Por Ricardo Afonso Teixeira*

A criação de novos neurônios, neurogênese, entre adultos, era algo fora de cogitação até às últimas décadas e a demonstração da neurogênese no cérebro adulto foi quase limitada a modelos animais, devido a dificuldades metodológicas em humanos. Recentemente, a revista Nature publicou uma pesquisa apontando neurogênese entre adultos e que essa criação de novos neurônios é maior entre idosos que têm a memória preservada comparados a idosos com déficit cognitivo.  Surpreendentemente, aqueles com mais de 80 anos, e com ótimo desempenho cognitivo, tiveram concentrações de novos neurônios ainda maior que indivíduos mais jovens. A esses afortunados dá-se o nome de super-olds, superidosos. Há estudos mostrando que os super-olds são mais resilientes a alterações patológicas associadas ao envelhecimento, como lesões vasculares e depósitos proteicos encontrados na Doença de Alzheimer.

Vale lembrar que o exercício físico tem a capacidade de estimular a neurogênese.   O cérebro de Olga Kotelko nos trouxe algumas pistas sobre o impacto da atividade física no cérebro em idades avançadas.  Olga viveu até os 95 anos, competindo até semanas antes de sua morte. 

A canadense Olga Kotelko, detentora de mais 30 recordes mundiais em diversas modalidades de atletismo, faleceu no ano de 2014, mas teve seu cérebro estudado cuidadosamente em 2012 pela Universidade de Illinois nos EUA. Os pesquisadores compararam o desempenho cognitivo de Olga e as características da ressonância magnética de seu cérebro com outras mulheres com idades entre 66 e 78 anos. Nessa época Olga tinha 93 anos. Os resultados foram publicados na revista Neurocase.

O cérebro de Olga era mais volumoso do que o esperado para sua idade. Surpreendente foi encontrar que a parte do cérebro que liga os dois hemisférios, o corpo caloso, era mais intacta em Olga do que entre as mulheres dez ou vinte anos mais jovens!

O desempenho cognitivo de Olga mostrou-se levemente inferior ao das mulheres mais jovens, mas superior ao de mulheres da mesma idade e não atletas de um estudo independente. Os hipocampos de Olga, áreas cerebrais fortemente responsáveis por nossa memória, também eram menores que o das mulheres de 60-70 anos, mas maiores que o de mulheres da mesma idade.

Muitos estudos demonstram que a atividade aeróbica é capaz de garantir um bom funcionamento cerebral entre os idosos e até preservar o volume de algumas áreas estratégicas do pensamento, como o hipocampo. É muito provável que Olga também apresentasse um contingente mais generoso de novos neurônios nos hipocampos, mas isso não foi avaliado.

O mais interessante é que Olga iniciou sua vida de atleta aos 65 anos e passou a se dedicar ao atletismo aos 77 anos. Competiu em corridas curtas e longas, saltos e arremessos de disco, martelo e dardos.

*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília