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Ricardo Afonso Teixeira*

O jornalista Stevens Silbermann, autor do best-seller Neurotribes, publicado em 2015 e ainda sem tradução para o português, disse: “Poucas pessoas podem dizer que cunharam um termo que tenha mudado o mundo para melhor, em uma direção mais humana e com mais compaixão. Judy Stinger pode”. 

Judy é uma australiana que apresentou ao mundo em 1998 o conceito de neurodiversidade em sua tese na Universidade de Tecnologia de Sydney. O trabalho pode ser conferido no livro: Neurorodiversity: The birth of an idea (Neurodiversidade: O nascimento de uma ideia, em tradução livre). A obra traz uma reflexão sociológica sobre grupos com disfunções neurológicas marginalizadas com foco especial nos portadores do transtorno do espectro autista chamando os leitores para uma revolução da neurodiversidade assim como houve a revolução feminista. O livro também não tem tradução para a língua portuguesa.

O esforço de Judy acendeu a chama para que essa revolução acontecesse. São inúmeras entidades ao redor do mundo que carregam a bandeira da neurodiversidade lutando para que o mundo respeite as diferenças e dê condições para que os neurodiversos, aqueles que não representam a maioria, não sejam estigmatizados e mais, que estes tenham acesso a oportunidades de inserção na sociedade, incluindo o trabalho, já que muitos são capazes de contribuir de forma sofisticada. Alguns têm talentos e capacidades que os neurotípicos, a maioria, nem sonham em ter.  Só precisam encontrar o ambiente e o tipo de trabalho certos e muitas organizações têm trabalhado para que isto aconteça. No seu blog você encontra: “Eu não estou aqui para tornar o capitalismo mais eficiente, mas para torná-lo mais humano”.

Uma das pérolas do trabalho de Judy é distinção entre o modelo médico e social de incapacidade. Uma pessoa pode ter uma deficiência, mas isto passa a ser uma incapacidade quando lhe são colocadas barreiras e práticas socias que dificultam as oportunidades de inserção social. É claro que toda condição de saúde é permeada pelo espectro de gravidade e há um subgrupo em cada uma dessas condições que está no extremo mais grave onde deficiência dificilmente será diferente de incapacidade.

E quando falamos de neurotípicos e neurodiversos, vale contextualizar o conceito de normal. A palavra normal na saúde só passou a ser registrada na língua inglesa na metade do século 19, época em que a estatística passou a ser utilizada na saúde pública. O termo era o mais próximo do que se chamava de “ideal”, característica mais própria dos deuses do que dos mortais. Os estudiosos em incapacidade argumentam que o que chamamos hoje de norma, a maioria, raramente alcança o estado ideal.

E você? Você se considera ideal? Parabéns. Que dádiva genética que você herdou! Ou os parabéns podem ser também por sua disciplina com os cuidados com sua saúde. Mas tenho que lhe dizer que no cenário global a humanidade está longe de você ou dos deuses. Não estou sendo irônico. O “Global Burden of Disease Study” (GBD) é um dos maiores esforços para medir a morbimortalidade das principais doenças ao redor do mundo, financiado pela Fundação Bill & Melinda Gates e sob a chancela da Organização Mundial da Saúde. Sua última análise foi publicada no prestigiado periódico The Lancet Neurology em 2024 e apontou que o grupo das condições neurológicas representa a maior causa de anos perdidos de vida saudável (DALYs), seguido pelo grupo de doenças cardiovasculares. Os resultados também mostraram que 43,1% das pessoas no mundo sofrem de alguma disfunção neurológica, seja por uma doença neurológica primária ou por efeito de outras condições que afetam o sistema nervoso. Quase metade da população e não estão incluídos aqui muitos diagnósticos psiquiátricos.

A difusão do conhecimento tem ajudado a reduzir o estigma sobre as disfunções neurológicas, mas ainda de forma muito incipiente. É a pessoa que sofre de enxaqueca e sente que as pessoas acham que ela supervaloriza sua condição ou se aproveita dela. E vê cara feia quando pede a alguém para evitar usar perfume, pois desencadeia suas crises. É o portador da Doença de Parkinson que, por ter uma menor expressão da mímica facial e uma monotonia na voz, é tratado de forma infantilizada. São exemplos de neurodiversos, cérebros que funcionam diferente, mas os outros não têm consciência disso.

Neurodiversos somos todos nós, mas o movimento de conscientização, uma ação política para garantia de direitos, começou pelo espectro autista, mas se expande naturalmente para inúmeras disfunções neurológicas em que seus portadores vivem uma marginalização de suas limitações que pode gerar incapacidade. Hoje é comum incluir também sob o guarda-chuva da neurodiversidade o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, dislexia, transtorno bipolar, entre outros. Hoje percebo no consultório o discurso libertador e empoderado daqueles que encontraram sua tribo ao dizerem que são neurodiversos.

*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Ricardo Afonso Teixeira*

A solidão aumenta o risco de demência, doenças cardiovasculares, sono de má qualidade, deficiência imunológica, depressão e ainda faz a pessoa morrer mais cedo. Será que esses efeitos da vida solitária podem ser explicados pela ausência de “cães de guarda”, pessoas que estimulam bons hábitos e reprimem maus hábitos? Pode até ser, mas parece que existem outras explicações.

Temos evidências que a solidão é capaz de mudar percepção, os pensamentos, a química e a estrutura do cérebro.  Os solitários são mais sensíveis a experiências ruins como quando são apresentados a imagens de pessoas com expressão facial de dor. Exames de ressonância magnética funcional demonstram que o isolamento social faz com que as áreas do sistema de recompensa cerebral sejam menos ativadas quando provocadas com estímulos sociais o que explica a menor empolgação por um hipotético encontro.


Pesquisas com ratinhos mostram que o isolamento reduz hormônios cerebrais que modulam a agressividade e diminui também o processo de mielinização que é fundamental para a plasticidade cerebral. Influencia ainda a expressão de genes ligados a comportamentos ansiosos.  Os animais que crescem solitários têm uma inibição no crescimento de novos neurônios em áreas associadas à comunicação e memória.  Em um modelo de derrame cerebral, provocado intencionalmente, ratinhos solitários morrem mais do que os que cresceram com os companheirinhos.

Os médicos costumam lembrar seus pacientes de qualidade de sono, dieta e atividade física. Por que não incluir nesse roteiro uma “prescrição social”? Em vez de simplesmente falar ao paciente que ele deveria socializar mais, se for o caso, abordar individualmente janelas de oportunidade para que isso aconteça pode ser mais efetivo.  É um momento ímpar para o estreitamento da relação médico-paciente. É inspirar uma reflexão de Etnia do extraordinário Chico Science.   

Não há mistérios em descobrir
O que você tem e o que gosta
Não há mistérios em descobrir
O que você é e o que você faz

*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Ricardo Afonso Teixeira*

Na hora de escolher um político que irá comandar os rumos da sua cidade, estado ou país, é bem razoável pensarmos que esta escolha privilegiará o candidato que revele mais sabedoria. O mesmo se dá em outras escolhas da vida como um médico ou um psicoterapeuta, por exemplo. É comum termos a expectativa de que o(a) escolhido(a) seja uma pessoa sábia e não simplesmente sabida. A sabidas chamo aquelas que têm conhecimento técnico e experiência em determinado assunto. Mas uma pessoa sábia pode ir além.

Pesquisadores canadenses da Universidade de Waterloo conduziram um estudo recém-publicado pelo periódico Nature Communications para entender como as pessoas reconhecem que uma pessoa é sábia. Foram incluídos na pesquisa quase três mil indivíduos de doze países e cinco continentes. Duas qualidades principais foram identificadas como indicadores de sabedoria. A primeira é a aplicação do conhecimento de forma lógica associado a controle emocional e a segunda é a consideração e percepção dos sentimentos dos outros. Esses resultados foram semelhantes nas diversas culturas estudadas.

Os resultados também mostraram nas diferentes culturas que o pensamento lógico foi mais forte que a percepção dos sentimentos dos outros ao eleger se uma pessoa é sábia ou não. Se uma pessoa não for sabida, como descrevi anteriormente, seu componente de empatia não é suficiente para que ela seja considerada sábia. O líder do grupo de pesquisadores, Igor Grossman, exemplifica este fenômeno com o recente debate presidencial Trump-Biden em que Trump foi considerado vencedor. Apesar de Biden apresentar um melhor componente socioemocional, na articulação das ideias ele foi frágil.   

Algumas sociedades priorizam valores individualistas enquanto outras valores coletivistas. A atual pesquisa sugere que a forma de enxergar sabedoria no outro não é muito diferente entre elas. Ambas dão mais valor ao pensamento lógico do indivíduo do que na sua habilidade de relacionamento com os outros.

*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Por Dr. Ricardo Afonso Teixeira

Em 2022, tivemos o dia mais frio da história aqui no Distrito Federal. Os termômetros marcaram 1.4ºC e a sensação térmica ficou abaixo de zero. E não é que tinha gente nadando na Água Mineral? Essa temperatura hostil possivelmente traz algum bem-estar para esses nadadores. Sabemos que nessa hora tiveram maiores concentrações do hormônio cortisol e de neurotransmissores como noradrenalina, dopamina e endorfina.  

 

No ano de 2017, o jornalista e antropólogo americano Scott Carney publicou seu livro “What doesn´t kill us” (O que não nos mata, em tradução livre) que foi muito bem recebido e fez parte da lista de bestsellers do New York Times. Scott tinha um projeto de escrever um livro sobre falsos profetas quando teve conhecimento de Wim Hof, um guru holandês conhecido por Iceman (homem gelo) e logo pensou que ele poderia ser mais um candidato para compor os personagens de seu livro.

 

Hof é conhecido como homem gelo, pois preconiza o reencontro do Homo sapiens com o ambiente natural sem o conforto a que estamos acostumados e isso inclui enfrentar temperaturas geladas sem proteção térmica. O homem gelo defende que a prática de uma rotina de meditação no frio extremo promove a regulação do nosso sistema nervo autônomo, com benefícios ao estado mental, imunológico entre outros.

 

Scott foi atrás de Hof na Polônia e, até a publicação do livro, Scott já estava o seguindo há quatro anos. O que era para ele um possível charlatão passou a ser um guru. Entrou para o livro dos recordes subindo quase nu, junto a Hof e outros seguidores, o Kilimanjaro a seis mil metros de altitude.  

 

No livro você pode encontrar estudos que avaliaram particularidades fisiológicas do corpo de Hof, como um contingente avantajado de gordura marrom. O tecido adiposo marrom é abundante em animais que hibernam como os ursos, mas também existe entre os humanos e de forma bem mais expressiva nos recém-nascidos. Esse é um tecido que tem a capacidade de produção de calor para o organismo bem superior a qualquer outro tipo de tecido do corpo, e nos animais, é bem reconhecido que essa gordura varia nas diferentes épocas do ano por conta de mudanças de temperatura. 

 

A onda “Iceman” está correndo o mundo e recentemente recebi pelas redes sociais uma prática de imersão em uma tina de gelo na Chapada dos Veadeiros. Temos algumas evidências de que a água gelada pode ter efeitos positivos para o humor e nos sistemas imunológico, endócrino e cardiovascular. Pode trazer riscos? Sim. Exposição prolongada a águas com temperaturas muito baixas pode levar a hipotermia, estresse cardíaco e arritmias. Cuidado especial deve ser tomado por aqueles com sabida patologia cardiovascular. Para os que não estão acostumados, um treinamento sob orientação profissional pode garantir mais segurança para ingressar nessa onda Iceman. Vale lembrar que o banho frio de chuveiro tem o seu lugar e pode até trazer benefícios semelhantes.

*Dr. Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp, professor do curso de medicina do Unieuro e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Ricardo Afonso Teixeira*

Chegamos aos 70 anos com o cérebro mais protegido contra declínio cognitivo quando temos um trabalho desafiador ao logo das décadas. Essa é conclusão de um estudo norueguês publicado recentemente pela Neurology, periódico da Academia Americana de Neurologia.

Após analisarem sete mil pessoas em 305 diferentes ocupações, os pesquisadores demonstraram que 42% dos que tinham um trabalho com baixa demanda cognitiva apresentaram déficit cognitivo após os 70 anos, comparados a 27% daqueles com trabalho de alta demanda. O ofício que trouxe o maior efeito protetor foi o de professor. Os resultados foram ajustados para outros fatores como sexo, nível educacional, renda e atividade física regular. Outro estudo, realizado com funcionários públicos ingleses, já havia apontado que trabalhos considerados passivos, com pouca autonomia e baixa demanda em dimensões psíquicas e sociais, estão associados a maior sedentarismo.

Mas isso não é tudo. Hirayama é o personagem do premiado filme “Dias Perfeitos”, ainda em cartaz nos cinemas, e nos mostra aquilo que as pesquisas dificilmente conseguirão detectar. Hirayama trabalha como limpador de banheiros públicos em Tóquio. Tem uma rotina de trabalho repetitiva, mas tem dois canais de conexão essenciais abertos que nos fazem enxergar a experiência humana em outras dimensões. O primeiro deles eu chamaria de amor à vida. Aqui incluo a empatia e a forte ligação com o mundo natural, seja em casa ou nos seus intervalos de almoço no trabalho. O segundo canal é o amor à arte. Sempre que tem uma oportunidade saca sua câmera fotográfica para registrar elementos do seu primeiro canal de conexão. A música o acompanha com suas fitas cassetes e, como todo filme do diretor Wim Wenders, a trilha é impecável. Chega em casa, deita-se no chão e liga sua luminária de luz fraca para ler William Faulkner. Difícil imaginar que Hirayama faça parte do grupo com maior chance de declínio cognitivo desse estudo que descrevemos anteriormente pelo fato de seu trabalho exigir pouca demanda cognitiva. Ele pode até ter traços obsessivos, mas eu diria uma obsessão do bem.

Dica de filme, mas também vai uma de livro. Faulkner já estava na mira após o relato de Gabriel Garcia Marques de que ele tenha sido o autor que mais o influenciou. O mesmo diz John Fosse, autor Norueguês, vencedor do último Prêmio Nobel de Literatura. Hirayama me inspirou a encarar “O Som e a Fúria” de Faulkner, uma sinfonia com todos os seus movimentos. O livro não é tão extenso, mas um livro difícil, talvez uma sinfonia de Mahler e não de Mozart, em que o leitor terá sua descomunal recompensa se não desistir antes de chegar ao final e ovacionar o maestro e sua orquestra.

* Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp, professor do curso de medicina do Unieuro e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Ricardo Afonso Teixeira*

Os japoneses têm uma tradição chamada de hakidashisara, em que hakidashi significa cuspir, expulsar, purificar, e sara se refere a um prato ou disco. Eles escrevem sobre pensamentos negativos numa placa e depois a destroem. Hakidashisara é um festival anual em que as pessoas quebram pequenos discos que representam coisas que as deixam com raiva, levando-as a uma sensação de alívio.

Pesquisadores da Universidade de Nagoya acabam de publicar na Scientific Reports da Nature os resultados de um estudo que mostra que, ao sentir raiva, a simples atitude de escrever sobre a resposta emocional ao incidente em um pedaço de papel, e jogá-lo no cesto de lixo ou triturá-lo, é capaz de neutralizar esse sentimento negativo. Os voluntários voltavam a ter os mesmos níveis de raiva que tinham antes do insulto. Isso não acontecia com aqueles que escreviam, mas eram instruídos a guardar o papel. Estes apresentaram uma redução apenas discreta dos níveis de raiva.

O estudo reforça evidências anteriores de que escrever ajuda no controle da raiva e os autores chamam atenção paras as inúmeras aplicações práticas, especialmente na redução da violência doméstica. Eles reportam que ficaram surpresos com a intensidade desse efeito após o descarte do papel e foi a primeira vez que isso foi demonstrado empiricamente.

 *Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp, professor do curso de medicina do Unieuro e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Ricardo Afonso Teixeira*

A meia-idade é um período de relativa estabilidade, especialmente nos relacionamentos pessoais, mas algumas pessoas passam por uma grande insegurança emocional nessa fase da vida. A crise da meia idade existe e afeta no máximo um quarto dos quarentões e cinquentões. Ao tomarem consciência de que existem menos anos de vida pela frente, algumas pessoas passam a ter planos menos ousados. Outras passam a ter o comportamento inverso: começam a realizar tudo aquilo que gostariam de ter feito e não fizeram.

As estatísticas vão de 10 a 25%. A maioria daqueles que referem ter passado por uma crise nessa idade reconhece que eventos como a perda do emprego ou de um parente foi muito mais importante que a idade por si só. Nem todo mundo entra em depressão ou começa a abusar do álcool ou outras substâncias psicoativas.

Estudos populacionais nos mostram que, ao longo da vida, as pessoas sentem-se menos felizes nesta época da vida. Há um comportamento chamado de curva em formato de “U”. A base do “U” é o menor estado de felicidade na meia idade e as pontas do “U” representam a velhice e infância / adolescência. Por outro lado, quando se pergunta a idosos qual a idade que eles mais gostariam de viver novamente, eles respondem que é os quarenta e poucos anos. Fatores biológicos podem ter sua importância, mas os eventos que acontecem no decorrer da vida podem ser mais importantes.

Muitos percebem falhas cognitivas que não apresentavam antes e uma desconfiança de que seja o início de uma doença neurodegenerativa. A Doença de Alzheimer, que é a principal causa de demência, não costuma acometer as pessoas antes dos 60 anos de idade. Existe o envelhecimento normal do cérebro, assim como o de qualquer órgão do corpo, mas algumas pessoas caem numa espiral psíquica negativa por não tolerarem pequenas mudanças. Na dúvida, converse com um médico.  

As mulheres ainda passam pela transição para a menopausa, período em que as queixas cognitivas se acentuam, mas felizmente somente durante a transição. E as dificuldades no homem não devem ter como vilão um baixo nível de testosterona. A esmagadora maioria dos homens não apresenta hipogonadismo e, por isso, o termo andropausa é tão criticado pelos endocrinologistas.

O cérebro já é menor aos 40 anos quando comparado à adolescência, mas a experiência e sabedoria da maturidade contornam facilmente essas questões morfológicas. No ano de 2017, uma pesquisa publicada pelo periódico PLOS ONE, envolvendo mais de três mil voluntários com idades entre 16 e 44 anos, nos mostrou que aos 24 anos alcançamos nosso pico de desempenho cognitivo-motor. Apontou ainda que a maturidade traz algumas compensações. O desempenho dos voluntários, após milhares de horas num jogo de computador com a mesma lógica do xadrez, foi medido pela rapidez com que reagiram aos seus oponentes e pelas estratégias que usaram no desafio. Jogadores mais velhos, apesar de mais lentos, compensaram a desvantagem de velocidade com estratégias mais eficientes no jogo.  Neste mesmo ano, Roger Federer, aos 35 anos, ganhou seu oitavo título de Wimbledon e foi o atleta mais velho a faturá-lo.

Quando se pensa em criatividade, a maturidade traz também suas compensações. Uma análise feita das carreiras de 31 ganhadores do Nobel de economia nos mostra que existem épocas na vida em que somos mais criativos. Nessa avaliação, foram encontradas duas ondas diferentes de criatividade, uma por volta dos vinte e poucos anos e outra entre os cinquenta e sessenta anos.

A primeira onda foi chamada de inovação de conceitos. É o pensar “fora da caixinha”, onde novas ideias põem em xeque o saber convencional. A segunda onda, chamada de inovação experimental, é a produção de conhecimento a partir do saber acumulado e nos traz formas inéditas de análise, interpretação e síntese. Os resultados são concordantes com estudos prévios que analisaram ondas de criatividade nas artes e em outras áreas da ciência. Pablo Picasso e Albert Einstein tiveram suas maiores criações na primeira onda, enquanto Paul Cézanne, Virginia Woolf e Charles Darwin brilharam mais na segunda onda. A Teoria da Relatividade foi publicada por Einstein aos 26 anos de idade e Darwin publicou a Teoria da Evolução aos 51 anos.

Um outro estudo, publicado pela Nature Human Behavior, nos mostra que com o envelhecimento temos realmente um declínio no desempenho da atenção e funções executivas, fato esse já bem demonstrado por inúmeros estudos. Entretanto, os pesquisadores apontaram também que algumas funções executivas e de atenção não apresentaram piora. Voluntários, até mesmo entre os 70 e 80 anos de idade, revelaram melhor desempenho que os mais jovens.

Nesse último estudo, o estado de alerta realmente foi menor entre os mais velhos. É a capacidade de estar pronto para frear o carro numa intersecção. Já nos testes de orientação espacial, definida como a capacidade de mudar o foco de atenção para um outro ponto do espaço, os velhos se saíram melhor. É a capacidade de perceber, por exemplo, um pedestre aguardando para atravessar na faixa. Já na capacidade executiva de inibir estímulos que levam à distração do foco naquilo que realmente interessa, os velhos também foram melhores. É a capacidade de não ficar prestando atenção nos passarinhos e reduzir o foco na direção.

Mas como explicar o melhor desempenho em um cérebro mais velho que já passou por inúmeras alterações estruturais e fisiológicas? A experiência ao longo dos anos é capaz de explicar esse fenômeno? Há um robusto corpo de evidências de mecanismos adaptativos para reduzir o impacto das perdas que acumulamos ao longo dos anos. Isso vai desde compensações no metabolismo cerebral, como ter o mesmo resultado com menos energia. Maior a experiência, menor ativação neuronal, menor gasto energético e maior eficiência.

Essa adaptação envolve também a reorganização de redes neurais ao longo das décadas. A reorganização conta até com o recrutamento de áreas do cérebro não tão envolvidas entre os jovens para uma dada tarefa, incluindo a participação maior de ambos os hemisférios, como é o caso da memória episódica. E não há dúvida de que a atividade física e estímulos cognitivos amplificam o impacto desses mecanismos adaptativos.  

*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp, professor do curso de medicina do Unieuro e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Áreas cerebrais menos vinculadas ao processo consciente participam desse processo   

Ricardo Afonso Teixeira*

Assisti na última semana ao documentário recém-lançado “Carlos”, uma biografia do sublime músico mexicano Carlos Santana. A obra traz o caminho de autoconhecimento que ele trilhou sem as drogas e vale, por si só, pelo recado que ele deixa para nós, reles mortais – “Deve existir algo para estimular sua imaginação, sua determinação e convicção. Sua realidade é muito limitada. Prefiro viver em um estado de sonho acordado. Um sonho acordado perpétuo” (em tradução livre).

Claro que Carlos tem seus inúmeros momentos em que o pensamento não vagueia. Entendo seu depoimento como uma forma de explicitar seu estado mental no ato de criação ou até na hora de executar uma obra. Quando estamos menos conectados com o aqui e o agora, abrimos portas para a criatividade. Nessas situações, a ativação de estruturas cerebrais pouco associadas às tarefas conscientes, como o cerebelo, podem fazer a diferença.

Pesquisadores da Universidade de Stanford nos EUA demonstraram há pouco tempo de que o cerebelo é um dos atores principais para a orquestração de nossa criatividade. Quando voluntários fazem desenhos dentro de uma máquina de ressonância magnética funcional, os desenhos eleitos pelos participantes como os mais criativos foram os feitos com uma maior ativação do cerebelo.  O cerebelo é um maestro que trabalha em um nível inconsciente. Quanto menor a consciência do processo, maior será sua ativação. Trocando em miúdos: quanto mais nos esforçamos para pensar e calcular uma criação, menos criativo será o produto final.

 *Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp, professor do curso de medicina do Unieuro e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Políticas públicas contra a violência às mulheres e o rigor da lei é que farão a diferença.    

Ricardo Afonso Teixeira*

Poucos devem discordar de que as experiências sensoriais olfativas têm forte relação com nosso cérebro emocional. É aquele perfume que faz você lembrar, profundamente, da primeira paixão da sua vida. As vias olfativas têm conexão direta com regiões do cérebro que modulam as emoções, como é o caso das amígdalas nos lobos temporais. E essa conexão não tem escalas. Explico. No caso dos outros sentidos, todas as informações passam por uma modulação em uma estrutura cerebral, o tálamo, que de certa forma filtra os estímulos que farão conexão com regiões que regulam as emoções. O olfato segue seu caminho a essas regiões sem passar por essa peneira.

Discutimos recentemente o poder que a inalação de diferentes óleos essenciais durante o sono exerce sobre o cérebro humano, incrementando a memória e aumentando o fluxo sanguíneo de áreas associadas a esse domínio cognitivo. Em camundongos esse mesmo estímulo promove a gênese de neurônios nessas mesmas áreas que fazem parte de um sistema maior que também regula as emoções, o sistema límbico. Circuitos da memória e emoções são vizinhos íntimos.

Esta semana tivemos a demonstração por pesquisadores do Instituto de Ciências de Weizmann, em Israel, e da Universidade de Duke, nos EUA, de que a inalação de lágrimas de uma mulher, e precisa estar dentro de um contexto emocional, contêm sinais químicos capazes de reduzir em 43,7% a agressividade entre os homens, reduzindo o fluxo sanguíneo em áreas associadas à agressividade, especificamente ínsula anterior e córtex pré-frontal. Já sabíamos que a inalação das lágrimas femininas reduz os níveis de testosterona entre homens, que por sua vez têm relação com a agressividade masculina. A agressividade era provocada por um game em que homens eram sugestionados que tinham sido trapaceados e podiam usar táticas para se vingarem.

Em 2023, o Distrito Federal bateu o recorde de feminicídios em apenas um ano, de acordo com reportagem publicada neste jornal. Foram 35 mulheres e os machos indomáveis não pouparam nem a noite do último dia do ano. Jaqueline tinha 29 anos e foi morta a facadas pelo seu ex que não aceitava o fim do relacionamento, de acordo com apuração deste jornal. Jaqueline representa a história de grande parte das mulheres que perderam a vida por homens que tem ou teve relação íntima com a vítima e cometem o crime como vingança, penso eu que por não suportar a ideia de que ela agora não é mais sua propriedade. Quando usei o termo “machos indomáveis” foi em referência ao admirável livro “O macho demoníaco: as origens da agressividade humana” de Richard Whranhham e Dale Peterson. Um trabalho de campo com primatas com um corpo teórico impecável que nos faz entender melhor a violência humana. Editora Objetiva, 1988.  

No caso da violência contra a mulher, esse estudo nos faz pensar em uma auto regulação da natureza que faz com que o homem se torne menos agressivo após ser exposto à inalação química das lágrimas da mulher. Mas essa auto regulação parece que está totalmente quebrada para muitos. O estudo me fez lembrar dos saches de óleos essenciais durante o sono para turbinar a memória. Saches de lágrimas femininas para controlar o macho indomável não vão dar conta, nem de longe, do recado. As lágrimas, muitas vezes, já são resultado de assédio moral, ameaças, e nada justifica ficarmos congelados. Temos a PM, a Central de Atendimento à Mulher, a Lei Maria da Penha e o protocolo Não é Não que foi sancionado como lei no último dia 28 de dezembro pelo Presidente Lula. Cinco amigas no Rio de Janeiro iniciaram um projeto com capilarização nacional no combate contra a violência sexual à mulher com este mesmo nome – Não é Não. Na mesma época, em 2018, a cidade de Barcelona, torna-se referência na proteção da mulher em espaços públicos através do protocolo “No Callem” (não nos calaremos, em tradução livre), ferramenta que deu celeridade à prisão do jogador Daniel Alves em 2022 após evidências de ter estuprado uma jovem no banheiro de uma boate.

*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp, professor do curso de medicina do Unieuro e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Por Ricardo Afonso Teixeira*

O planejamento estratégico é uma das maiores armas que as empresas dispõem para garantir o crescimento e a viabilidade de seus negócios no longo prazo. É fato que existem muitas pessoas habilidosas que conduzem as decisões da empresa de forma instintiva, sem planejamento formal, e o negócio vai muito bem, obrigado. Isso hoje. E amanhã? Um cientista não começa um experimento sem que o método esteja muito bem descrito, incluindo como os resultados serão analisados ao final do trabalho. É difícil imaginar que Amyr Klink teria conseguido atravessar remando sete mil quilômetros do atlântico sem sua preciosa capacidade de planejamento.

Muitas pessoas passam os anos gastando semanas de reuniões para a formulação do planejamento de seu negócio ou dos outros, e não chegam a investir sequer minutos rabiscando ideias de seu próprio planejamento pessoal. Muitos certamente têm bastante simpatia com a música do talentoso Zeca Pagodinho: “Deixa a vida me levar, vida leva eu...”. Outros não concordam com isso e parece que esse devia ser o caso do filósofo Sêneca que nos deixou o pensamento: “Para aqueles que não sabem para que porto vão, nenhum vento é bom”.

Podemos nos valer de algumas ideias do método de planejamento estratégico do mundo corporativo para nossa vida pessoal. São várias as dimensões essenciais de nossa vida que devem fazer parte dessa reflexão: saúde, família, amigos, carreira profissional, realização intelectual, lazer, sexualidade, espiritualidade, etc.

Planejamento pessoal 

Vamos começar por nossa análise interna. Aqui devemos focar em nossas próprias forças e fraquezas. Esse não é um processo exato, mas é bem provável que o rumo de sucesso pessoal mais certeiro seja o de solidificar / aumentar nossas forças e corrigir nossas fraquezas.  Ao elencarmos nossas forças e fraquezas, podemos priorizá-las e definir quais são aquelas em que devemos mais investir. Entre forças e fraquezas, vale sempre trabalhar em equilíbrio, pois as pessoas têm uma tendência em enxergar mais as fraquezas do que as forças. Acham que as fraquezas podem ser “trabalhadas” e deixam as forças de escanteio.

Uma boa dica é começar investindo naquelas que sejam sustentáveis no longo prazo. Talvez não valha a pena gastar tanta energia para nos aprimorar em uma determinada carreira se ela está em extinção, mesmo que exista um forte talento pessoal. Da mesma forma, não vale a pena apostar em corrigir uma fraqueza em que o resultado da correção não vai nos trazer muita vantagem. Se ao digitar no computador você “cata milho” de forma rápida e eficiente, investir em um curso de digitação para atingir uma performance olímpica pode não ser sua maior prioridade.

Um segundo passo na priorização de ações é a identificação de forças e fraquezas que são essenciais para nossa vida. Cada um tem sua própria análise, mas há algumas premissas que não deveriam ser muito diferentes entre as pessoas, como é o caso do investimento em nossa saúde. Sem saúde, todo o resto ficará congelado. Vale repensar se faz sentido estar atrasado em um ano com os exames periódicos preventivos, mas ter tempo para criar um novo projeto profissional. Investimento na saúde mental, então, fico até sem graça de estar sempre batendo nesta tecla.

Um terceiro passo, e esse considero que seja mais relevante no âmbito da carreira profissional, é o de identificar o quanto suas forças e fraquezas são raras, difíceis de imitar, difíceis de consertar. Ao identificar uma força valorosa do ponto de vista profissional, dê mais prioridade ainda às que são raras no seu meio. Essas forças diferenciam-lhe dos outros e fazem-lhe “sair da pilha”, como dizia Jack Welch, grande personalidade do mundo corporativo. Quanto às fraquezas, uma boa sugestão é a de priorizar nossos reparos com foco em dois momentos. Primeiro resolver a curtíssimo prazo aquilo que é fácil de consertar. Um médico talentoso que tem seu consultório vazio, talvez por ter o cabelo pintado de roxo, poderia pelo menos tentar pintar o cabelo de outra cor, e para ontem. Pensando mais no médio e longo prazo, devemos depositar um grande contingente de energia no reparo de fraquezas que são difíceis de corrigir e que nos trazem desvantagem. Difícil de corrigir significa que a deficiência não pode ser corrigida da noite para o dia, mas não quer dizer que seja a coisa mais difícil ou penosa do mundo. Pode ser a falta de proficiência em determinada língua, falta de ferramentas de gestão, um problema de saúde crônico, etc.  A análise interna pode ser vista como aquilo que poderíamos fazer para melhorar.

Após essa análise interna, podemos passar para a construção do cenário externo, que é a percepção das ameaças e oportunidades que nos rondam no presente e que nos aguardam no futuro. Se vivemos numa cidade em que o trânsito está ficando cada vez mais caótico, e só tende a piorar, esse fator que vem “de fora” deve fazer parte do planejamento de nossa vida, já que um dia pode vir a anular nossas forças. Parte desse cenário pode ser visto como aquilo que deveríamos fazer para melhorar.

Por fim, a decisão do que devemos fazer com nossas forças e fraquezas deve ser permeada também por aquilo que gostaríamos de fazer para melhorar, e para isso é necessário identificarmos com muita clareza qual é nossa missão e quais são os nossos valores. As empresas costumam pendurar em suas paredes frases de efeito descrevendo esses conceitos eloquentes, mas poucas realmente se comprometem a seguir fielmente o que está ali escrito. Assim como as empresas, somos pressionados por todos os lados para não darmos conta de fazer aquilo que acreditamos e que faz parte do nosso discurso.

Planejar minimamente nossas escolhas e ações pode nos ajudar a integrar nossos ideais com o que realmente fazemos no nosso dia a dia. Isso é viver com integridade em busca de uma vida não fragmentada. É bom ter em mente que não são poucas as coisas que fogem do nosso controle, e nesse quesito Zeca Pagodinho tem razão em deixar rolar quando a coisa não sai do jeito planejado. Colocando o Zeca e o Sêneca compondo juntos, o pagode poderia sair assim: “Se conheço bem para onde vou, vida leva eu, com vento bom, e para o melhor lugar.”

*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp, professor do curso de medicina do Unieuro e diretor do Instituto do Cérebro de Brasília

Ricardo Afonso Teixeira*

Não só o povo brasileiro, mas toda a raça humana é otimista.  Essa é a conclusão de uma série de pesquisas que aponta que cerca de 80% das pessoas superestimam as chances de eventos positivos quando têm que predizer o futuro. Esse é um fenômeno inerente da natureza humana e é observado independente do gênero, da raça, idade e nacionalidade. Mesmo os experts são otimistas quando analisam prognósticos em suas áreas.

Pensamos que vamos viver acima da expectativa de vida do brasileiro, que teremos muito sucesso na carreira quando completamos um curso de formação e que nossos filhos serão brilhantes.  Também costumamos subestimar as chances de eventos negativos, pois achamos que essas coisas só acontecem com os outros – divórcio, acidentes de carro, doenças graves. Temos a tendência de incorporar ao nosso repertório as notícias que são ainda melhores que a nossa expectativa inicial. O contrário não acontece. Quando temos contato com previsões piores que nossa ideia inicial, não damos muita bola. A posição otimista é resistente a mudanças.

Pesquisas também mostram que as pessoas com quadros depressivos são as únicas que não apresentam essa expectativa otimista superestimada do futuro. Aqueles com um quadro de depressão leve não apresentam expectativas desviadas nem para o lado positivo, nem para o negativo. Já aqueles com depressão grave enxergam o futuro de uma forma negativa exagerada.

Os cientistas já localizaram as regiões do cérebro que orquestram esse otimismo. Quanto mais otimista for uma pessoa, menos importância seu lobo frontal direito (giro frontal inferior) dará para expectativas ruins. É como se a censura ficasse adormecida. Quando a previsão é ainda melhor do que o esperado, os lobos pré-frontais são ativados de forma similar tanto nos pouco como nos muito otimistas. Além disso, quando pensamos no futuro com otimismo, duas regiões envolvidas no controle das emoções são ativadas (amígdala e giro do cíngulo anterior rostral), as mesmas regiões disfuncionais em indivíduos deprimidos.

Mas afinal esse otimismo é um aliado de nossa saúde? Na maior parte das vezes sim. Os otimistas têm maior longevidade e melhores marcadores de saúde. Apresentam menores índices de doença cardiovascular, doenças infecciosas, ansiedade e depressão, e vivem mais quando acometidos por doenças como câncer e AIDS. Além disso, já foi demonstrado que pessoas mais otimistas têm maior tendência a assumir hábitos de vida saudáveis. Por outro lado, aqueles com excesso de otimismo podem ter uma saúde mais vulnerável, pois tem maior tendência em assumir comportamentos de risco.

E por que o ser humano é tão otimista? Uma explicação bem interessante é a de que, ao adquirirmos a consciência sobre o futuro, passamos a conviver de forma mais intensa com a ideia de nossa finitude e nossas fragilidades. Ilusões otimistas criam um equilíbrio para que toda nossa consciência não atrapalhe a dinâmica da vida. Essa ilusão não deve ser exagerada, já que isso pode ter efeito pernicioso no planejamento de nossas ações. Uma pesquisa recém-publicada por pesquisadores da Universidade Bath, na Inglaterra, no periódico Personality and Social Psychology Bulletin, revelou que as pessoas com excesso de otimismo apresentam menor desempenho em testes cognitivos. O Homo sapiens pode, em diferentes graus, balizar a tendência evolucionista em ser otimista. Aí não dá para deixar de citar a icônica frase de Ariano Suassuna: O otimista é um tolo. O pessimista, um chato. Bom mesmo é ser um realista esperançoso. Como médico não posso nem pensar em usar o termo tolo, mas Ariano é Ariano.

*Dr. Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp, professor do curso de medicina do Unieuro e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Ricardo Afonso Teixeira*

É comum comparar o ato de inibir pensamentos negativos ao de colocar a sujeira embaixo do tapete. Essa é uma visão compartilhada por grande parte dos psicoterapeutas que defendem o conceito de que suprimir esses pensamentos pode até andar no sentido contrário da saúde mental. Aquilo que lhe provoca insegurança, medo, raiva, deveria ser pauta da psicoterapia. Dessa forma evitaríamos que o inconsciente se infle de problemas mal resolvidos que podem gerar inúmeras consequências negativas ao corpo e à mente.

Antes de continuar, gostaria de abrir parênteses para dizer que isso que falamos anteriormente é o conceito de repressão de Freud, pai da psicanálise, terapia esta frequentemente questionada sobre sua real eficácia, especialmente por ter sido construída através da experiência clínica, apoiada por um corpo teórico invejável, mas não acompanhada desde sua origem pelo clássico método científico que define tantas intervenções terapêuticas como “cientificamente corretas”. Entretanto, pode-se acompanhar evidências científicas que a psicanálise tem sim sua eficácia.   

Como exemplo, destaco uma metanálise publicada no JAMA (Journal of the American Medical Association) que condensou os resultados de 23 estudos e demostrou que no longo prazo a psicanálise foi mais eficaz que métodos terapêuticos de curto prazo em diversas situações como transtornos de personalidade, múltiplos transtornos mentais e transtornos mentais crônicos. Parloff, em 1982, em um artigo que passou a ser um clássico da psiquiatria, chamou a atenção para o potencial equívoco em se querer começar a definir que um método de psicoterapia tem credibilidade se esse faz parte de uma lista de terapias que foram aprovadas através de rigorosos ensaios científicos, ameaçando todo o corpo teórico, experiência clínica e a arte envolvida nas psicoterapias ainda “cientificamente incorretas”.

Agora fechamos os parênteses. Um estudo publicado no final de setembro no periódico Science Advances e conduzido por pesquisadores da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, mostrou que pacientes que sofriam de ansiedade, depressão ou transtorno de estresse pós-traumático no auge da pandemia se beneficiaram de uma intervenção de curto prazo que treinava os voluntários a suprimir pensamentos negativos que os deixavam inseguros, preocupados.

Os resultados mostraram que esses pensamentos passaram a ser menos vívidos, geravam menos medo e houve também melhora de indicadores de saúde mental logo após a intervenção e três meses depois. É claro que ainda tem muita água para passar embaixo dessa ponte, já que os resultados precisam ser confirmados por outros estudos, amostragem mais ampla, maior tempo de seguimento, etc. Mesmo que isso aconteça, é preciso deixar claro que esse tipo de intervenção não invalida a riqueza de diversos outros tipos de psicoterapia.

A inibição dos pensamentos negativos não teve efeito rebote, ou seja, não fez com que os participantes passassem a ter ainda mais ideias negativas. Esta foi uma grande contribuição da pesquisa, já que é comum o argumento de que um dos problemas da inibição é que ela pode desencadear esse efeito. Por fim, há um robusto corpo de evidências mostrando que essas estratégias de inibição ativam áreas do cérebro que inibem a atividade de centros da memória, como os hipocampos, podendo beneficiar sobremaneira pacientes com ansiedade e estresse pós-traumático.  

*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp, professor do curso de medicina do Unieuro e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Ricardo Afonso Teixeira*

É difícil discordar de que cultivar o rancor pode deixar a vida bem pesada, não é?  Mesmo em situações extremas, deixar esse sentimento para trás é uma grande libertação. O ato de perdoar não é fácil e aqui vão cinco dicas que podem ajudar a interromper a ruminação mental desse sentimento tão negativo. Aqui falamos não só de perdão a uma pessoa, mas também a um grupo de pessoas que cometeram injustiças e eventos traumáticos.

1- O maior interessado no ato de perdoar é você mesmo. Em um estudo com mães, que perderam seus filhos por crimes violentos, uma intervenção terapêutica, chamando a atenção para o grande benefício próprio de se buscar apagar ou reduzir o rancor, trouxe resultados bem positivos. Após uma semana da intervenção, elas sentiram-se menos abaladas e com escores de depressão 60% menores. Outros estudos mostraram também que perdoar reduz o grau de ansiedade de quem perdoa.

2- Faça o exercício de se colocar do outro lado. Tente criar uma atmosfera de empatia, imaginando a situação que esse outro lado vivia quando cometeu a ação que você julga, de forma inequívoca, errada ou injusta.

3- Tente modular suas reações ao evento traumático como impulsos de revolta, ondas de raiva e ansiedade.

4- Lembre-se que o tempo é um grande remédio para cicatrizar feridas. Em um momento muito próximo ao evento traumático, o exercício de perdão é mais difícil. Deixar a poeira baixar, às vezes, é o caminho mais acertado.

5- E por último, falo aqui um pensamento português que acredito que pode colaborar sobremaneira em muitas situações do dia a dia em que podemos cair na armadilha de guardar rancor em nossas mentes. Não deveríamos nos martirizar exigindo dos outros aquilo que eles não podem nos oferecer. Com sotaque bem português: Cada qual dá o que tem conforme a sua pessoa.

Anos depois de conhecer essa frase aprendi que, na verdade, ela faz parte de uma quadra bastante popular em Portugal:

 Pilriteiro, dás pilritos
Porque não dás coisa boa?
Cada qual dá o que tem
Conforme a sua pessoa.

Em Portugal há também um ditado muito conhecido que diz a mesma coisa:

 Pilriteiro dá pilritos, a mais não é obrigado.

O pilriteiro é um arbusto espinhoso bastante comum em Portugal e dá uma frutinha muito ácida, o pilrito. Pela quadrinha popular, parece que o pilrito não deve mesmo ser uma fruta muito apreciada. Tenho uma teoria sobre frutas exóticas que se pilrito fosse bom mesmo, seu nome seria morango ou banana e seria exportado para todos os cantos do planeta.

Muitas situações que poderiam nos afastar do nosso equilíbrio mental tem a ver com a cobrança e, às vezes, com nossa indignação pelas atitudes dos outros que nos desagradam. É o prestador de serviço que não terminou o serviço direito, é o cara que passa à nossa frente pelo acostamento enquanto estamos parados na fila do engarrafamento, é a moça do caixa do supermercado que é lenta no seu desempenho. Podemos começar a enxergar esse cotidiano através de uma outra ótica. O cara que fura fila não tem educação e princípios de cidadania. Vamos nos irritar? Brigar? A moça lenta no caixa do supermercado é lenta mesmo e nem foi treinada para ser mais rápida e provavelmente não teve as mesmas oportunidades de desenvolvimento cerebral que você que está incomodado. O mau prestador de serviços pode ter uma história parecida com a moça do supermercado.  Antes de reagirmos de forma a perdermos nosso dia, podemos pensar que pilriteiros dão pilritos. Que tal?

*Dr. Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp, professor do curso de medicina do Unieuro e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Ricardo Afonso Teixeira*

Ela tinha 18 anos, foi morar sozinha e iniciar seu curso universitário a mil
quilômetros dos pais. Tudo era novo, mais trabalhoso do que no ninho da
família, mas estava firme e confiante nas suas decisões. Até que após três
meses veio um blues súbito, sem explicação, querendo muito o colo da mãe. Não
estava na TPM, não tinha brigado com o crush. Pelo contrário, na noite anterior
tinha se reunido com os amigos em casa e aí é que aparece o principal suspeito.
Só foi dormir, e pouco, após as sete da manhã.

 

Eti Ben Simon, uma das maiores lideranças na pesquisa sobre efeitos psicológicos da
privação do sono, fez um relato muito curioso nesta última semana na Scientific American. Ela diz que, ainda na época de graduação, ela conduzia uma pesquisa com estudantes
em que media o impacto emocional de uma noite sem dormir.  Virava as
noites monitorando os voluntários do estudo e numa manhã, após uma dessas
noites sem dormir, percebeu que também sofria as consequências emocionais da
privação de sono. Ela subitamente desatou a chorar incontrolavelmente ao ouvir
uma canção romântica no rádio do carro, comportamento atípico na sua história
de vida.

 

Ainda na década de 1960, estudos já demonstravam dificuldades cognitivas e
alucinações visuais ou sensoriais após duas noites de privação de sono. Após a
terceira noite de privação, voluntários passavam a ficar agressivos e a ter
delírios paranoides. Em todos esses casos, o comportamento voltava à
normalidade após um dia inteiro de sono.  Hoje, pesquisas com privações de
sono extremas de vários dias são consideradas antiéticas. Entretanto, estudos
continuam sendo realizados com privações de uma noite e demonstram que, mesmo
por apenas uma noite, a falta do sono desregula a sintonia dos circuitos
neuronais que controlam as emoções.

 

Têm-se mostrado que uma noite sem dormir reduz a atividade do córtex pré-frontal,
estrutura associada à modulação do nosso cérebro emocional, as amigdalas.
Quando nos deparamos com alguma incerteza ou um desafio emocionalmente intenso,
as amígdalas disparam a liberação de neurotransmissores e hormônios para nos
deixar mais prontos ao combate ou à fuga.  Essas alterações ficam sem um
maestro quando o córtex pré-frontal está adormecido após a privação de sono e
assim as emoções podem ficar exageradas por um estímulo que pode nem ser tão
ameaçador. Além disso, o circuito de comunicação entre as amídalas e o córtex
pré-frontal também ficam adormecidos após a privação de sono.

 

Essas modificações no funcionamento cerebral ocorrem até com privações de sono menos
radicais, como uma noite de sono de menos de seis horas. Com a restrição de
sono, por exemplo, nossas amígdalas são ativadas na mesma intensidade ao vermos
uma foto de uma cena que inspira cuidados, como uma criança chorando, ou de um
passageiro sentado na poltrona de um trem. Para quem dormiu bem na última
noite, a visão da criança chorando ativa mais as amígdalas do que o passageiro.
Isso explica, em parte, o choro descontrolado de Eti Ben ao ouvir a música
romântica no seu carro.  

 

E voltando à garota de 18 anos que descrevemos no início, certamente ela
continuará a virar noites com os amigos. O que eu posso aconselhar como
neurologista é que, depois de trocar a noite de sono pela diversão, ela passe a
se programar para dormir umas sete horas na manhã seguinte.

 

*Dr. Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp, professor do curso
de medicina do Unieuro e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

 

Por Dr. Ricardo Afonso Teixeira

Semana passada, apareceu para mim uma matéria (alagoas24horas) sobre o sucesso de bolinhos, também conhecidos por Bentô Cakes, só que agora com frases irônicas, bem humoradas, para comemorar as pequenas derrotas. Isso tomou conta das redes sociais com celebrações que vão desde o divórcio à reprovação em uma prova de concurso. É de certa forma uma libertação da pressão pelo sucesso. Vocês já devem ter ouvido uma frase do psicanalista Contardo Calligaris que dizia que ter uma vida feliz é pouco. Devemos buscar uma vida interessante, e isso inclui, claro, vales e montanhas no percurso. Vida sem insucessos não existe e a ciência tem nos mostrado como usá-los a nosso favor.

Quando pensamos em sucesso vem às nossas mentes conceitos como boas ideias, trabalho duro, disciplina, criatividade, imaginação, perseverança e até sorte. O que uma pesquisa recente publicada pela Nature nos aponta é que os fracassos devem fazer parte dessa lista também. Mas não é qualquer fracasso. São aqueles que nos aprimoram para as próximas tentativas e estas não devem demorar a acontecer.

Os autores do estudo mostram que o que separa os “winners” dos “losers” não é a persistência. Ambos tentam o mesmo número de vezes para alcançar o objetivo, só que os “winners” chegam lá. Eles trabalham duro da mesma forma, mas de forma mais esperta. Os fracassos servem de guias para o aperfeiçoamento para a próxima jogada. Não agem com impulsividade diante de uma batalha perdida. Estão pensando em vencer a guerra. Os “losers” não necessariamente trabalham menos, mas fazem mudanças de táticas além do necessário.

Outro ponto que diferenciava os projetos de sucesso foi a rapidez com que as novas tentativas aconteciam. Quanto mais rapidamente você perceber o fracasso e se organizar para uma próxima investida, melhor. O orientador da minha tese de doutorado, Fernando Cendes, me introduziu esse conceito de forma muito convincente. “Ricardo, se você não encontrar os resultados que procura nessa amostra de 20 indivíduos, não adianta procurar em outros cem. Mude sua tática”.

As conclusões do estudo não querem dizer que disciplina e sorte, por exemplo, não tenham seu valor. Mas se todos têm esses atributos de forma equânime, usar o fracasso de forma inteligente e rápida faz toda a diferença. Os pesquisadores estudaram milhares de pedidos de financiamento de pesquisa e desempenho de startups. Curiosamente avaliaram também o “sucesso” de terroristas e atentados sem mortos foram considerados fracassos. Os resultados foram aplicáveis para esses três diferentes universos e provavelmente para muitos outros que não foram estudados na pesquisa.

Você pode comemorar com leveza e bom-humor os pequenos infortúnios da vida, mas acho que não precisa exagerar também, senão pode acabar virando o caso do Amor para Recomeçar do Frejat – “E que você descubra que rir é bom Mas que rir de tudo é desespero.”

Ricardo Afonso Teixeira*

O arroz está salgado mesmo que a foto não mostre isso.

Muitas pessoas procuram um serviço de saúde com sintomas neurológicos como fraqueza de um lado do corpo e os exames clínico, de neuroimagem, entre outros, não evidenciam uma doença neurológica que responda por esse sintoma. Histeria, síndrome conversiva, crise psicogênica, pseudocrise, são outros termos para descrever esse fenômeno e hoje não devem ser vistos como a denominações preferenciais, pois alimentam o estigma, preconceito e desinformação.

Histeria traz a origem grega do termo histero, de útero, sendo que a condição afeta em 70% dos casos as mulheres, mas não só as mulheres.  Para a “elite masculina” o termo neurastenia já foi muito usado, sugerindo sintomas como reflexo do excesso de trabalho e ambição. O termo conversivo alimenta a ideia de que existe um trauma na história do paciente que se converte em sintomas neurológicos. Isso vem de longe, ainda com Freud e seus antecessores. O trauma nem sempre existe, mas eles estavam certos. História de negligência na infância e abuso físico e sexual são oito vezes mais frequentes entre indivíduos com transtorno de sintomas funcionais neurológicos (TSNF) e duas vezes mais comuns quando comparados a outros transtornos psiquiátricos. Isso tudo acontece mais nas classes econômicas menos favorecidas, e aqui a mulher está em desvantagem. Vale também lembrar que a América Latina tem o maior índice de violência contra as mulheres em todo o mundo (Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas).

Pseudocrise é um termo que leva o quadro do paciente ao descrédito e desconfiança e psicogênico alimenta a cisão entre a mente e o corpo. Aqui vale uma correção ao que foi dito no início: “quando não evidenciam uma doença neurológica que responda por esse sintoma”. Hoje o TSNF é visto como uma doença neurológica sim, doença psiquiátrica sim, e pra romper essa separação mente e corpo, vamos ao termo doença neuropsiquiátrica, então. Essa condição neuropsiquiátrica é considerada a segunda razão pela procura por atendimento numa cínica neurológica.   

A mesma fraqueza de um lado do corpo que descrevemos é muito mais respeitada pelos profissionais de saúde quando é decorrente de uma doença neurológica bem conhecida e reconhecida, como por exemplo um tumor cerebral. O TSNF ainda é frequentemente designado pelos profissionais de saúde como piti, às vezes de simulação, fingimento, que são coisas bem diferentes. Isso traz muito sofrimento ao paciente. O cérebro desses pacientes com TSNF apresentam alterações em neuroimagem funcional como PET Scan e até em avaliações morfológicas na ressonância magnética. Não só as conexões cerebrais, o software, está alterado, mas o hardware também está. Imaginem Sigmund Freud tendo contato hoje com essas evidências! Pois é. Ele nos apresentou um outro lado do cérebro, ainda no século XIX, mas a ficha ainda não caiu. O TSNF não é consciente!

Portanto, dizer a um paciente com TSNF que os sintomas são coisas da cabeça dele ou dela refletem ignorância e falta de sensibilidade. A abordagem empática influencia na aceitação do diagnóstico e aderência ao tratamento que inclui psicoterapia, e em casos selecionados, medicações. Os resultados, na maior parte dos pacientes, são ótimos.

* Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e diretor do Instituto do Cérebro de Brasília

Por Ricardo Teixeira*

COVID longa, que podemos também chamar de sequela pós-infecção aguda por COVID-19, já tem mais de 200 sintomas registrados, mas aqueles associados à disfunção do sistema nervoso estão entre os mais prevalentes e incapacitantes. Na maioria das vezes os sintomas ocorrem mesmo após um quadro agudo de COVID-19 leve, devem durar pelo menos três meses após a infecção e podem persistir por anos. Estima-se que 10-40% dos infectados podem desenvolver COVID longa.

Sintomas comuns incluem fadiga, dificuldade de memória e concentração, hipersensibilidade à luz e ruídos, ansiedade, depressão e alterações do sistema nervoso autônomo que podem levar a tontura, taquicardia, desmaios, instabilidade da pressão arterial e distúrbios do ritmo intestinal.

Não é o ataque direto do vírus que provoca essa miríade de sintomas, mas provavelmente uma resposta imunológica desregulada e inflamação sejam os principais fatores. Partículas do vírus são mais encontradas no cérebro das pessoas que têm essas manifestações crônicas. Alterações nos pequenos vasos sanguíneos do cérebro parecem colaborar também e, junto aos neurônios e astrócitos, todos são vitimados pelo processo inflamatório.      

A vacinação é imperativa para a redução dos perigos de uma infecção aguda grave, mas estima-se que só reduz a chance de desenvolvimento da COVID longa em 15%. Portanto o melhor negócio é não se infectar e para isso o uso de máscaras em ambientes fechados ainda é um grande aliado. Continuo recebendo frequentemente no consultório  pacientes que se infectaram pela terceira ou quarta vez, sendo que a última há menos de três meses.

E então? Melhor é continuar se prevenindo, concorda?

*Ricardo Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e diretor do Instituto do Cérebro de Brasília

.

Por Ricardo Teixeira*

Ó! Assim se pronuncia a palavra awe da língua inglesa que significa deslumbramento, admiração, reverência, mas ao mesmo tempo temor. Atingir o topo de uma montanha ao pôr do sol ou remar assistindo à aurora parecem ser mais interessantes do que fazer o mesmo no sol do meio dia, concorda? Uma pesquisa publicada recentemente no Journal of Environmental Psychology confirmaessa tendência que pode até ser encarada como uma obviedade. O começo e o fim do dia são mais belos, os fotógrafos não vão discordar, mas os extremos do dia são também mais associados à experiência mental de awe, fato confirmado pela pesquisa. A natureza, qualquer que seja o momento do dia, já é capaz de proporcionar benefícios mentais e cognitivos, mas pesquisas demonstram que com a vivência do awe os efeitos são ainda maiores.

Awe não é um sentimento que é incitado por qualquer estímulo. Qualquer fenômeno mais raro ou surpreendente na natureza tem mais chance de promovê-lo que o sol do meio dia. Estamos falando de um arco íris numa cachoeira, uma tempestade e outros estímulos que misturam o deslumbramento com o temor. Uma das teorias mais aceitas para explicar essa experiência é o encolhimento do ego, quando passamos a nos sentir um grão de areia frente a algo sublime.  Pesquisas demonstram que o awe é capaz de incrementar as emoções positivas e o estado de humor, deixa as pessoas com atitudes pró-sociais, condições valiosas para o bem estar psíquico.

Outras vivências frequentemente associadas ao awe são os ritos religiosos e não religiosos, drogas psicodélicas e a arte. Ah, a Nona Sinfonia de Beethoven é um awe só.

*Dr. Ricardo Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e diretor do Instituto do Cérebro de Brasília

Uma pesquisa recém-publicada pelo periódico Frontiers in Psychology mostrou que a educação musical entre os adolescentes promove o bem estar mental com maiores indicadores de domínios positivos no desenvolvimento dos jovens como competência e autoconfiança, atributos que estão associados a maiores contribuições para a sociedade e menor chance de comportamentos de risco, mesmo em idades mais avançadas. Aqueles adolescentes em que a educação musical teve início antes dos oito anos de idade se mostraram mais esperançosos com o futuro. O estudo foi conduzido pela Universidade do Sul da California nos EUA e envolveu 120 voluntários.

Uma série de estudos já havia demonstrado resultados positivos da educação musical sobre o desempenho acadêmico de crianças, com maior desempenho cognitivo, incluindo criatividade, mais autoconfiança e estabilidade emocional e aumento da conexão com a escola e a comunidade. Na pesquisa inicialmente destacada, os efeitos positivos foram demonstrados mesmo entre aqueles que tiveram a educação musical através de curso online para estudantes do ensino médio desenvolvido pela Fundação Fender em 2020, ápice da pandemia por coronavirus. O curso tem duração de três meses, uma hora duas vezes por semana. Aqueles que se inscrevem têm os instrumentos musicais emprestados pela Fundação Fender.

Fica aí a dica para os produtores de instrumentos musicais e aos gestores de educação no Brasil. Termino com o fim da carta às próximas gerações de artistas escrita por Herbie Hancock e Wayne Shorter para acender as mentes criativas. Acho que isso deveria servir de inspiração a todos nós, independente de sermos ou não artistas. A vida pode ser uma obra de arte. Aliás, deve ser. 

“Tudo o que existe é produto da imaginação de alguém; cuide bem e nutra sua imaginação e você sempre se encontrará à beira da descoberta.  Como cada um desses fatores levam à criação de uma sociedade pacífica? – você deve estar se perguntando. Tudo começa com uma causa. Suas causas criam os efeitos que moldam o seu futuro e o futuro de todos ao seu redor. Sejam os protagonistas no filme de suas vidas. Vocês são os diretores, os produtores e os atores. Sejam ousados e incansavelmente benevolentes enquanto dançam pela viagem que é esta vida”.

A culpa de ter feito algo de que nos arrependemos é um sentimento bem desconfortável, especialmente quando ficamos ruminando essa culpa por longos períodos. Um estudo liderado por pesquisadores da Universidade de Basel na Suíça, e recém-publicado pela prestigiada Scientific Reports, mostra que o placebo pode reduzir esse sentimento, mesmo que você saiba que está tomando uma pílula de farinha.

Os voluntários da pesquisa eram instruídos a escrever uma situação em que se sentiam arrependidos como uma conduta fora das regras sociais ou um tratamento injusto com outra pessoa. Tomavam então uma pílula placebo, sendo avisados ou não que era placebo. Um grupo controle não tomava nada e ficava folheando uma revista de paisagens. Logo depois eles eram orientados a pensar de olhos fechados por um minuto na situação que tinham escrito e então o sentimento de culpa era quantificado. Aqueles que tomaram placebo, sabendo ou não, apresentaram menor sentimento de culpa.

Os participantes da pesquisa não apresentavam qualquer transtorno mental e novos estudos deverão ser realizados em pacientes com doenças psiquiátricas, especialmente a depressão, condição onde o sentimento de culpa é muito prevalente.

Não é a primeira vez que temos evidências de que o placebo funciona mesmo quando o indivíduo sabe que o que está sendo administrado é placebo. Esse fenômeno já foi demonstrado no controle da ansiedade e dor, por exemplo, mas também em quadros de rinite, enxaqueca e   síndrome do intestino irritável. É muito importante que o terapeuta instrua os pacientes que o placebo pode ter efeitos significativos e que devem ter um pensamento positivo para potencializar seu efeito. E mais: passar a mensagem de que o placebo funcionará mesmo sem esse pensamento positivo.

Um estudo publicado no ano de 2001 pela revista Science deu uma balançada naquilo que a comunidade científica até então entendia como efeito placebo. Pacientes portadores da Doença de Parkinson receberam medicação específica para a doença (levodopa) ou pílulas placebo e o surpreendente foi que tanto os pacientes que receberam a medicação como aqueles que receberam placebo, e que tiveram boa resposta clínica, demonstraram aumento das concentrações de dopamina no cérebro.

Em outro estudo mais recente, publicado pela revista Neurology, pesquisadores de Luxemburgo mostraram que pacientes com a Doença de Parkinson que tinham boa resposta ao placebo apresentavam aumento de dopamina no cérebro em regiões que são comuns ao efeito cerebral de recompensa. Isso sugere que o fator “expectativa positiva” pode ter um importante papel no efeito placebo.

Em quadros de dor, também há evidências de que o placebo muda quimicamente o cérebro, dessa vez através da liberação de opioides endógenos, efeito que pode ser desfeito através de medicações que bloqueiam o efeito de medicações opioides. As mudanças químicas também ocorrem em quadros depressivos, sendo que o placebo apresenta efeito muito semelhante às drogas que aumentam a concentração de serotonina (ex: fluoxetina). Nessas duas condições, a “expectativa positiva” também parece ser a forma como o cérebro faz com que o efeito placebo funcione.   E essa parece ser a explicação do porquê de algumas pessoas responderem positivamente ao placebo e outras não. Há evidências de que bons respondedores apresentam expectativa de receber maiores recompensas e têm maior ativação do sistema de recompensa cerebral, não só na situação de tratamento, mas também em situações de jogos que envolvem recompensa em dinheiro.

Em 2016, o British Medical Journal publicou uma pesquisa revelando que a maioria dos americanos não vê problema em receber uma medicação placebo. O estudo envolveu 853 voluntários com idades entre 18 e 75 anos que eram acompanhados por alguma condição clínica crônica. Apenas 22% achavam inaceitável o uso de placebo. O restante considerava o placebo uma alternativa possível nos casos em que o médico tem clareza que os benefícios são maiores que os riscos e, melhor ainda, quando existir transparência no que está sendo proposto quando o médico é interrogado.

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