Treinamento cerebral é uma nova onda. Basta baixar no computador um programa feito para turbinar o cérebro e você já ficou mais esperto e sua vida muito melhor.  Será? A indústria farmacêutica está investindo nesses novos joguinhos com o sonho de que eles se tornem os primeiros videogames que farão parte de uma prescrição médica. Nem tanto sonho, nem tanto realidade.

Um documento assinado recentemente por setenta dos neurocientistas mais respeitados do mundo, incluindo membros da Universidade de Stanford nos EUA e Instituto Max Planck na Alemanha, diz, com letras maiúsculas, que não há sólidas evidências científicas que esses jogos possam promover a inteligência das pessoas. Diz o documento: “O forte consenso do grupo é que a literatura científica não corrobora a ideia que esses games melhoram o desempenho cognitivo no dia a dia ou que ajudam a prevenir o declínio cognitivo e doenças cerebrais. As evidências científicas apontadas pela publicidade desses produtos são frágeis”.

Psicólogos tentam há mais de um século formas de incrementar a inteligência, mas sem muito sucesso. Por enquanto, o que foi demonstrado com os games é que você pode ficar mais esperto para tarefas bem similares aos do jogo, mas não em outras. Também não foi comprovado que existe repercussão nas atividades de vida diárias. Pequenos ganhos já demonstrados foram às custas de muito tempo de treinamento.  Qual é o custo-benefício?

Um estudo em 2008 prometeu muito. Pesquisadores da Universidade de Michigan nos EUA mostraram que em algumas semanas os games podiam aumentar a habilidade em resolver problemas novos, até aumentando o QI dos voluntários.  Vários grupos de pesquisa tentaram replicar os resultados em outros centros e não tiveram sucesso. Muita critica foi feita da metodologia dessa pesquisa, inclusive a de não ter usado um grupo placebo para comparação.

Uma meta-análise de 23 estudos também não encontrou evidências que esses games têm o poder de aumentar nossa inteligência.  Ano passado um estudo muito divulgado pela mídia e publicada na revista Nature mostrou que um joguinho desses, que foi criado para treino de foco no que interessa e desprezar informações irrelevantes, melhorou o desempenho de alguns testes cognitivos, mas sem evidências de ganhos no mundo real.

Apesar de não termos ainda razões para bater muitas palminhas para esses jogos, as pessoas poderiam jogar à vontade porque pelo menos mal não faz? Mais ou menos. Pode jogar, desde que não concorra com o tempo de ações que têm robustas evidências de sucesso no desempenho cognitivo como a atividade física e o aprendizado de coisas novas. A projeção é que o mercado desses games tenha girado $1.3 bilhão em 2014.

Anúncios