Ricardo Afonso Teixeira*

Pesquisa publicada pela Nature na última semana desafia o entendimento que se tinha até hoje sobre a origem da Doença de Parkinson e pode dar uma reviravolta na forma como se diagnostica e trata a doença.

Em 2023, foi identificada, por pesquisadores da Universidade de Washington, uma rede neural que recebeu o nome de Rede de Ação Somato-Cognitiva (SCAN – Somato-Cognitive Action Network) e que faz a ponte entre o pensamento e o movimento. Esta rede conecta áreas cognitivas, de planejamento e controle motor no córtex cerebral.

Esses mesmos pesquisadores, em parceria com laboratórios chineses, entre outros, demonstraram agora que o Parkinson pode ser uma doença desse circuito SCAN, e não simplesmente uma degeneração dos neurônios produtores de dopamina na substância negra do mesencéfalo, dogma que carregamos há décadas.

Esse estudo agora identificou, entre pacientes com Parkinson, uma hiperconexão entre a rede SCAN e o subcórtex, que envolve áreas essenciais para funções automáticas de sobrevivência, regulação emocional, memória e controle motor. Essa conexão foi mais robusta do que a do córtex motor primário com o subcórtex, sendo que esta última também representava o modelo que era entendido como soberano. Mais um dogma quebrado.

A modulação dessa hiperconectividade, através de estimulação magnética transcraniana com precisão milimétrica, proporcionou melhora dos sintomas 2.5 vezes maior do que estimulação em áreas vizinhas em pacientes submetidos a diversos tipos de tratamento para a doença, incluindo medicações e eletrodos implantados cirurgicamente.

Novos estudos devem ser realizados para explorar as melhores formas de modulação da hiperconectividade demonstrada, mas já se propõe que o Parkinson seja conceptualizado e tratado como uma doença da rede SCAN. Já sabemos que a doença não é apenas um distúrbio do movimento, já que afeta diversas outras funções, como o sistema autonômico (constipação, hipotensão ortostática), cognição, humor e sono, por exemplo. Essa nova forma de enxergar a doença contempla tudo isso.

Fico muitas vezes um pouco incomodado, silenciosamente, com o uso muitas vezes abusivo da expressão mudança de paradigma para pequenos avanços da ciência. No presente caso, acho bem razoável que se fale numa mudança de paradigma no entendimento da Doença de Parkinson.

*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília