Pesquisas apontam que passamos metade de nossas vidas conversando com nós mesmos. O que estamos chamando aqui de voz interna é a produção mental silenciosa de palavras e frases e isso pode ser encarado como um aspecto positivo para nosso equilíbrio psíquico. É claro que muitos fazem esse monólogo em alto e bom tom: conversam sozinhos em voz alta.

Essa voz interna está ligada a uma série de funções psicológicas como leitura, escrita, planejamento, memória, motivação e resolução de problemas e conflitos. Algumas pessoas, por outro lado, não têm esse monólogo interno. Existe ainda as que não tem capacidade de experimentar mentalmente experiências sensoriais, seja visual ou de qualquer outro tipo. A isso se dá o nome de afantasia. Não conseguem, por exemplo, contar carneirinhos. Essas capacidades dependem de uma rede de regiões em todo o cérebro que trabalham em conjunto para gerar a experiência sensorial com base em memórias. O melhor palpite até agora é que naqueles que têm afantasia as ligações entre estas áreas do cérebro são interrompidas. Interrompidas por uma lesão cerebral grave ou mesmo sem qualquer lesão, como por exemplo por uma herança geneticamente definida.

Voltando à nossa voz interna, ela também é dependente da integridade de uma extensa rede neural, especialmente a que liga as regiões frontais ao córtex auditivo. Essa voz é muito frequente em situações de automotivação e autocrítica. Um exemplo é o atleta que se prepara mentalmente no instante de uma situação decisiva, como bater um pênalti ou partir para um salto. A voz continua a se manifestar após a competição para autoavaliação do seu desempenho. Esse monólogo pode ter a forma de um diálogo de uma pessoa só, podendo até ter conteúdo daquilo que outras pessoas estariam falando naquela situação.

Nossos monólogos nos ajudam em inúmeras situações, mas também podem gerar a ruminação de pensamentos negativos, promovendo ansiedade, sintomas depressivos, transtornos alimentares e outras formas de desequilíbrio psíquico. Então vale ter sempre cuidado com o que você fala, mesmo que seja só para você.

Em tempo: os amigos imaginários, fenômeno comum entre as crianças, não devem ser vistos como algo negativo para a saúde mental desde que se tenha convicção de que o amigo é realmente imaginário. Se isso passa a ser percebido como realidade e se conteúdos negativos são dominantes, pode ser o caso de se tratar de vozes internas da psicopatologia, delírios e alucinações.