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Há poucos anos as evidências da participação do cérebro no mecanismo da exaustão muscular ainda eram apenas indiretas. Os estudos usavam truques psicológicos que enganam os voluntários de que suas medidas fisiológicas ainda estão dentro da normalidade, criavam adversários virtuais com um desempenho melhor do que o esperado numa competição, etc.
 
Em 2011, pesquisadores da Universidade de Zurique realizaram um estudo que provocava a exaustão de ciclistas monitorizados por eletrencefalograma. Eles conseguiram demonstrar que pouquíssimo tempo antes da exaustão existia um aumento da comunicação elétrica entre duas regiões do cérebro. Essas duas regiões eram o córtex motor que planeja e controla o movimento e o córtex da ínsula, região que poderia ser considerada como um grande entroncamento de vias, incluindo as vias emocionais.  Podemos dizer que a ínsula dá um sinal para a região motora parar logo, já que o limite foi ultrapassado.
 
Prof. Alexandre Okano, pesquisador da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e colaboradores de outras instituições (Unicamp, Universidades Estaduais do Rio de Janeiro e de Londrina, Universidade de Cape Town – África do Sul, City College of New York – EUA) conduziram um experimento extraordinário que estava faltando para dar seguimento à evolução desse conhecimento. Os resultados indicaram que o cérebro parece mandar mais que o músculo quando atingimos a fadiga. O músculo até continuaria um pouco mais, mas o cérebro acaba com a festa.
 
Eles resolveram mudar a excitabilidade da ínsula e regiões vizinhas através de uma pequena estimulação elétrica não invasiva e ver o quanto isso poderia influenciar o desempenho de atletas. Essa estimulação poderia fazer com que a ínsula passasse a mandar menos recados ao sistema motor de que já estava na hora de descansar, deixando os músculos trabalharem mais. Dito e feito.
 
Dez ciclistas de competição participaram de um teste em que pedalavam “no limite”. Metade deles recebeu antes da prova a estimulação elétrica por 20 minutos sobre o córtex da ínsula à esquerda enquanto a outra foi submetida a um procedimento de mentira, placebo.  Aqueles que receberam a estimulação tiveram um desempenho de força 4% maior, menor percepção de cansaço e menor elevação da freqüência cardíaca.  
 
A modulação das conexões entre a ínsula e o sistema motor tem vários caminhos. Já é conhecido que a estimulação da ínsula promove modulação do sistema nervoso autônomo e também tem estreita relação com experiências prazerosas. Ativação da ínsula esquerda já foi demonstrada quando uma mãe vê fotos de seus filhos, quando uma pessoa sorri ou mesmo vê alguém sorrindo e ao ouvir músicas agradáveis. Por outro lado, a ínsula direita está mais associada às experiências negativas e desagradáveis, como é o caso da dor. 
 
Uau! Isso não é pouca coisa quando se pensa em atletas de elite e certamente é um achado que vai levantar muitos dilemas éticos. Ainda não existe como provar se o atleta foi estimulado ou não antes de uma competição… Os resultados da pesquisa foram publicados no Jornal Britânico de Medicina do Esporte.
 
Além desses efeitos na resistência física, melhor dizendo resistência cerebral, o “doping elétrico” tem mostrado efeitos preliminares positivos sobre a força e coordenação de atletas de esquiadores profissionais.  Um pequeno estudo mostrou que os atletas aumentaram a força do salto em 70% e a coordenação em 80% numa rampa instável quando recebiam a estimulação elétrica durante os treinamentos. 
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