existe sim e não é pequeno. O altruísmo é uma especial característica da espécie humana já que estende os benefícios de nossas boas ações a indivíduos que não fazem parte do núcleo familiar. Atualmente há uma forte linha de pesquisas que busca explicar as raízes de nossas ações altruístas através da ideia de que elas podem gerar ganhos do ponto de vista de reputação, colocando o altruísmo como uma possível vantagem evolutiva, ou seja, indivíduos com comportamento altruísta teriam maior chance de sucesso em gerar descendentes.
Esse efeito reputação é ainda mais reforçado por evidências de que ações altruísticas são maiores quando há plateia. Além dos potencias ganhos sociais, há outro nível de recompensa, já que nosso sistema cerebral de recompensa e prazer é ativado quando nos doamos para outras pessoas. O corpo atual do conhecimento nesta área nos faz pensar que nosso cérebro evoluiu para se sentir bem fazendo bem aos outros e que isso permitiu que aumentássemos nosso potencial de relações e procriação.
O comportamento humano frente a situações injustas reforça ainda mais o papel da reputação como base do altruísmo. Experimentos nos mostram que indivíduos que assistem a uma situação de injustiça, que não os afeta pessoalmente, ganham em reputação quando assumem um comportamento de punição à injustiça. Esse comportamento também ativa os centros cerebrais de recompensa.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp, professor do curso de medicina do Unieuro e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Ricardo Afonso Teixeira*
Quando se pensa em sonambulismo é muito comum vir à mente a imagem de uma criança andando pela casa de pijaminha. Entretanto, essa é uma condição clínica também comum entre os adultos. Cerca de 30% referem ter apresentado pelo menos um episódio de sonambulismo na vida e 3 a 4% destes relatam pelo menos um episódio no último ano. É mais comum entre aqueles com história familiar dessa condição e naqueles que têm quadros psiquiátricos como ansiedade, depressão e transtorno obsessivo-compulsivo. Entre as crianças, a frequência é maior e os estudos apontam que uma em cada cinco apresentará alguma vez essa condição.
Um episódio de sonambulismo geralmente dura menos de 15 minutos, mas pode chegar a mais de uma hora. Qualquer evento que influencie o estado de equilíbrio do cérebro pode desencadear o fenômeno naqueles que têm predisposição. Podemos listar privação de sono, álcool, medicações, estresse, febre, entre outros.
O sonâmbulo mantém os olhos abertos, não responde aos estímulos do meio e, muitas vezes, realiza tarefas complexas como se vestir, arrumar a cozinha e até sair de carro. No outro dia, o paciente não se recorda do que fez e, quando acordado no meio do episódio, mostra-se confuso. Metade deles apresentam sonolência diurna no dia seguinte, um sinal de que o sono não foi reparador.
Há algum tempo ainda se acreditava que o sonambulismo era um fenômeno de sonhar acordado, mas não é bem isso o que acontece. O sonambulismo inicia-se na fase do sono não associada aos sonhos. É uma forma de estar acordado pela metade. A parte do cérebro responsável pelos movimentos está acordada, mas aquela associada à consciência e processos cognitivos ainda dorme. Adaptar a casa para evitar acidentes é importante e o tratamento medicamentoso é indicado especialmente para as pessoas que têm maior risco de acidentes.
Os cuidados voltados ao ambiente em que o sonâmbulo dorme não devem ser vistos como exagero. O sonambulismo provoca acidentes em cerca de metade daqueles que sofrem dessa condição. O curioso é que até 80% dos acidentados não acordam durante esses episódios, como se estivessem em um estado de analgesia. Sentem as dores no corpo só no outro dia quando acordam. Há descrição de queda de uma altura de três metros sem despertar!
Existe um mito de que não devemos acordar um sonâmbulo, pois ele pode nos agredir. Não é por aí. Na verdade, não precisamos acordar o sonâmbulo. Vamos conversando calmamente e sugerindo que ele volte para a cama e, em casos de risco iminente de acidente, aí sim devemos acordá-lo. De uma forma geral, no sonambulismo, no pesadelo, no terror noturno, não precisamos acordar a pessoa, já que ao despertar ela terá muito mais chances de se lembrar do episódio que frequentemente gera estresse psíquico.
Se o sonâmbulo demonstra sinais de medo intenso devemos pensar em terror noturno, uma variante do sonambulismo, e ambos podem ocorrer na mesma pessoa. Por outro lado, se percebemos que a pessoa está atuando no seu próprio sonho, como se estivesse lutando com alguém, por exemplo, aí pensamos no transtorno do sono REM, condição mais frequente em adultos de meia idade ou mais. No pesadelo a pessoa não faz essa atuação, pois no sono REM, que é quando acontece a maioria dos sonhos, o sistema motor está desativado para que a pessoa não encene seu sonho ou pesadelo. No caso do transtorno do sono REM, o raciocínio de acordar ou não a pessoa não é diferente, já que em situações de risco, devemos acordar o paciente. Aqui o risco recai também sobre outrem que dorme na mesma cama. Medicações podem ser indicadas e muitas vezes há a recomendação que os casais durmam em camas separadas.
Por último, chamo a atenção para alguns tipos de crises epilépticas durante o sono que podem parecer sonambulismo. São bem menos comuns que o sonambulismo e a pessoa pode iniciar movimentos estereotipados ainda na cama, como o de pedalar deitado ou outros padrões de movimentos repetitivos. Aqui o diagnóstico requer a experiência clínica de um neurologista e, por vezes, é necessária a monitorização do eletroencefalograma durante a noite.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp, professor do curso de medicina do Unieuro e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Ricardo Afonso Teixeira*
É comum comparar o ato de inibir pensamentos negativos ao de colocar a sujeira embaixo do tapete. Essa é uma visão compartilhada por grande parte dos psicoterapeutas que defendem o conceito de que suprimir esses pensamentos pode até andar no sentido contrário da saúde mental. Aquilo que lhe provoca insegurança, medo, raiva, deveria ser pauta da psicoterapia. Dessa forma evitaríamos que o inconsciente se infle de problemas mal resolvidos que podem gerar inúmeras consequências negativas ao corpo e à mente.
Antes de continuar, gostaria de abrir parênteses para dizer que isso que falamos anteriormente é o conceito de repressão de Freud, pai da psicanálise, terapia esta frequentemente questionada sobre sua real eficácia, especialmente por ter sido construída através da experiência clínica, apoiada por um corpo teórico invejável, mas não acompanhada desde sua origem pelo clássico método científico que define tantas intervenções terapêuticas como “cientificamente corretas”. Entretanto, pode-se acompanhar evidências científicas que a psicanálise tem sim sua eficácia.
Como exemplo, destaco uma metanálise publicada no JAMA (Journal of the American Medical Association) que condensou os resultados de 23 estudos e demostrou que no longo prazo a psicanálise foi mais eficaz que métodos terapêuticos de curto prazo em diversas situações como transtornos de personalidade, múltiplos transtornos mentais e transtornos mentais crônicos. Parloff, em 1982, em um artigo que passou a ser um clássico da psiquiatria, chamou a atenção para o potencial equívoco em se querer começar a definir que um método de psicoterapia tem credibilidade se esse faz parte de uma lista de terapias que foram aprovadas através de rigorosos ensaios científicos, ameaçando todo o corpo teórico, experiência clínica e a arte envolvida nas psicoterapias ainda “cientificamente incorretas”.
Agora fechamos os parênteses. Um estudo publicado no final de setembro no periódico Science Advances e conduzido por pesquisadores da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, mostrou que pacientes que sofriam de ansiedade, depressão ou transtorno de estresse pós-traumático no auge da pandemia se beneficiaram de uma intervenção de curto prazo que treinava os voluntários a suprimir pensamentos negativos que os deixavam inseguros, preocupados.
Os resultados mostraram que esses pensamentos passaram a ser menos vívidos, geravam menos medo e houve também melhora de indicadores de saúde mental logo após a intervenção e três meses depois. É claro que ainda tem muita água para passar embaixo dessa ponte, já que os resultados precisam ser confirmados por outros estudos, amostragem mais ampla, maior tempo de seguimento, etc. Mesmo que isso aconteça, é preciso deixar claro que esse tipo de intervenção não invalida a riqueza de diversos outros tipos de psicoterapia.
A inibição dos pensamentos negativos não teve efeito rebote, ou seja, não fez com que os participantes passassem a ter ainda mais ideias negativas. Esta foi uma grande contribuição da pesquisa, já que é comum o argumento de que um dos problemas da inibição é que ela pode desencadear esse efeito. Por fim, há um robusto corpo de evidências mostrando que essas estratégias de inibição ativam áreas do cérebro que inibem a atividade de centros da memória, como os hipocampos, podendo beneficiar sobremaneira pacientes com ansiedade e estresse pós-traumático.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp, professor do curso de medicina do Unieuro e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Ricardo Afonso Teixeira*
No meu consultório, pode-se perceber no canto da mesa uma cuia de chimarrão e muitos me perguntam se sou gaúcho. Quando digo que não sou do sul do país vem a segunda pergunta – e o que essa cuia está fazendo aí? Muito mais do que pela cafeína da erva mate, o chimarrão é um ritual de pausas no trabalho que cultivo há uns 30 anos e que me ajuda muito. Trabalho um pouco, tomo um chazinho, trabalho mais um pouco, e assim mantenho meu ritmo. Quando estou escrevendo, e a memória não acode meu chamado, uma pausa para o mate costuma resolver.
Praticar, praticar, praticar. Esse é o mantra de muitos estudantes e discuto frequentemente no consultório essa questão com pessoas que querem incrementar o desempenho cerebral. Sempre argumento que pausas são importantes para a solidificação da memória e bons exemplos são um boa noite de sono e uma pausa para atividade física, especialmente entre um turno e outro. Além de “esfriar o motor do cérebro”, o exercício físico libera uma série de substâncias no cérebro que facilita o aprendizado.
Um exemplo interessante de pausas é a famosa técnica “Pomodoro”. Pomodoro era um timer em formato de tomate que o italiano Francisco Cirillo usava para avisá-lo, a cada 25 minutos, que estava na hora de um descanso de cinco minutos. A história rendeu a publicação do livro The Pomodore Technique prometendo melhorar o desempenho no trabalho e nos estudos. Francisco estava certo.
O periódico Current Biology publicou em 2019 uma pesquisa em humanos mostrando que pausas ainda mais frequentes podem fazer com que o aprendizado seja mais eficiente. Os voluntários aprendiam mais quando praticavam por 10 segundos e então descansavam por outros 10 segundos. Isto era feito por 35 vezes e na 11ª repetição eles alcançavam uma eficiência máxima que era mantida nas repetições posteriores. O mais interessante é que a atividade cerebral, demonstrada pelo método de magnetoencefalografia, era maior nos períodos de pausa do que durante a prática, refletindo atividade cerebral de consolidação e solidificação da memória.
Em 2021, pesquisadores do Instituto Max Planck, na Alemanha, publicaram na mesma revista os resultados de um estudo que nos faz entender melhor como as pausas podem potencializar o aprendizado. Os resultados mostraram que a retenção do conteúdo é maior quando o processo de aprendizado se dá entremeado por pausas. A isso se dá o nome de “efeito espaçamento”.
Camundongos tinham que encontrar um pedaço de chocolate escondido em um labirinto em três diferentes oportunidades e o desenho do estudo definia diferentes pausas entre as três chances. No senso comum, pode-se imaginar que quanto mais próximas as tentativas, mais facilmente os animais se lembrariam daquilo que aprenderam. Os pesquisadores demonstraram isso no curtíssimo prazo, mas passadas algumas horas, o resgate da memória era maior entre os animais que tiveram pausas mais longas entre as oportunidades de achar o chocolate. Pausas maiores fizeram com que as mesmas conexões neuronais utilizadas em tentativas anteriores fossem ativadas, reforçando o aprendizado a cada “round”. O conteúdo aprendido é armazenado e pode ser recuperado reativando o mesmo grupo de neurônios e suas conexões.
O “efeito espaçamento” foi descrito há mais de um século em diversos mamíferos e esse último estudo nos mostra de forma bastante elegante como ele é capaz de aumentar o potencial do aprendizado. Com pausas mais longas, a tarefa fica mais demorada, mas o conteúdo aprendido fica consolidado por mais tempo.
E voltando aos humanos, ainda em 2021 foi descrito na revista Cell Reports o efeito compressão durante as pausas, efeito descrito poucos anos antes, mas de forma mais tímida. Dessa vez foi demonstrado de forma inédita que, durante as pausas, o cérebro continua treinando involuntariamente aquilo que o corpo estava praticando, só que numa velocidade 20 vezes maior. Este é o efeito compressão. E então? Vamos programar intervalos no seu estudo, no seu trabalho?
* Ricardo Afonso Teixeira é doutor em Neurologia pela Unicamp, professor do curso de medicina do Unieuro e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília.

Ricardo Afonso Teixeira*
Em uma reanimação cardiopulmonar (RCP), os órgãos ficam muito vulneráveis à baixa do fluxo sanguíneo. Com 10 a 30 segundos de assistolia, coração sem bater, o eletroencefalograma já não evidencia atividade, padrão encontrado nos pacientes em morte encefálica. O cérebro tem seu fluxo reduzido a 25% durante o procedimento de reanimação, quando o mínimo estimado para que não aconteça lesão neuronal é de 50%. Após 72 horas que o coração volta a bater, dois terços das mortes são associadas a lesão cerebral secundária à parada cardiorrespiratória (PCR).
Apesar de ser na maioria das vezes imperceptível, os pacientes submetidos à reanimação após uma PCR têm algum grau de consciência. E não são poucos os que relatam experiências sensoriais, memórias antigas, imagens oníricas e até avaliação moral de atitudes tomadas na vida. Recentemente, 25 centros hospitalares nos EUA e Inglaterra publicaram um estudo cooperativo evidenciando que quatro em cada dez pacientes que sobrevivem a uma PCR têm lembranças ligadas ao evento, também chamadas de experiências de quase morte. Nenhum estudo foi tão detalhado no que diz respeito à sistematização da monitorização eletrencefalográfica em pacientes com RCP, apontando que a atividade elétrica cerebral pode ser recobrada até 60 minutos após o início da reanimação.
A pesquisa ainda avaliou a capacidade de retenção de memória durante o procedimento. Para isto, os pacientes ouviram durante a reanimação, através fones de ouvido, o nome de três frutas e, depois de conscientes e orientados, eram instruídos a dizer se lembravam dos nomes. Mesmo que conscientemente não soubessem dizer a resposta, quando orientados a pensar em três frutas de forma aleatória, muitos acertaram em cheio.
A identificação de biomarcadores associados ao nível de consciência de um paciente durante a RCP pode ter importância futura na discussão do uso ou não de sedação durante o procedimento, já que muitos que sobrevivem apresentam transtorno de estresse pós-traumático. O estudo foi publicado no Ressucitation, periódico oficial do Conselho Europeu de Reanimação.
Escolhi e listo abaixo quatro experiências relatadas por pacientes após uma RCP e publicadas no artigo original:
“Não estava mais no meu corpo. Eu flutuava, não tinha peso ou materialidade. Eu estava acima do meu corpo e observava o corpo que já não era meu.”
“Eu podia sentir que alguém fazia alguma coisa no meu peito. Não sentia compressões, mas sentia que alguém esfregava forte e era bastante doloroso.”
“Eu fui para uma casa desconhecida. A polícia me pegou e eu pensava como explicar o que eu estava fazendo ali. Caminhei em direção a um lamaçal e ao sair de lá eu não estava molhado e meio que me fundi com a calçada. Tinha um pescador cantando e estava chovendo.”
“Lembro de um ser de luz, sentado ao meu lado. Crescia sobre mim uma grande torre de força, irradiando calor e amor. Vi instantes da minha vida, senti orgulho, amor, prazer e tristeza. Foram-me mostradas as consequências da minha vida, como impactei a vida das pessoas que interagi.”
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp, professor do curso de medicina do Unieuro e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Uma metanálise, incluindo milhões de casais, acaba de ser publicada pela Nature Human Behaviour e confirma a ideia de que pessoas com mais semelhanças que diferenças têm mais chance de se atrair e construir uma relação de longo prazo. Foram mais de 130 diferentes características pessoais analisadas mostrando que os casais têm entre 82% e 89% desses traços semelhantes. Características ou traços pessoais são, por exemplo, religiosidade, inclinação política, nível educacional, idade da primeira relação sexual, etc.
O estudo tem fortes implicações para pesquisas no campo da genética apontando que a conexão entre os sexos não é aleatória como muitos modelos genéticos preconizam. Casais homoafetivos não foram incluídos neste estudo e estão sendo analisados separadamente pelos autores.
É para casar. Seu DNA dá “match” com o meu.
Como vimos anteriormente, a tal história que os opostos se atraem é mito mesmo. Mas será que a bagagem que carregamos no nosso código genético influencia também a escolha do(a) parceiro(a)? A ciência já mostrou, através da análise de todo o genoma, que o DNA faz diferença sim. Uma pessoa tem o código genético mais parecido do seu parceiro ou parceira quando comparado ao DNA de outras pessoas com mesmo nível socioeconômico, etnia e origem de nascimento. A genética influencia a escolha do parceiro, mas de forma bem menos expressiva que as características pessoais, o fenótipo.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp, professor do curso de medicina do Unieuro e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Ricardo Afonso Teixeira*
É difícil discordar de que cultivar o rancor pode deixar a vida bem pesada, não é? Mesmo em situações extremas, deixar esse sentimento para trás é uma grande libertação. O ato de perdoar não é fácil e aqui vão cinco dicas que podem ajudar a interromper a ruminação mental desse sentimento tão negativo. Aqui falamos não só de perdão a uma pessoa, mas também a um grupo de pessoas que cometeram injustiças e eventos traumáticos.
1- O maior interessado no ato de perdoar é você mesmo. Em um estudo com mães, que perderam seus filhos por crimes violentos, uma intervenção terapêutica, chamando a atenção para o grande benefício próprio de se buscar apagar ou reduzir o rancor, trouxe resultados bem positivos. Após uma semana da intervenção, elas sentiram-se menos abaladas e com escores de depressão 60% menores. Outros estudos mostraram também que perdoar reduz o grau de ansiedade de quem perdoa.
2- Faça o exercício de se colocar do outro lado. Tente criar uma atmosfera de empatia, imaginando a situação que esse outro lado vivia quando cometeu a ação que você julga, de forma inequívoca, errada ou injusta.
3- Tente modular suas reações ao evento traumático como impulsos de revolta, ondas de raiva e ansiedade.
4- Lembre-se que o tempo é um grande remédio para cicatrizar feridas. Em um momento muito próximo ao evento traumático, o exercício de perdão é mais difícil. Deixar a poeira baixar, às vezes, é o caminho mais acertado.
5- E por último, falo aqui um pensamento português que acredito que pode colaborar sobremaneira em muitas situações do dia a dia em que podemos cair na armadilha de guardar rancor em nossas mentes. Não deveríamos nos martirizar exigindo dos outros aquilo que eles não podem nos oferecer. Com sotaque bem português: Cada qual dá o que tem conforme a sua pessoa.
Anos depois de conhecer essa frase aprendi que, na verdade, ela faz parte de uma quadra bastante popular em Portugal:
Pilriteiro, dás pilritos
Porque não dás coisa boa?
Cada qual dá o que tem
Conforme a sua pessoa.
Em Portugal há também um ditado muito conhecido que diz a mesma coisa:
Pilriteiro dá pilritos, a mais não é obrigado.
O pilriteiro é um arbusto espinhoso bastante comum em Portugal e dá uma frutinha muito ácida, o pilrito. Pela quadrinha popular, parece que o pilrito não deve mesmo ser uma fruta muito apreciada. Tenho uma teoria sobre frutas exóticas que se pilrito fosse bom mesmo, seu nome seria morango ou banana e seria exportado para todos os cantos do planeta.
Muitas situações que poderiam nos afastar do nosso equilíbrio mental tem a ver com a cobrança e, às vezes, com nossa indignação pelas atitudes dos outros que nos desagradam. É o prestador de serviço que não terminou o serviço direito, é o cara que passa à nossa frente pelo acostamento enquanto estamos parados na fila do engarrafamento, é a moça do caixa do supermercado que é lenta no seu desempenho. Podemos começar a enxergar esse cotidiano através de uma outra ótica. O cara que fura fila não tem educação e princípios de cidadania. Vamos nos irritar? Brigar? A moça lenta no caixa do supermercado é lenta mesmo e nem foi treinada para ser mais rápida e provavelmente não teve as mesmas oportunidades de desenvolvimento cerebral que você que está incomodado. O mau prestador de serviços pode ter uma história parecida com a moça do supermercado. Antes de reagirmos de forma a perdermos nosso dia, podemos pensar que pilriteiros dão pilritos. Que tal?
*Dr. Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp, professor do curso de medicina do Unieuro e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília



