Ricardo Afonso Teixeira*

Ela tinha 18 anos, foi morar sozinha e iniciar seu curso universitário a mil
quilômetros dos pais. Tudo era novo, mais trabalhoso do que no ninho da
família, mas estava firme e confiante nas suas decisões. Até que após três
meses veio um blues súbito, sem explicação, querendo muito o colo da mãe. Não
estava na TPM, não tinha brigado com o crush. Pelo contrário, na noite anterior
tinha se reunido com os amigos em casa e aí é que aparece o principal suspeito.
Só foi dormir, e pouco, após as sete da manhã.

 

Eti Ben Simon, uma das maiores lideranças na pesquisa sobre efeitos psicológicos da
privação do sono, fez um relato muito curioso nesta última semana na Scientific American. Ela diz que, ainda na época de graduação, ela conduzia uma pesquisa com estudantes
em que media o impacto emocional de uma noite sem dormir.  Virava as
noites monitorando os voluntários do estudo e numa manhã, após uma dessas
noites sem dormir, percebeu que também sofria as consequências emocionais da
privação de sono. Ela subitamente desatou a chorar incontrolavelmente ao ouvir
uma canção romântica no rádio do carro, comportamento atípico na sua história
de vida.

 

Ainda na década de 1960, estudos já demonstravam dificuldades cognitivas e
alucinações visuais ou sensoriais após duas noites de privação de sono. Após a
terceira noite de privação, voluntários passavam a ficar agressivos e a ter
delírios paranoides. Em todos esses casos, o comportamento voltava à
normalidade após um dia inteiro de sono.  Hoje, pesquisas com privações de
sono extremas de vários dias são consideradas antiéticas. Entretanto, estudos
continuam sendo realizados com privações de uma noite e demonstram que, mesmo
por apenas uma noite, a falta do sono desregula a sintonia dos circuitos
neuronais que controlam as emoções.

 

Têm-se mostrado que uma noite sem dormir reduz a atividade do córtex pré-frontal,
estrutura associada à modulação do nosso cérebro emocional, as amigdalas.
Quando nos deparamos com alguma incerteza ou um desafio emocionalmente intenso,
as amígdalas disparam a liberação de neurotransmissores e hormônios para nos
deixar mais prontos ao combate ou à fuga.  Essas alterações ficam sem um
maestro quando o córtex pré-frontal está adormecido após a privação de sono e
assim as emoções podem ficar exageradas por um estímulo que pode nem ser tão
ameaçador. Além disso, o circuito de comunicação entre as amídalas e o córtex
pré-frontal também ficam adormecidos após a privação de sono.

 

Essas modificações no funcionamento cerebral ocorrem até com privações de sono menos
radicais, como uma noite de sono de menos de seis horas. Com a restrição de
sono, por exemplo, nossas amígdalas são ativadas na mesma intensidade ao vermos
uma foto de uma cena que inspira cuidados, como uma criança chorando, ou de um
passageiro sentado na poltrona de um trem. Para quem dormiu bem na última
noite, a visão da criança chorando ativa mais as amígdalas do que o passageiro.
Isso explica, em parte, o choro descontrolado de Eti Ben ao ouvir a música
romântica no seu carro.  

 

E voltando à garota de 18 anos que descrevemos no início, certamente ela
continuará a virar noites com os amigos. O que eu posso aconselhar como
neurologista é que, depois de trocar a noite de sono pela diversão, ela passe a
se programar para dormir umas sete horas na manhã seguinte.

 

*Dr. Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp, professor do curso
de medicina do Unieuro e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília