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A eficácia clínica da acupuntura para o tratamento da dor crônica tem sido demonstrada através de grandes estudos na última década. Os pesquisadores desenvolveram um tipo de acupuntura placebo, também chamada de sham acupuncture, em que o indivíduo acha que está sendo submetido ao tratamento verdadeiro, mas na verdade são agulhas que são colocadas em pontos aleatórios e em nível superficial. Já é bem reconhecido que o efeito da sham acupuncture existe e é até superior a alguns tratamentos convencionais para dor, mas é menor que a acupuntura verdadeira.
Uma pesquisa recém publicada pelo British Medical Journal joga um certo balde de água fria nos entusiastas do tratamento de acupuntura para síndromes dolorosas, demonstrando que grande parte do efeito alcançado é devido ao efeito placebo. Pesquisadores dinamarqueses realizaram uma metanálise dos grandes estudos em que houve comparação entre a acupuntura verdadeira e a acupuntura placebo (sham acupuncture). A acupuntura placebo foi moderadamente mais eficaz que o tratamento convencional para dor, superior em 10 pontos em uma escala de 100. Já a diferença de eficácia entre a acupuntura verdadeira e a acupuntura placebo foi bem menor, 4 pontos em uma escala de 100. Reconhece-se que efeitos menores que 10 pontos numa escala de 100 são considerados mínimos ou pequenos. Ou seja, os resultados da acupuntura verdadeira são quase os mesmos da acupuntura placebo, sugerindo que o maior componente de ação da acupuntura verdadeira se dá por efeito placebo.
A pesquisa é concordante com outras sete análises rigorosas do sistema Cochrane que concluíram que não existem evidências inequívocas, por questòes metodológicas, de que a acupuntura tem efeito analgésico. O presente estudo questiona as bases teóricas da acupuntura sem negar que o efeito placebo associado ao ritual do tratamento pode ser muito útil e até mesmo ético no auxílio de tantas pessoas que se sentem melhor com esse tipo de tratamento.
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Em uma pesquisa recém publicada no BMC Medicine envolvendo quase 40 mil pessoas na Ásia, pesquisadores japoneses investigaram a relação entre a percepção do próprio estado de saúde, e o grau de confiança nas relações interpessoais, no conteúdo disponibilizado pelos meios de comunicação de massa e no sistema de saúde.
Os indivíduos que mais se consideraram saudáveis foram os mais jovens, com alto nível educacional e sócio-econômico, e os mais confiantes nas relações interpessoais, nos veículos de comunicação de massa e no sistema de saúde. Cerca de 60% dos entrevistados responderam que acreditam muito ou parcialmente na mídia.
Não se pode inferir uma relação causal precisa entre acreditar na mídia e ter uma boa saúde, mas uma maior confiança no conteúdo de informações em saúde disponibilizado por ela pode ser uma poderosa ferramenta para a promoção de saúde através de uma maior incorporação de hábitos de vida saudáveis. Esse conjunto de confiança entre os indivíduos e entre indivíduo e instituições é parte fundamental do conceito de Capital Social, que é definido como a quantidade e qualidade das interações sociais. Pesquisas apontam que sociedades com alto Capital Social apresentam melhores indicadores de saúde. No Brasil, os jornalistas estão bem na foto. Pesquisa encomendada pelo Ministério da Ciência e Tecnologia e divulgada em 2006 revela que o jornalista é o profissional em que a população mais confia quando o assunto é ciência e tecnologia, seguido pelo médico e só depois vem o cientista.
É também bem conhecido que os meios de comunicação de massa representam as principais fontes de informação em saúde da sociedade e desempenham um dos pilares do processo de alfabetização em saúde. Dessa forma, ações voltadas ao fortalecimento da imagem de confiabilidade do jornalismo em saúde de uma sociedade podem refletir em seus indicadores de saúde. Claro que o jornalismo em saúde também tem que fazer sua parte.
Não é novidade para ninguém que a poluição do ar é um sério problema de saúde pública. Pesquisas no Canadá, Holanda e Finlândia já haviam demonstrado que um aumento de 10µg por m3 na concentração de partículas menores que 2.5µm está associado a uma redução na expectativa de vida de 0.8 a 1.3 anos. Esta semana, um importante e pioneiro estudo foi publicado no jornal New England Journal of Medicine confirmando essa relação entre poluição e longevidade só que de forma inversa: a redução da poluição é capaz de aumentar a longevidade da população. A redução dos mesmos 10µg por m3 na concentração de partículas menores que 2.5µm promoveu um aumento de 0.77 ano na expectativa de vida da população. Esses resultados foram extraídos do nível de poluição do ar em 51 diferentes regiões metropolitanas dos Estados Unidos ao longo de duas décadas. Nesse mesmo período, a expectativa de vida do americano cresceu em 2.74 anos, e teoricamente, 18% desse aumento pode ser decorrente das medidas de controle da poluição do ar.
A Organização Mundial da Saúde reconhece que 1.4% das mortes do planeta são decorrentes da poluição no ar que se respira. Essa pesquisa pode ser vista como boa notícia já que se reduzirmos a poluição do ar, estaremos aumentando nossa longevidade. E a responsabilidade não é só das autoridades. Está em nossas mãos também o poder de limpar o ar que respiramos.
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Já é bem conhecido o efeito protetor do consumo leve a moderado de álcool sobre o sistema cardiovascular e uma nova pesquisa publicada no periódico American Journal of Epidemiology revela que os benefícios podem se estender a um envelhecimento com maior nível de independência física.
A pesquisa acompanhou mais de 4 mil americanos acima de 50 anos de idade. Consumo de álcool leve a moderado foi definido como menos de 15 doses por semana ou menos de cinco doses em um único dia para homens e menos de quatro doses para mulheres. Um consumo de álcool acima desses limites foi classificado como alto consumo e abstinência alcoólica como até 12 doses de álcool no último ano. Independência foi determinada como a capacidade de realizar tarefas do dia-a-dia como vestir-se, alimentar-se, higiene pessoal, caminhar, etc.
Ao longo de 5 anos, os indivíduos com consumo leve a moderado de álcool tiveram menos risco de tornarem-se dependentes para atividades da vida diária quando comparado aos abstêmios e àqueles com alto consumo de bebida. Esse efeito protetor do consumo moderado de álcool só foi relevante entre indivíduos que no início do estudo se auto-avaliaram como tendo uma saúde boa ou ótima, sugerindo que os efeitos positivos do álcool já não são mais detectáveis entre aqueles que já têm um estado de saúde comprometido.
Pesquisas anteriores já haviam demonstrarado que o consumo moderado de álcool reduz o risco de doenças cerebrovasculares e demência, incluindo a Doença de Alzheimer. Essa pode ser uma das principais explicações para esse efeito benéfico do álcool no nível de independência física durante o processo de envelhecimento.
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Cerca de 13% das mulheres apresenta depressão no primeiro ano após o parto, e em países desenvolvidos como a Inglaterra, a depressão pós-parto é considerada a principal causa de mortalidade materna. Além disso, a depressão pós-parto pode ter sérias conseqüências para a família como um todo, especialmente as crianças, já que a doença pode reduzir a interação mãe-bebê, diminuindo assim as chances de um adequado desenvolvimento cognitivo e psicossocial.
O problema é pouco diagnosticado e tratado, freqüentemente por causa de dificuldade em reconhecer os sintomas, falta de informação das opções terapêuticas e ainda pelo receio das mães em passar a serem estigmatizadas. Além disso, apesar do tratamento com medicações antidepressivas ser eficaz, muitas mulheres são relutantes em usá-lo, especialmente pelo fato de estarem amamentando. A última edição do British Medical Journal traz duas importantes evidências de que a prevenção e a intervenção psicológica podem ser ferramentas fundamentais para reduzir o impacto da depressão pós-parto.
Um dos estudos demonstrou que a intervenção psicológica semanal domiciliar reduziu o risco de depressão pós-parto em 40% entre mulheres inglesas. Nesse caso, as mulheres recebiam a visita semanal de agentes de saúde treinados para identificar a depressão pós-parto através de escala objetiva e também eram treinados a oferecer dois tipos de intervenção psicológica: sessões baseadas em psicoterapia cognitivo-comportamental ou centradas na pessoa. Ambas as abordagens foram igualmente eficazes na redução do desenvolvimento de depressão pós-parto e com resultados bem superiores ao do grupo controle que recebeu as visitas habituais de profissionais de saúde.
O outro estudo, realizado no Canadá, mostrou que suporte psicológico por telefone oferecido a mulheres com alto risco de depressão pós-parto reduziu pela metade o risco em desenvolver a doença. Esse suporte telefônico era oferecido por mulheres que sofreram de depressão pós-parto e que receberam treinamento para tal abordagem. As mulheres foram muito receptivas à intervenção e se mostraram satisfeitas com a experiência e mais de 80% delas recomendariam esse tipo de suporte a uma amiga.
O apoio psicológico individualizado, mesmo que por um leigo, é capaz de oferecer a sensação de pertencer a uma rede social podendo melhorar a auto-estima e o estado mental como um todo. Esse tipo de apoio por telefone assim como comunidades virtuais de ajuda mútua pela internet são estratégias de prevenção e apoio terapêutico que rompem barreiras geográficas e de dificuldades socioeconômicas e acessibilidade, e deverão ser cada vez mais fortalecidas como genuínas ações de promoção à saúde.
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A teoria da evolução defende a tese que nós humanos chegamos até aqui com o cérebro que temos pelo menos em parte graças ao nosso padrão de alimentação. Há uma série de evidências paleontológicas que nos aponta que existe uma relação direta entre acesso ao alimento e tamanho do cérebro, e que mesmo pequenas diferenças nesse acesso podem influenciar a chance de sobrevivência e o sucesso reprodutivo. Entre os hominídeos, pesquisas mostram que o tamanho do cérebro está associado a diversos fatores que em última instância refletem o sucesso em se alimentar como é o caso da capacidade de preparar alimentos, estratégias para poupança de energia, postura bípede e habilidade em correr.
O consumo de ácidos graxos da família Ômega 3 é a mais estudada interação entre alimento e a evolução das espécies. O ácido docosahexanóico (DHA) pode ser considerado o ácido graxo mais importante para o cérebro, já que é o mais abundante nas membranas das células cerebrais e são considerados essenciais por não serem produzidos pelo organismo humano, que precisa obtê-los por meio de dieta. Acredita-se que o consumo de Ômega 3 teria sido fundamental para o processo de aumento na relação peso cérebro/ peso corpo, fenômeno conhecido como encefalização, ou seja, aumento progressivo do tamanho do cérebro em relação ao corpo ao longo do processo evolutivo. Estudos arqueológicos apóiam essa hipótese, já que esse processo de encefalização não ocorreu enquanto os hominídeos não se adaptaram ao consumo de peixe.
A crescente oferta de alimentos ricos em gorduras saturadas e gorduras trans, que por sinal não são nada saudáveis, vem acompanhada de uma redução no consumo de Ômega 3 no mundo ocidental contemporâneo. Pesquisas apontam que a deficiência de Ômega 3 está associada a uma série de transtornos neuropsiquiátricos, como é o caso da depressão e transtorno bipolar, esquizofrenia, transtorno de déficit de atenção e dislexia. Ao contrário, já foi demonstrado que dietas ricas em Ômega 3, ou até mesmo na forma de suplementos alimentares, são capazes de melhorar o aprendizado e memória de crianças, e ainda reduzem o risco de desenvolver depressão e demência. Além disso, há estudos que demonstram que o consumo de gorduras saturadas e trans está associado a um pior desempenho cognitivo. Atualmente, a Associação Americana de Psiquiatria reconhece a importância do Ômega 3 no tratamento de transtornos de humor da mesma forma que a American Heart Association recomenda o consumo de peixes ricos em Ômega 3 (salmão, sardinha e atum) pelo menos duas vezes por semana para prevenção de doenças cardiovasculares.
Nos últimos anos podemos observar uma série de evidências de que outros tipos de alimentos podem fazer diferença no funcionamento do nosso cérebro. Várias desses benefícios ao cérebro foram demonstrados apenas em animais, como é o caso da curcumina encontrada no tempero curry e o famoso Ginkgo biloba. Os alimentos cafeinados, além de poderem aumentar o desempenho psicomotor, estado de vigília, atenção e humor, têm-se mostrado cada vez mais poderosos na prevenção de doenças neurodegenerativas e cardiovasculares. Outros nutrientes até já tiveram efeitos positivos demonstrados em estudos clínicos, especialmente os oligoelementos como as vitaminas e sais minerais na prevenção do declínio cognitivo ao longo do envelhecimento cerebral. Entretanto, tais estudos ainda não são conclusivos ao ponto de se poder recomendar a suplementação de pílulas de vitaminas para o cérebro. O grande negócio ainda é uma dieta equilibrada que contemple todas as famílias de nutrientes que precisamos.
E para ficar com o cérebro “sarado”, manter o peso em dia é uma ótima receita, já que a obesidade está associada a um pior desempenho cognitivo. A razão? Uma série de hormônios associados ao sistema digestivo e ao nosso metabolismo (ex: insulina, leptina, grelina) influenciam também a função cerebral.
Se quisermos juntar tudo que sabemos hoje sobre o que os alimentos têm a oferecer ao nosso cérebro num pacote só, adotar a Dieta Mediterrânea pode ser uma atitude bastante acertada, já que une as virtudes do Ômega 3 dos peixes, o poder antioxidante do azeite, do vinho tinto, das frutas, verduras e cereais integrais, e o baixo consumo de gordura saturada pela pequena ingesta de carnes e laticínios. Seria ainda muito vem vindo nesse pacote o chá verde, o café e o chocolate amargo.
Uma recente metanálise analisou os efeitos da Dieta Mediterrânea e demonstrou:
– redução da mortalidade geral em 9%
– redução da mortalidade por doenças cardiovasculares em 9%
– redução da mortalidade por câncer em 6%
– redução da incidência de Doença de Parkinson em 13%
– redução da incidência de Doença de Alzheimer em 13%
Que tal?
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Durante a última década a internet passou a ser um meio de comunicação de massa cada vez mais importante, abraçando todas as áreas do conhecimento com duas principais vertentes: fonte de informação e meio de comunicação entre pessoas e grupos. No caso da saúde, a internet é hoje uma das principais fontes de informação (“Dr. Google”), mas também é crescente o número de comunidades virtuais de ajuda mútua.
Devido ao fato de uma grande quantidade de informação na internet ter qualidade duvidosa, é natural a preocupação de que a informação acessada poder trazer mais prejuízos do que lucro à saúde de um indivíduo. Isso realmente pode ocorrer, e nem precisa da informação ser incorreta, pois muitas vezes o indivíduo não sabe o que fazer com a informação certa, podendo deixar de buscar ajuda de um profissional da saúde quando na verdade está precisando. Mesmo com essas ressalvas, a internet trouxe infinitamente mais benefícios do que riscos à sociedade quando o assunto é informação em saúde.
E as comunidades virtuais de ajuda mútua? Elas deveriam ser vistas com cautela? As pessoas se associam a essas comunidades porque estão sofrendo com uma doença ou estão preocupadas com a saúde de forma mais ampla e podem encontrar suporte emocional ao dividir com outros suas experiências e seus medos. Isso por si só já tem efeito terapêutico. Estudos têm demonstrado que as comunidades virtuais oferecem significativo suporte emocional aos seus participantes, e a auto-percepção desse suporte é diretamente proporcional ao tempo investido na leitura das contribuições. Além disso, o receio de que tais comunidades possam afastar as pessoas doentes dos profissionais de saúde parece não proceder. Pesquisas recentes com comunidades virtuais de transtornos de alimentação e de tendência ao suicídio revelam que a participação nessas comunidades aumentou a motivação para a busca de tratamento especializado em até 27% dos casos. Não é pouco, pois se apenas uma pequena parcela dessa porcentagem procurar tratamento especializado, o efeito já é formidável.
Alguns profissionais de saúde temem em indicar que seus pacientes participem de comunidades virtuais de ajuda mútua, e não há justificativa para isso. Ao contrário, hoje as comunidades devem ser vistas muito mais como uma valiosa ferramenta para o processo terapêutico do que uma atividade de risco. Tais comunidades podem passar a fazer parte no futuro da lista de recomendações que um terapeuta fará a um paciente, lado a lado com a prescrição médica, mudanças de hábitos de vida, etc. E é claro que os próprios profissionais de saúde podem se beneficiar sobremaneira de comunidades em que possam dividir as próprias dificuldades que enfrentam no dia-a-dia para o pleno exercício de suas profissões.
** Para uma idéia bastante interessante sobre a riqueza dessas comunidades, recomendo uma visita ao Blog Eu vou parar de fumar (www.euvouparardefumar.com).
Se você ainda acredita que a prática regular de exercício físico foi feita só para manter o peso sob controle e reduzir o risco de infarto do coração, vale a pena rever esses conceitos. Claro que a atividade física realmente tem essas virtudes, mas o conhecimento científico atual nos permite dizer que suas vantagens vão muito além, incluindo a redução do risco de inúmeras outras doenças graves como o câncer e uma significativa melhora do nosso desempenho cerebral. Hoje em dia, é difícil discordar que nosso cérebro funciona bem melhor num corpo que se exercita.
Clique aqui e leia o artigo na íntegra.
O radônio é um gás radioativo natural originado do urânio e que pode se acumular nos ambientes fechados e é responsável por 3.3% dos casos de câncer de pulmão na Inglaterra, de acordo com estudo publicado esta semana no British Medical Journal. Esse risco é bem maior no caso dos fumantes, já que o radônio potencializa o risco de câncer de pulmão nessa população.
O radônio quando inalado pode se depositar nos brônquios expondo as células à radiação e já temos evidências que essa exposição danifica as células. Para a maioria das pessoas o nível de exposição ao radônio está associado à concentração do gás no próprio lar. Como o radônio é expelido naturalmente pela superfície da terra, uma das medidas para se reduzir sua concentração em ambientes fechados é um tipo de impermeabilização entre o solo e a construção. Países como a Suécia já têm políticas específicas pra o controle de exposição ao radônio. O atual estudo pôde demonstrar que a impermeabilização de qualquer nova construção, além de ser eficaz na redução do risco de câncer de pulmão, tem ótima relação custo-benefício. Por outro lado, políticas para identificação e remediação de lares já existentes com altas concentrações de radônio não se mostraram eficazes e nem têm boa relação custo-benefício.
Sabe aquelas pessoas que não conseguem ficar sem desafios? Existem pessoas que tem uma personalidade classificada pela ciência como Busca por Novidade e que sabidamente têm mais riscos de abuso de drogas e outros tipos de comportamento de risco. O que essas pessoas têm de diferente? Um parafuso a menos?
Uma pesquisa divulgada esta semana pelo Journal of Neuroscience demonstrou que indivíduos com personalidade Busca por Novidade apresentam uma menor concentração de um tipo de receptor da dopamina. A dopamina é o principal componente do nosso sistema cerebral de recompensa que é ativado toda vez que fazemos algo que dá prazer e sinaliza ao cérebro que vale a pena repetir a experiência já que é prazerosa. Existe um receptor chamado de Autoreceptor que é capaz de limitar o nível de liberação de dopamina no cérebro e o que a pesquisa mostrou foi que as pessoas com personalidade Busca por Novidade apresentam uma menor concentração desses Autoreceptores. Uma forma de entender esses resultados é que nesses indivíduos, toda vez que o sistema é ativado, mais dopamina seria liberada e a experiência com a novidade amplificada. Novos desafios “dariam mais barato” a essas pessoas pois elas estão transbordando de dopamina.
Já temos boas evidências de que o consumo moderado de álcool assim como o de chá está associado a um menor risco de declínio cognitivo em idades mais avançadas. No caso do chocolate amargo, as pesquisas sobre seu efeito sobre o cérebro ainda estão engatinhando, mas já foi demonstrado que ele pode aumentar o fluxo sanguíneo cerebral. O que esses três alimentos têm em comum? Todos são ricos em flavonóides, micronurientes encontrados nos vegetais e que são poderosos antioxidantes.
Uma nova pesquisa publicada recentemente no Journal of Nutrition investigou o efeito desses três alimentos sobre o desempenho cerebral. Mais de 2 mil noruegueses com idade entre 70 e 74 anos foram submetidos a testes cognitivos e a um questionário sobre hábitos alimentares incluindo o consumo dos três alimentos pesquisados. E o resultado foi que indivíduos que consumiam vinho, chocolate ou chá apresentavam melhores scores nos testes cognitivos. Essa associação foi independente para cada um dos alimentos, mais expressiva no caso do vinho, e mais expressiva ainda em indivíduos que consumiam regularmente os três alimentos. No caso do vinho, melhor desempenho cerebral esteve associado a doses de 75-100 ml/dia. No caso do chocolate a dose ótima foi de 10g/dia enquanto no caso do chá essa relação de dose e efeito não pôde ser demonstrada.
Boa receita para o cérebro, né? Um cálice de vinho tinto à refeição, um pedacinho de chocolate amargo na sobremesa e um chá verde antes de sair da mesa. Pra melhorar, só se tiver um peixinho rico em Omega 3 como prato principal.
CLIQUE AQUI e ouça um bate-papo na Rádio Gaúcha sobre o assunto com o DR. Ricardo Teixeira
Tem gente que só fuma na rua, mas chega em casa impregnado do cheiro de cigarro na pele, na roupa e no cabelo. Pode pegar o filho no colo que onde não se vê fumaça não tem risco. Certo? Não. Errado. Há fortes evidências de que esse contato com a fumaça extinta também é tóxico.
Pesquisas mostram que após a fumaça ser extinta, permanece no ambiente um significativo nível de toxinas nas superfícies do ambiente, na própria poeira, e até toxinas voláteis que ficam no ar mesmo. A fumaça do cigarro contém cerca de 250 gases tóxicos, entre eles: hidrogênio cianide (usado em armas químicas), monóxido de cabono (também no escapamento do carro), butano (fluido para isqueiro), amônia (também usado em produtos de limpeza), tolueno (também no thinner), arsênico (também nos pesticidas), chumbo (também nas tintas de parede), cromo (usado na fabricação do aço), cádmio (também nas baterias e carro), polônio-210 (radioativo). Onze dos 250 gases tóxicos do cigarro são classificados como compostos carcinogênicos do grupo 1, ou seja, os mais carcinogênicos.
Os programas anti-tabagismo costumam enfatizar os efeitos deletérios do fumo passivo ao que se chama de “fumo de segunda mão”, que é a fumaça visível sendo inalada pelo não fumante. Uma pesquisa divulgada esta semana pelo jornal Pediatrics revela um baixo nível de consciência por parte da população americana de que fumaça extinta também é deletéria à saúde, também chamada pelos pesquisadores como “fumo de terceira mão”. Nesse caso as crianças são as mais susceptíveis já que ficam mais tempo em casa, mexem e colocam mais a boca nas superfícies, e já foi demonstrado que a inalação de poeira por crianças é duas vezes maior que no adulto. Além disso, a pesquisa conseguiu demonstrar que o nível de consciência do risco do “fumo de terceira mão” é maior em lares em que o fumo é proibido. E a grande importância desses resultados é que campanhas que divulguem os riscos do “fumo de terceira mão” podem aumentar a chance de aumentar o número de lares em que cigarro é proibido.
Começamos o ano inspirados pelo primeiro volume de 2009 do New England Journal of Medicine que nos traz uma rediscussão preciosa sobre a responsabilidade do jornalismo em saúde com foco especial na seguinte questão: o jornalismo em saúde deve apenas contar a novidade ou deve também oferecer à sociedade a noção do todo, contando a novidade, mas contextualizando também o que ela acrescenta ou discorda do conjunto de evidências anteriores. Veja abaixo alguns exemplos de divulgação científica em saúde que poderia ter sido muito melhor.
Exemplo 1. No ano de 2006 foi publicada uma importante pesquisa que demonstrou que dieta com baixo teor de gordura não reduziu a incidência de câncer de mama entre mulheres (JAMA 2006). Na época da divulgação da pesquisa foram raríssimas as matérias que confrontaram os resultados com um importante estudo publicado no mesmo ano que evidenciou que a dieta com baixo teor de gordura reduz o risco de câncer de mama em mulheres que já apresentaram a doença (J Natl Cancer Inst 2006). O recado da vez para as mulheres passava então a ser: dieta com pouca gordura não reduz risco de câncer de mama. Esse é um fenômeno que contribui para certa desconfiança por parte da opinião pública quando se fala em ciência em saúde. Um comentário muito comum que ilustra essa questão é: “Ah Doutor! A gente fica sem saber no que acreditar. Num dia ouvimos que saiu uma pesquisa falando que café é ruim para o coração. Noutro dia ouvimos que faz bem. Fica difícil!”.
Exemplo 2. Recentemente foi demonstrado que após o insucesso inicial com o tratamento com um tipo de antidepressivo, uma nova tentativa com outro tipo de medicação e apoio psicoterápico fez com que metade dos pacientes passassem a responder bem ao tratamento (NEJM 2006). Do ponto de vista médico, os resultados da pesquisa foram positivos. A divulgação pelo Washington Post, por exemplo, foi a de que os resultados do estudo foram um fracasso: “Antidepressivos falharam em curar os sintomas de depressão maior em metade dos pacientes mesmo quando os pacientes receberam o melhor tratamento possível, de acordo com um definitivo estudo do governo divulgado ontem”. Essa forma de notícia provavelmente é mais lida do que se apenas fosse descrito que os resultados confirmam estudos anteriores de que uma parte dos pacientes melhorou e outra não.
Exemplo 3. Em 2008 uma pesquisa revelou que o uso da medicação sinvastatina foi tão eficiente para reduzir um marcador de aterosclerose nas artérias como a sua combinação com uma segunda droga mais moderna – o ezetimibe (NEJM 2008). Por outro lado, a associação com o ezetimibe promoveu redução significativa tanto dos níveis de colesterol como dos níveis de triglicerídeos assim como o de outro marcados de aterosclerose. E o que se viu na verdade foi uma série de matérias divulgando que o ezetimibe não é eficaz na prevenção de infarto do coração e derrame cerebral. O estudo simplesmente não teve como objetivo demonstrar esse tipo de efeito e nem mostrou qualquer resultado dessa natureza. O desserviço à população não foi pequeno, já que o que sai na mídia é lido e levado a sério também por médicos que podem passar a não acreditar mais em uma medicação por erro de divulgação científica.
Exemplo 4. Em novembro de 2008, a BBC Brasil divulgou uma matéria com o seguinte título: Maconha pode preservar memória na velhice, sugere estudo. A idéia é que futuras drogas poderão ser desenvolvidas para atuarem nos receptores canabinóides e que podem ser uma grande arma contra o envelhecimento cerebral e redução do risco de desenvolver a Doença de Alzheimer. A maconha exerce seu efeito no cérebro através desses receptores e a notícia não deveria ser que a maconha pode ser útil para o cérebro. Úteis sim podem vir a ser drogas sintéticas que não produzam os danos cerebrais causados pela maconha que já são bem descritos, inclusive pela própria BBC. Quem lê uma manchete dessa pode se confundir, especialmente quando está associada à foto de um homem fumando um “baseado”.
Podemos elencar alguns dos muitos gargalos para o pleno desenvolvimento do jornalismo em saúde que podemos assistir hoje:
1- O próprio ritmo de produção 24 horas/7 dias do atual jornalismo, que na maioria das vezes só recebe o press release da instituição ou do periódico em que a pesquisa está sendo publicada, e já o repassa sem mudar nem mesmo uma vírgula. Não há tempo para se trabalhar a matéria ou ir atrás de uma outra opinião.
2- Cada vez menos veículos de comunicação têm departamentos especializados, como, por exemplo, o de jornalismo científico ou jornalismo em saúde. Existem poucos jornalistas científicos especializados e a classe reconhece que é pouco treinada para divulgar dados científicos sem risco de perder a credibilidade da informação (ver também o post: Jornalismo e Alfabetização em Saúde).
Ao mesmo tempo, estudos mostram um crescente domínio de matérias oriundas de relações públicas nas agências de notícias, chegando a dominar mais de 2/3 do total de notícias. Cresce também o conflito de interesse por parte de jornalistas e dos meios de comunicação em massa que às vezes exercem o papel de relações públicas de alguns “clientes” e não o de jornalismo, o que alguns acadêmicos da comunicação chamam de relações públicas maquiadas de jornalismo ou “parajornalismo”.
3- A contextualização da pesquisa em questão com resultados já alcançados anteriormente pode ser evitada pelo jornalista para que a notícia não perca sua força de pesquisa inédita.
Apesar da maior parte do trabalho para a melhoria do jornalismo em saúde depender dos próprios jornalistas e do sistema em que o jornalismo atualmente opera, profissionais da saúde e pesquisadores podem ajudar muito também. Ao discutirem sobre uma nova pesquisa, especialistas e pesquisadores podem ajudar muito se facilitarem o entendimento, por parte dos jornalistas, do contexto mais amplo onde a pesquisa se situa – estudos anteriores que confirmam ou contradizem os resultados atuais e potenciais conflitos de interesse.
















