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Ricardo Afonso Teixeira*
Uma pesquisa recém-publicada pelo JAMA Network Open mostra que o diagnóstico de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) na infância está associado a uma maior chance de problemas físicos e incapacidade na idade adulta.
O estudo foi conduzido na Inglaterra e envolveu 11 mil crianças que foram acompanhadas até os 46 anos de idade. As dificuldades executivas desses pacientes aumentam o risco de dificuldades no campo social e ocupacional no longo prazo. Isso leva a comorbidades de natureza mental que terão repercussões negativas na saúde física. Na presente pesquisa, estresse psicológico, tabagismo e obesidade foram fatores que parcialmente justificaram a pior evolução na saúde física. Há um ano, o mesmo grupo de pesquisadores mostrou uma redução da expectativa de vida em adultos com diagnóstico de TDAH.
O TDAH é uma condição geneticamente herdada que se caracteriza por sintomas de desatenção, inquietude e impulsividade. O problema acomete entre 6 e 8% das crianças em todo o mundo e os sintomas permanecem até a vida adulta em 30% dos casos, sendo que em 60% desses há comorbidades do sistema psíquico, como é o caso de ansiedade, depressão, alcoolismo e abuso e dependência de outras drogas.
Entretanto, pesquisas recentes têm demonstrado que essas cifras andam bem maiores. Há estimativas que 15% dos meninos em idade escolar nos Estados Unidos receberam diagnóstico de TDAH, contra 7% entre as meninas. Entre os jovens com idades entre 14 e 17 anos, o resultado é ainda maior: 19% para os meninos e 10% para as meninas. No Brasil, uma pesquisa revelou que quase 75% das crianças e adolescentes brasileiros que tomam remédios para déficit de atenção não cumprem os critérios diagnósticos para essa condição clínica.
Acredito que o TDAH esteja lado a lado com a depressão como exemplos de um fenômeno de nossa sociedade contemporânea chamado de medicalização da experiência humana. Qualquer experiência de tristeza ou de perda de foco nos estudos ou no trabalho são frequentemente interpretadas de forma errônea por aqueles que têm os sintomas, e mesmo pelos médicos, como se fosse um diagnóstico de depressão ou TDAH. Não estou dizendo que esses diagnósticos não existam. Pelo contrário. São dois dos diagnósticos mais prevalentes na área de saúde mental, que precisam de tratamento, e quando se pensa em saúde pública, certamente existem muitos indivíduos não diagnosticados andando lado a lado com superdiagnosticados.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Ricardo Afonso Teixeira*
A prestigiada revista Cell acaba de publicar os resultados de um estudo gigantesco, envolvendo quase 6 mil crianças de 8 a 11 anos, mostrando que as medicações utilizadas para o transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) não têm sua ação nos centros cerebrais de atenção, mas em áreas associadas à vigília e recompensa cerebral.
Os resultados ajudam a explicar o porquê dessas medicações estimulantes, como o metilfenidato, ajudarem no controle da hiperatividade entre esses pacientes, o que parece à primeira vista um paradoxo. Em vez de atuarem diretamente nos centros da atenção, elas fazem com que tarefas difíceis na manutenção da atenção pareçam mais interessantes por ativar os centros de recompensa cerebral e isso promove menos inquietude e menos evitação à tarefa.
Nessa pesquisa ABCD (Adolescent Brain Cognitive Development), as crianças com diagnóstico de TDAH que faziam uso dessas medicações estimulantes tinham realmente um melhor desempenho nos testes cognitivos e desempenho acadêmico. Não houve benefício dessas medicações entre aqueles sem esse diagnóstico, desde que dormissem o número de horas esperado para a idade. No caso da idade dos participantes, isso significa 9 horas.
Para aqueles sem o diagnóstico e que tinham privação de sono, as medicações ajudavam no desempenho e mitigavam sinais no cérebro de sono insuficiente. Há muitas crianças sem TDAH hoje tomando essas medicações que potencialmente teriam os mesmos ganhos cognitivos se dormissem o número de horas recomendadas para a idade. Há de se considerar os efeitos danosos da privação de sono no longo prazo, que incluem, por exemplo, maior risco de depressão, estresse celular e perda neuronal.
O estudo mostrou também os resultados de um grupo bem menor de adultos em que a ação dessas medicações era idêntica à das crianças: áreas vinculadas à vigília e recompensa cerebral.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Ricardo Afonso Teixeira*
Pesquisas têm demonstrado nos últimos anos que, mesmo dentro da cidade, o contato com o verde pode trazer benefícios ao cérebro. Voluntários ao caminharem pela cidade com um aparelho de eletrencefalograma portátil, e passarem por ruas comerciais agitadas, apresenta o cérebro excitado. O contrário acontece em um parque da cidade, quando as ondas cerebrais ficam mais “meditativas”. Sabemos também que pessoas que moram próximas a árvores e parques têm níveis menores do hormônio do estresse cortisol quando comparadas às que vivem cercadas de concreto.
Já é bem reconhecido que as pessoas que vivem nas grandes cidades têm maior risco de apresentar transtornos mentais. Através de ressonância magnética funcional, foi demonstrado que o cérebro de quem mora no campo reage de forma diferente a estímulos de estresse quando comparados aos moradores da cidade. Isso rendeu até a capa da prestigiada revista Nature. Os pesquisadores mostraram uma maior ativação das amígdalas entre os moradores de grandes cidades e foi curioso o fato de que isso estava presente mesmo nos adultos que viveram nas “selvas de concreto” somente na infância.
Outro estudo, conduzido pelo Instituto Max Planck na Alemanha, apoiou esses achados ao demonstrar que as pessoas que moram ao redor de muita natureza têm maior integridade de uma das regiões do cérebro mais associadas ao processamento do estresse e reações frente ao perigo. E essas estruturas são as amígdalas. Mas para desvendar a velha pergunta, o que vem primeiro, o ovo ou a galinha, o Instituto Max Planck também demonstrou que o contato com a natureza é que é responsável por essa maior integridade, e não o contrário. Digamos que pessoas com essa anatomia avantajada das amígdalas tivessem a tendência em morar mais próximos à natureza. Provavelmente não é isso o que acontece. Os pesquisadores compararam a ativação das amídalas, por ressonância magnética funcional, após uma hora de caminhada na floresta ou numa rua movimentada. Após a caminhada na floresta, as amígdalas ficaram menos ativadas, o que não aconteceu com os voluntários que circularam nas ruas da cidade.
O local onde moramos pode também influenciar a saúde do corpo. Esta é conclusão de um artigo de revisão das evidências sobre o tema publicado em novembro deste ano pelo periódico Biological Reviews. A biologia humana evoluiu para o movimento, a natureza e curtos períodos de estresse, como lutar ou fugir de um predador. O estresse crônico das grandes cidades faz com que vivêssemos sempre na mira de um predador, levando à redução da fertilidade e eficiência do sistema imunológico, além de um aumento das doenças inflamatórias crônicas. E quando se fala em doenças inflamatórias, devemos incluir a aterosclerose, principal causa das doenças que mais matam no mundo: o infarto do miocárdio e o derrame cerebral. Sabemos que morar à beira de rodovias e ruas com muito tráfico de veículos aumenta o risco de doenças cardiovasculares também devido à poluição do ar. Por outro lado, morar próximo a parques estimula a prática de atividades físicas.
* Extraído da coluna semanal Neurônios em Dia, parceria entre o Instituto do Cérebro de Brasília e o Correio Braziliense. Confira mais sobre esse assunto e outros conteúdos acessando nosso site (link na bio): http://www.icbneuro.com.br

Ricardo Afonso Teixeira*
Reconhece-se que a principal razão que faz uma pessoa buscar acompanhamento psicoterápico são suas dificuldades no relacionamento amoroso, e não é de se espantar. O psiquiatra Robert Waldinger da escola de medicina da Harvard define a relação amorosa como a melhor receita para uma vida satisfatória, prazerosa e com saúde.
Há algumas décadas a ciência da conexão entre as pessoas, que no seu início analisou a ligação entre mãe e filho, hoje traz um conjunto de conhecimento sobre a relação amorosa e o quanto os padrões de conexão vivenciados na infância repercutem nas nossas relações como adultos. Hoje já se fala em uma estratégia padrão ouro para aprimorar uma relação romântica, um programa “fitness” para a relação a partir desse princípio..
A psicóloga Mary Ainsworth, pioneira no estudo da conexão entre mãe e filho, descreve três tipos de ligação. A primeira é o bebê que não sente ansiedade exagerada com a ausência da mãe por um curto período, numa relação mãe-filho forte e de confiança. A criança explora sozinha o ambiente sem medo. Outras crianças sofrem com a insegurança da separação, com manifestações de raiva e pânico e, ao entrarem novamente em contato com a mãe, têm menor receptividade por parte delas. E há um terceiro grupo que demonstra indiferença frente à separação ou reencontro com a mãe. Estas não têm expectativa de uma conexão segura.
A partir da década de 1980 foi sendo descrito que esses padrões na relação mãe-filho têm influência nas relações do indivíduo adulto, incluindo as amorosas. Por exemplo, a falta de atenção pela mãe quando ainda bebê pode gerar um comportamento adulto inseguro, na dúvida se têm direito aos cuidados de outra pessoa. Há os que têm um comportamento de evitação, ignoram o parceiro ou parceira, especialmente em situações de vulnerabilidade. Já parceiros seguros têm a expectativa de serem correspondidos e serem amados. Estudos longitudinais mostram que o perfil de conexão com as mães quando bebês vai se refletir no sucesso de relações sociais e amorosas na adolescência e idade adulta.
Um experimento feito com mulheres casadas apontou que, após pequenos choques, elas tinham menor ativação de áreas do cérebro associadas a respostas emocionais e comportamentais a ameaças e também menor sensação dolorosa quando seguravam a mão do marido. Essa mitigação da dor era mais significativa entre casais que mantinham uma relação de apoio mútuo. O efeito era bem menor quando seguravam a mão de um estranho ou mão alguma. Resultados semelhantes já foram demonstrados ao apenas imaginar a pessoa amada, com efeitos positivos também sobre a frequência cardíaca e níveis do hormônio do estresse.
Nossas relações fazem parte do nosso código de sobrevivência. e relações seguras nos fazem sentir protegidos de perigos e ameaças. Elas nos permitem conviver melhor com as fragilidades humanas e isso traz equilíbrio mental que se estende ao corpo.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Ricardo Afonso Teixeira*
A decisão de se tornar pai é uma das mais críticas que um homem pode tomar na vida. Há de se colocar na balança as repercussões na carreira profissional, finanças e, para muitos, até a relação conjugal. Quando se investiga o estado de bem-estar psíquico de um homem ao assumir o estado de pai, há um fenômeno chamado de paradoxo da paternidade. Alguns reportam uma influência negativa no humor, mais sintomas depressivos e mais estresse enquanto outros manifestam uma maior satisfação com a vida de forma geral. Anthony Vaccaro, uma liderança nessa linha de pesquisa, nos trouxe este mês na revista Scientific American preciosos resultados de pesquisas do seu grupo sobre o assunto.
Esses pesquisadores foram além das métricas que avaliam o nível de estresse associado às novas rotinas na paternidade, mas expandiram a análise para a abstração de que a vida pode fazer mais sentido, ser mais coerente, ou não. Já se conhecia que uma experiência de maior sentido na vida está associado a uma maior resiliência contra doenças da mente e do corpo, eventos traumáticos, como pandemias e guerras.
Os resultados apresentados por Vaccary mostram que a maioria dos pais apresentam um aumento do sentido na vida após seis meses do nascimento do filho, quando comparado à época da gestação. Pais de primeiros filhos foram submetidos a ressonância magnética funcional que mediu a sincronização entre diversas áreas cerebrais. Outros grupos de neurocientistas já haviam apontado que uma maior sincronização de áreas relacionadas às emoções e pensamento abstrato está associada à experiência de experienciar maior propósito na vida. E Vaccary demonstra que pais que tiveram essa experiência de maior sentido tinham também maior sincronização cerebral, uma maior integração entre áreas cerebrais ligadas às emoções e estímulos sensoriais. Aqueles que tinham uma experiência mais negativa com a paternidade apresentavam respostas no córtex sensorial e cerebelo que podem estar associadas a uma hipersensibilidade emocional a informações sensoriais como, por exemplo, ao choro do seu bebê.
Considerando as novas rotinas do dia a dia que podem desafiar emocionalmente os pais, noites acordadas, por exemplo, o efeito negativo desses novos hábitos pode ser mitigado pela maior experiência de sentido no longo prazo também conhecida pelos cientistas como narrativa própria coerente. Pesquisas têm nos apontado que adultos jovens sem filhos que julgam a paternidade algo grande para sua autorrealização têm menor satisfação com a vida à medida que atravessam os anos, mas esses são a minoria. Na maioria das vezes o cérebro se adapta.
Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Ricardo Afonso Teixeira*
É bem reconhecido que comportamentos semelhantes aos encontrados no transtorno do espectro autista (TEA) são exclusivos da espécie humana. Um estudo recém-publicado pelo periódico Molecular Biology and Evolution mostra que, comparado a cinco espécies de primatas, o cérebro humano evoluiu rapidamente para uma concentração generosa de neurônios em duas camadas da sustância cinzenta, concentração esta que está associada a uma maior conexão entre as diferentes regiões do cérebro. Ao mesmo tempo, isso foi acompanhado de alterações em genes ligados ao TEA que proporcionou o crescimento do cérebro humano de forma mais lenta, podendo ter levado à complexidade de linguagem e pensamento dos humanos. Os resultados da presente pesquisa sugerem que o que fez o cérebro humano ser o que é também fez com que fôssemos mais neurodiversos. A alta prevalência de TEA entre os humanos pode ser secundária à seleção natural de uma menor expressão de uma série de genes que conferiu maior adaptação de nossos ancestrais e uma abundância de neurônios sensitivos a perturbações externas, como estímulos sonoros.
O transtorno de déficit de atenção e hiperatividade segue o mesmo raciocínio de uma vantagem evolutiva da espécie. Em 2024, pesquisadores da Universidade da Pensylvania, nos EUA, publicaram um estudo experimental que apoia a visão de que traços de desatenção e impulsividade comuns nos pacientes com transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) podem ter sido úteis para a sobrevivência em tempos em que éramos nômades.
Em um jogo online os participantes do estudo tinham que coletar o máximo possível de frutos e quanto mais tempo passavam no mesmo arbusto, menos frutos ficavam disponíveis nesta arvorezinha. Aqueles que tinham maiores escores de sintomas de TDAH tinham uma tendência em buscar outros arbustos e, apesar de demandar um pouco mais de tempo, tiveram no final pontuações maiores. A pesquisa foi publicada pelo renomado periódico Proceedings of the Royal Society B: Biological Sciences. Metanálise recente com estudos globais aponta que prevalência de TDAH entre crianças situa-se entre 7 e 8% e nos adolescentes entre 5 e 6%. Nos EUA, os números passam de 10% em ambos os casos.
Como neurologista, convivo diariamente com pessoas que sofrem de condições clínicas que, de tão frequentes na população, me ativam a o pensamento de que se são tão comuns, pode ter existido alguma vantagem no percurso de nossa evolução para chegarmos nos dias de hoje com esses altos índices de prevalência. Fazem parte da lista do Código Internacional de Doenças – CID e para quem as sofre e procura ajuda médica, claro que é doença, pois está influenciando as atividades do dia a dia.
Enxaqueca é um exemplo clássico. Acomete 8% dos homens e 20% das mulheres. Muita gente! Muitos vão ter suas crises de dor desencadeadas por fatores como jejum prolongado e excesso de sono. Estes têm um alarme no cérebro, enxaqueca, que aponta que não vale a pena repetir essas atitudes, atitudes que não jogavam a favor da sobrevivência em tempos da caverna. Podem ter apresentado mais sucesso em gerar descendentes ao longo de milhares de anos.
Outro exemplo: síncope. Estima-se que uma em cada duas pessoas apresentará pelo menos um episódio de perda de consciência ao longo da vida. Mais uma vez: é muita gente! Um fator que frequentemente desencadeia síncope é a visão de sangue. Um paciente meu já desmaiou no cinema assistindo a um filme do Tarantino! A síncope é vista como uma estratégia arcaica de sobrevivência. A visão do sangue pode ter sido o resultado de um ataque de um animal ou de um membro de uma tribo invasora. Se você está sangrando, é melhor um colapso da pressão arterial para estancar o sangramento. Charles Darwin já apontava um comportamento de defesa entre os animais que era o de “se fazer de morto” quando eram ameaçados por um predador. Isso acontece especialmente se o comportamento clássico de sobrevivência de luta ou fuga não tem a mínima chance de sucesso. Há descrições dessa resposta em diversas formas de vertebrados que incluem os peixes, aves e mamíferos.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Ricardo Afonso Teixeira*
Um método de ressonância magnética funcional tem nos mostrado que, durante uma conversa, duas pessoas podem ter mais prazer quando as opiniões são divergentes, quando não há sincronização da atividade cerebral entre os dois cérebros, pois estão em um modo de exploração curiosa. Poderiam ter a atitude de convencer o outros de que sua forma de pensar é a certa ou buscar apenas discutir aquilo que certamente haveria consenso entre as partes. Entretanto, a exploração das opiniões diferentes pode gerar mais prazer e ser mais produtiva.
Nesse modo de exploração os cérebros não estão tão sincronizados como na situação de concordância sobre o tema em discussão. Indivíduos que são politicamente de direita têm os cérebros mais sincronizados com outros de direita quando assistem vídeos com conteúdo político. O mesmo acontece com os cérebros dos esquerdistas, mas não ocorre entre pessoas com pessoas de inclinações políticas opostas. Pessoas conhecidas já iniciam uma discussão com uma boa sincronização enquanto estranhos vão crescendo essa sincronia no curso da conversa. Mas uma dessincronização começa a acontecer à medida que a conversa abrange mais tópicos e as diferenças de opinião afloram. Isso está associado a uma maior satisfação na conversa. Esse modelo que garante a opinião pessoal sem deixar de captar a opinião diferente, o modo de exploração como nos referimos anteriormente, é visto pela literatura como o modo de discussão francês: delicado, elegante, brilhante, harmonioso, uma arte. (Au contraire! Figuring out the french. Asselin G, Martron R. Intercultural Press, 2001)
A revista Scientific American Mind and Brain trouxe na sua última edição um apanhado dos achados dessa área do conhecimento abrindo os horizontes para a promoção de oportunidades para mitigar o fenômeno da polarização que existe nos EUA, mas também aqui. O aperfeiçoamento da interação entre duas pessoas, a princípio, não mudará o mundo. Entretanto as instituições, a mídia, as indústrias, os governos são feitos de pessoas e a comunicação eficiente entre as partes pode fazer muita diferença. Não precisa nem apelar para a busca de boa energia apontada recentemente pelo presidente Trump no seu encontro de poucos segundos com Lula. Basta garantir a escuta, manter a originalidade e espírito analítico ao invés de ficar evitando as controvérsias ou ficar forçando a barra com o seu modo de ver as coisas.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Ricardo Afonso Teixeira*
Já temos um bom corpo de evidências mostrando que a segunda-feira está associada a maiores níveis de ansiedade e até de suicídio do que outros dias da semana. Há também um aumento de 20% de morte súbita por doença cardiovascular, e isso tanto em homens como em mulheres. Chandola, professor de sociologia médica da Universidade de Hong Kong trouxe resultados do seu grupo de pesquisa sobre o tema na última edição da revista Scientific American, Mind & Brain.
Chama bastante atenção os achados de que as pessoas que se sentem mais ansiosas às segundas-feiras apresentam aumento em 23% dos níveis de ativação do sistema de estresse por meses. Não gera uma resposta hormonal, aumento de cortisol, só de curto prazo, mas uma resposta duradoura. E níveis crônicos de aumento de cortisol estão associados a ansiedade, depressão, doença cardiovascular, diabetes, obesidade e imunodeficiência. Aqueles que tinham ansiedade em outros dias da semana não tinham essa elevação prolongada do hormônio.
Para grande surpresa, esse efeito persiste após as pessoas se aposentarem. Longe do trabalho que supostamente é considerado o gatilho para esse maior contingente de estresse associado às segundas-feiras. É como se fosse introjetado na mente e no corpo um mal estar das segundas-feiras, um alarme que foi automatizado, mesmo que você nem trabalhe mais.
Além de ter que encarar a rotina da semana após o descanso do fim de semana, por que a segunda-feira tem todo esse poder? Uma das explicações é de que na segunda confrontamos mais com as incertezas do mundo real, que comprovadamente levam ao estresse e à ansiedade. Muitos se queixam que domingo à noite é o pior momento da semana e por isso, criar uma atividade divertida nesse momento da semana pode ser uma dica preciosa para que a transição para a semana que entra seja mais suave.
* Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Pesquisa aponta que a crise da meia-idade, considerada uma entidade da psicologia humana de alcance universal, agora não existe mais. Desde 2008, tínhamos evidências que na juventude e na velhice apresentávamos os maiores índices de satisfação com a vida e felicidade passando pela meia-idade com índices menores. O que essa nova pesquisa nos traz é que esse declínio na meia-idade foi substituído por uma redução da satisfação ainda na juventude com incrementos progressivos ao longo da vida.
A análise foi feita inicialmente nos Estados Unidos e Reino Unido e depois estendida a outros 42 países envolvendo o período entre 1993 a 2025. Mais de doze milhões de pessoas participaram do estudo com seus perfis de saúde mental.
São várias as possíveis razões para uma maior concentração de insatisfação com a vida na juventude. Entre elas os autores elencam a redução do mercado de trabalho para jovens, desafios para a saúde mental com a pandemia de COVID-19, menor disponibilidade de serviços de saúde mental, e aumento do uso das mídias sociais.
O estudo foi publicado na última semana pela revista PLOS Mental Health.
* Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Ricardo Afonso Teixeira*
Nos últimos meses ouvi alguns relatos de pessoas que procuraram o ChatGPT como se fosse um psicoterapeuta. A maioria revelou uma experiência positiva o que não é surpreendente. Advoga-se que esses chatbots generalistas, como o ChatGPT, são codificados para que o usuário fique na plataforma o maior tempo possível. E por ser este o modelo de negócio, a plataforma pode ter o viés de validar e reforçar as ações do usuário. Ela não julga e não coloca o dedo na ferida.
Na última edição da revista Scientific American, Vaile Wright, psicólogo e diretor da divisão de Inovação em Saúde da Associação Americana de Psicologia alerta para os riscos envolvidos no uso desses chatbots para psicoterapia, mas também para a necessidade de comprovação de eficácia.
Primeiro ele pontua que essas plataformas não têm nenhuma obrigação legal de proteger os dados. Psicólogos têm que seguir a diretrizes éticas do seu conselho de classe e isso inclui o sigilo. Imagine você tratar do assunto de sua dependência a drogas com o ChatGPT e essas informações vazarem e caírem nas mãos do seu chefe.
Quanto à questão de eficácia, é citado o Therabot, um software de inteligência artificial desenvolvido especificamente para apoio psicológico pela Universidade de Dartmouth, nos EUA. Foram publicados este ano, no prestigiado New England Journal of Medicine, os resultados de uma intervenção por 8 semanas com o Therabot. Os achados pioneiros foram considerados comparáveis aos resultados da psicoterapia cognitivo comportamental. Pacientes com transtorno depressivo melhoraram em 51% dos seus sintomas, aqueles com transtorno de ansiedade generalizada tiveram melhora de 31% e os com transtorno alimentar apresentaram 19% na redução de preocupação de imagem corporal e peso. Além disso, eles reportaram uma ótima aliança terapêutica com o Therabot, demonstrado pela confiança e colaboração com o software.
O Therabot começou a ser desenvolvido em 2019 com consultoria contínua de psicólogos e psiquiatras e os autores do estudo defendem a ideia que ele veio para somar e não para substituir a terapia convencional. Deixam claro que chatbots com a função de psicoterapia ainda estão numa fase muito crítica em que é preciso demonstração mais robusta de seus riscos e eficácia clínica. Porém, os resultados do Therabot abrem os horizontes para apoio psíquico para tantas pessoas que jamais conseguiriam ter acesso a um psicoterapeuta e para aqueles que precisam de um apoio imediato. Nos EUA, calcula-se que para cada psicoterapeuta existem 1600 pessoas com os diagnósticos de ansiedade e depressão.
Em todos esses casos que vi nos últimos meses fazendo “psicoterapia” com o ChatGPT, todos acessavam uma única vez com esse propósito e já abandonavam. E todos tinham todas as condições logísticas para estar com um psicoterapeuta. Pode ser a efervescência da curiosidade pela novidade. Se o Therabot que foi desenvolvido junto a profissionais da saúde mental ainda precisa passar por validação, imagine o ChatGBT. O Therabot até acende um botão na tela para acesso a versões americanas do SAMU ou CVV (Centro de Valorização da Vida) no caso de conteúdos de alto risco, como ideação suicida.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Ricardo Afonso Teixeira*
O abuso verbal pode ser menos óbvio que o físico, mas seus efeitos deletérios não são menores. Esta é conclusão de um grande estudo intergeracional publicado este mês pelo prestigiado periódico British Medical Journal Open. Aqui podemos refletir se é certo mesmo o provérbio “pé de galinha não machuca pinto”.
A prevalência de abuso físico na infância tem diminuído globalmente ao mesmo tempo que o abuso verbal tem aumentado. Uma em cada seis crianças sofre de abuso físico por familiares/cuidadores enquanto uma em cada três sofre de abuso verbal. As iniciativas para prevenção de violência contra crianças têm o foco na violência física que gera maiores índices de ansiedade e depressão na vida adulta, assim como mais comportamentos de risco, violência e até aumento de doenças cardiovasculares. O presente estudo nos mostra que a violência verbal traz repercussões mentais negativas na idade adulta da mesma magnitude que a violência física.
É bem demonstrado que os maus tratos na infância podem culminar também em alterações estruturais no cérebro adulto. Aqui quando falamos em maus tratos devemos incluir abuso físico, violência verbal, abuso sexual, negligência física, negligência emocional e presenciar atos de violência contra irmãos. Adultos ou adolescentes que apontam um maior índice de maus tratos na infância têm a redução do volume da sustância cinzenta e da integridade da substância branca em diferentes áreas do cérebro, áreas responsáveis pelas emoções e cognição.
* Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

“Deve existir algo para estimular sua imaginação, sua determinação e convicção. Sua realidade é muito limitada. Prefiro viver em um estado de sonho acordado. Um sonho acordado perpétuo” – Carlos Santana no documentário Carlos, 2023.
Você está lavando a louça, no piloto automático, e a mente começa a vaguear, o pensamento foi para sua próxima viagem de férias. Para tarefas pouco complexas, manter o pensamento em outro lugar pode fazer o trabalho ficar mais ágil porque nesse estado o cérebro consegue processar detalhes que ficam escondidos nas entrelinhas. É um estado semiacordado com aumento do contingente de ondas lentas características do sono profundo e que são crucias para a consolidação da memória.
Isso tudo nos faz pensar que um cérebro com boa atenção e processamento rápido é importante, mas as fugidinhas do pensamento podem também ser muito interessantes, especialmente para a criação e consolidação da memória. E o que seria do nosso equilíbrio mental sem boas doses de fantasia? Isso me fez lembrar de outro documentário, este de Kleber Mendonça, Retratos Fantasmas. Após mostrar a substituição dos cinemas de rua do Recife por farmácias e igrejas, o motorista de aplicativo nas cenas finais fala a Kleber, seu passageiro, que ele tem um superpoder de se tornar invisível e o documentário termina com o carro andando sem ninguém ao volante. Tiraram do cidadão o convívio diário com os cartazes dos filmes fantásticos no centro da cidade e seu aparelho psíquico logo se incumbiu de repor a dose de fantasia. Não tem mais King Kong, Tubarão, mas tem homem invisível.
* Extraído da coluna semanal Neurônios em Dia, parceria entre o Instituto do Cérebro de Brasília e o Correio Braziliense. Confira mais sobre esse assunto e outros conteúdos acessando nosso site (link na bio): http://www.icbneuro.com.br

Por Ricardo Afonso Teixeira*
“Deve existir algo para estimular sua imaginação, sua determinação e convicção. Sua realidade é muito limitada. Prefiro viver em um estado de sonho acordado. Um sonho acordado perpétuo” – Carlos Santana no documentário Carlos, 2023.
Você está lavando a louça, no piloto automático, e a mente começa a vaguear, o pensamento foi para sua próxima viagem de férias. Para tarefas pouco complexas, manter o pensamento em outro lugar pode fazer o trabalho ficar mais ágil porque nesse estado o cérebro consegue processar detalhes que ficam escondidos nas entrelinhas. É um estado semiacordado com aumento do contingente de ondas lentas características do sono profundo e que são crucias para a consolidação da memória.
Alguns estudos já mostraram que em tarefas simples esse estado de sonhar acordado pode muitas vezes ser um aliado do nosso desempenho cognitivo, incrementando, por exemplo, nossa criatividade. Um fator que já foi demonstrado estar associado à tendência de vaguear é a capacidade de estar aberto a novas experiências e a conteúdos fantásticos. E isso pode ser um grande parceiro da criatividade.
Isso tudo nos faz pensar que um cérebro com boa atenção e processamento rápido é importante, mas as fugidinhas do pensamento podem também ser muito interessantes, especialmente para a criação e consolidação da memória. E o que seria do nosso equilíbrio mental sem boas doses de fantasia? Isso me fez lembrar de outro documentário, este de Kleber Mendonça, Retratos Fantasmas. Após mostrar a substituição dos cinemas de rua do Recife por farmácias e igrejas, o motorista de aplicativo nas cenas finais fala a Kleber, seu passageiro, que ele tem um um superpoder de se tornar invisível e o documentário termina com o carro andando sem ninguém ao volante. Isso me fez sentir que tiraram do motorista o convívio diário com os cartazes dos filmes fantásticos no centro da cidade e seu aparelho psíquico logo se incumbiu de repor a dose de fantasia. Não tem mais King Kong, Tubarão, mas tem homem invisível.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Ricardo Afonso Teixeira*
Adolescentes com depressão e ansiedade têm a tendência em usar as redes sociais por 50 minutos a mais que outros da mesma idade sem qualquer condição psiquiátrica. Além disso, sofrem mais com comentários que recebem e ao comparar o número de amigos/seguidores ou likes das suas publicações com os dos outros. Esses são resultados de um estudo com mais de três mil adolescentes publicado este mês pelo prestigiado periódico Nature Human Behaviour. É um dos primeiros estudos e o mais robusto até o momento que analisa os impactos das redes sociais em adolescentes que sofrem de transtornos psiquiátricos. Não há como descartar a possível influência do exagero das redes sociais na deflagração ou perpetuação dos quadros clínicos. Entretanto, esse potencial de deflagração parece não ser grande.
Outra pesquisa publicada pelo mesmo periódico em 2019 usou um método de análise estatística rigoroso de três estudos de larga escala voltados à saúde mental dos adolescentes e mostraram que o impacto das mídias digitais existe, mas é pequeno. Chega a ser responsável por no máximo 0.4% da variação do bem-estar psíquico de um adolescente.
Os pesquisadores compararam os efeitos do mundo digital com outros fatores que os adolescentes são confrontados, como exposição ao álcool, tabagismo, bullying, privação de sono, dieta saudável e hábito de tomar café da manhã, uso de óculos ou hábito de ir ao cinema, etc. Quase todos esses fatores tiveram efeitos mais significativos no bem-estar dos adolescentes que o tempo que passavam na frente dos dispositivos digitais. Em comparação aos 0.4% de impacto descrito acima, bullying tinha um impacto de 2.7% e uso da maconha era de 4.3%. O tamanho do efeito negativo das mídias digitais foi comparável ao hábito de comer batatas regularmente e menor do que o de usar óculos.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Ricardo Afonso Teixeira*
O que é felicidade? Desde a Antiguidade, colecionamos incontáveis definições, mas uma que pode nortear bem nossa conversa é a seguinte: as pessoas são mais felizes quando têm um dia a dia com predomínio de emoções positivas e também estão satisfeitas com o curso da própria vida.
Pesquisas realizadas com gêmeos têm demonstrado que existe sim um componente genético da felicidade. Cada um tem um nível básico de felicidade, maior em alguns, menor em outros. Essa influência genética pode ser comparada à tendência que algumas pessoas têm em estar sempre com o peso corporal em dia, independente dos altos e baixos da vida.
Esse perfil genético pode corresponder a 50% do grau de felicidade de uma pessoa, outros 10% têm a ver com as circunstâncias da vida (ex: inserção profissional e estado de saúde), e ainda temos uma margem de 40% daquilo que podemos exercitar para termos percepção que estamos mais felizes.
Atividade física faz bem ao corpo e à mente e hoje as pessoas falam com muita naturalidade sobre força, resistência, exercícios para as pernas, braços, abdome, etc. Existe outro tipo de treino que realmente incrementa nosso estado de felicidade de forma mais sustentada. Outras atividades, como se fosse um programa fitness de felicidade. E isso funciona num círculo virtuoso: quanto maior a regularidade dos exercícios, maior a percepção de felicidade e quanto maior o estado de felicidade, maior a disposição para os exercícios.
E qual é a melhor série de exercícios, qual o melhor treino? Boas doses de Otimismo, Altruísmo e Gratidão são reconhecidas como caminhos dos mais férteis para estimular esse estado de felicidade. Além disso, para seguirmos a vida satisfeitos com seu curso, precisamos navegar. O filósofo Sêneca nos deixou o famoso pensamento: “Para aqueles que não sabem para que porto vão, nenhum vento é bom”.
Além do bem estar psicológico, o estado de felicidade traz outros benefícios não só ao indivíduo, mas à sua família, comunidade e à sociedade de forma mais ampla. Pessoas mais felizes têm melhor desempenho profissional e melhores oportunidades, têm mais sucesso nas relações interpessoais, mais energia e saúde, o que inclui um melhor perfil imunológico, menor nível de estresse e maior longevidade. Pessoas mais felizes são mais criativas, autoconfiantes, altruístas e generosas, têm o hábito de praticar atividade física e são mais espiritualizadas. Não é pouca coisa, hein?
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Ricardo Afonso Teixeira*
No ano de 2021 o presidente da Coalisão Mundial de Saúde Mental rejeitou a orientação da Associação Americana de Psiquiatria ao dar um diagnóstico psiquiátrico a uma pessoa pública, no caso, Donald Trump, sem examiná-lo pessoalmente. A Coalizão se valeu da Declaração de Genebra que defende que médicos podem se expressar quando frente a governos destrutivos, Declaração criada após a experiência do Nazismo.
De acordo com a Coalisão, o fenômeno Trump e seus seguidores estão embasados em um narcisismo simbiótico e uma psicose compartilhada. Por narcisismo simbiótico devemos entender que um líder, faminto por adulação para compensar sua baixa autoestima, projeta uma onipotência grandiosa, enquanto seus seguidores, carentes pelo estresse social e econômico, buscam ansiosamente por uma figura parental. Quando esses indivíduos assumem posições de poder, eles elicitam a mesma patologia numa parte da população com encaixe perfeito, como uma chave feita para aquela fechadura. Quanto à psicose compartilhada, eles a chamam também de folie à million. Folie à deux (loucura a dois) é um fenômeno descrito na psiquiatria desde o século XVII e refere-se a sintomas delirantes compartilhados por duas pessoas geralmente da mesma família ou próximas. A folie à deux também é chamada de transtorno psicótico induzido, e folie à million, socorro! Quando um indivíduo muito sintomático é colocado em posição de poder e influência, seus sintomas podem se propagar à população por meio de ligações emocionais, amplificando patologias pré-existentes e afetando até indivíduos previamente saudáveis. E o fator delirante provavelmente é mais forte do que um cálculo estratégico, pois ele se dissemina mais facilmente.
É importante salientar que os indivíduos com transtornos mentais como um grupo não são mais perigosos que a população geral, mas quando o transtorno mental vem acompanhado de componentes destrutivos, esses indivíduos são mais perigosos sim. E de onde vem esse elemento destrutivo? Simplificando, se uma pessoa não recebe amor, ela busca respeito. Se ela não tem o respeito, ela realiza ameaças.
Uma pergunta comum que é feita desde o início dessa discussão é se Trump tem algum transtorno mental ou é apenas mau, ou os dois. Para quem quiser se aprofundar nessa discussão, vale a leitura do livro “The Dangerous Case of Donald Trump” (O perigoso caso de Donald Trump, em tradução livre), um bestseller do New York Times publicado em 2017.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Ricardo Afonso Teixeira*
Criar marcos temporais é um costume que costuma ajudar na execução de projetos. O acesso no google da palavra dieta é maior na época das festas de fim de ano, às segundas-feiras e no começo do mês. Um estudo mostrou que universitários frequentam mais uma academia de ginástica no começo da semana, começo do mês e no dia seguinte ao aniversário. Esses marcos temporais podem promover a sensação de estar começando do zero, com mais motivação e menos culpa. Pesquisadores usam para isso o termo na língua inglesa de “fresh start effect”.
Uma boa maneira de aumentarmos nossas chances de alcançar nossas metas é enxergar mais claramente o contraste entre as nossas expectativas e a atual realidade, o quanto realmente avançamos na direção de nosso objetivo. Fumantes têm mais chance largar o cigarro quando escrevem as metas lado a lado com os aspectos negativos da situação presente.
Aqui vão outras sugestões para que as intenções não fiquem congeladas no tempo ou andem para trás.
– Todo revés no percurso de seu objetivo deve ser visto como ensinamentos de como chegar lá;
– Encare esse percurso como uma aventura. Ela certamente terá altos e baixos;
– Reexamine periodicamente suas ações e pergunte-se o que você deveria ter feito de outro jeito;
– Convença-se que a persistência é uma escolha e não um traço de personalidade, não um presente de Deus;
– O que separa os “winners” dos “losers” (vencedores e perdedores) não é tanto a persistência. Ambos tentam o mesmo número de vezes para alcançar o objetivo, só que os “winners” chegam lá. Para esses vencedores, os fracassos servem de guias para o aperfeiçoamento para a próxima jogada. Não agem com impulsividade diante de uma batalha perdida. Estão pensando em vencer a guerra. Os “losers” não necessariamente trabalham menos, mas fazem mudanças de táticas além do necessário. Outro ponto que aumenta a chance de sucesso é a rapidez com que novas tentativas, se necessárias, acontecem. Quanto mais rapidamente você perceber o fracasso e se organizar para uma próxima investida, melhor;
– Não deixe de buscar a visão dos outros;
– Se ficar frustrado com um tropeço, isso é um sinal de que você se importa com o projeto e deixa claro que você deve continuar. Zero de frustração com um resultado negativo significa que aquilo nem é tão importante para sua vida;
– Reduza os níveis de estresse de uma forma geral. As emoções não ficam muito afinadas com altos níveis de estresse. Para suportar as pequenas frustrações as emoções têm que estar equilibradas.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Ricardo Afonso Teixeira*
O jornalista Stevens Silbermann, autor do best-seller Neurotribes, publicado em 2015 e ainda sem tradução para o português, disse: “Poucas pessoas podem dizer que cunharam um termo que tenha mudado o mundo para melhor, em uma direção mais humana e com mais compaixão. Judy Stinger pode”.
Judy é uma australiana que apresentou ao mundo em 1998 o conceito de neurodiversidade em sua tese, ainda na graduação, na Universidade de Tecnologia de Sydney. O trabalho pode ser conferido no livro: Neurorodiversity: The birth of an idea (Neurodiversidade: O nascimento de uma ideia, em tradução livre). A obra traz uma reflexão sociológica sobre grupos com disfunções neurológicas marginalizadas, com foco especial nos portadores do transtorno do espectro autista, chamando os leitores para uma revolução da neurodiversidade assim como houve a revolução feminista. O livro também não tem tradução para a língua portuguesa.
O esforço de Judy acendeu a chama para que essa revolução acontecesse. São inúmeras entidades ao redor do mundo que carregam a bandeira da neurodiversidade lutando para que o mundo respeite as diferenças e dê condições para que os neurodiversos, aqueles que não representam a maioria, não sejam estigmatizados e mais, que estes tenham acesso a oportunidades de inserção na sociedade, incluindo o trabalho, já que muitos são capazes de contribuir de forma sofisticada. Alguns têm talentos e capacidades que os neurotípicos, a maioria, nem sonham em ter. Só precisam encontrar o ambiente e o tipo de trabalho certos e muitas organizações têm trabalhado para que isto aconteça. No blog de Judy você encontra: “Eu não estou aqui para tornar o capitalismo mais eficiente, mas para torná-lo mais humano”.
Uma das pérolas do seu trabalho é a distinção entre o modelo médico e social de incapacidade. Uma pessoa pode ter uma deficiência, mas isto passa a ser uma incapacidade quando lhe são colocadas barreiras e práticas socias que dificultam suas oportunidades de inserção social. É claro que toda condição de saúde é permeada pelo espectro de gravidade e há um subgrupo em cada uma dessas condições que está no extremo mais grave onde deficiência dificilmente será diferente de incapacidade.
E quando falamos de neurotípicos e neurodiversos, vale contextualizar o conceito de normal. A palavra normal na saúde só passou a ser registrada na língua inglesa na metade do século 19, época em que a estatística passou a ser utilizada na saúde pública. O termo era o mais próximo do que se chamava de “ideal”, característica mais própria dos deuses do que dos mortais. Os estudiosos em incapacidade argumentam que o que chamamos hoje de norma, a maioria, raramente alcança o estado ideal.
E você? Você se considera um neuroideal? Parabéns. Que dádiva genética que você herdou! Ou os parabéns podem ser também por sua disciplina com os cuidados com a saúde. Mas tenho que lhe dizer que grande parte da humanidade está longe de você ou dos deuses. Não estou sendo irônico. O “Global Burden of Disease Study” (GBD) é um dos maiores esforços para medir a morbimortalidade das principais doenças ao redor do mundo, financiado pela Fundação Bill & Melinda Gates e sob a chancela da Organização Mundial da Saúde. Sua última análise foi publicada no prestigiado periódico The Lancet Neurology em 2024 e apontou que o grupo das condições neurológicas representa a maior causa de anos perdidos de vida saudável (DALYs), seguido pelo grupo de doenças cardiovasculares. Os resultados também mostraram que 43,1% das pessoas no mundo sofrem de alguma disfunção neurológica, seja por uma doença neurológica primária ou por efeito de outras condições que afetam o sistema nervoso. E esse sistema é o que faz nossa relação com o ambiente e isso envolve a relação com os outros.
A difusão do conhecimento tem ajudado a reduzir o estigma sobre as disfunções neurológicas, mas ainda de forma muito incipiente. É a pessoa que sofre de enxaqueca e sente que as pessoas acham que ela supervaloriza sua condição ou se aproveita dela. E vê cara feia quando pede a alguém para evitar o uso de perfume, pois desencadeia suas crises. É o portador da Doença de Parkinson que, por ter uma menor expressão da mímica facial e uma monotonia na voz, é tratado de forma infantilizada. São exemplos de neurodiversos, cérebros que funcionam diferente, mas os outros não têm consciência disso. Muitos sofrem de algum grau de marginalização por falta de compreensão plena das suas diferenças pela sociedade.
O movimento de conscientização da neurodiversidade, uma ação política para garantia de direitos, começou pelo espectro autista, mas se expande naturalmente para inúmeras disfunções neurológicas em que seus portadores vivem uma marginalização de suas limitações. Esse é o desejo expresso de Judy na sua obra seminal. Hoje são comumente incluídos sob esse guarda-chuva, além do autismo, o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, dislexia, transtorno bipolar, entre outros. Percebo no consultório o discurso libertador e empoderado daqueles que encontraram sua tribo e dizem sem timidez que são neurodiversos.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Ricardo Afonso Teixeira*
Na década de 1960, um estudo realizado em diferentes países capitalistas e socialistas, perguntou o que as pessoas ainda precisavam na vida para serem realmente felizes. As respostas foram surpreendentemente parecidas, independente das diferenças culturais e econômicas entre os países analisados. A resposta mais comum foi a de melhoria do padrão de vida material, seguido por uma vida familiar feliz e em terceiro lugar o estado de saúde pessoal e dos familiares.
Será que as pessoas serão mais felizes se subirem um degrau na sua capacidade de consumo? Ganhadores da loteria voltam ao mesmo estado de felicidade que tinham antes do prêmio após um ano. Dinheiro e felicidade andam juntos até certo ponto, fenômeno conhecido como paradoxo de Easterlin, economista americano que estudou essa questão em inúmeros países. Depois de garantidas as necessidades mais importantes, mais dinheiro no bolso não atrai mais felicidade. Em 2018, uma pesquisa publicada na revista Nature Human Behaviour confirmou o paradoxo de Easterlein com uma população bastante generosa com dados do Instituto Gallup envolvendo 1.7 milhões de indivíduos em 164 países diferentes.
Os pesquisadores encontraram um teto de renda anual de 60 a 75 mil dólares anuais para o bem-estar emocional, definido como sentimentos positivos no dia a dia. Valores maiores não incrementavam esses sentimentos. O mais curioso é que havia uma menor satisfação com a vida quando um teto de 90 mil dólares anuais era ultrapassado. Nessa situação as pessoas podem entrar numa roda viva de consumo e cair na armadilha de ficar de olho na grama do vizinho.
Estudos têm apontado que os mais afortunados podem ficar menos sensíveis aos pequenos prazeres, às coisas mais prosaicas. O simples fato de se deparar com a imagem de um maço de notas de dinheiro é capaz de reduzir o tempo em que uma pessoa aprecia um pedaço de chocolate na boca antes de engolir. Nesse caso, as pessoas ainda relatam menos prazer com o chocolate do que aqueles que visualizam imagens neutras.
Gastar direito pode ajudar
Tem uma propaganda de automóvel que diz assim: “Quem fala que dinheiro não traz felicidade ainda não aprendeu a gastá-lo direito”. Já é bem reconhecido que gastar o dinheiro com experiências é melhor do que com coisas. Experiências que reforçam as relações de amizade, que promovem o crescimento pessoal, que contribuem para a comunidade onde se vive, pequenos prazeres como uma massagem, flores para a pessoa querida, tudo isso pode gerar mais prazer do que uma mega TV ou um turbo-super-carro.
Uma pesquisa muito interessante, publicada no prestigiado periódico PNAS , mostra que as pessoas que gastam dinheiro para ter mais tempo (e.g., serviços de casa) são mais felizes do que aquelas que gastam mais com coisas. O impressionante é que metade dos milionários estudados gastava tempo com atividades que não apreciavam e que poderiam ser feitas por outros, desde que pagassem por isso. Outro achado importante foi que o estado de bem-estar e felicidade esteve associado com essa opção de “comprar seu próprio tempo” em todo o espectro socioeconômico estudado, mesmo entre os que tinham as contas mais apertadas.
Por último, trago aqui uma análise realizada sobre a satisfação com a vida publicada no último mês pelo mesmo periódico PNAS. Foi demonstrada que a satisfação entre moradores de pequenas comunidades, em cinco diferentes continentes, incluindo populações indígenas, com baixíssimo poder aquisitivo, era semelhante ou até maior do que em diversos países considerados ricos, comparação feita com os dados do Instituto Gallup.
Todas essas pequenas comunidades tinham uma forte dependência dos meios naturais para a sobrevivência e, além desse contato íntimo com a natureza, outros fatores podem colaborar para esses altos índices de satisfação, mesmo com pouco dinheiro. Entre eles estão o modelo de comunidades mais coletivistas, menos individualistas, e até mesmo uma maior vivência espiritual. Indígenas da Amazônia brasileira foram um dos 19 grupos estudados.
Vale sempre lembrar que felicidade pode trazer dinheiro. Pessoas mais felizes têm mais chance de ter sucesso profissional e financeiro.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

Ricardo Afonso Teixeira*
Um hino hindu ancestral comparava o jogo de dados a uma droga aditiva. Três mil anos depois, quando apareceu o primeiro cassino na Veneza Renascentista, a classe dominante quase colapsou por conta das dívidas no jogo. Hoje o fascínio pelo jogo faz com que seu mercado movimente valores similares a todos os outros tipos de entretenimento somados. Os jogos eletrônicos movimentam mais de duas vezes o faturamento da indústria de cinema, contando com cerca de metade da população mundial como jogadores. O jogo tem o apelo gigantesco da imprevisibilidade. É uma forma de lidarmos com o incerto. Aqui nasce a teoria da probabilidade.
Platão defendia as virtudes do jogo, pois era uma maneira de ensinar as crianças a seguirem regras e como adultos seguiriam as leis. Aristocratas na idade média eram encorajados a jogar como ferramenta de autoconhecimento. Jogos competitivos são vistos como oportunidades de desenvolver habilidades de cooperação com impactos positivos na liga social, já que nos força a pensar no outro, o que o outro quer e como fará para alcançar seu objetivo.
Vício na internet ainda não faz parte da classificação internacional de doenças mentais, mas vícios em jogos sim. Alguns têm convicção que suas apostas em bets são investimentos. Ainda não entendi esse argumento, mas sei que os jogos poderiam fazer parte da listinha de meios fáceis para transbordamento cerebral de dopamina e prazer: Drugs, Sex, Rock and Roll and Games. Como disse Dra. Kelly Clamcy, especialista no assunto e inspiração da coluna de hoje, “ou entendemos como os jogos influenciam nossas vidas ou são eles que irão jogar com a gente”.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília



