Às vezes eu tenho a impressão que meu filho de oito anos prefere seus games a qualquer outra coisa desse mundo. Silenciosamente fico com aquela preocupação de pai e sempre me pergunto: será que essa obsessão pelos eletrônicos está fazendo bem ao seu cérebro? Como será isso no longo prazo? Será que estou vivendo algo parecido com o medo de nossos ancestrais às novas tecnologias como a imprensa, o rádio, TV….?

Já temos algumas pistas que mostram que no curtíssimo prazo a alta velocidade de alguns games e cartoons não são tão legais assim para o cérebro das crianças. Cientistas compararam o desempenho cerebral de crianças de quatro anos de idade após assistirem a uns dez minutos de um cartoon bem acelerado como Bob Esponja, em que a mudança completa da cena acontecia em média a cada onze segundos, com um outro mais lento com mudança de cena a cada 34 segundos. As crianças que assistiram ao vídeo acelerado tiveram um PIOR desempenho nos testes cognitivos logo após assistirem ao desenho. Com ratinhos acontece a mesma coisa. Eles ficam perdidos no labirinto e ficam mais predispostos a se viciarem em cocaína. Uma hipótese para explicar essa maior dificuldade executiva após uma experiência de rápida sucessão de eventos é que o cérebro disponibiliza muitos recursos para sua decodificação e fica relativamente desfalcado por um período.

Desde o ano de 1999, a Academia Americana de Pediatria recomenda que as crianças menores de dois anos não devem assistir TV de forma alguma. Uma pesquisa conduzida pela Universidade de Washington chegou até a demonstrar que bebês que assistem a vídeos educativos como o Baby Einstein têm piores scores em testes cognitivos. E as empresas do entretenimento têm vendido cada vez mais vídeos e jogos com o apelo educativo, mas sem nenhuma base científica. Existem raras exceções que foram realmente testadas e com benefícios comprovados. É o caso do aplicativo BedTime Math com problemas de matemática para pais e filhos fazerem juntos.

Já no caso das crianças maiores de dois anos, o consenso é que elas não devem ser expostas a mais do que duas horas por dia às mídias eletrônicas, e isso inclui não só a TV, mas também videogames, DVDs e o uso do computador para atividades não escolares. Sabe-se que as crianças que passam desse limite têm mais chance de apresentar comportamento violento, início precoce da vida sexual, transtornos alimentares, obesidade, transtornos do sono, assim como maior risco de consumir álcool e cigarro.

Vale lembrar que os pais podem ajudar as crianças a entenderem as mensagens transmitidas no vídeo e a interpretá-las criticamente, o que inclui também o material publicitário. Cabe também aos pais a identificação de conteúdos que sejam inadequados para a idade da criança. E dar o exemplo também…

Meu maior receio é de que a superestimulação do cérebro das crianças faça com que as outras coisas do mundo desconectado comecem a ficar cada vez mais sem graça nessa fase do desenvolvimento. Por enquanto suo a camisa para equilibrar com outras brincadeiras sem luzinhas.

 

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