
Ricardo Afonso Teixeira*
Uma pesquisa recém-publicada pelo JAMA Network Open mostra que o diagnóstico de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) na infância está associado a uma maior chance de problemas físicos e incapacidade na idade adulta.
O estudo foi conduzido na Inglaterra e envolveu 11 mil crianças que foram acompanhadas até os 46 anos de idade. As dificuldades executivas desses pacientes aumentam o risco de dificuldades no campo social e ocupacional no longo prazo. Isso leva a comorbidades de natureza mental que terão repercussões negativas na saúde física. Na presente pesquisa, estresse psicológico, tabagismo e obesidade foram fatores que parcialmente justificaram a pior evolução na saúde física. Há um ano, o mesmo grupo de pesquisadores mostrou uma redução da expectativa de vida em adultos com diagnóstico de TDAH.
O TDAH é uma condição geneticamente herdada que se caracteriza por sintomas de desatenção, inquietude e impulsividade. O problema acomete entre 6 e 8% das crianças em todo o mundo e os sintomas permanecem até a vida adulta em 30% dos casos, sendo que em 60% desses há comorbidades do sistema psíquico, como é o caso de ansiedade, depressão, alcoolismo e abuso e dependência de outras drogas.
Entretanto, pesquisas recentes têm demonstrado que essas cifras andam bem maiores. Há estimativas que 15% dos meninos em idade escolar nos Estados Unidos receberam diagnóstico de TDAH, contra 7% entre as meninas. Entre os jovens com idades entre 14 e 17 anos, o resultado é ainda maior: 19% para os meninos e 10% para as meninas. No Brasil, uma pesquisa revelou que quase 75% das crianças e adolescentes brasileiros que tomam remédios para déficit de atenção não cumprem os critérios diagnósticos para essa condição clínica.
Acredito que o TDAH esteja lado a lado com a depressão como exemplos de um fenômeno de nossa sociedade contemporânea chamado de medicalização da experiência humana. Qualquer experiência de tristeza ou de perda de foco nos estudos ou no trabalho são frequentemente interpretadas de forma errônea por aqueles que têm os sintomas, e mesmo pelos médicos, como se fosse um diagnóstico de depressão ou TDAH. Não estou dizendo que esses diagnósticos não existam. Pelo contrário. São dois dos diagnósticos mais prevalentes na área de saúde mental, que precisam de tratamento, e quando se pensa em saúde pública, certamente existem muitos indivíduos não diagnosticados andando lado a lado com superdiagnosticados.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília



