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Saímos hoje um pouco do formato de post a que estamos acostumados para discutir algo que tem sim a ver com a Consciência do Dia-a-Dia: o risco de atropelamento numa praia cearense.
Quando digo praia, é na areia mesmo. Passei sete dias agora com a família no Beach Park (Porto das Dunas – Fortaleza) onde minha filha de 4 anos quase foi atropelada duas vezes entre seu baldinho na areia e o mar, deixando o pai com o coração disparado por bons minutos. A cena é constante e daria uma matéria de TV bem relevante.
Os buggys até que são poucos, mas o vai e vem na areia é principalmente por parte dos 4X4 e dos quadriciclos. Os 4X4 passam freqüentemente a 50-60 km/h e a 3-4 metros das cadeiras e sombrinhas. Muitos estacionam entre as cadeiras de praia e o mar tampando a vista de quem está ali sentado. Aí a turma desce do carrão para curtir aquele determinado pedaço de praia. Alguns são mais sofisticados: a turma desce e quem cuida de montar as cadeiras e o guarda sol é o motorista – e o carro continua roubando um pedaço da areia e da vista do mar. Os quadriciclos são mais intrigantes ainda, pois chegam a bater pega entre eles, e a maioria dos pilotos é de crianças e adolescentes menores de idade.
Além da sensação de insegurança, ainda tem o problema da feiúra, pois os condomínios, hotéis e resorts** fazem barricadas improvisadas para tentar inibir o fluxo de veículos e proteger os hóspedes. Não é uma medida eficaz e a praia ainda fica parecendo uma barreira para entrar em território israelense.
** Aliás, alguém um dia me explica o que é resort, pois no que ficamos hospedados só se disponibilizava 6 guardas-sóis na praia para três edifícios com 121 apartamentos cada.
Que os cearenses não entendam esse post como crítica barata, mas uma lembrança para que cuidem melhor de suas praias e especialmente das vidas que ainda as freqüentam. Um cenário desse numa praia que tem como principal atrativo turismo para crianças (Aquapark), numa cidade em que o turismo é uma de suas galinhas dos ovos de ouro, parece que estão depenando essa galinha.
# Há cerca de dez anos, fiquei “chapado” ao levar uma buzinada de um buggy na praia de Jericoacoara -CE para sair da frente pois eu estava caminhando na sua rota habitual. Eu já estava pra lá das dunas. Esse foi bem civilizado. Pelo menos buzinou…
Os incontáveis efeitos benéficos do chocolate amargo sobre nossa saúde fazem-nos até pensar que para quem gosta do amargo, comer chocolate ao leite não faz muito sentido. Para uma revisão sobre o que o chocolate é capaz de oferecer à nossa saúde, clique aqui.
Um estudo divulgado neste dezembro pela Universidade de Copenhagen revela uma inédita vantagem do chocolate amargo. Pesquisadores revelaram que o consumo de chocolate amargo está associado a uma maior saciedade após sua ingesta quando comparado ao consumo do tipo ao leite, fazendo com que se tenha menos vontade de comer alimentos doces, salgados ou gordurosos, e de fato menor consumo subseqüente de calorias.
A pergunta que deverá ser respondida no futuro: Comer “X” calorias diárias de chocolate amargo tem maior chance de manter o peso sob controle do que as mesmas “X” calorias de chocolate ao leite ?
É muito comum as pessoas terem na ponta da língua uma recomendação de saúde do tipo “não misture manga com leite, pois você pode entortar a boca”. Muitas dessas dicas da cultura popular são à vezes duvidosas e sem comprovação científica. Não ter o status de “cientificamente comprovadas” não significa que são simplesmente mitos. Uma coisa é uma crença que já passou por inúmeras provas científicas e aí então passou a ser considerada como um engano cientificamente comprovado (ex: Ginkgo biloba para turbinar o cérebro). Outra coisa são crenças que ainda não foram submetidas a estudos científicos e por isso devem ser vistos como algo que ainda não foi cientificamente comprovado. Uma das histórias mais emblemáticas que vivi nesse sentido foi a crença por parte de pacientes com epilepsia de que na época da lua cheia as crises epilépticas são mais freqüentes. Eu dava um sorriso silencioso toda vez que ouvia de um paciente essa história, com a sensação de que a cultura popular cria coisas fantasiosas. Em 2006 caí do cavalo com um estudo publicado na revista Neurology demonstrando que crises epilépticas eram realmente mais freqüentes na lua cheia.
Nesta semana, pesquisadores da Universidade de Indianápolis nos EUA desconstruíram mais seis mitos, alguns fortemente associados às nossas festas de fim de ano, e publicaram a revisão na última edição do British Medical Journal.
* Suicídio é mais comum no feriado de fim de ano. É mito.
Justifica-se a idéia de que o suicídio pode ser mais comum nos feriados de fim de ano já que nessa data pessoas solitárias podem ter a solidão exacerbada, e no caso do hemisfério norte, também por coincidir com dias mais frios e noites mais longas do inverno. Entretanto, não há evidências científicas de que realmente exista um pico na incidência de suicídios nessa época do ano, mesmo em países do hemisfério norte. Os estudos existentes mostram que os suicídios na verdade ocorrem mais nos meses quentes do ano, e quanto à questão do “efeito solidão no natal”, as pesquisas mostram que as pessoas até mesmo procuram menos serviços psiquiátricos no natal, sugerindo que existe um maior componente de apoio emocional e social nessa época.
* Açúcar provoca comportamento de hiperatividade em crianças. É mito.
São pelo menos 12 estudos de primeira grandeza mostrando que o consumo de açúcar não tem a ver com o comportamento hiperativo.
* A flor conhecida aqui no Brasil como Bico de Papagaio é um dos maiores símbolos de natal em vários países, sendo muito usada na decoração natalina e por isso é até chamada de Estrela do Natal ou Flor do Natal. Ainda existe na cultura popular certo receio de que a ingestão acidental da flor pode ser perigosa, e como não é tão raro as crianças comerem aquilo que não foi feito para comer… Intoxicação pelo Bico de Papagaio também é mito.
Registros de quase 23 mil casos de ingestão acidental da flor nos EUA não evidenciaram nenhum caso que precisasse de cuidados especiais. Uma pesquisa tentando definir a dose potencialmente tóxica da flor em ratinhos não conseguiu demonstrar efeito tóxico mesmo após a ingestão equivalente a 500-600 folhas da planta.
* A perda de calor é maior pela cabeça, correspondendo a 40-45% da perda, e por isso é fundamental o uso de chapéus nos dias frios. É mito.
As pesquisas mostram que qualquer parte do corpo quando descoberta tem o potencial de perder calor proporcionalmente ao seu tamanho. A cabeça não tem nada de diferente das outras partes do corpo. O gorro do Papai Noel não é mais importante que o resto de sua roupa.
* Comer à noite engorda mais que comer de dia. É mito.
Várias pesquisas revelam que não é o fato de comer à noite que engorda, mas sim o total de calorias ingeridas por dia. Também é verdade que quem faz várias refeições no dia tem menos chance de exagerar em uma única refeição noturna.
* Existe remédio para evitar ressaca. É mito.
Não existe qualquer evidência que uma medicação ou suplemento alimentar possa ajudar a prevenir a ressaca. Pode-se dizer que o melhor remédio para evitar ressaca é beber pouco. Ao beber um pouco mais, evitar a desidratação com reposição de líquidos não alcoólicos pode fazer com que a ressaca seja menos penosa no outro dia.
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A obesidade há muito tempo não é mais vista como uma questão estética. É um dos grandes desafios de qualquer política de saúde pública já que está só um pouco atrás do tabagismo na lista das principais causas de morte precoce que podem ser prevenidas. Calcula-se que maus hábitos de vida como o tabagismo, sedentarismo e uma dieta prejudicial são responsáveis por cerca de 40% das mortes precoces em países como os Estados Unidos.
Um dos fatores que pode explicar a crescente prevalência da obesidade ao redor do mundo é um comportamento auto-destrutivo, privilegiando a gratificação imediata (prazer em comer) e pouco investimento naquilo que trará benefícios a longo prazo. A mesma opção pela gratificação imediata que pode trazer prejuízos às pessoas (ex: gratificação imediata) poderia ser usada para ajudá-las. Ou seja, o mesmo mecanismo cerebral que faz com que as pessoas sejam presas fáceis de uma gratificação imediata poderia ser usado também para o bem.
Uma pesquisa recentemente publicada pelo JAMA (Journal of the American Medical Association) ofereceu dois tipos diferentes de recompensa a um grupo de indivíduos obesos que só seriam recebidos se os participantes conseguissem perder o peso previamente estipulado. Aqueles que receberam a promessa de prêmio conseguiram perder mais peso no período de 4 meses do que o grupo controle que não recebeu o incentivo financeiro. Metade dos participantes que receberam a proposta de prêmio conseguiu alcançar a meta de peso definida, enquanto isso só aconteceu em 10% dos indivíduos do grupo controle.
Um próximo passo é avaliar se os resultados positivos são mantidos a longo prazo. Outra questão a ser investigada no futuro é o custo-benefício desse tipo de abordagem em comparação às atuais estratégias de combate à obesidade que não são nada baratos. Não é tão absurdo pensar que um dia chegaremos à conclusão de que oferecer prêmios à população para abandonar maus hábitos de saúde saia mais barato para um país do que arcar com suas conseqüências. Vale lembrar que hoje o programa Bolsa Família dá dinheiro a onze milhões de famílias que têm em contrapartida a responsabilidade de manter as crianças na escola, monitorização periódica de peso e altura, além de garantir a realização de pré-natal e vacinação.
Não precisa nem falar que o melhor remédio contra o câncer é a prevenção e sabemos que campanhas para sua detecção precoce têm como uma de suas maiores dificuldades a baixa participação da população. O British Medical Journal acaba de publicar a experiência de um grande programa de detecção precoce de câncer colo-retal na Noruega que revelou que a participação é maior quando a pessoa têm a consulta médica marcada no mês de dezembro ou dentro de duas semanas após seu aniversário e também quando o convite à consulta é realizado na semana anterior ao aniversário. Além disso, mulheres e indivíduos mais idosos tiveram maior participação na campanha.
Não se pode dizer com certeza a razão para a maior participação da população nessas datas, mas é possível hipotetizar que tanto a data de aniversário como as festas de fim de ano nos fazem lembrar que estamos envelhecendo e por isso podemos dar mais atenção à nossa saúde nessas épocas. Talvez esse comportamento não seja muito diferente entre brasileiros e escandinavos e a grande importância desse estudo é que campanhas de prevenção podem ser mais bem sucedidas se realizadas em determinadas datas.
Clique aqui se quiser ler a pesquisa na íntegra (em inglês)
Alguns estudos conduzidos na década de 90 nos Estados Unidos revelaram um aumento de mortalidade por doenças isquêmicas do coração nos meses mais frios. Além disso, observava-se também um pico de mortalidade durante o feriado de natal e ano novo, o que levantou a hipótese de que algum fator associado ao feriado poderia aumentar o risco de um infarto do coração (ex: estresse emocional, abuso de álcool). Em 2004 foi publicado pela American Heart Association uma pesquisa bem mais ampla confirmando os estudos anteriores, demonstrando que a mortalidade no feriado de fim de ano é cerca de 5% maior tanto para causas cardíacas como não cardíacas (excluindo-se mortes por causas violentas), e também foi independente do fator frio.
Como explicar esse Efeito Natal-Reveillon ? Algumas hipóteses:
1- Menos pessoas procuram os serviços médicos de emergência nos finais de semana e feriados, levantando a hipótese de que pode haver um adiamento pela procura de assistência médica, para não atrapalhar os dias de folga em que a visita a um pronto-socorro não está entre os programas mais desejáveis.
2- Excessos durante o feriado. É muito comum nos feriados de fim de ano as pessoas mudarem abruptamente suas rotinas de vida, incluindo aí o nível de atividade física, dieta e consumo de bebida alcoólica. Diferentes pesquisas já mostraram um ganho médio de 500 a 800 gramas após as festas de fim de ano, acompanhado de leve aumento nas taxas de colesterol, triglicerídeos e glicose. O estresse emocional pode ser relevante também. Algumas pessoas podem se desgastar emocionalmente com a corrida tumultuada às lojas e shoppings para dar conta dos presentes, e podem se estressar até mesmo pela necessidade de se reunir com parentes que evitariam a todo custo. Essas hipóteses de certa forma apóiam os resultados de outros recentes estudos que mostraram que tanto o derrame cerebral isquêmico como o infarto do miocárdio ocorrem mais freqüentemente nas segundas-feiras. A volta ao trabalho na segunda-feira pode ser um fator emocionalmente estressante para muitos, assim como o fim de semana pode estar associado a excessos.
3- Redução da qualidade dos serviços hospitalares no feriado por redução do número de profissionais da saúde escalados para plantão.
Até que novos estudos esclareçam quais fatores têm maior influência sobre o Efeito Natal-Reveillon, é prudente aconselhar as pessoas a assumirem algumas atitudes durante o feriado, especialmente aquelas que são consideradas como grupo de risco para eventos vasculares:
ð Ao sentir algo suspeito, não adie a procura por um serviço médico de emergência só por que é feriado. Melhor ainda se conseguir chamar seu médico para lhe ver.
ð Aproveite o melhor das ceias: a companhia das pessoas queridas e os preciosos alimentos como as frutas, nozes, castanhas e o vinho sem exagero. Evite fatores reconhecidos como potenciais desencadeantes de eventos vasculares. O excesso de sal, álcool e alimentos gordurosos, o estresse emocional, todos podem exigir dos vasos que alimentam seu cérebro e coração mais do que eles podem oferecer.
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Já conhecemos uma série de atitudes no dia-a-dia que reconhecidamente podem turbinar nosso cérebro: atividade física, sono e alimentação regulares, estar sempre aprendendo, equilíbrio psíquico, etc. Além disso, alguns estudos com as famosas pílulas usadas para turbinar o cérebro têm demonstrado que elas podem melhorar o desempenho intelectual até mesmo de indivíduos sem qualquer tipo de problema neurológico ou psiquiátrico. As medicações mais usadas para esse fim são as anfetaminas e o metilfenidato, indicadas no tratamento de indivíduos com o diagnóstico de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade.
O fato é que dispomos de pouquíssimas evidências científicas de que essas pílulas trazem reais benefícios cognitivos a indivíduos sem transtornos neurológicos ou psiquiátricos, e há até resultados mostrando que algumas pessoas podem piorar o desempenho. É como se nosso cérebro fosse uma orquestra bem afinada e introduzíssemos um violino a mais. Pode melhorar, pode não fazer diferença no resultado, ou pode até desafinar. E apesar desse conhecimento ainda estar engatinhando, essas medicações têm-se tornado cada vez mais populares entre adultos e adolescentes, na maior parte das vezes sem qualquer orientação médica.
Pesquisadores americanos e ingleses de primeira grandeza reuniram-se recentemente na Universidade Rockfeller e publicaram o resultado desse encontro na revista Nature no último dia 7 de dezembro. O documento tem o objetivo de conclamar todas as partes envolvidas para que se aprofunde a discussão, a regulação e as pesquisas “Pelo uso responsável dessas drogas por pessoas saudáveis”. Elenco aqui os principais pontos de discussão do documento.
– Existe atualmente um forte mercado negro dessas medicações voltado para indivíduos saudáveis, com transações de compra e venda que podem ser punidas até mesmo com prisão em países como os Estados Unidos.
– O uso de medicações dessa natureza para melhorar o desempenho cerebral poderia ser visto como “trapaça” ao pensarmos que outras pessoas podem não estar usufruindo dos mesmos benefícios. Os autores defendem a idéia de que trapaça é quando se rompe uma regra, como é o caso do doping no esporte. Não dispomos ainda de regras que regulem se as pessoas podem ou não fazer uso dessas medicações (ou boas doses de café) para a realização de um concurso público, por exemplo. Outra situação: uma pessoa tem o hábito de investir no seu equilíbrio psíquico, como por exemplo através da meditação e atividade física regular, e outra pessoa não o faz. Esse equilíbrio psíquico tem grandes chances de aumentar o desempenho cognitivo, mas culturamente isso não costuma ser visto como trapaça, já que a pessoa “investiu seus esforços” para alcançar sua vantagem. Por que a vantagem alcançada por pílulas deveria ser vista de outra forma? E será que essas drogas realmente oferecem vantagens no aprendizado ou só melhoram o desempenho a curto prazo em dias de maiores desafios? Será justo para aqueles que não usam as drogas concorrer com outros cérebros “turbinados”? Seria a mesma coisa se parte dos concorrentes num teste de matemática estivessem usando calculadora e outra parte não?
– O consumo dessas medicações poderia ser visto como uma forma de artificializar a vida. Os autores provocam uma reanálise daquilo que é genuinamente natural na vida do homem contemporâneo: meios de transporte, alimentação, cirurgia plástica, reprodução assistida, etc.
– Medicações dessa natureza poderiam provocar dependência e efeitos colaterais. Não se dispõe desse conhecimento quando se fala em consumo por indivíduos saudáveis. Por outro lado, até a cafeína é passível de desenvolver dependência e efeitos colaterais, apesar do seu risco de fazer mal à saúde ser infinitamente menor do que de outras drogas. Com base na atual experiência, talvez os riscos de dependência / efeitos colaterais das medicações estimulantes não sejam muito diferentes do que os da cafeína e por isso não há razões para tanto receio. É preciso avançar nas pesquisas sobre o assunto.
– Em crianças, as questões éticas são muito mais complexas. A primeira questão é em relação à segurança dessas medicações em indivíduos que ainda têm o cérebro em franco desenvolvimento. Além disso, a criança não tem o poder de fazer suas próprias escolhas. Entre os adultos, há de se considerar no futuro questões éticas ligadas à obrigatoriedade em se usar tais medicações em algumas situações ocupacionais. Nos EUA, o modafinil é hoie uma droga aprovada pelo FDA para trabalhadores em turno invertido. Será que o empregador poderá um dia obrigar o trabalhador a usar a medicação para evitar acidentes ou para melhorar o desempenho?
– Como qualquer tecnologia, drogas para turbinar o cérebro poderão um dia ser bem usadas ou mal usadas. Há muito trabalho pela frente para se avaliar seus custos e benefícios, para se educar a população sobre o assunto e para ajustar a legislação vigente caso se consiga demonstrar que elas são realmente seguras e eficazes para as pessoas que querem turbinar seus cérebros.
** Em entrevista concedida à Scientific American e publicada na última edição da revista Mente & Cérebro, o Prêmio Nobel Eric Kandel, o neurocientista mais renomado do planeta e certamente um dos pesquisadores que mais contribuíram para o nosso atual entendimento da memória, declara: “Ainda não temos evidências de segurança e nem mesmo de eficácia do uso de medicações para melhorar o cérebro de pessoas saudáveis. Eu não aconselharia meus netos, pelo menos por enquanto, a usar essas medicações”.
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Ler também: Pílulas para turbinar o cérebro. Onde estamos e onde podemos chegar?
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O câncer e as doenças cardiovasculares representam as principais causas de morte em países desenvolvidos, e no Brasil isso não é diferente. O tamanho do problema deve aumentar ainda mais devido ao aumento da expectativa de vida, lembrando também que a idade pode ser considerada um dos maiores fatores de risco para o desenvolvimento dessas doenças. Alguns estudos sugerem que após os 80 anos de idade esse risco passa a ser menor, mas esse é uma discussão que ainda não está esgotada.
Um grande estudo publicado esta semana pelo British Medical Journal nos traz novas informações sobre o risco de câncer e doenças cardiovasculares que os homens têm ao longo da vida e os resultados mostram que mesmo após os 80 anos o risco continua aumentando. Mais de 22 mil médicos americanos com idades entre 40 e 84 anos foram acompanhados por 23 anos em média (Physician´s Health Study). O risco de um homem apresentar doença cardiovascular continua aumentando até os 100 anos de idade enquanto o risco de câncer passa a diminuir após a faixa de idade 80-89 anos. A redução da incidência de câncer após essa faixa etária esteve associada aos tipos de câncer em que exames preventivos podem ser realizados, ou seja, foi possível detecta-los em idades mais precoces. Por outro lado, tipos de câncer em que exames preventivos não são realizados continuaram crescendo em incidência até os 100 anos de idade. O risco acumulado de um homem de 40 anos em desenvolver câncer ao longo da vida foi de 45%, e num homem de 90 anos já passa a ser de 9.6%.
Já no caso das doenças cardiovasculares, após os 80 anos de idade, a maior parte dos diagnósticos de novos casos era feita quando o indivíduos morria por causa da doença. O risco acumulado de um homem de 40 anos em desenvolver doenças cardiovasculares ao longo da vida foi de 35%, e num homem de 90 anos já passa a ser de 17%.
A população estudada teve uma expectativa de vida próxima aos 90 anos, bem acima das médias americanas ou brasileiras, e por isso os resultados não devem ser extrapolados para a população geral. Mesmo assim, o estudo nos oferece um importante entendimento do perfil de doenças no homem em idades mais avançadas. Talvez o recado mais importante da pesquisa seja que mesmo os idosos com mais de 80 anos ainda têm um grande contingente de doenças não diagnosticadas. Novos estudos deverão definir se programas de rastreamento de doenças nessa faixa etária mais avançada traz reais benefícios à saúde e qualidade de vida dessa população. Quanto aos mais jovens, o recado também está bem dado: exames preventivos após os 40 anos são mais do que fundamentais.
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O estado de felicidade está associado a diversos aspectos do bem estar, incluindo a saúde orgânica e mental, a relação familiar, relações e o próprio desempenho no trabalho, rede social, e há de se considerar também a dimensão espiritual. Uma série de estudos tem demonstrado que o estado de felicidade do indivíduo guarda relação com uma série de indicadores fisiológicos e de saúde: a) menor mortalidade; b) menores índices de marcadores hormonais, inflamatórios e do ritmo cardíaco associados ao estresse; c) maior rede e suporte sociais.
Um estudo publicado esta semana pelo British Medical Journal confirma que nosso estado de felicidade é mesmo um fenômeno de rede social, ou seja, depende do grau de felicidade das pessoas com as quais estamos conectados. A pesquisa foi desenvolvida com quase 5 mil pessoas do grupo Framingham e que foram acompanhadas por décadas. O grau de felicidade foi medido usando um componente do questionário CES-D já bem validado em estudos anteriores. Quatro perguntas eram aplicadas quanto à percepção de alguns sentimentos na última semana pelo indivíduo entrevistado: 1) Senti-me esperançoso quanto ao futuro; 2) Eu estava feliz; 3) Eu aproveitei a vida; 4) Eu senti que estava tão bem quanto as outras pessoas.
A análise da rede social dos indivíduos envolvidos no estudo revelou que há uma tendência de pessoas felizes estarem no centro de suas redes sociais e próximas de outras com alto grau de felicidade, criando aglomerados de pessoas felizes. Além disso, ao longo do tempo, as pessoas ficaram mais felizes quando passaram a ser cercadas por outras felizes. Um amigo feliz que mora por perto (menos de 2 km) aumentava a chance de uma pessoa ser feliz em 25%, irmãos felizes por perto em 14%, e vizinhos em 34%. Esse efeito contagioso da felicidade diminui com o tempo e também com a distância entre as pessoas, e não foi percebido entre colegas de trabalho. A felicidade de uma pessoa esteve associada à felicidade dos outros em até três graus de sua rede social (ex: “amigo do amigo do amigo”). Esse contágio do comportamento em três graus parece ser uma regra genérica, já que os mesmos pesquisadores recentemente o demonstraram também em outros padrões de comportamento como o tabagismo e a obesidade.
E qual seria a explicação para isso? Pesquisas já haviam demonstrado que existe um certo contágio emocional entre as pessoas. Pessoas que mantém contato com um indivíduo deprimido têm maior tendência a ficarem deprimidas. Emoções positivas também se disseminam entre as pessoas próximas. Emoções positivas, o sorriso, o estado de felicidade, todos podem ser vistos do ponto de vista evolutivo como um mecanismo que facilita as relações sociais ao promover sentimentos prazerosos nos outros, recompensar os esforços dos outros e encorajar a continuidade da relação social. E o sucesso da espécie humana depende de sua capacidade de fazer relações sociais.
O estudo é relevante do ponto de vista de saúde pública já que sugere que intervenções com potencial de aumentar a felicidade das pessoas (ex: melhoria do estado de saúde) podem provocar resultados positivos em cadeia. A Organização Mundial da Saúde tem reconhecido cada vez com maior ênfase a felicidade como um dos componentes da saúde. Se a felicidade é mesmo contagiosa como a pesquisa sugere, ela pode contribuir também para a transmissão social da saúde.
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O Narguile é um tipo de cachimbo em que a fumaça inalada passa por um recipiente de líquido. O fumo utilizado varia desde os lícitos até os ilícitos (ex: maconha) e o líquido desde a água até diversos tipos de bebidas alcoólicas.
Originário da Índia já no início do século XVIII, muito usado em países de cultura árabe, o Narguile foi muito popular no mundo ocidental nos anos 60 e 70, e recentemente podemos observar uma nova onda de consumo, até bares temáticos para fumá-lo. Um estudo publicado este ano no Journal of Adolescent Health evidenciou que 50% dos alunos do primeiro ano de uma universidade americana já haviam usado o Narguile, e 20% havia usado no último mês.
Existe uma crescente idéia entre os jovens de que o cigarro é “careta”, pois faz mal à saúde e de que a maconha e outros hábitos de fumo como o Narguile são menos prejudiciais. Esse estudo confirma essa falsa percepção, já que os usuários pesquisados relataram acreditar que o Narguile era menos prejudicial à saúde quando comparados ao grupo de não usuários. Mais importante ainda: apesar dos usuários de Narguile acharem que o cigarro ”careta” era mais deletério à saúde, eles consumiam mais desses cigarros. Esse é o pulo do gato e a grande preocupação do consumo de Narguile.
Calcula-se que o consumo de Narguile representa uma inalação de fumaça até 100 vezes maior que o do cigarro, e qualitativamente, os componentes tóxicos são muito semelhantes. O mais preocupante é que o tabaco inalado de forma esporádica possa ser encarado como algo seguro. Já sabemos que mesmo uma única exposição ao tabaco está associada a modificações no funcionamento químico cerebral e ao risco de dependência. Já é bem ultrapassado o conceito de que o ato de “só experimentar” seja uma prática segura.
As campanhas antitabagismo poderiam começar a alertar a população de que não é só o cigarro que é “careta” e prejudicial à saúde – os outros tipos de fumo também são.
Recentemente divulgamos os resultados de mais um estudo que demonstrou que o hábito de beber grandes quantidades de álcool de uma só vez, mesmo irregularmente, está associado a um maior risco de doenças cardiovasculares. Esse padrão de consumo de álcool é conhecido na língua inglesa como BINGE, e é definido como o consumo de 5 ou mais doses de álcool no período de 2 horas no caso dos homens, e 4 ou mais doses no caso das mulheres.
O excesso de álcool além de poder elevar a pressão arterial e alterar a coagulação sanguínea transitoriamente poderia também desencadear um processo inflamatório nas artérias, promovendo a aterosclerose. Essa última hipótese foi recentemente testada e confirmada por pesquisadores da Universidade de Rochester e publicada recentemente na revista Atherosclerosis. O contato prolongado de células vasculares humanas com o principal subproduto do álcool, o acetaldeído, promoveu uma série de efeitos que podem ser considerados como as etapas iniciais do processo inflamatório característico da aterosclerose. Os autores propõem que em doses menores de álcool, o organismo seria capaz de minimizar os potencias efeitos tóxicos do acetaldeído, mas em altas doses esse equilíbrio seria perdido.
As festas de fim de ano estão aí e não precisa ficar passando vontade. É só pegar leve.
O combate à obesidade é um dos maiores desafios do mundo contemporâneo, já que aumenta o risco de dois dos problemas de saúde mais sérios da humanidade: as doenças cardiovasculares e o câncer. Prevenir é a melhor estratégia. Entretanto, uma boa parcela dos indivíduos obesos precisa de tratamento.
A última edição da revista britânica The Lancet traz os resultados de uma nova droga para obesidade que deve dar muito que falar. A droga tesofensina, inicialmente desenvolvida para o tratamento da Doença de Parkinson e Alzheimer, promoveu uma perda ponderal média de 11.3 kg entre indivíduos obesos após 6 meses de tratamento. Os voluntários que serviram como grupo controle, e que foram submetidos apenas a dieta com restrição de calorias, perderam apenas 2.2 kg no período. A potência de ação da droga foi realmente bem superior quando comparada às demais drogas usadas para o tratamento da obesidade, duas vezes maior que a sibutramina e rimonabanto. Os principais efeitos colaterais registrados foram: náusea, boca seca, insônia, tontura e alterações gastrintestinais. Esse é um estudo que abre caminho para a realização de um estudo com maior número de pacientes para melhor avaliar o efeito terapêutico e os efeitos colaterais da tesofensina. Os dados até o momento sugerem que essa é uma droga bem promissora para o tratamento da obesidade.
Já ouviu falar na bactéria Helicobacter pylori? Provavelmente sim. É ela que causa grande parte dos casos de gastrite crônica e está associada ao desenvolvimento de úlcera e câncer do estômago. Estima-se que até 90% da população carrega a bactéria no corpo. Recentemente a bactéria foi identificada também na boca, especialmente quando em associação com a doença periodontal (ex: gengivite), considerada uma das principais causas de mau hálito. Vale lembrar que a boca hospeda cerca de 600 tipos diferentes de bactéria, e algumas delas podem estar associadas a doenças, e esse pode ser o caso da H. pylori.
Um novo estudo conduzido no Japão e publicado na última edição do Journal of Medical Microbiology confirmou a presença da bactéria na boca através de testes de DNA. Uma das principais hipóteses da pesquisa também foi confirmada: em indivíduos que sofriam de mau hálito a presença da bactéria foi mais freqüente do que naqueles sem mau hálito. Além disso, os indivíduos com H. pylori apresentaram maior freqüência de doença periodontal, maior freqüência de sangue na saliva e de outras bactérias associadas à doença. Quase 16% daqueles com doença periodontal tiveram teste positivo para H. pylori.
O estudo é importante para o melhor entendimento da doença periodontal, uma das principais causas de perda de dentes em todo o mundo. Mais do que isso, essa é uma linha de pesquisa muito importante que deverá elucidar o papel da boca na transmissão da infecção crônica do estômago pelo H. pylori.















