Nesta última semana, duas das principais publicações científicas em saúde do mundo, JAMA e Pediatrics, chamaram a atenção para o fato de que o público deve estar consciente de que as bebidas energéticas cafeinadas não são tão inocentes assim.

 

O crescimento dessas bebidas nos últimos anos é exponencial e cerca de 500 diferentes produtos já podem ser encontrados ao redor do mundo. Em 2011, a expectativa é que o negócio alcance os 9 bilhões de dólares.

 

O conteúdo de cafeína desses produtos é bem variado, indo desde 50mg até 500mg por latinha ou garrafinha (uma xícara de café expresso tem cerca de 100mg de cafeína). Além da cafeína, essas bebidas contêm outras substâncias como vitaminas, aminoácidos e algumas delas também contêm extratos de ervas tais como Gingko biloba e Ginseng. No Brasil, a adição dessas ervas não é permitida.

 

Países da União Européia exigem que o rótulo desses produtos apresente o aviso “Bebida com alto conteúdo de cafeína”. No Canadá, exige-se que o rótulo do Red Bull evidencie que não se deve misturá-lo com bebidas alcoólicas e que não se deve beber mais do que duas latinhas por dia. Na Noruega essa mesma bebida só pode ser comprada em drogarias, e só a partir de 2008 a França permitiu sua comercialização após adequação da sua fórmula, com a substituição do aminoácido taurina por arginina, já que não se conhece bem os efeitos do consumo de taurina sobre nossa saúde ao longo prazo. Nos EUA, medicações que contém cafeína devem ter nas embalagens uma série de avisos de segurança ao consumidor. Por outro lado, bebidas energéticas que podem ter conteúdos de cafeína até várias vezes superiores a um desses comprimidos, não precisam nem mesmo ter a concentração de cafeína demonstrada em seus rótulos, já que são consideradas suplementos dietéticos.

 

No Brasil, a ANVISA classifica esses produtos como “COMPOSTOS LÍQUIDOS PRONTOS PARA CONSUMO” e uma portaria de 1998 regulamenta a comercialização com as seguintes ressalvas: * Conteúdo de álcool deve ser menor que 0.5% e de cafeína deve ser no máximo de 350 mg/l (uma xícara de café expresso tem cerca de 100mg de cafeína e uma lata de coca-cola 35mg). É ainda obrigatória a demonstração no rótulo do conteúdo de cafeína e advertência em destaque e negrito: “Idosos e portadores de enfermidades: consultar o médico antes de consumir este produto”.  Em nova resolução no ano de 2005, a recomendação de advertência foi estendida para: “Crianças, gestantes, nutrizes, idosos e portadores de enfermidades: consultar o médico antes de consumir o produto” e também “Não é recomendado o consumo com bebida alcoólica“. Os termos “Bebida Energética” ou “Energy Drink” são permitidos nos rótulos, mas passam a ser proibidas expressões como “Estimulante”, “Melhora de Desempenho” ou equivalentes.

  

As campanhas publicitárias das bebidas energéticas são direcionadas primariamente aos jovens, especialmente aos homens, prometendo melhora do desempenho da atenção e resistência física, perda de peso e maior diversão. No Brasil estamos acostumados a ver a animação de um bonequinho em que a bebida energética lhe “dá asas”. Já nos EUA, algumas campanhas têm forte apelo à glorificação do uso de drogas. Há desde bebidas com o nome “Cocaína” vendida como a “alternativa legal”, bebida que vem acompanhada de um kit de acessórios comumente usados para cheirar cocaína, até propaganda na TV em que pessoas simulam cheirar a bebida energética em alusão ao ato de cheirar cocaína. 

 

E por que tanta preocupação com essas bebidas por parte das autoridades de saúde pública? O que é que a cafeína dessas bebidas tem que a do café não tem? Um dos focos de preocupação gira em torno do risco de intoxicação aguda já que algumas campanhas publicitárias prometem inúmeros benefícios e as pessoas podem interpretar isso como quanto mais, melhor. E as pessoas pouco sabem sobre os níveis de consumo seguro de cafeína, e isso depende muito se o consumo é esporádico ou regular. Grávidas não devem consumir cafeína de forma alguma, pois há aumento do risco de aborto espontâneo e de recém-nascidos de baixo peso.

 

Quem ingere cafeína diariamente tem menos riscos de se intoxicar, já que o metabolismo da substância é mais rápido. Entre os sintomas da intoxicação aguda por cafeína incluem-se ansiedade, agitação psicomotora, dor de cabeça, tremor, insônia e sintomas gastrintestinais. Mais raramente, uma overdose de cafeína pode provocar efeitos ainda mais sérios. Em 2007, um competidor de motocross na Austrália teve uma parada cardíaca após beber oito latas de Red Bull num espaço de tempo de cinco horas. A cafeína provoca lentificação dos batimentos cardíacos e constrição dos vasos do cérebro e do coração. Há relatos isolados de crises epilépticas, derrame cerebral e alguns casos de morte potencialmente associados à intoxicação por cafeína. Uma concentração de cafeína no sangue acima de 1g pode levar a sintomas de intoxicação e acima de 5g já pode provocar a morte.   

 

A dependência à cafeína é outro problema que merece atenção, e a abstinência da substância pode causar dor de cabeça, fadiga, sonolência e redução do desempenho cognitivo, alteração do humor, irritabilidade, náuseas e dores musculares. Assim como os adultos, crianças e adolescentes também são susceptíveis ao problema.

 

Mais preocupante ainda é a crescente cultura de se misturar os energéticos com álcool. Estudos recentes têm demonstrado que a mistura faz com que a pessoa se sinta menos sonolenta, mas sem perceber seu real estado de embriaguez, e por isso, cria uma maior tendência a comportamentos de risco e violência sexual.  Apesar de ainda ser uma discussão em aberto, já se reconhece que os mesmos fatores genéticos que definem o risco de dependência à cafeína estão associados também ao tabagismo e ao alcoolismo. Já existem pesquisas que apontam que o excesso de cafeína aumenta a chance de dependência ao álcool. Em novembro de 2010, o FDA, órgão regulador americano, anunciou que a cafeína não é uma substância segura quando adicionada às bebidas alcoólicas, o que deve fazer com que uma série de produtos saia do mercado desse país.  

 

Não é uma latinha de bebida energética aqui e outra ali que irá trazer problema. Entretanto, à luz do conhecimento atual, deve-se ter em mente que tanto o abuso desses produtos, assim como a mistura com álcool podem estar associados a problemas de saúde mais sérios. Se a intenção for aumentar o desempenho físico e mental, por que não usar de forma moderada a cafeína dos próprios alimentos (ex: chás, café)? Nos alimentos, a cafeína vem acompanhada de inúmeras substâncias que reconhecidamente fazem muito bem à saúde.

 

** CLIQUE AQUI e confira um bate-papo sobre o asssunto com o Dr. Ricardo Teixeira na Rádio CBN no dia 18 de fevereiro 2011

 

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