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Ricardo Afonso Teixeira*
Pesquisas têm demonstrado nos últimos anos que, mesmo dentro da cidade, o contato com o verde pode trazer benefícios ao cérebro. Voluntários ao caminharem pela cidade com um aparelho de eletrencefalograma portátil, e passarem por ruas comerciais agitadas, apresenta o cérebro excitado. O contrário acontece em um parque da cidade, quando as ondas cerebrais ficam mais “meditativas”. Sabemos também que pessoas que moram próximas a árvores e parques têm níveis menores do hormônio do estresse cortisol quando comparadas às que vivem cercadas de concreto.
Já é bem reconhecido que as pessoas que vivem nas grandes cidades têm maior risco de apresentar transtornos mentais. Através de ressonância magnética funcional, foi demonstrado que o cérebro de quem mora no campo reage de forma diferente a estímulos de estresse quando comparados aos moradores da cidade. Isso rendeu até a capa da prestigiada revista Nature. Os pesquisadores mostraram uma maior ativação das amígdalas entre os moradores de grandes cidades e foi curioso o fato de que isso estava presente mesmo nos adultos que viveram nas “selvas de concreto” somente na infância.
Outro estudo, conduzido pelo Instituto Max Planck na Alemanha, apoiou esses achados ao demonstrar que as pessoas que moram ao redor de muita natureza têm maior integridade de uma das regiões do cérebro mais associadas ao processamento do estresse e reações frente ao perigo. E essas estruturas são as amígdalas. Mas para desvendar a velha pergunta, o que vem primeiro, o ovo ou a galinha, o Instituto Max Planck também demonstrou que o contato com a natureza é que é responsável por essa maior integridade, e não o contrário. Digamos que pessoas com essa anatomia avantajada das amígdalas tivessem a tendência em morar mais próximos à natureza. Provavelmente não é isso o que acontece. Os pesquisadores compararam a ativação das amídalas, por ressonância magnética funcional, após uma hora de caminhada na floresta ou numa rua movimentada. Após a caminhada na floresta, as amígdalas ficaram menos ativadas, o que não aconteceu com os voluntários que circularam nas ruas da cidade.
O local onde moramos pode também influenciar a saúde do corpo. Esta é conclusão de um artigo de revisão das evidências sobre o tema publicado em novembro deste ano pelo periódico Biological Reviews. A biologia humana evoluiu para o movimento, a natureza e curtos períodos de estresse, como lutar ou fugir de um predador. O estresse crônico das grandes cidades faz com que vivêssemos sempre na mira de um predador, levando à redução da fertilidade e eficiência do sistema imunológico, além de um aumento das doenças inflamatórias crônicas. E quando se fala em doenças inflamatórias, devemos incluir a aterosclerose, principal causa das doenças que mais matam no mundo: o infarto do miocárdio e o derrame cerebral. Sabemos que morar à beira de rodovias e ruas com muito tráfico de veículos aumenta o risco de doenças cardiovasculares também devido à poluição do ar. Por outro lado, morar próximo a parques estimula a prática de atividades físicas.
* Extraído da coluna semanal Neurônios em Dia, parceria entre o Instituto do Cérebro de Brasília e o Correio Braziliense. Confira mais sobre esse assunto e outros conteúdos acessando nosso site (link na bio): http://www.icbneuro.com.br

Ricardo Afonso Teixeira*
Já temos um bom corpo de evidências mostrando que a segunda-feira está associada a maiores níveis de ansiedade e até de suicídio do que outros dias da semana. Há também um aumento de 20% de morte súbita por doença cardiovascular, e isso tanto em homens como em mulheres. Chandola, professor de sociologia médica da Universidade de Hong Kong trouxe resultados do seu grupo de pesquisa sobre o tema na última edição da revista Scientific American, Mind & Brain.
Chama bastante atenção os achados de que as pessoas que se sentem mais ansiosas às segundas-feiras apresentam aumento em 23% dos níveis de ativação do sistema de estresse por meses. Não gera uma resposta hormonal, aumento de cortisol, só de curto prazo, mas uma resposta duradoura. E níveis crônicos de aumento de cortisol estão associados a ansiedade, depressão, doença cardiovascular, diabetes, obesidade e imunodeficiência. Aqueles que tinham ansiedade em outros dias da semana não tinham essa elevação prolongada do hormônio.
Para grande surpresa, esse efeito persiste após as pessoas se aposentarem. Longe do trabalho que supostamente é considerado o gatilho para esse maior contingente de estresse associado às segundas-feiras. É como se fosse introjetado na mente e no corpo um mal estar das segundas-feiras, um alarme que foi automatizado, mesmo que você nem trabalhe mais.
Além de ter que encarar a rotina da semana após o descanso do fim de semana, por que a segunda-feira tem todo esse poder? Uma das explicações é de que na segunda confrontamos mais com as incertezas do mundo real, que comprovadamente levam ao estresse e à ansiedade. Muitos se queixam que domingo à noite é o pior momento da semana e por isso, criar uma atividade divertida nesse momento da semana pode ser uma dica preciosa para que a transição para a semana que entra seja mais suave.
* Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Ricardo Afonso Teixeira*
A Scientific American, publicação do grupo editorial da Nature, nos trouxe este mês uma reflexão que compara o comportamento das atuais gigantes da mídia com a das companhias de tabaco no século passado. O artigo é assinado pelo cientista David Robert Grimes, um dos grandes nomes mundiais na luta contra a desinformação.
Desde a década de 1940 já tínhamos evidências da associação entre o tabagismo e câncer de pulmão e, ainda na década de 1950, as companhias de cigarro contrataram uma campanha publicitária poderosa para reforçar a ideia de dúvida. Criava assim na população geral uma opinião de que a associação entre cigarro e câncer era ainda controversa. Mark Zuckerberg da Meta usa a mesma estratégia da dúvida quando diz que não existem evidências científicas que mostrem um efeito danoso das redes sociais sobre a saúde mental, apesar de centenas de estudos mostrarem o contrário.
Zuckerberg anunciou este ano a interrupção da checagem de fatos, modelo já seguido pelo X, com a justificativa de que a checagem tinha um custo alto e por não respeitar a liberdade de expressão. Elon Musk do X se autointitula um defensor da liberdade de expressão absoluta e elenco aqui dois resultados dessa liberdade absoluta: incitação pelo Facebook ao genocídio em Mianmar em 1998 e um vídeo no Tik Tok que alcançou 1.8 milhão de views recomendando lavagem intestinal anual com água sanitária para a prevenção/tratamento de parasitose intestinal. Há pouco tempo uma criança de oito anos morreu vítima de um desafio da internet que propunha inalação de desodorante.
Para que a desinformação cause danos, ela não precisa convencer. Só precisa gerar dúvidas. É o fenômeno da verdade ilusória, quando a exposição repetida de uma informação nos faz aceitá-la, mesmo que intelectualmente sabemos que se trata de uma ideia falsa. Um capítulo à parte são os riscos que informações sem qualquer tipo de regulação oferecem às democracias. Juristas, ex-ministros, artistas lançaram recentemente um manifesto que pede regras para as redes sociais. O manifesto diz “Se é crime no mundo físico, também deve ser crime no mundo virtual! Internet sem regulamentação mata!”. Aqui você tem o link para assinatura: https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLSfm6UEfbjh-Hvltw5lICgTgW5mJfZmZ0MA2kYnr69A77dBl9g/viewform?pli=1
*Ricardo Afonso Teixeira é Doutor em Neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Ricardo Afonso Teixeira*
No ano de 2021 o presidente da Coalisão Mundial de Saúde Mental rejeitou a orientação da Associação Americana de Psiquiatria ao dar um diagnóstico psiquiátrico a uma pessoa pública, no caso, Donald Trump, sem examiná-lo pessoalmente. A Coalizão se valeu da Declaração de Genebra que defende que médicos podem se expressar quando frente a governos destrutivos, Declaração criada após a experiência do Nazismo.
De acordo com a Coalisão, o fenômeno Trump e seus seguidores estão embasados em um narcisismo simbiótico e uma psicose compartilhada. Por narcisismo simbiótico devemos entender que um líder, faminto por adulação para compensar sua baixa autoestima, projeta uma onipotência grandiosa, enquanto seus seguidores, carentes pelo estresse social e econômico, buscam ansiosamente por uma figura parental. Quando esses indivíduos assumem posições de poder, eles elicitam a mesma patologia numa parte da população com encaixe perfeito, como uma chave feita para aquela fechadura. Quanto à psicose compartilhada, eles a chamam também de folie à million. Folie à deux (loucura a dois) é um fenômeno descrito na psiquiatria desde o século XVII e refere-se a sintomas delirantes compartilhados por duas pessoas geralmente da mesma família ou próximas. A folie à deux também é chamada de transtorno psicótico induzido, e folie à million, socorro! Quando um indivíduo muito sintomático é colocado em posição de poder e influência, seus sintomas podem se propagar à população por meio de ligações emocionais, amplificando patologias pré-existentes e afetando até indivíduos previamente saudáveis. E o fator delirante provavelmente é mais forte do que um cálculo estratégico, pois ele se dissemina mais facilmente.
É importante salientar que os indivíduos com transtornos mentais como um grupo não são mais perigosos que a população geral, mas quando o transtorno mental vem acompanhado de componentes destrutivos, esses indivíduos são mais perigosos sim. E de onde vem esse elemento destrutivo? Simplificando, se uma pessoa não recebe amor, ela busca respeito. Se ela não tem o respeito, ela realiza ameaças.
Uma pergunta comum que é feita desde o início dessa discussão é se Trump tem algum transtorno mental ou é apenas mau, ou os dois. Para quem quiser se aprofundar nessa discussão, vale a leitura do livro “The Dangerous Case of Donald Trump” (O perigoso caso de Donald Trump, em tradução livre), um bestseller do New York Times publicado em 2017.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Por Ricardo Afonso Teixeira
Os efeitos danosos da poluição atmosférica sobre nossa saúde são fortemente explorados através dos impactos negativos sobre os sistemas respiratório e cardiovascular, mas as repercussões no sistema nervoso não são nada desprezíveis e são na verdade um problema de saúde pública de alta relevância.
Um dos maiores vilões da poluição são as partículas minúsculas com menos de 2,5 micrômetros de diâmetro (PM 2.5). Elas podem atingir o cérebro, pois conseguem atravessar a barreira hematoencefálica que funciona como um filtro para partículas maiores. Podem também, através do epitélio olfativo, alcançar o nervo olfativo e o cérebro, assim como fazem alguns vírus. As pequenas partículas, ao entrar em contato com o cérebro, podem promover inflamação, que por sua vez deflagra alterações no cérebro nos curto e longo prazos.
A Organização Mundial de Saúde e entidades de controle do clima definem um valor máximo dessas micropartículas no ar para que não haja prejuízos à saúde da população. O fato é que as queimadas são capazes de multiplicar a concentração dessas partículas. As queimadas são responsáveis por cerca de 50% dos gases de efeito estufa, mais do que as emissões de todos os motores a combustão e fábricas juntas. As concentrações de PM 2.5 podem ser responsáveis por 50% da poluição atmosférica.
Estudos já demonstraram que a exposição a altas concentrações de PM 2.5 está associada em curtíssimo prazo a dificuldades cognitivas e a uma série de condições psiquiátricas com maior busca pelos sistemas de saúde por quadros de depressão, surtos psicóticos e tentativa de suicídio. Condições psiquiátricas estão associadas a essa poluição também quando se pensa no longo prazo. O mesmo se vê com doenças neurogenerativas, como Parkinson e Alzheimer, assim como o acidente vascular cerebral.
O maior risco de obesidade nas pessoas expostas à poluição foi parcialmente explicado pela menor eficiência do hormônio da saciedade leptina. Animais expostos a altas concentrações de PM 2.5 apresentaram inflamação no hipotálamo, estrutura do cérebro que dialoga com a leptina. Após cinco dias de exposição, os animais dispararam a comer. O desenvolvimento do diabetes tipo 2 também tem forte associação com o PM 2.5.
Uma pesquisa recém-publicada pelo periódico Environmental Health Perspectives apontou que o cérebro dos pequenos também sofre com altas concentrações de PM 2.5. Mais de dez mil pré-adolescentes do maior estudo americano sobre o desenvolvimento do cérebro do adolescente (ABCD) apresentaram mais sintomas psiquiátricos nos períodos de maiores concentrações de PM 2.5, podendo persistir por até um ano. Aqui estamos falando de sintomas de depressão, ansiedade e comportamento desafiador.
Tem sido demonstrado também efeitos negativos sobre o cérebro e desenvolvimento de crianças em que a mãe foi exposta a estas substâncias em altas concentrações. Os efeitos negativos incluem alterações estruturais do cérebro, rebaixamento cognitivo e até mesmo limitação motora.
Para finalizar, vamos falar do impacto na expectativa de vida. Pesquisas em países como Canadá, Holanda e Finlândia demonstram que um aumento de 10µg por m3 na concentração de partículas menores que 2.5µm está associado a uma redução na expectativa de vida de 0.8 a 1.3 anos. Um importante e pioneiro estudo foi publicado no jornal New England Journal of Medicine confirmando essa relação entre poluição e longevidade só que de forma inversa: a redução da poluição é capaz de aumentar a longevidade da população. A redução dos mesmos 10µg por m3 na concentração de PM 2.5 promoveu um aumento de 0.77 ano na expectativa de vida da população.
O recado não está difícil de entender. A expressão apagão aéreo é utilizada para situações de caos na malha aérea, aeronaves. Hoje vivemos um apagão aéreo muito mais caótico: o da poluição atmosférica. Paradoxalmente é um apagão alimentado pelas chamas.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Ricardo Afonso Teixeira*
A solidão aumenta o risco de demência, doenças cardiovasculares, sono de má qualidade, deficiência imunológica, depressão e ainda faz a pessoa morrer mais cedo. Será que esses efeitos da vida solitária podem ser explicados pela ausência de “cães de guarda”, pessoas que estimulam bons hábitos e reprimem maus hábitos? Pode até ser, mas parece que existem outras explicações.
Temos evidências que a solidão é capaz de mudar percepção, os pensamentos, a química e a estrutura do cérebro. Os solitários são mais sensíveis a experiências ruins como quando são apresentados a imagens de pessoas com expressão facial de dor. Exames de ressonância magnética funcional demonstram que o isolamento social faz com que as áreas do sistema de recompensa cerebral sejam menos ativadas quando provocadas com estímulos sociais o que explica a menor empolgação por um hipotético encontro.
Pesquisas com ratinhos mostram que o isolamento reduz hormônios cerebrais que modulam a agressividade e diminui também o processo de mielinização que é fundamental para a plasticidade cerebral. Influencia ainda a expressão de genes ligados a comportamentos ansiosos. Os animais que crescem solitários têm uma inibição no crescimento de novos neurônios em áreas associadas à comunicação e memória. Em um modelo de derrame cerebral, provocado intencionalmente, ratinhos solitários morrem mais do que os que cresceram com os companheirinhos.
Os médicos costumam lembrar seus pacientes de qualidade de sono, dieta e atividade física. Por que não incluir nesse roteiro uma “prescrição social”? Em vez de simplesmente falar ao paciente que ele deveria socializar mais, se for o caso, abordar individualmente janelas de oportunidade para que isso aconteça pode ser mais efetivo. É um momento ímpar para o estreitamento da relação médico-paciente. É inspirar uma reflexão de Etnia do extraordinário Chico Science.
Não há mistérios em descobrir
O que você tem e o que gosta
Não há mistérios em descobrir
O que você é e o que você faz
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Por Dr. Ricardo Afonso Teixeira
Em 2022, tivemos o dia mais frio da história aqui no Distrito Federal. Os termômetros marcaram 1.4ºC e a sensação térmica ficou abaixo de zero. E não é que tinha gente nadando na Água Mineral? Essa temperatura hostil possivelmente traz algum bem-estar para esses nadadores. Sabemos que nessa hora tiveram maiores concentrações do hormônio cortisol e de neurotransmissores como noradrenalina, dopamina e endorfina.
No ano de 2017, o jornalista e antropólogo americano Scott Carney publicou seu livro “What doesn´t kill us” (O que não nos mata, em tradução livre) que foi muito bem recebido e fez parte da lista de bestsellers do New York Times. Scott tinha um projeto de escrever um livro sobre falsos profetas quando teve conhecimento de Wim Hof, um guru holandês conhecido por Iceman (homem gelo) e logo pensou que ele poderia ser mais um candidato para compor os personagens de seu livro.
Hof é conhecido como homem gelo, pois preconiza o reencontro do Homo sapiens com o ambiente natural sem o conforto a que estamos acostumados e isso inclui enfrentar temperaturas geladas sem proteção térmica. O homem gelo defende que a prática de uma rotina de meditação no frio extremo promove a regulação do nosso sistema nervo autônomo, com benefícios ao estado mental, imunológico entre outros.
Scott foi atrás de Hof na Polônia e, até a publicação do livro, Scott já estava o seguindo há quatro anos. O que era para ele um possível charlatão passou a ser um guru. Entrou para o livro dos recordes subindo quase nu, junto a Hof e outros seguidores, o Kilimanjaro a seis mil metros de altitude.
No livro você pode encontrar estudos que avaliaram particularidades fisiológicas do corpo de Hof, como um contingente avantajado de gordura marrom. O tecido adiposo marrom é abundante em animais que hibernam como os ursos, mas também existe entre os humanos e de forma bem mais expressiva nos recém-nascidos. Esse é um tecido que tem a capacidade de produção de calor para o organismo bem superior a qualquer outro tipo de tecido do corpo, e nos animais, é bem reconhecido que essa gordura varia nas diferentes épocas do ano por conta de mudanças de temperatura.
A onda “Iceman” está correndo o mundo e recentemente recebi pelas redes sociais uma prática de imersão em uma tina de gelo na Chapada dos Veadeiros. Temos algumas evidências de que a água gelada pode ter efeitos positivos para o humor e nos sistemas imunológico, endócrino e cardiovascular. Pode trazer riscos? Sim. Exposição prolongada a águas com temperaturas muito baixas pode levar a hipotermia, estresse cardíaco e arritmias. Cuidado especial deve ser tomado por aqueles com sabida patologia cardiovascular. Para os que não estão acostumados, um treinamento sob orientação profissional pode garantir mais segurança para ingressar nessa onda Iceman. Vale lembrar que o banho frio de chuveiro tem o seu lugar e pode até trazer benefícios semelhantes.
*Dr. Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp, professor do curso de medicina do Unieuro e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Por Dr. Ricardo Teixeira*
Um dos fenômenos muito especiais da maternidade é o deslocamento do eixo de preocupações de uma fêmea. A vida orientada para suas próprias necessidades passa a se concentrar também no cuidado e bem-estar de seus filhos.
A natureza dá uma força para que esse projeto de cuidar da cria seja bem sucedido, já que as alterações hormonais características da gravidez, parto e lactação, permitem que o cérebro das mães seja “turbinado” nessas fases. O cérebro materno é por definição um modelo espetacular do fenômeno de neuroplasticidade, que é a capacidade do cérebro em criar novas conexões em resposta a um estímulo.
A maior parte das evidências de incremento de funções cerebrais com a maternidade tem origem em estudos com mamíferos inferiores, especialmente os roedores. Pesquisas apontam que não só as alterações hormonais, mas também o ambiente rico em estímulos associados à maternidade (ex: múltiplas novas tarefas, sons, cheiros), têm um papel importante nesse upgrade cerebral das mães.
A maioria dos mamíferos compartilha instintos maternais de defender seu ninho e sua cria. Ao ter que optar entre sexo, drogas, alimento ou seu ratinho recém-nascido, as mamães ratinhas escolhem seus ratinhos. O cuidado com os filhotes ativa nas mães centros cerebrais de recompensa ligados ao prazer, mesmo no caso de filhotes adotivos. Esse fenômeno também foi demonstrado entre as mães humanas ao ouvir o choro dos filhos, ou simplesmente ao olhar para eles.
Em ratinhas, temos evidências de que a maternidade provoca aumento do volume dos neurônios e mais conexões em algumas regiões cerebrais. Mais recentemente, tem sido demonstrado também o fenômeno de geração de novos neurônios. As mães passam a apresentar melhor desempenho em orientação espacial e memória, ficam mais corajosas e rápidas para capturar a presa, e com menos sinais de ansiedade em situações de estresse. Tudo em prol de uma maior capacidade de alimentar as crias. Artemis é ao mesmo tempo a deusa grega do parto e da caça.
E esses efeitos parecem durar bastante. As mamães ratinhas chegam ao equivalente humano de 60 anos de idade com melhor desempenho e coragem, além de menor declínio cognitivo e também menos sinais de degeneração cerebral quando comparadas a ratinhas virgens da mesma idade.
Cerca de 80% das mulheres na gestação, especialmente no terceiro trimestre, queixam-se de menor desempenho cognitivo e alguns estudos confirmam essa tendência, mas demonstram que a intensidade não chega a atrapalhar as atividades do dia a dia. Temos evidências também que, após o parto, a mães recuperam suas habilidades e ficam até mais eficientes do que antes da gravidez. O atual corpo de evidências, juntando resultados de modelos animais e humanos, nos permite pensar que a maternidade colabora para uma maior reserva cognitiva, deixando as mulheres mais resilientes ao processo de envelhecimento cerebral. Entretanto, conclusões ainda devem ser tratadas com cautela, pois há muito que se investigar ainda, especialmente no impacto de longo prazo da maternidade sobre o cérebro.
As mães modernas, com suas rotinas de malabaristas, devem apresentar adaptações cerebrais mais robustas do que as dos modelos animais, já que são submetidas a um nível de estimulação ambiental como nenhuma outra espécie. Além de cuidar da cria e de sua própria sobrevivência, protagonizam diversos outros papéis simultâneos (esposa, amante, conselheira, profissional, dona-de-casa, etc.). É estímulo para dar, vender e jogar fora.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp, professor do curso de medicina do Unieuro e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Ricardo Afonso Teixeira*
Chegamos aos 70 anos com o cérebro mais protegido contra declínio cognitivo quando temos um trabalho desafiador ao logo das décadas. Essa é conclusão de um estudo norueguês publicado recentemente pela Neurology, periódico da Academia Americana de Neurologia.
Após analisarem sete mil pessoas em 305 diferentes ocupações, os pesquisadores demonstraram que 42% dos que tinham um trabalho com baixa demanda cognitiva apresentaram déficit cognitivo após os 70 anos, comparados a 27% daqueles com trabalho de alta demanda. O ofício que trouxe o maior efeito protetor foi o de professor. Os resultados foram ajustados para outros fatores como sexo, nível educacional, renda e atividade física regular. Outro estudo, realizado com funcionários públicos ingleses, já havia apontado que trabalhos considerados passivos, com pouca autonomia e baixa demanda em dimensões psíquicas e sociais, estão associados a maior sedentarismo.
Mas isso não é tudo. Hirayama é o personagem do premiado filme “Dias Perfeitos”, ainda em cartaz nos cinemas, e nos mostra aquilo que as pesquisas dificilmente conseguirão detectar. Hirayama trabalha como limpador de banheiros públicos em Tóquio. Tem uma rotina de trabalho repetitiva, mas tem dois canais de conexão essenciais abertos que nos fazem enxergar a experiência humana em outras dimensões. O primeiro deles eu chamaria de amor à vida. Aqui incluo a empatia e a forte ligação com o mundo natural, seja em casa ou nos seus intervalos de almoço no trabalho. O segundo canal é o amor à arte. Sempre que tem uma oportunidade saca sua câmera fotográfica para registrar elementos do seu primeiro canal de conexão. A música o acompanha com suas fitas cassetes e, como todo filme do diretor Wim Wenders, a trilha é impecável. Chega em casa, deita-se no chão e liga sua luminária de luz fraca para ler William Faulkner. Difícil imaginar que Hirayama faça parte do grupo com maior chance de declínio cognitivo desse estudo que descrevemos anteriormente pelo fato de seu trabalho exigir pouca demanda cognitiva. Ele pode até ter traços obsessivos, mas eu diria uma obsessão do bem.
Dica de filme, mas também vai uma de livro. Faulkner já estava na mira após o relato de Gabriel Garcia Marques de que ele tenha sido o autor que mais o influenciou. O mesmo diz John Fosse, autor Norueguês, vencedor do último Prêmio Nobel de Literatura. Hirayama me inspirou a encarar “O Som e a Fúria” de Faulkner, uma sinfonia com todos os seus movimentos. O livro não é tão extenso, mas um livro difícil, talvez uma sinfonia de Mahler e não de Mozart, em que o leitor terá sua descomunal recompensa se não desistir antes de chegar ao final e ovacionar o maestro e sua orquestra.
* Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp, professor do curso de medicina do Unieuro e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília
Isso pode significar menor risco de demência

Por Dr. Ricardo Afonso Teixeira
Um dos maiores estudos populacionais sobre o impacto de fatores de risco no desenvolvimento de doenças cardiovasculares e demência é o “Framingham Heart Study”, iniciado em 1948. Há alguns anos, resultados desse estudo americano, e também de outros da Inglaterra, Holanda e Suécia, chegaram a mostrar uma menor incidência de demência ao longo das últimas cinco décadas, provavelmente associada a um melhor controle de fatores de risco vasculares e melhora dos níveis educacionais e nutricionais dessas populações. Não é o caso do Brasil, onde os estudos evidenciam aumento na incidência e prevalência de demência. Como era de se esperar, o aumento dos índices de demência acompanham o aumento dos índices de diabetes, obesidade, sedentarismo e analfabetismo.
Uma pesquisa recém-publicada pelo JAMA Neurology (25 março), prestigiado periódico da Academia Americana de Medicina, aponta que o volume cerebral é maior entre as pessoas que nasceram na década de 1970 comparadas às nascidas nos anos 1930. Exames de ressonância magnética de mais de três mil indivíduos foram analisados e os que nasceram nos anos 1970 tinham um volume cerebral e superfície do córtex 6.6% e 15% maiores. Os cérebros eram de americanos participantes do estudo de Framingham. Aumento de volume cerebral e superfície cortical pode estar associado a menor risco de demência por promover uma maior reserva cerebral.
O psicólogo americano James Flynn descreveu no início da década de 1980 que testes de inteligência têm resultados com melhor desempenho de geração em geração, fenômeno conhecido por efeito Flynn. Nosso QI tem mais chance de ser maior que o dos nossos pais, enquanto o dos nossos filhos será maior que o nosso. Discute-se que os fatores mais implicados nesse incremento também são os educacionais, nutricionais e de melhor controle dos fatores de risco cardiovasculares. Para a população americana estudada originalmente por Flynn, seus resultados são concordantes com os cérebros de Framingham crescendo ao longo das décadas. Entretanto, o efeito Flynn também é demonstrado em países de baixa e média renda, o que abre uma brecha para interrogarmos o efeito civilizatório de maior acesso à informação no mundo conectado. Será que a desinformação e fake news nas redes sociais serão capazes de inverter essas tendências?
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp, professor do curso de medicina do Unieuro e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília
A humildade intelectual é imprescindível para que isso aconteça.

Ricardo Afonso Teixeira*
Cada click de curtida nas redes sociais faz com que seja disparado no cérebro um circuito de recompensa que é o mesmo ativado quando experimentamos um delicioso chocolate ou quando terminamos uma tarefa que estava pendente. Temos realmente uma engrenagem que nos faz sentir confortáveis e seguros com o pensamento daqueles que pensam como a gente.
O diferente dá mais trabalho. Ele ativa outro circuito, o da amígdala, localizado no lobo temporal, que sinaliza medo e desconfiança daquilo que pode nos trazer perigo, do que é estranho, diferente.
Isso tudo é muito mais inconsciente do que podemos imaginar. Estudos mostram que brancos acham que os negros são mais violentos e propensos a provocar transtornos, simplesmente por serem negros. E essa opinião inconsciente acontece mesmo quando se fala em crianças negras de cinco anos de idade. Nessas situações, estudos de neuroimagem mostram que as amígdalas estão bem ativadas e essa ativação reflete o quanto as pessoas são relutantes em acreditar nas outras.
Por outro lado, o sistema de recompensa desempenha o seu papel de contrabalancear o efeito de desconfiança das amígdalas. Esses circuitos de recompensa são antigos na evolução dos vertebrados e estão presentes nos pássaros, répteis, anfíbios e nos mamíferos. Uma pesquisa clássica conduzida por pesquisadores da Universidade de Stanford mostrou que o sistema de recompensa de camundongos era bastante ativado quando eles encontravam outro camundongo desconhecido, mas que era da sua própria linhagem genética.
Os cientistas desconhecem todos os segredos desses sistemas na promoção de interações sociais, mas a expansão dessa linha de pesquisa pode nos dar rumos de como fazer com que os “diferentes” cooperem entre si. Já sabemos que essa cooperação traz grandes resultados e é mais desafiador. Onde iremos parar com uma vida banhada de recompensa cerebral por aqueles que nos cercam, sem sermos desafiados por pontos de vista diversos?
Ouvir, de verdade, uma opinião diferente requer humildade intelectual. A troca envolve o exercício de apresentar suas ideias de maneira respeitosa. É chegar ao seu número certo: nem tão grande que você possa parecer arrogante e nem tão pequeno, o que é uma autodepreciação. E se você mudar suas convicções, mude de cabeça erguida e ainda cante Raul: “Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo.”
Pessoas com diferentes expertises têm mais sucesso no desempenho de uma tarefa complexa que um time de pessoas com formação muito homogênea. E a diversidade social também traz vantagens. Juntar pessoas com diferentes convicções políticas, etnias, gêneros e orientações sexuais pode ser muito melhor que uma turma de homens branquinhos que apoia o mesmo partido político.
Essa diversidade é vista hoje como condição necessária para uma equipe alcançar a inovação. Pesquisas mostram que empresas que têm mais mistura étnica e de gênero ganham mais dinheiro que as muito homogêneas. Grupos de cientistas multiétnicos têm mais sucesso.
A diversidade permite mais criatividade. Quando interagimos com uma pessoa diferente da gente, temos a tendência em nos preparar melhor para a tarefa, para a argumentação. É mais comum anteciparmos alternativas de opinião e temos a expectativa de que o esforço será grande para um consenso. As pessoas acabam se esforçando mais.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp, professor do curso de medicina do Unieuro e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Uma metanálise, incluindo milhões de casais, acaba de ser publicada pela Nature Human Behaviour e confirma a ideia de que pessoas com mais semelhanças que diferenças têm mais chance de se atrair e construir uma relação de longo prazo. Foram mais de 130 diferentes características pessoais analisadas mostrando que os casais têm entre 82% e 89% desses traços semelhantes. Características ou traços pessoais são, por exemplo, religiosidade, inclinação política, nível educacional, idade da primeira relação sexual, etc.
O estudo tem fortes implicações para pesquisas no campo da genética apontando que a conexão entre os sexos não é aleatória como muitos modelos genéticos preconizam. Casais homoafetivos não foram incluídos neste estudo e estão sendo analisados separadamente pelos autores.
É para casar. Seu DNA dá “match” com o meu.
Como vimos anteriormente, a tal história que os opostos se atraem é mito mesmo. Mas será que a bagagem que carregamos no nosso código genético influencia também a escolha do(a) parceiro(a)? A ciência já mostrou, através da análise de todo o genoma, que o DNA faz diferença sim. Uma pessoa tem o código genético mais parecido do seu parceiro ou parceira quando comparado ao DNA de outras pessoas com mesmo nível socioeconômico, etnia e origem de nascimento. A genética influencia a escolha do parceiro, mas de forma bem menos expressiva que as características pessoais, o fenótipo.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp, professor do curso de medicina do Unieuro e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Por Ricardo Afonso Teixeira*
A defesa por uma vida de abstinência sexual teve sua vez na antiguidade. Na tradição cristã, podemos citar Paulo: “É bom para um homem que ele não toque em uma mulher”. No período helenístico, defendia-se o celibato como uma oportunidade para se dedicar à filosofia e alcançar a virtude e o bem estar. É comum, em várias culturas, a ideia de que o prazer da atividade sexual esteja associado à perda do vigor e do bem-estar. No norte da Índia, qualquer perda de sêmen é considerada como debilitante, podendo levar a problemas de pele, ansiedade e perda da concentração, dores articulares, palpitações, dor no peito e até mau hálito. A conta para reabilitação é a reposição de 40 kg de alimento para cada colher de sêmen perdida.
A ciência antiga também defendeu o conceito de que a restrição de sexo seria capaz de manter o vigor. No final do século XIX, Eugen Steinach ficou muito famoso com sua técnica cirúrgica que impedia a ejaculação por meiodo fechamento dos canais que levam o esperma até a uretra. A ideia era impedir a perda de sêmen e, mesmo com a atividade sexual regular, evitaria assim a perda de hormônios masculinos. Muitos dos seus clientes na época reconheciam o procedimento como uma promissora fonte da juventude, mas com a evolução da ciência e da medicina baseada em evidências, pôde-se ver que tal conduta cirúrgica não oferecia mais do que um poderoso e invasivo efeito placebo. Fica claro, até aqui, que o gozo feminino nem fazia parte do mundo real, ficando restrito às feiticeiras. A caça às bruxas da Idade Média ainda acontece com outros matizes no mundo contemporâneo, uma sociedade patriarcal que não dá conta de dividir o protagonismo com a mulher. Não deixe de ler o monumental livro O Cálice e a Espada de Riane Eisler, especialmente se você for mulher ou LGBTQIA+, e mais especialmente ainda se você for homem.
Nas últimas décadas, estudos científicos rigorosos não só desmontaram de uma vez por todas o mito de que a atividade sexual pode ser deletéria à saúde, desde que devidamente protegida contra doenças sexualmente transmissíveis, mas também têm revelado que o sexo traz inúmeros benefícios à saúde. Alguns desses estudos acompanharam indivíduos de meia idade e idosos por até 20 anos, e têm sido quase unânimes em mostrar que quanto mais regular a atividade sexual, menor a mortalidade, inclusive por doença isquêmica do coração. É bem reconhecido que uma relação sexual, devido ao esforço físico, pode até precipitar hemorragias cerebrais e morte súbita de causa cardíaca em indivíduos predispostos. Entretanto, à luz do conhecimento atual, pode-se dizer que o efeito protetor da atividade sexual é muito maior que os raros eventos precipitados pelo esforço físico. É claro que um indivíduo que tem dor no peito simplesmente por subir dois lances de escada deve discutir com seu cardiologista seu risco em fazer sexo ou qualquer outra atividade física.
Outros efeitos do sexo sobre nossa saúde têm sido investigados, alguns já com boas evidências científicas, outros nem tanto. Elenco a seguir alguns desses efeitos.
– Aumento da concentração de anticorpos do tipo IgA na saliva. Esse mesmo efeito tem sido demonstrado em atletas e está associado a menor risco de infecções do trato respiratório superior. As pesquisas sobre essa questão ainda são muito tímidas e não nos permite sair dizendo por aí que sexo previne gripes e resfriados.
– Um estudo realizado na Escócia através de entrevistas com mais de 3500 indivíduos revelou que aqueles que faziam sexo pelo menos quatro vezes por semana eram aqueles que aparentavam ser mais jovens de acordo com análise de um painel de juízes. O estudo não foi publicado em um periódico científico, mas no livro best-seller Superyoung, propondo que o sexo rejuvenesce. Defende-se a tese de que a atividade sexual, por aumentar os níveis de alguns hormônios, como o estradiol, pode deixar a pele e os cabelos mais viçosos. Além disso, uma outra pesquisa recente demonstra que mulheres com níveis altos de estradiol percebem-se fisicamente mais atraentes e, tanto na mulher como em várias outras espécies, esse componente hormonal faz com que a fêmea seja mais receptiva ao parceiro para a cópula e tenha também maior sucesso na fertilização do óvulo.
– Sexo é atividade física e pode ajudar a controlar o peso, mas isso depende da frequência da atividade sexual. Calcula-se que o gasto energético da atividade sexual seja muito próximo ao ato de caminhar e não há sentido em pensar que o sexo deva substituir a atividade física “não sexual”. É bom lembrar que aquilo que alguns podem chamar de atletas sexuais, pode ser na verdade um transtorno psiquiátrico, um tipo de compulsão chamado de Apetite Sexual Excessivo, ou Ninfomania, no caso das mulheres, e Satiríase, ou Don Juanismo, no caso dos homens. Claro que não existe um número mágico que defina que acima desse número tal existe um transtorno. Transtorno existe quando o comportamento passa a trazer repercussões negativas na vida social, familiar e ocupacional do indivíduo.
– A excitação sexual e o orgasmo estimulam a liberação cerebral de uma série de hormônios e neurotransmissores associados à sensação de satisfação e que também têm efeitos analgésicos. Essas modificações não são associadas simplesmente ao orgasmo, já que são muito maiores com a relação sexual propriamente dita do que com a masturbação. Estudos já demonstraram menos queixas de dor entre pessoas com atividade sexual regular.
– Atividade sexual regular está associada a menos insônia. Esse efeito não parece estar restrito à sonolência após uma relação sexual e, nesse caso específico, a química cerebral no pós-orgasmo parece ser a grande responsável. Pesquisadores da Unicamp demonstraram que mulheres que apresentam insônia têm um menor índice de satisfação sexual. O estudo sugere que a insônia e a baixa satisfação sexual não andam sozinhas, mas têm relação também com a depressão e uso de antidepressivos.
– Uma vida sexual ativa está associada a menos ansiedade, menos agressividade e menos depressão. Um estudo chegou a demonstrar que mulheres que não usavam preservativos na relação tinham menos índices de depressão do que aquelas que usavam. Uma das hipóteses para explicar é a de que a absorção pela vagina de estrogênios e prostaglandinas contidas no sêmen poderia reduzir o risco de depressão. Esse é um estudo isolado, não confirmado por pesquisas subsequentes e com falhas metodológicas significativas, como a diferença na frequência da atividade sexual entre os grupos. E mesmo que os resultados sejam confirmados no futuro, duvido, nada mudará quanto ao recado mais importante relacionado ao assunto: sexo seguro!
– Mulheres que fazem sexo pelo uma vez por semana têm ciclos menstruais mais regulares do que aquelas que fazem sexo de forma esporádica ou as abstêmias. A atividade sexual também fortalece a musculatura da pelve podendo ajudar a reduzir o risco de incontinência urinária com o envelhecimento.
– Homens com maior frequência de ejaculações têm menor risco de câncer de próstata. A produção de sêmen envolve uma alta concentração de substâncias pela próstata e pelas vesículas seminais que pode incluir substâncias carcinogênicas. A retenção de sêmen, por longos períodos, pode aumentar a exposição da próstata a essas substâncias.
A ciência moderna nos mostra de forma inequívoca que há razões de sobra para incorporarmos o prazer sexual como importante medida de promoção à saúde. O equilíbrio entre as diferentes dimensões da vida, e sexo é só uma delas, é fundamental. Podemos terminar ao som de Diversão dos Titãs e lembrar que sexo é muito, muito mais que diversão.
Às vezes qualquer um faz qualquer coisa
Por sexo, drogas e diversão
Tudo isso às vezes só aumenta
A angústia e a insatisfação
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp, professor do curso de medicina do Unieuro e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Por Dr. Ricardo Afonso Teixeira*
A Universidade da California em Los Angeles liderou um estudo publicado recentemente na Scientific Reports que mostrou que os seres humanos cooperam entre si na maior parte das vezes que são requisitados. Mais de 40 horas de análise de vídeos da rotina de mais de 350 pessoas espalhadas em cidades de diferentes países da Europa e vilas rurais em quatro continentes demonstraram que o apoio em tarefas do cotidiano acontece em 80% das vezes em que há simples solicitação de ajuda, mesmo não verbal. Um exemplo é o de passar um talher para o outro durante uma refeição quando alguém lhe aponta o objeto.
Foram mais de mil oportunidades de colaboração nessas 40 horas de vídeo. Dez por cento ignoram o pedido de ajuda e outros 10% negam, mas justificam a razão de não poderem colaborar naquele momento. Não houve diferenças significativas entre as diferentes culturas estudadas, e mais, a cooperação foi semelhante entre parentes e não parentes. O método utilizado para analisar o nível de cooperação através de atitudes pequenas do dia a dia traz um resultado diferente de outros estudos com tarefas de maior custo para o indivíduo. Nessas situações de maior demanda, há mais influência de fatores culturais e do fenômeno de reputação.
Esses resultados sugerem que nossa tendência a ajudar o outro é mais inata do que cultural. É sabido que crianças, até com menos de dois anos de idade, já são capazes de colaborar com outras na realização de tarefas motoras, fenômeno chamado de altruísmo instrumental, e essa é uma condição também observada entre nossos ancestrais chimpanzés. Porém, dar uma forcinha para abrir uma porta é uma coisa, já dividir o alimento é outra bem diferente. Crianças com 7 a 8 anos de idade já dividem seu alimento de forma igualitária com parceiros do mesmo grupo social (coleguinhas de escola), mesmo quando têm a chance de ficar com a maior parte e ainda apresentam aversão a situações em que a divisão é feita com desigualdade.
*Dr. Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e diretor do Instituto do Cérebro de Brasília

Por Ricardo Afonso Teixeira*
Os gregos já falavam do amor pelo semelhante e cunharam o termo homofilia. A homofilia realmente é um fenômeno inequívoco, mas há um crescente corpo de pesquisas mostrando que há também a acrofilia – amor pelos extremos. As pessoas tendem a dar mais atenção àqueles que pensam de forma similar, homofilia, mas também têm mais atração por opiniões extremas, mesmo que sejam diferentes das delas próprias. As pessoas com opiniões extremas podem ser vistas pelo outro como mais engajadas, talvez mais interessantes. Os estudos têm mostrado, como já era esperado, que a combinação de homofilia e acrofilia política alimenta a segregação tornando mais difícil a cooperação, dimensão essencial para uma sociedade saudável.
A acrofilia tem sido estudada entre pessoas que nem se conhecem, situação muito distante de uma relação próxima, como a de um casal. Numa relação a dois temos um corpo muito robusto de evidências de que os opostos não se atraem. Aqui a homofilia tem que existir para que a relação tenha maior chance de durar.
A tal história que os opostos se atraem realmente é um mito. As pessoas costumam se casar com outras com nível educacional / socioeconômico parecido, com crenças religiosas e políticas semelhantes e que têm mais interesses em comum. E a bagagem que carregamos no nosso código genético influencia também a escolha do nosso parceiro. Pesquisas mostram que uma pessoa tem o código genético mais parecido com o do seu parceiro ou parceira quando comparado ao DNA de outras pessoas com mesmo nível socioeconômico, etnia e origem de nascimento.
Pessoas com mais semelhanças que diferenças têm mais chance de se atrair para construírem uma relação de longo prazo. Entretanto, vale sempre a pena lembrar que respeitar e incentivar as diferenças pode ser uma das melhores receitas para que essa relação se sustente.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e diretor do Instituto do Cérebro de Brasília

Você samba de que lado
De que lado você samba
De que lado, de que lado
De que lado, de que lado
Você vai sambar?
O problema são problemas demais
Se não correr atrás da maneira certa de solucionar
Samba do Lado – Chico Science
O último post tratou tratou do perfil psicológico de indivíduos que querem a destruição dos modelos institucionais vigentes, um ativismo disruptivo a que foi dado o nome de Necessidade de Caos por cientistas políticos da França e Dinamarca ainda este ano. Os pesquisadores se somaram a um grande corpo de evidências que estuda a escalada de líderes populistas nas democracias ocidentais nos últimos anos. Hoje, falaremos um pouco mais sobre esses personagens.
No ano de 2021 o presidente da Coalisão de Saúde Mental Mundial rejeitou a orientação da Associação Americana de Psiquiatria ao dar um diagnóstico psiquiátrico a uma pessoa pública, no caso, Donald Trump, sem examiná-lo pessoalmente. A Coalizão se valeu da Declaração de Genebra que defende que médicos podem se expressar quando frente a governos destrutivos, Declaração criada após a experiência do Nazismo.
De acordo com a Coalisão, o fenômeno Trump e seus seguidores estão embasados em um narcisismo simbiótico e uma psicose compartilhada. Por narcisismo simbiótico devemos entender que um líder, faminto por adulação para compensar sua baixa autoestima, projeta uma onipotência grandiosa, enquanto seus seguidores, carentes pelo estresse social e econômico, buscam ansiosamente por uma figura parental. Quando esses indivíduos assumem posições de poder, eles elicitam a mesma patologia numa parte da população com encaixe perfeito, como uma chave feita para aquela fechadura. Quanto à psicose compartilhada, eles a chamam também de folie à million. Folie à deux (loucura a dois) é um fenômeno descrito na psiquiatria desde o século XVII e refere-se a sintomas delirantes compartilhados por duas pessoas geralmente da mesma família ou próximas. A folie à deux também é chamada de transtorno psicótico induzido, e folie à million, socorro! Quando um indivíduo muito sintomático é colocado em posição de poder e influência, seus sintomas podem se propagar à população por meio de ligações emocionais, amplificando patologias pré-existentes e afetando até indivíduos previamente saudáveis. E o fator delirante provavelmente é mais forte do que um cálculo estratégico, pois ele se dissemina mais facilmente.
É importante salientar que os indivíduos com transtornos mentais como um grupo não são mais perigosos que a população geral, mas quando o transtorno mental vem acompanhado de componentes destrutivos, esses indivíduos são mais perigosos sim. E de onde vem esse elemento destrutivo? Simplificando, se uma pessoa não recebe amor, ela busca respeito. Se ela não tem o respeito, ela realiza ameaças. Trump viveu a rejeição e a violência é uma compensação à perda de poder.
Esta não é uma história de ficção e qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real aqui nos trópicos não é mera coincidência. Em 2021, um grupo de renomados advogados e professores pediram ao Supremo Tribunal Federal que o presidente Jair Bolsonaro fosse submetido a exames para avaliar se ele é mentalmente apto a exercer as funções de presidente. Poucos meses antes, o psiquiatra forense Guido Arturo Palomba, autoridade com mais de 30 anos de dedicação ao assunto, apontou que o presidente apresenta traços inequívocos de transtorno mental, com sinais de desvio de personalidade e condutopatia, termo este cunhado por ele para deformidade de conduta, uma sociopatia em que a pessoa não apresenta ética e valores morais. O quadro foi descrito pela primeira vez em 1855 sob o nome de “Loucura Moral”. “Diante do comportamento do senhor Jair, eu acho que há elementos suficientes para que se possa dar uma hipótese diagnóstica. Se acham os grandes poderosos, e aí vem a tirania, porque só eles que estão certos. Essas pessoas não deveriam nunca ter esse poder de mando, mas quando têm é sempre uma lástima”, diz Palomba.
Desconheço qualquer posicionamento da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) sobre a saúde mental de Bolsonaro. Conheço, sim, o manifesto de mais de mil profissionais da psiquiatria contra as medidas conduzidas pelo governo Bolsonaro e denúncia de aliança entre o governo, Conselho Federal de Medicina (CFM) e ABP favorecendo o desmonte da reforma psiquiátrica brasileira e o fim das políticas antimanicomiais. A ABP se defende com nota de repúdio dizendo ter ficado “totalmente surpresa” com as mudanças propostas pelo Ministério da Saúde. Já o CFM recebeu o manifesto “Este CFM não me representa” de milhares de médicos após visita de Bolsonaro à entidade em julho deste ano. O mandatário defendeu medicações comprovadamente ineficazes contra a COVID-19, ridicularizou os senadores da CPI da COVID e declarou com orgulho que não se vacinou. Ao final, foi aplaudido de pé e alguns gritaram mito. O jornal The Lancet apontou, ainda em 2021, que o kit COVID foi encorajado pelo CFM, ação que anda na contramão das evidências científicas e a entidade é cobrada a proibir oficialmente essa prática. No ano de 2022, ainda permanece a autonomia do médico em prescrever cloroquina na COVID-19, mesmo após ação movida pela Defensoria Pública da União e o Ministério Público Federal para que o CFM puna médicos que insistirem com essa conduta.
É obrigatório, para entender melhor o caso Bolsonaro, assistir ao documentário Quebrando Mitos de Fernando Grostein Andrade, o mesmo diretor de Quebrando o Tabu . O documentário explicita brilhantemente o que tentei expressar nesse post e muito mais.


Pesquisas têm demonstrado nos últimos anos que, mesmo dentro da cidade, o contato com o verde pode trazer benefícios ao cérebro. Voluntários ao caminharem pela cidade com um aparelho de eletrencefalograma portátil, e passarem por ruas comerciais agitadas, apresenta o cérebro excitado. O contrário acontece em um parque da cidade, quando as ondas cerebrais ficam mais “meditativas”. Sabemos também que pessoas que moram próximas a árvores e parques têm níveis menores do hormônio do estresse cortisol quando comparadas às que vivem cercadas de concreto por todos os lados.
Já é bem reconhecido que as pessoas que vivem nas grandes cidades têm maior risco de apresentar transtornos mentais. Através de ressonância magnética funcional, foi demonstrado que o cérebro de quem mora no campo reage de forma diferente a estímulos de estresse quando comparados aos moradores da cidade. Isso rendeu até a capa da prestigiada revista Nature. Os pesquisadores mostraram uma maior ativação das amígdalas entre os moradores de grandes cidades e foi curioso o fato de que isso estava presente mesmo nos adultos que viveram nas “selvas de concreto” somente na infância.
Outro estudo, conduzido pelo Instituto Max Planck na Alemanha, apoiou esses achados ao demonstrar que as pessoas que moram ao redor de muita natureza têm maior integridade de uma das regiões do cérebro mais associadas ao processamento do estresse e reações frente ao perigo. E essas estruturas são as amígdalas. Mas para desvendar a velha pergunta, o que vem primeiro, o ovo ou a galinha, o Instituto Max Planck acaba de publicar novos resultados apontando que o contato com a natureza é que é responsável por essa maior integridade, e não o contrário. Digamos que pessoas com essa anatomia avantajada das amígdalas tivessem a tendência em morar mais próximos à natureza. Provavelmente não é isso o que acontece. Dessa vez foi comparada a ativação das amídalas, por ressonância magnética funcional, após uma hora de caminhada na floresta ou numa rua movimentada. Após a caminhada na floresta, as amígdalas ficaram menos ativadas, o que não aconteceu com os voluntários que ficaram nas ruas da cidade.
O local onde moramos pode mesmo influenciar nossa saúde, não só a saúde mental. Sabemos que morar à beira de rodovias aumenta o risco de doenças cardiovasculares devido à poluição do ar, e quanto maior o número de restaurantes “fast food” na vizinhança, maior o risco de infarto agudo do coração e derrame cerebral. O risco de diabetes é menor em comunidades que têm na vizinhança boas opções para realização de atividade física, além de comércio com oferta de produtos alimentícios saudáveis. Isso sem falar no trânsito.

Um estudo da Universidade de Uppsala, na Suécia, mostra que após uma noite de privação de sono, as pessoas têm menor contato visual com os outros e uma avaliação diferente às suas expressões faciais. A pesquisa foi publicada recentemente pelo periódico Nature and Science of Sleep. Expressões faciais de raiva elicitavam uma impressão de se tratar de um indivíduo menos saudável e de menor confiabilidade, enquanto expressões neutras ou de medo davam a impressão de serem pessoas menos atrativas.
O estudo usou a tecnologia de rastreamento ocular em 45 jovens que eram apresentados a imagens de indivíduos com diferentes expressões faciais. Eles eram testados após uma noite de oito horas de sono e depois após uma noite de privação total do sono. O menor tempo de fixação visual encontrado após a privação de sono, especialmente da metade superior da face, aumentou a chance de interpretação imprecisa do estado emocional dos outros.
No presente estudo, a privação de sono levou a um julgamento mais negativo e pode estar associado a uma menor motivação para a interação social no mudo real. Isso já foi sugerido pelos resultados de uma pesquisa publicada pela Nature Communications em 2018. Muito interessante é o fato de que a privação de sono dispara um sinal de repulsa social naqueles que estão sem dormir, mas também entre aqueles que estão interagindo com o insone.
E a relação entre privação de sono e sociabilidade é de via dupla. Camundongos submetidos a isolamento social passam a ter o sono menos eficiente. Em humanos acontece o mesmo, enquanto a promoção de socialização melhora o padrão do sono. Sabemos também que a privação de sono está associada uma maior ativação das amígdalas cerebrais quando em frente a estímulos de contextos negativos ou prazerosos.

Por Dr. Ricardo Teixeira*
Vamos primeiro aos números alarmantes. Os dados da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional apontam que 33 milhões de pessoas passam fome no Brasil no ano de 2022, contingente maior do que o registrado há 30 anos, quando a população era bem menor. Seis em cada 10 brasileiros convivem com algum grau de insegurança alimentar. Em 2018 – 5,8% dos brasileiros passavam fome. Em 2020 – 9% e em 2022 – 15,5%. Há fome em 13,5% dos domicílios em que residem apenas adultos, enquanto entre domicílios com 3 ou mais crianças ou jovens é de 25,7%.
A pobreza é reconhecida como um dos principais fatores que contribuem para o número de pessoas com retardo mental ao redor o mundo. Em países desenvolvidos, a prevalência de retardo mental situa-se em torno de 3-5 / 1000 indivíduos, enquanto em países pobres a prevalência chega a ser cinco vezes maior. A pobreza está por trás de dois dos principais fatores de risco para o retardo mental: deficiência nutricional e de estímulo cerebral. O problema deve ser visto como uma epidemia neurológica escondida. Do ponto de vista de saúde pública, a pobreza tem um impacto sobre o estado neurológico muito maior que a grande maioria das doenças neurológicas com suas organizadas sociedades médicas e associações de pacientes, e com seus medicamentos que movem o business da saúde.
Mesmo as crianças que não desenvolvem retardo mental chegam em idades avançadas com menor desempenho cognitivo quando crescem em situação de pobreza. Há evidências também de um envelhecimento cerebral mais rápido entre os pobres e que a pobreza na infância está associada a uma redução do volume da substancia branca e cinzenta do cérebro.
Atacar de frente a pobreza vai além da questão de humanismo e de direitos humanos. O Banco Mundial reconhece que dentre todas as intervenções em saúde, o controle da desnutrição pode ser considerado a que apresenta melhor custo-benefício. E os primeiros anos de vida de uma criança são os mais vulneráveis para o cérebro, começando a contar desde o primeiro dia da concepção, na barriga da mãe. A mãe precisa comer bem. Todo mundo tem que comer bem. E uma coisa puxa a outra. Crianças desnutridas têm menor chance de chegar à escola, e quando chegam, têm maior chance de evasão.
Pense nisso. A fome sangra o indivíduo, sangra uma família, sangra um país.
*Dr. Ricardo Teixeira é neurologista e diretor clínico do Instituto do Cérebro de Brasília

Um estudo recém-publicado por pesquisadores da Universidade de Exeter e Leeds, na Inglaterra, mostra que as pessoas que frequentemente experimentam o sentimento de solidão têm maior chance de ficarem desempregadas no curto e médio prazo, efeito que vai aumentando ao longo do tempo e é maior entre os homens. Aqui temos um círculo vicioso, já que pessoas desempregadas se sentem mais sozinhas.
A solidão está associada não só a transtornos psiquiátricos, como é o caso da depressão, mas a inúmeras doenças, especialmente a doença cardiovascular. É reconhecida como fator de risco comparável ao tabagismo e até pior que a obesidade e sedentarismo quando se pensa no sistema cardiovascular. Está associada também a pior desempenho cognitivo e menor satisfação com a vida. Quanto à influência sobre a empregabilidade, a solidão pode inibir a motivação pela busca de um trabalho ou promover um pior desempenho levando à demissão.
A pesquisa acompanhou mais de quinze mil pessoas no período pré-pandêmico de 2017 a 2020 com idades entre 16 e 65 anos. Chamou-me a atenção essa relação ser mais robusta entre os homens o que me fez lembrar dos efeitos positivos do casamento sobre a saúde física e financeira dos homens:
- melhores salários e mais estabilidade no emprego
- vida sexual mais satisfatória. Um estudo americano mostrou que 51% dos homens casados dizem estar extremamente satisfeitos com suas vidas sexuais, comparados a 36% no caso dos solteiros
- melhor saúde física e mental. Nos EUA, homens casados vivem em média 10 anos a mais que os solteiros e, quando se fala em felicidade, 43% reportam que estão muito felizes, enquanto apenas 24% dos que moram juntos dizem o mesmo
- os casados têm menos exposição a fatores de risco à saúde
Entre as mulheres, o casamento está associado a bons indicadores de saúde, mas só quando a satisfação com a união é alta. O dramático é que a maternidade está ligada à queda de empregabilidade e salário.



