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A maioria dos brasileiros quando ouve o nome ciência cria uma ligação direta com algo vindo do estrangeiro. Claro que o Brasil não é o campeão mundial de produção científica, mas também não estamos tão mal assim. Nas áreas de saúde temos grupos de pesquisa de excelência, alguns até à frente de países desenvolvidos. É difícil imaginar que alguém consiga discordar que a autonomia científica e tecnológica de um país seja uma das principais estratégias para o desenvolvimento de sua economia. Ciência na saúde é tão ou mais importante do que em qualquer outra área do conhecimento. E por isso, precisamos trabalhar os diversos setores da sociedade para que ciência deixe de ser uma coisa esquisita dos gringos.

 

Podemos começar pela própria geração de ciência no nosso meio e nesse ponto temos sérios desafios. A baixa participação de alunos em programas de iniciação científica durante a graduação faz com que uma minoria aprenda a fazer ciência. No caso dos médicos, a residência médica seria outra grande oportunidade para se adquirir as ferramentas científicas necessárias para desenvolver pesquisa na sua prática clínica, mas infelizmente a formação científica não é priorizada nessa fase da formação.  Em países desenvolvidos, vemos muitos médicos que não optaram pelo caminho formal da pós-graduação stricto sensu serem lideranças científicas nas suas áreas de atuação. Isso porque aprenderam bem a fazer ciência durante a graduação e a residência médica.

 

Outro fator complicador em nosso país é que temos poucos programas de pós-graduação e estes estão em sua grande maioria nos grandes centros. Temos ainda recursos relativamente limitados voltados à pesquisa no país e sabemos que boas pesquisas custam dinheiro. A carreira acadêmica vem sendo desvalorizada especialmente do ponto de vista de remuneração, fazendo com que poucos profissionais da saúde recém-formados busquem esse caminho. A maior parte das universidades privadas do país (e existem exceções!) pouco colabora para a mudança desse cenário, sendo que uma minoria investe em pesquisa de forma sólida, não conseguindo cumprir a missão da universidade que inclui além do ensino, atividade de pesquisa e extensão.

 

Recentemente tenho ouvido uma série de casos de estudantes de medicina recém-formados que têm optado por não fazer residência médica, pelo menos por um tempo, em detrimento de um ou outro concurso público. Isso me faz lembrar bastante de uma experiência que tive em Cuba há cerca de 10 anos. Muitos pais revelavam certo desconforto ao verem seus filhos não quererem mais estudar ou seguir uma carreira, pois ao optarem por ser médicos ou físicos, ganhariam uma média de 20 dólares por mês pelo resto de suas vidas. Por outro lado, se passassem a se empenhar na briga por uma vaga de carregador de malas em hotel turístico, passariam a ter a chance de ganhar infinitamente mais com gorjetas. Não estou lutando contra a idéia da garantia do emprego estável, mas as autoridades envolvidas em educação em saúde precisam estar atentas em garantir que os jovens continuem sonhando em se formar profissionais de ponta, pesquisadores, criadores de novas tecnologias. Sabemos que o curso de graduação não permite vôos dessa natureza.

 

Acredito que a maioria dos brasileiros sente-se orgulhosa do grande impacto que nosso biodiesel pode vir a ter para a economia do nosso país, e é importante que os brasileiros saibam o quanto foi investido em pesquisa para que tenhamos chegado a esse produto. É nesse sentido que a divulgação científica ao público leigo representa uma importante ferramenta para que a sociedade passe realmente a entender o quanto a ciência é vital para o desenvolvimento de nossa sociedade. Essa conscientização pode fazer com que a ciência seja estimulada pela própria população por meio de seus representantes, e que ações que fomentem o crescimento científico e tecnológico do nosso país sejam levados em consideração na hora de darmos nosso voto a um político ou a outro.  Claro que isso não acontecerá da noite para o dia, mas precisamos pisar forte no acelerador incrementando o jornalismo científico aos adultos e levando ciência às crianças já no ensino fundamental de forma aplicada ao dia-a-dia delas. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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